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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Análise: A Fuga


A Fuga, de Paulo Caetano e Jorge Mateus

A dupla nacional de autores formada por Paulo Caetano e Jorge Mateus, lançou recentemente este A Fuga, o seu segundo álbum de banda desenhada, depois de, há menos de dois anos, nos ter dado O Segredo dos Mártires, que já havia deixado boas indicações.

Tal como dessa vez, a dupla volta a mergulhar-nos na história de Portugal. Mas, desta feita, esse mergulho é menos profundo, já que estamos perante eventos verídicos ocorridos há menos tempo. Se O Segredo dos Mártires se passava em época dos descobrimentos portugueses, A Fuga passa-se durante o tempo do Estado Novo, na década de 1950. 

E, como bem sabemos, ou devíamos saber, este foi um dos períodos mais conturbados da História portuguesa, sendo uma época marcada por forte repressão infligida à custa da mão firme de uma ditadura de má memória.

A história acompanha António Tereso, motorista da Carris e militante clandestino do PCP, que se vê no centro de um episódio extraordinário, que combina culpa e resistência ao mesmo tempo. António Tereso é descoberto pela PIDE e acaba preso e torturado pela mesma. Durante uma sessão de tortura não consegue conter o seu silêncio, e vê-se forçado a denunciar alguns dos seus companheiros. A partir daí, o protagonista vive um autêntico conflito interior e exterior, já que terá que recuperar a honra perante a família, perante os companheiros, perante o Partido e perante si próprio.

Ora, numa tentativa de recuperar a sua dignidade, António Tereso monta um plano quase impossível: organizar uma fuga da prisão de Caxias. Para tal, vive uma vida dupla em que conquista, por um lado, a confiança dos guardas da prisão e tenta, por outro lado, arquitetar, em total segredo, a famigerada e desejada evasão da prisão.

Este elemento eleva a narrativa a um patamar quase cinematográfico, onde cada passo é cuidadosamente preparado e carregado de tensão. É precisamente aqui que a obra se aproxima de um verdadeiro “policial”, com ritmo, suspense e uma construção meticulosa dos acontecimentos.

Como se uma fuga da prisão não fosse já algo digno do cinema, a experiência torna-se ainda mais incrível quando a fuga é feita a abordo de um automóvel Chrysler Imperial que Hitler tinha oferecido a Salazar. Pois, na verdade a fuga aconteceu mesmo e foi a bordo de um carro. Apenas não há qualquer prova de que Hitler tenha efetivamente oferecido este carro a Salazar. É um mito. E não há mal nenhum nisso, pois até aumenta, diria, a força narrativa da obra. 

O que me leva a afirmar, justamente, que um dos grandes méritos deste A Fuga reside no equilíbrio entre ficção e História. A obra não se limita a usar o contexto histórico como pano de fundo; antes integra acontecimentos e figuras reais, criando um cocktail muito interessante que oscila entre o rigor documental e a emoção narrativa. Este cruzamento torna a leitura não só envolvente, mas também enriquecedora do ponto de vista cultural e histórico.

Comparativamente com O Segredo dos Mártires, trabalho anterior da dupla, esta obra consegue superar em boa medida o seu predecessor. Há aqui uma maior maturidade narrativa e uma confiança evidente na condução do enredo. A história é mais ambiciosa, mais dinâmica e, sobretudo, mais focada na ação e no impacto emocional.

Ainda assim, nem tudo é perfeito. Sensivelmente a meio da obra, o enredo sofre algumas quebras de ritmo. Existem pequenas vinhetas que parecem dispensáveis e que quebram a tensão acumulada até então. Para além disso, alguns saltos temporais surgem de forma algo abrupta, podendo causar alguma desorientação na leitura. A sensação que fica é que a história poderia ter beneficiado de uma gestão mais equilibrada do tempo, do espaço e da ação.

No entanto, estas fragilidades não comprometem de forma significativa a qualidade global da obra, que está bastante elevada. A força da narrativa principal compensa amplamente esses momentos menos conseguidos e o plano de fuga, em particular, é imaginado por Paulo Caetano com grande mestria.

