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quarta-feira, 17 de junho de 2026

Análise: O Deserto dos Tártaros

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda

Contido no mais recente rol de lançamentos de banda desenhada da editora A Seita, está este O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda, que adapta para banda desenhada o clássico homónimo da literatura da autoria de Dino Buzzati.

Conhecia a obra de reputação, mas nunca a tinha lido, portanto parti para esta leitura sem grandes referências. A história de O Deserto dos Tártaros acompanha a trajetória de Giovanni Drogo, um jovem oficial que é designado para servir na Fortaleza Bastiani, uma fortaleza isolada, situada na fronteira de um vasto deserto. No início, Drogo começa por encarar esta missão como algo temporário e pouco relevante, que servirá especialmente para fazer carreira e ser destacado, passado pouco tempo, para uma carreira militar mais promissora. Assim espera Drogo.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
Mas à medida que o jovem soldado se instala na fortaleza, vai sendo envolvido pelo ambiente peculiar daquele lugar, marcado por longos períodos de espera e por uma tensão difusa. Isto porque os oficiais daquele lugar vivem na constante expectativa de um possível ataque vindo do deserto. É um misto de medo pelo ataque em si, mas também de um sentido de ansiedade positiva por esse ataque. Já vos aconteceu estarem tão entediados que nem se importariam que algo de mau vos acontecesse para que o vosso tédio acabasse? Assim parece ser o sentimento que se vive na Fortaleza Bastiani: a rotina dos soldados é tão entediante, que até um ataque das linhas inimigas é visto como algo que, ao menos, poderia finalmente dar sentido à rotina monótona e justificar a presença militar naquele posto.

Naturalmente, com o passar do tempo, Drogo começa a partilhar essa mentalidade dos seus companheiros, alimentando a esperança de que esse momento decisivo chegue. Assim, a vida na fortaleza passa a ser regida por pequenos sinais, rumores e expectativas, que mantêm todos presos a uma promessa incerta de glória e propósito.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
É sensaborona e entediante a vida naquela Fortaleza e, infelizmente, também o é a experiência de leitura deste O Deserto dos Tártaros. Acredito que isso também aconteça no romance original de Dino Buzzati. Com efeito, ao longo da obra, parece que pouco ou nada acontece de concreto, e a rotina repetitiva da fortaleza contribui para uma sensação de estagnação que pode testar a paciência do leitor. Essa ausência de eventos externos significativos pode facilmente ser interpretada como falta de dinamismo narrativo.

Contudo, essa aparente monotonia é, em grande parte, intencional, pois pretende-se dar enfoque ao vazio, à espera e à repetição, fazendo destes elementos centrais algo que é sufocante e que reflete a própria condição do protagonista. A lentidão da narrativa não é, pois, um "defeito" acidental, mas sim um recurso que reforça a experiência psicológica da personagem, colocando o leitor dentro desse mesmo tempo suspenso.

Mais do que narrar ações, o romance centra-se, portanto, no conflito interior de Giovanni Drogo, que se agarra à ideia de uma missão grandiosa e de uma carreira militar promissora como forma de dar sentido à sua vida, evitando confrontar outras possibilidades mais comuns e socialmente esperadas, como, por exemplo, a sua (potencial) vida amorosa com Maria. Essa escolha de Drogo revela uma espécie de fuga, um modo de adiar o confronto com o presente e com as decisões que poderiam aproximá-lo de uma vida mais concreta e partilhada.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
Tenho que vos ser sincero: este O Deserto dos Tártaros é um pouco entediante, sim, e talvez, neste caso concreto, não fossem precisas tantas páginas para nos servir a história original de modo inequívoco. Todavia, também não me parece justo que se apelide este livro apenas de "aborrecido", pois o mesmo até ganha alguma profundidade na exploração que faz de temas existenciais como o medo de viver plenamente, a ilusão de um propósito maior e a tendência humana para adiar a vida à espera de um momento decisivo, conforme já sublinhei. 

Em termos de desenho, Pasquale Frisenda, autor de obras de referência como Tex - Patagónia ou Le Storie - Sangue e Gelo, ambos editados em Portugal, oferece-nos um trabalho muito belo.

O ilustrador italiano oferece-nos o seu traço elegante a preto e branco, explorando com mestria a escala de cinzentos para construir imagens de grande expressividade. E isso confere coerência ao tom melancólico da obra, como também acrescenta profundidade e subtileza às ilustrações, permitindo que cada imagem respire e se imponha com uma atmosfera muito própria. É um bom livro para observamos atentamente cada uma das ilustrações.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
Embora as personagens sejam bem executadas e transmitam com eficácia os estados de espírito da narrativa, é sobretudo no desenho das paisagens que, quanto a mim, Frisenda mais brilha. As vastas extensões do deserto, que parecem prolongar-se até ao infinito, a fortaleza isolada e inóspita, ou ainda os jogos de luz e sombra que evocam a névoa, as tardes solarengas e as noites frias passadas naquele local, são particularmente memoráveis. É um livro belo do ponto de vista gráfico, sem dúvida.

