Mostrar mensagens com a etiqueta Filipe Pina. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Filipe Pina. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Análise: Macho-Alfa #4

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina

O quarto e último volume da série portuguesa Macho-Alfa chegou-nos no final do ano passado como um murro final, a vários níveis, que se revelou como um derradeiro golpe, seco e sem aviso prévio, para todos os que acompanhávamos esta série desde o seu começo, da autoria de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina.

E foi um duro golpe a dois níveis. Em primeiro lugar, por este livro ter o significado simbólico de ser o último trabalho de Filipe Duarte Pina que, lamentavelmente, faleceu a meio de 2025. Além disso, por marcar o fecho de uma saga de banda desenhada nacional que sempre jogou no limite entre a desconstrução do mito do super-herói e a sua celebração mais crua, mais física, mais humana. 

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Este quarto volume não procura teorizar muito as ideias que foram levantadas nesta série - e foram muitas -, mas sim encarar de frente o abismo que sempre esteve à espera de David, o protagonista, um super-humano num mundo que nunca soube o que fazer com ele. Se em muitas das histórias de super-heróis nos é dada a ideia que ser-se super-herói deve ser espetacular... em Macho-Alfa fica bem presente que talvez ter super-poderes seja mais uma cruz do que uma benção.

Ao longo da série, Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina construíram uma narrativa que piscava o olho à cultura dos comics americanos, mas sem nunca abdicar de uma identidade muito própria, profundamente portuguesa no seu desencanto, na sua ironia e no seu pessimismo social. 

David já não é, neste quarto volume, o anti-herói em crise existencial nem o peão de um sistema que o usa e descarta. É, acima de tudo, um sobrevivente. Confrontado com a verdade sobre o seu passado e com a revelação da sua némesis, tudo o resto se torna irrelevante: não há terapia, não há reforma, não há apaziguamento possível. Há apenas a luta. E essa escolha narrativa confere ao álbum uma urgência brutal, quase sufocante, com cada uma das páginas a ganhar peso acrescido, levando a que cada decisão narrativa pareça carregar uma vontade clara de ir até às últimas consequências. 

Narrativamente, este último volume centra-se quase exclusivamente no combate entre David e o seu rival. Cerca de metade do álbum - aproximadamente 30(!) páginas - se destina ao combate entre ambos, o que é uma opção ousada e pouco comum, sobretudo no contexto da banda desenhada portuguesa, e remete-nos imediatamente, lá está, para as grandes batalhas épicas dos comics de super-heróis. Uma escolha que, pessoalmente, apreciei muito pela sua audácia e confiança, pois se há série nacional que termina em apoteose, esta é uma delas.

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Este combate não é apenas longo... é denso, agressivo, físico e emocionalmente carregado. A violência atinge aqui um patamar que, sinceramente, não me recordo de encontrar noutras obras nacionais. Esta violência - que alguns até poderão achar exagerada, mas não eu - é consequência lógica de tudo o que foi sendo construído ao longo da série e, claro, por serem personagens - quer o herói, quer o vilão - de um poder indescritível. Não poderia ser de outra forma, acredito. 

Este conforto está particularmente bem conseguido, por parte do ilustrador Osvaldo Medina. A coreografia do combate é clara, o ritmo é eficaz e as decisões visuais demonstram um controlo narrativo impressionante. Há uma sensação constante de perigo real, de que tudo pode acabar a qualquer momento, e isso mantém o leitor preso até à última página.

Nem tudo, contudo, é isento de críticas. Olhando para a série como um todo, é impossível não notar que, a determinada altura - especialmente no segundo volume - a história pareceu afastar-se um pouco do seu potencial inicial mais relevante. Algumas ideias surgiram de forma algo aleatória, deixando pontas soltas em termos de enredo que nunca chegam a ser totalmente resolvidas. Entretanto, o terceiro volume melhorou a narrativa, já depois de um primeiro álbum que prometia muito.

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
E não é que este Macho-Alfa #4 resolva todas as pontas soltas que a série trouxe. Sinceramente, até parece não haver esse objetivo por parte dos autores. Ainda assim, este livro consegue, de forma notável, recentrar o foco e fechar a saga com uma clareza e uma força que compensam essas fragilidades anteriores. O final é brutal, violento, imprevisível e chocante, e não tenta agradar a todos. É um final coerente com o universo que foi criado desde o início.

Em termos de edição, o trabalho d' A Seita e da Comic Heart, mantém-se em consonância com os volumes anteriores, apresentando capa dura baça, bom papel brilhante no miolo, boa impressão e boa encadernação. Além disso, foi feita uma homenagem, mais do que merecida, a Filipe Duarte Pina, que inclui a fotografia do autor, um nota introdutória dos editores e homenagens sentidas e emotivas de Filipe Andrade, Filipe Homem Fonseca, Nuno Lourenço Rodrigues, Osvaldo Medina, André Oliveira, Joana Afonso, Jorge Coelho, Luís Simões. Nélson Dona, Nuno Saraiva, Paulo Monteiro, Pedro Ribeiro Ferreira, Ricardo Cabral e Pedro Moura. Há ainda um esboço da personagem de David que, a julgar pelo traço, acredito ser da autoria de Filipe Duarte Pina. Acabou por ficar uma edição bonita e especial por todos estes motivos.

