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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Escorpião Azul reedita "Jardim dos Espectros"!



Já está disponível a nova edição da obra Jardim dos Espectros, de Fábio Veras, editada pela Escorpião Azul!

Esta é uma obra de belíssima qualidade, já aqui analisada por mim, e que se encontrava esgotada.

A nova edição apresenta uma nova ilustração de capa e uma dimensão ligeiramente superior.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Jardim dos Espectros, de Fábio Veras

Núvia é o jardim que acolhe centenas de almas que já pertenceram a este mundo.

Mas por alguma razão, este local, que fora o mais visitado da cidade, é agora tabu na boca da população. O que fora um jardim alegre e cheio de vida, é agora palco de acontecimentos invulgares. 

Hoje poucos ousam entrar. Mas um forasteiro, assim como é tratado, parece não temer os segredos tão bem escondidos por entre os ramos das árvores. 

Saberá mais do que aparenta?




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Ficha técnica
Jardim dos Espectros
Autor: Fábio Veras
Editora: Escorpião Azul
Páginas: 64, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 17 x 24 cm
PVP: 19,00€

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Escorpião Azul lança clássico da BD italiana!




Já está disponível há algumas semanas a nova aposta em banda desenhada da Escorpião Azul para 2026, que dá pelo nome de HP

E não, não são as iniciais do meu nome, mas antes o título de uma obra emblemática do fumetti, que conta com autoria de Guido Buzzelli e Alexis Kostandi.

Originalmente lançado em 1973, este HP tornou-se um clássico da ficção científica italiana que, agora, passados mais de 50 anos, é editado em Portugal!

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da mesma.
HP, de Guido Buzzelli e Alexis Kostandi

Desde tenra idade que Guido Buzzelli tinha uma enorme paixão pela ficção científica, quando se aventurou nas primeiras leituras das histórias do carismático Flash Gordon, o herói criado pelo mestre da bd norte-americano Alex Raymond. Essa luz permaneceu acesa e levou-o a imaginar mundos distantes ao longo de toda a sua vida.

“HP” foi originalmente realizado entre 1973 e 1974 com o argumento de Alexis Kostandi. A ação desenrola-se num mundo pós-atómico, onde grupos de sobreviventes rebeldes vivem da caça e do saque dos destroços da guerra.

No entanto, esta história foca-se num cavalo que se cruza com um grupo de pessoas que tentam sobreviver num acampamento mais ou menos próximo de uma cidade ultra-moderna dirigida por uma oligarquia composta essencialmente por militares e cientistas.

Esta cidade super avançada tem barreiras de proteção e os seus dirigentes combatem e controlam os rebeldes, ou seja, todos aqueles que pretenderam abandonar a cidade.

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Ficha técnica
HP
Autores: Guido Buzzelli e Alexis Kostandi
Editora: Escorpião Azul
Páginas: 112, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 17 x 24 cm
PVP: 24,90€

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

As novidades da Escorpião Azul para 2026!


Hoje trago-vos as novidades que a editora Escorpião Azul tem preparadas para este primeiro semestre de 2026!

Não são muitas, mas são interessantes as obras que a editora tem preparadas para os próximos meses. Temos o lançamento de um clássico que chegou a estar prometido ainda para o ano 2025, o relançamento de uma obra icónica da editora e a aposta num novo autor português.

A editora informa ainda que, além das obras que vos anuncio abaixo, poderá vir a editar outra obra - para já não revelada - durante o primeiro semestre do ano.

Ora vejam

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Análise: Butterfly Chronicles

Butterfly Chronicles, de João Mascarenhas - Escorpião Azul

Butterfly Chronicles, de João Mascarenhas - Escorpião Azul
Butterfly Chronicles, de João Mascarenhas

O livro de banda desenhada mais recente da editora Escorpião Azul dá pelo nome de Butterfly Chronicles e é da autoria de João Mascarenhas, um autor veterano da nossa praça. 

Esta começou por ser uma banda desenhada editada como webcomic, há mais de 10 anos, mas só agora foi lançada em álbum físico, com o autor a terminar a sua história que se mantinha inacabada.

Butterfly Chronicles parte de uma premissa simultaneamente científica e filosófica: será possível aceder à memória individual através do ADN? Depois de um primeiro capítulo mais filosófico, que procura ambientar o leitor ao tema, a narrativa abre verdadeiramente com a equipa de Investigação em Bio Robótica da Universidade de Kymera, em Tóquio, mergulhada num projeto destinado a ler a chamada “memória da espécie”, isto é, a informação comportamental inscrita nos genes de determinados animais. O objetivo inicial é pragmático: usar esses dados para aperfeiçoar o movimento de robots desportivos no competitivo e vibrante mundo do "Droidball", um jogo/desporto em que "robots" jogam entre si, com uma bola, para ver quem marca mais pontos. Não se trata de futebol praticado por robots, é algo diferente e mais complexo, de que falarei mais à frente.

