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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Ala dos Livros encerra (por agora) a espetacular série "Shi"!




A Ala dos Livros prepara-se para publicar, a partir do próximo dia 8 de Setembro, o terceiro e último livro da série Shi, de Zidrou e Homs.

Faço aqui uma ressalva: supostamente, a série não está totalmente "fechada". É esperado que os autores venham a fazer mais um ciclo, dividido por dois tomos. 

Mas, pelo menos ao dia de hoje, podemos dizer que a série fica integralmente publicada em Portugal, pois apenas existem 6 volumes de Shi, divididos em dois ciclos: o primeiro ciclo, que inclui 4 tomos e que a Ala dos Livros editou em dois volumes duplos; e este segundo ciclo, composto por 2 tomos, respetivamente, Black Friday e O Grande Fedor, que a editora portuguesa se prepara agora para editar, novamente num álbum duplo.

Esta é uma série verdadeiramente espetacular, a todos os níveis, que recomendo vivamente a qualquer leitor. Tanto o primeiro como o segundo volume me deixaram abismalmente fascinado perante uma história tão densa e desenhos tão incríveis.

Por todos estes motivos, quero muito ler este volume que, por agora, encerra a série Shi.


Shi - Livro 3, de Zidrou e Homs

Após os acontecimentos em Londres, Jay e Kita săo, mais do que nunca, consideradas terroristas pela burguesia hipócrita.
No entanto, graças ao grupo "Măes Furiosas", a sua luta espalhou-se como fogo em palha seca. Tanto que a marca SHI nunca esteve tăo visível em Londres. No túmulo de Jay, Apolline começa a compreender a vida que a sua măe biológica levou até entăo. Uma vida de lutas e de batalhas, dedicada a uma causa. Mas será Apolline suficientemente forte para suportar o peso do seu legado? Estará preparada para assumir o lugar dessa măe falecida sobre quem nada sabe, excepto através de boatos populares e pedidos de resgate?

Londres, 1858. Enquanto Jay aguarda o seu julgamento na prisăo, após os trágicos eventos de Trafalgar Square, e tanto Kita como Sensei, com os seus demónios, lutam para recuperar dos seus ferimentos, uma nova calamidade assola a Inglaterra e a capital do Império Vitoriano. Uma onda de calor intensa seca o Tamisa, poluindo Londres e ameaçando reacender uma epidemia de cólera.

Mas isso năo impede as fundadoras das "Măes Furiosas" de planearem novos ataques, de lutarem pelo fim do trabalho infantil e de procurarem a filha de Jay. Só falta a encarnaçăo do quarto demónio para finalmente se vingarem do Império, porque, como diz a cantiga infantil: "4 é o seu número, o seu número maligno"... Desta vez, Zidrou mergulha as suas heroínas, sedentas por vingança e justiça social, no coraçăo de um evento histórico que ressoa com particular força nos dias de hoje: "O Grande Fedor", uma catástrofe climática que desencadeou uma verdadeira revoluçăo na saúde pública de Inglaterra. Um ambiente crepuscular onde a arte evocativa de Homs mais uma vez opera maravilhas.

“Shi” é uma das mais aclamadas séries da BD franco-belga da actualidade, uma obra fascinante que a Ala dos Livros publica em Portugal.

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Ficha técnica
Shi - Livro 3
Autores: Zidrou e Homs
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura, com lombada em tecido
Formato: 235 x 320 mm
PVP: 32,00€

terça-feira, 14 de julho de 2026

Análise: Brigada de Costumes

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre

As duas editoras A Seita e Arte de Autor voltaram a editar, recentemente, e de forma conjunta uma obra de Zidrou, autor de quem as duas editoras portuguesas já por cá editaram Lydie, Emma G. Wildford, Naturezas Mortas e Amore. Desta feita, foi a vez de Brigada de Costumes chegar até nós. De todos os livros editados em parceria pelas duas editoras eu gostei bastante, mas devo até dizer que este Brigada de Costumes está entre os meus favoritos!

Há muito que considero o nome de Zidrou como sinónimo de qualidade. Sou um grande adepto de todos os seus livros e, felizmente, até já são muitas as suas obras que por cá foram editadas. Além das que referi acima, também os excelentes A Fera (A Seita), Verões Felizes (Arte de Autor), Shi e A Adopção (estes últimos da Ala dos Livros) me conquistaram totalmente.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
E não me fico por aí. É que Jordi Lafebre, ilustrador dos já supramencionados Verões Felizes e Lydie, bem como, enquanto autor completo, de Apesar de Tudo, Sou o Seu Silêncio ou Sou um Anjo Perdido, também é dos meus autores preferidos da atualidade.

Ora, juntar estes dois "pesos pesados" não só já se revelou um autêntico sucesso em Verões Felizes ou Lydie, como me fez ficar bastante empolgado para este Brigada de Costumes, bem antes de o ler.

Editado originalmente em 2014, em dois tomos isolados, a narrativa desta obra é ambientada na Paris dos anos 1930, onde acompanhamos o jovem inspetor Aimé Louzeau na sua integração na chamada "Brigada de Costumes", uma força especial da polícia francesa que procura investigar e anular a libertinagem dos cidadãos. 