O estilo de desenho de Jorge Mateus mantém-se em consonância com aquilo que o autor já nos tinha providenciado em O Segredo dos Mártires - portanto, quem já gostou dessa obra, continuará a gostar bastante desta - mas talvez aqui a dinâmica nos desenhos funcione ainda melhor por se tratar de uma história de ação. O desenho é bastante moderno e estilizado, simples nas formas utilizadas, mas complexo nos enquadramentos e dinâmica.

A maneira como as cores são aplicadas, de forma plana e minimalista, também ajuda a que o livro ganhe um aspeto muito interessante e original em termos gráficos, ao mesmo tempo que permite um uso inteligente da luz e sombra nos desenhos. 

Além disso, o contraste entre os momentos mais intimistas e as sequências de maior intensidade é trabalhado com grande sensibilidade visual. Há uma clara preocupação em alinhar o estilo gráfico com o tom narrativo, o que evidencia a forte colaboração entre argumento e ilustração.

A edição da Iguana é em capa mole baça, com detalhes a verniz e badanas. No interior, o livro apresenta bom papel baço, boa impressão e boa encadernação. Como material adicional, encontramos as fotografias de prisão das várias individualidades que protagonizam a história, bem como breves notas biográficas das mesmas. Há ainda cópias de documentos e as fotografias que a PIDE utilizou para reconstituir a fuga dos presidiários. Em termos de legendagem, o trabalho poderia estar mais bem feito, tenho que referir.

Em suma, A Fuga é uma obra muito bem conseguida, em que Paulo Caetano e Jorge Mateus superam a sua obra conjunta anterior, oferecendo-nos um relato envolvente sobre uma das mais célebres fugas de uma prisão portuguesa, por alturas do Estado Novo. É um livro com relevância histórica e que sabe, ao mesmo tempo, presentear-nos com uma história emocionante que custa a acreditar que aconteceu mesmo. Mas a verdade é que (quase) tudo o que aqui nos é contado... aconteceu realmente.


NOTA FINAL (1/10):
8.7


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
A Fuga
Autores: Paulo Caetano e Jorge Mateus
Editora: Iguana
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Abril de 2026

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Vai sair BD portuguesa ambientada no tempo do Estado Novo!



A Iguana prepara-se para editar, a partir do próximo dia 13 de Abril, a nova BD da dupla portuguesa formada por Paulo Caetano e Jorge Mateus!

Depois de O Segredo dos Mártires, dos mesmos autores, nos ter transportado até ao tempo dos Descobrimentos Portugueses, desta vez a sua nova obra leva-nos para um tempo menos dourado da História portuguesa: o dos anos 50, em que o Estado Novo estava bem instalado no poder e era apoiado pela PIDE.

É um livro que me está a despertar bastante a curiosidade e que já pode ser encontrado em pré-venda no site da editora.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

A Fuga, de Paulo Caetano e Jorge Mateus

Nos turbulentos finais dos anos 50, quando Portugal fervilhava entre a miséria, a coragem e a repressão, um homem simples torna-se protagonista de uma das fugas mais audaciosas da história do regime salazarista. António Tereso, motorista da Carris e militante clandestino do PCP, é preso pela PIDE e, quebrado pela tortura, carrega uma culpa que o consome: falou quando não devia. Agora, precisa de recuperar a honra - perante a família, os companheiros e o próprio Partido.

A FUGA revela o percurso íntimo e heróico de Tereso: a vergonha, o isolamento entre os «rachados», a humilhação e o plano impossível que aceita para se redimir - organizar uma evasão da fortíssima cadeia de Caxias. Durante dois anos vive uma dupla identidade, conquista a confiança dos guardas e prepara, em segredo absoluto, uma operação digna de cinema.

O resultado é uma fuga espetacular: um carro blindado oferecido por Hitler a Salazar, sete dos mais importantes dirigentes comunistas escondidos no seu interior e um homem determinado a recuperar a dignidade perdida - custe o que custar.

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Ficha técnica
A Fuga
Autores: Paulo Caetano e Jorge Mateus
Editora: Iguana
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 170 x 240 mm
PVP: 18,45€

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Análise: O Segredo dos Mártires

O Segredo dos Mártires, de Jorge Mateus e Paulo Caetano - Iguana - Penguin Random House

O Segredo dos Mártires, de Jorge Mateus e Paulo Caetano - Iguana - Penguin Random House
O Segredo dos Mártires, de Jorge Mateus e Paulo Caetano

Foi apenas há algumas semanas - e um pouco de forma algo inesperada, já que a editora nunca tinha avançado uma antevisão desta obra - que a Iguana, uma chancela da Penguin Random House, editou este O Segredo dos Mártires, uma obra que assinala o regresso de Jorge Mateus e de Paulo Caetano ao lançamento de banda desenhada. Ambos os autores já tinham colaborado, recorde-se, em Urso, que foi lançado em 2019 pela editora Bizâncio.