Butterfly Chronicles, de João Mascarenhas - Escorpião Azul
O enredo ganha profundidade quando a equipa descobre que este estudo não só permite aceder à memória genética coletiva, mas também à memória específica de cada indivíduo. Ora, claro está, esta reviravolta científica abre as portas a implicações éticas, sociais e psicológicas de maior alcance, que vão desde a privacidade biológica até ao próprio conceito de identidade. 

É a bela e carismática jovem Hanako-san, estudante de primeiro ano de Bio Robótica, quem protagoniza a história e quem serve de guia ao leitor. O seu envolvimento com o laboratório, com o Professor Manabu-sensei e com os mistérios emergentes do projeto, faz dela o centro emocional da narrativa. Sim, porque este (também) é um livro bastante emocional e filosófico. Através do olhar de Hanako-san, testemunhamos a fusão entre o quotidiano universitário, a tecnologia de ponta, as questões éticas e as ameaças externas que surgem à medida que grupos criminosos se interessam pelo poder contido naquela nova forma de leitura genética.

A história de Butterfly Chronicles articula-se, assim, como uma aventura de ciência especulativa profundamente ancorada em bases científicas reais. A ficção não se descola do plausível; pelo contrário, serve-se das fronteiras ainda nebulosas da genética e da robótica para construir um cenário que poderia bem ser um vislumbre do futuro. É esta ponte entre rigor e imaginação que tornam o livro cativante e intelectualmente estimulante. Posso dizer-vos que, assim que mergulhei neste livro, não descansei até chegar ao fim do mesmo.

Butterfly Chronicles, de João Mascarenhas - Escorpião Azul
Talvez por isso, a obra destaca-se como uma das mais completas de João Mascarenhas. Consegue levantar uma diversidade surpreendente de temas - da ciência à cultura japonesa, do humor à criminalidade organizada, da música à banda desenhada - e enlaçá-los num enredo coeso e credível. Eu próprio, quando li a sinopse do livro, que fazia menção a todos estes subtemas, pensei: "Hmm.. não serão temas a mais?". Mas, se o são, João Mascarenhas tem aqui o mérito de os "embrulhar" bem na trama principal, havendo um equilíbrio interessante entre entretenimento e profundidade conceptual, de modo a que o nosso interesse se mantenha constante, mesmo quando a narrativa aborda tópicos complexos. É claro que talvez certas personagens pudessem ter sido um pouco mais desenvolvidas, mas, ainda assim, a narrativa revela-se bem-conseguida.

A ciência especulativa, pilar central do livro, funciona com especial eficácia porque se apoia firmemente no que sabemos hoje sobre genética e robótica. João Mascarenhas não inventa fantasias desprovidas de base; prefere ampliar, com rigor e imaginação moderada, possíveis linhas de evolução científica. Este método confere ao livro uma sensação de plausibilidade, conforme já por mim referido, que reforça a sua força distópica e o seu valor como reflexão sobre o futuro. Sou-vos franco: quando a ficção científica extrapola as narrativas para realidades que considero pouco plausíveis, costumo perder o interesse. Neste caso, o meu interesse manteve-se sempre presente.

Butterfly Chronicles, de João Mascarenhas - Escorpião Azul
Butterfly Chronicles
 oferece-nos uma leitura rica que convida à reflexão: sobre o que significa memória, sobre as fronteiras entre humano e máquina, sobre os riscos da mercantilização do património genético e sobre a responsabilidade da ciência. João Mascarenhas demonstra um domínio notável da capacidade de comunicar conceitos complexos de forma acessível, sem sacrificar a profundidade nem o rigor.

Outra coisa que apreciei foi a metáfora da borboleta que, aliás, percorre o texto com uma força poética inesperada. Há momentos em que a narrativa adquire um tom quase lírico, evocando reflexões sobre identidade, mudança e vulnerabilidade humana. É neste cruzamento entre ciência e poesia que o livro atinge o seu auge artístico, criando uma experiência de leitura que ultrapassa o habitual na banda desenhada científica.

Contudo, a obra não é isenta de fragilidades. Um dos pontos menos conseguidos reside na apresentação do Droidball. Embora a ideia do desporto seja fascinante, e visualmente muito apelativa, as regras, dinâmicas de jogo e identificação das equipas nem sempre são claras. Em cenas mais movimentadas, é fácil perder o fio ao que está a acontecer, o que pode quebrar o ritmo de leitura. João Mascarenhas bem se esforça para explicar o seu jogo e as suas regras, mas creio que, mesmo assim, o resultado nem sempre é devidamente atingido. Detectei ainda algumas pontas soltas em termos de ideias não suficientemente desenvolvidas ou na sequência narrativo-temporal entre vinhetas. Mas nada que seja muito dramático.

Butterfly Chronicles, de João Mascarenhas - Escorpião Azul
Quanto ao desenho, num traço a preto e branco enriquecido com tramas que conferem profundidade e textura às ilustrações, a obra revela um estilo que bebe do mangá, mas que mantém a identidade própria de João Mascarenhas. Os grandes planos realistas das personagens estão entre os momentos mais impressionantes do livro, transmitindo emoções subtis e densidade psicológica. Todavia, há uma certa rigidez nos movimentos de algumas personagens ao longo da história.

