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segunda-feira, 18 de maio de 2026

Análise: A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Moni

Foi há poucos dias que a Ala dos Livros nos trouxe mais um livro da série A Adopção, que tem Zidrou como argumentista e Monin como ilustrador.

Este trata-se do quinto tomo da série, embora seja apenas a terceira história da mesma. Isto porque, ao contrário das histórias anteriores, que foram divididas em dois tomos (se bem que, convém não esquecer, a Ala dos Livros, editou - e bem - cada um dos livros anteriores em volumes dípticos), esta terceira história, autoconclusiva, é-nos dada num menor número de páginas, encerrando em si mesma o terceiro ciclo da série. Que, entretanto, acaba de lançar, em França o sexto álbum.

Já me começo a repetir, bem sei, mas ainda está para vir o primeiro livro de Zidrou que não me agrada. As suas histórias, as suas personagens e a humanidade que emana das mesmas, não tem par. E se eu tenho gostado muito desta série até agora, é bem provável que este O Rei dos Mares até seja o meu preferido até agora. O que não é dizer pouco.

Voltamos a ter o tema da adopção, claro, mas desta feita é-nos dado de uma forma algo diferente face às duas histórias anteriores, em que o enfoque era mais colocado nas dificuldades inerentes ao processo de adopção. Desta feita, continuamos a ter a mesma temática, mas este é um livro que vai além disso, conseguindo ser uma história mais universal.

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
Um casal é formado por um espanhol, Eduardo, e uma francesa, Nathalie. Depois de várias tentativas sem conseguirem engravidar, ambos solicitam a adopção de uma criança, nos respetivos países a que pertencem. Depois de muito tempo à espera, quer o destino que os pedidos de adopção sejam aceites praticamente na mesma altura, o francês e o espanhol, com duas meninas a chegarem com o espaçamento de três dias para que possam ser adoptadas pelo casal. Mas como, dizem, não há uma sem duas, nem duas sem três, Nathalie engravida contra tudo o que se poderia esperar. Passam então a ser três meninas. Esta família pode ser improvável, mas é profundamente unida. 

Porém, a mãe falece e o pai vê-se forçado a educar as suas três filhas sozinho (não vos estou a dar nenhum spoiler, pois esta informação até nos é dada logo na sinopse contida na contracapa do livro). E é a partir daí que as três irmãs, já mulheres, e depois de mais uma notícia trágica, voltam atrás no tempo, através de boas memórias que o pai e a mãe lhes ofereceram.

A premissa, embora oferecida num argumento dinâmico que nos leva um sem número de vezes ao passado e ao presente, é bastante simples. Mas funciona perfeitamente bem.

Com efeito, este novo livro é, antes de mais, uma obra verdadeiramente emocionante. Há nela uma delicadeza quase invisível que se infiltra devagar, mas que permanece, mesmo depois da última página, como um eco suave de algo profundamente humano. Embora não tenha chorado, senti-me profundamente emocionado por esta obra, com o seu embalo agridoce que, ora nos arranca uma gargalhada, ora nos deixa com um nó na garganta.

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
O texto de Zidrou é tocante, sem ser lamechas, sabendo fazer o leitor viajar às suas próprias memórias. E essa é talvez a sua maior virtude: a capacidade de provocar reconhecimento. Podemos não ter vivido uma história minimamente próxima daquela que nos é dada, mas, ainda assim, sentimos que já estivemos ali, que as vozes e sentimentos destas personagens nos pertencem de alguma forma, como se cada frase abrisse uma porta para o nosso próprio passado emocional.

Como já referi, e ao contrário dos volumes anteriores, mais do que ser um livro que se foca nas dificuldades da adoção, este volume prefere iluminar aquilo que tantas vezes fica na sombra: a beleza do vínculo, a construção do afeto, a força tranquila do amor escolhido. Não ignora as dores da vida, o luto e a ausência, mas não se deixa definir por elas. Ao invés, insiste no que floresce apesar de tudo, nas memórias que ficam, nos laços que não findam.

Estamos perante uma história de boas memórias, numa clara homenagem a um pai. E que pai! Edu é uma personagem que não se constrói por grandes gestos heroicos, mas pela constância, pela presença e pelo cuidado quotidiano que tem com as suas filhas. As pequenas coisas ganham aqui um peso imenso, porque são elas que, no fundo, edificam uma vida partilhada. Especialmente quando temos, enquanto pais, crianças a absorverem tudo o que fazemos, diria.

