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quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Análise: A Vida Oculta de Fernando Pessoa

A Vida Oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado e Alexandre Leoni - Iguana - Penguin Random House

A Vida Oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado e Alexandre Leoni - Iguana - Penguin Random House
A Vida Oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado e Alexandre Leoni

Uma das novidades da banda desenhada nacional que chegou recentemente às livrarias portuguesas foi este A Vida Oculta de Fernando Pessoa, do português André F. Morgado e do brasileiro Alexandre Leoni. Na verdade, trata-se de uma reedição da obra, já que a mesma havia sido originalmente lançada há cerca de 10 anos. A esse propósito, até já aqui fiz um comparativo entre a anterior edição da Bicho Carpinteiro e a atual edição da Iguana, que volta a colocar esta obra de sucesso no mercado português.

Desde a primeira página, o leitor percebe que A Vida Oculta de Fernando Pessoa não é uma biografia convencional sobre o mais famoso poeta português. A premissa é ousada: Fernando Pessoa é-nos dado como um agente secreto de uma sociedade que combate zombies e forças ocultas. Este conceito estabelece imediatamente um tom fantástico, mas ainda assim credível dentro do universo criado, se tivermos em conta que o próprio Fernando Pessoa era um adepto e estudioso dos temas referentes ao ocultismo, por um lado, e que a abordagem ao tema do fantástico assenta numa analogia feita com base nos heterónimos de Pessoa. 

A Vida Oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado e Alexandre Leoni - Iguana - Penguin Random House
Cada heterónimo surge, pois, como uma entidade com voz própria, mas sempre ligada à psique do poeta. A utilização do diálogo entre Fernando Pessoa e os seus heterónimos permite à obra a capacidade de explorar conflitos internos de forma dramática e, por vezes, humorística, o que me agrada especialmente.

Além disso, as inserções de poemas de Pessoa são outro dos pontos altos da obra. Em várias cenas de introspeção - ou mesmo de ação - André Morgado consegue fazer com que versos reais de Pessoa apareçam naturalmente nos diálogos da trama, reforçando o ambiente ou a emoção do momento, e sem que os referidos versos pareçam ali metidos "a martelo". Há toda uma orgânica que é bem conseguida por parte do argumentista. 

A juntar a isso, uma das grandes forças deste A Vida Oculta de Fernando Pessoa é a sua originalidade. Reunir no mesmo universo a figura de Fernando Pessoa com zombies pode parecer inusitado e até rebuscado, mas acaba por funcionar de forma credível, pois permite ao leitor descobrir como os heterónimos absorviam e refletiam a existência de Pessoa. Essa dinâmica acrescenta profundidade à obra e dá ao leitor uma visão simultaneamente lúdica e complexa da mente de Pessoa.

A Vida Oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado e Alexandre Leoni - Iguana - Penguin Random House
A história não se prende apenas à ação, mas também procura transmitir a complexidade do poeta, os seus pensamentos e a influência dos heterónimos, cada um com a sua própria personalidade e forma de interagir com o mundo. 

Apesar de esta ser uma obra que considero importante, não acho que esteja isenta de algumas fragilidades. Há uma certa sensação de pressa na progressão dos acontecimentos, com determinados conflitos ou revelações importantes a surgirem de forma abrupta, deixando a sensação de que poderiam ter sido explorados mais profundamente. 

Apesar da boa ideia original, o desenvolvimento da história parece portanto apressado e, em alguns momentos, algo confuso. Certos elementos são introduzidos mas não são completamente explorados ou concluídos, deixando pontas soltas. Acho que é daqueles casos que ou o livro deveria ser mais simples na abordagem ou, ousando ser mais complexo, ter mais tempo (páginas) para melhor explanar os seus conceitos.

A Vida Oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado e Alexandre Leoni - Iguana - Penguin Random House
Mesmo assim, e apesar destas fragilidades, o equilíbrio entre a fantasia e a homenagem a Pessoa é bastante bem conseguido. A obra consegue ser acessível a quem não conhece profundamente o poeta, mas também contém referências que agradam ao leitor mais literário, criando uma ponte entre entretenimento e cultura. 

Se até agora tenho falado do trabalho de André Morgado, não menos importante é o trabalho do brasileiro Alexandre Leoni que se mostra especialmente inspirado neste livro, dotando-o de uma singularidade especial e ilustrações facilmente cativantes que contribuem decisivamente para a identidade do livro. O traço estilizado de Leoni consegue transmitir tanto a intensidade da ação quanto a subtileza emocional das personagens.