Recém-chegado à polícia parisiense, Aimé aprende os meandros deste tipo de vigilância sobre as vidas privadas dos outros, especialmente das suas práticas sexuais, recolhendo todas as informações que possam depois ser utilizadas contra esses supostos prevaricadores da moral e da decência. A cidade parisiense que Zidrou nos apresenta é uma cidade fascinante, mas profundamente desigual, onde a corrupção e a hipocrisia convivem lado a lado com os discursos de moralidade. O habitual, diria.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
No entanto, o verdadeiro coração da narrativa está em Aimé Louzeau. Ele é filho de um padre excomungado, carregando consigo uma herança pesada que influencia a sua visão da autoridade, da religião e da justiça. Enquanto investiga os segredos dos outros, é obrigado a confrontar-se com os seus próprios fantasmas. Isto não esquecendo que, entretanto, quer o seu pai, quer a sua mãe, parecem sucumbir à saúde mental. Além disso, tudo muda na vida de Aimé quando este dá de caras com Eeva, uma prostituta exótica que o faz experenciar uma paixão nunca antes vivida. E é nessa dimensão íntima e mais pessoal da personagem de Aimé e de todas as outras que a rodeiam, que Brigada de Costumes se revela muito mais do que uma simples história policial.

A primeira coisa que me impressionou nesta obra foi a forma como Zidrou constrói as personagens. Não é que isso me tenha surpreendido, pois já conheço as valências do autor em conseguir despertar sentimentos de empatia perante as suas personagens profundamente humanas... mas diria que o seu trabalho volta a ser impressionante. Não há aqui heróis perfeitos nem vilões de cartilha. Existem pessoas. Homens e mulheres. E, como sabemos, as pessoas são frágeis, são contraditórias. Por vezes perdem-se e por vezes encontram-se. E são tão capazes de gestos de enorme generosidade, como de atitudes profundamente destrutivas. É esse lado humano que torna a leitura tão absorvente e que nos faz permanecer emocionalmente ligados a este livro. Assim que o terminei, voltei a lê-lo de enfiada.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
E diria que estamos perante uma das histórias mais tristes escritas por Zidrou. Ainda assim, o autor mantém aquela característica tão própria de introduzir uma espécie de luz ao fundo do túnel. Não se trata de um final feliz convencional. Ou de uma resolução que põe tudo em pratos limpos. Pelo contrário, existe neste Brigada de Costumes uma postura agridoce perante a vida que acaba por tornar os momentos alegres menos leves e os momentos dolorosos um pouco mais suportáveis. E poucos argumentistas conseguem trabalhar tão bem esta ambiguidade emocional.

Os temas abordados são particularmente densos. Saúde mental, religião, perversões sexuais, obsessão, solidão e hipocrisia institucional cruzam-se constantemente ao longo da narrativa. A própria polícia surge retratada de forma paradoxal, como uma instituição encarregada de combater práticas que, de uma forma ou de outra, também ajuda a perpetuar. 

Aimé Louzeau espelha bem a complexidade da história. Inicialmente surge como uma personagem extremamente cativante, quase ingénua, com quem simpatizamos imediatamente. Contudo, à medida que a narrativa avança, algo começa a mudar e a sua personalidade revela zonas mais sombrias, cada vez mais inquietantes, levando-nos a olhar para ele de forma diferente. É um retrato duro e, ao mesmo tempo, profundamente humano da incapacidade de controlar determinados impulsos.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
Confesso que a única reserva que tenho em relação à obra resulta precisamente da riqueza do material apresentado. Isto porque fiquei diversas vezes com a sensação de que havia aqui matéria suficiente para uma série bastante mais longa. Dira até de uns seis ou sete volumes. Ou mais. É que temos a questão das práticas da polícia e do ambiente boémio da prostituição; a relação amorosa de Aimé; a paixão que este nutre por Eeva; a questão da religião e do convento; a própria relação dos pais de Aimé; e até mesmo o flashforward que nos coloca em 1944 numa Paris bombardeada. É muita coisa para um díptico apenas. E não é que os principais acontecimentos da obra não fiquem devidamente bem encerrados -poruq ficam - mas sinto que havia riqueza para muito mais.

Nesse sentido, tenho a sensação de que Zidrou colocou demasiadas ideias em apenas dois volumes. Não porque a narrativa fique incompreensível ou desequilibrada, repito, mas porque existe tanta substância que acabamos por desejar mais espaço para explorar cada fio desta teia. 

Apesar disso, Brigada de Costumes permanece uma obra notável. Está impregnada de uma melancolia constante que acompanha o leitor do princípio ao fim. Há uma tristeza difusa em muitas das situações e personagens, mas nunca uma tristeza gratuita ou manipuladora. Tudo surge organicamente integrado na história e contribui para a sua autenticidade emocional.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
Relativamente aos desenhos de Jordi Lafebre, é impossível não destacar o extraordinário trabalho do autor. Uma vez mais. À partida, e tendo em conta a história que temos em mãos, até poderia pensar-se que o seu talento para histórias mais luminosas e optimistas entraria em conflito com uma narrativa tão sombria. Mas acontece precisamente o contrário. O desenhador entrega belas páginas, belas opções visuais e velos enquadramentos. As cores nos desenhos, a recriação da Paris dos anos 30, as roupas de época, a elegância dos cenários, os corpos femininos e, acima de tudo, a expressividade das personagens são absolutamente magníficos. 

