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quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Análise: Sete Mulheres, Sete Musas

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro
Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Pedro Moura, Rita Mota e Susa Monteiro

Com um lançamento algo discreto que certamente passou fora do radar de muitos leitores, A Seita e a Comic Heart editaram em junho a antologia Sete Mulheres, Sete Musas - Lírica de Camões que consiste num projeto coletivo que reúne vários autores portugueses de banda desenhada em torno de um mesmo propósito: revisitar a obra e o imaginário de Luís de Camões a partir de uma perspetiva visual contemporânea. 

Trata-se, pois, de uma iniciativa que procura aproximar a poesia camoniana de novos públicos, nomeadamente leitores mais jovens, e que, só por isso, é mais que bem-vinda, diria. Até porque se ainda há dúvidas sobre esta questão, este é mais um livro que mostra bem como a banda desenhada pode servir como meio de tradução e recriação literária, tornando acessível - ou, pelo menos, mais acessível - um universo poético tantas vezes considerado denso e distante como o de Camões.

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro
Assim sendo, a importância deste projeto reside nessa capacidade de renovar o olhar sobre Luís de Camões, e da tentativa de retirar o poeta do pedestal escolar, colocando-o de novo no espaço da experimentação artística. Para tal, foram convidados sete ilustradores para desenhar uma história sobre cada uma das mulheres que marcaram presença na obra de Camões. As suas musas, portanto. Esses ilustradores são Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro que ilustraram as histórias a partir do argumento de Pedro Moura, autor experiente neste tipo de obras.

Como seria esperado, um dos aspetos mais cativantes do livro é a sua diversidade estética. Cada autor oferece uma leitura singular das musas de Camões, propondo interpretações visuais que vão do figurativo ao abstrato, do lírico ao experimental. Essa variedade torna a leitura uma experiência rica, por vezes desconcertante, mas sempre estimulante. A heterogeneidade dos estilos revela, lá está, o potencial da BD enquanto espaço de liberdade criativa e de diálogo com outras artes.

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro
Entre as histórias que melhor equilibram clareza e densidade poética, destacam-se, quanto a mim, as de Daniela Viçoso e Miguel Rocha. Ambos os autores conseguem transpor para a linguagem da banda desenhada a musicalidade e a intensidade emocional dos versos de Camões, mas sem tornar o texto pesado ou excessivamente hermético. Coisa que acontece, infelizmente, noutras histórias do livro. A abordagem de Daniela Viçoso, mais narrativa e de forte influência mangá, permite que o leitor acompanhe a história com facilidade, enquanto Miguel Rocha aposta numa síntese expressiva de texto e imagem que traduz bem o sentimento amoroso e a melancolia do poeta. Os desenhos de Jorge Marinho, de quem já aqui foi analisado Os Contos de Miguel Torga : Um Roubo | Natal, também são muito impactantes, remetendo-nos para o grande mestre Sergio Toppi. Susa Monteiro, fiel ao seu estilo muito peculiar, também nos brinda com belos desenhos.

Nem todas as histórias conseguem, porém, atingir o equilíbrio necessário. Há autores que optam por caminhos mais abstratos e conceptuais, onde a dimensão visual se sobrepõe à narrativa. Estas histórias, embora visualmente interessantes, podem tornar-se difíceis de acompanhar e exigem do leitor um esforço interpretativo maior. Ainda assim, não deixam de ter valor (obviamente!), pois oferecem um exercício estético desafiante que convida à contemplação e à análise formal.

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro
Essa pluralidade de leituras e de intenções é, afinal, um dos pontos fortes da obra. Sete Mulheres, Sete Musas não procura impor uma leitura única de Camões, mas abrir um campo de possibilidades. Em cada história, o poeta é reinventado, questionado, reinterpretado. A multiplicidade das vozes autorais reflete a própria complexidade da figura camoniana, mostrando-se simultaneamente erudita e popular, clássica e moderna, universal e profundamente portuguesa.

Do ponto de vista editorial, o livro revela um tom algo académico, tanto pela seriedade do tema como pelo esforço de auto-contextualização através dos (longos) textos introdutórios de Cátia Verguete e Alexandra Lourenço Dias. No final, há ainda um interessante texto de Janek Scholz sobre a "historicidade na banda desenhada em língua portuguesa". De resto, o livro apresenta capa mole baça, com badanas, e um bom papel brilhante no seu miolo.