Além disso, há algo mais onde me parece que Zidrou volta a ser muito bem sucedido: a verosimilhança da história. Os momentos descritos são tão intensos que parecem ser retirados da vida real, como se o autor tivesse mesmo vivido estes eventos ou como se alguém lhos tivesse contado. Consequentemente, nós, os leitores, parecemos estar a observar fragmentos de uma existência autêntica, com todas as suas imperfeições e maravilhas, sem que nada soe forçado, quando lemos este O Rei dos Mares

Há, por isso, uma melancolia doce que percorre toda a obra. Não uma tristeza pesada, mas antes uma saudade luminosa, daquelas que aquecem mesmo quando doem. O passado não é um peso, mas antes um abrigo, ou um lugar aonde regressar para reencontrar o que/quem nos fez ser quem somos. Já vos aconteceu? A mim, certamente que sim.

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
É, pois, uma história sobre o luto, mas também sobre a vida após a morte. Não uma vida literal, nem metafísica, mas aquela que persiste nas recordações. Quando alguém parte, fica presente nos seus gestos que repetimos, nas suas palavras e expressões que herdamos, e nas suas histórias que recontamos. Gosto de pensar que é aí que este pai - e tantos outros pais, incluindo o meu - continua a existir.

O desenho de Monin acompanha toda esta sensibilidade da história com uma harmonia notável, que se coaduna muito bem com o relato. Mantém o mesmo estilo demonstrado nos álbuns anteriores, com ilustrações suaves e bonitas cores que acentuam essa suavidade e leveza. As personagens, de traço semicaricatural, são muito expressivas, criando facilmente empatia com o leitor, o que reforça o impacto emocional da narrativa.

É verdade que, de quando a quando, e especialmente comparando com os álbuns anteriores, surgem pequenos momentos em que os desenhos parecem feitos com mais pressa do que o habitual, carecendo de algum detalhe que o autor, noutros momentos, demonstrou dominar plenamente. Ainda assim, esses apontamentos não diminuem o conjunto. A obra permanece muito boa mesmo do ponto de vista da ilustração.

A edição da Ala dos Livros é em capa dura baça, com bom papel baço no interior e boa impressão e encadernação. Nada a objetar.

Em suma, este O Rei dos Mares até é capaz de superar os dois ciclos anteriores que já tanto me tinham agradado. Sei que muita gente até pode considerá-lo como um livro "apenas" bom, com uma história leve e bonita e bem servida por belos desenhos... mas se é verdade que devemos avaliar um livro por aquilo que ele nos fez sentir e como nos marcou, então tenho que admitir este é um dos livros que mais me tocou no presente ano.  Esta é uma obra que não procura impressionar-nos, mas antes tocar-nos. E fá-lo como poucas!


NOTA FINAL (1/10):
9.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros

Ficha técnica
A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares
Autores: Zidrou e Monin
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Maio de 2026

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Ala dos Livros edita 3º livro da BD "A Adopção"!


Já está disponível o novo volume da série A Adopção, da autoria de Zidrou e Monin.

Ao contrário dos anteriores dois livros, que eram dípticos, incluindo dois tomos cada um, este terceiro livro, intitulado O Rei dos Mares, é um álbum autocontido, um pouco mais pequeno que os anteriores, pois não é duplo.

Esta é uma série que eu adoro e que recomendo vivamente. Mal posso esperar para mergulhar nesta leitura.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin
Um nascimento e pedidos de adopção que se concretizam quando menos se espera. Depois, a dor que vira tudo de cabeça para baixo. 

Uma família onde o pai espanhol entrou com um pedido de adopção em Espanha enquanto a mãe francesa entrou com um pedido de adopção em França. Uma família onde ambos os pedidos se concretizam ao mesmo tempo e, como costuma acontecer nesses casos, uma família onde a natureza assume o controlo e a mãe engravida. 

É uma família onde a terceira menina é repentinamente adoptada. É também uma família onde quem mais sofre é quem sai do ventre da mãe, porque ela não foi adoptada como as suas duas irmãs. E é uma família onde a dor ataca, deixando o pai sozinho com as suas três filhas adoptivas. É uma história de vida, ou melhor, de quatro vidas, e acima de tudo, é uma enorme história de amor.

Depois de o segundo tomo de “A Adopção” ter obtido, em 2017 e 2018 respectivamente os Prémio Saint-Michel para o Melhor álbum Francófono e o Prémio da BD Fnac da Bélgica, esta série tornou-se uma referência incontornável da BD europeia dos últimos anos.

Após a edição dos volumes Integrais 1 e 2 desta série (Ala dos Livros, 2022 e 2024, respectivamente) a Ala dos Livros, publica o 3º volume da série.



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Ficha técnica
A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares
Autores: Zidrou e Monin
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
PVP: 25,90€

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A Seita e Arte de Autor lançam nova BD de Zidrou!


As obras com argumento do belga Zidrou continuam a merecer a aposta das editoras portuguesas. 

Se ainda ontem vos anunciei que a Ala dos Livros edita durante este mês o novo volume da série A Adopção, por seu turno, as editoras A Seita e Arte de Autor farão chegar-nos, nos próximos dias, o livro Amore que, para além do argumento de Zidrou, conta com ilustrações de David Merveille.