O Segredo dos Mártires é uma obra de grande fulgor, com mais de 150 páginas, que nos leva até à época dourada dos Descobrimentos portugueses, revelando-nos um episódio pouco conhecido desse tempo.

A história é baseada em factos reais, o que lhe atribui uma revestida importância por ter esse cunho didático e investigacional, que permite, além de entreter, informar os leitores. O que é bem-vindo, está claro.

O Segredo dos Mártires, de Jorge Mateus e Paulo Caetano - Iguana - Penguin Random House
A Nossa Senhora dos Mártires foi uma nau portuguesa que, em 1606, partia da Índia com destino a Portugal, trazendo na sua carga um tesouro muito valioso: pimenta-preta, essa especiaria que, por esse tempo, era coisa rara na Europa. Mas além dessa carga importante, havia um outro tesouro, trazido em segredo para a embarcação pelo vice-rei D. Aires de Saldanha. Na mesma Nossa Senhora dos Mártires também viajava o padre jesuíta Francisco Rodrigues, acompanhado pelo seu jovem protegido. 

E é esse mesmo padre jesuíta que, de forma algo diabólica, tudo fará para deitar mãos a esse segredo bem guardado pelo vice-rei. A juntar a tudo isto, o mesmo vice-rei também é amante da rainha de Portugal, o que aumenta a crítica subjacente à leitura da obra. 

A partir daqui, a história arranca para um enredo pleno de intrigas, mistério, conspiração, aventura, violência e muita ação. Uma viagem de barco que demorava oito meses no mar e onde havia diversas privações causadas não só pelas tempestades, mas também pela presença de piratas que procuravam deitar mão às cargas transportadas pelas embarcações portuguesas, era o acontecimento de uma vida e, portanto, mesmo nos dia de hoje, engodo suficiente para satisfazer os nossos desejos de aventura de um outro tempo. É, pois, uma obra bastante ambiciosa e que, de um modo geral, cumpre bastante bem os seus intentos. 

O Segredo dos Mártires, de Jorge Mateus e Paulo Caetano - Iguana - Penguin Random House
O argumento arranca muito bem, com a história a ser contada de trás para frente, remetendo para uma técnica muitas vezes utilizada no cinema. Logo ali, no início, ficamos a saber o que aconteceu à nau Nossa Senhora dos Mártires, mas fica a faltar que saibamos o "como" e é por isso que a narrativa se apega muito bem ao leitor - ou o leitor a esta - logo de início. 

A juntar a isto, ainda se juntam algumas personagens interessantes e memoráveis, com destaque para o padre jesuíta e para o vice-rei das Índias. Infelizmente, o argumento acaba por se perder um pouco a si mesmo do meio para o fim do livro, com algumas subnarrativas que são adicionadas à trama a não serem convenientemente exploradas e deixando no ar a ideia que talvez "menos pudesse ter sido mais".

Seja como for, apreciei bastante a obra, a frescura do tema e o desenvolvimento das personagens principais.

Quanto às ilustrações que nos são dadas por Jorge Mateus, devo dizer que fiquei bastante agradado na maior parte das vezes. Em alguns casos, até fiquei impressionado! O autor utiliza um traço caricatural e bastante estilizado que oferece uma aura muito própria, plena de identidade, ao conjunto visual. Para essa abordagem refrescante também contribuiu a utilização de cores fortes e bastante contrastadas que tornam moderno e artístico o estilo, o que acaba por beneficiar o impacto gerado no leitor. 

O Segredo dos Mártires, de Jorge Mateus e Paulo Caetano - Iguana - Penguin Random House
Quer nas cenas de batalha em que as ilustrações do autor se mostram dinâmicas, quer nas cenas em que o oceano se revolta contra a nau portuguesa, quer nos desenhos de maior dimensão, onde o autor brilha especialmente, estamos perante um belo trabalho. Também na caracterização fortemente caricatural do padre jesuíta, Jorge Mateus é especialmente bem sucedido. Posso dizer que adorei o desenho - exagerado nas expressões - desta personagem que se destaca, claramente, das demais.

