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terça-feira, 29 de março de 2022

Qual das três adaptações para bd de "1984", de George Orwell, comprar?


TOP 3 - Há 3 adaptações para BD de 1984, de George Orwell. Que livro comprar?

Chamei TOP 3 a este artigo, mas bem que lhe podia ter chamado, apenas, as "3 adaptações para BD de 1984, publicadas em Portugal, enumeradas da melhor para a pior".

Bem, mas esse título também não me deixou muito satisfeito. Até porque, como veremos mais abaixo, não me parece justo que, no caso concreto, haja uma obra que se demarca muito, pela positiva ou pela negativa, em relação às demais.

Mas já lá irei.

Por agora, relembro que a grande causa que originou que, em cerca de um ano, surgissem no nosso pequeno mercado de banda desenhada, não uma, nem duas, mas três (!) adaptações da icónica obra 1984, de George Orwell, foi o facto da obra do escritor inglês ter entrado em domínio público recentemente.

Quer isto dizer que as editoras são agora livres de publicar a obra sem as habituais condicionantes e regras dos direitos de autor. A obra passou a ser do público, portanto.

E que obra ela é! Já o disse aqui, creio eu, que coloco 1984 numa restrita lista dos melhores livros que li na minha vida. Pela sua audácia, pelo facto de ser uma obra visionária e porque, em jeito de distopia futurista, nos permite ver tanto do que está errado nas sociedades contemporâneas e que riscos daí poderão advir no futuro. De quantas obras podemos nós dizer isto, não é?

Mas focando o meu texto nas bandas desenhadas que foram publicadas pela Alfaguara, pela Cavalo de Ferro (20|20 Editora) e pela Relógio d’Água, posso dizer que temos obras para todos os gostos. Ou, por ventura, para todo o tipo de leitores. Acho até que esse será o principal ponto.

É que, sendo uma adaptação da obra de Orwell, todas estas adaptações cumprem os requisitos mínimos de o ser, mas, claro está, com resultados e abordagens bastante diferentes entre si.

Sei também que a escolha de qual será "a melhor" dependerá muito dos gostos de cada um. Mas, não obstante, olhando para as características inerentes das obras, até não é muito difícil percecionar as diferenças.

A mim, enquanto leitor, parece-me que a obra que globalmente é mais bem conseguida é a versão de Fido Nesti. Acredito que não será uma opinião muito consensual, já que este livro sofreu bastantes críticas – não só em Portugal, como lá fora – por ter demasiado texto e de não ter conseguido abreviar bem a obra. Meus caros, permitam-me discordar nesse ponto. 1984 é uma daquelas obras que tem que ser explicada para que possa ser (melhor) percecionada. E é isso que Fido Nesti aqui faz. 

Se é verdade que também eu achei que, por vezes, há demasiado texto – incluindo páginas de texto em prosa! -, não deixa de ser verdade que, para quem conhece bem a obra original, como é o meu caso, esta será a versão das três que melhor – e de forma mais completa – tenta ser uma adaptação completa. Dito por outras palavras, é – das três opções – o livro que me parece mais completo e, portanto, mais recomendável para quem não conhece, ou para quem conhece mal, a obra original de George Orwell. 

No entanto, parece-me claro que, graficamente falando, a obra mais espetacular das três, é a de Xavier Coste.

Esta adaptação tem, aliás, sido alvo de muito mais louvores e aceitação do que a de Fido Nesti. O problema que esta tem, quanto a mim, é que quase nem parece uma adaptação, mas mais uma homenagem à obra. E porquê? Bem, porque tentando não ter tanto texto e deixar mais espaço para que os desenhos e os momentos possam respirar melhor – e isso é, de facto, conseguido – acaba por explicar de uma forma bastante incompleta quem foi Winston e o mundo de 1984

Se a obra de Fido Nesti tinha muito texto, esta tem demasiado pouco texto. E se a adaptação de Nesti é a que considero pertinente para alguém que nunca leu a obra original, e quer fazê-lo através de uma novela gráfica, esta adaptação de Xavier Coste é completamente adequada para quem já conhece a obra original e/ou para aqueles que são leitores mais batidos de bd e procuram um álbum com ilustrações maravilhosas.

Finalmente, a adaptação da dupla de autores Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane situa-se no meio termo. Nem os desenhos são tão bonitos como os de Xavier Coste, nem a adaptação é tão bem elaborada como a de Fido Nesti. Acaba, por isso, por ser a obra mais superficial das três e a menos memorável. 

Mas isto também não quer dizer que não seja um livro com vários pontos interessantes, quer do ponto de vista narrativo, quer do ponto de vista visual. Para quem aconselharia eu esta versão? Bem, para aqueles vossos amigos que não lêem banda desenhada habitualmente e que também só querem uma leitura mais leve e fácil da obra.

Quanto às edições, todas elas são em boa qualidade, com um bom trabalho de encadernação por parte das respetivas editoras. As da Alfaguara e da Cavalo de Ferro apresentam capa dura, enquanto que a versão da Relógio d’ Água é em capa mole.

Em suma, e abreviando aquilo que escrevi mais acima, esta é a minha consideração sobre as três obras, quando comparadas entre si: 


1984, de Fido Nesti
(Alfaguara) – destina-se aos que não conhecem bem a obra original e querem passar a conhecê-la através da banda desenhada. É a adaptação mais completa da história original.


1984, de Xavier Coste
(Relógio d’Água) – destina-se aos que já são leitores de bd e procuram um álbum muito belo em termos de ilustrações e, também, aos que já conhecem, pelo menos por alto, a obra original.