Além de que, apesar da qualidade geral das ilustrações ser elevada, o desenho nem sempre se revela totalmente homogéneo ao longo da obra, pois há páginas e vinhetas de grande impacto visual, com traço detalhado, expressivo e tecnicamente muito sólido, especialmente nos grandes planos e nas cenas mais introspectivas, mas coexistem também momentos gráficos menos conseguidos, onde o nível de detalhe, a proporção ou a fluidez do traço não atingem o mesmo patamar de excelência, criando uma ligeira oscilação qualitativa.

Butterfly Chronicles, de João Mascarenhas - Escorpião Azul
Importa, ainda assim, referir que os robots imaginados pelo autor são outro dos pontos altos da obra. Não tanto pelo desenho - embora este seja apelativo - mas pela capacidade do autor em investigar e em estudar algo que possa ser tão verossímil como possível. Ou seja, os robots não impressionam apenas pelo design, mas também pela forma como dialogam com o tema central da obra: a convergência entre biologia e tecnologia. 

A edição da Escorpião Azul apresenta-se em capa mole, com badanas, bom papel baço no interior e boa encadernação e impressão. As margens do livro voltam a estar pintadas a uma cor, neste caso em vermelho, o que dá um aspeto diferenciado e apelativo ao livro. Há ainda um prefácio da autoria do biólogo José Matos e, no fim, há um caderno de extras, que achei bastante valioso, em que o autor da obra nos oferece mais informações sobre o droidball, os robots que o jogam e as respetivas equipas na liga. Não esclareceu todas as dúvidas que me surgiram, mas foi um bom complemento.

No conjunto, Butterfly Chronicles afirma-se como possivelmente o trabalho mais marcante de João Mascarenhas desde O Menino Triste. Embora muito diferente em temática, estética e ambição, partilha com essa obra maior uma sensibilidade rara e uma capacidade de provocar reflexão profunda no leitor. Trata-se de uma narrativa intelectualmente desafiadora e uma das contribuições mais significativas do autor para a banda desenhada contemporânea de inspiração científica.


NOTA FINAL (1/10):
8.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Butterfly Chronicles, de João Mascarenhas - Escorpião Azul

Ficha técnica
Butterfly Chronicles
Autor: João Mascarenhas
Editora: Escorpião Azul
Páginas: 232, a preto e branco
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 17 x 24 cms

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Escorpião Azul edita "Butterfly Chronicles"!



A Escorpião Azul acaba de lançar o novo livro do autor João Mascarenhas, intitulado Butterfly Chronicles, uma banda desenhada de cunho científico que parte depois para aquilo a que podemos considerar especulação científica. 

É um assunto que particularmente me interessa bastante, e que é mais que bem-vindo à banda desenhada nacional, uma vez que há poucas ou nenhumas obras nacionais que abordem este tema. Pelo menos, desta forma.

Esta é uma obra que começou a ser publicada de forma digital e por capítulos, e que agora aparece reunida em formato físico, de forma integral, num só volume.

O livro terá apresentação com o autor, editor, José Matos (o antigo bastonário da Ordem dos Biólogos) e comigo já no próximo sábado no Amadora BD, dia 1 de Novembro, às 16h20.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais da obra.
Butterfly Chronicles, de João Mascarenhas

Será possível aceder à memória de um indivíduo através do seu ADN?

A equipa de Investigação em Bio Robótica da Universidade de Kymera, em Tóquio, desenvolve um sistema que permite aceder à informação comportamental “gravada” nos genes de uma espécie animal, a chamada “memória da espécie”, e que vai ser utilizada no auxílio à programação dos movimentos de robôs do desporto “Droidball”. 

Contudo, são surpreendidos com o facto de conseguirem aceder não apenas à memória da espécie, mas
também à memória do indivíduo ao qual pertence o material genético.

Hanako-san, uma estudante do primeiro ano do curso de Bio Robótica, que trabalha no desenvolvimento dos sistemas de leitura da informação contida no material genético, auxiliando o Professor Manabu-sensei e a sua equipa, é a protagonista principal da história.

Uma trama onde se cruzam estudantes, ciência, robôs, cultura japonesa, desporto, humor, música, Banda Desenhada e grupos criminosos, num resultado arrebatador e comovente.

A abordagem narrativa de Butterfly Chronicles promove um duplo envolvimento cognitivo, em que a dimensão estética aumenta a compreensão, facilita a divulgação de teorias complexas, as implicações éticas e sociais dos avanços científicos, e fomenta a reflexão crítica sobre vários temas junto de um público alargado. Através da lente da Banda Desenhada, a ciência e a tecnologia, mesmo especulativas, enquanto meios multifacetados, tornam-se mais inteligíveis e acessíveis.