As personagens são carismáticas e empáticas, sendo capazes de transmitir tanto a ação quanto a atmosfera sombria que envolve o enredo. A expressividade das personagens e a utilização de cores reforçam a narrativa, criando um complemento visual que funciona muito bem com o texto, tornando a leitura mais envolvente e dinâmica. Mesmo que certos cenários possam ser algo despidos em demasia, parece-me que a abordagem estilizada do autor compensa em larga escala essa situação.

A Vida Oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado e Alexandre Leoni - Iguana - Penguin Random House
Seja como for, é indiscutível que estamos perante um livro marcante da BD nacional e que tem a valência de trazer consigo um forte apelo comercial. O facto de misturar aventura, fantasia, literatura clássica e horror é chamativa e potencialmente atrai tanto fãs de banda desenhada como admiradores de Pessoa. 

A edição da Iguana apresenta uma nova ilustração de capa, sendo esta em capa dura baça. No miolo, o livro é dotado por bom papel brilhante e uma boa encadernação e impressão. Infelizmente, esta edição da obra não apresenta a bonita galeria de imagens de autores convidados que a edição anterior da Bicho Carpinteiro apresentava. De qualquer maneira, para uma comparação mais desenvolvida entre as duas edições, recomendo a (re)leitura do comparativo que fiz, há uns dias, a este propósito.

Em suma, A Vida Oculta de Fernando Pessoa é uma obra original e criativa, que combina biografia, fantasia e horror de forma surpreendente. Apesar de alguns elementos ficarem por explorar e o ritmo ser por vezes forçosamente acelerado, é uma história envolvente, bem ilustrada e respeitosa em relação à obra de Pessoa. É um livro que merece ser lido tanto pela sua ousadia conceptual quanto pelo cuidado com que a poesia e os heterónimos de Fernando Pessoa são tratados, mostrando uma mistura rara de entretenimento e homenagem literária.


NOTA FINAL (1/10):
8.7

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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A Vida Oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado e Alexandre Leoni - Iguana - Penguin Random House

Ficha técnica
A Vida Oculta de Fernando Pessoa
Autores: André F. Morgado e Alexandre Leoni
Editora: Iguana
Páginas: 96, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Outubro de 2025

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Comparativo: "A Vida Oculta de Fernando Pessoa" pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro

 

Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro

Hoje trago-vos um comparativo entre as edições da Iguana e da Bicho Carpinteiro referentes ao livro A Vida Oculta de Fernando Pessoa, da autoria de André F. Morgado e Alexandre Leoni.

Este é um livro muito interessante e altamente recomendado, que consegue o duplo feito de entreter enquanto educa, numa história mirabolante que coloca Fernando Pessoa em contacto com zombies - e com os seus famosos heterónimos - e onde o português Andre F. Morgado se revelou especialmente inspirado. Além de que o autor brasileiro Alexandre Leoni também nos brinda com um belo e cativante trabalho nas ilustrações e cores. É um livro que, aliás, até espero vir a analisar num futuro próximo.

Mas, por ora, concentro-me nas principais diferenças entre as duas edições.

Recordo que a obra começou por ser editada pela Bicho Carpinteiro, uma editora independente da qual André Morgado é um dos responsáveis. Isso aconteceu há 10 anos. Chegou a haver, depois, uma segunda edição da obra pela mesma editora, mas agora que o livro se encontrava esgotado e virtualmente impossível de encontrar, é com bons olhos que vejo que este importante trabalho, com forte apelo comercial, volta a estar disponível. Neste caso, pelas mãos da Iguana, uma chancela do gigante editorial Penguin Random House.

Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


Embora não haja diferenças gritantes entres as duas edições, há várias coisas que foram alteradas nesta nova edição da Iguana.

Desde logo, a ilustração da capa. Volta a ser um belo desenho, bem chamativo e impactante aquele que a nova edição da Iguana enverga, mas creio que, mesmo assim, o desenho contido na edição da Bicho Carpinteiro - na sua segunda edição, que é aquela que utilizo para este comparativo - era ainda melhor. Não o refiro apenas por uma questão de gosto pessoal, mas porque retratava melhor a iconografia de Fernando Pessoa. Não é que o desenho da mais recente edição não nos faça pensar em Fernando Pessoa assim que o vislumbramos. Faz. Mas não creio que a ligação seja tão óbvia. Poderia ser uma personagem - um assassino contratado? - de, por exemplo, um filme de ação.

Avançando, também o grafismo dos tipos de letra utilizados na capa e contracapa foram alterados. Tratando-se aqui de uma questão de gosto pessoal, devo confessar que também preferia os da edição da Bicho Carpinteiro. Eram mais bem arrumadinhos e tinham um estilo vintage que era mais do meu agrado, embora também reconheça que o lettering do título da nova edição seja chamativo.