1984, de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane
(Cavalo de Ferro – 20|20 Editora) – destina-se aos leitores que habitualmente não lêem banda desenhada e querem apenas ficar com uma breve ideia da obra original de Orwell.








Como disse, há opções para todo o género de leitores.

A mim, enquanto leitor, diria que as minhas preferências recaem algures entre a edição de Nesti e a de Coste. Nenhuma das duas me deixa totalmente satisfeito, mas ambas são bastante boas. E, eventualmente, tenho uma ligeira preferência pela edição de Nesti, diria. Não tem desenhos tão bonitos, mas é um livro mais completo para uma história tão complexa como 1984.

Para saberem mais sobre cada uma destas obras, convido-vos a visitarem os artigos que escrevi para cada livro, mais abaixo.



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Fichas técnicas

1984 - A Novela Gráfica 
Autor: Fido Nesti
A partir da obra original de: George Orwell
Editora: Alfaguara 
Páginas: 224, a cores 
Encadernação: capa dura 
Lançamento: Outubro de 2020
Análise à obra, aqui.


1984
Autor: Xavier Coste
A partir da obra original de: George Orwell
Editora: Relógio D’Água
Páginas: 248, a cores
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Agosto de 2021
Análise à obra, aqui.


1984: Novela Gráfica
Autores: Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane
A partir da obra original de: George Orwell
Editora: 20|20 (Cavalo de Ferro)
Páginas: 240, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Agosto de 2021
Análise à obra, aqui.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Análise: Fome: Novela Gráfica

Fome: Novela Gráfica, de Martin Ernstsen - 20|20 Editora - Cavalo de Ferro

Fome: Novela Gráfica, de Martin Ernstsen - 20|20 Editora - Cavalo de Ferro
Fome: Novela Gráfica, de Martin Ernstsen

Com um número reduzido de obras de banda desenhada - quase todas elas adaptações de grandes obras da literatura universal, como 1984: Novela Gráfica, Ana dos Cabelos Ruivos ou este Fome - a 20|20 Editora lá tem construído um bom catálogo de banda desenhada. E a obra que vos trago hoje até acaba por ser um dos melhores livros de bd do catálogo da editora.

Adaptado a partir de Fome, a obra original de Knut Hamsun, este livro, da autoria do norueguês Martin Ernstsen, traz-nos uma história bastante original e, quiçá, diferente daquilo a que estamos mais habituados. A história passa-se em Kristiania (atual Oslo), algures nos finais do século XIX, e situa-se à volta de um narrador sem nome que nos vai contando a sua procura incessante por subsistir através da sua escrita. Mas o sucesso da sua escrita tarda em acontecer e, consequentemente, a personagem acaba por cair numa situação de miséria onde impera a fome. À medida que o jovem escritor não vai conseguindo os trabalhos que lhe são prometidos – ou assim ele o pensa, pelo menos – vai caindo numa espiral de pobreza e fome, enquanto vai ficando também despojado de todas os seus pertences, ao ponto de se tornar um sem abrigo. E sem nada para comer. Mas a sua persistência em tentar ser escritor acaba por ser o real alimento para a sua alma.

Fome: Novela Gráfica, de Martin Ernstsen - 20|20 Editora - Cavalo de Ferro
E, claro, sendo a personagem principal bastante complexa, o seu comportamento errático abre caminho a que seja uma pessoa algo maníaco-depressiva, onde demonstra euforia, delírio, raiva ou mau humor nos momentos errados. E talvez a característica que mais o atinge seja um desmedido orgulho por si mesmo e pela sua arte. Esta é uma obra originalmente considerada como um clássico da literatura mundial. 

Confesso que embora a conhecesse de nome, nunca a tinha lido. E isso pode até, eventualmente, moldar a forma como olho para a obra, do ponto de vista do argumento. Isto porque, se a história e o protagonista aparentam ser interessantes e originais, devo dizer que, em termos de enredo, senti um claro ciclo repetitivo nesta obra. Mas, lá está, como não li o original, posso apenas suspeitar – embora, sem certezas – que essa repetição e esse ciclo narrativo redundante – também estará presente na obra original e que Martin Ernstsen se limitou a respeitá-lo na sua adaptação para banda desenhada.

Seja como for, de uma forma ou de outra, julgo ser justo dizer que essa redundância do protagonista estar constantemente a cair na mesma situação – sem que acontecimentos verdadeiramente relevantes lhe aconteçam – torna a leitura um pouco inglória. Isto porque primeiro cativa o leitor, fá-lo pensar, mas, sensivelmente a meio do livro, parece que a obra se esgota a si mesma em termos de ideias. Claro que há um final e uma pseudo-reflexão inerente ao mesmo, mas, a meu ver, sabe a pouco. Fica mal resolvido. É mais na ideia e na personagem que Fome mais brilha, quanto a mim. Não tanto no enredo e no desenvolvimento, propriamente dito, do argumento. Não obstante, para além da ideia e da personagem verdadeiramente interessantes, convém dizer que o trabalho de Martin Ernstsen me surpreendeu muito, pela positiva.

Fome: Novela Gráfica, de Martin Ernstsen - 20|20 Editora - Cavalo de Ferro
Isto porque este livro apresenta uma identidade gráfica muito própria com o autor a demonstrar ter na manga numerosas e dinâmicas ferramentas visuais para bem ilustrar uma história. Tanto assim é que até acaba por ser difícil dizer qual é bem o estilo gráfico do autor. Isto porque, sendo o livro, quase na sua totalidade, a preto e branco, com predominância de tons a sépia, encontramos ilustrações de página inteira que parecem ser verdadeiros quadros expressionistas, outros que parecem ser verdadeiros quadros realistas. Encontramos vinhetas ovais com o texto em legenda fora do desenho, que remetem para o livro ilustrado e, noutras vezes, encontramos um desenho caricatural, estilo cartoon, onde aparecem cores garridas. Há vinhetas grandes e vinhetas pequenas. Vinhetas de todas as formas e feitios.