Estando atento aos desenvolvimentos científicos em várias áreas do saber, o autor elaborou a trama de Butterfly Chronicles, onde parte de uma base científica para o que se poderá denominar de “Especulação Científica”. Nela são abordados temas científicos possíveis, mas introduzindo simultaneamente alguma “especulação” sobre os mesmos, lançando de igual modo um alerta ético sobre a forma de utilização dos avanços da Ciência.

Butterfly Chronicles combina ao longo das suas mais de 200 páginas, o rigor e especulação científica com arte sequencial, trazendo ao leitor vários aspectos que se encontram nas agendas de discussão das sociedades contemporâneas. O livro explora tópicos como a genética, a bio-robótica, a filosofia ou a ética, através de uma narrativa envolvente e personagens carismáticos, num universo universitário e social, num Japão situado entre o real e o fictício.
João Mascarenhas é doutorado em Engenharia de Materiais pela Universidade de Bradford (R.U.), Investigador Científico, e tem uma paixão de mais de quarenta anos pela Banda Desenhada e comunicação de Ciência através de formatos visuais. Irá utilizar nas sessões de autógrafos do livro, uma tinta que possui o seu ADN, extraído a partir de cabelos seus.

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Ficha técnica
Butterfly Chronicles
Autor: João Mascarenhas
Editora: Escorpião Azul
Páginas: 232, a preto e branco
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 17 x 24 cms
PVP: 28,50€

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Análise: Toxic West

Toxic West, de João Gil Soares - Escorpião Azul

Toxic West, de João Gil Soares - Escorpião Azul
Toxic West, de João Gil Soares

Uma das mais recentes novidades no catálogo da editora Escorpião Azul dá pelo nome de Toxic West e é da autoria do português João Gil Soares, de quem a editora já havia publicado o livro Forgoth: A Cidade Esquecida. E posso dizer-vos que são livros bastante diferentes entre si.

Toxic West assume-se como um western pós apocalíptico com uma premissa tão inusitada quanto cativante: depois da extinção da humanidade, os mutantes tentam sobreviver num mundo arrasado pela poluição e pelo legado destrutivo dos humanos. Nesse cenário árido, onde desertos cobertos de lixo funcionam como pano de fundo, já não temos pessoas, mas apenas animais. Acompanhamos Patti Graves, uma guaxinim fora-da-lei, e Sierra Bloom, uma ratazana psíquica, na sua jornada rumo à cidade de Zion. A narrativa propõe, desde o início, uma mistura de aventura, crítica ecológica e humor ácido, estabelecendo o tom para o universo bizarro e caótico em que a ação se desenrola.

Toxic West, de João Gil Soares - Escorpião Azul
Sendo que um dos aspetos mais interessantes da história é o modo como o autor recorre a estereótipos clássicos dos westerns - forasteiros, duelos, caçadores de recompensas, gangues e cidades sem lei, só para mencionar alguns - para depois os distorcer através da lente do (seu) pós-apocalipse. Este "guisado" de elementos resulta num mundo familiar e, ao mesmo tempo, estranho, onde há espaço para que também apareçam soldados robot que são parte do exército controlado pelo vilão, Warden, um tubarão. É neste antagonista especialmente divertido que João Gil Soares introduz um comentário satírico à lógica capitalista, colocando-o como arquétipo de um mafioso que quer expandir os seus negócios a todo o custo.

A dupla de protagonistas, Patti e Sierra, funciona como o fio condutor da narrativa, com a guaxinim a encarnar o espírito do fora-da-lei clássico e Sierra a servir-se dos seus poderes psíquicos. Esta complementaridade entre personagens, por vezes a fazer lembrar o road movie Thelma e Louise, oferece algum espaço para o humor, embora nem sempre isso seja convenientemente explorado pelo autor.

O uso de animais antropomórficos como personagens também se revela uma escolha que acentua esta vertente mais cómica da obra, aproximando-a do universo indie da banda desenhada mais alternativa, ao mesmo tempo que reforça o tom lúdico e satírico da narrativa. 

Toxic West, de João Gil Soares - Escorpião Azul
Visualmente, este é um livro com uma personalidade muito própria, que ganha força devido ao estilo de desenho adotado, baseado num traço simples e rápido, pouco detalhado e com uma aura “rough on the edges”, que lhe oferece um caráter mais independente. No meu caso, este tipo de desenho remeteu-me para os desenhos animados da era dourada da Nickelodeon em que séries como Ren & Stimpy, Rugrats, Hey Arnold ou CatDog  , só para mencionar algumas, faziam furor. Esse paralelismo é feliz, já que evoca uma nostalgia que pode agradar a leitores mais adultos que cresceram nesse período. 

No entanto, e apesar das boas ideias que a obra traz, o desenvolvimento narrativo deixa a desejar em alguns pontos. A sensação é de que o autor se perde, a meio caminho, na própria história. A progressão de eventos, em vez de seguir uma linha coerente, apresenta-se dispersa, deixando o leitor com a impressão de que partes do enredo se diluem num nonsense acidental. E, lá está, até poderia ser um nonsense procurado pelo autor, mas parece-me que não é o caso, pois, apesar dos elementos cómicos da história, há uma tentativa de progressão narrativa linear e clássica. E é nesse ponto que a obra mais peca, quanto a mim. Ou bem que era totalmente nonsense e audaz por isso, ou bem que a sua história era mais bem afinada. Acaba por ficar no meio dos dois caminhos sem conseguir ser especialmente bem sucedida em nenhuma dessas opções.