A edição é em capa dura baça, de textura aveludada e com detalhes a verniz. No miolo, o papel é baço e de boa qualidade. Também de boa qualidade é a encadernação, impressão e acabamentos. A opção das editoras por lançarem a obra num único volume integral também foi a mais ajustada, claro.

Em suma, Brigada de Costumes é uma belíssima obra que em boa hora foi editada em Portugal. No final da leitura, fica uma sensação agridoce: a tristeza de abandonar estas personagens, por um lado, e a gratidão por termos podido acompanhá-las, por outro. E isso, para mim, é sinal de uma grande obra!


NOTA FINAL (1/10):
9.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor

Ficha técnica
Brigada de Costumes
Autores: Zidrou e Jordi Lafebre
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 cm
Lançamento: Junho de 2026

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Arte de Autor e A Seita editam nova BD de Zidrou e Jordi Lafebre!



Já aqui tinha sido anunciado, mas agora é facto consumado! As editoras Arte de Autor e A Seita preparam-se para editar a obra Brigada de Costumes, que conta com argumento de Zidrou e ilustrações de Jordi Lafebre.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora Arte de Autor e deverá chegar às livrarias a partir do próximo dia 30 de junho.

Eu, enquanto confesso fã dos dois autores, estou com enorme vontade de mergulhar nesta leitura! Esta obra foi originalmente editada em dois volumes, mas a edição portuguesa será de um só volume integral.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre

A dupla Zidrou e Jordi Lafebre (Lydie, Verões Felizes) reencontra-se na esquadra de Paris na década de 1930!

Esta história em duas partes retrata o quotidiano da esquadra: o jovem inspetor Aimé Louzeau inicia-se na infiltração e vigilância para desvendar segredos cruciais para os mais altos escalões governamentais. 

Mas a polícia também tem os seus segredos, e Aimé, filho de um padre excomungado, não é excepção…

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Ficha técnica
Brigada de Costumes
Autores: Zidrou e Jordi Lafebre
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 cm
PVP: 27,00€



quinta-feira, 18 de junho de 2026

Análise: Amore

Amore, Zidrou e Merveille - A Seita e Arte de Autor

Amore, Zidrou e Merveille - A Seita e Arte de Autor
Amore, Zidrou e Merveille

As editoras A Seita e Arte de Autor acrescentaram, recentemente, mais uma obra do autor belga Zidrou ao seu catálogo conjunto: Amore, que tem David Merveille como ilustrador.

Não se trata de um álbum de uma só história, mas de uma antologia com nove histórias curtas que exploram o amor nas suas múltiplas dimensões. É um livro bonito, adulto e que tem a capacidade de nos fazer parar um pouco para pensar.

Todas as histórias se passam em Itália, bebendo muito do glamour deste país romântico, através de belos cenários, de pessoas sensuais, costumes clássicos e dias solarengos. Não esperem um conjunto de histórias doces, leves e superficiais. Na verdade, a maioria das histórias até é um pouco mais agridoce e, por vezes, até negativa ou triste, representando o amor tal como ele: um fogo grande que consome tudo à sua volta. O bom e o mau.

Naturalmente, e isto é comum a qualquer antologia de banda desenhada, há histórias mais marcantes do que outras. Mas há o ponto comum entre elas de apresentarem personagens fascinantes - por vezes quase "queirosianas" na abordagem, como em Santo Desiderio - que depressa sucumbem aos desejos do seu coração, pondo para trás das costas as recomendações de um outro órgão: o cérebro.

Amore, Zidrou e Merveille - A Seita e Arte de Autor
Cada história apresenta uma situação distinta, por vezes poética, por vezes irónica ou até agridoce, conseguindo revelar-nos diferentes facetas do afeto humano, desde o encantamento inicial até à solidão, ao desencontro ou à memória. A sensualidade também é algo que está presente em quase todas as histórias, o que aumenta o cariz mais maduro da obra, sem que, no entanto, esta seja graficamente explícita.

O texto de Zidrou é belíssimo, revelando-se rico, na quantidade certa e sempre muito inspirado. As próprias personagens, já por mim referidas, também são personagens impactantes. Senti-me muito remetido ao universo dos filmes italianos, que tanto aprecio, nomeadamente os de Giuseppe Tornatore, que já nos deu filmes tão bonitos como Cinema Paradiso, A Lenda de 1900, Malèna ou Báaria. Com efeito, até diria mesmo que a banda sonora perfeita para ler este livro é a música contida nas composições do mestre Ennio Morricone em Cinema Paradiso ou A Lenda de 1900.

Isto porque o charme deste livro é irresistível. Adorei-o, verdadeiramente.

Amore, Zidrou e Merveille - A Seita e Arte de Autor
É verdade que - e, mais uma vez, à boa semelhança do que costuma acontecer em antologias com histórias curtas - quase sempre ficamos a chorar por mais, achando que a história nos soube a pouco. Especialmente, tendo em conta as boas ideias de argumento de Zidrou, o seu bom texto e as suas boas personagens, isto pode chegar a ser frustrante, pois muitas vezes fica no ar a sensação que cada uma das histórias, de tão rica que é, teria potencial para ser maior em dimensão. 