O traço do autor lembrou-me bastante o traço de um outro autor que também gosto bastante e que já tem algumas obras publicadas em Portugal. Falo do espanhol Alfonso Zapico que tem as suas obras Gente de Dublin e Café Budapeste publicadas em português, pela Levoir, na sua Coleção Novelas Gráficas. E, em termos de desenho, também existe uma certa dualidade neste Fome: se, por vezes, o desenho parece bastante simplista e de estilo “abonecado”, noutras vezes, especialmente ao nível dos cenários, parece carregado de um verdadeiro realismo romântico. Já para não falar nos desenhos mais expressionistas, para descrever a loucura do protagonista da história, em que Ernstsen também se revela muito inspirado.

Fome: Novela Gráfica, de Martin Ernstsen - 20|20 Editora - Cavalo de Ferro
Sendo o desenho muito interessante, a planificação é ainda mais impressionante, pois estamos perante uma obra que, em termos de dinâmica na planificação, é fantástica. Ernstsen não é, certamente, um autor "preguiçoso", pois parece que cada página é pensada de forma demorada pelo autor, de modo a oferecer-nos uma boa imersão na história. É uma mistura extremamente bem conseguida entre o melhor que o livro de ilustração e o melhor que o livro de banda desenhada têm para nos oferecer.

Quanto à edição, temos um livro em capa dura, com papel espesso e baço, e uma encadernação e impressão de boa qualidade. Tudo bem feito pela 20|20 Editora e nada a objetar, exceto uma pequena nota para a promoção da obra, por parte da editora: o facto de todas as imagens promocionais praticamente não apresentarem vinhetas, faz com que o público da banda desenhada possa não ficar tão empolgado com o livro, pois olhando para as páginas promocionais que partilho neste artigo, bem que parece ser mais um livro ilustrado do que uma banda desenhada. O que não é o caso. 

Em suma, posso dizer que como a história me cativou desde o início e como as ilustrações me pareciam muito interessantes, até meio do livro eu estava muito admirado e impressionado com a obra. No entanto, e devido a uma certa redundância de história e de um subaproveitamento da trama criada, a experiência final de leitura fez-me ficar com um "sorriso amarelo". Isto porque o livro poderia ser tão mais fantástico se depois a história não ficasse, assim, subaproveitada e esgotada! Ainda assim, é um livro bastante bom e um dos melhores da 20|20 Editora. Mais que não seja pelo trabalho impressionante de Martin Ernstsen, que usa inteligentemente as suas capacidades para nos dar um trabalho ímpar. Boa aposta!


NOTA FINAL (1/10):
8.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Fome: Novela Gráfica, de Martin Ernstsen - 20|20 Editora - Cavalo de Ferro

Ficha técnica
Fome: Novela Gráfica
Autor: Martin Ernstsen
Adaptado a partir da obra original de: Knut Hamsun
Editora: 20|20 Editora (Cavalo de Ferro)
Páginas: 232, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Outubro de 2021

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Guia de Compras de Natal 2021 - 3 Livros por Editora



A poucos dias do natal, muitos dos que me lêem já terão feito as suas compras de natal. Outros, terão ainda pela frente, nos próximos dias, essa azáfama das prendas de natal.

Por isso, e tal como no ano passado, este ano volto a preparar um Guia de Compras de Natal para aqueles que ainda estão indecisos.

Relembro que este foi dos melhores ano de sempre no lançamento de boa banda desenhada em Portugal. Houve coisas negativas, como o desaparecimento da coleção de novelas gráficas da Levoir, ou a extinção dos lançamentos DC - ou, mesmo, dos lançamentos Marvel, que quase não existiram. Para os fãs dos super-heróis dos comics, foi um ano fraquinho, reconheço. 

Porém, para os apreciadores de banda desenhada franco-belga, julgo mesmo ter sido o melhor ano de sempre em Portugal, face à qualidade das obras editadas. Houve lançamentos para todos os gostos. Recuperação de séries de excelente qualidade que tinham ficado para trás e a aposta em novas obras de qualidade superior. Para o lançamento de obras portuguesas, foi um bom ano, também.

A saber: não quer dizer que os livros que apresento abaixo sejam aqueles que considero os melhores livros de cada editora. São apenas 3 livros que foram lançados em 2021 e que considero excelentes compras por serem, a meu ver, obrigatórios numa boa biblioteca de banda desenhada. Simplesmente, impus-me a regra de 3 livros por editora. E em alguns casos, foi difícil deixar de fora algumas obras de muita qualidade.

Este ano, retirei da minha lista as editoras Devir e a Levoir, simplesmente porque achei a sua oferta de banda desenhada bastante parca, não obstante o facto da Devir ter sido a principal editora de mangás - que eu pouco domino, reconheço - e o facto da Levoir ter lançado, ainda assim, 14 livros com a sua coleção Clássicos da Literatura em BD.

Deixo-vos, então, mais abaixo, o meu Guia de Compras de Natal para 2021.

