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terça-feira, 9 de setembro de 2025

Já decorre a campanha de crowdfunding para a Umbra #5!



A campanha de crowdfunding para o lançamento impresso do quinto volume da antologia de banda desenhada Umbra já está ativa!

A campanha procura atingir 2.900€ para poder financiar a impressão do quinto número da antologia. Esta é uma das minhas antologias preferidas de banda desenhada, como tenho referido várias vezes.

A belíssima ilustração da capa é da autoria de Rita Alfaiate e poderemos encontrar histórias dos autores Vasco Colombo, Pedro Morais, Fernando Relvas, Pedro Moura, Marta Teives e Gustaffo Vargas.

Reservem já o vosso exemplar, contribuindo para a campanha de crowdfunding que pode ser encontrada, aqui.


Mais abaixo deixo-vos com as primeiras imagens do projeto que, por agora, são conhecidas.







segunda-feira, 5 de maio de 2025

Análise: Crónica de D. João I

Crónica de D. João I, de João Ramalho Santos e Filipe Abranches - Levoir - RTP

Crónica de D. João I, de João Ramalho Santos e Filipe Abranches - Levoir - RTP
Crónica de D. João I, de João Ramalho Santos e Filipe Abranches

O 9º volume da coleção dos Clássicos da Literatura Portuguesa em BD, que a editora Levoir tem vindo a editar em parceria com a RTP, traz-nos a adaptação para banda desenhada de João Ramalho Santos e Filipe Abranches da obra Crónica de D. João I, originalmente escrita por Fernão Lopes.

E esta adaptação é, sem dúvida, um projeto ambicioso que enfrenta o desafio de transportar para o formato de banda desenhada uma das obras fundadoras da historiografia e literatura da língua portuguesa. Baseando-se no texto original de Fernão Lopes, esta adaptação procura condensar um conteúdo extremamente complexo e compacto, marcado por um vocabulário arcaico, uma forte componente política e um retrato minucioso de um dos períodos mais densamente carregados de eventos relevantes da história de Portugal: a crise de 1383-1385 e a ascensão de D. João I.

Crónica de D. João I, de João Ramalho Santos e Filipe Abranches - Levoir - RTP
A própria escolha da obra é reveladora de uma intenção louvável, mas arriscada, pois trata-se de um trabalho que, sendo um texto fundamental, está longe de ser de leitura acessível, mesmo em prosa corrente. E transportá-la para BD sem abdicar do seu peso histórico e literário é um feito técnico, mas também um "campo minado" em termos narrativos. 

Portanto, diria que o trabalho de João Ramalho Santos era, à partida, muito exigente. E depois de lido o livro, bem como todo o seu dossier de apoio e investigando ainda um pouco sobre a obra na internet, posso dizer-vos que esta BD é uma obra que, com a sua estrutura densa e o seu conteúdo altamente contextualizado num tema muito específico, nos convida a uma leitura exigente - por vezes mesmo maçuda - apesar dos esforços de sintetização, que enalteço, do argumentista.

Em termos narrativos, a obra cumpre o essencial, apresentando os principais eventos da Crise de 1383-1385, a aclamação de D. João I e o papel político (e simbólico) de figuras como o Mestre de Avis ou Nuno Álvares Pereira. Mesmo assim, revela-se uma obra de leitura desafiante. Não apenas pela complexidade do texto, mas também pela forma como este está montado. Há uma sobreposição constante de texto denso com imagens intensas e carregadas, o que obriga a uma leitura muito concentrada, não permitindo que haja um espaço para que o enredo possa respirar um pouco, aliviando-o. Ora, pensando a obra para um público jovem ou menos familiarizado com a história medieval portuguesa, esta complexidade e abstracionismo da obra podem tornar-se obstáculos consideráveis.

Crónica de D. João I, de João Ramalho Santos e Filipe Abranches - Levoir - RTP
É necessário reconhecer, no entanto, que o trabalho visual de Filipe Abranches é verdadeiramente notável. As suas ilustrações elevam a obra e oferecem uma dimensão estética rara na banda desenhada nacional. Bem em linha, diria, com aquilo a que o autor Filipe Abranches já nos habitou, em que o mesmo recorre a um estilo expressionista, por vezes próximo do abstrato. Esse estilo é bastante pródigo na representação do caos, da violência e do peso simbólico dos acontecimentos históricos aqui retratados. E é, sem dúvida, um dos maiores trunfos desta adaptação.