De resto, e ainda olhando para as capas, ambos os livros apresentam capa dura baça, sendo que a edição da Iguana apresenta verniz localizado no título da obra, o que é um pormenor bem-vindo.

O formato do livro é praticamente o mesmo nas duas edições, embora a edição da Iguana seja ligeiramente - meio centímetro, talvez - menor do que a edição da Bicho Carpinteiro.


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


A questão da dimensão dá para ver bem quando colocamos as duas lombadas lado a lado. 

Lombadas essas que, sendo naturalmente diferentes, me fazem preferir, desta vez, a edição da Iguana que é mais chamativa e mais legível.


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


No miolo, devo dizer que o tratamento de cores das duas edições é bastante semelhante entre si, sendo as duas edições bastante boas. Não notei diferenças, nem para melhor, nem para pior, entre as duas edições.

Nota positiva para uma nova legendagem que, embora seja fiel à legendagem da edição da Bicho Carpinteiro, é ainda mais legível. 

Além disso, dei conta que o texto da obra foi melhorado nesta edição da Iguana, o que é sempre louvável.


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


Tendo em conta que o grafismo na capa foi alterado, também é natural que o grafismo da folha de rosto tenha sido alterado.


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


A nova edição da Iguana apresenta guardas mais giras e em linha com o tom da história.


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


A edição da Bicho Carpinteiro apresentava 3 páginas com esboços de Alexandre Leoni - bem bonitos, diga-se - e, felizmente, isso foi mantido na edição da Iguana.


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


Contudo, foi com alguma pena que verifiquei que a galeria de convidados presente na edição da Bicho Carpinteiro, que contava com 14 ilustrações belíssimas (fantásticas, mesmo!) de Fernando Pessoa, não tenha sido recuperada para esta edição. Diria que é, pois, a grande falta que sinto de uma edição para a outra porque, de resto, a nova edição da Iguana faz jus à edição da Bicho Carpinteiro, verificando-se um equilíbrio saudável entre ambas.

E, acima de tudo, sendo sempre isso, a meu ver, a coisa mais importante a reter, esta nova edição da Iguana volta a tornar disponível no nosso mercado, uma banda desenhada de origem luso-brasileira que não só foi um sucesso aquando do seu lançamento, como continua atual e apelativa para uma nova geração de leitores que começa a aprofundar os seus conhecimentos sobre aquele que foi, é e será, o maior poeta português de sempre. 

Eis um belo livro que recomendo e que será analisado por aqui brevemente.

Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro



segunda-feira, 29 de setembro de 2025

BD sobre o Fernando Pessoa e Zombies está de volta!



A editora Iguana prepara-se para reeditar para o mercado nacional a banda desenhada A Vida Oculta de Fernando Pessoa, do português André F. Morgado e do brasileiro Alexandre Leoni!

Esta é uma banda desenhada muito original e bem conseguida que, desde logo, recebeu muitos elogios do público e crítica, tendo sido um sucesso.

Como tal, é com bons olhos que vejo esta reedição da obra, desta vez pelas mãos de uma outra editora, que conta com uma nova (e bela!) ilustração de capa. Trata-se de um livro que recomendo a quem não conheceu. Ou a quem ainda não ofereceu.

O livro chega às livrarias a partir do próximo dia 6 de Outubro e já se encontra em pré-venda no site da editora.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais.


A Vida Oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado e Alexandre Leoni

Uma das melhores BD portuguesas está de volta com uma nova edição

Como explicar os heterónimos de Fernando Pessoa aos mais novos? Foi o que André Morgado pensou quando era professor. A solução foi inventar uma história em que o poeta era, secretamente, um exterminador de zombies que inventava outros nomes – os heterónimos – para que ninguém o descobrisse.
O resultado foi esta brilhante e original banda desenhada, editada há dez anos e reeditada agora pela Iguana, com uma nova capa.

Em plena Lisboa do século XX, Fernando Pessoa move-se entre dois mundos: o que todos conhecem… e o das sombras, onde opera como agente de uma ordem secreta que combate uma ameaça silenciosa prestes a alastrar-se pela sociedade portuguesa.

Ele sabe que só há uma forma de o impedir. Mas cada missão deixa marcas. E essas marcas obrigam-no a escrever.

Nesta narrativa sombria e original, onde o real se mistura com o sobrenatural, A Vida Oculta de Fernando Pessoa transforma o nascimento dos heterónimos numa resposta a um trauma profundo — uma tentativa de manter vivos aqueles que foi forçado a eliminar.

Dez anos depois da publicação original, um dos principais sucessos comerciais da BD nacional está de regresso… e dizem que o mal também.