Boas festas a todos e lembrem-se: leiam e ofereçam BD.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Análise: Sapiens #1 e #2



Sapiens #1 e #2 de Yuval Noah Harari, David Vandermeulen e Daniel Casanave

Sapiens: História Breve da Humanidade, da autoria do israelita Yuval Noah Harari, é um livro que se tornou num dos maiores bestsellers da última década. De facto, estou certo que foi o enorme sucesso da obra, que fez com que o Harari unisse os seus esforços com os autores David Vandermeulen e o ilustrador Daniel Casanave, para criar a adaptação para banda desenhada dessa obra. Assim, surgiu a série de bd Sapiens. Espera-se que sejam quatro os volumes até a mesma estar concluída. No ano passado saiu o primeiro volume, A Origem da Humanidade e, este ano, no passado mês, saiu o volume dois, que dá pelo nome de Os Pilares da Civilização. Aproveitei para ler os dois livros de uma leva e trago-vos hoje a minha análise a ambas as obras.


Tal como a obra original, este Sapiens procura mostrar-nos, de forma inteligente, original e criativa, e numa linguagem extremamente simples e de fácil compreensão, as origens da humanidade. Desde os tempos da pré-história, até à forma como o Homem – ou deverei dizer o Homo Sapiens? – foi evoluindo, até formar as sociedades mais complexas que hoje conhecemos. Desde os tempos em que mal podia sobreviver num mundo carregado de animais perigosos, até à forma como foi ocupando um lugar de primazia na cadeia alimentar, enquanto se expandia para todos os continentes do planeta, descobrindo a agricultura, a caça e a própria linguagem - a grande chave do seu maior e melhor sucesso, face às demais espécies. Dito assim, este Sapiens pode não ser muito apelativo e soar a uma aula de história e geografia. Mas garanto-vos que o livro está construído e pensado de uma forma que facilmente agrada a qualquer pessoa. Até mesmo àqueles que não têm por hábito ler banda desenhada.

Não é, pois, de admirar que, no ano passado, o primeiro volume de Sapiens tenha ocupado a primeira posição nos livros mais vendidos do ano, segundo dados partilhados pela gigante cadeia FNAC. De facto, esta é uma série adequada a crianças, a jovens e a adultos. A fãs e a não-fãs de banda desenhada.


Não julguem, porém, que vão encontrar nesta série o livro das vossas vidas. Todavia, estou certo que será uma leitura muito agradável e carregada de muitos conhecimentos, que são dados de forma simples.

No meu secundário, lembro-me de ter tido uma professora de história que, por ser aborrecida e monocórdica na forma como falava, tornava a matéria chata e fazia quase todos os alunos dizerem que não gostavam da disciplina de história. Contudo, no ano seguinte, chegou um outro professor que, por nos falar de uma forma tão apaixonada e dinâmica, e de nos passar a matéria não como um fardo ou uma obrigação, mas sim como algo verdadeiramente útil e interessante, conseguiu uma revolução naquela turma: fez com que toda a gente passasse a gostar da aula de história. Não é um feito que toda a gente consiga fazer, infelizmente. Mas os autores desta série Sapiens, e em particular Yuval Noah Harari, conseguem, sem qualquer sombra de dúvida, atingir essa proeza!

A informação é-nos dada de muitíssimas formas: ou as personagens assistem a um filme, ou lêem revistas de comics, ou vão a conferências, ou simplesmente conversam entre si, levantando as dúvidas e as questões - que também se formam na cabeça do leitor – e dando as respostas. Acaba por ser uma autêntica aula de história e que, para além de passar factos científicos para o leitor, também o coloca a pensar e a compreender outras coisas que, numa primeira instância, não pareciam estar interligadas com acontecimentos históricos.


E, para além de tudo isto, a informação é-nos dada com uma constante presença de humor, que nos deixa com um sorriso na cara, enquanto vamos colocando o nosso “tico e teco” a relacionarem coisas entre si.

O primeiro volume começa por abordar as seis espécies diferentes de humanos que caminhavam no planeta, há cerca de cem mil anos, e como a espécie Homo Sapiens conseguiu tornar-se o rei do mundo, ao passo que as restantes cinco espécies pereceram. Aborda também como foi a extinção dos mamutes e dos tigres de sabre, e as descobertas que, pouco a pouco, os Sapiens foram adquirindo.

O segundo volume, continua a história do Sapiens que, entretanto, funda as primeiras cidades, desenvolve a agricultura, inventa a economia e cria a noção de família. Bem como, a linguagem e a escrita. Explica-nos também, sempre com humor, mas também com responsabilidade e sentido crítico, como a guerra, as epidemias, a fome e a desigualdade social se tornaram, para sempre, uma parte da condição humana.


Não façam o erro que eu fiz, que optei por ler os dois livros seguidos. É que, mesmo sendo simples e de fácil leitura, o total dos dois volumes perfaz um texto de carácter educativo com 500 páginas seguidas. O que talvez se torne em algo mais cansativo de ler. Portanto, a minha sugestão é que leiam um volume e, depois, mais tarde, leiam o outro. Ambos merecem ser lidos. Até porque um livro continua a história do Sapiens no exato momento em que o livro anterior a deixou.

Em termos de desenho, Daniel Casanave, o ilustrador, oferece-nos desenhos simples, rápidos e que servem bem o propósito desta banda desenhada. O traço é linear, com cores vivas, mas até é verdade que, por vezes, o autor permite-se a liberdade de nos oferecer uma vinheta ou uma prancha com mais detalhe, com maior dimensão, e que permite ao todo respirar um pouco melhor. E isso acaba por ser importante para que a informação seja dada ao leitor de forma doseada. É claro que não são desenhos “lindos” na sua forma. Ou “portentos da ilustração técnica”. Mas também não creio que fosse isso o expetável para um livro deste género. Mesmo assim, e porque sei que Casanave é capaz de o fazer, gostaria que ambos os livros tivessem mais destes momentos, em que a sua arte é mais detalhada e exige que a apreciemos melhor. É pena que aconteça poucas vezes.