Em suma, Sete Mulheres, Sete Musas tenta levar Camões a novos públicos através de imagens e narrativas visuais que, embora desiguais na sua eficácia, revelam uma grande ambição estética e um profundo respeito pela poesia do autor. Vale a pena ser lido. E ainda que possa não conquistar o grande público, este é um livro necessário no panorama cultural português. Mostra que a banda desenhada é um meio maduro, capaz de dialogar com os grandes nomes da literatura e de oferecer novas formas de leitura e interpretação. A presença de um elenco notável de autores nacionais reforça essa ideia, celebrando a vitalidade da BD portuguesa e a sua capacidade de reinvenção.


NOTA FINAL (1/10):
7.7


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro

Ficha técnica
Sete Mulheres, Sete Musas
Autores: Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Pedro Moura, Rita Mota e Susa Monteiro
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 168 x 244 mm
Lançamento: Junho de 2025

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Análise: Os Lusíadas

Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos - Levoir e RTP


Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos - Levoir e RTP
Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos

Foi com o segundo volume de Os Lusíadas, a adaptação para banda desenhada da obra-prima de Luís de Camões, que a Levoir fechou a sua coleção dedicada aos Clássicos da Literatura Portuguesa em BD que a editora editou em parceria com a RTP.

Depois de lidos os dois volumes de uma só vez, para melhor poder imergir na obra, falo-vos hoje neste trabalho que junta o nome de seis autores nacionais! Um argumentista e cinco ilustradores! Algo que não vemos todos os dias!

Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos - Levoir e RTP
O que me leva já para à primeira observação de que, com este Os Lusíadas, estamos perante uma empreitada de enorme valor, quer do ponto de vista ludo-educativo, quer do ponto de vista conceptual e artístico. 

Trata-se de uma obra que se apresenta com um vigor estético que merece todas as vénias, uma vez que os vários ilustradores que participam neste trabalho conseguiram dotá-la de uma beleza ímpar e de uma inspiração conjunta, capaz de captar a atenção de leitores de diferentes idades e formações. A própria materialidade da obra, o seu desenho e composição, refletem uma intenção clara de transformar um clássico da literatura portuguesa numa experiência visual intensa e tão acessível quanto possível, tendo em conta o próprio estilo ilustrativo dos autores, claro está.

É natural que, em termos visuais, não se trate de uma obra homogénea, dado o número e diversidade dos estilos gráficos dos autores envolvidos. No entanto, neste caso concreto, essa diversidade não prejudica a continuidade narrativa; antes, contribui para enriquecer a obra. Os Lusíadas é, por si só, um texto repleto de camadas narrativas, episódios distintos e variações de tom, o que permite acomodar diferentes linguagens visuais sem que se quebre a unidade da história. A pluralidade de estilos acaba, pois, por refletir a própria complexidade e riqueza do poema original de Camões e, nesse sentido, podemos dizer que a escolha dos ilustradores foi uma aposta ganha.

Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos - Levoir e RTP
Miguel Rocha é o autor que, no somatório dos dois livros, ilustra o maior número de páginas, e o seu trabalho revela-se extremamente evocativo. As suas ilustrações conseguem transmitir a grandiosidade das aventuras marítimas, bem como os momentos de introspeção e de tensão narrativa, criando imagens que permanecem na memória do leitor. A força expressiva de Rocha marca a obra e serve como fio condutor para os diversos outros estilos que surgem depois ao longo do livro, garantindo uma base sólida.

Além do trabalho de Rocha, também as páginas de Daniel Silvestre se destacam através da intensidade e originalidade do seu traço, que confere a certas passagens uma expressividade singular, tornando-as visualmente memoráveis. É inequívoco o talento deste autor, que consegue equilibrar detalhe e dinamismo e, em termos de narrativa, opera como que uma nova passagem, um portal, para o próprio Luís de Camões enquanto personagem cativa dentro da sua própria obra. Refira-se ainda que sendo estilos bastante díspares, os de Miguel Rocha e de Daniel Silvestre, há paginas especialmente bem sucedidas na forma airosa e imaginativa como se passa de um universo para o outro de forma orgânica.

Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos - Levoir e RTP
João Lemos oferece páginas mais leves e refrescantes, proporcionando um contraponto bem-vindo às ilustrações mais densas ou dramáticas dos demais ilustradores. A sua abordagem é marcada por traços fluidos e uma paleta que transmite alegria, permitindo que certas passagens do poema, especialmente aquelas de caráter mais contemplativo ou narrativo, ganhem leveza e dinamismo.