Ilustrações essas que parecem ser muito belas, como podemos ver nas imagens promocionais que coloco mais abaixo.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora Arte de Autor. e inclui 3 postais de oferta - limitada ao stock disponível.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra.

Amore, de Zidrou e David Merveille

Amor... à italiana!

"- Gosta de ler?” - Nem por isso... “Nem mesmo histórias de amor?” - Histórias de amor? Pff! O amor não se lê, faz-se."

O cheiro de um espresso a espalhar-se pela praça... a voz da nonna que grita com os netos na ruela... e o olhar sedutor de uma bella ragazza que surge ao virar de uma esquina... 

É este o amor à italiana que Zidrou, um dos maiores argumentistas de banda desenhada actuais nos propõe, nesta recolha de histórias sensíveis, surpreendentes, apaixonadas, acompanhado pelo traço elegante de David Merveille.

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Ficha técnica
Amore
Autores: Zidrou e David Merveille
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
PVP: 18,00€

terça-feira, 21 de abril de 2026

Ala dos Livros prepara-se para editar meia dúzia de novas BDs!



A Ala dos Livros traz consigo um conjunto de seis novos lançamentos que deverá chegar às livrarias nos próximos dias. 

Algumas destas obras deverão poder ser adquiridas nos próximos eventos (Coimbra BD e Comic Con), sendo que algumas delas até já encontrei à venda no Ilustra BD, na semana passada. Uma destes livros não é uma novidade, mas a segunda edição de uma obra lançada há relativamente pouco tempo pela editora.

A maioria destes livros também já pode ser encomendada através do website da editora.

Falarei de todos estas obras, com mais detalhe, durante os próximos dias, mas, por agora, deixo-vos apenas com a breve menção a elas, mais abaixo.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Arte de Autor prepara-se para editar 4 novas BDs!


A editora Arte de Autor já fez saber que, durante os próximos dias, editará quatro novos livros de banda desenhada, dois deles em regime de co-autoria com A Seita.

Todos estes livros já se encontram em pré-venda no site da editora , devendo estar disponíveis nos próximos eventos de banda desenhada Coimbra BD e Comic Con.

Falarei deles, com mais detalhe, durante os próximos dias. Por agora, deixo-vos apenas com a nota sobre as novidades em questão, que são as seguintes:

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Vem aí o segundo volume de "Shi"!



A Ala dos Livros prepara-se para nos fazer chegar, a partir do próximo dia 27 de janeiro, o segundo volume da sua fantástica série Shi, da autoria de Zidrou e Joseph Homs.

Esta é uma série verdadeiramente obrigatória, que recomendo vivamente. E tem uma edição de luxo, com lombada em tecido, fita marcadora e conteúdo extra. Um autêntico petisco para o olhar!

Tal como no primeiro volume editado, este também é um álbum duplo, ou seja, reúne os tomos 3 e 4, Vingança! e Victoria, respetivamente, e fecha deste modo o primeiro ciclo da série.

Mais abaixo, podem encontrar algumas imagens promocionais da obra, bem como a sinopse da mesma.

SHI - Livro 2 (Tomos 3 e 4), de Zidrou e Homs

Janeiro de 1852. As fotos tiradas no bordel foram recuperadas, e os seus novos donos não hesitam em usá-las para chantagear os principais envolvidos, extorquindo grandes somas de dinheiro para fins "nobres". Não há mais espaço para piedade neste mundo. Jay e Kita entendem isso bem, e sujar as mãos já não as incomoda. Tudo o que fica são os cadáveres daqueles que tiveram o azar de se interpor no seu caminho e o ideograma "Shi", um símbolo do seu ódio pela sociedade.

Presas pela polícia e pelo terrível Kurb, Jay e Kita conseguem escapar a tempo com a ajuda do Sensei, mas o preço é terrível. Com a cabeça a prémio, unem forças com os Dead Ends.

Juntos, procuram vingar-se do Império Britânico. Para isso, aproveita as decisões da Rainha Vitória; insatisfeita com as províncias norte-americanas que exigem independência, ordenou a construção de uma frota naval para declarar guerra à América e recuperar o que lhe pertence. 

E uma tentativa de assassinato está a ser planeada... 

O demónio às vezes derrama lágrimas, mas não se enganem, ele alimentar-se-á delas para se fortalecer e extravasar o seu ódio...

“Shi” é uma das mais aclamadas séries da BD franco-belga da actualidade, uma obra fascinante que a Ala dos Livros publica em 4 livros de dois volumes cada.

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Ficha técnica
SHI - Livro 2 (Tomos 3 e 4)
Autores: Zidrou e Homs
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura com lombada em tecido
Formato: 235 x 320 mm
PVP: 32,00€

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Análise: A Fera #2

A Fera #2, de Zidrou e Frank Pé - A Seita

A Fera #2, de Zidrou e Frank Pé - A Seita
A Fera #2, de Zidrou e Frank Pé

Há livros que se leem como quem regressa a casa. A Fera 2, que a editora A Seita publicou recentemente, é um desses regressos. Não apenas ao universo que Zidrou e Frank Pé inauguraram no primeiro volume, mas também a uma certa forma de fazer banda desenhada: humanista, poética, bela e profundamente europeia. 

