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quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Comparativo: "A Vida Oculta de Fernando Pessoa" pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro

 

Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro

Hoje trago-vos um comparativo entre as edições da Iguana e da Bicho Carpinteiro referentes ao livro A Vida Oculta de Fernando Pessoa, da autoria de André F. Morgado e Alexandre Leoni.

Este é um livro muito interessante e altamente recomendado, que consegue o duplo feito de entreter enquanto educa, numa história mirabolante que coloca Fernando Pessoa em contacto com zombies - e com os seus famosos heterónimos - e onde o português Andre F. Morgado se revelou especialmente inspirado. Além de que o autor brasileiro Alexandre Leoni também nos brinda com um belo e cativante trabalho nas ilustrações e cores. É um livro que, aliás, até espero vir a analisar num futuro próximo.

Mas, por ora, concentro-me nas principais diferenças entre as duas edições.

Recordo que a obra começou por ser editada pela Bicho Carpinteiro, uma editora independente da qual André Morgado é um dos responsáveis. Isso aconteceu há 10 anos. Chegou a haver, depois, uma segunda edição da obra pela mesma editora, mas agora que o livro se encontrava esgotado e virtualmente impossível de encontrar, é com bons olhos que vejo que este importante trabalho, com forte apelo comercial, volta a estar disponível. Neste caso, pelas mãos da Iguana, uma chancela do gigante editorial Penguin Random House.

Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


Embora não haja diferenças gritantes entres as duas edições, há várias coisas que foram alteradas nesta nova edição da Iguana.

Desde logo, a ilustração da capa. Volta a ser um belo desenho, bem chamativo e impactante aquele que a nova edição da Iguana enverga, mas creio que, mesmo assim, o desenho contido na edição da Bicho Carpinteiro - na sua segunda edição, que é aquela que utilizo para este comparativo - era ainda melhor. Não o refiro apenas por uma questão de gosto pessoal, mas porque retratava melhor a iconografia de Fernando Pessoa. Não é que o desenho da mais recente edição não nos faça pensar em Fernando Pessoa assim que o vislumbramos. Faz. Mas não creio que a ligação seja tão óbvia. Poderia ser uma personagem - um assassino contratado? - de, por exemplo, um filme de ação.

Avançando, também o grafismo dos tipos de letra utilizados na capa e contracapa foram alterados. Tratando-se aqui de uma questão de gosto pessoal, devo confessar que também preferia os da edição da Bicho Carpinteiro. Eram mais bem arrumadinhos e tinham um estilo vintage que era mais do meu agrado, embora também reconheça que o lettering do título da nova edição seja chamativo.

De resto, e ainda olhando para as capas, ambos os livros apresentam capa dura baça, sendo que a edição da Iguana apresenta verniz localizado no título da obra, o que é um pormenor bem-vindo.

O formato do livro é praticamente o mesmo nas duas edições, embora a edição da Iguana seja ligeiramente - meio centímetro, talvez - menor do que a edição da Bicho Carpinteiro.


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


A questão da dimensão dá para ver bem quando colocamos as duas lombadas lado a lado. 

Lombadas essas que, sendo naturalmente diferentes, me fazem preferir, desta vez, a edição da Iguana que é mais chamativa e mais legível.


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


No miolo, devo dizer que o tratamento de cores das duas edições é bastante semelhante entre si, sendo as duas edições bastante boas. Não notei diferenças, nem para melhor, nem para pior, entre as duas edições.

Nota positiva para uma nova legendagem que, embora seja fiel à legendagem da edição da Bicho Carpinteiro, é ainda mais legível. 

Além disso, dei conta que o texto da obra foi melhorado nesta edição da Iguana, o que é sempre louvável.


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


Tendo em conta que o grafismo na capa foi alterado, também é natural que o grafismo da folha de rosto tenha sido alterado.


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


A nova edição da Iguana apresenta guardas mais giras e em linha com o tom da história.


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


A edição da Bicho Carpinteiro apresentava 3 páginas com esboços de Alexandre Leoni - bem bonitos, diga-se - e, felizmente, isso foi mantido na edição da Iguana.


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


Contudo, foi com alguma pena que verifiquei que a galeria de convidados presente na edição da Bicho Carpinteiro, que contava com 14 ilustrações belíssimas (fantásticas, mesmo!) de Fernando Pessoa, não tenha sido recuperada para esta edição. Diria que é, pois, a grande falta que sinto de uma edição para a outra porque, de resto, a nova edição da Iguana faz jus à edição da Bicho Carpinteiro, verificando-se um equilíbrio saudável entre ambas.

E, acima de tudo, sendo sempre isso, a meu ver, a coisa mais importante a reter, esta nova edição da Iguana volta a tornar disponível no nosso mercado, uma banda desenhada de origem luso-brasileira que não só foi um sucesso aquando do seu lançamento, como continua atual e apelativa para uma nova geração de leitores que começa a aprofundar os seus conhecimentos sobre aquele que foi, é e será, o maior poeta português de sempre. 