Toxic West, de João Gil Soares - Escorpião Azul
Outro aspeto problemático está na oscilação entre públicos-alvo. Há momentos em que o livro claramente se dirige a um público infantil, com humor simples, situações caricatas e um ritmo acessível. Contudo, noutras partes, como no pendor mais retro-indepedente visual da obra ou na sua crítica subjacente, parece querer dialogar com um público adulto. Esta indefinição acaba por fragilizar o impacto global da obra: se a intenção era criar uma narrativa madura disfarçada de fábula, o argumento necessitaria de maior solidez e coesão, quanto a mim.

Quanto à edição da Escorpião Azul, o livro apresenta capa mole baça, com detalhes a verniz, e com badanas. O papel é de boa qualidade e a impressão e a encadernação também são boas. No final, há um caderno de extras, com 8 páginas, com ilustrações adicionais. À semelhança do que a editora tem vindo a fazer em edições recentes, as margens das folhas do livro são coloridas a verde, o que dá um aspeto diferenciado e apelativo ao mesmo.

Em suma, Toxic West é uma obra algo irreverente, que chama especialmente a atenção pela originalidade e audácia da sua proposta de nos apresentar um western pós-apocalípico, com personagens antropomorfizadas, numa proposta gráfica bastante crua e, por outro lado, infantil. É uma leitura peculiar e bem-vinda, mas que deixa também a sensação de que, com um maior amadurecimento do argumento, o livro poderia ter alcançado um patamar mais sólido e marcante. É, ainda assim, uma obra que merece atenção, sobretudo de quem aprecia banda desenhada alternativa e universos que arriscam sair do comum.


NOTA FINAL (1/10):
6.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Toxic West, de João Gil Soares - Escorpião Azul

Ficha técnica
Toxic West
Autor: João Gil Soares
Editora: Escorpião Azul
Páginas: 136, a core
Encadernação: Capa mole
Formato: 17 x 24 cm
PVP: 29,00€

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Escorpião Azul nos últimos 5 anos!


Hoje é dia de vos dar a conhecer quais os 10 melhores livros de banda desenhada editados pela editora Escorpião Azul nos últimos 5 anos!

A Escorpião Azul é uma editora de pequena dimensão que tem sabido trilhar o seu próprio caminho, à sua própria maneira, apostando especialmente em obras de autores portugueses, embora dando espaço a outros autores estrangeiros num registo mais autoral.

Tenho notado um acréscimo de qualidade nos últimos anos, quer na qualidade das edições, quer na qualidade das apostas das editoras. 

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Faço aqui uma pequena nota sobre o procedimento: considerei séries como um todo e obras one-shot. Tudo junto. Pode ser um bocado injusto para as obras autocontidas, reconheço, e até ponderei fazer um TOP exclusivamente para séries e outro para livros one-shot, mas depois achei que isso seria escolher demasiadas obras. Deixaria de ser um TOP 10 para ser um TOP 20. Até me facilitaria o processo, honestamente, mas acabaria por retirar destaque a este meu trabalho que procura ser de curadoria. Acabou por ser um exercício mais difícil, pois tive que deixar de fora obras que também adoro, mas acho que quem beneficia são os meus leitores que, deste modo, ficam com a BD que considero ser a "crème de la crème" de cada editora.

Deixo-vos então as melhores 10 BDs lançadas pela Escorpião Azul entre o período de 2020 a 2025, período de existência do Vinheta 2020:

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Análise: O Esqueleto

O Esqueleto, de Roberta Cirne - Escorpião Azul

O Esqueleto, de Roberta Cirne - Escorpião Azul
O Esqueleto, de Roberta Cirne

Uma das mais recentes obras lançadas pela editora Escorpião Azul dá pelo nome de O Esqueleto e é uma banda desenhada de terror - mesmo que, primeiramente, até nem o pareça - da autora brasileira Roberta Cirne. Esta BD adapta aquele que foi o segundo romance de terror lançado no Brasil há mais de 150 anos (em 1872), da autoria de Joaquim Carneiro Vilela, um dos primeiros autores brasileiros a fazer aquilo que, hoje em dia, podemos considerar como terror gótico.

A trama deste O Esqueleto leva-nos a tomar contacto com a personagem de Felipe, um jovem estudante de Direito vindo do Ceará, que se muda para Olinda para estudar na Faculdade de Direito de Pernambuco. Ali, Felipe mergulha numa vida boémia e decadente, marcada por festas libertinas e muitos vícios. E o problema é que Felipe não está propriamente livre de relacionamentos amorosos, pois encontra-se noivo da sua prima Lívia, que muito desejou e que espera por si na sua cidade natal. Mas, como dizem, "a carne é fraca" e depressa a distância que separa Felipe da sua noiva Lívia o leva a afastar-se do caminho da retidão, mergulhando numa vida plena de libertinagem. Saberá Lívia das traições de Felipe? Terão que ler o livro.

