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terça-feira, 2 de junho de 2026

Análise: Um Quadrado de Céu

Um Quadrado de Céu, de Susana Moreira Marques e Joana Afonso - Os Livros de Oeiras - Município de Oeiras

Um Quadrado de Céu, de Susana Moreira Marques e Joana Afonso - Os Livros de Oeiras - Município de Oeiras
Um Quadrado de Céu, de Susana Moreira Marques e Joana Afonso

Foi há poucas semanas que o Município de Oeiras editou, através da sua chancela Os Livros de Oeiras, a obra Um Quadrado de Céu - Ou Como Escrever um Livro sobre Caxias, que marca a estreia de Susana Moreira Marques como autora de banda desenhada, neste caso, como argumentista. Já relativamente aos desenhos, a autora é a experiente Joana Afonso.

Esta é uma obra que procura recuperar memórias do que foi a vida dos portugueses, especialmente daqueles que eram opositores ao regime, durante o tempo da ditadura do Estado Novo em Portugal. O livro foca-se especialmente nos testemunhos de antigos presos políticos que acabaram prisioneiros na prisão de Caxias. 

Um Quadrado de Céu, de Susana Moreira Marques e Joana Afonso - Os Livros de Oeiras - Município de Oeiras
Começo por dizer que a iniciativa camarária de promover conhecimento e História através da banda desenhada, merece sempre as minhas vénias. Depois de anos e anos em que a banda desenhada era sempre olhada com desdém por parte de muita gente, incluindo entidades públicas, é bom ver que esse estigma está cada vez mais ultrapassado e que, hoje em dia, a banda desenhada é vista como um meio artístico tão respeitável como outro qualquer. 

E mesmo tendo em conta que o livro dá destaque aos testemunhos de antigos presos da prisão de Caxias, a verdade é que a obra é bem mais do que isso. Na verdade, até vos posso dizer que este Um Quadrado de Céu me surpreendeu justamente pela sua abordagem. Estava à espera de algo mais institucional, quiçá mais com o mero intuito de informar - o que já era mais que válido, convenhamos -, mas esta é uma obra bem mais madura que isso.

E para tal conta o belo trabalho de Susana Moreira Marques no argumento que, em vez de ser demasiadamente informativo, opta por uma abordagem bem mais autobiográfica, convidando o leitor a embarcar na própria experiência pessoal da autora, bem como a pesquisa que esta fez, para a conceção do livro. 

Um Quadrado de Céu, de Susana Moreira Marques e Joana Afonso - Os Livros de Oeiras - Município de Oeiras
Com efeito, desde o início, percebemos que a autora opta por um caminho menos convencional, recusando tanto um tom excessivamente informativo, como uma reconstituição direta e literal das experiências dos presos políticos da prisão de Caxias. Essa escolha confere ao livro uma identidade muito própria, que o diferencia de outras obras sobre o mesmo tema. A própria divisão da história em capítulos - e os próprios nomes dos mesmos - dá força a esta tentativa de fazer as coisas de modo diferente.

E esta abordagem diferenciada foi mesmo um dos aspetos que mais apreciei neste livro, pois dá-lhe uma boa dose de equilíbrio. A autora não cede à tentação de transformar o livro num documento histórico pesado ou didático, mas também não ignora a importância do contexto em que se insere. Em vez disso, encontra um meio-termo muito eficaz, permitindo que o leitor absorva a dimensão histórica de forma mais subtil e envolvente, sem perder o rigor nem a intenção de memória.

A opção por uma narrativa na primeira pessoa revela-se particularmente feliz, pois ao centrar-se no seu próprio processo de criação da obra, a autora aproxima-se do leitor e torna a experiência mais íntima. Não estamos apenas a ler sobre os presos de Caxias; estamos a acompanhar alguém que se confronta com esse legado, que o descobre, interpreta e tenta compreendê-lo emocionalmente.

É verdade que temos referências a factos concretos, como os testemunhos da tortura praticada na prisão de Caxias até à celebre fuga da prisão de alguns presos - evento esse que, já agora, também é retratado no recentemente publicado, e já aqui analisado, A Fuga, de Paulo Caetano e Jorge Mateus. 

Um Quadrado de Céu, de Susana Moreira Marques e Joana Afonso - Os Livros de Oeiras - Município de Oeiras
Além de recuperar o passado, Um Quadrado de Céu levanta uma reflexão importante: quer queiramos, quer não, o passado influencia o presente. Como tal, fica a pairar no ar a seguinte questão: até que ponto a sociedade atual está a proteger a liberdade conquistada após o 25 de Abril? Especialmente quando vemos várias mudanças nos discursos atuais sobre a própria ditadura, bem como apreendemos alguns sinais contemporâneos de ameaça à democracia, como o crescimento de ideologias extremas ou a indiferença social, é algo a que não devemos deixar de prestar atenção. 