Eis um belo livro que recomendo e que será analisado por aqui brevemente.

Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro



terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Magazine Especial - 5 Livros ilustrados para quem gosta de BD

Magazine Especial - 5 Livros ilustrados para quem gosta de BD


Embora o Vinheta 2020 se centre mais na análise a livros de banda desenhada, não é tão incomum assim que, de tempos a tempos, vos traga algum livro de ilustração que me marcou. Até porque sou muito adepto de um (bom) livro ilustrado.

Um livro ilustrado e um livro de banda desenhada são coisas diferentes, bem o sei, mas também têm alguns pontos em comum.

Com efeito, quatro dos cinco livros ilustrados que hoje vos trago neste Magazine Especial, até foram feitos por autores cuja obra em banda desenhada é mais conhecida do que a obra em livros ilustrados. Trago-vos também as obras recentes de dois nacionais, mais conhecidos pela sua obra em banda desenhada.

Assim, sem mais demora, eis 5 livros ilustrados, todos bons, que li recentemente e que merecem o meu destaque neste especial:

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

O Corvo recebe adaptação para os mais novos!


No ano em que celebra 30 anos, O Corvo, uma das personagens mais célebres e acarinhadas da banda desenhada portuguesa, prepara-se para receber uma adaptação para um público infantil sob a forma de um livro ilustrado!

Talvez por isso, a personagem criada por Luís Louro passa a usar o sufixo inho, chamando-se Corvinho.

Esta nova aposta de Luís Louro, dirigida aos mais pequenos, será lançada pela editora A Seita - chancela Bicho Carpinteiro - conforme já aqui tinha sido avançado em primeira mão, no próximo dia 11 de Outubro e terá o nome de O Corvinho - O Menino que queria ser Herói.

Haverá, nesse mesmo dia 11 de Outubro, o lançamento do livro, na Sala do Rei, da Estação do Rossio, em Lisboa.

Posso dizer que estou bastante curioso com esta nova empreitada de Luís Louro, um autor incansável que sempre procura surpreender os seus leitores.

Deixo-vos com algumas das páginas que já são conhecidas.















segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Comparativo: Turma da Mónica - Laços pel' A Seita e pela Panini Comics


Hoje trago-vos um tipo de artigo que sei que os leitores do Vinheta 2020 valorizam bastante: os comparativos entre edições de banda desenhada.

Desta vez, o comparativo centra-se em duas edições lançadas da obra Turma da Mónica - Laços, dos irmãos Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi.

Esta é, aliás, uma belíssima obra, totalmente recomendada, da qual já falei aqui no Vinheta 2020 e que, por isso, vos convido a (re)ler esse artigo.

Nesta doce e ternurenta história que nos leva aos primórdios das aventuras do grupo de amigos mais conhecido de todo o Brasil, Mónica, Cebolinha, Cascão e Magali, somos confrontados com belos e marcantes momentos, e com uma conceção visual das personagens que é diferente daquela que Mauricio de Sousa imortalizou. Ou não estivéssemos, claro, perante a iniciativa Graphic MSP, que procura fazer isso mesmo: recontar, reescrever e reinterpretar as aventuras clássicas das personagens do universo Mauricio de Sousa.

Focando-me, então, na edição brasileira da Panini Comics e na edição portuguesa das editoras A Seita e Bicho Carpinteiro, posso começar por dizer que, relativamente a extras e formato, a edição portuguesa está em linha com a edição brasileira. O formato das duas obras é exatamente o mesmo e as sete páginas de extras também são iguais em termos de conteúdo e arranjo gráfico.

Também as ilustrações utilizadas para a capa e contracapa, bem como o grafismo das mesmas, está igual entre as edições da Panini Comics e d' A Seita.

Mas há edições entre as duas versões, sim.

Em primeiro lugar, na escolha do tipo de acabamento para a capa e para o papel no miolo do livro. 


A edição da Panini apresenta capa brilhante, mas a edição d' A Seita apresenta capa baça. Confesso que, para o estilo de ilustração que nos é dada nesta obra, a opção portuguesa foi a mais ajustada. 

E apesar de, no miolo, o papel da edição portuguesa ser brilhante (couché), tem menos brilho do que o papel usado na versão da Panini. Mais uma vez, é algo bem conseguido. Até vou mais longe e acho mesmo que o papel ainda teria sido mais adequado se fosse baço. Mas é uma opinião muito pessoal.

A edição portuguesa não é, ainda assim, isenta de problemas. Tal como nem sequer a edição original brasileira o é. A verdade é que ambas as edições têm problemas ao nível da impressão.

Não acontece em todas as páginas, mas é frequente que, em algumas delas, as cores da edição portuguesa estejam demasiadamente esbatidas. Quase parecendo um velho livro em que as cores acabaram por ficar desgastadas com a passagem do tempo.