Mesmo assim, a verdade é que as histórias funcionam da forma em que nos são dadas. Mais do que um livro de curtas histórias, este Amore assemelha-se mais a um livro de poemas... em banda desenhada. O que faz dele algo único, extremamente bonito, e que todos deveriam conhecer. Além disso, o formato fragmentado da obra, em pequenas narrativas, reforça a ideia de que o amor não é uma experiência única ou linear, mas antes um conjunto de momentos e perspetivas.

Quanto às ilustrações, David Merveille oferece-nos um traço elegante, sóbrio e estilizado, menos comum em obras de Zidrou. Com as devidas distâncias, o estilo de desenho do autor - especialmente em termos da representação das personagens - até me remeteu para Paco Roca. Embora, menos "cartoonesco", claro.

Amore, Zidrou e Merveille - A Seita e Arte de Autor
Há um tom nostálgico e elegante, de cariz quiçá mais autoral e menos comercial, que intensifica o impacto das ilustrações de David Merveille, e que faz com que todas elas funcionem bastante bem. E mesmo reconhecendo que o autor até pode não ser o ilustrador que mais aprecio de todos aqueles - e são muitos - que já trabalharam com Zidrou, devo dizer que o seu trabalho neste livro me agradou bastante, ainda assim. É extremamente competente.

Em termos de edição, a obra editada pela Arte de Autor e pel' A Seita, tem capa dura baça, com detalhes a verniz. No miolo, o papel utilizado é baço e de boa qualidade. A impressão, a encadernação e os acabamentos também são bastante bons. Não há conteúdos extra, além de duas breves notas biográficas sobre os dois autores.

Em suma, Amore é um belíssimo livro, uma reflexão universal e acessível sobre o amor, carregada de breves e belas histórias, cheias de romantismo e charme, que muito me agradaram. Espero que seja um livro que conquiste uma boa quantidade de público, já que pode chegar até àqueles que não têm como hábito a leitura de banda desenhada.


NOTA FINAL (1/10):
9.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Amore, Zidrou e Merveille - A Seita e Arte de Autor

Ficha técnica
Amore
Autores: Zidrou e David Merveille
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
PVP: 18,00€

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Análise: A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Moni

Foi há poucos dias que a Ala dos Livros nos trouxe mais um livro da série A Adopção, que tem Zidrou como argumentista e Monin como ilustrador.

Este trata-se do quinto tomo da série, embora seja apenas a terceira história da mesma. Isto porque, ao contrário das histórias anteriores, que foram divididas em dois tomos (se bem que, convém não esquecer, a Ala dos Livros, editou - e bem - cada um dos livros anteriores em volumes dípticos), esta terceira história, autoconclusiva, é-nos dada num menor número de páginas, encerrando em si mesma o terceiro ciclo da série. Que, entretanto, acaba de lançar, em França o sexto álbum.

Já me começo a repetir, bem sei, mas ainda está para vir o primeiro livro de Zidrou que não me agrada. As suas histórias, as suas personagens e a humanidade que emana das mesmas, não tem par. E se eu tenho gostado muito desta série até agora, é bem provável que este O Rei dos Mares até seja o meu preferido até agora. O que não é dizer pouco.

Voltamos a ter o tema da adopção, claro, mas desta feita é-nos dado de uma forma algo diferente face às duas histórias anteriores, em que o enfoque era mais colocado nas dificuldades inerentes ao processo de adopção. Desta feita, continuamos a ter a mesma temática, mas este é um livro que vai além disso, conseguindo ser uma história mais universal.

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
Um casal é formado por um espanhol, Eduardo, e uma francesa, Nathalie. Depois de várias tentativas sem conseguirem engravidar, ambos solicitam a adopção de uma criança, nos respetivos países a que pertencem. Depois de muito tempo à espera, quer o destino que os pedidos de adopção sejam aceites praticamente na mesma altura, o francês e o espanhol, com duas meninas a chegarem com o espaçamento de três dias para que possam ser adoptadas pelo casal. Mas como, dizem, não há uma sem duas, nem duas sem três, Nathalie engravida contra tudo o que se poderia esperar. Passam então a ser três meninas. Esta família pode ser improvável, mas é profundamente unida. 

Porém, a mãe falece e o pai vê-se forçado a educar as suas três filhas sozinho (não vos estou a dar nenhum spoiler, pois esta informação até nos é dada logo na sinopse contida na contracapa do livro). E é a partir daí que as três irmãs, já mulheres, e depois de mais uma notícia trágica, voltam atrás no tempo, através de boas memórias que o pai e a mãe lhes ofereceram.

A premissa, embora oferecida num argumento dinâmico que nos leva um sem número de vezes ao passado e ao presente, é bastante simples. Mas funciona perfeitamente bem.

Com efeito, este novo livro é, antes de mais, uma obra verdadeiramente emocionante. Há nela uma delicadeza quase invisível que se infiltra devagar, mas que permanece, mesmo depois da última página, como um eco suave de algo profundamente humano. Embora não tenha chorado, senti-me profundamente emocionado por esta obra, com o seu embalo agridoce que, ora nos arranca uma gargalhada, ora nos deixa com um nó na garganta.