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Ficha técnica
A Vida Oculta de Fernando Pessoa
Autores: André F. Morgado e Alexandre Leoni
Editora: Iguana
Páginas: 96, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 mm
PVP: 17,85€

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Análise: A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos

A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos, de André F. Morgado e Kachisou - A Seita e Comic Heart

A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos, de André F. Morgado e Kachisou - A Seita e Comic Heart
A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos, de André F. Morgado e Kachisou

Uma das mais recentes bandas desenhadas editadas pela editora A Seita - e, desta feita, através da chancela Comic Heart - foi este A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos que hoje vos trago, que junta pela primeira vez a dupla nacional formada por André F. Morgado, no argumento, e Kachisou, no desenho. Autores dos quais, de resto, tenho as melhores impressões com base nas suas obras, das quais posso citar, por exemplo, O Infeliz Pacto de George Walden (Morgado) Quero Voar (Kachisou) ou as recentes adaptações de obras clássicas da literatura portuguesa da coleção da Levoir, que André Morgado tem feito com vários ilustradores brasileiros.

Olhando para as obras criadas até então, este A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos apresenta-se como uma alternativa deveras diferente face àquilo que os autores nos deram até agora. Este é um livro cuja catalogação afigura-se-me difícil. Dizer que é um livro para um público mais novo está correto, sim, embora seja uma afirmação redutora, pois este é um livro munido de um humor maduro, carregado de referências, que, por isso, também pode (e deve) ser lido por um público mais adulto.

A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos apresenta-se como uma fábula moderna, com simpáticos animais - exceptuando os amargurados ratos - e reveste-se de um humor que varia entre o inteligente e o absurdo. 

A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos, de André F. Morgado e Kachisou - A Seita e Comic Heart
A história centra-se num sapo entediado com o pântano e com a sua rotina, que, num impulso de inconformismo, procura uma nova aventura. O que se segue, no entanto, não é o épico tradicional que o protagonista poderia imaginar, mas sim uma espiral de acontecimentos caóticos onde os animais passam a conseguir adquirir as características que nunca tiveram, como a capacidade para falar, para voar, para cantar, para saltar... enfim, para viver tal como os humanos. E tudo isso é conseguido através de amuletos mágicos comercializados pelo Sapo. Entretanto, a comunidade dos ratos decide ficar com enormes corpos musculados e procura a sua vingança por, historicamente, ser um classe animal tão desprezada e mal tratada por todos. No meio disto tudo, ainda entram na trama as caralhotas (pães) de Almeirim. Bem, só por aqui já dá para ver como este desejo do Sapo em alterar a sua vida nos leva a situações divertidas e inusitadas.

É praticamente impossível que o início desta aventura não nos remeta para O Vento nos Salgueiros, de Kenneth Grahame, e brilhantemente adaptado para banda desenhada por Michel Plessix, quando o sapo dessa história também sente um chamamento interior para ter uma aventura que o transporte da sua vida rotineira no pântano. Mas, claro, o Sapo deste Caos e Coaxos é ainda mais propenso à criação de caos à sua volta. E coaxos!

A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos, de André F. Morgado e Kachisou - A Seita e Comic Heart
A estrutura da história é interessante. O início arranca um pouco aos tropeções, mas essa sensação é rapidamente contrariada quando a trama ganha corpo e se estabelece um fio condutor entre os diversos episódios e as personagens excêntricas que vão surgindo. André F. Morgado demonstra um bom domínio da narrativa ao conseguir amarrar todos os elementos aparentemente aleatórios num final que fecha o ciclo da história com coerência e até com uma subtil moral. 

É nesse equilíbrio entre o nonsense e a estrutura clássica da fábula que reside uma das maiores forças da obra, porque embora o absurdo impere, nunca se sente que o autor perdeu o controlo da narrativa. Ao contrário, percebe-se uma intenção clara de brincar com as convenções do género e de subverter expectativas, algo que contribui para manter o interesse do leitor ao longo da obra. Ao longo da leitura somos constantemente surpreendidos, seja com personagens inusitadas, seja com referências pop inesperadas ou com momentos de quebra da quarta parede.

Nesse ponto, o humor do livro merece um destaque especial. À primeira vista, pode parecer algo infantil ou “silly”, como se se limitasse ao jogo de palavras ou ao absurdo pelo absurdo. No entanto, uma leitura mais atenta revela um humor multifacetado, com várias camadas de referências culturais, literárias e musicais, jogos linguísticos e até críticas subtis ao nosso quotidiano. Essa combinação torna o livro acessível a leitores mais jovens, mas também muito satisfatório para leitores mais maduros que consigam captar as referências. André Morgado tem aqui o mérito de escrever com despretensão sem cair na banalidade. Também é de salientar o trabalho de diálogo e caracterização das personagens. A escrita é eficaz e ritmada, com bons tempos cómicos e um domínio interessante do absurdo como ferramenta narrativa, sem que este se torne cansativo.