O Esqueleto, de Roberta Cirne - Escorpião Azul
O que apreciei especialmente é que, numa primeira instância, a história apresenta-se bastante clássica na sua forma, relembrando um típico conto ao género de um autor clássico como Eça de Queiroz, por exemplo, mas é depois na forma como a história se desenrola que o conto assume uma postura mais de terror. Gostei, pois, desta forma de como os acontecimentos escalam de aquilo que parecia um romance ligeiro para uma história pesada de vingança e rancor.

Outra coisa apreciável é que a história tem o dom raro de agarrar o leitor desde os primeiros momentos, não apenas pela ambientação, mas pelo fascínio que gera a queda moral do protagonista. A narrativa de Felipe, marcada por uma devassidão crescente e por decisões cada vez mais impulsivas e egoístas, cria uma tensão constante: queremos saber como - ou se - a sua trajetória encontrará algum tipo de redenção. Em diversos momentos, Felipe até nos faz lembrar a figura de Dorian Gray, de Oscar Wilde, não apenas pelo seu hedonismo, mas pela maneira como o horror parece crescer como sombra das suas escolhas. O ritmo narrativo é envolvente, criando uma tensão crescente entre o real e o sobrenatural, entre o desejo e a destruição.

O Esqueleto, de Roberta Cirne - Escorpião Azul
Do ponto de vista gráfico, os desenhos de Roberta Cirne revelam-se apelativos, com algumas composições impactantes e cenas de forte carga atmosférica. A ilustração de capa é um excelente exemplo do refinamento artístico de que a autora é capaz de atingir. Ainda assim, noutros momentos, também se nota que certas expressões faciais e a linguagem corporal de personagens poderiam beneficiar de um maior aprimoramento anatómico ou emocional, pois nem sempre transmitem com clareza as nuances dramáticas exigidas por algumas cenas. Por vezes, o desenho é belo, noutros casos parece um tanto mais amador. Há, depois, um cuidado visível com a planificação, com as margens a serem decoradas entre as vinhetas, quase como iluminuras góticas, demonstrando uma atenção estética e simbólica que enriquece a experiência de leitura e reforça o caráter histórico da narrativa.

A escolha do preto e branco puro como paleta reforça o tom sombrio da narrativa e remete diretamente à estética do horror clássico. Os contrastes fortes e o uso expressivo das sombras conferem um certo drama às cenas, além de nos remeterem para a técnica da gravura clássica. Nota ainda para as cenas mais simbólicas, como as visões da morte e da deterioração, que são tratadas com um lirismo sombrio  que é bem-vindo.

O Esqueleto, de Roberta Cirne - Escorpião Azul

Em termos de edição, a obra é fiel aos restantes lançamentos da Escorpião Azul, apresentando capa mole baça, com detalhes a verniz, e com badanas. No interior, o livro apresenta bom papel baço, boa encadernação e boa impressão. A margem das páginas é colorida a preto, o que encaixa bem no estilo de livro que temos em mãos e dá mais requinte ao "objeto-livro". 

Há ainda um texto introdutório por parte da própria autora Roberta Cirne e uma página com notas biográficas de Joaquim Carneiro Vilela.

Em síntese, O Esqueleto é uma aposta interessante da editora Escorpião Azul numa obra de fôlego e densidade, que une literatura clássica ao estilo do terror gótico. Além de adaptar para banda desenhada um texto esquecido da literatura brasileira, Roberta Cirne consegue revitalizar a história e impactar o leitor ao longo da sua leitura. Não sendo sempre perfeito, é um livro que me deixou colado à sua leitura, da primeira à última página.


NOTA FINAL (1/10):
7.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020




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O Esqueleto, de Roberta Cirne - Escorpião Azul

Ficha técnica
O Esqueleto
Autora: Roberta Cirne
Baseado na obra original de: Joaquim Carneiro Vilela
Editora: Escorpião Azul
Páginas: 56, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Maio de 2025

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Qual o melhor Livro do Mês de Fevereiro de 2025 para o Vinheta 2020?



Hoje regresso à rubrica "BD do Mês" trazendo-vos a obra que, quanto a mim, foi a melhor BD do mês de Fevereiro.

Relembro que isto do "melhor" e do "pior" é sempre algo subjetivo, concedo, mas o objetivo aqui é muito simples: caso não haja dinheiro para comprar todas as boas bandas desenhadas lançadas por cá, qual a compra mensal mais obrigatória a fazer?

É, na minha opinião, a obra que vos apresento mais abaixo.

Curiosamente, quer o livro estrangeiro, quer o nível nacional, são histórias curtas, sem o recurso a legendagem/balões.

Sem mais demoras, eis o Livro do Mês de Fevereiro de 2025:

quarta-feira, 9 de julho de 2025

As novidades de BD da Escorpião Azul para o segundo semestre de 2025!