Em suma, Macho-Alfa termina como começou: incómodo, provocador e profundamente humano. Um adeus em alta e que deixa marcas. Este livro é também especial por razões que extravasam a própria ficção. Marca o fim da carreira em banda desenhada de Filipe Duarte Pina, falecido no ano passado, e saber que o autor concluiu este álbum enquanto lidava com uma doença terminal acrescenta uma camada emocional difícil de ignorar. Há aqui uma perseverança e uma coragem que arrepiam, que comovem e que impõem respeito. Ler Macho-Alfa #4 é, também por isso, e de forma dupla, um ato inevitável de despedida.


NOTA FINAL (1/10):
8.3



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Ficha técnica
Macho-Alfa #4
Autores: Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 200 x 280 mm
Lançamento: Outubro de 2025

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Faleceu o autor português Filipe Duarte Pina


O universo da BD nacional está de luto.

O autor português Filipe Duarte Pina faleceu durante o dia de ontem, vítima de doença galopante oncológica.

Foi uma notícia chocante para mim, especialmente tendo em conta a tenra idade do autor: uns meros 45 anos.

O autor alcançou notoriedade com a sua banda desenhada BRK, ilustrada por Filipe Andrade e editada pela ASA, que me marcou profundamente. Aliás, continua a ser das minhas bandas desenhadas favoritas de autoria nacional, pois teve um forte impacto em mim.

Depois disso, Filipe notabilizou-se na produção de videojogos, entre os quais se destaca Under Siege, o primeiro videojogo português concebido para a PlayStation.

Mais recentemente, Filipe Pina tinha voltado à banda desenhada, trabalhando em parceria com Osvaldo Medina na série Macho-Alfa, pensada para quatro volumes e editada pela editora A Seita. Por agora, já três desses quatro volumes foram lançados. O quarto será lançado na próxima edição do Festival Amadora BD.

Esta notícia que recebi ontem teve uma forte repercussão em mim. Não era próximo do Filipe, tendo trocado poucas palavras com ele, mas tinha-o - e tenho - como pessoa afável, divertida e extremamente criativa. Ficamos todos mais pobres e com a certeza de que a vida é realmente injusta para muitos.

Resta-me deixar os meus sentidos pêsames à família do autor e amigos mais próximos.

O velório realiza-se hoje, a partir das 14h00 na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Assunção, na Avenida Dom João I 1, 2800-112 Almada. O funeral será no sábado às 10h15 no cemitério do Feijó.

sexta-feira, 7 de março de 2025

Análise: Macho-Alfa #3

Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina

Depois de um primeiro volume que trouxe uma visão bastante original sobre aquilo que poderia ser um super-herói à boa maneira portuguesa - e de um segundo volume que, infelizmente, tropeçou um pouco nas ideias acrescentadas ao enredo - Macho-Alfa está de volta para aquele que é o seu terceiro e penúltimo volume desta série da autoria de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina.

Felizmente, é neste terceiro volume que a história se torna mais densa, com o argumento a mergulhar de uma forma muito mais assertiva e profunda na personagem de David, o protagonista. Depois de, no livro anterior, terem sido adicionados alguns ingredientes à trama que, quanto a mim, mais pareceram fillers do que reais adições ao enredo, agora temos um David a mergulhar num drama pessoal mais sério, que levanta pertinentes questões, não só para a personagem, como também para o leitor, que vê em David um espelho de alguns medos e inseguranças universais que todos temos. A profundidade psicológica do protagonista é, pois, explorada de forma mais intensa, permitindo aos leitores uma ligação mais forte com a sua jornada pessoal.​

Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
O tom humorístico mais leve dos livros anteriores, dá então lugar a uma atmosfera mais séria, onde são revelados alguns segredos do passado de David, levando-nos a compreender algumas das  motivações e conflitos internos da personagem. Além disso, é neste livro que ficamos a conhecer o psiquiatra de David que é uma personagem deveras interessante e intrigante com quem o protagonista enceta bons diálogos. Pode até ser esta personagem que dá o conteúdo necessário a toda a série para que esta seja mais eloquente dado que, até ao momento, se apresentava, a meu ver, algo insípida - a ver vamos, quando pudermos ler o quarto e último volume da série, agendado para o final do ano.

Os desenhos de Osvaldo Medina continuam a ser um dos pontos fortes da série. Com um estilo de desenho que remete para os comics americanos, o traço rápido e confiante do autor oferece uma característica expressividade às personagens, captando eficazmente as suas emoções e a intensidade das cenas de ação que, diga-se, neste terceiro volume quase não existem. As cores continuam a não ser especialmente do meu agrado - basta olhar para a arte final a preto e branco, nos extras do livro para desejar que a história fosse a preto e branco - mas reconheço que neste livro contribuem bem para a atmosfera mais sombria deste volume, especialmente nos longos e impactantes diálogos de David com o seu terapeuta.

Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Não são desenhos que tenham a beleza de um Fojo, de um Kong The King ou de um A Fórmula da Felicidade, onde o autor se apresentou em belíssima forma, mas este Macho-Alfa #3 não deixa de nos apresentar um belo conjunto de desenhos, com a eficiência visual própria a que o autor nos tem habituado.