A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos, de André F. Morgado e Kachisou - A Seita e Comic Heart
Todavia, se posso criticar algo, diria que a opção de incluir notas explicativas para duas ou três referências, como as de Tyler Durden ou de Chad Channing, por exemplo, me parece desajustada porque, lá está, se a intenção é criar um humor referencial, então parte da graça está precisamente na capacidade do leitor de reconhecer (ou não) as tais referências. Explicá-las tira-lhes impacto e, em certos casos, mata a própria piada, além de criar uma inconsistência, pois algumas referências são explicadas e outras não, o que leva à sensação de que se subestima a inteligência do leitor. Mas, enfim, é apenas uma nota pequena que, naturalmente, não belisca em nada a qualidade da obra.

Falando em qualidade, o trabalho de ilustração de Kachisou é outro ponto alto da publicação. O traço "cartoonesco", simplista, leve e expressivo, combina perfeitamente com o tom da narrativa. A paleta bicromática em tons esverdeados confere identidade visual à obra, sem a sobrecarregar. 

A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos, de André F. Morgado e Kachisou - A Seita e Comic Heart
As ilustrações complementam e, em vários momentos, amplificam o humor e o ritmo da narrativa. O Sapo tem expressões que, por si só, são inequívocas em transmitir as suas emoções e pensamentos. Admito que não comecei por adorar os desenhos da autora nas primeiras páginas, mas não é menos verdade que acabei o livro a achar que Kachisou tinha aqui feito (mais) um belo trabalho. E que é diferente de tudo o que a autora já nos deu nas suas outras obras de banda desenhada. Prova superada, portanto.

Refiro ainda que a pertinência deste livro no panorama editorial português também é digna de nota. O humor tem escassa representação na banda desenhada nacional, especialmente com esta combinação de humor absurdo, fábula e sátira, o que faz com que esta A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos seja ainda mais bem-vinda. A aposta das editoras A Seita e Comic Heart revela, neste sentido, uma visão interessante e arriscada, num mercado que nem sempre valoriza este tipo de propostas.

De resto, a edição do livro é em capa dura baça, com bom papel baço e um bom trabalho quanto à impressão e encadernação. No final, como extra, há um conjunto de ilustrações sobre a obra, feitas por artistas convidados.

Em suma, A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos traz consigo algo de lúdico e libertador, convidando à gargalhada, ao espanto e, ao mesmo tempo, à reflexão sobre o que pedimos à vida e sobre as consequências dos nossos desejos. É um livro que vale pela diversão, mas que recompensa também a atenção e a releitura do leitor. 


NOTA FINAL (1/10):
7.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos, de André F. Morgado e Kachisou - A Seita e Comic Heart

Ficha técnica
A Aventura do Sapo: Caos e Coaxos
Autores: André F. Morgado e Kachisou
Editora: A Seita e Comic Heart
Páginas: 174 páginas, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 23 x 16 cm
Lançamento: Maio de 2025

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Análise: Frei Luís de Sousa

Frei Luís de Sousa, de André F. Morgado e Gustavo Borges - Levoir - RTP

Frei Luís de Sousa, de André F. Morgado e Gustavo Borges - Levoir - RTP
Frei Luís de Sousa, de André F. Morgado e Gustavo Borges

A coleção dos Clássicos da Literatura Portuguesa em BDque a editora Levoir tem vindo a publicar em parceria com a RTP, aproxima-se do seu final.

O 13º volume da coleção é dedicado Frei Luís de Sousa, o clássico do romantismo português de Almeida Garrett, que conta com desenhos do brasileiro Gustavo Borges e com argumento do português André Morgado que, com este livro, contabiliza quatro álbuns desta coleção, nomeadamente: Carta a El-Rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil, Farsa de Inês Pereira e O Fato Novo do Sultão. Em todos eles, o autor se fez acompanhar por um ilustrador brasileiro.

Frei Luís de Sousa é um drama que retrata a tragédia de uma família portuguesa no século XVI, marcada pelo conflito entre o dever patriótico e os sentimentos pessoais. A peça gira em torno de D. Madalena de Vilhena, que acredita ter perdido o marido, D. João de Portugal, na Batalha de Alcácer-Quibir. Anos depois, ela casa-se com D. Manuel de Sousa Coutinho, com quem tem uma filha, Maria. 

