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segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Análise: Emma G. Wildford

Emma G. Wildford, de Zidrou e Edith - A Seita e Arte de Autor

Emma G. Wildford, de Zidrou e Edith - A Seita e Arte de Autor
Emma G. Wildford, de Zidrou e Edith

Entre os lançamentos que a parceria formada pelas editoras A Seita e Arte de Autor já nos ofereceram, destaca-se a recente aposta mútua em obras do autor belga Zidrou. Primeiro, ambas as editoras nos trouxeram o fantástico e lindíssimo Lydie, de Zidrou e Jordi Lafebre, e, mais recentemente, foi a vez de Emma G. Wildford chegar até nós. Isto sem esquecer que, quer A Seita, com A Fera, quer a Arte de Autor, com Verões Felizes, já tinham lançado obras do autor. E isto já para não esquecer que também a Ala dos Livros já lançou A Adopção e lançará no próximo ano a série Shi. Zidrou é, portanto, um autor amplamente publicado em Portugal. Pela parte que me toca, fico muito feliz com isso, já que o trabalho do autor tem sido símbolo de qualidade ao nível do argumento, por um lado, e ao nível do desenho, por outro, tendo em conta que Zidrou parece saber rodear-se sempre de impressionantes ilustradores.

A esse propósito, desta vez, para este Emma G. Wildford, Zidrou faz-se acompanhar pela autora Edith, no desenho.

Emma G. Wildford, de Zidrou e Edith - A Seita e Arte de Autor
A história da obra passa-se nos anos 1920 e centra-se, como não podia deixar de ser, na personagem com o mesmo nome, que tem passado os últimos catorze meses à espera do seu noivo, Roald Hodges, membro da National Geographic Society, depois deste ter embarcado numa expedição à Noruega. Mas desde que essa jornada começou, não mais Emma obteve qualquer notícia do paradeiro do seu noivo.

E um detalhe bastante relevante para a história é que, antes de iniciar a sua jornada, Roald oferece uma misteriosa carta a Emma, pedindo-lhe que só a abra caso lhe aconteça alguma coisa de mal durante a viagem que vai empreender. Como tal, e estando sem notícias do seu noivo por tantos meses, Emma nega para si mesma que a causa dessa ausência seja algo de mau, e opta por, em vez de abrir o tal envelope, ir à procura do seu noivo. Deixa, portanto, a sua Inglaterra repleta de luxos e mordomias dignas da classe alta a que pertence, para partir para a Lapónia.

E o que é mais interessante é que, mais do que a busca pelo seu noivo, Emma acaba por empreender uma busca por si própria, fazendo com que a tal viagem mais não seja do que uma viagem ao seu eu-interior. Zidrou dá-nos aqui um belo texto bastante romântico, onde pisca o olho à própria poesia – ou não fosse Emma uma poetisa por direito - que nos vai oferecendo vários versos e quadras soltas ao longo do livro. A criação da uma personagem feminina forte e obstinada, especialmente num tempo mais longínquo ao atual, já que a história se desenrola no início do século XX, onde a sociedade era bem mais machista do que nos tempos em que vivemos agora, é outra das coisas onde Zidrou é bem sucedido.

Emma G. Wildford, de Zidrou e Edith - A Seita e Arte de Autor
“Nem tudo é como parece” e, lá mais para o final do livro, quer Emma, quer o leitor, acabam por ser surpreendidos por aquilo que realmente aconteceu a Roald. Isto, claro, se os leitores não lerem a carta que o livro traz colada às guardas do livro. Esta carta – que é um pormenor delicioso da edição - só deve ser lida depois de finalizada a leitura, como os editores – e bem – não se esqueceram de avisar os leitores mais incautos. Reitero essa recomendação já que a referida carta, se lida antes de finda a leitura, vai conter imensos spoilers.

De resto, o livro assume depois um certo tom mais simbólico que, felizmente – para os meus gostos, pelo menos – não é demasiadamente vincado, embora nos leve a um final um tanto mais forçado. Todavida, e acima de tudo, acho que é o aspeto mais poético da obra, que mais salta à vista. Pode não ser um daqueles livros que marca uma vida – ou, sequer, o melhor de Zidrou – mas certamente é uma obra bem conseguida, que merece ser lida. Acho até que é uma daquelas bandas desenhadas que, por este tom mais romântico e poético, terá o potencial de trazer pessoas que habitualmente não leem banda desenhada para o género. Se tivesse que oferecer uma BD a alguém que gosta de ler poesia ou romances, mas que não lê BD, este Emma G. Wildford poderia muito bem ser a minha aposta.