Essa abordagem permite também a integração de vários testemunhos de uma forma orgânica. Em vez de surgirem como relatos isolados ou meramente documentais, essas vozes são entrelaçadas na narrativa, contribuindo para uma experiência mais sensorial e reflexiva. Mais do que nos contar como foram os detalhes dos presos políticos de Caxias, a obra dá-nos um vislumbre mais genérico sobre o que ali se passou. E fá-lo sempre com um paralelismo aos dias de hoje, com temas como a liberdade de expressão, o 25 de Abril, a perseguição política, etc. Há também belas pontes para aquilo que é mostrado através das palavras e aquilo que os desenhos nos mostram. 

E é precisamente esse carácter sensorial que dá à obra uma maturidade notável. Não estamos perante uma leitura única básica ou simplista, mas, pelo contrário, encontramos espaço para ambiguidades, silêncios e reflexões que não devemos menosprezar. Esse cuidado na construção da narrativa e na escolha do ponto de vista revela um forte sentido autoral, que eleva o livro para além do mero testemunho histórico. Se esta é a estreia da autora em banda desenhada, tenho que lhe endereçar os parabéns, pois soube arquitetar uma história que consegue usar bem as várias ferramentas que a banda desenhada permite.

Um Quadrado de Céu, de Susana Moreira Marques e Joana Afonso - Os Livros de Oeiras - Município de Oeiras
Claro que, para isso, também contou o sempre bom trabalho de Joana Afonso. Eu sei que me repito, sei que já disse isto muitas vezes, sei que talvez comece a ser aborrecido... mas sou mesmo fã do trabalho da Joana Afonso. Parece-me que a autora não sabe fazer maus livros. Mesmo quando o livro não é fantástico, o seu trabalho visual salva-o. Ora, neste caso em que, repito, Susana Moreira Marques montou um bom argumento, Joana Afonso contribui, por seu lado, com um belo livro em termos visuais. 

É claro que não há aqui nenhuma cisão com aquilo que já conhecemos da autora. O seu estilo de desenho, muito singular e original, continua a caracterizar-se por uma bela expressividade que consegue combinar um traço aparentemente simples com uma grande força emocional. As suas figuras surgem muitas vezes simples, com linhas seguras e pouca ornamentação, o que reforça a dimensão humana e íntima das personagens, ainda que os seus traços tenham frequentemente um lado bastante caricatural, quase "cartoonesco", que lhes confere identidade e proximidade. 

Basta-nos segundos a olharmos para um desenho de Joana Afonso para sabermos que se trata de um trabalho seu. No caso em concreto deste Um Quadrado de Céu, como é uma obra menos propensa a alguns temas mais fantasiosos, presentes noutras obras da autora, até verifico uma certa contenção nos desenhos de Joana Afonso, o que, naturalmente, responde da forma mais adequada àquilo que a história estava a pedir. Encontramos, portanto, vários exemplos em que a composição das páginas tende a privilegiar o ritmo e o silêncio, criando atmosferas densas e meditativas. Os momentos de silêncio são, pois, particularmente bem conseguidos. Há também uma atenção especial aos gestos, aos olhares e aos pequenos detalhes, que acabam por sugerir mais do que mostram diretamente, contribuindo para uma leitura mais sensorial e introspectiva. E, claro, até no processo de cores, Joana Afonso nos oferece mais um belo trabalho.

Talvez por tudo isto, Um Quadrado de Céu se afirme como uma das melhores obras de banda desenhada sobre o 25 de Abril, ou inspiradas por ele. É verdade que são já bastantes os livros de banda desenhada que, compreensivelmente, trataram este tema. Mas se muitos deles foram demasiado expositivos, outros demasiadamente abstratos ou fantasiosos, este livro ganha pela sua sobriedade e, contemporaneidade ao mesmo tempo. Não o afirmo pelo tema do 25 de Abril em si, mas pela forma como aborda esta assunto: com sensibilidade, inteligência e profundidade. É um livro que não se limita a relembrar o passado, mas que nos ajuda a compreendê-lo de uma forma mais humana e atual.

Em termos de edição, a obra apresenta um belo aspeto, com a sua capa dura brilhante e o bom papel brilhante contido no miolo do livro. A encadernação e impressão também são bastante boas - especialmente tendo em conta o simpático preço do livro. No final, há duas páginas com breves notas biográficas sobre alguns antigos presos políticos que, através dos seus testemunhos, colaboraram para este livro.

Em conclusão, Um Quadrado de Céu afirma-se como uma obra profundamente relevante não só pela memória que preserva, mas pela forma como a transforma numa experiência íntima e reflexiva. Ao recusar uma abordagem puramente documental, as autoras deste belo e bem-vindo livro convidam o leitor a envolver-se ativamente com o passado, reconhecendo a sua relevância para o presente. Mais do que recordar a realidade da prisão de Caxias, o livro alerta para a fragilidade da liberdade e para a responsabilidade coletiva de a preservar, lembrando-nos de que o futuro se constrói a partir da consciência e das escolhas que fazemos hoje.