Este é o segundo e último livro da abordagem dos autores ao universo da personagem Marsupilami, criada pelo mítico autor André Franquin. O enredo, relembro, transporta-nos à cidade de Bruxelas dos anos 50, chuvosa e cinzenta, onde um animal exótico se vê prisioneiro de um mundo que não o compreende. Criatura de força desmedida e ternura inesperada, este animal é o espelho da diferença numa Europa que ainda lambe as feridas de uma II Guerra Mundial, em que os antagonismos entre os humanos ficaram mais realçados do que nunca.

Embora a história retome o fio do primeiro tomo, sente-se, logo à partida, que o ritmo narrativo será outro. Com efeito, se o primeiro volume se deteve mais no retrato e na construção do ambiente, A Fera 2 ganhou no movimento, na dinâmica e no sentido de urgência. Há ação, perseguições, e uma tensão que cresce página a página, sem nunca abdicar da delicadeza que Zidrou sabe imprimir aos seus argumentos. O leitor sente que neste segundo tomo a história desperta como se, de súbito, o animal mítico começasse a correr dentro do próprio livro, arrastando consigo todas as outras personagens.

A Fera #2, de Zidrou e Frank Pé - A Seita
Não obstante, apesar da maior energia narrativa, a simplicidade da história permanece. Este é um conto de amizade, de coragem e de compaixão. São todos ingredientes clássicos, sem dúvida, mas que são tratados com a maturidade de quem sabe que estas histórias com apelo a um público mais jovem são, no fundo, histórias para adultos disfarçadas. As personagens, mesmo as mais caricaturais, ganham espessura. Zidrou escreve-as com ternura e ironia: o riso até nos pode surgir, mas quase sempre como disfarce de algo mais fundo, de um vazio ou de uma memória difícil. A personagem de Boniface é um exemplo perfeito disso.

Há um perfume de infância a pairar sobre estas páginas, e é talvez por isso que este livro me remeteu, claro, para as bandas desenhadas mais clássicas da escola Spirou, mas também para outros clássicos da literatura e do cinema, como King Kong ou E.T. de Steven Spielberg. Tal como o extraterrestre do filme,  Marsupilami é um ser de "outro mundo", alvo da cobiça e do medo humano, mas também capaz de despertar num rapaz, o impulso mais puro de proteção e amizade. Essa relação é o centro emocional da narrativa, que cria alicerces na aliança tácita entre a inocência e a necessidade de proteção daqueles que mais se ama. 

Mas, convém dizer, o argumentista Zidrou não se fica pela ternura fácil. Há em A Fera 2 uma sombra que paira, uma melancolia que recorda os traumas da guerra e os seus ecos na geração seguinte. Até porque, convém não esquecer, a Bélgica dos anos 50 ainda tinha nas consciências do seu povo as cicatrizes da ocupação nazi. E é nesse contexto que a relação do protagonista François e Fut Fut surge. Colocados em lados opostos pela guerra - o pai de François era soldado alemão, enquanto que o pai de Fut Fut perdeu a vida às mãos do exército alemão - a relação das duas personagens começa por ser extremamente negativa, assente numa clara relação de bullying estudantil, mas com o tempo acaba por florescer para uma verdadeira amizade, ultrapassando ressentimentos herdados. Zidrou sugere, com subtileza, que talvez as crianças tenham mais a ensinar aos adultos do que o contrário. E nesse ponto, a obra também me remeteu para o Spirou de Émile Bravo.

As referências à banda desenhada clássica, em particular a Hergé e a Tintin, também atravessam o livro, sendo algumas vezes óbvias e, noutros casos, meras sugestões para os mais atentos. 

A Fera #2, de Zidrou e Frank Pé - A Seita
A escrita de Zidrou tem essa rara qualidade de parecer familiar sem nunca ser previsível. Usa arquétipos, sim (o cientista obcecado, o órfão sensível, o animal prodigioso) , mas modifica-os ligeiramente, fazendo com que nós, leitores, tropecemos nas nossas próprias expectativas. Onde, em várias situações, poderíamos esperar o conforto de um clichet, somos surpreendidos com algo de inesperado, havendo resoluções que surpreendem, e até algumas que nos deixam desconcertados. Mas essa desconstrução do “final feliz” é talvez o maior mérito de Zidrou: lembrar-nos que a vida raramente termina em harmonia perfeita. Gosto especialmente dessa vertente do autor. Tal como gosto que o autor não tenha medo de "mentir" nas suas criações, de forma a torná-las mais realistas e a desconcertar os seus leitores, como o faz aqui quando afirma que existiu mesmo um animal com as características de Marsupilami ou quando, por exemplo, em Naturezas Mortas, publicado pel' A Seita e pela Arte de Autor, levou os leitores a considerarem como real a existência do pintor Vidal Balaguer i Carbonell.