Emma G. Wildford, de Zidrou e Edith - A Seita e Arte de Autor
A autora francesa Edith (Gattery, de apelido) dá-nos aqui uma ilustração algo diferente daquilo a que estamos habituados a ver nos ilustradores que, normalmente, acompanham Zidrou. O traço de desenho de Edith é bastante suave e delicado, assumindo um tom romântico clássico que encaixa perfeitamente na história arquitetada por Zidrou. A paleta de cores quentes que habita a história - exceto na parte em que a mesma assume tons mais frios para melhor se adequar ao clima inóspito da Lapónia – também contribui para o tal aspeto romântico e delicado da mesma. No fundo, acho que os desenhos de Edith oferecem à obra aquele cariz de charme meio vintage que a mesma precisava.

Em termos de edição, o trabalho conjunto das editoras A Seita e Arte de Autor deu-nos um excelente exemplar. O livro apresenta capa dura baça, bom papel baço e boa impressão e encadernação. Todo o objeto-livro é muito bonito, com belas guardas a sobressaírem. Nas segundas guardas, já depois de finalizada a leitura do livro, os leitores são brindados, conforme já referi, com um pequeno regalo que é um envelope com a famigerada carta de Roald para Emma. Tudo num papel amarelado para transparecer a passagem do tempo e o cariz de relíquia do envelope e da carta. É um pormenor absolutamente delicioso que assinala a qualidade do trato editorial quer d’ A Seita, quer da Arte de Autor.

Em suma, parece ser claro que Zidrou não sabe fazer maus livros. Ainda que este Emma G. Wildford assuma um registo quiçá menos impactante do que outras obras do mesmo autor lançadas por cá, continua a ser um belo livro, carregado de romantismo, poesia e beleza, que merece ser (re)conhecido por todos!


NOTA FINAL (1/10):
8.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Emma G. Wildford, de Zidrou e Edith - A Seita e Arte de Autor

Ficha técnica
Emma G. Wildford
Autores: Zidrou e Édith
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 21,5 X 28,5 cm
Lançamento: Outubro de 2023

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

A Seita e a Arte de Autor preparam-se para causar impacto no mercado da BD em Portugal!


E se a Devir tem excelentes propostas para reforçar o seu catálogo editorial, que dizer, também, da parceria entre as editoras A Seita e Arte de Autor?!

As duas editoras anunciaram na passada sexta-feira as novas obras que se preparam para co-editar ao longo dos próximos meses!

E, meus amigos, preparem-se para livros verdadeiramente apetecíveis!!!

Em primeiro lugar, teremos a publicação do segundo - e último - tomo de O Combate Quotidiano, que apresenta, desde já, a capa mais bonita de todas as que conheço dos vários tomos e edições integrais da série.

Teremos também a reedição de Fado Ilustrado, de Jorge Miguel, autor das obras Shanghai Dream e Sapiens Imperium, ambas publicadas por cá, pela parceria A Seita/Arte de Autor, para além da obra O Cavaleiro do Unicórnio, de Stéphane Piatzszek e Guillermo Gonzalez Escalada, que não conheço mas que aparenta ter uma arte ilustrativa verdadeiramente impressionante.

Para além disso, teremos o novo livro, intitulado Noir Burlesque, do autor Marini, um dos meus ilustradores favoritos, e, também, duas obras de Zidrou, um dos meus argumentistas favoritos de banda desenhada: Naturezas Mortas e Emma G. Wildford!

Se todas estas obras me deixam com um apetite de leitura voraz, tenho que confessar que Dentro da Cabeça de Sherlock Holmes é a obra que mais me deixa empolgado! E não falo apenas em relação a este conjunto de fantásticas obras d'A Seita/Arte de Autor. Falo em relação a todos os livros de banda desenhada que foram lançados nos últimos anos. Daquilo que já pude investigar sobre a obra e sobre a edição, este é um daqueles livros que tem tudo para ser "um dos livros da minha vida". Sim, a minha expetativa é tão grande que até tenho medo de sair defraudado. Mas, ou muito me engano, ou tal não vai acontecer. Resta-me esperar para que chegue rapidamente a altura em que me poderei deliciar com esta obra.