NOTA FINAL (1/10):
8.9



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Um Quadrado de Céu, de Susana Moreira Marques e Joana Afonso - Os Livros de Oeiras - Município de Oeiras

Ficha técnica
Um Quadrado de Céu - Ou Como Escrever um Livro sobre Caxias
Autoras: Susana Moreira Marques e Joana Afonso
Editora: Os Livros de Oeiras
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 21 x 28 cm
Lançamento: Abril de 2026

terça-feira, 12 de maio de 2026

Joana Afonso tem novo livro de BD!



O Município de Oeiras acaba de editar um livro de banda desenhada com ilustrações da experiente - e espetacular! - Joana Afonso e que marca, também, a estreia de Susana Moreira, argumentista deste livro, no registo da banda desenhada.

O livro em questão intitula-se Um Quadrado de Céu (Ou Como Escrever Um Livro Sobre Caxias) e versa sobre os presos políticos da ditadura portuguesa que se viram confinados na prisão de Caxias durante o tempo do Estado Novo.

Estou muito curioso com esta história, admito!

Embora o livro já tenha tido lançamento oficial no passado dia 30 de Abril, só deverá começar a chegar às livrarias portuguesas a partir do próximo dia 19 de Maio.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Um Quadrado de Céu, de Susana Moreira e Joana Afonso

Uma obra que resgata memórias de pessoas que lutaram contra a ditadura e foram presas por isso. Um regresso aos muros de Caxias, uma das principais prisões políticas do Estado Novo, que convida a refletir sobre um passado marcado pela repressão e a questionar a forma como olhamos, ainda hoje, para a fragilidade da liberdade.

Por toda a parte - nas nossas ruas, tantas vezes nas nossas casas -, encontramos ainda hoje traços de um tempo em que não era seguro falar ou debater, nem seguir livremente o caminho que cada um escolhesse para si.

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Ficha técnica
Um Quadrado de Céu
Autoras: Susana Moreira e Joana Afonso
Editora: Município de Oeiras
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 21 x 28 cm
PVP: 17,00€

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Comparativo: "Living Will" pela Polvo e pela Ave Rara



Nem sabem a felicidade que tive quando soube que a editora Polvo iria editar, e de forma integral, a obra Living Will, de André Oliveira, Joana Afonso e Pedro Serpa!

Esta é, quanto a mim, uma das melhoras obras da banda desenhada nacional! A esse propósito, até vos convido a mergulhar na análise que fiz a este livro, aqui.

Originalmente lançado em formato comic, pela Ave Rara, uma chancela independente do próprio André Oliveira, Living Will foi-nos sendo dado aos poucos, de forma intermitente, entre os anos 2013 e 2018. No total, foram 7 mini-comics de 16 páginas que nos ofereceram uma história linda sobre a vida, sobre os remorsos, sobre o amor, sobre o passado, sobre a redenção.

É a obra onde, a meu ver, André Oliveira se demonstrou mais inspirado, com um texto completamente quotable e uma história profunda, ora amarga, ora doce. Por seu turno, Joana Afonso afirmou-se de vez como uma das mais importantes figuras da ilustração de banda desenhada em Portugal. Infelizmente, possivelmente por indisponibilidade de tempo, Joana Afonso foi substituída em dois dos sete volumes da série por Pedro Serpa. Não querendo, de forma alguma, descurar o comprometimento e talento do autor, é inegável que a continuidade visual da obra se (res)sentiu nesses números assinados por Pedro Serpa, o que foi uma pena.




A edição original da obra foi feita na língua inglesa para chegar a um mercado mais internacional. Percebo perfeitamente a razão, como é óbvio, mas era lamentável que esta obra, feita por portugueses, não estivesse disponível na sua língua materna, o português.

E é, também por isso, que fiquei muito feliz com esta edição da Polvo. Porque mais que fazer chegar esta bela obra aos leitores portugueses, fazia sentido que isso fosse feito em formato integral e, claro, na língua portuguesa. 

E só com essa cajadada, a Polvo mataria logo dois coelhos. E a editora não se ficou por aí! Mas já lá iremos.

Esta nova edição tem duas capas novas, à escolha. No meu caso, o meu livro tem a capa amarela, onde nos aparece o protagonista da história, Will, o seu cão e fotografias das várias personagens que aparecem na obra. Uma capa bonita que me remete para a igualmente bela capa de Rugas, de Paco Roca. Existe ainda outra capa, na cor roxa, que também funciona muito bem.




Esta nova edição tem generosas 180 páginas e é-nos dada em capa mole, com badanas. É uma edição bonita e respeitosa, mas tendo em conta a qualidade e a relevância da obra em questão, bem como não esquecendo que esta edição procura ser uma edição definitiva da obra, julgo que teria sido melhor se a edição fosse em capa dura. Não me chateiam as capas moles, mas acho que as capas duras granjeiam mais prestígio, requinte e durabilidade aos livros. E Living Will merecia-o.