Como menos positivo, considero que há certas pontas soltas no argumento que talvez pudessem ter sido melhor aproveitadas, e que há algo de ligeiramente forçado no fecho da narrativa. Não por ser um mau final, mas por me parecer algo apressado. Ainda assim, mesmo esse final apressado tem o mérito de manter viva a inquietação: fechamos o livro, mas a fera continua a respirar dentro de nós, enquanto que nos permite obter uma sensação de ciclo fechado, como se esta obra tivesse sido feita antes da criação de André Franquin.

O trabalho de Frank Pé é, como sempre, deslumbrante. A sua mestria no desenho animal é inquestionável: o Marsupilami move-se com uma graça selvagem, mistura de felino e símio, e cada movimento da sua enorme cauda parece uma extensão do próprio traço do autor. Frank Pé desenha com amor e uma exatidão impressionante, pois sente-se que conhece os músculos e os ossos de cada bicho que cria. As expressões humanas, caricaturais e vivas, equilibram a intensidade naturalista dos animais, criando um contraste de rara beleza. Já os cenários com que o autor nos brinda, são outro ponto alto. Bruxelas ganha corpo e textura neste livro: ruas húmidas, becos, praças, o cheiro do carvão e do fumo. Cada vinheta é uma janela para um tempo perdido, com Frank Pé a transformar a cidade numa personagem tão presente quanto o próprio Marsupilami. 

A Fera #2, de Zidrou e Frank Pé - A Seita
O traço deste autor tem algo de monumental e, ao mesmo tempo, de profundamente terno. Há uma energia vital em cada linha, como se os seus desenhos respirassem por si só. Além de que o autor também domina o espaço e o movimento com uma sensibilidade cinematográfica, quase coreográfica. Com efeito, é impossível não sentir, ao folhear A Fera 2, que o desenho se move, como se Marsupilami saltasse literalmente da página para o olhar do leitor, num jogo de ritmo e fluidez que poucos artistas conseguem alcançar.

E não menos majestoso é o uso da cor. Elvire de Cock oferece ao livro uma paleta luminosa, de tons suaves e com um cariz algo moderno e clássico, ao mesmo tempo, que assenta no desenho de Frank Pé que nem uma luva.

Quanto à edição d' A Seita, estamos perante um dos melhores trabalhos do ano. O livro apresenta uma espessa e vigorosa capa dura baça, com detalhes a verniz e, no miolo, o seu papel é baço e de extrema qualidade. A encadernação e impressão também são de primeira categoria. Além de tudo isto, a edição portuguesa desta obra é, até à data, a melhor do mundo, apresentando um conjunto de extras que mais nenhuma outra edição tem. Inclui Lange Staart, uma história curta de oito páginas a preto e branco, que nos oferece mais um capítulo sobre as personagens da obra e, como cereja no topo do bolo, brinda-nos com o dossier À Descoberta da Bruxelas de Frank Pé... em que o ilustrador da obra nos faz uma visita pela cidade de Bruxelas, evocando memórias antigas, inspirações para o desenho deste livro e desvendando-nos easter eggs que, naturalmente, nos deixam com vontade de relermos o livro. A acompanhar estes comentários do autor, estão as vinhetas onde podemos conferir aquilo que ele nos revela. É uma edição de primeira linha aquela que A Seita preparou para esta obra. Parabéns aos envolvidos. 

Em conclusão, Fera #2 completa de forma deslumbrante este "Marsupilami de autor", em que o desejo de reencontrar a pureza, a empatia e a compaixão num mundo que as perdeu, se transforma numa parábola sobre o medo do diferente e sobre a ternura como forma de resistência. O animal Marsupilami, criatura inventada e impossível, torna-se o símbolo do que ainda resta de inocência em nós. E talvez seja essa a maior força da obra: lembrar-nos que a verdadeira fera nunca é o animal, mas o homem que o tenta capturar.


NOTA FINAL (1/10):
9.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Fera #2, de Zidrou e Frank Pé - A Seita

Ficha técnica
A Fera #2
Autores: Zidrou e Frank Pé
Editora: A Seita
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 274 xx 290 mm
Lançamento: Setembro de 2025

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Já chegou às livrarias A Fera #2!



E aí está ela, a segunda e última parte daquela que considero ser a melhor BD lançada pela editora A Seita - pelo menos de forma isolada - conforme, aliás, até já referi no recente artigo que fiz a este propósito!

Falo de A Fera 2, que junta dois nomes enormes da banda desenhada europeia, Zidrou e Frank Pé, e que termina a história, de tom sério e realista, sobre a origem de Marsupilami.