A edição d' A Seita e da Comic Heart mantém-se boa e fiel ao trabalho feito nos dois livros anteriores. O livro apresenta capa dura baça, com um belo papel brilhante no miolo e uma boa impressão e encadernação. No final do livro, volta a haver um dossier de extras com seis páginas onde podemos encontrar esboços de Osvaldo Medina, uma preview de duas páginas do próximo e último volume da série e a demonstração do processo de construção de uma página, desde o esboço cru até às cores finais e legendagem. O livro conta ainda com um prefácio de Nuno Markl.

Em suma, Macho-Alfa #3 é uma adição sólida à série, aprofundando a narrativa e as personagens de maneira significativa. Com um enredo mais sombrio e complexo, este volume destaca-se como, possivelmente, o ponto mais alto da saga até agora, deixando boas notas e uma expectativa mais elevada para uma conclusão que está para breve.


NOTA FINAL (1/10):
7.3



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020




-/-


Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Ficha técnica
Macho-Alfa #3
Autores: Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina
Editora: A Seita e Comic Heart
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 20 x 28 cms
Lançamento: Outubro de 2024

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

A Seita publica novo volume de Macho Alfa!



Entre as muitas novidades que a editora A Seita disponibilizou no último Amadora BD, podemos encontrar o terceiro e penúltimo volume da série nacional Macho-Alfa, que é da autoria de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina.

O último volume está já agendado para o próximo Amadora BD, o que revela um bom comprometimento quer dos autores, quer dos editores para com esta obra e, claro, para os leitores da mesma.

Relembro que já aqui analisei os volumes um e dois da série.

Por agora, deixo-vos, mais abaixo, com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais deste terceiro volume.




Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina

Prefácio de Nuno Markl

David Ferreira: cem vezes mais forte que o normal, pesa 980kg e estima-se que seja praticamente invulnerável. Exerce um constante auto-controlo para não magoar ninguém, evitando mesmo  apertar mãos ou dar abraços. David é o super-herói Macho-Alfa, a única pessoa com superpoderes em todo o mundo, mas... é desempregado, não tem amigos, e foi renegado por uma sociedade que sempre se aproveitou dos seus poderes para travar as suas guerras e tratar dos seus problemas mais complicados... será que alguma vez será aceite pela sociedade?

Haverá lugar no mundo para um super-herói reformado? E a terapia, será uma solução para os seus super-problemas? E... pior que tudo... os super-heróis têm MESMO de pagar segurança social??   

O terceiro volume de uma das mais originais séries de BD de super-heróis recentes, da dupla Filipe Duarte Pina (BRK) e Osvaldo Medina (Kong the King, A Fórmula da Felicidade) marca uma viragem tremenda nesta saga: o tom mais humorístico (mesmo que de humor negro!) começa a dar lugar a uma atmosfera mais séria, e começam a revelar-se alguns dos segredos do passado de David, enquanto surge também pela primeira vez... a sua némesis, o vilão da série! 

Uma saga super-heróica, super-divertida e super... trágica!
Sim, Macho-Alfa é uma tragicomédia em 4 tomos, com um final que ninguém imagina e que irá surpreender, previsto lá para o Outono de 2025.  Mas até lá, aproveitem para ler os primeiros três volumes de diversão, de humor negro e situações caricatas, hilariantes e tristes, do caminho de um herói trágico. Tudo está já em cena para o desenlace final no volume 4!

“...Pina e Medina começam esta saga como uma comédia, disparando alegremente em várias direcções da sociedade portuguesa, desde os media à natureza patriarcal e machista deste recanto. Mas depressa a “leveza” se revela ilusória - e Macho-Alfa, uma criatura de aparência épica e triunfal, torna-se, aos nossos olhos incrédulos, neste chocante anti-herói narcisista que acredita que fazer o Bem envolve naturalmente danos colaterais - até percebermos que a carreira deste super-socio-talvez-psicopata acaba por ser composta, sobretudo, por danos colaterais...”
- do prefácio de Nuno Markl

Os editores agradecem a Nuno Markl ter baptizado a dupla criativa do Macho-Alfa com aquele que será o seu nome definitivo, Pina & Medina, capaz de evocar as mais tugas das séries TV dos anos 1980!

-/-

Ficha técnica
Macho-Alfa #3
Autores: Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina
Editora: A Seita e Comic Heart
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 20 x 28 cms
PVP: 18,95€






terça-feira, 17 de outubro de 2023

Análise: Macho-Alfa #2

Macho-Alfa #2, Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Macho-Alfa #2, Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Macho-Alfa #2, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina

Macho-Alfa #2 é o segundo volume de uma série da autoria de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina, que foi pensada para ter quatro volumes. Deixando-nos a meio do percurso deste herói português, de força imensa e de enorme desespero perante o mundo que o rodeia, este segundo volume volta a trazer-nos algumas ideias pertinentes, mas continua a não resolver certos problemas do primeiro volume. Na verdade, até fica ligeiramente aquém desse primeiro assalto.