Hoje trago-vos as novidades de banda desenhada que a editora Escorpião Azul espera publicar durante o segundo semestre de 2025!

Aviso-vos desde já que são apenas duas as bandas desenhadas que a editora decidiu, por agora, anunciar.

No entanto, posso avançar-vos que a editora está a preparar dois livros que, à semelhança do Muitos Anos a Virar Páginas, não são de banda desenhada, mas sobre banda desenhada. Coisa que aplaudo e que me faz ficar motivado para mergulhar nessas leituras.

Mas, até lá, resta-nos olhar para as novidades que a editora acaba de divulgar: uma delas marca o regresso do autor João Mascarenhas ao catálogo da Escorpião Azul - que já publicou Burpszila.

Saliente-se também a aposta da editora numa obra clássica italiana, originalmente publicada em 1978, dos autores Guido Buzzelli e Alexis Kostandi.

Sem mais demoras, são estas as duas obras em questão:

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Escorpião Azul lança BD brasileira de terror!


A editora Escorpião Azul acaba de lançar uma banda desenhada de terror, da autora brasileira Roberta Cirne!

Posso dizer-vos que, no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, pude tomar contacto com a autora e com a exposição dedicada à mesma - e fiquei muito bem impressionado.

O livro já se encontra à venda nas livrarias portuguesas.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


O Esqueleto, de Roberta Cirne

Esta novela gráfica que tem na mão, é a adaptação da segunda obra de terror lançada no Brasil, escrita por Joaquim Carneiro Vilela em 1872. Um dos primeiros autores do terror gótico brasileiro.

Conta-nos uma história de terror e decadência, que nos leva de uma tradicional e honrada família de altos valores morais até à depravação das ruas boémias da cidade de Olinda, no tempo em que ali funcionava a Faculdade de Direito de Pernambuco. 

Acompanhamos o romance de Felipe e Lívia e o verdadeiro amor que faz frente às tentações do mundo. Enamorado da sua prima Lívia, nada mais desejava... até ao dia em que é obrigado pelo seu pai a ir estudar para a Faculdade de Direito, onde acaba por conhecer Azevedo e os “Filhos de Minerva”. 

Pecado e redenção, ascensão e queda... Esta é uma história de terror, que se vai desenrolando lentamente, até tomar toda a alma do leitor sem aviso prévio.

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Ficha técnica
O Esqueleto
Autora: Roberta Cirne
Editora: Escorpião Azul
Páginas: 56, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 17 x 24 cm
PVP: 15,00€


sexta-feira, 6 de junho de 2025

Escorpião Azul lança BD nacional de estilo "western apocalíptico"!



Já se encontra disponível em livraria a nova aposta da editora Escorpião Azul que dá pelo nome de Toxic West, e que marca o regresso de João Gil Soares ao lançamento de banda desenhada, depois de ter lançado pela mesma editora a sua obra de estrei Forgoth.

Desta feita, estamos perante uma história a cores, que é ambientada no faroeste e que tem ficção científica à mistura.

Tive oportunidade de ver a apresentação deste livro no Festival de Beja e posso dizer-vos que fiquei bastante intrigado com o mesmo.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Toxic West, de João Gil Soares

Depois da extinção da humanidade, os mutantes tentam sobreviver no planeta poluído que herdaram. Os desertos, cobertos de lixo, são terras sem lei, repletos de forasteiros, caçadores de recompensas e gangues. 

Patti Graves, uma guaxinim fora-da-lei, e Sierra Bloom, uma ratazana psíquica, viajam juntas pelo deserto para chegar à cidade de Zion. 

Pelo caminho, encontram gangues loucos, ruínas da humanidade e robôs controlados por Warden, um tubarão investidor, que tenta expandir o seu poder através do financiamento da Grande Companhia.

Trata-se de um western pós-apocalíptico onde o caos é uma constante.

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Ficha técnica
Toxic West
Autor: João Gil Soares
Editora: Escorpião Azul
Páginas: 136, a core
Encadernação: Capa mole
Formato: 17 x 24 cm
PVP: 29,00€


sexta-feira, 16 de maio de 2025

Análise: Homem de Neandertal

Homem de Neandertal, de André Diniz - Escorpião Azul

Homem de Neandertal, de André Diniz - Escorpião Azul
Homem de Neandertal, de André Diniz

Foi no passado LouriBD, o festival de banda desenhada da Lourinhã, que a editora Escorpião Azul apresentou a sua nova aposta: o lançamento de Homem de Neandertal, de André Diniz, o qual ainda não havia editado nenhuma obra com esta editora, embora o seu trabalho já esteja bem disseminado por várias editoras portuguesas como a Polvo (que reúne a grande parte das obras do autor no seu catálogo), A Seita (que editou recentemente Muzinga) e a Levoir (que editou O Idiota).