Adorei o primeiro livro e estou muito desejoso de ler o segundo e último tomo da obra.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse do livro e com algumas imagens promocionais.

A Fera #2, de Zidrou e Frank Pé

A espécie existia muito antes de ser chamada Marsupilami…

Verdadeiro desafio e mistério para os zoólogos, dotado de uma cauda desproporcional, o animal possui também uma força impressionante, grande inteligência, um dom de empatia e… um apetite feroz!

O segundo volume de A Fera leva-nos de volta a Bruxelas dos anos 50 e às maravilhosas personagens que os autores cruzaram, numa luta desenfreada para salvar o Marsupilami dos cientistas obcecados com ele, e retorná-lo à sua selva natal!

Eis a história verídica de um animal caçado em Bruxelas na década de 1950. Zidrou e Frank Pé, dois dos maiores nomes da BD franco-belga, assinam o volume final da história verdadeira de uma fera tropical perdida na Bélgica cinzenta e chuvosa de 1956.

Esta edição d’A Seita é a mais completa edição do volume 2 de A Fera existente, incluindo uma história adicional final, e um dossier sobre Bruxelas nos anos 1950.




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Ficha técnica
A Fera #2
Autores: Zidrou e Frank Pé
Editora: A Seita
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 274 xx 290 mm
PVP: 34,00€

terça-feira, 9 de setembro de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela parceria A Seita/Arte de Autor nos últimos 5 anos!


Depois de um período de férias, regresso ao tema que fui desenvolvendo ao longo do mês de agosto: qual a melhor banda desenhada que cada editora lançou nos últimos 5 anos? O período dos 5 anos é apenas escolhido devido a ser o período de atividade aqui do Vinheta 2020. E porque é um número redondo, claro.

Hoje trago-vos algo um pouco diferente: em vez de me focar na banda desenhada editada por uma editora apenas, trago-vos o conjunto de melhores obras editadas pelo esforço conjunto de duas editoras: a Arte de Autor e A Seita. Sei que já publiquei um TOP 10 sobre cada uma destas editoras, mas tendo em conta a muito prolífera parceria editorial entre A Seita e a Arte de Autor, apresento-vos o meu TOP 10 das duas editoras.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Faço aqui uma pequena nota sobre o procedimento: considerei séries como um todo e obras one-shot. Tudo junto. Pode ser um bocado injusto para as obras autocontidas, reconheço, e até ponderei fazer um TOP exclusivamente para séries e outro para livros one-shot, mas depois achei que isso seria escolher demasiadas obras. Deixaria de ser um TOP 10 para ser um TOP 20. Até me facilitaria o processo, honestamente, mas acabaria por retirar destaque a este meu trabalho que procura ser de curadoria. Acabou por ser um exercício mais difícil, pois tive que deixar de fora obras que também adoro, mas acho que quem beneficia são os meus leitores que, deste modo, ficam com a BD que considero ser a "crème de la crème" de cada editora.

Eis então, as melhores obras que, quanto a mim, a Arte de Autor e A Seita já editaram em conjunto:

quinta-feira, 31 de julho de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pel' A Seita nos últimos 5 anos!



Hoje trago-vos aquela que, na minha opinião, foi a melhor banda desenhada lançada pela editora A Seita nos últimos cinco anos!

Recordo que esta iniciativa surge pela comemoração dos 5 anos do Vinheta 2020, que me fez olhar um pouco para trás e ver a enorme quantidade de excelente banda desenhada que por cá foi publicada durante um período bastante pequeno de cinco anos.

Tendo em conta o enorme sucesso que estes artigos estão a ter aqui no blog, já tendo eu feito artigos dedicados à Ala dos Livros e à Arte de Autor, prometo fazer o mesmo tipo de artigo para a melhor banda desenhada editada por cada uma das principais editoras portuguesas de banda desenhada durante o mês de agosto. Mesmo que, pelo meio, haja uma certa quebra devido às minhas férias que se avizinham.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Faço aqui uma pequena nota sobre o procedimento: considerei séries como um todo e obras one-shot. Tudo junto. Pode ser um bocado injusto para as obras autocontidas, reconheço, e até ponderei fazer um TOP exclusivamente para séries e outro para livros one-shot, mas depois achei que isso seria escolher demasiadas obras. Deixaria de ser um TOP 10 para ser um TOP 20. Até me facilitaria o processo, honestamente, mas acabaria por retirar destaque a este meu trabalho que procura ser de curadoria. Acabou por ser um exercício mais difícil, pois tive que deixar de fora obras que também adoro, mas acho que quem beneficia são os meus leitores que, deste modo, ficam com a BD que considero ser a "crème de la crème" de cada editora.