O livro prossegue a história levantada pelo primeiro tomo, que nos apresentou David, o "Macho-Alfa", um super-herói lusitano que, munido de uma imensa força sobre-humana, acaba por testemunhar o lado negro de ter mais poderes do que aquilo que, eventualmente, desejaria. Ou, por outras palavras, o lado negro de se ser super-herói.

Macho-Alfa #2, Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Quando não veste a sua capa de herói, David é desempregado, devedor ao fisco, não tem amigos e viu a sua vida amorosa a despedaçar-se completamente. Triste e só, é agora que David se apercebe de que a sociedade, mesmo quando parecia estar a estender-lhe a mão, apenas se aproveitou da sua existência. David está, pois, mergulhado numa profunda depressão com tudo o que o rodeia.

Este segundo volume arranca com o julgamento do protagonista, que é acusado de ser um perigo para a sociedade. Quer ao nível de perdas humanas, quer ao nível de perdas materiais. E levanta-se a questão: mesmo que Macho-Alfa seja movido por boas intenções, não será que a pegada de destruição que deixa atrás de si é mais problemática do que, propriamente, a ajuda que tenta dar a todos, de forma a tornar o mundo num lugar melhor? Será que os fins justificam os meios?

O julgamento vai avançando e David vai-se sentido cada vez mais agastado e criticado por toda a sociedade e opinião pública que, pura e simplesmente, parece não perceber as boas intenções do herói português que, levado a uma atitude extrema, acaba depois por raptar a equipa de filmagem que fazia o reality show baseado na sua vida, transportando-a até ao conflito armado da Síria para aí poder fazer, em direto e sem interrupções, um statement para todo o mundo.

Macho-Alfa #2, Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
E é desta forma que a personagem “toca na ferida”, tecendo críticas de um foro político bastante abrangente, que fazem o leitor parar um pouco para pensar. Ainda que tudo seja feito numa base bastante leve e superficial, Filipe Duarte Pina tem o condão de abordar um assunto mais sério e de inúmeras ramificações políticas num “mero” livro de super-heróis que, inicialmente, até parecia não se levar muito a sério. E isso é refrescante e bem-vindo.

Embora também seja verdade que, em boa parte da narrativa, o livro se perca em diálogos bastante olvidáveis. Vendo bem, se espremêssemos a primeira parte deste volume, não teríamos grande conteúdo, pois a história parece enrolar-se em demasia em grande parte do livro. O final é melhor e mais impactante, deixando-nos em suspense, mas parece-me que, até chegar a esse ponto nevrálgico, o enredo poderia ter sido melhor tecido por Filipe Duarte Pina.

Quanto aos desenhos de Osvaldo Medina, do qual sou um confesso admirador, voltam, quanto a mim, a não ser o melhor trabalho do autor, mas, ainda assim, cumprem bem a sua função de contar a história pensada por Filipe Duarte Pina num registo mais próximo dos comics americanos a quem a série parece procurar homenagear. Como tal, vejo-me forçado a resgatar algumas das palavras que fiz na minha análise ao primeiro volume da série, já que o trabalho de Osvaldo se mantém em harmonia entre os dois volumes: “o protagonista tem bastante personalidade, do ponto de vista conceptual (...) Na variedade de planos de câmara e nos enquadramentos, o autor também demonstra ser um especialista. Como crítica menos positiva, diria que, de uma forma global, já vi trabalhos mais impressionantes de Osvaldo Medina. Embora reconheça que haverá, certamente, uma possível tentativa de adoção de um traço mais dinâmico e cru, pareceu-me que certas expressões faciais das personagens e linguagem corporal das mesmas, poderiam ter recebido mais aprumo na conceção. Ou que as mesmas foram feitas com uma certa “pressa”.

Macho-Alfa #2, Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Mas, se o argumento e as ilustrações poderiam estar mais bem esculpidos pelos autores, tenho que admitir que acabam por funcionar de forma conveniente. Não posso é dizer o mesmo das cores desta obra.

Em termos de cores, quem acompanha assiduamente o Vinheta 2020 sabe que não é um assunto em que eu fale muito nas minhas análises. A não ser, claro está, que as cores se destaquem pela positiva ou pela negativa. Infelizmente, em Macho-Alfa, as cores pioram a experiência da leitura, tornando a arte pior do que aquilo que realmente é. O mais grave nem será bem a escolha das cores aplicadas, mas o ineficaz uso que as mesmas fazem da luz. A luz é um problema nas cores de Macho-Alfa, fazendo com que os próprios tons de pele das mesmas personagens variem de formas pouco naturais e credíveis. O resultado fica muito plástico, na minha opinião. E Macho-Alfa acaba por ser um daqueles exemplos em que se diz: “esta série seria muito melhor se fosse lançada a preto e branco”. Podemos não ter o Osvaldo Medina no topo das suas capacidades de desenho, mas, mesmo assim, a experiência seria significativamente melhor a preto e branco.

De resto, a edição d’A Seita e da Comic Heart é em capa dura, com bom papel brilhante, boa encadernação e boa impressão. No final do livro, há um teaser de duas páginas, a preto e branco, que mostra algumas das cenas que poderemos encontrar no terceiro volume – e que, já agora, dá ainda mais força ao facto dos desenhos de Osvaldo Medina nesta série funcionarem melhor a preto e branco.