No segundo volume, o trabalho de Xico Santos e Rami Tannous também merece louvor. Xico Santos imprime força e solidez através de uma abordagem de banda desenhada mais clássica na forma, enquanto Rami Tannous demonstra capacidade para dotar a obra de (mais) uma abordagem singular em termos pictóricos, que nos remete para um estilo de outro tempo e de outro lugar. Cada ilustrador traz algo distinto, mas complementar, contribuindo para que a adaptação seja não apenas visualmente apelativa, mas também diversificada e multifacetada.

A adaptação do texto de Camões ficou a cargo de Pedro Vieira de Moura, que já tinha desempenhado semelhante função noutros clássicos desta coleção, como Mensagem ou Sermão de Santo António aos Peixes. E Pedro Moura volta a ter mérito, conseguindo transportar a linguagem e a grandeza da epopeia para o formato da banda desenhada, preservando a essência da narrativa e os principais episódios de Os Lusíadas.

Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos - Levoir e RTP
Apesar da escolha acertada de dividir a adaptação em dois volumes, permanece, porém, um sentimento de incompletude quando terminamos a leitura. Ou de uma certa sensação de que fomos apenas presenteados com episódios soltos, sem que depois houvesse uma coluna vertebral que unisse todos os pontos. A densidade e riqueza do texto original exigem uma condensação, e ainda que a divisão seja compreensível, o resultado deixa a sensação de que há episódios ou detalhes que não foram plenamente explorados. 

Por outro lado, e apesar do que acabei de referir, assiste-se também a um sobrepovoamento de texto em muitas páginas que, embora necessário para manter fidelidade ao poema, pode afastar alguns leitores.

O excesso de texto em algumas páginas compromete, sem dúvida, o ritmo visual da banda desenhada. As vinhetas tornam-se carregadas e, em certos momentos, a leitura da imagem compete com a leitura do texto, diminuindo a fluidez narrativa. O que é que poderia ter atenuado este problema? É simples... um maior número de páginas. Ou, não as tendo, uma maior divisão da obra original, abdicando de mais momentos. Assim, como foi feito, ficamos pelo meio: tentou-se meter muita coisa em pouco espaço, mesmo tendo em conta que são dois os livros.

Quanto à edição, os livros apresentam capa dura baça, com bom papel brilhante no interior, e uma boa encadernação e impressão. O primeiro livro é complementado com um dossier informativo acerca da obra original de Camões e do seu contexto histórico, que é bastante relevante. 

O que também é relevante, mas pelas más razões, é que várias páginas do segundo livro se encontrem sem legendas, quando foram pensadas e trabalhadas para serem legendadas. Ora, isto é lastimoso para a experiência do leitor e põe em causa o bom trabalho da editora. Esta, tentou corrigir o erro apresentando uma errata com o texto em falta nas mencionadas páginas, numa tentativa de tornar menos penosa a situação para o leitor. Erros acontecem a toda a gente, bem sei, mas é na resolução dos mesmos e, por ventura mais importante ainda, na garantia que tal coisa não voltará a acontecer no futuro, que as editoras conquistam a confiança dos leitores. Infelizmente, também tinha acontecido coisa semelhante - embora menos badalada - com a mesma editora no livro Dorian Gray - que, por acaso, e com pena minha, é um livro belíssimo - em que também houve páginas com balões sem texto. Se tenho afirmado que, por vezes, certas queixas e críticas feitas à Levoir são injustas, outras há, como é o caso, que são indefensáveis. 

Abaixo, podem ver, à esquerda, um exemplo do que o livro acabou por ser e, à direita, aquilo que o livro seria se não tivesse havido este lamentável erro.

Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos - Levoir e RTP


Em síntese, a adaptação para BD, em dois volumes, de Os Lusíadas é uma obra de grande mérito artístico e conceptual. A pluralidade de estilos gráficos e o vigor estético da obra tornam-na rica e envolvente, enquanto a adaptação cuidadosa de Pedro Vieira de Moura garante uma ligação sólida com o poema original. Apesar de algumas limitações no ritmo e na quantidade de texto, bem como um lapso clamoroso com a edição da obra, esta é uma iniciativa louvável, que oferece aos leitores uma experiência visual e literária única, aproximando um clássico português das novas gerações e de um público mais amplo.