Falando ainda em coisas menos positivas, talvez o formato da edição da Polvo pudesse ter sido um pouco maior. É quase igual ao formato original, sim, mas mesmo assim é um pouco menor.

Mas, apontadas as coisas que considero como menos positivas nesta edição, há que referir que são muitas as coisas positivas.

Desde logo, porque o "formato livro" supera, a todos os níveis, o "formato revista" em que a obra foi originalmente lançada. Respira melhor, nãose dispersa e permite que o leitor possa degustar a obra com mais afinco.



Uma coisa que apreciei nesta edição da Polvo, em que parece ter havido um carinho e cuidado especial para com a obra, foi que as belas capas dos sete capítulos originais não se perdessem. 

Todas elas servem como separador entre histórias. Talvez pudesse ter sido colocada a versão completa das ilustrações, uma vez que, originalmente, eram de dupla página, servindo a capa e a contracapa de cada livro, mas também não sei como isso poderia ter sido feito, sem aumentar o número de páginas do livro e sem distorcer a ordem das páginas.




Além disso, também gostei que até mesmo aquele breve sumário da história com que terminava cada um dos sete números, fosse resgatado nesta nova edição sempre que um capítulo termina. Teria sido uma pena tirar essa componente de séria televisiva a Living Will que é mais uma das (muitas) coisas que tanto aprecio nesta edição. 

Foi, portanto, uma escolha acertada nesta nova edição.




Embora esta nova reedição seja bastante fiel à edição original da Ave Rara, tendo a mesma font para a balonagem, inclusive, nota-se, especialmente logo no primeiro capítulo da história, que houve um reajuste da cor, passando agora a ser muito mais suave e agradável.

Nota positiva para essa alteração.




Além disso, e já olhando para os inúmeros extras que, generosamente, esta nova edição da Polvo nos traz, o livro abre com uma nota introdutória em que André Oliveira disserta sobre a feitura da obra e sobre o atual momento da mesma.




Além disso, a nova edição da obra inclui uma entrevista/conversa ente Gabriel Martins e os três autores, bem conduzida, que responde a algumas questões que, certamente, muitos dos leitores poderiam formar na sua cabeça. 

E são essas as entrevistas que, quanto a mim, são bem feitas. Portanto, trata-se de mais um bom acrescento à nova edição da obra.




Além disso, há também espaço para que muitos autores consagrados da banda desenhada nacional homenageiem esta obra através das suas próprias ilustrações. 

São 13 estas ilustrações adicionais e apresentam um estilo que, naturalmente, é muito belo pelo seu ecletismo e capacidade artística dos autores que participam nesta homenagem conjunta, que são os seguintes: Filipe Andrade, Joana Mosi, Pedro Brito, Catarina Paulo, Francisco Sousa Lobo, Carla Rodrigues, Paulo Monteiro, Kachisou, Carline Almeida, Inês Galo, Filipe Abranches, Miguel Rocha e Jorge Coelho.




Há ainda espaço para seis páginas dedicadas a esboços e estudos de personagem por parte de Joana Afonso, que são um deleite para os olhos.




Por fim, a cereja em cima do bolo e talvez a grande iniciativa desta bela edição, é que este livro reúne um capítulo extra e inédito, feito de propósito para esta edição. 

É uma história de 18 páginas, onde mergulhamos na relação conturbada entre pai e filho e na importância, quer pelo lado positivo, quer pelo lado negativo, do pugilismo nas suas vidas. É uma história pungente e sentimental, em que André Oliveira se mantém inspirado e onde fica claro como a evolução de Joana Afonso tem-se registado de álbum para álbum, de história para história. 

Joana Afonso já era detentora de um talento especial em 2013, quando começou este Living Will, mas, em 2025, o seu talento é ainda mais exponencial. 

Que excelente ideia incluir esta história adicional na edição!



Não sei se têm ou não os 7 fascículos da primeira edição de Living Will. Quer os tenham ou não, parece-me que a compra deste novo livro da Polvo se assume como obrigatória. Qualquer amante de (boa) banda desenhada deve ler Living Will!

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Living Will é reeditado em português e num só volume!




Se houve notícia que me deixou extremamente feliz, foi saber que a editora Polvo iria reeditar a obra Living Will, originalmente editada em formato comic e na língua inglesa, pela editora Ave Rara, num só volume integral e na língua de Camões.

Eu já sou um grande fã da globalidade do trabalho de André Oliveira e Joana Afonso e, mesmo assim, considero este como um dos seus melhores trabalhos. Brilhantemente escrito por André Oliveira, Living Will é uma história marcante e uma das obras portuguesas da minha eleição.

Considero, pois, que havia uma autêntica lacuna no nosso mercado que era não termos, num só livro, e em português, já agora, - que aqui se fala português! - esta belíssima obra que, aliás, já recebeu análise aqui no Vinheta 2020.

