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terça-feira, 30 de novembro de 2021

Análise: Sapiens Imperium

Sapiens Imperium, de Sam Timel e Jorge Miguel - Arte de Autor e A Seita

Sapiens Imperium, de Sam Timel e Jorge Miguel - Arte de Autor e A Seita
Sapiens Imperium, de Sam Timel e Jorge Miguel

Depois do fantástico Shanghai Dream nos ter levado ao passado, através de um drama ambientado na Segunda Guerra Mundial, o autor português Jorge Miguel, que muitas cartas dá no universo da banda desenhada franco-belga vê, num curto espaço de tempo, um segundo livro seu publicado em Portugal pelas editoras Arte de Autor e A Seita. Mas, se o álbum anterior foi histórico, este Sapiens Imperium não poderia ser mais futurista. E, desta vez, no lugar de Philippe Thirault, o autor português aparece acompanhado pelo americano Sam Timel.

Há que dizer que Sapiens Imperium se apresenta como uma obra de ficção científica cheia de potencial e uma forte ambição. E embora seja publicada como um one-shot, uma história auto-contida em si mesma, a verdade é que há aqui espaço para muito mais. E quando falo em “muito mais” refiro-me a uma maior e mais complexa exploração narrativa das boas ideias que Sam Timel congeminou. E, talvez por isso, não seja de admirar que a última legenda do livro seja “Fim do Primeiro Ciclo”. O que traz consigo a promessa de que, mesmo tendo em conta que este livro se fecha a si mesmo, há (haveria!) espaço para muito mais.

Sapiens Imperium, de Sam Timel e Jorge Miguel - Arte de Autor e A Seita
E essa característica, podendo ser extremamente positiva, e bem apetecível para o nosso imaginário, também acaba por ser o calcanhar de Aquiles da obra, a meu ver. É que, esta sensação de subaproveitamento, de demasiadas coisas para poucas páginas (embora sejam 120, ainda assim) e de alguma aleatoriedade de ideias, está presente ao longo de toda a leitura.

A história leva-nos, como já referi, para uma distopia futurista, passada num local e num tempo longínquos. O universo é governado, de forma autoritária, pelo chefe dos Kerkans. Quanto à dinastia dos Khelek, depois de deposta, foi aprisionada em Tazma, uma lua abandonada, onde o seu povo passou a viver no subsolo. Entretanto, passou-se muito tempo e começa a surgir uma onda de revolta por parte dos Khelek, que têm que fazer trabalhos forçados para a produção de algas, que são indispensáveis à vida do Império. No fundo, a clássica situação de um povo que é escravizado em prole de um outro. 

E da revolta que se vai sentindo junto dos Khelek, começa a sobressair a jovem Xinthia, que protagoniza este Sapiens Imperium, numa luta pela revolução e pelo direito à liberdade. Entretanto, Xinthia acaba por se apaixonar pelo filho do imperador que, contrariamente à sua família, até consegue nutrir simpatia e respeito pelo povo Khelek. 

Sapiens Imperium, de Sam Timel e Jorge Miguel - Arte de Autor e A Seita
Desta forma, estamos perante uma narrativa carregada de alguns lugares comuns e uma certa sensação de déjà vu. Nesse sentido, e ainda que tudo seja ambientado num universo muito particular e original, fica-se com a sensação de que já se viu, leu ou ouviu esta mesma história noutro(s) lugar(es).

Há também uma coisa muito interessante que são os Metalnautas, uma espécie de robots de guerra, que são controlados à distância por humanos. Essa premissa destes soldados de guerra mecânicos é, por si só, muito interessante e merecia, por ventura, uma maior e mais complexa exploração por parte de Timel. Como também o merecia a boa dose de criaturas e locais imaginados por Timel e ilustrados por Jorge Miguel.

É, pois, por isso, que considero que, em termos narrativos, Timel parece munir a história de muitas pontas soltas. Há imensas boas ideias, aqui e ali, mas parece que são "atiradas" para a história de uma forma algo aleatória.