NOTA FINAL (1/10):
8.3




Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens dos álbuns. www.instagram.com/vinheta_2020




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Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos - Levoir e RTP

Fichas técnicas
Os Lusíadas - Primeira Parte
Autores: Pedro Moura, Daniel Silvestre, João Lemos e Miguel Rocha
Adaptado a partir da obra original de: Luís de Camões
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Outubro de 2024

Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos - Levoir e RTP

Os Lusíadas - Segunda Parte
Autores: Pedro Moura, Daniel Silvestre, Miguel Rocha, Rami Tannous, Xico Santos
Adaptado a partir da obra original de: Luís de Camões
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Maio de 2025

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Levoir lança "Os Lusíadas" em Banda Desenhada!


A Levoir acaba de lançar uma adaptação para banda desenhada da célebre Os Lusíadas, de Camões!

Este é mais um dos livros da coleção Clássicos da Literatura Portuguesa em BD que a editora tem vindo a lançar em parceria com a RTP.

Ao leme desta adaptação estão os autores Pedro Moura (que, da mesma coleção, também adaptou Mensagem, com Susa Monteiro), Daniel Silvestre, João Lemos e Miguel Rocha. E uma das coisas que me está a deixar bastante curioso com este livro em particular é que é desenhado a seis mãos, por três autores distintos. Algo que, convenhamos, é pouco comum na banda desenhada portuguesa.

Posso dizer que fiquei bastante agradado com as pranchas que já vi deste livro. Esta é a primeira de duas partes e espera-se que o segundo livro seja editado no primeiro trimestre de 2025.
Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais.


Os Lusíadas - Primeira Parte, de Pedro Moura, Daniel Silvestre, João Lemos e Miguel Rocha

A Levoir e a RTP editaram no passado fim-de-semana na abertura do Festival Amadora BD, Os Lusíadas, uma das obras mais importantes da literatura de língua portuguesa. A obra está integrada numa exposição em conjunto com Mensagem de Fernando Pessoa. 

Pedro Moura fez a adaptação do argumento e Daniel Silvestre, João Lemos e Miguel Rocha a ilustração deste primeiro volume.

Os Lusíadas foram escritos pelo poeta português Luís Vaz de Camões e publicados em 1572. Trata-se de um poema épico, que glorifica o povo português. Narra a descoberta do caminho marítimo para a Índia pelo navegador Vasco da Gama.

Camões nasceu em Lisboa, por volta de 1524. Em 1527, durante uma epidemia de Peste, em Lisboa, D. João III e a corte transferiram-se para Coimbra, os pais e Camões com apenas três anos, acompanharam o rei.

Luís de Camões viveu a sua infância na época das grandes descobertas marítimas e também no início do Classicismo em Portugal. Foi aluno do colégio do convento de Santa Maria e tornou-se um profundo conhecedor de história, geografia e literatura.

Em 1537, D. João III transferiu a Universidade de Lisboa para Coimbra. Camões iniciou o curso de Teologia, mas levava uma vida irrequieta, desordeira, além da fama de conquistador, mostrando pouca vocação para a Igreja.

Em 1544, com 20 anos, deixou as aulas de teologia e ingressou no curso de filosofia. Já era conhecido como poeta. 

Nessa época, compôs uma elegia à Paixão de Cristo, que ofereceu ao seu tio. 

Os seus versos revelam que estudou os clássicos da Antiguidade e os humanistas italianos.

Leitura obrigatória para o 9º ano.

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Ficha técnica
Os Lusíadas - Primeira Parte
Autores: Pedro Moura, Daniel Silvestre, João Lemos e Miguel Rocha
Adaptado a partir da obra original de: Luís de Camões
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
PVP: 15,90€

segunda-feira, 18 de março de 2024

Análise: A Rainha dos Canibais - Tomo 1

A Rainha dos Canibais - Tomo 1, de Miguel Rocha - A Seita e Comic Heart

A Rainha dos Canibais - Tomo 1, de Miguel Rocha - A Seita e Comic Heart
A Rainha dos Canibais - Tomo 1, de Miguel Rocha

Tinha grandes expectativas para este livro. Não só por Miguel Rocha ser um autor aclamado e conceituado na banda desenhada portuguesa, com várias obras que deixaram a sua pegada na 9ª Arte em Portugal, como também pelo facto de este A Rainha dos Canibais aparentar ser um projeto de grande fôlego por parte do autor.