Chamo a atenção para o facto de eu considerar que fará sentido fazer um TOP dedicado aos lançamentos que A Seita fez em conjunto com a Arte de Autor. Mas isso ficará para outro dia. Como tal, as obras lançadas em conjunto pelas duas editoras não foram tidas em conta para este TOP. Também a Comic Heart merecerá um artigo isolado.

Bem, sem mais delongas, deixo-vos a melhor BD lançada em exclusivo pel' A Seita.

terça-feira, 29 de julho de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Ala dos Livros nos últimos 5 anos!


A propósito da comemoração dos 5 anos de existência do Vinheta 2020, trago-vos um especial que começa a partir de hoje e que procura celebrar e assinalar a melhor banda desenhada que cada uma das principais editoras portuguesas editou nos últimos 5 anos. Durante as próximas semanas tentarei, pois, oferecer-vos um artigo por editora.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Faço aqui uma pequena nota sobre o procedimento: considerei séries como um todo e obras one-shot. Tudo junto. Pode ser um bocado injusto para as obras autocontidas, reconheço, e até ponderei fazer um TOP exclusivamente para séries e outro para livros one-shot, mas depois achei que isso seria escolher demasiadas obras. Deixaria de ser um TOP 10 para ser um TOP 20. Até me facilitaria o processo, honestamente, mas acabaria por retirar destaque a este meu trabalho que procura ser de curadoria. Acabou por ser um exercício mais difícil, pois tive que deixar de fora obras que também adoro, mas acho que quem beneficia são os meus leitores que, deste modo, ficam com a BD que considero ser a crème de la crème de cada editora.

Em cinco anos de edição ininterrupta de banda desenhada, há naturalmente muitos títulos editados e, como devem calcular, a tarefa não foi fácil e vi-me forçado a excluir obras fantásticas, mas, lá está, há que fazer escolhas e estas são as minhas escolhas.

Hoje começo com uma editora cujo contributo para o lançamento de boa banda desenhada em Portugal é verdadeiramente inegável: a Ala dos Livros.

Esta editora tem um catálogo que considero de extrema qualidade. São (muito!) mais as obras que adoro da editora, do que aquelas de que não gosto. Não foi fácil, mas aqui está o meu TOP

Eis, mais abaixo, as minhas obras favoritas lançadas pela editora Ala dos Livros:

segunda-feira, 24 de março de 2025

Análise: Naturezas Mortas

Naturezas Mortas, de Zidrou e Oriol - A Seita e Arte de Autor

Naturezas Mortas, de Zidrou e Oriol - A Seita e Arte de Autor
Naturezas Mortas, de Zidrou e Oriol

Naturezas Mortas é uma daquelas bandas desenhadas lindas que, lamentavelmente, não está - parece-me - a reunir o hype e a aceitação que merecia. Lançada em conjunto pelas editoras A Seita e Arte de Autor - que, aliás, têm vindo a editar várias obras do argumentista Zidrou, como Lydie, Emma G. Wildford, Verões Felizes ou A Fera - este livro é mais um caso de qualidade e uma prova inequívoca do talento de Zidrou enquanto argumentista.

Desta vez, faz dupla com o autor espanhol Oriol, que também se revela uma aposta ganha garantia para este Naturezas Mortas, já que a sua abordagem gráfica e estilo de ilustração parece diferente de tudo aquilo que já vimos e casa que nem uma luva na história idealizada por Zidrou.

Naturezas Mortas, de Zidrou e Oriol - A Seita e Arte de Autor
A narrativa da obra centra-se nos últimos anos de vida de Vidal Balaguer i Carbonell, um pintor catalão nascido em Barcelona em 1873. Considerado uma das grandes promessas do Modernismo catalão, Balaguer frequenta o lendário café Els Quatre Gats ao lado de prominentes amigos da cena artística da cidade - como Joaquim Mir, entre outros. A sua carreira, no entanto, revela-se marcada por controvérsias e pelo mistério em torno do seu talento e da sua musa inspiradora. ​

Essa musa dá pelo nome de Mar e é uma jovem e bela mulher que já encantou muitos outros pintores. Balaguer não é exceção e persegue-a com uma paixão exacerbada. Até ao dia em que Mar desaparece, sem deixar qualquer rasto. E, logo por acaso, Balaguer foi o último a pintar o seu retrato. A partir deste ponto, a narrativa dá uma reviravolta, assumindo um tom quase policial, pois procura-se encontrar a causa do desaparecimento de Mar. E, entretanto, a própria polícia catalã passa a ter Vidal Balaguer como suspeito número um pelo desaparecimento da bela musa. E pelo desaparecimento de outras pessoas.

Zidrou constrói uma narrativa que explora a genialidade e os tormentos de Balaguer, mergulhando nas complexidades da sua personalidade e nas dificuldades que enfrenta para obter reconhecimento. A história aborda temas como a paixão pela arte, a luta contra a obscuridade e a busca incessante por inspiração.​ Acaba por ser uma abordagem onírica, evocativa e romântica à própria criação artística e ao poder que a mesma pode ter: quer para quem observa uma obra de arte; quer para o seu criador; quer, ainda, para o próprio objeto retratado nessa mesma criação.