Em suma, apesar de levantar boas questões políticas e de um final que nos deixa em suspense, a trama construída por Filipe Duarte Pina para este segundo volume, parece embrulhar-se algo em si mesma. Não obstante, há que assumir que estamos ainda a meio caminho de uma aventura projetada para quatro volumes, que resgata um tipo de banda desenhada – inspirada nos comics americanos – que não temos visto muito por paragens lusas. E que isso já é algo digno de ser assinalado nesta série a acompanhar, enquanto se espera que possa haver melhorias nos próximos dois volumes.


NOTA FINAL (1/10):
6.9



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



-/-

Macho-Alfa #2, Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Ficha técnica
Macho-Alfa #2
Autores: Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 200 x 280 mm
Lançamento: Outubro de 2022

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Macho-Alfa #2 é lançado amanhã na Kingpin Books!


O segundo volume da série de quatro volumes Macho-Alfa, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina, prepara-se para ser lançado amanhã, a partir das 16h, na livraria Kingpin Books, em Lisboa.

Este livro até estava pensado para ser lançado durante o Amadora BD mas, por motivos relacionados com problemas na gráfica que imprimiu o livro, esse mesmo lançamento teve que ser adiado.

Mas não o foi por muito tempo visto que, amanhã, já todos poderão comprar o livro e, como extra, receber um print exclusivo assinado pelos autores.

Abaixo, deixo-vos com a sinopse desta obra das editoras A Seita e Comic Heart.


Macho-Alfa #2, Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina

David é o super-herói Macho-Alfa, a única pessoa com superpoderes em todo o mundo, mas... é desempregado, não tem amigos, e foi renegado por uma sociedade que sempre se aproveitou dos seus poderes para travar as suas guerras e tratar dos seus problemas mais complicados. David caiu numa espiral de depressão... será que alguma vez será aceite pela sociedade? Haverá lugar no mundo para um super-herói reformado? E a terapia, será uma solução para os seus super-problemas? E... pior que tudo... os super-heróis têm MESMO de pagar segurança social??

O segundo volume de Macho-Alfa apresenta-nos novos protagonistas, mais eventos estranhos, novas situações bizarras... e o mesmo super-herói na m***a de sempre!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Análise: Macho-Alfa - Vol. 1

Macho-Alfa - Vol. 1, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Macho-Alfa - Vol. 1, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Macho-Alfa - Vol. 1, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina

Este ano, o Amadora BD trouxe uma certa avalanche de lançamentos por parte da editora A Seita que lançou 8(!) obras durante o evento! E entre esses vários livros, encontra-se este Macho-Alfa, da autoria de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina – um dos meus ilustradores favoritos em Portugal.

Este é o primeiro de quatro volumes. Dizendo assim, o apelo comercial dos que me lêem pode ficar algo refreado, mas deixem-me dizer-vos que, segundo os editores, o volume 2 já está concluído e os autores até já estão a trabalhar no terceiro volume da série. Não tenham, portanto, “medo” que a série fique a meio como, infelizmente, já aconteceu em tantas ocasiões como, aliás, na fantástica série BRK, por exemplo, que também é da autoria de Filipe Duarte Pina, e que ficou “pendurada”.

Macho-Alfa - Vol. 1, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Faço ainda uma nota ao facto de Macho-Alfa ter recebido bastante aclamação por parte da crítica nacional ou não figuraria entre os nomeados para as categorias de Melhor Álbum de Autor Português ou Melhor Argumento de Autor Português nos prémios VINHETAS D’OURO 2021.

Macho-Alfa conta-nos a história de um super-herói português que, munido de uma imensa força sobre-humana, acaba por testemunhar o lado negro de ter mais poderes do que aquilo que, eventualmente, desejaríamos. Ou, por outras palavras, o lado negro de se ser super-herói. E embora a história, pelo menos com base neste primeiro volume, pudesse ser ambientada em qualquer outro ponto do planeta, os autores foram felizes na perspetiva que adotaram para causar uma reflexão em relação à existência de um super-herói na sociedade atual.

É certo que já vários autores suscitaram reflexões semelhantes noutras obras relevantes. Estou a pensar em Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, ou Kick-Ass, de Mark Millar e John Romita Jr., ou mesmo, O Corvo, de Luís Louro. Ainda assim, Macho-Alfa tem a sua própria singularidade e as reflexões que levanta trazem uma boa dose de frescura ao tema. Se em crianças sonhámos ser super-heróis, para lutar contra o mal e recolher a admiração dos outros, será que a experiência seria assim tão abonatória para todos, caso existisse mesmo, entre nós, uma pessoa com superpoderes?

Macho-Alfa - Vol. 1, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Filipe Duarte Pina, o argumentista, parece, pelo menos com base naquilo que nos dá a conhecer neste primeiro tomo, discordar desse lado romântico de se ser super-herói. O protagonista David Ferreira, que pesa 980kgs e é 100 vezes mais forte do que o normal, está à beira de uma depressão. A sua força é tanta que ele até já evita dar apertos de mão ou abraços, com o medo de magoar ou destruir aqueles que o rodeiam. E, além disso, é desempregado e a sua situação amorosa encontra-se em crise, também. Já para não falar nos processos judiciais que lhe começam a ser impostos devido à destruição e violência que, embora levadas pela vontade de fazer o bem, as suas ações têm causado.