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
O texto de Zidrou é tocante, sem ser lamechas, sabendo fazer o leitor viajar às suas próprias memórias. E essa é talvez a sua maior virtude: a capacidade de provocar reconhecimento. Podemos não ter vivido uma história minimamente próxima daquela que nos é dada, mas, ainda assim, sentimos que já estivemos ali, que as vozes e sentimentos destas personagens nos pertencem de alguma forma, como se cada frase abrisse uma porta para o nosso próprio passado emocional.

Como já referi, e ao contrário dos volumes anteriores, mais do que ser um livro que se foca nas dificuldades da adoção, este volume prefere iluminar aquilo que tantas vezes fica na sombra: a beleza do vínculo, a construção do afeto, a força tranquila do amor escolhido. Não ignora as dores da vida, o luto e a ausência, mas não se deixa definir por elas. Ao invés, insiste no que floresce apesar de tudo, nas memórias que ficam, nos laços que não findam.

Estamos perante uma história de boas memórias, numa clara homenagem a um pai. E que pai! Edu é uma personagem que não se constrói por grandes gestos heroicos, mas pela constância, pela presença e pelo cuidado quotidiano que tem com as suas filhas. As pequenas coisas ganham aqui um peso imenso, porque são elas que, no fundo, edificam uma vida partilhada. Especialmente quando temos, enquanto pais, crianças a absorverem tudo o que fazemos, diria.

Além disso, há algo mais onde me parece que Zidrou volta a ser muito bem sucedido: a verosimilhança da história. Os momentos descritos são tão intensos que parecem ser retirados da vida real, como se o autor tivesse mesmo vivido estes eventos ou como se alguém lhos tivesse contado. Consequentemente, nós, os leitores, parecemos estar a observar fragmentos de uma existência autêntica, com todas as suas imperfeições e maravilhas, sem que nada soe forçado, quando lemos este O Rei dos Mares

Há, por isso, uma melancolia doce que percorre toda a obra. Não uma tristeza pesada, mas antes uma saudade luminosa, daquelas que aquecem mesmo quando doem. O passado não é um peso, mas antes um abrigo, ou um lugar aonde regressar para reencontrar o que/quem nos fez ser quem somos. Já vos aconteceu? A mim, certamente que sim.

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
É, pois, uma história sobre o luto, mas também sobre a vida após a morte. Não uma vida literal, nem metafísica, mas aquela que persiste nas recordações. Quando alguém parte, fica presente nos seus gestos que repetimos, nas suas palavras e expressões que herdamos, e nas suas histórias que recontamos. Gosto de pensar que é aí que este pai - e tantos outros pais, incluindo o meu - continua a existir.

O desenho de Monin acompanha toda esta sensibilidade da história com uma harmonia notável, que se coaduna muito bem com o relato. Mantém o mesmo estilo demonstrado nos álbuns anteriores, com ilustrações suaves e bonitas cores que acentuam essa suavidade e leveza. As personagens, de traço semicaricatural, são muito expressivas, criando facilmente empatia com o leitor, o que reforça o impacto emocional da narrativa.

É verdade que, de quando a quando, e especialmente comparando com os álbuns anteriores, surgem pequenos momentos em que os desenhos parecem feitos com mais pressa do que o habitual, carecendo de algum detalhe que o autor, noutros momentos, demonstrou dominar plenamente. Ainda assim, esses apontamentos não diminuem o conjunto. A obra permanece muito boa mesmo do ponto de vista da ilustração.

A edição da Ala dos Livros é em capa dura baça, com bom papel baço no interior e boa impressão e encadernação. Nada a objetar.

Em suma, este O Rei dos Mares até é capaz de superar os dois ciclos anteriores que já tanto me tinham agradado. Sei que muita gente até pode considerá-lo como um livro "apenas" bom, com uma história leve e bonita e bem servida por belos desenhos... mas se é verdade que devemos avaliar um livro por aquilo que ele nos fez sentir e como nos marcou, então tenho que admitir este é um dos livros que mais me tocou no presente ano.  Esta é uma obra que não procura impressionar-nos, mas antes tocar-nos. E fá-lo como poucas!


NOTA FINAL (1/10):
9.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros

Ficha técnica
A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares
Autores: Zidrou e Monin
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Maio de 2026

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Ala dos Livros edita 3º livro da BD "A Adopção"!


Já está disponível o novo volume da série A Adopção, da autoria de Zidrou e Monin.

Ao contrário dos anteriores dois livros, que eram dípticos, incluindo dois tomos cada um, este terceiro livro, intitulado O Rei dos Mares, é um álbum autocontido, um pouco mais pequeno que os anteriores, pois não é duplo.

Esta é uma série que eu adoro e que recomendo vivamente. Mal posso esperar para mergulhar nesta leitura.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin
Um nascimento e pedidos de adopção que se concretizam quando menos se espera. Depois, a dor que vira tudo de cabeça para baixo. 

Uma família onde o pai espanhol entrou com um pedido de adopção em Espanha enquanto a mãe francesa entrou com um pedido de adopção em França. Uma família onde ambos os pedidos se concretizam ao mesmo tempo e, como costuma acontecer nesses casos, uma família onde a natureza assume o controlo e a mãe engravida. 