Quanto à edição, estamos perante um bom trabalho da Elsinore (20|20 Editora). Os livros têm capa dura, papel baço de boa espessura, e uma encadernação e impressão boa. No volume 2, o subtítulo “Novela Gráfica” foi mal escrito, lendo-se “Nova Gráfica” na lombada do livro. Um erro pequeno, mas que, infelizmente, é muito visível. No entanto, nota positiva para o facto destas edições terem acompanhado a data da edição mundial. É sempre de louvar que as editoras se esforcem para que Portugal não fique à espera daquilo que sai antes, lá fora.

Em conclusão, posso dizer que dentro do estilo da “banda desenhada educativa”, a série Sapiens é uma autêntica vencedora e não me espanta nada que esteja a ter o sucesso comercial que tem tido. É simples, divertida, de fácil leitura e oferece muitos e interessantes conceitos e conhecimentos. Uma verdadeira vitória de todos os envolvidos.


NOTA FINAL (1/10):
8.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Fichas técnicas
Sapiens: A Origem da Humanidade (Novela Gráfica, vol. 1)
Autores: Yuval Noah Harari, David Vandermeulen e Daniel Casanave
Editora: 20|20 Editora (Elsinore)
Páginas: 248, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Outubro de 2020


Sapiens: Os Pilares da Civilização (Novela Gráfica, vol. 2)
Autores: Yuval Noah Harari, David Vandermeulen e Daniel Casanave
Editora: 20|20 Editora (Elsinore)
Páginas: 256, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Outubro de 2021

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Análise: 1984: Novela Gráfica

1984: Novela Gráfica, de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane - Cavalo de Ferro - 20|20 Editora

1984: Novela Gráfica, de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane - Cavalo de Ferro - 20|20 Editora
1984: Novela Gráfica, de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane

Desde que a obra de George Orwell entrou, recentemente, em domínio público, são cada vez mais as diversas adaptações que vão surgindo no mercado. Só em Portugal, já foram lançadas, no espaço de cerca de um ano, 3 adaptações para banda desenhada da mesma obra 1984. A primeira adaptação, da autoria de Fido Nesti, pela editora Alfaguara, já aqui foi analisada. Brevemente, analisarei também a adaptação de Xavier Coste, publicada pela Relógio d’Água, que também já se encontra na minha pilha de “livros para ler”. Possivelmente, até farei depois um comparativo entre as 3 obras. Saliento, também, a título de curiosidade, que há ainda uma quarta versão, da autoria de Jean-Christophe Derrien e Remi Torregrossa, que também me parece muito interessante, mas que, pelo menos até agora, não foi lançada em Portugal.

Mas centremo-nos na versão de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane, que a 20|20 Editora, sob a chancela da Cavalo de Ferro, lançou recentemente.

1984: Novela Gráfica, de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane - Cavalo de Ferro - 20|20 Editora
Posso dizer que, no seu todo, esta é uma adaptação que cumpre bem os pressupostos de uma adaptação tão relevante como a de 1984, de George Orwell. Resume os momentos mais importantes da obra, tem clareza narrativa e tem uma ilustração que, não sendo estonteante, sabe reconstruir o universo imaginado por Orwell.

A história, sobejamente conhecida, mas que sintetizo aqui, é ambientada num futuro distópico que se passa no ano de 1984 (mas que foi originalmente escrito no ano de 1948) e conta-nos o percurso de Winston Smith, que trabalha no Ministério da Verdade, onde textos, filmes e livros são oficialmente retificados para provar que o Partido tem sempre razão. Winston começa então a discordar com os valores preconizados por este Estado Autoritário e começa a sentir uma rebelião secreta a crescer dentro de si. E essa rebelião e essa revolta acabam por ser ainda mais despertadas quando começa a travar conhecimento com Julia, por quem se apaixona, e com quem mantém um relacionamento às escondidas dos tele-écrans comandados pela equipa do Grande Irmão. Tal como Winston, também Julia é crítica do sistema que os controla ao mais ínfimo detalhe. E, eventualmente, esse sentimento de revolta e contraordenação de ambos, acaba por ser posto a descoberto pela máquina que sustenta o Grande Irmão, havendo fortes punições para os prevaricadores.

1984: Novela Gráfica, de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane - Cavalo de Ferro - 20|20 Editora
A história deste que é um dos meus livros favoritos de sempre, e que continua tão atual e tão relevante acerca das formas como podemos olhar para um Estado e para o papel que desempenhamos no mundo, já é bem conhecida. Interessa, por isso, olhar mais para a forma como a obra original foi adaptada nesta edição. Acho que, de uma forma global, podemos dizer que a adaptação está bem conseguida, pois consegue transportar-nos para esse universo opressivo, sorumbático e cinzento. Este é um sítio onde nenhum de nós gostaria de estar, mas que nos cativa por ser uma distopia que, em muitos casos, se assemelha àquilo que temos nas sociedades modernas. E isso, passa bem nesta adaptação de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane. Quanto aos diálogos, porém, julgo que os mesmos poderiam ter sido mais bem trabalhados.