Refiro que o livro com que a Polvo agora nos brinda apresenta duas capas diferentes, que poderão escolher, e já se encontra à venda no Amadora BD, estando prevista a sua apresentação para o próximo domingo, dia 26 de Outubro, às 11h no auditório do evento.

Por agora, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Living Will, de André Oliveira, Joana Afonso e Pedro Serpa

Acho que todos sentimos a falta de alguém.A vida do velho Will parece ter chegado a um beco sem saída. Depois de meio século passado lado a lado com a sua alma gémea, Judith, está agora sozinho e sem nada que lhe desperte o interesse.

Sim, é rabugento, tem os olhos pesados e tristes, e a verdade é que, quando desaparecer, poucos sentirão a sua falta. Tirando o barman Richie ou o médico Terry, não tem realmente ninguém a quem possa chamar amigo. E é quando vê o fim a aproximar-se que decide atar as pontas soltas que deixou para trás, junto de todos aqueles com quem se incompatibilizou.

Ao mesmo tempo, Betty, uma apresentadora de TV em busca de redenção, está à beira do colapso e só quer deixar uma marca positiva no mundo. Mas será mesmo possível? Ou estaremos prestes a ser surpreendidos?

Living Will reúne os comics editados entre 2013 e 2018, agora em português.

Inclui ainda:

- Capítulo adicional desenhado por Joana Afonso

- Galeria de imagens por 13 autores convidados: Jorge Coelho, Miguel Rocha, Filipe Abranches, Inês Galo, Carline Almeida, Kachisou, Paulo Monteiro, Carla Rodrigues, Francisco Sousa Lobo, Catarina Paulo, Pedro Brito, Joana Mosi e Filipe Andrade

- Entrevista aos autores, por Gabriel Martins

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Ficha técnica
Living Will
Autores: André Oliveira, Joana Afonso e Pedro Serpa
Editora: Polvo
Páginas: 180, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 16,5 x 23 cm
PVP: 24,95€

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Novo livro de BD sobre deficiência junta alguns dos mais importantes autores portugueses!



É uma notícia que há muito vos queria dar e é hoje que, finalmente, o faço! E em primeiríssima mão!

Está a chegar um novo livro de BD, intitulado inVISÍVEIS, que junta grandes nomes da banda desenhada nacional, como Daniel Maia, Joana Afonso, Jorge Coelho, Luís Louro, Osvaldo Medina, Paulo J. Mendes, Ricardo Santo e Susana Resende!

Trata-se de uma antologia de histórias curtas de banda desenhada, lançada pela CERCIOEIRAS, a propósito da comemoração dos seus 50 anos de existência! Um projeto, no mínimo, inovador, já que nada semelhante foi feito até à data por uma instituição semelhante.

Assinalar o 50º aniversário lançando um livro de banda desenhada sobre um tema tão poucas vezes comentado, é algo que merece os meus aplausos!

Posso dizer-vos que participei ativamente no livro, fazendo a coordenação do projeto e sendo argumentista de quatro(!) das seis histórias que compõem o livro. É a minha estreia na produção de BD, portanto. Estou extremamente orgulhoso e satisfeito de ver nascer as minhas primeiras histórias de banda desenhada e, ainda por cima, pelas mãos de autores/ilustradores de quem sou confesso admirador. Dizer que é um sonho tornado realidade não é, portanto, exagero da minha parte.

São histórias que falam sobre o tema da deficiência, como é viver com estas dificuldades e qual é o papel de todos nós numa sociedade que pode e deve fazer mais por todos os que são deficientes.

Todos os autores, sem exceção, fizeram um ótimo trabalho, asseguro-vos!

A maravilhosa capa do livro é da autoria de Jorge Coelho e a legendagem de uma das histórias foi feita por Mário Freitas que, generosamente, também contribuiu com o seu know how para este projeto de grande envergadura.

O livro deverá ter apresentação no Amadora BD, no dia 2 de Novembro, domingo, às 17h20, com presença dos autores, minha e dos responsáveis da CERCIOEIRAS. Está-se a trabalhar também no sentido de se organizar um lançamento do livro além desta apresentação no Amadora BD e, nesse sentido, voltarei ao tema assim que tiver mais informações.

O livro será editado em capa dura, contando com 48 páginas e um formato de 21 x 29,7 cm.

Como devem imaginar, estou super entusiasmado com isto!

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com uma página de cada um dos ilustradores que colaboram no livro.


inVISÍVEIS, de Daniel Maia, Hugo Pinto, Joana Afonso, Jorge Coelho, Luís Louro, Osvaldo Medina, Paulo J. Mendes, Ricardo Santo e Susana Resende

Seis histórias de BD. 

Seis olhares. 

Um mesmo compromisso com a inclusão.