É uma família onde a terceira menina é repentinamente adoptada. É também uma família onde quem mais sofre é quem sai do ventre da mãe, porque ela não foi adoptada como as suas duas irmãs. E é uma família onde a dor ataca, deixando o pai sozinho com as suas três filhas adoptivas. É uma história de vida, ou melhor, de quatro vidas, e acima de tudo, é uma enorme história de amor.

Depois de o segundo tomo de “A Adopção” ter obtido, em 2017 e 2018 respectivamente os Prémio Saint-Michel para o Melhor álbum Francófono e o Prémio da BD Fnac da Bélgica, esta série tornou-se uma referência incontornável da BD europeia dos últimos anos.

Após a edição dos volumes Integrais 1 e 2 desta série (Ala dos Livros, 2022 e 2024, respectivamente) a Ala dos Livros, publica o 3º volume da série.



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Ficha técnica
A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares
Autores: Zidrou e Monin
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
PVP: 25,90€

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A Seita e Arte de Autor lançam nova BD de Zidrou!


As obras com argumento do belga Zidrou continuam a merecer a aposta das editoras portuguesas. 

Se ainda ontem vos anunciei que a Ala dos Livros edita durante este mês o novo volume da série A Adopção, por seu turno, as editoras A Seita e Arte de Autor farão chegar-nos, nos próximos dias, o livro Amore que, para além do argumento de Zidrou, conta com ilustrações de David Merveille.

Ilustrações essas que parecem ser muito belas, como podemos ver nas imagens promocionais que coloco mais abaixo.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora Arte de Autor. e inclui 3 postais de oferta - limitada ao stock disponível.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra.

Amore, de Zidrou e David Merveille

Amor... à italiana!

"- Gosta de ler?” - Nem por isso... “Nem mesmo histórias de amor?” - Histórias de amor? Pff! O amor não se lê, faz-se."

O cheiro de um espresso a espalhar-se pela praça... a voz da nonna que grita com os netos na ruela... e o olhar sedutor de uma bella ragazza que surge ao virar de uma esquina... 

É este o amor à italiana que Zidrou, um dos maiores argumentistas de banda desenhada actuais nos propõe, nesta recolha de histórias sensíveis, surpreendentes, apaixonadas, acompanhado pelo traço elegante de David Merveille.

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Ficha técnica
Amore
Autores: Zidrou e David Merveille
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
PVP: 18,00€

terça-feira, 21 de abril de 2026

Ala dos Livros prepara-se para editar meia dúzia de novas BDs!



A Ala dos Livros traz consigo um conjunto de seis novos lançamentos que deverá chegar às livrarias nos próximos dias. 

Algumas destas obras deverão poder ser adquiridas nos próximos eventos (Coimbra BD e Comic Con), sendo que algumas delas até já encontrei à venda no Ilustra BD, na semana passada. Uma destes livros não é uma novidade, mas a segunda edição de uma obra lançada há relativamente pouco tempo pela editora.

A maioria destes livros também já pode ser encomendada através do website da editora.

Falarei de todos estas obras, com mais detalhe, durante os próximos dias, mas, por agora, deixo-vos apenas com a breve menção a elas, mais abaixo.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Arte de Autor prepara-se para editar 4 novas BDs!


A editora Arte de Autor já fez saber que, durante os próximos dias, editará quatro novos livros de banda desenhada, dois deles em regime de co-autoria com A Seita.

Todos estes livros já se encontram em pré-venda no site da editora , devendo estar disponíveis nos próximos eventos de banda desenhada Coimbra BD e Comic Con.

Falarei deles, com mais detalhe, durante os próximos dias. Por agora, deixo-vos apenas com a nota sobre as novidades em questão, que são as seguintes:

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Vem aí o segundo volume de "Shi"!



A Ala dos Livros prepara-se para nos fazer chegar, a partir do próximo dia 27 de janeiro, o segundo volume da sua fantástica série Shi, da autoria de Zidrou e Joseph Homs.

Esta é uma série verdadeiramente obrigatória, que recomendo vivamente. E tem uma edição de luxo, com lombada em tecido, fita marcadora e conteúdo extra. Um autêntico petisco para o olhar!

Tal como no primeiro volume editado, este também é um álbum duplo, ou seja, reúne os tomos 3 e 4, Vingança! e Victoria, respetivamente, e fecha deste modo o primeiro ciclo da série.

Mais abaixo, podem encontrar algumas imagens promocionais da obra, bem como a sinopse da mesma.

SHI - Livro 2 (Tomos 3 e 4), de Zidrou e Homs

Janeiro de 1852. As fotos tiradas no bordel foram recuperadas, e os seus novos donos não hesitam em usá-las para chantagear os principais envolvidos, extorquindo grandes somas de dinheiro para fins "nobres". Não há mais espaço para piedade neste mundo. Jay e Kita entendem isso bem, e sujar as mãos já não as incomoda. Tudo o que fica são os cadáveres daqueles que tiveram o azar de se interpor no seu caminho e o ideograma "Shi", um símbolo do seu ódio pela sociedade.