Nas cenas da história que decorrem em ambientes noturnos, é ainda mais notório que houve alguns problemas na boa colorização das cenas. Mas, tal como já referi, também é verdade que, olhando para a edição brasileira, estas mesmas cenas noturnas também estavam demasiado escuras, não sendo por isso a impressão perfeita. O que faz com que, pelo menos em alguns casos, algumas cenas da edição portuguesa, não sendo perfeitas, sejam, ainda assim, mais legíveis do que a edição brasileira. Mas também acontece o contrário noutros casos.

Enfim, esta questão da impressão não é, a meu ver, algo que estrague as edições brasileira ou portuguesa, simplesmente é pena que existam, e que façam com que a obra não receba a edição perfeita que merecia.


Terminando este comparativo, há que relembrar que foi com muito agrado que vi a editora A Seita, através da sua chancela Bicho Carpinteiro, a publicar aquela que será, provavelmente, a mais badalada e conhecida Graphic MSP. É verdade que a língua da versão original já era em português - embora fosse o português brasileiro.

É claro que se as Graphic MSP tivessem uma distribuição omnipresente em Portugal, talvez esta edição d' A Seita não fizesse sentido. Porque, afinal de contas, a língua é a mesma e a edição é parecida. Mas, na prática, o que acontece é que é raro encontrarmos em Portugal estas edições brasileiras. A loja Casa da BD costuma tê-las, é verdade, e também já dei de caras com alguns dos livros desta coleção em quiosques. Mas não são livros fáceis de encontrar. E, de um modo geral, valem muito a pena.

Como tal aplaudo esta iniciativa d' A Seita e Bicho Carpinteiro e convido todos os que ainda não conhecem este livro, a comprá-lo.

É perfeito tanto para crianças, como jovens e adultos!
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terça-feira, 10 de outubro de 2023

Turma da Mónica está de regresso a Portugal!


A Seita, através da sua chancela Bicho Carpinteiro, acabou de anunciar que vai editar a novela gráfica Turma da Mónica - Laços, dos irmãos Cafaggi!

Apenas alguns dias antes do regresso de Maurício de Sousa ao Amadora BD e, portanto, com ótimo sentido de oportunidade, a editora portuguesa prepara-se para editar este belo livro de Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi, que nos dá uma interpretação muito emocional da infância de Mónica, Cebolinha, Cascão e Magali, personagens icónicas que tanto marcaram a nosso crescimento e iniciação na banda desenhada.

É um livro que está inserido nas Graphic MSP e que recomendo totalmente

Gostaria muito, também, que A Seita passasse a editar mais Graphic MSP por cá. Mas veremos como o mercado nacional adere a esta inédita aposta!

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra.


Turma da Mónica - Laços, de Vitor e Lu Cagaggi

O Floquinho desapareceu. Para encontrar o seu cão, Cebolinha conta com os amigos Cascão, Mónica, Magali e, claro, com um "plano infalível".

Em Laços, os irmãos Vitor e Lu Cafaggi colocam os clássicos personagens de Maurício de Sousa numa aventura repleta de emoção, lembranças e perigos.

O filme Turma da Mônica - Laços, lançado em junho de 2019, foi baseada nesta banda desenhada.

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Ficha técnica
Turma da Mónica – Laços
Autores: Vítor Cafaggi e Lu Cafaggi
Editora: A Seita
Páginas: 82, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 16,95€

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Análise: O Infeliz Pacto de George Walden

O Infeliz Pacto de George Walden, de André Morgado e Rodolfo Oliveira - A Seita e Bicho Carpinteiro

O Infeliz Pacto de George Walden, de André Morgado e Rodolfo Oliveira - A Seita e Bicho Carpinteiro
O Infeliz Pacto de George Walden, de André Morgado e Rodolfo Oliveira

Tinha muitas e fortes expetativas para este O Infeliz Pacto de George Walden. Talvez por ter conversado previamente com o autor, André Morgado, a propósito da obra. E também, não nego, desde o primeiro segundo em que vi uma imagem promocional da obra. Isto porque o desenho me pareceu, desde o primeiro segundo, raro para aquilo que, geralmente, é feito em Portugal e muito “franco-belga moderno”, como eu adoro. À boa maneira de Jordi Lafebre, em os Verões Felizes ou de Víctor Pinel, em O Mergulho, só para nomear alguns.

Depois de feita a leitura, e mesmo que este O Infeliz Pacto de George Walden não seja perfeito, torna-se fácil afirmar que é mais um dos grandes lançamentos de banda desenhada nacional deste ano! 

Olhando para a história, a mesma é centrada na vida de George Walden que resolveu fazer um pacto com o Diabo. O que acaba por arrastá-lo para uma vida infeliz de vendedor de ideias roubadas a outrem. Com efeito, o seu sustento é uma pequena loja onde vende as mais variadas ideias, sobre diversos temas, que, depois de roubadas, são literalmente cultivadas por si e armazenadas em pequenos frascos de vidro.

O Infeliz Pacto de George Walden, de André Morgado e Rodolfo Oliveira - A Seita e Bicho Carpinteiro
Mas um dia entra-lhe pela loja uma bonita rapariga, Penélope, que vai abanar o seu mundo e fazer com que queira desprender-se a este pacto com o Diabo, que lhe torna a vida entediante e sem surpresas.