Frei Luís de Sousa, de André F. Morgado e Gustavo Borges - Levoir - RTP
No entanto, o regresso inesperado de D. João obriga os protagonistas a renunciar à sua felicidade, por respeito às normas sociais e religiosas da época. O desfecho trágico para as personagens simboliza bem a opressão das convenções sociais sobre os desejos individuais, refletindo também uma crítica ao contexto político vivido à época em Portugal.

Esta nova perspetiva sobre o drama romântico de Almeida Garrett que nos é dada por André Morgado e Gustavo Borges, preserva bem a essência da obra original, tendo-me deixado bastante agradado, pois considero que torna o romance original mais acessível a um público contemporâneo, especialmente aos leitores mais jovens.​

André F. Morgado, responsável pela adaptação do texto, demonstra sensibilidade ao equilibrar a linguagem original com uma abordagem mais contemporânea. Este equilíbrio permite que a profundidade temática da obra seja mantida, ao mesmo tempo que a torna mais acessível aos leitores atuais, conseguindo condensar eficazmente os principais momentos-chave da peça de Almeida Garrett sem sacrificar a profundidade emocional nem a complexidade temática. 

Frei Luís de Sousa, de André F. Morgado e Gustavo Borges - Levoir - RTP
Ao sintetizar o essencial, a obra preserva as ideias centrais do drama original — o conflito entre dever e desejo, a identidade nacional e a tragédia do destino — tornando-os acessíveis a novos públicos, mas sem os banalizar. É natural que alguns dos temas como o sebastianismo e a crítica social implícita, elementos centrais na obra de Garrett, sejam aqui trazidos mais à superfície, mas também é óbvio que não poderíamos esperar que uma adaptação para BD com 64 páginas o pudesse fazer de forma muito aprofundada. Mesmo assim, alguma da simbologia presente na obra original, como o incêndio do palácio que reforça o claro presságio e a atmosfera trágica da narrativa original, é  preservado nesta adaptação. 

As ilustrações de Gustavo Borges, com o seu traço marcadamente "cartoonesco", revela-se uma escolha surpreendentemente eficaz. Longe de desvalorizar o conteúdo trágico da obra, este estilo acentua a expressividade das personagens, captando com intensidade as suas emoções — da angústia de Maria à inquietação de D. Manuel. Para além disso, a dinâmica da planificação, com variação constante na dimensão e organização das vinhetas, confere um ritmo visual que se ajusta bem ao tom dramático e introspectivo da história. Admito que um maior cuidado no aprimoramento dos cenários teria elevado a experiência a outro patamar. No entanto, também tenho que conceder que o método de utilizar texturas para preencher os cenários acaba por se revelar uma boa opção.

Frei Luís de Sousa, de André F. Morgado e Gustavo Borges - Levoir - RTP
Mas o mais importante é mesmo o facto do trabalho de Gustavo Borges se destacar pela sua capacidade de traduzir visualmente a intensidade emocional da história. As ilustrações capturam com precisão os dilemas internos das personagens e o ambiente opressivo da época, enriquecendo a experiência de leitura e proporcionando uma nova dimensão à obra de Garrett.​

A edição da Levoir deste livro não foge à fórmula utilizada nos restantes volumes da coleção, com o livro a apresentar capa dura baça, bom papel brilhante, boa encadernação e boa impressão. No final, há um caderno informativo com 6 páginas sobre o autor, a obra e o contexto histórico-social da mesma, que promove o cariz didático da edição.

Em suma, um dos aspetos mais notáveis deste Frei Luís de Sousa é a sua coesão narrativa e competência estética, que o coloca entre os melhores livros desta coleção da Levoir. Ao combinar fidelidade ao texto original com uma apresentação visual envolvente, a obra consegue, se uma forma simples, transmitir a complexidade emocional e temática do drama de Garrett a uma nova geração de leitores. 

NOTA FINAL (1/10):
8.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Frei Luís de Sousa, de André F. Morgado e Gustavo Borges - Levoir - RTP

Ficha técnica
Frei Luís de Sousa
Autores: André F. Morgado e Gustavo Borges
Baseado na obra original de: Ameida Garrett
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Janeiro de 2025

quarta-feira, 12 de março de 2025

"Frei Luís de Sousa" ganha versão em banda desenhada!



A Levoir e a a RTP publicaram ontem o mais recente livro da sua coleção Clássicos da Literatura Portuguesa em BD

Desta feita, estamos perante a adaptação da obra original de Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, que é adaptada para banda desenhada pelo português André Morgado e pelo brasileiro Gustavo Borges.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais.


Frei Luís de Sousa, de André F. Morgado e Gustavo Borges

A 11 de Março a Levoir editou o volume 13 da colecção Clássicos da Literatura Portuguesa, Frei Luís de Sousa.