Para assinalar os 50 anos da CERCIOEIRAS, seis dos mais relevantes ilustradores da banda desenhada contemporânea portuguesa reúnem-se numa obra única, coordenada por Hugo Pinto.

Cada história cruza o universo da deficiência com a missão transformadora da CERCIOEIRAS, dando voz a experiências reis, imaginadas e sentidas.

Entre o traço e a palavra, esta antologia de banda desenhada celebra a diversidade, a empatia e a força de uma Organização que, há meio século se dedica a Integrar a Diferença, Construir a Inclusão.



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Ficha técnica
inVISÍVEIS - Histórias de Banda Desenhada que Desmistificam Preconceitos sobre a Deficiência
Autores: Daniel Maia, Hugo Pinto, Joana Afonso, Jorge Coelho, Luís Louro, Osvaldo Medina, Paulo J. Mendes, Ricardo Santo e Susana Resende
Editora: CERCIOEIRAS
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 21 x 29,7 cm
PVP: 14,90€










segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Análise: Ditirambos #4 - Noite

Análise: Ditirambos #4 - Noite, de Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira

Análise: Ditirambos #4 - Noite, de Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira
Ditirambos #4 - Noite, de Vários Autores

Foi recentemente que chegou às livrarias o quarto volume da antologia Ditirambos! Desta vez, passou-se um pouco de mais tempo entre o lançamento do último volume e o atual, cerca de 3 anos, mas posso dizer-vos que a espera foi compensada com mais um belo lançamento.

Para quem ainda não sabe, Ditirambos é uma antologia de banda desenhada que junta autores já com provas dadas em termos qualitativos. Uns são mais conhecidos ou ativos do que outros, mas todos eles já nos ofereceram obras de BD relevantes.

A antologia volta a manter a sua matriz: um mote único - que, neste caso, é o da Noite - e um constrangimento formal rigoroso de quatro páginas por história, o que, naturalmente, força cada um dos autores participantes a uma certa "ginástica" de síntese narrativa e de soluções visuais inventivas. 

Análise: Ditirambos #4 - Noite, de Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira
A coesão que depois a obra consegue adquirir não é, pois, conquistada pela continuidade visual ou narrativa, mas antes por esse tema comum que, sendo neste caso algo tão abrangente como a "Noite", permite variadíssimas interpretações narrativas. O estilo visual, claro está, revela-se ricamente heterogéneo, sendo facilmente inidentificáveis os estilos dos autores Joana Afonso, Ricardo Baptista, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira, Sofia Neto e Carla Rodrigues. E todos eles se apresentam em boa forma.

Já quanto às histórias, cada autor escolhe uma inflexão distinta sobre o tema, indo desde o onírico ao social, da fantasia ao slice of life, passando até pelo humor ou pelo horror. Como tal, é justo dizer que este quarto volume da antologia apresenta um andamento que, quer em termos de argumento, quer em termos de desenho, consegue ser pertinente e evitar qualquer tipo de monotonia. São histórias que não têm problema em captar a atenção do leitor.

Análise: Ditirambos #4 - Noite, de Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira
É claro que, naturalmente, há histórias que ressoam mais do que outras em nós, consoante as nossas preferências, que serão sempre pessoais. No meu caso, devo dizer que, mesmo tendo gostado de todas as histórias, gostei especialmente das histórias A Esfinge, de Ricardo Baptista; Caçadores, de Raquel Costa e Nuno Cancelinha; Presas, de Francisco Ferreira e Sónia Mota; e Pesadelo, de Carla Rodrigues.

Não obstante as boas sensações que a leitura deste quarto Ditirambos me ofereceu, devo dizer que, desta vez, senti que algumas histórias careciam de maior desenvolvimento para se tornarem mais relevantes. Estou ciente, claro, da regra das quatro páginas por história, mas mesmo assim pareceu-me que alguns destes mini-contos precisariam de mais páginas para que os seus temas fossem melhor explanados. É, pois, interessante notar que, em volumes anteriores, certas histórias pareceram mais bem resolvidas dentro da mesma restrição, atingindo um equilíbrio mais feliz entre concisão e clareza narrativa.

Análise: Ditirambos #4 - Noite, de Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira
Mesmo assim, não tenho dúvidas de que Ditirambos se mantém como uma das melhores antologias de banda desenhada em Portugal, com todos os autores a apresentarem-se num bom nível. 

Também em termos de edição, o livro volta a apresentar as mesmas características das edições passadas, envergando capa mole com badanas, bom papel baço no interior e boa encadernação e impressão. Volto a dizer: para um projeto independente, Ditirambos tem tudo de profissional e nada de amador.

Em suma, este quarto volume de Ditirambos confirma a iniciativa como uma das melhores antologias de banda desenhada em Portugal. Todos os autores apresentam trabalhos num bom nível, e o resultado global transmite uma rara sensação de profissionalismo, quer na escrita, quer na ilustração. O projeto contribui, inclusive, para desarmar um preconceito recorrente em certos espaços de discussão sobre BD: a ideia de que as antologias falham em consistência ou qualidade. Pelo contrário, Ditirambos mostra que um trabalho rigoroso e cuidado pode produzir uma antologia sólida e exemplar. Que o projeto continue a sua caminhada!