Presas pela polícia e pelo terrível Kurb, Jay e Kita conseguem escapar a tempo com a ajuda do Sensei, mas o preço é terrível. Com a cabeça a prémio, unem forças com os Dead Ends.

Juntos, procuram vingar-se do Império Britânico. Para isso, aproveita as decisões da Rainha Vitória; insatisfeita com as províncias norte-americanas que exigem independência, ordenou a construção de uma frota naval para declarar guerra à América e recuperar o que lhe pertence. 

E uma tentativa de assassinato está a ser planeada... 

O demónio às vezes derrama lágrimas, mas não se enganem, ele alimentar-se-á delas para se fortalecer e extravasar o seu ódio...

“Shi” é uma das mais aclamadas séries da BD franco-belga da actualidade, uma obra fascinante que a Ala dos Livros publica em 4 livros de dois volumes cada.

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Ficha técnica
SHI - Livro 2 (Tomos 3 e 4)
Autores: Zidrou e Homs
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura com lombada em tecido
Formato: 235 x 320 mm
PVP: 32,00€

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Análise: A Fera #2

A Fera #2, de Zidrou e Frank Pé - A Seita

A Fera #2, de Zidrou e Frank Pé - A Seita
A Fera #2, de Zidrou e Frank Pé

Há livros que se leem como quem regressa a casa. A Fera 2, que a editora A Seita publicou recentemente, é um desses regressos. Não apenas ao universo que Zidrou e Frank Pé inauguraram no primeiro volume, mas também a uma certa forma de fazer banda desenhada: humanista, poética, bela e profundamente europeia. 

Este é o segundo e último livro da abordagem dos autores ao universo da personagem Marsupilami, criada pelo mítico autor André Franquin. O enredo, relembro, transporta-nos à cidade de Bruxelas dos anos 50, chuvosa e cinzenta, onde um animal exótico se vê prisioneiro de um mundo que não o compreende. Criatura de força desmedida e ternura inesperada, este animal é o espelho da diferença numa Europa que ainda lambe as feridas de uma II Guerra Mundial, em que os antagonismos entre os humanos ficaram mais realçados do que nunca.

Embora a história retome o fio do primeiro tomo, sente-se, logo à partida, que o ritmo narrativo será outro. Com efeito, se o primeiro volume se deteve mais no retrato e na construção do ambiente, A Fera 2 ganhou no movimento, na dinâmica e no sentido de urgência. Há ação, perseguições, e uma tensão que cresce página a página, sem nunca abdicar da delicadeza que Zidrou sabe imprimir aos seus argumentos. O leitor sente que neste segundo tomo a história desperta como se, de súbito, o animal mítico começasse a correr dentro do próprio livro, arrastando consigo todas as outras personagens.

A Fera #2, de Zidrou e Frank Pé - A Seita
Não obstante, apesar da maior energia narrativa, a simplicidade da história permanece. Este é um conto de amizade, de coragem e de compaixão. São todos ingredientes clássicos, sem dúvida, mas que são tratados com a maturidade de quem sabe que estas histórias com apelo a um público mais jovem são, no fundo, histórias para adultos disfarçadas. As personagens, mesmo as mais caricaturais, ganham espessura. Zidrou escreve-as com ternura e ironia: o riso até nos pode surgir, mas quase sempre como disfarce de algo mais fundo, de um vazio ou de uma memória difícil. A personagem de Boniface é um exemplo perfeito disso.

Há um perfume de infância a pairar sobre estas páginas, e é talvez por isso que este livro me remeteu, claro, para as bandas desenhadas mais clássicas da escola Spirou, mas também para outros clássicos da literatura e do cinema, como King Kong ou E.T. de Steven Spielberg. Tal como o extraterrestre do filme,  Marsupilami é um ser de "outro mundo", alvo da cobiça e do medo humano, mas também capaz de despertar num rapaz, o impulso mais puro de proteção e amizade. Essa relação é o centro emocional da narrativa, que cria alicerces na aliança tácita entre a inocência e a necessidade de proteção daqueles que mais se ama. 

Mas, convém dizer, o argumentista Zidrou não se fica pela ternura fácil. Há em A Fera 2 uma sombra que paira, uma melancolia que recorda os traumas da guerra e os seus ecos na geração seguinte. Até porque, convém não esquecer, a Bélgica dos anos 50 ainda tinha nas consciências do seu povo as cicatrizes da ocupação nazi. E é nesse contexto que a relação do protagonista François e Fut Fut surge. Colocados em lados opostos pela guerra - o pai de François era soldado alemão, enquanto que o pai de Fut Fut perdeu a vida às mãos do exército alemão - a relação das duas personagens começa por ser extremamente negativa, assente numa clara relação de bullying estudantil, mas com o tempo acaba por florescer para uma verdadeira amizade, ultrapassando ressentimentos herdados. Zidrou sugere, com subtileza, que talvez as crianças tenham mais a ensinar aos adultos do que o contrário. E nesse ponto, a obra também me remeteu para o Spirou de Émile Bravo.

As referências à banda desenhada clássica, em particular a Hergé e a Tintin, também atravessam o livro, sendo algumas vezes óbvias e, noutros casos, meras sugestões para os mais atentos. 