Drama, da autoria de Almeida Garrett, escrito em 1843 e publicado em 1844, é considerado a obra-prima do teatro romântico e uma das obras-primas da literatura portuguesa.

Almeida Garrett nasceu no Porto, em Fevereiro de 1799. Escritor e dramaturgo romântico, foi o proponente da edificação do Teatro Nacional de D. Maria II e da criação do Conservatório. 

Considerado o introdutor do romantismo em Portugal é considerado o escritor mais completo de todo o século XIX. Os seus textos são marcados pela temática patriótica com forte caráter dramático, típicos dos escritores românticos. Garrett foi um activista político, lutando contra o absolutismo, foi deputado, orador, cronista-mor, par do reino, ministro e secretário de estado honorário português.
O enredo passa-se no século XVI, época em que Portugal se encontra sob o domínio espanhol. D. Manuel de Sousa Coutinho, Telmo e Maria desejam a independência do Reino. A ação decorre vinte e um anos após a histórica Batalha de Alcácer-Quibir (1578), onde D. João de Portugal foi dado como morto.

Passaram-se sete anos e D. Madalena de Vilhena casa com D. Manuel de Sousa Coutinho, de quem tem uma filha, Maria.

Maria nasceu de um «crime», de um sentimento que nunca deveria ter existido. Porque, ainda casada com D. João, Madalena amou Manuel assim que o viu. Por isso é que Telmo, que acredita que o primeiro marido de Madalena está vivo, tem dificuldade em ver Maria como filha legítima, lamentando a sorte que teve, considerando-a digna de «nascer em melhor estado». Maria é uma criança de 13 anos, frágil, inteligente e astuta.

A doença e a fatalidade perseguem-na. O velho aio, continua à espera do regresso de D. João. Este aparece, disfarçado de romeiro, e dá a conhecer a sua verdadeira identidade. O desfecho é trágico: Maria morre na igreja, no preciso momento em que os seus pais professam.

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Ficha técnica
Frei Luís de Sousa
Autores: André F. Morgado e Gustavo Borges
Baseado na obra original de: Ameida Garrett
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
PVP: 15,90€

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Magazine Especial - 5 Livros ilustrados para quem gosta de BD

Magazine Especial - 5 Livros ilustrados para quem gosta de BD


Embora o Vinheta 2020 se centre mais na análise a livros de banda desenhada, não é tão incomum assim que, de tempos a tempos, vos traga algum livro de ilustração que me marcou. Até porque sou muito adepto de um (bom) livro ilustrado.

Um livro ilustrado e um livro de banda desenhada são coisas diferentes, bem o sei, mas também têm alguns pontos em comum.

Com efeito, quatro dos cinco livros ilustrados que hoje vos trago neste Magazine Especial, até foram feitos por autores cuja obra em banda desenhada é mais conhecida do que a obra em livros ilustrados. Trago-vos também as obras recentes de dois nacionais, mais conhecidos pela sua obra em banda desenhada.

Assim, sem mais demora, eis 5 livros ilustrados, todos bons, que li recentemente e que merecem o meu destaque neste especial:

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Análise: O Fato Novo do Sultão

O Fato Novo do Sultão, de André Morgado e Luiza Strauss - Levoir e RTP

O Fato Novo do Sultão, de André Morgado e Luiza Strauss - Levoir e RTP
O Fato Novo do Sultão, de André Morgado e Luiza Strauss

De todos os livros que a Levoir já lançou na sua coleção de Clássicos da Literatura Portuguesa em BD - e que eu tive oportunidade de ler - este O Fato Novo do Sultão, do português André Morgado e da brasileira Luiza Strauss, que adaptam para banda desenhada a obra homónima de Guerra Junqueiro, é dos livros que se apresentam mais diferentes dos demais. Para o bom e para o mau.

Comecemos, naturalmente, pelo "bom". 

Quer em termos de história, que já no seu texto original era bastante simples, quer em termos de desenhos, este livro não tem pudor (e por que razão haveria de ter pudor?!) em ser totalmente endereçado a um público jovem. Melhor dizendo, a um público infantil.

O Fato Novo do Sultão, de André Morgado e Luiza Strauss - Levoir e RTP
Assim que abrimos o livro e somos confrontados com os desenhos de Luiza Strauss, que são expressivos, coloridos e muito simplistas, parece que somos automaticamente levados para o universo da infância. Os traços são lineares, os pormenores são parcos e as expressões e linguagem corporal das personagens são "cartoonescas". Tudo de (muito) fácil absorção.