A partir desta bela e original premissa, André Morgado, esculpe uma trama que nos vai deixar indagantes sobre a mesma. À medida que George e Penélope vão somando momentos em conjunto, ambas as personagens vão demonstrando, uma à outra - e até a nós, leitores-, que talvez tenham mais camadas do que aquilo que aparentam ter à primeira vista. Citando o velho chavão: “nem tudo o que parece, é”. 

Não desvendo mais da história, para não correr o risco de estragar alguma boa surpresa àqueles que me lêem e comprarão o livro posteriormente. De qualquer maneira, acho que posso dizer que a ideia da história me cativou muito, que gostei bastante desta premissa de roubar e vender ideias e de fazer pactos com o Diabo. E acho que o final da história, afinal de contas, não sendo grandioso, acabou por ser bastante satisfatório.

O Infeliz Pacto de George Walden, de André Morgado e Rodolfo Oliveira - A Seita e Bicho Carpinteiro
Se críticas menos positivas há a fazer em relação a esta bela história, parece-me que a mesma talvez precisasse de mais páginas para ficar mais bem amadurecida. Bem, na verdade, estamos perante um livro cuja história tem 100 páginas e, por esse motivo, talvez possa parecer que esta minha afirmação não faça muito sentido. Mas deixem-me, então, colocar a questão de uma outra forma. 100 páginas serão, muitas vezes, mais do que suficientes para contar muitas outras histórias. Mas, no caso em questão, parece-me que a premissa e o intento autoral de André Morgado são tão ambiciosos e relevantes, que talvez a obra precisasse de mais espaço para que a narrativa pudesse fluir de forma mais graciosa, tornando, consequentemente a leitura ainda mais marcante. Mais inolvidável.

Exemplifico: a relação entre o protagonista e Penélope parece desenvolver-se de um modo deveras rápido, e de uma forma demasiado objetiva. É certo que a história é contada de forma satisfatória. Mas, por conseguinte, também acabamos por ter alguns diálogos que, cumprindo a sua função básica, são tão lineares e preocupados em passarem-nos a história, que sentimos que poderiam ter sido mais aprofundados por André Morgado. Aliás, ainda falando sobre os diálogos, creio sinceramente que o autor se poderia ter valido mais vezes da narração em voz off – que tão bem inicia o livro – para nos contar (e aprofundar) mais a história, abdicando, desta forma, de alguns diálogos demasiado diretos e lineares.

O Infeliz Pacto de George Walden, de André Morgado e Rodolfo Oliveira - A Seita e Bicho Carpinteiro
Já quanto aos desenhos de Rodolfo Oliveira, tenho a dizer que foi um prazer mergulhar neles. Pertencente àquilo que, de forma certa ou errada, costumo classificar como a “escola franco-belga moderna”, o traço do autor reúne características que fazem com que as personagens sejam cativantes e que os leitores acabem por criar laços com as mesmas. Daí que seja quase impossível não pensar nos belos desenhos de Jordi Lafebre – em os Verões Felizes ou em Apesar de Tudo. Mas também poderíamos mencionar alguns outros autores que têm contribuído para séries recentes da casa Dupuis

Claro que isto não quer dizer que Rodolfo Oliveira não tenha o seu próprio estilo. Claro que o tem. Mas diria que o autor, voluntária ou involuntariamente, parece saber ir beber às influências certas. O que torna os seus desenhos muito funcionais, modernos e apelativos. Diria mesmo: “comerciais”, no bom sentido da palavra. A bela caracterização das expressões e da linguagem corporal das personagens é a sua grande valência, mas também apreciei bastante a sua aplicação de cores e a sua planificação simples, mas variada.

Não obstante, e em sintonia com o que referi mais atrás, sobre uma certa necessidade minha em que o argumento tivesse sido mais aprofundado, o mesmo pode ser dito em relação aos desenhos de Rodolfo Oliveira. São muito, muito giras e por demais cativantes as ilustrações do autor. Mas se existisse nelas uma maior dose de detalhe – especialmente ao nível dos décors interiores – por exemplo, o interior da loja de George poderia ter recebido tantos mais detalhes -, acho que estaríamos perante uma obra ainda mais bela. Mas não me interpretem mal: o que Rodolfo Oliveira nos oferece em O Infeliz Pacto de George Walden agradou-me muitíssimo! Apenas fiquei com a ideia de que, com um pouco de mais detalhe e, quiçá, tempo despendido na ilustração,  o autor talvez ainda pudesse fazer melhor aquilo que já faz tão bem. No fundo, e fazendo uma analogia futebolística, o ilustrador marca dois belos golos, mas deixa-nos com o pensamento de que poderia ter marcado quatro golos.