Entretanto, e esta talvez seja a coisa de que mais gostei no argumento, o autor serve-se bem da sociedade atual e da forma como a mesma cultiva o mediatismo fácil, através dos reality shows e das redes sociais, em que se procura dar destaque ao imediato e ao chocante, sem grandes pudores ou noções éticas. Muito bem lembrado, Filipe Duarte Pina. Isto vai fazer com que a trama ganhe uma boa dose de verosimilhança e que torne a tal reflexão, já levantada com a existência de um super-herói na sociedade em que vivemos, ainda mais profunda a um segundo nível de interpretação.

Macho-Alfa - Vol. 1, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
O argumento está, pois, muito bem pensado e mantém o leitor colado à história da primeira à última página. Aprecio especialmente o facto de ser uma narrativa que se disfarça de leve e fácil, mas que, lá bem no fundo, é muito mais pesada e trágica do que aquilo que parece. Pelo menos, neste primeiro livro, claro. Estou a falar sem saber qual o rumo que, entretanto, os autores darão aos volumes vindouros.

Quanto às ilustrações, o trabalho de Osvaldo Medina – um dos meus ilustradores preferidos nacionais, não me canso de dizer – traz consigo uma certa garantia de qualidade, originalidade e dinamismo. O protagonista tem bastante personalidade, do ponto de vista conceptual, e as cenas de ação, violentas e gory, são um mimo para os olhos. Na variedade de planos de câmara e nos enquadramentos, o autor também demonstra ser um especialista.

Como crítica menos positiva, diria que, de uma forma global, já vi trabalhos mais impressionantes de Osvaldo Medina. Embora reconheça que haverá, certamente, uma possível tentativa de adoção de um traço mais dinâmico e cru, pareceu-me que certas expressões faciais das personagens e linguagem corporal das mesmas, poderiam ter recebido mais aprumo na conceção. Ou que as mesmas foram feitas com uma certa “pressa”. Posso estar a ser um bocado injusto pois, ainda assim, é um livro muito bem ilustrado e cheio de personalidade. Mas, lá está, de autores muito competentes “exigimos”, por vezes, e de forma algo injusta, reconheço, mais. Não obstante, a qualidade de Osvaldo Medina está lá, mas num registo mais cru, diria.

Macho-Alfa - Vol. 1, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
E penso também que a colorização da obra não ajuda a mesma a ser mais marcante e apelativa. As cores parecem-me demasiado digitais (if you know what I mean), com as luzes e sombras a apresentarem-se pouco orgânicas e muito de "plástico". É certo que é uma escolha dos autores e que, pelo menos, é um estilo que se se nos oferece coerente da primeira à última página. Ainda assim, parece-me que as cores tornam o desenho menos bonito e apetecível.

Sei que se traça de uma afirmação bastante subjetiva mas é curioso que, olhando para a arte final de Osvaldo Medina a preto e branco - que é partilhada nos extras do livro -, faz-me desejar que o livro fosse a preto e branco. Afinal de contas, já todos vimos as maravilhas visuais de que Osvaldo Medina é capaz, a preto e branco, em Kong The King, por exemplo. Todavia, também compreendo que este tipo de histórias – de super-heróis – a piscar o olho aos comics americanos receba cores vivas por uma questão de identidade.

Em termos de edição, o trabalho d’A Seita e da Comic Heart continua muito bom. O livro é em capa dura, com bom papel, adequado à arte e ao tipo de história, e uma boa encadernação e impressão. Traz ainda um caderno de extras, muito pertinentes, em que nos é mostrado o processo de composição de três vinhetas, em quatro fases, desde o esboço inicial até à arte final. Há ainda espaço para esboços que funcionaram como estudos de personagens e duas páginas –a preto e branco - que servem como teaser para o tomo 2.

Concluindo, Macho-Alfa surpreende pelo argumento refrescante e desenho dinâmico que nos oferece e deixa-nos com água na boca para o que aí pode vir nos próximos 3 volumes da obra. Os alicerces para que esta seja uma das (mini) séries mais interessantes da banda desenhada nacional estão bem assentes. Agora resta apenas que haja uma boa cadência temporal no lançamento dos próximos 3 álbuns e que a história e os desenhos dos mesmos façam justiça a tudo o que foi (bastante bem feito) neste primeiro volume. Recomenda-se.


NOTA FINAL (1/10):
8.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-

Macho-Alfa - Vol. 1, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Ficha técnica
Macho-Alfa Vol. 1
Autores: Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina
Editora: A Seita e Comic Heart
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Outubro de 2021

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Filipe Pina e Osvaldo Medina estão de regresso à BD!



Para aqueles que foram ao Amadora BD, isto não será uma grande novidade, pois o livro Macho-Alfa esteve bem presente no evento, com os autores a promover a sua mais recente obra, através de uma apresentação e das sessões de autógrafos. Mas, para outros leitores, acredito que esta seja uma bela novidade!