Em termos visuais, é uma obra que, em muitas ocasiões, parece alicerçar-se mais no livro ilustrado do que na banda desenhada. Porém, tenho cuidado com esta afirmação, pois é claro que estamos perante um livro de banda desenhada na forma, com a presença de vinhetas, balões, etc. No entanto, o que quero sublinhar é que, por vezes, as vinhetas são compostas por uma ilustração com o texto a aparecer fora das mesmas, como se fosse a legenda de uma ilustração apenas. Além disso, não há propriamente uma grande sequência entre desenhos já que, em vários casos, o ilustrador Amazing Améziane se limita a oferecer-nos desenhos que nos remetem para o universo aqui tratado, ou para os valores que são passados por esta distopia, mas que não são, necessariamente, uma sequência visual para o que acontece na linha narrativa da história. Por outras palavras, como as ilustrações não obedecem, necessariamente, ao que é dito e narrado, bem que também poderiam ser utilizadas mais à frente ou mais atrás na história, com outra descrição e/ou texto. É, também por isso, que este livro nos remete para o livro ilustrado.

1984: Novela Gráfica, de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane - Cavalo de Ferro - 20|20 Editora

A paleta de cores assenta, depois, em tons azulados, que nos transportam para um universo triste e monocromático que está, também, muito presente na história original. Acho, portanto, que, de um modo geral, o autor é feliz em caracterizar o universo de 1984. As ilustrações acabam por nos dar ambientes sujos, opressivos, lineares e obtusos que nos parecem fazer viajar facilmente para este universo.

Gostei também, e particularmente, da planificação da obra, já que é muito dinâmica e moderna. Temos ilustrações que ocupam uma só página; temos as tradicionais vinhetas; temos ilustrações grandes, que são divididas por vinhetas entre si; temos figuras a rasgar os limites das vinhetas; temos, basicamente, muita variedade.

Talvez, também por isso, esta adaptação sendo, ainda assim, pesada pelo tema que aborda, torna-se uma leitura fácil e simples de ler por toda a gente. Claro que, se isso é bom por um lado, por outro lado, também faz com que esta adaptação, quando comparada, por exemplo, com a de Fido Nesti, se pareça, por ventura, mais superficial e menos fidedigna. Quase como se procurasse ser, por seu turno, mais uma introdução à obra original do que, propriamente, um resumo da obra original. Se me perguntarem: “então, mas quem nunca leu a obra original e lê esta adaptação destes autores fica a conhecer 1984?” Responderia que fica a conhecer, por traços gerais, a obra original, sim. Ganha umas luzes sobre o tema. Mas também é verdade que há muito da obra original que acaba por não ser resgatado para esta adaptação.

1984: Novela Gráfica, de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane - Cavalo de Ferro - 20|20 Editora

Em termos de edição, a 20|20 Editora faz aqui mais um bom trabalho. O livro é robusto e em capa dura, com papel baço de boa gramagem. Um objeto-livro bem apetecível, embora a ilustração da capa pudesse ser, a meu ver, bem melhor, a julgar por outras splash pages no interior do livro, que dariam capas bem mais apelativas.

Em conclusão, esta é (mais) uma adaptação para novela gráfica da obra 1984, de George Orwell, que cumpre os pressupostos primordiais de nos transportar, novamente, para esse universo cinzento e opressivo que o autor inglês criou na sua obra-prima. Acaba por ser uma adaptação light – leia-se “superficial” – mas que consegue ser bem conseguida e uma porta de entrada pertinente para o texto original.





NOTA FINAL (1/10):
7.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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1984: Novela Gráfica, de Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane - Cavalo de Ferro - 20|20 Editora

Ficha técnica
1984: Novela Gráfica
Autores: Sybille Titeux de la Croix e Amazing Améziane
Editora: 20|20 (Cavalo de Ferro)
Páginas: 240, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Agosto de 2021

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Cavalo de Ferro lança "Fome: Novela Gráfica"!




Já está disponível a nova aposta da editora Cavalo de Ferro (do grupo Editora 20|20), que dá pelo nome de Fome: Novela Gráfica

O livro é baseado no romance original de Knut Hamsun (vencedor do prémio Nobel da literatura) e a adaptação para banda desenhada ficou a cargo de Martin Ernstsen. Saliente-se que esta adaptação ganhou o Prémio Brague, em 2019.

Estou curioso com este livro porque nunca li a obra original.

Abaixo, fiquem com a sinopse da obra e algumas imagens promocionais.


Fome: Novela Gráfica, de Martin Ernstsen

Obra inaugural da grande literatura moderna, Fome, do prémio Nobel de Literatura Knut Hamsun, foi publicado há mais de um século.

Numa abordagem tão fiel quanto original ao romance de Hamsun, o artista norueguês Martin Ernstsen adapta para novela gráfica esta história protagonizada por um jovem escritor que deambula faminto e delirante pela cidade de Kristiania, oferecendo ao leitor uma experiência estética e literária singular. 

Um romance marcante, considerado o início da grande literatura do século xx, que antecipou e influenciou a obra de nomes como Franz Kafka, Albert Camus ou John Fante.

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Ficha técnica
Fome: Novela Gráfica
Autor: Martin Ernstsen
Adaptado a partir da obra original de: Knut Hamsun
Editora: 20|20 Editora (Cavalo de Ferro)
Páginas: 232, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 24,99€

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

O volume 2 de um dos livros de bd mais vendidos em Portugal em 2020 está de volta!




Desde ontem que está disponível o volume 2 da adaptação para banda desenhada do bestseller mundial Sapiens - História Breve da Humanidade, da autoria de Yuval Noah Harari. 