Sapiens Imperium, de Sam Timel e Jorge Miguel - Arte de Autor e A Seita
Quanto ao trabalho de ilustração, do português Jorge Miguel, devo dizer que o autor continua a dar mostras das suas enormes capacidades enquanto bom desenhador. Apresentando um traço rápido, mas elegante, que até me remete para alguns autores clássicos da literatura franco-belga, a forma como ilustra expressões faciais, a linguagem corporal das personagens, as naves espaciais e até algumas figuras alienígenas, é praticamente sempre muito bem conseguida. Por vezes, passamos por uma ou outra vinheta que parece ter sido desenhada um pouco mais "à pressa" e que talvez tivesse merecido a colocação de mais detalhes por parte do autor, mas, logo a seguir, deparamo-nos com uma ilustração muito apelativa, que nos faz esquecer a anterior ilustração. E sim, no final, Jorge Miguel consegue encher o olho de um admirador de boas ilustrações. 

Sendo clássico no estilo, mas, neste caso, desenhando uma história futurista, diria que o autor arriscou bastante e a coisa até podia ter saído mal. Mas não. O seu trabalho é deveras interessante, merecendo ainda um destaque pela sua versatilidade para histórias de cariz bem diferente. Shanghai Dream não tem nada a ver com Sapiens Imperium e em ambas as obras, Jorge Miguel, nos dá ilustrações muito cativantes e soluções narrativas eficazes para bem nos contar ambas as histórias.

Sapiens Imperium, de Sam Timel e Jorge Miguel - Arte de Autor e A Seita
A edição que a Arte de Autor e A Seita prepararam para esta obra, mantém os padrões de qualidade que poderíamos antever: capa dura, bom papel brilhante e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação. Saliente-se ainda o dossier de 8 páginas, no final da obra, que permite um mergulho mais profundo neste universo, através de uma cronologia e de algumas imagens preparatórias relativamente ao visual da obra.

Sobre o objeto físico, há uma coisa, que importa dar conta, que diz respeito ao excesso de texto que aparece na capa e contracapa. Senão, vejamos: há uma síntese logo na capa(!), há um pequeno resumo na contracapa num texto maior em dimensão e depois ainda há um terceiro resumo da obra. O texto não se repete mas complementa-se, é certo, mas acho que todo este texto, para lá de excessivo, tira muita beleza ao livro em si. Bem sei que na versão original, sucedeu o mesmo, portanto não é algo que deva ser imputado às editoras portuguesas, mas, presumivelmente, aos autores. 

A ilustração escolhida para a capa também não é a melhor, quanto a mim, se tivermos em conta a enorme capacidade de ilustração de Jorge Miguel. Não é que seja uma capa feia. Quantas dezenas de livros com capas mais feias não haverão, mas, lá está, conhecendo a capacidade do autor português, acho que a capa poderia ser melhor e mais cativante.

Em suma, este é um daqueles livros que me deixa com sentimentos mistos. A ideia, o potencial da mesma, as ilustrações fantásticas de Jorge Miguel… tudo isso está a um nível de excelência. Mas depois, há a tal sensação de déjà vu e de ideias recicladas de outras obras, bem como a introdução de muitas coisas, que tendo potencial, poderiam ser mais bem aproveitadas. Seja como for, é um bom livro, ainda assim, especialmente recomendado aos adeptos da ficção científica.


NOTA FINAL (1/10):
8.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Sapiens Imperium, de Sam Timel e Jorge Miguel - Arte de Autor e A Seita

Ficha técnica
Sapiens Imperium
Autores: Sam Timel e Jorge Miguel
Editora: Arte de Autor e A Seita
Páginas: 120, a cores
Encadernação: capa dura
Lançamento: Setembro de 2021

quinta-feira, 24 de junho de 2021

À Conversa Com: A Seita e Arte de Autor - Novidades Conjuntas para o 2º Semestre de 2021

Hoje é dia de vos dar a conhecer (mais) novidades fantásticas em relação a novos lançamentos de banda desenhada para o segundo semestre de 2021!!!