Nota ainda, muito positiva, para a grande quantidade de referências a outras obras e a outras individualidades, que estão escondidas ao longo do livro, aumentando o valor das ilustrações e convidando o leitor a uma segunda leitura mais atenta.

Considero apenas que a capa poderia ser mais apelativa. A ilustração de Frisenda para a mesma parece-me inacabada, como um esboço que merecia mais algum aprumo visual. Não está feio, mas acho que o autor conseguia fazer melhor.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel baço no interior do livro. No final, é incluído um generoso dossier de extras, com 17 páginas, que contém um texto de Gianmaria Contro sobre a obra e várias ilustrações, estudos de personagem e de capa, de Pasquale Frisenda. Esta é mais um dos livros que entram para a chancela Nona Literatura d' A Seita, dedicada às adaptações para banda desenhada de grandes obras da literatura.

Em suma, pode dizer-se que, no conjunto, esta adaptação para BD de O Deserto dos Tártaros revela-se bastante bem conseguida e fiel ao original. Não é um livro em que aconteçam muitas coisas e isso pode dar-nos a sensação de algum marasmo narrativo, mas é uma obra que procura mais fazer-nos viajar e refletir sobre questões existenciais. Ao mesmo tempo que é ilustrada de forma memorável por Frisenda, trazendo esse lado mais contemplativo da obra para o leitor.


NOTA FINAL (1/10):
8.4



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura

Ficha técnica
O Deserto dos Tártaros
Autores: Michele Medda e Pasquale Frisenda
Adaptado a partir da obra original de: Dino Buzzati
Editora: A Seita
Páginas: 184, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 215 x 285 mm
Lançamento: Março de 2026

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Análise: Tex - Patagónia

Tex – Patagónia, de Mauro Boselli e Pasquale Frisenda - Polvo


Tex – Patagónia, de Mauro Boselli e Pasquale Frisenda - Polvo
Tex – Patagónia, de Mauro Boselli e Pasquale Frisenda

Desde sempre que a série Tex me surpreendeu pelas suas características únicas. É que, se por um lado, Tex é o grande porta-estandarte da editora italiana Bonelli e um herói muito acarinhado pelos muitos fãs que tem em todo o mundo (e faço destaque ao próprio Clube Tex Português e ao fantástico blog que sustenta esse clube - Tex Willer Blog); por outro lado, é uma série que não chega a um verdadeiro público mainstream da banda desenhada. É extremamente bem sucedida mas, face a uma franja de mercado apenas. Nem toda a gente gosta... mas quem gosta, gosta muito! É fã acérrimo. Tex é, por isso, aquilo que costumamos apelidar de “série de culto”.

Se me parece que, por vezes, Tex Willer é uma personagem demasiado unidimensional e, por esse motivo, bastante clássica nos valores e idiossincrasias que representa, a verdade é que isso também é facilmente justificável pela longa vida do personagem, a cavalgar planícies áridas desde 1948. E, em Patagónia, o fantástico trabalho do argumentista Mauro Boselli, traz-nos um Tex Willer que, mesmo preservando essa unidimensionalidade que referi acima, consegue, não obstante, pintar este Ranger do Texas com subtis pinceladas, que nos dão tonalidades mais cinzentas na postura da personagem. E isso é, sem dúvida, um dos muitos pontos a favor deste fantástico Patagónia.

Em termos de história, esta é uma aventura única de Tex Willer e diferente daquilo que poderíamos estar à espera. Desta vez, Tex e o seu filho, Kit Willer, viajam dos Estados Unidos para as pampas argentinas, para servirem de intermediários entre o Governo argentino e as tribos indígenas locais. Tudo o que despoleta esta demanda é uma sequência de ataques mortíferos por parte dos índios e o consequente rapto de prisioneiros. À medida que a história se vai desenrolando, as reais razões desta missão dos Willer surgem dúbias. Por um lado, parece haver uma tentativa de negociação pacífica do Governo argentino – e esta, naturalmente, é a vontade de Tex – mas, por outro lado, uma facção do exército argentino parece querer resolver o assunto com o recurso à violência gratuita, manifestando vontade de dizimar as tribos de índios.

Há uma vertente mais histórica nesta obra pois consegue transmitir-nos, com realismo, o genocídio das tribos de indíos na Patagónia, levado a cabo pelo exército argentino, e como só através de muita determinação, espírito de sacrifício e incríveis perdas humanas, estas tribos de índios conseguiram ter uma palavra a dizer na história da Argentina. Tex Willer aparece aqui como um intermediário, um pêndulo de bom-senso e diplomacia que procura, de forma disciplinada, reunir consensos e cedências de parte a parte.

Tex – Patagónia, de Mauro Boselli e Pasquale Frisenda - Polvo
Obviamente, um cowboy vindo do faroeste não é inicialmente bem-vindo. Nem junto dos oficiais argentinos – com exeção de Ricardo Mendonza, antigo companheiro de Tex e responsável pela sua chamada à Argentina – nem junto dos índios que olham de soslaio para o protagonista, por ter a pele branca. Eventualmente, Willer terá que conquistar a sua admiração através de alguns eventos, muito bem imaginados pelo argumentista Boselli.