NOTA FINAL (1/10):
7.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Análise: Ditirambos #4 - Noite, de Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira

Ficha técnica
Ditirambos #4 - Noite
Autores: Joana Afonso, Ricardo Baptista, André Caetano, Nuno F. Cancelinha, Diogo Carvalho, Raquel Costa, Francisco Ferreira, Sónia Mota, Sofia Neto e Carla Rodrigues
Editora: Edição Independente
Páginas: 52, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 168 x 258 mm
Lançamento: Maio de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Comic Heart nos últimos 5 anos!


Hoje apresento-vos aquela que foi a melhor banda desenhada editada pela Comic Heart nos últimos 5 anos. Bem sei que esta é uma chancela que, atualmente, pertence à cooperativa editorial A Seita, da qual já aqui fiz um TOP 10, mas tendo em conta o facto de a Comic Heart se especializar em banda desenhada de autores nacionais, faz sentido que se assinale quais as 10 melhores obras de banda desenhada que esta chancela lançou nos últimos 5 anos.

Até porque a Comic Heart tem no seu catálogo alguns dos nomes maiores da banda desenhada nacional, o que revela bem a importância que foi conquistando ao longo da sua história recente.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Deixo-vos então, mais abaixo, com as 10 melhores bandas desenhadas editadas pela Comic Heart nos últimos 5 anos:

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Análise: A Mais Breve História da Rússia (em BD)

A Mais Breve História da Rússia (em BD), de Dulce Garcia e Joana Afonso - ASA - LeYa

A Mais Breve História da Rússia (em BD), de Dulce Garcia e Joana Afonso - ASA - LeYa
A Mais Breve História da Rússia (em BD), de Dulce Garcia e Joana Afonso

Foi recentemente que a editora ASA, certamente aproveitando a atualidade, lançou o livro de banda desenhada A Mais Breve História da Rússia (em BD), que conta com ilustrações de Joana Afonso e argumento de Dulce Garcia. Este livro é adaptado por Dulce Garcia a partir do livro original do jornalista e comentador político José Milhazes, intitulado A Mais Breve História da Rússia, que, aliás, durante o ano 2022, foi o livro mais vendido na categoria de não ficção em Portugal.

Diria que é uma ambiciosa transposição de um texto informativo para o formato de banda desenhada e que procura manter a essência da obra original, mas oferecendo, ao mesmo tempo, uma experiência visual envolvente, acessível e bastante pedagógica. É um livro que procura chegar ao maior número possível de leitores. E tem potencial para conseguir tal feito.

A Mais Breve História da Rússia (em BD), de Dulce Garcia e Joana Afonso - ASA - LeYa
A obra propõe uma viagem cronológica pela história da Rússia, desde as suas raízes, com os povos eslavos, até à atualidade, atravessando momentos determinantes como o czarismo, a Revolução de 1917, o estalinismo, o colapso da URSS e a era Putin. Uma verdadeira aula de história, portanto. E que procura ser o mais atual possível, incluindo a presença de figuras contemporâneas de relevância mundial como Zelensky, Trump, Navalny ou António Guterres. O  último capítulo do livro até é focado no passado mais recente, centrando-se na invasão da Ucrânia por parte do regime de Putin, que começou no fatídico dia 24 de fevereiro de 2022. Há, pois, um equilíbrio entre o passado e o presente da Rússia e isso é uma das forças da obra.

E para que este livro navegue até bom porto, também conta o bom trabalho das autoras portuguesas responsáveis por esta empreitada.

Dulce Garcia, pelo seu lado, consegue transformar a densa e muitas vezes árida matéria histórica num guião acessível e bem ritmado. Há uma clara intenção de tornar a informação "digerível" sem a simplificar em demasia, respeitando o leitor e confiando na sua curiosidade. Cada um dos períodos históricos está segmentado em capítulos, facilitando a assimilação dos temas abordados, tal como num manual escolar. Ainda assim, apreciei especialmente o facto de a obra atingir um certo equilíbrio entre não ser densa e pesada em demasia, mas, ao mesmo tempo, levando-se a sério e sendo coerente. 

A Mais Breve História da Rússia (em BD), de Dulce Garcia e Joana Afonso - ASA - LeYa
Deste modo, o livro consegue ser educativo sem se tornar maçador e, também por isso, é uma leitura que tanto pode ser aproveitada por um público mais jovem, que tenha interesse inicial pelo tema, como por adultos que procuram uma introdução concisa e bem construída à história da Rússia. A banda desenhada cumpre aqui um papel de mediação cultural e histórica, descomplicando sem infantilizar.