Desta vez falei, não com uma, mas com duas editoras. Bem, na verdade, é quase como se os esforços das editoras A Seita e Arte de Autor tivessem formado uma nova editora à parte, desde que se uniram, no ano passado, para lançar o interessantíssimo livro Shanghai Dream, de Philippe Thirault e Jorge Miguel. Esse esforço conjunto correu tão bem que as duas editoras preparam novos lançamentos "a meias". E, se no ano passado foi apenas um livro em parceira, em 2021 serão três livros!

E todo eles, sem exceção, me deixam super empolgado! E há uma obra em concreto que vai marcar, certamente, o ano de 2021 como uma das mais importantes obras!

Ora, vejam lá, mais abaixo, as fantásticas surpresas que nos esperam da parceria entre A Seita e a Arte de Autor!


Entrevista



1. Como foi este primeiro semestre do ano editorial de 2021 para vós? Editaram tudo o que tinham planeado ou houve títulos que foram adiados para o segundo semestre de 2021 (ou mesmo para 2022)?
A parceria entre a Arte de Autor e A Seita começou no ano passado, e o primeiro livro que editámos saiu em Dezembro, o Shanghai Dream de Philippe Thirault e Jorge Miguel. Portanto, e sem mais lançamentos, é difícil apresentar um “balanço” típico. Podemos dizer que o livro foi um dos mais vendidos de ambas as editoras, e que olhando para a “racionalização” da distribuição que fizemos entre as duas editoras para chegar ao máximo de pontos de venda possíveis, o projecto foi muito bem sucedido.


2. Quais são os vossos lançamentos agendados para o segundo semestre de 2021?
Depois do lançamento deste projecto, as duas editoras analisaram o seu “stock” de direitos comprados, bem como o de livros que pretendiam adquirir. Neste momento, decidimos colaborar em dois títulos (ver abaixo), e temos também uma lista de livros que queremos fazer em conjunto. Tentámos já num caso a compra dos direitos de uma série francesa, mas acabámos por perder para outra editora (os fãs portugueses vão ficar muito felizes quando ela for anunciada, diga-se).

Os três lançamentos que podemos desde já anunciar são já para o segundo semestre, com um deles a entrar no mercado provavelmente já em Julho, se tudo correr bem.

Em primeiro lugar, iremos lançar um livro estranhamento esquecido na história da edição da BD no nosso país: Os Olhos do Gato, que foi a primeira colaboração entre Moebius e Jodorowsky, ainda no tempo da revista Métal Hurlant, antes de começarem a trabalhar no Incal. Uma obra inédita no nosso país, que inclui um texto super interessante do Jodorowsky e um dossier nosso, que esperamos que seja interessante para os leitores portugueses. É um livro incrivelmente original, que desafia um pouco a noção daquilo que entendemos por BD, mas que é também um conjunto absolutamente maravilhoso de desenhos do Moebius (lançamento previsto em finais de Julho).

Os Olhos do Gato
de Jodorowsky e Moebius


O segundo livro que as duas editoras vão co-editar era mais previsível para os nossos fãs: trata-se de mais um livro desenhado pelo Jorge Miguel para o mercado... francês? Franco-americano? Sapiens Imperium, com argumento do americano Sam Timel, acaba de sair em França, e será publicado cá com lançamento na Amadora, onde terá lugar também uma bela exposição retrospectiva da obra de Jorge Miguel. Acreditamos que este seja o seu melhor trabalho de sempre em termos de desenho, uma belíssima space-opera.

Sapiens Imperium
de Sam Timel e Jorge Miguel 

E finalmente: decidimos colaborar na edição de uma das obras-primas da banda desenhada francesa, O Combate Quotidiano, de Manu Larcenet, que planeamos editar em dois volumes de 120 pgs. cada, a começar já em Setembro, com o segundo volume marcado para início de 2022. Vencedor do Prémio de Melhor Álbum, no festival de Angoulême, originalmente publicado em 4 volumes, é uma história magnífica do dia-a-dia, que vendeu mais de meio milhão de livros em França, e que esperamos seja também um sucesso no nosso país.

O Combate Quotidiano
de Manu Larcenet

E, claro, esperamos poder colaborar em mais projectos durante o ano de 2022, sendo que já estamos a fazer propostas a editoras várias para mais títulos.

Vanda Rodrigues (Arte de Autor)
José de Freitas (A Seita)