A composição gráfica contribui para criar uma atmosfera carregada, sombria e quase mística, o que se interliga bem com a ideia de destino e legitimidade que atravessa a narrativa de Fernão Lopes, e que João Ramalho Santos recupera nesta adaptação. Além disso, Abranches parece particularmente inspirado, com pranchas que poderiam, isoladamente, figurar numa galeria de arte. O uso da sombra, da mancha e da distorção facial comunica bem a angústia de um reino em suspenso, mas, lá está, pode também dificultar a leitura para quem procura uma narrativa mais clara e linear.

Crónica de D. João I, de João Ramalho Santos e Filipe Abranches - Levoir - RTP
O que me leva a uma questão: é que, se o grande objetivo desta coleção dos Clássicos da Literatura Portuguesa em BD é o de fazer chegar as obras clássicas da literatura portuguesa a um maior público, com destaque para o mais jovem - como, aliás, assim tem sido apregoado - então esta abordagem apresentada por João Ramalho Santos e Filipe Abranches talvez erre de forma desbragada no seu público-alvo, pois a sofisticação estética deste trabalho não resolve o principal dilema da obra: o seu peso conceptual e estilístico contraria o objetivo pedagógico e de acessibilidade da coleção a que pertence - uma coleção que visa tornar clássicos da literatura portuguesa mais apelativos para o público jovem, usando o suporte da banda desenhada como ponte. Mesmo, reitero, tendo em conta que, logo à partida, não seria uma adaptação fácil.

Com efeito, se pensarmos noutras obras da coleção, como Maria Moisés, O Crime do Padre Amaro ou Frei Luís de Sousa, por exemplo, que tentaram ser adaptações simples e leves, este Crónica de D. João I tem uma abordagem diametralmente oposta. Até mesmo a adaptação de Mensagem, por Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro, que também adaptava para banda desenhada um obra difícil (embora menor em dimensão, reconheço), conseguiu o feito de se tornar acessível. Crónica de D. João I não o faz. O que, realce-se, nem tem de ser uma coisa necessariamente negativa. Todos aqueles que têm afirmado que, devido a serem leitores assíduos de banda desenhada e adultos na idade, "esta coleção não é para eles", poderão encontrar neste livro aquilo que não encontram nos demais. Mesmo assim, e por uma questão de princípio, este é um livro que, a meu ver, aparece bastante desenquadrado da restante coleção. Seja para o bem, seja para o mal.

Crónica de D. João I, de João Ramalho Santos e Filipe Abranches - Levoir - RTP
Há, no entanto, algo de admirável na ousadia do projeto. João Ramalho Santos e Filipe Abranches não optaram pelo caminho fácil, nem banalizaram o conteúdo. A complexidade da narrativa e a densidade gráfica mostram respeito pela obra original e pelo leitor, assumindo que este é capaz de acompanhar uma leitura exigente. Isso pode ser visto como uma virtude, ainda que à custa da eficácia em termos de divulgação junto dos mais novos.

Quanto à edição, esta encontra-se em linha com a restante coleção, com o livro a apresentar capa dura baça, bom papel brilhante no interior e um trabalho competente ao nível da impressão e da encadernação. Há ainda um dossier de extras - especialmente conveniente neste caso - que nos dá informações adicionais sobre a obra, o seu autor e o seu contexto histórico.

Concluindo, Crónica de D. João I apresenta-se como uma obra de grande mérito artístico e ambição literária, mas cujo peso conceptual e visual a torna de difícil digestão para o público-alvo que, supostamente, deveria alcançar. Mesmo assim, e especialmente pelas belíssimas ilustrações de Filipe Abranches, estamos perante uma digna e visualmente impressionante homenagem a Fernão Lopes e à sua obra.


NOTA FINAL (1/10):
7.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Crónica de D. João I, de João Ramalho Santos e Filipe Abranches - Levoir - RTP

Ficha técnica
Crónica de D. João I
Autores: João Ramalho Santos e Filipe Abranches
A partir da obra original de: Fernão Lopes
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Outubro de 2024

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Crónica de D. João I recebe adaptação para BD!




Para além de Maria Moisés, de Carina Correia e Joana Afonso, a Levoir também lança amanhã, em parceria com o jornal Público, a adaptação da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, para banda desenhada.

Esse trabalho de adaptação ficou a cargo dos autores João Ramalho Santos e Filipe Abranches. Este é mais um dos volumes que constituem a coleção intitulada Clássicos da Literatura Portuguesa em BD que a Levoir tem vindo a lançar com a RTP.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais da obra.