No plano visual, há que dizer que o trabalho de Joana Afonso é absolutamente fundamental para o sucesso do livro. Mantendo-se fiel ao seu traço expressivo e detalhado, Joana Afonso consegue imprimir dinamismo a uma narrativa que, à partida, poderia parecer demasiado expositiva. A forma como gere os enquadramentos, o ritmo das vinhetas e a composição das páginas revela uma maturidade artística notável e confirma porque é que a autora é muitas vezes - e justamente! - considerada como uma das autoras mais interessantes da banda desenhada portuguesa contemporânea.

A Mais Breve História da Rússia (em BD), de Dulce Garcia e Joana Afonso - ASA - LeYa
Tendo em conta a obra que temos em mãos, o mais notável no trabalho de Joana Afonso é que, mesmo perante um tema tão denso e exigente, consiga evitar a armadilha da monotonia visual. Assim, cada página oferece estímulos variados, seja através da expressividade dos rostos, da reconstituição histórica de ambientes, de alguns momentos de humor ou de uma bela diversidade na planificação que nos oferece ilustrações grandes e pequenas. É um trabalho gráfico que respeita o texto, mas também o enriquece, oferecendo ao leitor pistas visuais que ampliam a compreensão da narrativa. Mesmo os momentos mais sangrentos da história russa são-nos dados de uma maneira mais ligeira, mas sem os desdramatizar. "Equilíbrio" parece, portanto, ser a palavra de ordem neste trabalho. A paleta de cores onde imperam os tons a azul ou a vermelho, também dá uma certa personalidade demarcada à obra, que é bem-vinda.

Claro que podemos afirmar que, por vezes, o livro parece ser um livro ilustrado em detrimento de um livro de banda desenhada, já que, em vários casos, tem algum texto expositivo em que eventos referidos não são desenhados. É verdade, mas diria que também é frequente que em banda desenhada de cariz mais didático, a sequência narrativa não tenha uma ligação tão óbvia entre texto e desenho, servindo este último mais para adornar e esquematizar a informação do que, propriamente, para retratar as palavras de um modo mais literal. Mesmo assim, considero que Joana Afonso consegue camuflar bem essa suposta fragilidade através de todo o seu manancial de opções gráficas que tornam a experiência de leitura dinâmica e nunca enfadonha.

A Mais Breve História da Rússia (em BD), de Dulce Garcia e Joana Afonso - ASA - LeYa
É impossível não referir também a atualidade pungente do tema abordado. Num momento em que a Rússia ocupa o centro das atenções mediáticas devido à invasão da Ucrânia, esta obra oferece contexto e profundidade a todos os interessados. Permite compreender como eventos do passado moldaram a mentalidade estratégica e autoritária do atual regime russo, oferecendo uma base mais sólida para interpretar os acontecimentos do presente. Obviamente, talvez seja uma obra algo histórico-política em demasia para muitos, mas isso não lhe tira mérito e revela que, sim, cada vez mais, o mercado nacional de banda desenhada dá passos no sentido certo, incrementando a diversidade da sua própria oferta.

Nota ainda para algo que apreciei no livro, que foi o facto de o mesmo ter a virtude de não ser panfletário. A complexidade da história russa é respeitada, sem desresponsabilizar os seus protagonistas. Figuras como Lenine, Estaline ou Putin são apresentadas com o devido peso histórico, mas também com a necessária contextualização, o que permite ao leitor formar um juízo mais informado e crítico. Ponto a favor, portanto.

A edição da ASA é em capa dura baça, com bom papel baço e boa encadernação e impressão. Não existem extras e parece-me que se perdeu a oportunidade de ter um prefácio do próprio José Milhazes que pudesse fazer uma introdução a como surgiu a ideia de adaptar para banda desenhada o seu A Mais Breve História da Rússia. Uma nota ainda, de louvor, para a belíssima ilustração da capa deste livro. Se há capas que ajudam a vender o livro, esta é uma delas.

Em suma, este livro é uma leitura recomendável para todos os que procuram compreender melhor a história da Rússia, as suas tensões internas, os seus traumas e as suas aspirações imperiais. Dulce Garcia e Joana Afonso conseguem o feito de transformar uma lição de história numa banda desenhada equilibrada, tendo uma boa informação que não é demasiadamente maçuda nem simplória e, ao mesmo tempo, sendo brilhantemente ilustrada por Joana Afonso que, aparentemente, não sabe fazer maus livros. É uma obra que educa, esclarece e estimula, como deve ser qualquer boa banda desenhada de não ficção.


NOTA FINAL (1/10):
8.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Mais Breve História da Rússia (em BD), de Dulce Garcia e Joana Afonso - ASA - LeYa

Ficha técnica
A Mais Breve História da Rússia (em BD)
Autoras: Dulce Garcia e Joana Afonso
Adaptação a partir da obra original de: José Milhazes
Editora: ASA
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 275 x 206 mm
Lançamento: Maio de 2025