O Infeliz Pacto de George Walden, de André Morgado e Rodolfo Oliveira - A Seita e Bicho Carpinteiro
A edição d’A Seita e da Bicho Carpinteiro (chancela de André Morgado e de Miguel Peres) está muito bem conseguida. Capa dura, com papel de boa gramagem baço – que funciona muito bem nos desenhos de Rodolfo Oliveira – e um bom trabalho ao nível da impressão e da encadernação. 

Nota muito positiva ainda para a bela galeria de ilustrações feitas por relevantes autores portugueses e brasileiros, como Alexandre Leoni, Diogo Carvalho, Eduardo Medeiros, Joana Afonso, Jorge Miguel, Kachisou, Majory Yokomizo e Ricardo Baptista. Acho sempre positivo que se convidem outros artistas a (re)interpretar as personagens e/ou o universo de uma banda desenhada, consoante os seus diferentes tipos de ilustração. Nota ainda – também positiva – para o facto de existir uma edição limitada a 100 unidades que tem uma ilustração diferente na capa. Isso também aumenta o cariz de colecionismo inerente ao livro, o que é uma coisa benéfica, a meu ver. Prefiro a capa principal, que tem uma ilustração soberba e um ótimo grafismo, mas também gosto da capa alternativa.

Portanto, e concluindo, olhando para a bela premissa e argumento de André Morgado e para o incontestável talento de Rodolfo Oliveira nas ilustrações, havia aqui potencial para este ser um dos melhores livros de banda desenhada portuguesa de sempre! Devido a uma certa necessidade de limar algumas arestas, talvez este O Infeliz Pacto de George Walden não o consiga ser. Mesmo assim, não deixa de ser um excelente livro e uma das propostas mais fortes que a produção nacional de banda desenhada nos ofereceu em 2022. Recomendado!


NOTA FINAL (1/10):
8.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Infeliz Pacto de George Walden, de André Morgado e Rodolfo Oliveira - A Seita e Bicho Carpinteiro

Ficha técnica
O Infeliz Pacto de George Walden
Autores: André Morgado e Rodolfo Oliveira
Editoras: A Seita e Bicho Carpinteiro
Páginas: 116, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 20 x 27 cm
Lançamento: Setembro de 2022

terça-feira, 22 de junho de 2021

Análise: Cemitério dos Sonhos



Cemitério dos Sonhos, de Miguel Peres, Marília Feldhues, Cinthia Fujii, Rodrigo Martins e Rômulo de Oliveira

Cemitério dos Sonhos é um álbum cujo argumento é da autoria do português Miguel Peres – que também nos deu o muito interessante Random, já aqui analisado - e que conta com ilustrações de quatro autores brasileiros: Marília Feldhues, Cinthia Fujii, Rodrigo Martins e Rômulo de Oliveira.

A história de Cemitério dos Sonhos coloca-nos na pele da personagem Dre Amos que tem como profissão ser responsável por testar o bom funcionamento de máquinas de lavar roupa. A sua vida é repetitiva, rotineira e desencantada, não parecendo deixar, de forma alguma, feliz o protagonista. Como se não bastasse, a perda do pai traz consigo um enorme peso na tristeza que inunda a existência de Dre Amos.


Mas um dia é visitado por uma entidade, a personagem Cristal, que o ajuda a colocar em questão e perspetiva certos eventos e traumas, que Amos tinha como certos, e com isso redescobrir-se a si próprio e à alegria de viver. O “Cemitério dos Sonhos” é, pois, uma alegoria para todos os sonhos que deixamos morrer sem que encetemos os esforços necessários para os alcançar. E, neste ponto, creio que Miguel Peres se afirma como um argumentista inteligente e emotivo ao mesmo tempo. O que é de louvar. Se há uma certa racionalidade na forma – e nas soluções – que o autor nos oferece para, nós próprios, combatermos a procrastinação e resignação fácil que, não raras vezes, assombram a luta pelos nossos sonhos, por outro lado, Miguel Peres também se serve de uma boa dose de sentimentalismo – sem nunca se aproximar, sequer, de ser “lamechas” – para nos ajudar a acatar a moral da obra.

É que o facto de ter sido o trauma e amargura que funcionou como principal dínamo para que Dre Amos deixasse de sonhar e de lutar pelos seus desejos, também nos permite ver que as razões da nossa aparente apatia perante a vida até podem ter que ver com certas dificuldades com que nos deparámos em algum momento das nossas vidas. Certos obstáculos que a partir de certa altura nos passaram a marcar e a condicionar. Mas será através da descoberta das causas e consequências desses traumas que, eventualmente, os conseguiremos superar. Vendo bem, Miguel Peres assume aqui uma função de quase psicólogo. Ou, pelo menos, de coach motivacional.

E acho que é aí que a história mais brilha. Se eu encontrar alguém descontente com aquilo que a sua própria vida se tornou, ou infeliz com a pessoa que é e com os sonhos que acabou por deixar de lado, há fortes probabilidades para que lhe recomende que vá ler este Cemitério dos Sonhos.