Contudo, e apesar das boas indicações, este O Segredo dos Mártires fica alguns furos abaixo de ser perfeito. Em termos de planificação, é uma obra que, infelizmente, apresenta algum ruído visual. São vários os exemplos onde a sensação de claustrofobia perante tantas e tão pequenas vinhetas inseridas numa só prancha - ainda por cima tendo em conta que o formato do livro não é muito grande - retiram muita da fluidez que seria necessária para uma melhor fruição da leitura.

Além de que essa referida fluidez também sai prejudicada pela não utilização de margens entre vinhetas e pelo excesso de balonagem - muitas vez densamente povoada de texto - que tornam o conjunto algo denso e pesado. Fica a ideia que para que a obra pudesse ser mais marcante - e de boas ideias e de bom potencial está ela cheia, relembro - talvez o texto pudesse ser em menor quantidade, as vinhetas menos apertadas entre si e o formato do livro maior.

Em termos de edição, ficando, como já referido, essa ideia de que a obra teria beneficiado com um maior formato, há que dizer que a edição em capa mole com badanas, com bom papel brilhante e com boa impressão e encadernação, se revela bem feita. Nota ainda, positiva, para a ilustração de capa e grafismo da mesma, onde o livro também é bastante bem conseguido.

Em suma, é com bons olhos que vejo a Iguana a apostar em mais autores portugueses de banda desenhada, numa obra que mesmo podendo não ter aproveitado, na íntegra, o enorme potencial que tinha, se reveste de relevância e merece ser (re)conhecida por todos os amantes portugueses de BD.


NOTA FINAL (1/10):
8.4



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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O Segredo dos Mártires, de Jorge Mateus e Paulo Caetano - Iguana - Penguin Random House

Ficha técnica
O Segredo dos Mártires
Autores: Jorge Mateus e Paulo Caetano
Editora: Iguana (Penguin Random House)
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Setembro de 2024

terça-feira, 3 de setembro de 2024

Iguana lança nova BD portuguesa!



A editora Iguana acaba de lançar uma nova banda desenhada de autores nacionais que se estreiam nesta casa editorial!

A obra dá pelo nome de O Segredo dos Mártires e é da autoria de Jorge Mateus e Paulo Caetano, que já haviam colaborado, em 2019, em Urso.

Desta feita, esta dupla propõe-nos uma história que nos remete para o tempo da época dos Descobrimentos portugueses, revelando-nos um episódio pouco conhecido desse tempo.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da obra que deverá chegar às livrarias a partir do próximo dia 9 de Setembro.
O Segredo dos Mártires, de Jorge Mateus e Paulo Caetano

Esta novela gráfica é baseada em factos reais, mais precisamente num acontecimento que teve a Índia, Lisboa e o imenso oceano como palcos principais.

Em 1606, a Nossa Senhora dos Mártires, uma nau portuguesa, parte da Índia para Portugal, transportando nos seus porões um incalculável tesouro mais valioso do que ouro: pimenta-preta. O vice-rei das Índias, que é também amante da rainha, está a bordo, com um enorme e cobiçado segredo na bagagem. Um segredo que lhe custará a vida.

Durante oito meses no mar, o navio terá de enfrentar a força das tempestades e a perseguição por parte de corsários holandeses, obrigando todos a bordo a lutar pelas suas vidas.

Chegará a Nossa Senhora dos Mártires ao seu destino?

Uma novela gráfica que dá a conhecer um episódio real e desconhecido da época dos Descobrimentos.

Escrito e ilustrado por dois autores portugueses, O segredo dos Mártires conta o naufrágio da caravela Nossa Senhora dos Mártires ao largo de Lisboa, que deixou o Tejo negro por uma semana, por conta do carregamento de pimenta preta que o barco levava. Os restos dessa caravela encontram-se hoje no Museu da Marinha, em Belém.

Uma história bem documentada e empolgante, carregada de segredos, intrigas, piratas e batalhas.

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Ficha técnica
O Segredo dos Mártires
Autores: Jorge Mateus e Paulo Caetano
Editora: Iguana (Penguin Random House)
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 17 x 24 cm
PVP: 18,45€