Homem de Neandertal é uma obra já com mais de 10 anos mas que, lamentavelmente, permanecia inédita em Portugal. E é um trabalho que tem duas particularidades curiosas: a primeira é que, à semelhança de O Idiota, é uma banda desenhada muda, sem recurso a quaisquer legendas ou balões de fala; e a segunda é que é um trabalho a cores, com as mesmas a serem asseguradas por Marcela Mannheimer.

Homem de Neandertal, de André Diniz - Escorpião Azul
A história coloca-nos no encalço de um Neandertal que, além de ter que enfrentar os expectáveis desafios que a natureza lhe impõe, a si e à sua espécie, se sente atordoado quando, de um momento para o outro, encontra algo que até então lhe era estranho: a arte rupestre criada por humanos. Quase que esta singela frase é suficiente para contar de forma sucinta tudo o que acontece neste Homem de Neandertal.

Todavia, isso não quererá dizer - de todo! - que os pressupostos da obra se findam por aí. Ao invés, é bastante profunda a reflexão que Homem de Neandertal nos propõe fazer. A criação da consciência artística, a necessidade de afirmação por via de uma expressão artística, o contacto com outras espécies e a finitude da nossa vida são noções e reflexões que a leitura desta banda desenhada sem textos nos desafia a fazer. 

É que o protagonista, ao tentar expressar-se artisticamente, acaba por ter de enfrentar obstáculos internos e externos, fazendo-nos refletir sobre o papel do talento, da dedicação e da influência cultural na realização artística.

Ao observar a arte rupestre criada pelos Homo sapiens, o protagonista desperta para algo novo: a capacidade de imaginar, representar e criar. A arte, aqui, é mais do que um adorno ou passatempo; é um elemento de transformação profunda. E é, portanto, notável como André Diniz representa a arte como um catalisador de consciência, sugerindo até que o contacto com o símbolo e a imagem pode ter sido um ponto de viragem na história evolutiva.

Homem de Neandertal, de André Diniz - Escorpião Azul
Este impacto profundo da arte rupestre no protagonista revela um dos eixos centrais da narrativa: a arte como elemento de humanização. É legítimo interpretar esta obra como uma verdadeira carta de amor à expressão artística e visual - uma homenagem àquilo que, mais do que qualquer ferramenta ou estrutura social, nos separa de todas as outras criaturas que habit(ar)am o planeta. A capacidade de representar, de imaginar e de deixar marcas intencionais no mundo é apresentada como o momento em que deixamos de ser apenas mais um animal e nos tornamos humanos.

André Diniz, com uma história silenciosa mas profundamente eloquente, propõe, pois, uma reflexão não apenas sobre a origem da arte, mas sobre o que significa ser humano. Homem de Neandertal é, portanto, um trabalho sensível, original e visualmente memorável, que convida à contemplação e reafirma o poder da arte como essência da nossa humanidade.

O trabalho de André Diniz revela-se notável nesse cômputo, com os desenhos a não precisarem de texto para conseguirem contar uma história e lançarem um tema para o debate. A narrativa visual é clara e expressiva, permitindo que o leitor compreenda os gestos, as emoções e os conflitos internos do protagonista sem a necessidade de palavras. 

Homem de Neandertal, de André Diniz - Escorpião Azul
A ausência de texto acaba por dar ainda mais ênfase ao traço geométrico e diferenciado de Diniz, que neste livro opta por um trabalho a cores — uma escolha que beneficia significativamente a narrativa. A utilização da cor torna a arte mais perceptível, clara e emocionalmente envolvente, ampliando a acessibilidade do livro e permitindo que atinja um público mais vasto. As cores não só guiam o olhar, como também transmitem atmosfera, emoções e contrastes culturais de forma subtil mas eficaz.

A edição da Escorpião Azul está bastante agradável e faz jus à obra. Foi da boca do próprio autor que, no último LouriBD, fiquei a saber que André Diniz não tinha ficado particularmente satisfeito com a primeira edição desta obra por uma editora brasileira. Mas, no caso da edição da Escorpião Azul, o trabalho está bem feito. O livro apresenta capa mole com badanas, com detalhes a verniz, bom papel  baço no interior e um prefácio do próprio autor. Conta também com as já habituais margens das páginas coloridas - desta vez com a cor verde - que dão singularidade e um aspeto bonito aos livros.

Em suma, estamos perante um silencioso mas igualmente ruidoso trabalho de André Diniz que nos relembra que talvez a única coisa que verdadeiramente deixamos após a nossa vida — além da nossa descendência biológica — seja a nossa criação artística. São as nossas criações, sejam elas quais forem, que deixam vestígios da imaginação e da expressão humanas, que atravessam o tempo e permanecem como legado. É essa arte que fala por nós quando já cá não estivermos. E André Diniz, ao contar essa história sem palavras, homenageia precisamente essa herança silenciosa mas eterna.


NOTA FINAL (1/10):
8.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020




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Homem de Neandertal, de André Diniz - Escorpião Azul

Ficha técnica
Homem de Neandertal
Autor: André Diniz
Editora: Escorpião Azul
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Fevereiro de 2025