Como ponto menos positivo em termos de argumento, acho que é na materialização da luta contra os problemas que Miguel Peres quase perde a boa história que tinha em mãos. Ao querer formar uma alegoria mais clássica, com exemplos mais lineares, que na obra aparecem como o combate literal contra os seus problemas, parece-me que o autor não é tão bem-sucedido. Esta é uma história mais profunda e intensa que, a meu ver, dispensava este tipo de combate físico. Bem sei que tudo isto não passa de uma metáfora para a real luta interior, mas insisto que, na minha opinião, fica um bocado over the top. Mesmo assim, o autor demonstra ter a noção exata para não “nadar fora de pé” e a partir do momento em que Dre Amos confronta a sua mãe e a visão do passado desta, a história volta a ganhar a força inicial, acabando por ser bem agarrada por Miguel Peres.

Destaque-se ainda a boa capacidade do autor em resolver a história, de um modo bastante bem conseguido e cinematográfico. Miguel Peres não é um daqueles autores que apenas coloca questões para o ar. Não. Ele também está preocupado em dar-nos respostas. Por isso, apresenta-nos vários caminhos, mas, também, o caminho certo a seguir.


Em termos de arte, há que conceder que este é um álbum audaz. Audaz porque como estamos perante uma história que nos remete para algumas questões metafísicas, ao nível do subconsciente e das realidades alternativas assentes num mundo onírico, naturalmente havia oportunidade para a construção de um universo visual menos mundano e com elementos do fantástico.

No entanto, há que dizer que isso também traz o seu peso negativo à obra. Porque, visualmente falando, Cemitério dos Sonhos acaba por ser demasiado heterogéneo entre si. Os estilos dos quatro ilustradores são demasiado diferentes, o que faz com que não haja uma certa unidade e continuidade na narrativa. Cada um dos quatro autores ilustra uma parte diferente da história. As formas de ilustrar quer de Marília Feldhues, quer de Cinthia Fujii, sendo diferentes, até se tentam aproximar e encaixam bem uma na outra. Mas Rodrigo Martins e Rômulo de Oliveira acabam por apresentar (mais) dois estilos bastante diversos. No final, pode-se então dizer que há 3 grandes “famílias” de estilos ilustrativos.

A minha preferida é a de Rodrigo Martins, que me parece a mais cativante e a que consegue apresentar mais soluções narrativas eficientes. As ilustrações de Marília Feldhues, mesmo rompendo muito com o estilo de Rodrigo Martins, também trazem alguma beleza pueril à história. Já quanto à arte ilustrativa de Rômulo de Oliveira, não fiquei tão convencido. Não é que o autor nos ofereça ilustrações feias ou mal conseguidas, mas pareceu-me um estilo de ilustrar menos atraente do que os demais. Nas suas páginas encontramos um traço mais rígido e grosso, com menos expressividade, e umas vinhetas marcadas com um traço demasiado grosso que também não ajudam ao resultado final.


Mais uma vez refiro: o meu problema nem sequer é o estilo ou a falta de beleza neste ou naquele método de desenho. O meu problema – se é que assim o podemos considerar – é mesmo a demasiada heterogeneidade entre géneros. Embora Miguel Peres faça o que pode e até consiga, de certa forma, dividir a história de forma a que a mesma possa apresentar algumas alterações, que procuram atenuar a diferença do ilustrador – e isto é particularmente bem sucedido na primeira mudança de ilustradores, quando passamos da arte de Rodrigo Martins para a arte de Marília Feldhues - acho que, ainda assim, e tendo em conta que é uma história com um certo grau de complexidade e diferentes camadas ao nível narrativo, teria funcionado melhor com apenas um ilustrador – ou dois, vá.

Quanto à edição, a cargo da editora Bicho Carpinteiro, temos um livro bastante parecido ao já mencionado Random: capa mole, com papel brilhante de boa qualidade e boa encadernação, sendo o livro um pouco mais dobrável e mole do que aquilo que eu gostaria. E uma capa dura permitiria, certamente, dar mais destreza física ao objeto em si. Mesmo assim, tem uma boa apresentação, certamente. Faço uma nota à presença de alguns erros ortográficos que eram facilmente evitáveis. Destaque para a excelente ilustração de capa e para o prefácio de André Oliveira que nos oferece (mais) um texto muito inspirado e profundo.

Em suma, Cemitério dos Sonhos é um álbum muito interessante e sério que versa sobre temáticas verdadeiramente adultas, como a superação pessoal face à persona em que nos tornámos e que é -por vezes - tão distante da persona que queríamos ser. Não é uma obra perfeita, mas traz consigo ideias muito, muito interessantes que são ilustradas por quatro autores brasileiros que, não obstante os seus bons esforços e alguns ótimos momentos no desenho, não conseguem oferecer-nos a unidade visual que seria expetável. Não sendo, portanto, perfeito é, ainda assim, e há que reconhecê-lo, um livro original que merece ser tido em conta pelos leitores de banda desenhada.