Abaixo, deixo-vos a nota emitida pelas editoras que explica melhor quais as novidades editoriais do seu esforço conjunto:


Plano editorial Arte de Autor e A Seita

Como muitos fãs de banda desenhada portugueses sabem, a Arte de Autor e A Seita iniciaram há um pouco mais de um ano uma colaboração algo inédita no mercado português, para co-editar livros de BD, principalmente de franco-belga. Essa cooperação nasceu de uma conversa fortuita durante o Festival de BD de Angoulême, em Janeiro de 2020, em que nos demos conta de que estávamos a tentar comprar os direitos dos mesmos livros. Dessa conversa surgiu a ideia de, em vez de competirmos e entrarmos numa espécie de leilão, podíamos colaborar e co-editar esse livro. E nasceu o nosso primeiro livro em conjunto, “Shanghai Dream”, de Jorge Miguel e Philippe Thirault, e a intenção de editar outros livros, consoante os projectos editoriais de cada uma das editoras. Em 2021 continuámos essa colaboração: mais um livro do Jorge Miguel, desta feita “Sapiens Imperium” (com Sam Timel), bem como “Os Olhos do Gato”, de Moebius e Jodorowsky, e “O Combate Quotidiano” de Manu Larcenet (o primeiro volume).

Esta colaboração vai continuar este ano, a experiência foi boa e tem havido um bom entendimento entre as duas editoras. Queremos continuar os projectos que nos propusemos começar, claro: continuar a editar a obra de Jorge Miguel em Portugal, e concluir “O Combate Quotidiano”, mas decidimos juntar forças para mais uma série de livros em 2022 e 2023!

E o nosso primeiro anúncio vai para “Noir Burlesque” de Marini, um policial negro e pulp, ambientado nos anos 1950, que junta paixão, crime, ciúme e vingança numa história que é, como o diz o Le Figaro, “a sua homenagem pessoal ao cinema de Hollywood dos anos 50”. Um álbum magnífico a preto e branco e… vermelho! Antecipamos o lançamento do primeiro álbum (de dois) durante o último trimestre do ano.

Noir Burlesque, de Marini

E a verdade é que somos todos fãs de Zidrou, os (muitos!) sócios d’A Seita, e a Vanda da Arte de Autor, e entre “Verões Felizes” e “A Fera” já temos editados alguns livros escritos por este fabuloso argumentista belga. E então... porque não uma colecção Zidrou? Pois bem, foi o que decidimos fazer. Zidrou tem inúmeras histórias completas, pequenos (ou não tão pequenos) romances gráficos, e já no final do ano lançaremos “Naturezas Mortas”, com arte do espanhol Oriol,

Naturezas Mortas, de Zidrou e Oriol


(...) a que se seguirá em inícios de 2023 “Emma G. Wildford”, ilustrado por Edith. São duas histórias maravilhosas, e um convite a que mais leitores portugueses descubram a obra de Zidrou.

Emma G. Wildford, de Zidrou e Edith

Temos também para o final do ano um álbum completo, uma história fechada, “O Cavaleiro do Unicórnio”, uma saga medieval com toques de fantástico e em tons de alegoria sobre a violência, com argumento de Stéphane Piatzszek e arte (deslumbrante!) de Guillermo Gonzalez Escalada.

O Cavaleiro do Unicórnio, de Stéphane Piatzszek e Guillermo Gonzalez Escalada 


E, finalmente, com lançamento previsto para inícios de 2023, temos um álbum que foi um dos grandes sucessos em França nos anos mais recentes, e que é um dos livros de BD mais originais que já vimos: “Na Cabeça de Sherlock Holmes” de Cyril Liéron e Benoit Dahan, um álbum que reúne os dois primeiros volumes da série num livro com mais de 100 páginas que apresenta “O Caso do Bilhete Escandaloso” numa integral com a qual mergulhamos (literalmente!) na cabeça do detective de Conan Doyle.

Na Cabeça de Sherlock Holmes, de Cyril Liéron e Benoit Dahan


Como já dissemos acima, a estes livros juntam-se “O Fado Ilustrado”, a re-edição de uma interessante obra de Jorge Miguel, que segue a história e os meandros da Lisboa do fim do século 19 no célebre através do quadro “O Fado” de Malhoa; 

O Fado Ilustrado, de Jorge Miguel
(Provavelmente a capa será diferente da edição original da Plátano Editora)


(...) e, claro, o segundo volume (e final) “O Combate Quotidiano” de Manu Larcenet, uma das obras-primas deste grande autor franco-belga contemporâneo.

O Combate Quotidiano - Volume Dois (de dois), de Manu Larcenet


São sete livros, distribuídos entre o segundo trimestre do ano (o “O Fado Ilustrado” e “O Combate Quotidiano” serão editados entre Abril e Junho) e o último trimestre de 2022 e primeiro de 2023 (para os outros), que esperamos possam satisfazer os nossos leitores e fãs com mais e melhor BD!