E, sendo sincero, assim que mergulhei na leitura, comecei por ficar encantado. A proposta do autor, sendo revivalista em termos de arte visual, assumiu-se desde logo como algo bastante diferente das demais obras nacionais de BD.

A história deste A Rainha dos Canibais é ambientada em África e traça logo à partida, e inequivocamente, uma crítica direta à presença dos portugueses em África e à forma imperialista e com falta de tato com que os nossos antepassados lidaram com este tema desde o pincípio.

A Rainha dos Canibais - Tomo 1, de Miguel Rocha - A Seita e Comic Heart
Acompanhamos o percurso de Bárbara, cujas circunstâncias da vida a levam para a África Colonial. Não há referências ao espaço e ao tempo concreto, mas fica bem patente que ainda se vive o auge da influência e domínio dos lusos em terras africanas. Longe da vida urbana a que estava ambientada, Bárbara vive na selva, acompanhada pelo seu marido Armando, pelo seu primo e por vários portugueses que ali estão numa espécie de missão, fortalecendo o seu poderio e supremacia sobre os habitantes locais. Entretanto, Bárbara conhece K’Merti, uma amazona negra, bem como interage com várias tribos selvagens. Mas se, para uma "donzela" portuguesa, fosse esperado que os perigos pudessem ser essas gentes selvagens, fica bem claro, à medida que vamos progredindo na leitura, que os mais perigosos serão os supostamente educados, civilizados e evoluídos. Os portugueses, claro está! Miguel Rocha não deixa margens para dúvidas na forma como, jocosamente, pinta os comportamentos do "Português Colonialista e Imperialista" que tanto marcou, quer culturalmente, quer politicamente, a África lusófona.

A Rainha dos Canibais - Tomo 1, de Miguel Rocha - A Seita e Comic Heart
O desenho do autor neste A Rainha dos Canibais é verdadeiramente belo. Miguel Rocha já demonstrou, ao longo dos tempos, ser um autor que, em termos de ilustração, consegue ser muito variado e volátil, com as suas ilustrações a mudarem muito de livro para livro, o que, na minha opinião, é uma excelente valência. Aqui, apresenta-se num registo a preto e branco puro, sem espaço para cinzas, onde é quase impossível que não nos lembremos da pegada indelével do estilo de ilustração de Hugo Pratt, nas suas célebres histórias a preto e branco.

O jogo entre o branco e o preto de Miguel Rocha apresenta-se, pois, muito bom, sendo o próprio branco utilizado com bastante mestria para criar belos espaços de luz. Os pretos, por vezes utilizados em grandes manchas, servem para fazer o oposto dessas formas de luz que impregnam a história. Tudo muito bem feito. Não me lembro de uma obra portuguesa que, sem aparentar sê-lo de forma óbvia - e isto é importante - seja, em termos visuais e (um pouco, mas menos) em termos de argumento, uma melhor homenagem ao universo de Hugo Pratt do que esta A Rainha dos Canibais. E isso faz com que este seja um livro com o potencial de impactar muita gente.

A Rainha dos Canibais - Tomo 1, de Miguel Rocha - A Seita e Comic Heart
A caracterização das personagens e, também, da selva, carregada de muita florestação, é verdadeiramente soberba, levando a que o leitor se sinta transportado para essa densa vegetação da África profunda. Ainda que tenha tido dificuldades, por vezes, em identificar as várias personagens da história, devo dizer que, na parte visual, este A Rainha dos Canibais me entusiasmou muito.

Todavia, e voltando ao argumento já mencionado mais acima, é mesmo nessa vertente de história que a obra fica aquém do seu (enorme) potencial. Isto porque a ideia de localizar a história em plena época do colonialismo português, apresentando toda a hipocrisia e racismo que os portugueses aí demonstraram, parece (e é) boa, mas é feita um pouco às avessas em termos narrativos.

Assim sendo, em vez de termos um fio condutor, temos um conjunto de episódios que nos vai dando as informações e as peças necessárias para acompanharmos a evolução da trama. Em termos teóricos, esta opção narrativa não tem qualquer problema e é legítima como qualquer outra, mas o meu problema com este livro - se é que lhe podemos chamar “problema” - é que, sensivelmente a meio, dei-me conta que o autor ou 1) se tinha perdido na trama por ele próprio imaginada ou 2) revelou estar a “nadar”, em termos narrativos, ao sabor da corrente. Sem um grande propósito em termos de argumento.