A adaptação para bd ficou a cargo dos autores  David Vandermeulen e  Daniel Casanave e a edição em Portugal pertence à chancela Elsinore, do grupo 20|20 Editora. O primeiro volume da série esteve entre os livros mais vendidos de banda desenhada em Portugal durante o ano passado. O que poderá significar que este segundo volume continuará a ser um sucesso de vendas.

Salienta-se o facto do lançamento em Portugal ter sido feito em simultâneo com o lançamento mundial. Esta está a ser uma prática cada vez mais comum no nosso país. No entanto, é algo que sempre valorizo e acho que merece uma nota de louvor, já que não é preciso recuar muitos anos na história da edição em Portugal para verificar que isso não costumava acontecer.

Abaixo, fiquem com a nota da editora e com algumas imagens promocionais.


Sapiens: Os Pilares da Civilização (NovelaGráfica, vol. 2), de Yuval Noah Harari, David Vandermeulen e  Daniel Casanave 

Segundo volume (de cinco previstos) da extraordinária adaptação ilustrada do bestseller internacional Sapiens, História Breve da Humanidade.
E se há 12 mil anos os humanos tivessem voluntariamente caído numa armadilha da qual nunca mais conseguiram sair? Sapiens: Os Pilares da Civilização explica-nos como de caçador-recoletor nómada o Homo sapiens aprendeu a domesticar plantas e animais tornando-se sedentário.

Esta é a história de como o trigo tomou conta do planeta, de como um casamento improvável entre um deus e um burocrata criou os primeiros grandes impérios do mundo, e de como a guerra, as epidemias, a fome e a desigualdade social se tornaram para sempre uma parte da condição humana.

Neste segundo volume da adaptação ilustrada de Sapiens: História Breve da Humanidade para novela gráfica, Yuval Noah Harari, em parceria com o escritor David Vandermeulen e o ilustrador Daniel Casanave, faz-nos uma vez mais viajar através dos séculos, investigando, desta feita, uma das maiores transformações da História: a Revolução Agrícola e as suas inesperadas consequências para a sociedade humana.

Recorde-se que no vol. 1, Yuval Noah Harari contou-nos a história de um simples símio que acabaria por se tornar o rei do planeta Terra, capaz de dividir o átomo, voar até à Lua e manipular o código genético da vida. Permitiu-nos assistir ao primeiro encontro entre sapiens e neandertais, à extinção dos mamutes e dos tigres dentes-de-sabre, e às descobertas que acabaram por definir-nos enquanto caso único na Natureza.

Ilustrado a cores, original e cheio de humor, este livro é indicado para quem quer continuar o diálogo iniciado em Sapiens: História Breve da Humanidade e para apresentar o universo e as ideias de Noah Harari a novos leitores, curiosos pela história e pela ciência, e pelo que tem sido o longo e agitado percurso do ser humano até aos dias.
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Ficha técnica
Sapiens: Os Pilares da Civilização (NovelaGráfica, vol. 2)
Autores: Yuval Noah Harari, David Vandermeulen e  Daniel Casanave
Editora: 20|20 Editora (Elsinore)
Páginas: 256, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 29,99€ 











quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Análise: Ana dos Cabelos Ruivos: Novela Gráfica

Ana dos Cabelos Ruivos: Novela Gráfica, de Mariah Marsden e Brenna Thummler - Fábula (20|20 Editora)

Ana dos Cabelos Ruivos: Novela Gráfica, de Mariah Marsden e Brenna Thummler - Fábula (20|20 Editora)

Ana dos Cabelos Ruivos: Novela Gráfica, de Mariah Marsden e Brenna Thummler

A chancela Fábula, pertencente ao grupo editorial 20|20, lançou recentemente a adaptação em banda desenhada do romance Ana dos Cabelos Ruivos, originalmente publicado por Lucy Maud Montgomery. A adaptação para bd é feita por Mariah Marsden, ao nível dor argumento. Brenna Thummler, por sua vez, assegura as ilustrações desta obra.

A história será conhecida por muitos. Mesmo aqueles que nunca leram a obra original. Lembro-me que durante a minha infância os desenhos animados Ana dos Cabelos Ruivos que passavam no Canal 2 (RTP), no programa Agora Escolha, que era apresentado por Vera Roquette, tinham bastante sucesso entre as crianças portuguesas. Sendo uma história direcionada para um público mais feminino, diria, assume-se não obstante como um bonito conto sobre a infância, sobre o amadurecimento e o crescimento da idade jovem para a idade adulta. E, portanto, considero que pode e deve ser uma leitura para todos. Para um público feminino e para um público masculino. Para um público jovem e para um público adulto.

Ana dos Cabelos Ruivos: Novela Gráfica, de Mariah Marsden e Brenna Thummler - Fábula (20|20 Editora)

A história desenrola-se no século XIX, numa paisagem rupestre do Canadá. Ana Shirley, uma órfã de 11 anos, com umas compridas tranças ruivas, a quem a vida não tem corrido propriamente bem, é enviada para a quinta Green Gables, da família Cuthbert. Mas há um equívoco neste envio. Porque a ideia original da família Cuthbert – constituída unicamente pelos dois irmãos, Marilla e Matthew Cuthbert – era adotar um rapaz, de forma a que este pudesse ajudar com o trabalho na quinta. 

Quando verificam que lhe foi enviada uma rapariga, em vez de um rapaz, a primeira reação de Marilla, é fazer uma devolução de Ana. E chega mesmo a encetar essa demanda. Mas depois, movida por compaixão e, quiçá, um palpite que esta Ana poderá ser especial para a vida desta família, Marilla decide não devolver a rapariga. E é então que rapidamente Ana Shirley passa a ocupar um lugar de destaque na vila de Avonlea. 