Crónica de D. João I, de João Ramalho Santos e Filipe Abranches

Crónica de D. João I de Fernão Lopes é o volume 9 da coleção Clássicos da Literatura Portuguesa em BD, que a Levoir e a RTP lançam a 8 de outubro.

A Crónica de D. João I foi escrita por Fernão Lopes, por volta de 1450, e constitui a terceira e mais perfeita das três grandes crónicas compostas pelo primeiro cronista régio. A primeira parte da crónica descreve a insurreição de Lisboa na narração célere dos episódios quase simultâneos do assassinato do conde Andeiro, do alvoroço da multidão que acorre a defender o Mestre e da morte do bispo de Lisboa.

Ao longo dos capítulos, fundamenta-se a legitimidade da eleição do Mestre, consumada nas cortes de Coimbra, na sequência da argumentação do doutor João das Regras, enquanto desfecho inevitável imposto pela vontade da população. Nesta primeira parte, o talento do cronista na animação de retratos individuais, como os de D. Leonor Teles ou D. João I, excede-se na composição de uma personagem coletiva, o povo, verdadeiro protagonista que influi sobre o devir dos acontecimentos históricos.

O argumento é de João Ramalho-Santos, Vice-Reitor para a Investigação da Universidade de Coimbra, a ilustração de Filipe Abranches cuja vasta e muito heterogénea obra, se encontra dispersa por títulos nacionais, mas também estrangeiros, editados em França, e na Suíça. O dossier pedagógico é da autoria da Professora Mafalda Soares, Sorbonne Université, Paris.

A 30 de outubro haverá uma sessão de lançamento da obra na Biblioteca da Universidade de Coimbra com a presença dos autores.

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Ficha técnica
Crónica de D. João I
Autores: João Ramalho Santos e Filipe Abranches
A partir da obra original de: Fernão Lopes
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
PVP: 15,90€

segunda-feira, 22 de maio de 2023

A Antologia Umbra está de volta!


Boas notícias para os seguidores deste belo projeto! A Antologia Umbra está de volta! Depois de mais uma campanha de crowdfunding bem sucedida, o 4º número desta antologia deverá chegar-nos nas próximas semanas!

Há um lançamento previsto para ocorrer no dia 27 de Maio, na Kingpin Books. De resto, o livro deverá ser apresentado nos vários eventos que se aproximam, nomeadamente na Feira do Livro de Lisboa, no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja e no Maia BD.

Para já, estão confirmadas as participações dos autores Filipe Abranches (mentor do projeto), Simon Roy, André Oliveira, Rita Alfaiate, Pedro Moura, Marco Gomes, Réza Benhadj e James Romberger.

Mais abaixo, deixo-vos com as sinopses de cada uma das histórias que compõem esta antologia, bem como com algumas imagens promocionais.


Umbra #4, de Vários Autores

Torre, de Filipe Abranches
Numa narrativa de historiografia alternativa, um elemento das forças de segurança perde-se nas tramas conspirativas que se urdem perto de uma imensa e misteriosa Torre, erguida numa Lisboa dos anos 80 fustigada por uma pandemia e cataclismos climáticos. Sob a vigilância da Torre, o suspense...


A Jóia da República Central, de Simon Roy
Já se passaram décadas desde as batalhas de Altamira, mas um jovem investigador quer descobrir os últimos traços dos pilotos de amplificadores. Um passeio pelas montanhas pode desvendar memórias, destroços e até rivalidades. O tempo sara as feridas?

Nic, de André Oliveira e Rita Alfaiate
Cuidado ao fugir das responsabilidades da vida, e não olhar para os dois lados ao atravessar a estrada, pois o perigo que nos aguarda pode ser o perigo que instigamos.


As brasas e a lenha, de Pedro Moura e Marco Gomes
A guerra é um tempestade que morde tudo em redor. 

Uma casa é um pequeno bote que singra nas tumultuosas águas, e em perigo protege uma família isolada. 

Que pode um pai fazer quando os monstros se aproximam?

Caranguejo Real – O Detective Paranormal Francês, de Réza Benhadj
Imaginemos um mundo em que um argumento de William Peter Blatty acabaria realizado por Jean-Pierre Melville e estamos próximos da chave desta história de um detective muito particular cujos casos não são resolvidos com a ponta de um revólver, mas sim com rituais e associações livres. Mas todos os ingredientes constituem um puzzle dramático.