A Rainha dos Canibais - Tomo 1, de Miguel Rocha - A Seita e Comic Heart
Obviamente, isso não tira os vários méritos que a obra tem, mas é suficiente para fazer com que a mesma perca a força que eu achei, nas primeiras páginas, que poderia vir a ter. Acaba por ser uma sensação agridoce quando terminamos a leitura… a noção de que A Rainha dos Canibais andou perto de ser um marco para a história da banda desenhada portuguesa. Sendo, ainda assim, um livro que merece ser lido e (re)conhecido, não conseguiu ser essa obra mais marcante, a meu ver.

É claro que o facto de este livro ser o primeiro tomo de dois volumes, pode fazer com que as pontas que ficam soltas após finda a leitura deste livro, acabem por ser melhor ligadas no segundo  volume. Se assim for – e é o que espero - com alguns acautelamentos narrativos e com um sentido de unidade em toda a trama, que manifestamente não existiu neste primeiro volume da obra, A Rainha dos Canibais pode reclamar convenientemente o lugar que parecia seu, por direito, nas primeiras páginas deste espesso livro.

A edição d’A Seita e da Comic Heart é muito bem conseguida. Este livro, em formato horizontal (italiano) apresenta, para além de um belíssimo grafismo, uma espessa capa dura e baça e, no interior, um papel baço de boa qualidade, devidamente bem impresso e bem encadernado.

Em suma, A Rainha dos Canibais marca o regresso de um dos mais celebrados autores portugueses de banda desenhada, apresentando um belíssimo conjunto de desenhos a lembrar o melhor de Hugo Pratt. Só é pena que, entre a boa sátira à presença portuguesa nas suas colónias, a história pareça, curiosamente, perder-se a si mesma no meio da selva africana.


NOTA FINAL (1/10):
7.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Rainha dos Canibais - Tomo 1, de Miguel Rocha - A Seita e Comic Heart
Ficha técnica
A Rainha dos Canibais
Autor: Miguel Rocha
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas: 208, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 20 x 28,5 cm
Lançamento: Setembro de 2022

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Passada (quase) uma década, Miguel Rocha está de regresso à BD!




O novo livro de Miguel Rocha, A Rainha dos Canibais, marca o regresso do autor ao lançamento de banda desenhada!

A edição é d' A Seita e da Comic Heart. Recordo que o livro até foi lançado em Outubro, no Amadora BD, podendo aí ser adquirido. 

No entanto, só agora deverá ter uma distribuição mais abrangente, razão pela qual dou nota do livro aqui no Vinheta 2020.
Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa das editoras e com algumas imagens promocionais.


A Rainha dos Canibais, de Miguel Rocha

“...Não se ponha agora com medos, estes são os territórios virgens! Iremos encontrar toda a espécie de bichos inimagináveis...”
Bárbara acaba de cair numa África sem tempo nem lugar fixos, onde rapidamente se entranhará por territórios misteriosos e míticos, que são também os territórios maravilhosos da imaginação. Aí, ela encontrará K’Merit, uma amazona negra, tribos selvagens e feras bestiais, e, bem mais perigosos e cínicos, colonos, soldados, o seu marido Armando e toda a trupe dos representantes da civilização colonialista com o seu racismo, sobranceria e incompreensão das realidades distantes.
Tudo numa sequência arrebatante de aventuras e acção, exotismo e humor, onde vemos também toda a homenagem que o autor faz à BD de aventuras e dos pulps da sua juventude. 
Depois de quase uma década passada sobre o seu último livro, Salazar, Agora, na Hora da sua Morte (com argumento de João Paulo Cotrim), Miguel Rocha, um dos maiores e mais aclamados autores de BD nacionais regressa com este seu A Rainha dos Canibais, uma viagem através do colonialismo e do império português, da África imaginada e romantizada, e de um exotismo que lembra o dos pulps, onde este livro vai buscar muita da sua inspiração. 

Uma viagem feita num espectacular desenho a preto e branco, solto e vibrante, que respira as cores da África mesmo sem que elas apareçam nas páginas do livro, num estilo surpreendentemente novo do autor. Um livro de um humor sardónico e mesmo sarcástico, frequentemente imbuído de nonsense, cheio de crítica mordaz e demolidora aos portugueses do tempo do colonialismo, e à sua hipocrisia e crueldade.

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Ficha técnica
A Rainha dos Canibais
Autor: Miguel Rocha
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas: 208, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 20 x 28,5 cm
PVP: 24,00€