Sendo uma autêntica enfant terrible, que diz aquilo que pensa, sem pensar nas consequências, depressa Ana Shirley tomará de assalto todos aqueles que a rodeiam. Mas, ao mesmo tempo, e é isso que mais aprecio no romance original e nesta adaptação, Anne começa a conquistar tudo e todos. Primeiro os leitores que lêem as suas aventuras. E, depois, as próprias personagens que navegam à volta da meninas dos cabelos ruivos.

Ana dos Cabelos Ruivos: Novela Gráfica, de Mariah Marsden e Brenna Thummler - Fábula (20|20 Editora)

Afinal de contas, Ana é uma clara e bela representação daquilo que é ser-se criança: os dramas, os sonhos, a imaginação, as travessuras, a alegria, o contentamento, a tristeza, o desapontamento, a ingenuidade e a pureza. Sendo pai de duas crianças meninas, devo dizer que olhei para esta história com todo um novo gosto e paixão pela infância, mas vista pelos olhos de uma menina.

Mariah Marsden adapta de forma convincente a obra original, sabendo dividi-la e ritmá-la a seu belo prazer. Acho, pois, que os momentos desta história estão muito bem conseguidos. O ritmo é lento e vai permitindo que o leitor comece a estabelecer uma relação com as personagens. É um caso claro em que o número - bastante generoso - de 232 páginas, ajuda a que isto aconteça. Esta história talvez até pudesse ser contada em 60 páginas de banda desenhada. Mas não seria a mesma coisa e dificilmente se alcançaria esta tal relação que refiro entre leitores e obra.

Quanto à arte ilustrativa, o estilo é moderno e parecendo derivar mais do álbum ilustrado do que da banda desenhada. Mas, à medida que vamos lendo a obra, isso não será de todo verdade. Porque a autora, Brenna Thummler, até demonstra bastante talento em contar uma história por sequência visual, recorrendo a vários planos criativos de detalhe e uma boa – embora simples – utilização de câmara. 

Ana dos Cabelos Ruivos: Novela Gráfica, de Mariah Marsden e Brenna Thummler - Fábula (20|20 Editora)

Dito isto, tenho porém que admitir que seria difícil desenhar Ana Shirley, a protagonista, mais feia. Bem sei que a personagem se sente feia mas, a meu ver, baseado na interpretação que faço da obra, nunca é dito que Ana era feia mas sim que se sentia feia. E há uma enorme diferença nisso, pois estamos a falar de uma criança que se observa com todas as inseguranças próprias da infância. Portanto, acho que não seria necessário desenhar Ana de forma tão feia. As outras personagens não são muito bonitas mas Ana, com olhos inexpressivos que mais parecem duas ervilhas e um nariz que parece aqueles que utilizamos no carnaval, consegue atingir um marco de “feiura” grande. É um "estilo de desenhar", bem sei, e alguns até poderão adorar. No meu caso, que até me considero bastante liberal em abordagens visuais fora da caixa, foi um pouco penoso aceitar uma protagonista tão deliberadamente feia.

Todavia, também é verdade que há depois muitos momentos onde a autora Thummler se destaca pela positiva nas ilustrações com que nos brinda. Que são as vinhetas que ocupam toda uma página. Que rapidamente remetem para um livro ilustrado mas que são de uma beleza muito agradável aos olhos. Nas expressões faciais, na sensação de movimento, na linguagem corporal ou nos próprios personagens, a autora até pode não fazer um trabalho que considero bom mas, na ilustração de belas paisagens campestres, que nos fazem viajar para toda essa ambiência bucólica onírica, tenho que dar a mão à palmatória e admitir que este é um livro muito bem conseguido. E, lá está, quando se termina a leitura da obra, talvez até sejam estes ambientes que ficam na nossa retina. E não o nariz e os olhos feios de Ana Shirley.

Ana dos Cabelos Ruivos: Novela Gráfica, de Mariah Marsden e Brenna Thummler - Fábula (20|20 Editora)

A edição da Fábula (20|20 Editora) está muito bem conseguida. O livro tem uma encadernação bastante consistente, com capa dura e bom papel brilhante. Talvez o papel baço pudesse funcionar melhor para o tipo de banda desenhada, e respetiva arte visual, que temos em mãos. Todavia, digo isto sem conhecer a edição original que até pode já ter sido editada em papel brilhante. Seja como for, e gostos à parte, a edição da obra apresenta especial cuidado e aprumo.

Em conclusão, este foi um livro que me foi conquistando aos poucos. E depois de ultrapassada uma certa incapacidade (ou opção estética?) de Brenna Thummler para ilustrar as expressões faciais das personagens – em especial, as de Ana – até estamos perante um livro bem conseguido. Enquanto adaptação funciona bem, traçando-nos a personalidade e aventuras de Ana Shirley de forma inequívoca. E como novela gráfica, livro de banda desenhada, também é uma aposta interessante. Ao início torci o nariz, é certo, mas acabei a leitura desta obra com um sorriso na cara e uma boa sensação. Primeiro estranha-se. Depois entranha-se.


NOTA FINAL (1/10):
7.6



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Ana dos Cabelos Ruivos: Novela Gráfica, de Mariah Marsden e Brenna Thummler - Fábula (20|20 Editora)

Ficha técnica
Ana dos Cabelos Ruivos: Novela Gráfica
Autoras: Mariah Marsden e Brenna Thummler
Adaptado a partir da obra original de: Lucy Maud Montgomery
Editora: Fábula (20|20 Editora)
Páginas: 232, a cores
Encadernação: capa dura
Lançamento: Setembro de 2021