A Fera #2, de Zidrou e Frank Pé - A Seita
A escrita de Zidrou tem essa rara qualidade de parecer familiar sem nunca ser previsível. Usa arquétipos, sim (o cientista obcecado, o órfão sensível, o animal prodigioso) , mas modifica-os ligeiramente, fazendo com que nós, leitores, tropecemos nas nossas próprias expectativas. Onde, em várias situações, poderíamos esperar o conforto de um clichet, somos surpreendidos com algo de inesperado, havendo resoluções que surpreendem, e até algumas que nos deixam desconcertados. Mas essa desconstrução do “final feliz” é talvez o maior mérito de Zidrou: lembrar-nos que a vida raramente termina em harmonia perfeita. Gosto especialmente dessa vertente do autor. Tal como gosto que o autor não tenha medo de "mentir" nas suas criações, de forma a torná-las mais realistas e a desconcertar os seus leitores, como o faz aqui quando afirma que existiu mesmo um animal com as características de Marsupilami ou quando, por exemplo, em Naturezas Mortas, publicado pel' A Seita e pela Arte de Autor, levou os leitores a considerarem como real a existência do pintor Vidal Balaguer i Carbonell.

Como menos positivo, considero que há certas pontas soltas no argumento que talvez pudessem ter sido melhor aproveitadas, e que há algo de ligeiramente forçado no fecho da narrativa. Não por ser um mau final, mas por me parecer algo apressado. Ainda assim, mesmo esse final apressado tem o mérito de manter viva a inquietação: fechamos o livro, mas a fera continua a respirar dentro de nós, enquanto que nos permite obter uma sensação de ciclo fechado, como se esta obra tivesse sido feita antes da criação de André Franquin.

O trabalho de Frank Pé é, como sempre, deslumbrante. A sua mestria no desenho animal é inquestionável: o Marsupilami move-se com uma graça selvagem, mistura de felino e símio, e cada movimento da sua enorme cauda parece uma extensão do próprio traço do autor. Frank Pé desenha com amor e uma exatidão impressionante, pois sente-se que conhece os músculos e os ossos de cada bicho que cria. As expressões humanas, caricaturais e vivas, equilibram a intensidade naturalista dos animais, criando um contraste de rara beleza. Já os cenários com que o autor nos brinda, são outro ponto alto. Bruxelas ganha corpo e textura neste livro: ruas húmidas, becos, praças, o cheiro do carvão e do fumo. Cada vinheta é uma janela para um tempo perdido, com Frank Pé a transformar a cidade numa personagem tão presente quanto o próprio Marsupilami. 

A Fera #2, de Zidrou e Frank Pé - A Seita
O traço deste autor tem algo de monumental e, ao mesmo tempo, de profundamente terno. Há uma energia vital em cada linha, como se os seus desenhos respirassem por si só. Além de que o autor também domina o espaço e o movimento com uma sensibilidade cinematográfica, quase coreográfica. Com efeito, é impossível não sentir, ao folhear A Fera 2, que o desenho se move, como se Marsupilami saltasse literalmente da página para o olhar do leitor, num jogo de ritmo e fluidez que poucos artistas conseguem alcançar.

E não menos majestoso é o uso da cor. Elvire de Cock oferece ao livro uma paleta luminosa, de tons suaves e com um cariz algo moderno e clássico, ao mesmo tempo, que assenta no desenho de Frank Pé que nem uma luva.

Quanto à edição d' A Seita, estamos perante um dos melhores trabalhos do ano. O livro apresenta uma espessa e vigorosa capa dura baça, com detalhes a verniz e, no miolo, o seu papel é baço e de extrema qualidade. A encadernação e impressão também são de primeira categoria. Além de tudo isto, a edição portuguesa desta obra é, até à data, a melhor do mundo, apresentando um conjunto de extras que mais nenhuma outra edição tem. Inclui Lange Staart, uma história curta de oito páginas a preto e branco, que nos oferece mais um capítulo sobre as personagens da obra e, como cereja no topo do bolo, brinda-nos com o dossier À Descoberta da Bruxelas de Frank Pé... em que o ilustrador da obra nos faz uma visita pela cidade de Bruxelas, evocando memórias antigas, inspirações para o desenho deste livro e desvendando-nos easter eggs que, naturalmente, nos deixam com vontade de relermos o livro. A acompanhar estes comentários do autor, estão as vinhetas onde podemos conferir aquilo que ele nos revela. É uma edição de primeira linha aquela que A Seita preparou para esta obra. Parabéns aos envolvidos. 

Em conclusão, Fera #2 completa de forma deslumbrante este "Marsupilami de autor", em que o desejo de reencontrar a pureza, a empatia e a compaixão num mundo que as perdeu, se transforma numa parábola sobre o medo do diferente e sobre a ternura como forma de resistência. O animal Marsupilami, criatura inventada e impossível, torna-se o símbolo do que ainda resta de inocência em nós. E talvez seja essa a maior força da obra: lembrar-nos que a verdadeira fera nunca é o animal, mas o homem que o tenta capturar.


NOTA FINAL (1/10):
9.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Fera #2, de Zidrou e Frank Pé - A Seita

Ficha técnica
A Fera #2
Autores: Zidrou e Frank Pé
Editora: A Seita
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 274 xx 290 mm
Lançamento: Setembro de 2025