Uma coisa é certa: embora seja uma obra com bastantes momentos de ação, esta é uma história que demora bastante tempo a arrancar. As primeiras 40 páginas servem mais para que Boselli nos apresente a história, o tema, a demanda, os interesses em conflito. E isto não é necessariamente mau. É adulto. Leva-se a sério. Possivelmente, um jovem leitor ficará algo entediado com o ritmo lento da primeira parte da obra. No entanto, um adulto que procure uma história com cabeça, tronco e membros, apreciará a forma cuidada e rigorosa com que a narrativa está construída.

Mais do que uma história de cowboys, esta é uma história de guerra. Entre soldados do regime argentino e os índios da Patagónia. E mesmo estando embebida de alguma moral relativamente ao erro de se ser preconceituoso, no que concerne a raças e culturas, também não é uma história demasiado moralista. Tenta ser até, bastante factual, na forma como narra os eventos. Se essa moral existe, é nos feitos e postura de Tex Willer, pelo seu exemplo de justiça, que a mesma é passada. Muito adulto, uma vez mais.

Apreciável também é a tal dimensão menos unidimensional de Tex e das personagens que o rodeiam. Gostei particularmente de como Ricardo Mendonza e Solano conseguem ter várias camadas entre o bem e o mal. Entre o certo e o errado.

Mas, se a história é bem documentada, original pelo cenário onde acontece, e com personagens interessantes, a arte ilustrativa de Pasquale Frisenda é uma autêntica obra de arte. Uma maravilha para os olhos ao saber utilizar, com tanta mestria, o preto e branco, para nos dar um mundo verdadeiramente bem executado, para onde somos convidados a entrar. A minúcia dos pormenores que Frisenda deposita nos seus desenhos é incrivel e merece ser observada com um olhar igualmente minucioso. Assim, não raras vezes, dei por mim a perder largos momentos em muitas vinhetas incríveis e majestosas no tratamento gráfico.

A caracterização das personagens é excelente, com uma boa panóplia de emoções, que o autor utiliza sabiamente para dotar as personagens de sentimentos verossímeis. Mas é na caracterização dos ambientes, sejam eles paisagens distantes, olhares sobre os grandiosos acampamentos índios, cenas de desenfreado combate ou de cavalos em impetuosas cavalgadas, que mais fiquei surpreendido e apaixonado pela sua arte. De facto, a maneira como Frisenda capta o momento é magnífica e tem algo de poético, até. E isso não é comum em banda desenhada. O seu traço fino, elegante e muito seguro de si mesmo, representa a qualidade gráfica que uma série de culto como Tex merece. A meu ver, era difícil fazer um melhor trabalho no cômputo da arte ilustrativa.

Tex – Patagónia, de Mauro Boselli e Pasquale Frisenda - Polvo
Se há uma coisa que não gostei tanto, e que diz respeito à história, é o final algo abrupto da mesma. Chega a ser frustante se tivermos em conta que a história demora tantas páginas a desenvolver – e isso é bom, pois permite explorar as personagens e preparar o leitor para a grande missão de Tex – mas depois, no final, resolve a história em duas páginas, de forma demasiado seca. Não sei se isso aconteceu por causa de alguma pressão da editora sobre os autores, que tivesse que ver com deadlines, mas é uma pena, pois é um final demasiado brusco. Não é um mau final, note-se. Mas é um final mal explorado. Um livro destes merecia um final mais épico e bem conseguido.

Quanto à edição da Polvo, mesmo admitindo que considero que esta obra de qualidade superior merecia uma capa dura, tenho que reconhecer que é uma edição com muita qualidade por parte da editora portuguesa. O papel é muito bom, a capa, com generosas bandanas, é muito bonita, e o trabalho gráfico também apresenta uma elegância muito apreciável. A introdução da obra por José Carlos Francisco também acrescenta informação pertinente à obra.

Em conclusão, é fácil perceber porque é que Patagónia é uma das obras mais aclamadas de Tex Willer. As ilustrações de Frisenda são verdadeiramente magníficas e dignas de serem analisadas ao detalhe, enquanto que a história, que nos é oferecida por Boselli, é muito bem encetada, sabendo munir a obra de uma boa trama, que se desenvolve num cenário diferente daquilo a que estamos mais habituados a ver nas histórias do famoso cowboy. Pela parte que me toca, não tenho dúvidas que, se não for mesmo a melhor, é uma das melhores obras de Tex e um ótimo portal para mergulhar nas aventuras desde famosíssimo herói. Imprescindível.


NOTA FINAL (1/10)
9.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Tex – Patagónia, de Mauro Boselli e Pasquale Frisenda - Polvo

Ficha técnica
Tex – Patagónia
Autores: Mauro Boselli e Pasquale Frisenda
Editora: Polvo
Páginas: 228, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Maio de 2015 (2ª Edição: Maio de 2018)