Lazarus, de James Romberger
Para Hobbes, o estado pré-social da humanidade era o da bellum omnium contra omnes, “a guerra de todos contra todos”. A tecnologia salva ou fecha o ciclo? Joe sabe a resposta, o outro Joe ainda não. Se calhar não convém olhar o inimigo muito de perto, não nos assustemos com o reflexo.


segunda-feira, 18 de julho de 2022

Já arrancou a campanha de crowdfunding para a Umbra #4!



A campanha de crowdfunding para o lançamento impresso da antologia de banda desenhada Umbra já está ativa!

A campanha procura atingir 2.800€ para poder financiar a impressão daquele que já será o quarto número da antologia. O terceiro volume, já aqui foi analisado no Vinheta 2020 e deixou uma bela impressão, relembro.

Neste quarto volume, já é conhecida a participação de alguns autores como os portugueses Filipe Abranches, André Oliveira, Rita Alfaiate, Pedro Moura e Marco Gomes; o canadiano Simon Roy; o americano James Romberger; e o francês Réza Benhadj.

Reservem já o vosso exemplar, contribuindo para a campanha de crowdfunding que pode ser encontrada, aqui.

Mais abaixo deixo-vos com as primeiras imagens do projeto que, por agora, são conhecidas.















sexta-feira, 11 de março de 2022

Análise: Umbra #3

Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy

Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy
Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches e vários autores

A Umbra é um projeto independente de banda desenhada nacional – embora aqui seja contemplada uma participação estrangeira - que reúne algumas histórias curtas – mas que, felizmente, não são assim tão curtas – e que já vai na terceira edição. Nota para o facto de ser uma antologia em que o tema central das histórias assenta, praticamente sempre, na ficção científica ou no universo da fantasia distópica.

Tenho que começar por dizer que é uma iniciativa fantástica e que é impregnada por qualidade do princípio ao fim. Desde sempre que considero as antologias de banda desenhada como aquela parte das apresentações de filmes – os chamados trailers – que vemos no cinema, antes de um filme começar. Isto porque, sendo histórias mais pequenas, têm o especial condão de nos apresentarem exercícios criativos, narrativos e visuais. Como se fossem o trailer para um qualquer filme. Claro que, dito assim, pode parecer que estou a menosprezar as curtas de banda desenhada. Mas, meus caros, o meu intuito é exatamente o oposto. Pois acho verdadeiramente importante que estas antologias com curtas de bd vão sendo lançadas para que nós, leitores, possamos destrinçar autores e estilos, bem como conhecer novas e especiais abordagens.

Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy
Ora, olhando para este Umbra #3, não diria que o parágrafo anterior se aplique assim tanto. Isto porque, nem as histórias deste número são assim tão curtas - como, aliás, já referi mais acima -, nem os autores que aqui aparecem são desconhecidos. Todos eles são já bastante “batidos” e experientes autores de banda desenhada. Falo de Filipe Abranches – o autor que também é o editor da publicação e que, portanto, vai ao leme da Umbra –, de David Soares, de Pedro Moura, de Ricardo Baptista e de Bárbara Lopes. Sendo totalmente honesto, o único autor que me era mais desconhecido era mesmo o do artista canadiano convidado, Simon Roy, que assina a última história do livro, intitulada Naufragado com Dan, o Gorila.

Portanto, se é verdade que as antologias têm a mais-valia de apresentar novos artistas – ou novas e/ou diferentes abordagens artísticas -, também é verdade que a Umbra trilha o seu próprio caminho, procurando ser uma seleção de bons artistas, que nos dão boas histórias que circundam os temas da “ficção científica, das teorias da conspiração, dos cenários pós-apocalípticos”, como nos revela o site oficial do projeto.

São histórias pesadas e negras que nos convidam a uma breve reflexão. Todas elas são interessantes e apresentam abordagens visuais muito díspares entre si como é, bem sabemos, uma das características inerentes às antologias de banda desenhada.

Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy
Fazendo uma breve menção a cada uma das quatro histórias que compõem este Umbra #3, começo com a história de abertura: Intenções Comestíveis: Ou Nova Tábua de Cebes, com argumento de David Soares e ilustrações de Filipe Abranches. É, sem dúvida, a história mais densa e pesada e, quanto a mim, em termos de alinhamento, deveria ser a história que fechava o livro. Assim, obriga-nos logo a mergulhar no denso e profundo, ainda mal chegámos à segunda página do livro. Após um cataclismo ter feito desaparecer as montanhas, à boa maneira de David Soares, é-nos dado um universo negro, medonho e pesado, com inúmeras referências mitológicas que se consubstanciam no mundo real em que vivemos. Como se tudo não passasse de uma metáfora surreal da nossa existência mundana. A arte de Filipe Abranches apresenta-se suja, rabiscada, complexa e em total linha de harmonia com a história (desarmoniosa) que nos é dada por Soares. Tudo junto funciona bastante bem. Abranches domina muito bem o preto e o branco, brincando com as luzes e as sombras contrastantes de forma agradável. No entanto, também é verdade que, por vezes, os seus desenhos, de tão carregados e “sujos” que estão, podem tornar-se um pouco ilegíveis.

A segunda história, Weep me Not Dead, faz uma boa ponte distópica para aquilo que poderia – poderá? – ser um futuro possível para a civilização humana. Numa sociedade moderna, que premeia a meritocracia, o capitalismo e o liberalismo ideológico, teremos nós uma vida mais feliz e humana ou, em contraste com isso, teremos uma existência mais maquinal, mais fria e mais politicamente correta? Uma reflexão muito contemporânea e inteligente de Pedro Moura que muito me agradou. A história é servida com as ilustrações de Ricardo Baptista que são verdadeiramente a antítese das ilustrações da história anterior. Os desenhos de Baptista assumem-se como limpos, simplistas, com muita legibilidade e com uma aura totalmente digital. Também em linha com a história que nos é dada, diria. Gostei bastante.

Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy
A terceira história, Tens a Certeza?, é da autoria de Bárbara Lopes, que assume o argumento e as ilustrações e, devo dizer, foi a história que mais me impressionou. Isto porque é um conto onde quase não existem diálogos e onde a autora nos mostra uma longa viagem do seu protagonista, recorrendo a opções gráfico-narrativas muito interessantes e onde o seu traço moderno - e que vai parecendo melhorar de história para história - nos dá desenhos muito ricos. Seja no desenho das personagens, dos ambientes, das expressões faciais, das cenas de ação. Também na planificação e enquadramentos, Bárbara Lopes se revela muito talentosa. Além de que a história, que nos mostra um protagonista a levar a cabo uma longa viagem à procura de respostas, assume uma audácia narrativa ao nos deixar com respostas incertas entre o que é real e o que não é. Muito bem feito e o ponto alto deste Umbra #3, quanto a mim.

Finalmente, terminamos com Naufragado com Dan, o Gorila, a história do artista estrangeiro convidado, Simon Roy, que nos oferece a experiência de um homem naufragado numa ilha que tem como companhia um gorila falante, com quem vai mantendo diálogos, até ao dia em que descobrem um barco naufragado na ilha, com várias provisões, incluindo dez garrafas de whisky, que deixarão o homem e o gorila igualmente embriagados e a fazerem-nos refletir através do seu diálogo. O desenho de Roy é elegante e bonito. Com traço relativamente simples, as ilustrações ganham mais força através da forma como são utilizados os cinzentos, que conferem dinâmica e beleza ao conjunto. Não conhecia o autor e fiquei agradado.

Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy
Em termos de edição, o livro apresenta uma boa qualidade de impressão e encadernação, tem capa mole brilhante e papel baço de boa qualidade. Nota ainda para a fantástica ilustração da capa que é assinada por João Maio Pinto. Devo dizer que gostaria que a lombada do livro tivesse o nome da publicação em vez de só ter o número. Do ponto de vista de arrumação/catalogação, seria mais fácil de encontrar, quer nas nossas estantes, quer nas livrarias.

Tratando-se de um projeto que evoluiu a partir de uma campanha de crowdfunding bem-sucedida, tem ainda mais o meu respeito, pois, sendo eu uma pessoa que, na música, conhece bem o que é e quão relevante para trabalhar um público pode ser uma campanha de crowdfunding, fico feliz pela iniciativa se ter revelado um sucesso.

Em suma, Umbra #3 é uma antologia de banda desenhada que vale muito a pena conhecer pois consegue reunir um bom número de artistas consagrados da bd nacional, enquanto nos oferece histórias densamente povoadas por elementos de uma ficção científica distópica. Recomenda-se.


NOTA FINAL (1/10):
8.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy

Ficha técnica
Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada
Autores: Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy
Editora: Umbra Edições
Páginas: 112, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Dezembro de 2021