NOTA FINAL (1/10):
7.9


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Ficha técnica
Cemitério dos Sonhos
Autores: Miguel Peres, Marília Feldhues, Cinthia Fujii, Rodrigo Martins e Rômulo de Oliveira
Editora: Bicho Carpinteiro
Páginas: 96, a cores
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Setembro de 2016

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Análise: Random

Random, de Miguel Peres, Marcus Aquino e Fabi Marques - Bicho Carpinteiro


Random, de Miguel Peres, Marcus Aquino e Fabi Marques - Bicho Carpinteiro
Random, de Miguel Peres, Marcus Aquino e Fabi Marques

Random é uma obra que resulta dos esforços conjuntos de Miguel Peres, o argumentista, Marcus Aquino, o ilustrador, e Fabi Marques que assegura as cores deste livro. Na verdade, uma nota relevante sobre esta obra, e que vale a pena assinalar, é que foi levada a cabo uma campanha de crowdfunding em 2018, com o intuito de produzir e editar a obra, e que acabou por ser bem sucedida. Enquanto músico, posso dizer que tenho alguma experiência em campanhas de crowdfunding que foram um sucesso, e se há coisa que esta modalidade oferece aos artistas – para além do óbvio alcance de fundos monetários – é um envolvimento recíproco entre criadores e seus seguidores. Antes de sair para o mercado, já a obra conseguiu conquistar um pequeno - ou grande - público que acompanha o artista. E isso é, a meu ver, fundamental e uma forte alavanca para alcançar e delinear um potencial público e mercado. É assim na música e também é assim na banda desenhada, estou certo. Portanto, aplaudo a iniciativa e os apoiantes que acreditaram nesta iniciativa editorial. Valeu a pena!

Falando agora sobre a obra, propriamente dita, devo dizer que fiquei bastante surpreendido – pela positiva – com este lançamento. Olhando, em primeiro lugar, para o conceito deste anti-herói, posso dizer que o português Miguel Peres construiu uma premissa bastante cativante. Confesso até – e acreditem que isto é verdade – que eu já tinha pensado num conceito algo semelhante com o de Random para uma banda desenhada. E digo isto porque, na verdade, Random é uma personagem com que me identifico bastante.

Random, de Miguel Peres, Marcus Aquino e Fabi Marques - Bicho Carpinteiro
Afinal de contas, quem nunca quis fazer o que Random faz? Imaginem todo o tipo de irritações quotidianas - nos transportes públicos, no trabalho, no trânsito, no supermercado, nos serviços, etc - com que nos deparamos ao longo da nossa vida. Quem é que nunca teve pensamentos completamente agressivos de espancar alguém de forma a fazer-lhe entender algo, de uma vez por todas? É claro que, não sendo nós sociopatas, é normal que nunca partamos para a ação e que estas pequenas (por vezes grandes!) irritações não passem de um mero pensamento ou de uma fantasia que acontece apenas no nosso imaginário. E porquê? Bem, porque sendo cidadãos e tendo auto-controlo e inteligência emocional, sabemos compreender que a partida para o conflito, especialmente o físico, poderá trazer-nos vários dissabores. E de muitas formas diferentes!

Mas Random, o protagonista desta obra, parece não se preocupar tanto com as consequências dos seus atos e decide partir para a violência. Especialmente depois de descobrir que o seu amigo, uma boa pessoa, provida de uma grande consciência cívica, tem cancro e poucos dias de vida pela frente. Isto é a gota de água para que Random sinta que o mundo é verdadeiramente injusto e que nem sempre premeia (alguma vez?) os que são bons. Munido de um taco de baseball e de uma máscara bastante original que lhe cobre a cara, começa então a castigar quem lhe falta ao respeito: seja o condutor que não parou na passadeira; a pessoa que não se desvia para que ele saia no metro; a dona de um cão que não apanha os dejetos do animal da rua; a pessoa que, no cinema, come pipocas fazendo demasiado barulho; o condutor “chico-esperto” que rouba o lugar de estacionamento; ou a pessoa a quem o protagonista segura a porta e que nem lhe diz um simples “obrigado”. 

Random, de Miguel Peres, Marcus Aquino e Fabi Marques - Bicho Carpinteiro
Toda a premissa da obra remeteu-me para o filme Um Dia de Raiva (Falling Down, no título original), com Michael Douglas no papel de protagonista. Completamente enervado por estar bloqueado numa fila de trânsito, Douglas abandona o seu carro no meio da estrada e começa a fazer todo o tipo de atrocidades àqueles que lhe aparecem pelo caminho. E, se a memória não me atraiçoa, também se faz valer de um taco de baseball e de armas de fogo. Portanto, consciente deste facto ou não, Miguel Peres revisita um conceito já existente, embora o faça com a sua própria criatividade, garantido personalidade própria a Random.