Nesse sentido, também o argumento de André Morgado se apresenta escorreito, simples e funcional, cumprindo bem com os seus intuitos de resumir e adaptar o texto de Guerra Junqueiro que consiste numa sátira política, onde o humor afiado do autor critica a monarquia e os poderes estabelecidos no Portugal da época, em finais do século XIX.

Nesse tempo, Portugal vivia um período de especial instabilidade, com o fracasso do modelo político monárquico a tornar-se evidente para muitos intelectuais, incluindo Junqueiro, que se identificava com as ideias republicanas e liberais. O autor utiliza, pois, a alegoria do "fato novo" para criticar a superficialidade e as falsas aparências que caracterizavam a monarquia. Na verdade, a narrativa criada por Guerra Junqueiro remete à famosa história infantil As Roupas Novas do Imperador, de Hans Christian Andersen, em que um governante é ludibriado por falsos alfaiates que o convencem de estar vestido com um traje magnífico, quando, na verdade, ele está nu. Junqueiro adaptou esta alegoria para satirizar a figura do rei português e, mais amplamente, o sistema político da monarquia portuguesa, que, na sua visão, se baseava em ilusões e enganos. 

O Fato Novo do Sultão, de André Morgado e Luiza Strauss - Levoir e RTP
E sendo claro que, nesta versão para banda desenhada, a mensagem original está lá bem visível, a sua apresentação é feita de forma leve e simples, não imergindo muito o leitor em questões mais densamente politizadas. Por falar em leitor, enquanto que as outras obras contidas nesta coleção me parecem mais adequadas para um público adolescente e, noutros casos, adulto, este O Fato Novo do Sultão parece-me para um público mais infantil ainda. Imagino que o público adolescente, bem como o adulto, talvez considere esta obra demasiado simplória.

O que me leva ao lado "mau" da obra.

É que, com efeito, este O Fato Novo do Sultão talvez seja curto para voos mais altos ou para chegar a um maior público. É simples, resume a história à sua essência e é de fácil apreensão, sim, mas também não ousa ir mais longe do que isso, sendo algo unilateral na sua abordagem à obra de Guerra Junqueiro. E as próprias ilustrações de Luiza Strauss - que nem sequer são más - parecem apenas cumprir com os mínimos olímpicos. 

O Fato Novo do Sultão, de André Morgado e Luiza Strauss - Levoir e RTP
E, lá está, mesmo aquela narrativa que diz que "o simples é mais adequado para os mais novos" também peca por ser redutora. É que, como são vários os exemplos, há muitas obras direcionadas para os mais novos que estão cheias de detalhes e que são esculpidas com o maior dos rigores. É quase como achar que a música pop "tem que ser" simples na sua estrutura e conceção. Poderá sê-lo, claro, mas não é mandatório que o seja. Vão ouvir o Michael Jackson, para verem como a música pop pode ser ricamente complexa. Também na BD isso acontece: há obras que são para crianças, mas que, quando lidas por um público mais adulto, ganham novos e mais profundos significados. Ou ilustrações que funcionando bem para os mais novos, são feitas com um detalhe incrível.

Ou seja, e dito por outras palavras, este O Fato Novo do Sultão cumpre, sim, mas apenas para um público (bastante) mais novo, já que não há grande alcance da obra para um público mais adulto ou mesmo adolescente. Olhando para o copo "meio cheio" também considero justo afirmar que este é um livro que deveria figurar nas "bibliotecas de turma" das escolas primárias do país. Há muita falta de banda desenhada para um público entre os 6 e os 9 anos - especialmente de origem nacional - e, tendo isso em vista, o lançamento deste O Fato Novo do Sultão é bem-vindo.

A edição da Levoir é em tudo igual à dos outros livros da coleção. Apresenta capa dura baça, bom papel brilhante no interior e uma boa encadernação e impressão. No final, há um bom dossier de extras que permite ao leitor saber mais acerca da obra, do autor e do contexto histórico da mesma.

Em suma, O Fato Novo do Sultão é uma daquelas bandas desenhadas claramente destinadas a um público mais infantil que, não perdendo nunca esse propósito de vista, acaba por fazer um belo trabalho, possuindo um simples mas eficaz desenho de Luiza Strauss e um igualmente simples mas eficaz argumento de André Morgado. No entanto, é uma obra que se torna quiçá insuficiente para um leitor mais experiente ou exigente.


NOTA FINAL (1/10):
6.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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O Fato Novo do Sultão, de André Morgado e Luiza Strauss - Levoir e RTP

Ficha técnica
O Fato Novo do Sultão
Autores: André Morgado e Luiza Strauss
Adaptação a partir da obra original de: Guerra Junqueiro
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Junho de 2024