Isto porque Filipe Pina (autor de BRK) ou Osvaldo Medina (A Fórmula da Felicidade ou Kong the King) acabam de lançar a mini-série Macho-Alfa, pelas editoras A Seita e Comic Heart.

Macho-Alfa é uma mini-série que se divide em 4 volumes. O segundo já está desenhado e o terceiro já está a começar. Isto para dizer que não tenham medo de investir na série, pois parece que a mesma está bem pensada e em bom ritmo de desenvolvimento por parte dos autores.

Abaixo, fiquem com a imagem

Macho-Alfa Vol. 1, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina

David Ferreira: cem vezes mais forte que o normal, pesa 980kg e estima-se que seja praticamente invulnerável. Exerce um constante auto-controlo para não magoar ninguém, evitando mesmo apertar mãos ou dar abraços.

David é o super-herói Macho-Alfa, a única pessoa com superpoderes em Portugal, e em todo o mundo. Mas... é desempregado, não tem amigos, e foi totalmente afastado de uma sociedade que ainda recentemente se apoiava nas suas incríveis habilidades para ganhar as suas guerras. Após tentativas de suicídio, David entra numa depressão que parece não ter fim. Será que alguma vez a sociedade o aceitará? Haverá lugar no mundo para um super-herói reformado e desiludido? E... os super-heróis têm mesmo de pagar segurança social?

Filipe Duarte Pina (escritor de BRK, com arte de Filipe Andrade, e mais recentemente vencedor e Melhor Argumento no Amadora BD com a curta Monstros, com arte de Nuno Lourenço Rodrigues, na antologia The Lisbon Studio Series: Silêncio) une forças a Osvaldo Medina, um dos veteranos da BD em Portugal (Kong the King, A Fórmula da Felicidade, etc...) para assinar o primeiro volume de quatro de uma saga super-heróica, super-divertida e super... trágica! Sim, Macho-Alfa é uma tragicomédia em 4 tomos, com um final (lá para o quarto e último álbum) que ninguém imagina e que irá surpreender. Mas até lá chegarmos, temos vários volumes de diversão, de humor negro e situações caricatas, hilariantes e tristes, e o caminho de um herói trágico que começa aqui, no volume um.

Haverá terapia para super-heróis? Ou, como diz Filipe Homem Fonseca no seu prefácio, “Pode-se tirar o Macho do Alfa, mas não se pode tirar o Alfa do Macho”?

-/-

Ficha técnica
Macho-Alfa Vol. 1
Autores: Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina
Editora: A Seita e Comic Heart
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 14,00€

domingo, 15 de novembro de 2020

Análise: TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes

TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes


TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes
TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes, de Vários Autores 

As TLS Series são antologias de banda desenhada portuguesa, que foram desenvolvidas por autores do célebre The Lisbon Studio, um estúdio que reúne alguns dos nomes mais conceituados da produção nacional de banda desenhada, dos últimos anos. Este grupo de artistas partilhou em Lisboa um espaço físico para desenvolver o seu trabalho. E estes álbuns são antologias que reúnem os seus trabalhos durante esse tempo. Desde 2017, foram editados quatro volumes da coleção TLS Series, intitulados, respetivamente, Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes

Cada volume tem, pois, por isso, um tema subjacente, um ponto de partida, do qual todos os autores partem para criar a sua história. Os primeiros 3 volumes foram co-editados pela Comic Heart e pela G. Floy Studio. O quarto e último volume, Raízes, foi editado pela editora A Seita e pela Comic Heart. 

TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes
Eventualmente, poderia analisar cada volume ou cada história em separado. Haveria, certamente, legitimidade para o fazer dessa forma. Mas não creio que seja de uma forma isolada que devemos olhar para estas antologias de banda desenhada. Pelo menos, não é assim que olho para elas. Mais do que enaltecer esta ou aquela história, ou apontar este ou aquele defeito, penso que o mais importante é mesmo ter em conta que esta iniciativa foi fantástica do primeiro ao último volume, da primeira à última página. Enquanto catálogo da produção nacional, enquanto prospetor de exercícios narrativos na área da bd e, claro, enquanto iniciativa incubadora da criatividade nacional. Não há como não tirar o chapéu a esta ideia e aos seus resultados concretos. Que boa maneira de mostrar que há muitos autores portugueses com elevada competência na banda desenhada. 

Olhando para estes quatro livros, há algo que rapidamente sobressai e que é raro de encontrar quando se trata de um antologia de banda desenhada que, quase sempre, procura reunir trabalhos seminais de bd independente. Pois, se há uma coisa que é característica à banda desenhada independente – ou a qualquer outra arte independente – é o habitual pouco profissionalismo da edição, por mais bela que seja, no caso da banda desenhada, a arte ou a ideia subjacente à história. Mas isso é uma coisa que não existe nestes TLS Series. Pelo contrário. O produto físico não só é profissional ao mais alto nível, como apresenta um aspeto bonito, tornando estes livros em algo extremamente apetecível do ponto de vista de um colecionador de banda desenhada. 

TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes
As capas são duras e grossas, o papel é baço e de boa gramagem e há sempre um ou mais prefácios que introduzem cada um dos volumes. Cada livro é composto por 6 ou 7 histórias, em que apenas uma dessas histórias é impressa a cores, enquanto que as restantes são a preto e branco. O autor da história a cores de cada livro é também o autor responsável pela capa desse mesmo volume. E que magníficas capas (e contracapas) elas são! Eu bem que defendo que a construção de uma capa deverá ser algo que um autor de banda desenhada deve levar muito em conta. Especialmente nos dias de hoje. E estes quatro volumes apresentam capas muito bem concebidas. Atribuo destaque aos volumes Cidades e Viagens, que têm capas verdadeiramente incríveis. Embora Silêncio e Raízes também tenham boas capas, diga-se. 

Há também uma homogeneidade em todos os livros no que diz respeito à edição, ao design dos livros. Tudo isto nos permite verificar que é um trabalho conjunto de amor à 9ª arte. E poder testemunhar isso nestas magníficas antologias que, ainda por cima, têm um preço tão simpático, é uma grande oportunidade que, a meu ver, um fã de bd não deve deixar passar. 

TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes
Quanto às histórias, temos argumentos, ilustrações e linguagens de todo o tipo. Traços mais "cartoonizados", traços mais realistas... há de tudo um pouco. A heterogeneidade de histórias existe mas é-nos dada, conforme já referido, em cuidadas edições que almejam alcançar uma homogeneidade e uma harmonia que são raras encontrar em antologias de banda desenhada. Há diversidade mas  também há harmonia em torno dessa diversidade.

Olhando de forma geral para as histórias que aqui temos, é justo afirmar que há qualidade em todas elas e em todos os géneros adoptados pela fantástica galeria de autores que compõem estes livros. 

Apenas para nomear as minhas favoritas, diria que Quiosque, de Joana Afonso; Muralha de Filipe Andrade; O Rosto do Fantasma, de Marta Teives e Pedro Moura; Deslumbre e One Way, de Bárbara Lopes; Monte Morte, de Jorge Coelho e André Oliveira; Tempo, de Paula Bivar de Sousa; Escolha do Dia, de Nuno Rodrigues e Pedro Ribeiro Ferreira; e Franzi, de Nuno Saraiva, merecem a minha preferência. E isto sem desprimor para todas as restantes histórias a que não faço menção. 

TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes

Finalmente, quero ainda destacar que o que acho mais incrível nestas antologias é que se vê que há um óbvio carinho comum entres os autores que fizeram parte do The Lisbon Studio. Uma sensação de pertença e de comunidade que aquece o coração daqueles que lêem estes livros. E se antologias de banda desenhada lançadas com esta qualidade de edição e de design, e com tantos autores consagrados de banda desenhada são raras, o que dizer quando, a isso tudo, se soma o afeto que emana deste projeto? Algo ímpar e que merece ser acarinhado por todos os que amam banda desenhada. Da minha parte, a única coisa que lamento é saber que estas TLS Series chegaram ao fim. Fica uma vazio por preencher. 

Pequeno comentário final: o primeiro volume desta coleção, o Cidades, há muito se encontra esgotado em todo o lado. Portanto, aproveito para agradecer aos meus caríssimos José Hartvig de Freitas e Bruno Caetano por me terem fornecido um dos últimos exemplares que ainda era possível recuperar. 



NOTA FINAL (1/10): 
9.0 


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/- 

TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes
Fichas técnicas
 
TLS Series - Cidades 
Autores: Dileydi Florez, Filipe Andrade, Gonçalo Duarte, Joana Afonso, João Tércio, Marta Teives, Pedro Moura, Ricardo Cabral 
Editora: G. Floy / Comic Heart 
Páginas: 120, a preto e branco (inclui uma história a cores) 
Encadernação: Capa dura 
Lançamento: 2017 

TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes
TLS Series - Silêncio 
Autores: André Oliveira, Bárbara Lopes, Darsy Fernandes, Filipe Pina, Jorge Coelho, Marta Teives, Nuno Rodrigues, Paula Bivar de Sousa, Pedro Moura, Pedro Ribeiro Ferreira, Ricardo Cabral 
Editora: G. Floy / Comic Heart 
Páginas: 144, a preto e branco (inclui uma história a cores) 
Encadernação: Capa dura 
Lançamento: 2017 

TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes
TLS Series - Viagens 
Autores: Dileydi Florez, Filipe Andrade, Nuno Rodrigues, Nuno Saraiva, Pedro Ribeiro Ferreira, Quico Nogueira, Ricardo Cabral 
Editora: G. Floy / Comic Heart 
Páginas: 128, a preto e branco (inclui uma história a cores) 
Encadernação: Capa dura 
Lançamento: Maio de 2018 

TLS Series - Cidades, Silêncio, Viagens e Raízes
TLS Series - Raízes 
Autores: Ana Branco, Bárbara Lopes, Filipe Andrade, Marta Teives, Nuno Saraiva, Pedro Moura, Quico Nogueira, Ricardo Cabral 
Editora: A Seita / Comic Heart 
Páginas: 136, a preto e branco (inclui uma história a cores) 
Encadernação: Capa dura 
Lançamento: Março de 2020