A história vai depois andando para a frente e para trás no tempo, aumentando o interesse do leitor. Às tantas, Random parece perder a noção das coisas grandes e pequenas que irritam uma pessoa - e que merecem punição – e, cada vez mais, parte para a violência por "tuta e meia". Parece-me uma coisa bem pensada pois nesta banda desenhada, casualmente ou não, Miguel Peres acaba por nos traçar o início de um comportamento desviante e criminoso. No começo até nutrimos simpatia e compreendemos Random mas, às tantas, já nos parece que as suas ações são demasiado aleatórias e exageradas. Demasiado “random”, portanto.

E se pode parecer que esta obra é algo gratuita na violência que dela emana, a verdade é que considero que a moral desta história, a mensagem que Miguel Peres pretende passar, é que a violência não é o caminho para a resolução dos problemas, dos conflitos e da falta da educação. Pelo contrário, a violência ainda incentiva esse tipo de ações. Mesmo que, no calor dos nossos nervos em franja, face a algo que nos irrita, possamos achar o contrário. É uma história simples e honesta, mas que se lê muito bem. De um só trago até.

Random, de Miguel Peres, Marcus Aquino e Fabi Marques - Bicho Carpinteiro
E embora, por um lado, eu tenha gostado da forma como o autor resolve e fecha a história, por outro lado, lamentei que o conceito, ao ser resolvido da forma que é, nos prive de novas aventuras de Random. O autor abriu uma porta muito interessante, mas logo a fechou. E isso acaba por saber a pouco. Mesmo que se possa admitir que a última página do livro deixa em aberto a continuidade de, pelo menos, a iniciativa, a atitude e a forma de estar de Random poder vir a renascer numa outra personagem que, eventualmente, saia para a rua com a característica máscara de Random e o seu sangrento taco de baseball.

Random é servido por uma arte que achei muito convincente. Com fortes influências nos comics americanos, a arte do brasileiro Marcus Aquino é estilizada, dinâmica na planificação, com bons enquadramentos cinematográficos, várias splash pages, que acentuam dramatismo à trama, e com personagens que revelam boas expressões faciais e físicas. Sendo uma banda desenhada onde há bastante violência gráfica, importa dizer que o trabalho de Aquino é muito bem conseguido na forma como sabe criar poses dramáticas e marcantes. Considero que algumas ilustrações poderiam ter recebido um pouco de mais detalhes para ficarem ainda melhores. O que está feito está bem feito, mas com mais detalhes ao nível dos cenários, por exemplo, teríamos uma experiência ainda melhor. Mas não deixa de ser verdade que Random é uma obra bem ilustrada, que apela à vista. E para isso também contribuem as cores da brasileira Fabi Marques que aproximam esta obra dos bons comics americanos. Um aspeto moderno e que sabe encher-nos o olho.

Random, de Miguel Peres, Marcus Aquino e Fabi Marques - Bicho Carpinteiro
A edição que, tal como referi no início do texto, resulta de uma campanha de crowdfunding, está muito interessante, com papel brilhante de boa qualidade e com boa encadernação. Devo dizer que considero que a obra teria beneficiado se tivesse sido lançada em capa dura. Quando temos a obra nas mãos verificamos que talvez seja mais mole e dobrável do que o desejado. Mas, sendo uma edição de autor, compreende-se que cada pequeno custo tenha sido ponderado pelos autores. E, se calhar, esta edição foi mesmo a possível de executar com qualidade. 

A bonita capa do livro foi desenhada por Miguel Mendonça. Em termos de design – assegurado por Mário Freitas - Random também está bem conseguido. Destaque para a introdução de dois pequenos extras: o primeiro é uma ilustração de Jorge Coelho e o segundo é uma pequena curta, de quatro páginas, de Miguel Montenegro. É uma pequena história pertinente, bem montada e bem desenhada pelo autor. Mas uma nota negativa tem que ser dada para a presença de 3 erros ortográficos (de alguma gravidade) nesta pequena história. Tendo em conta que a mesma só tem 4 páginas, parece-me um pouco inacreditável que tenham ocorrido 3 erros (2 deles na mesma vinheta!) deste gabarito. Não gosto de ser o “nazi dos erros ortográficos” pois sei que é algo que acontece – e aqui no Vinheta 2020 esse tipo de erros também acontecem, por vezes – mas acho que, ao contrário do ambiente online em que esses erros ortográficos podem (e devem) ser editados e corrigidos, quando estamos perante edições impressas isso não é possível, fazendo com que a obra fique manchada para sempre. Um cuidado redobrado é necessário, pois está claro.

Em suma, esta é uma banda desenhada muito interessante, de fácil leitura e que entretém bastante. Gostei especialmente da premissa que Miguel Peres criou para Random, embora, em termos de arte ilustrativa, esta também seja uma obra muito apelativa e interessante. É importante valorizar a banda desenhada nacional que é boa e esta, seguramente, merece ser valorizada.



NOTA FINAL (1/10):
8.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Random, de Miguel Peres, Marcus Aquino e Fabi Marques - Bicho Carpinteiro

Ficha técnica
Random
Autores: Miguel Peres, Marcus Aquino e Fabi Marques
Editora: Bicho Carpinteiro
Páginas: 80 páginas, a cores
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Agosto de 2020