Naturezas Mortas, de Zidrou e Oriol - A Seita e Arte de Autor
A trama não poderia ser mais original, fazendo com que o leitor se interesse e queira responder às inúmeras perguntas que nos surgem à medida que vamos mergulhando na narrativa. Fui remetido, por vezes, para O Retrato de Dorian Gray, o clássico da literatura de Oscar Wilde, mas apenas e só no reflexo entre realidade e meta-realidade contido num retrato de alguém. Depois, parece-me, as duas obras levantam questões diferentes.

Uma breve pesquisa na internet permite-nos saber que, de facto, Vidal Balaguer não existiu. É uma personagem fictícia inventada por Zidrou que, naturalmente, tem em si muito de realidade, já que é inspirada na atmosfera e nos artistas do Modernismo catalão do final do século XIX e início do século XX. E isto leva-me a achar ainda mais fantástica, inusitada, rica e "fora da caixa" a história arquitetada por Zidrou! E o próprio facto dos autores se levarem a sério, nada revelando sobre a não existência na realidade do protagonista, me leva a achar ainda mais incrível e impressionante este Naturezas Mortas

Por favor, não considerem que estou a fazer qualquer tipo de spoiler ao referir esta informação na minha análise. Como referi, bastou-me uma pesquisa rápida na internet para que chegasse à constatação de tal facto. Além disso, o possibilidade de ser uma personagem ficcional ou não, não impacta em nada a leitura da história. Ou, se impacta, é no sentido positivo. Foi quando soube que a personagem era ficcional, que admirei (ainda) mais a história. Se o soubesse de antemão, partiria para a minha leitura com esse ponto a favor.

Naturezas Mortas, de Zidrou e Oriol - A Seita e Arte de Autor
Balaguer reflete, ainda assim, temas recorrentes e universais na arte e na literatura: o génio incompreendido, o artista em busca de inspiração e o preço da obsessão criativa. Mesmo sendo uma personagem fictícia, a sua história dialoga com a de muitos artistas reais que enfrentaram a efemeridade da fama e os desafios da criação artística.

A arte de Oriol complementa magistralmente o texto de Zidrou! As ilustrações, que alternam entre técnicas digitais e aguarelas, captam a essência do período modernista catalão e evocam a atmosfera boémia de Barcelona no final do século XIX. A paleta de cores e os detalhes minuciosos transportam o leitor para o universo íntimo de Balaguer, refletindo as suas emoções e conflitos internos.​ Às tantas, já nem sabemos bem o que são as pinturas de Balaguer e o que é a própria ação "real" da história, com as mesmas a fundirem-se simbioticamente numa só. Fabuloso trabalho!

As cores são lindas, os traços são elegantíssimos e a sensibilidade reinante, fazem com que esta obra também seja singular do ponto de vista de abordagem gráfica! É verdade que, por vezes, especialmente na parte da investigação na história, se pode perder alguma da dinâmica narrativa pelo recurso a um tipo de ilustração tão artístico. Mas isso é um detalhe pequeno, dira.

E como nada podia falhar, a edição deste livro também é verdadeiramente fantástica! Quanto a mim, é uma das melhores edições de banda desenhada lançadas em 2024. A capa é dura e apresenta uma textura muito própria, algo áspera ao toque, que faz lembrar as telas de pintura. O que é uma ponte perfeita para o tema da obra. No interior, o papel é baço e de boa qualidade, enquanto que o trabalho de impressão e encadernação também é bom. O livro possui ainda um bastante extenso dossier de extras, inédito, com 16 páginas onde nos são dadas mais informações sobre Vidal Balaguer, bem como as imagens dos seus vários quadros. O que é fantástico nestes textos informativos, é que há uma preocupação em tornar viável o mito da personagem enquanto pintor que existiu realmente. O livro leva-se a sério e isso até está bem patente, portanto, no conteúdo de extras do mesmo.

Naturezas Mortas, de Zidrou e Oriol - A Seita e Arte de Autor
A Seita e a Arte de Autor optaram por lançar a obra com uma capa diferente da original, que podem ver aqui ao lado. Ainda que eu goste da capa da versão portuguesa, tenho que admitir que preferia a capa da edição original da obra e lamentei que a mesma não fosse aqui utilizada. Compreendo as razões, já que a capa apresenta a nudez total de uma mulher, com a densa região púbica do corpo feminino em grande destaque. Imagino que a capa entrasse na lista negra do ditador algoritmo das redes sociais, o que  impediria que fossem publicados artigos com a mesma. É triste que vivamos num mundo onde a violência e as imagens chocantes abundam por todo o lado, mas que, ao mesmo tempo, se prive a observação de uma coisa tão bela como a nudez de um corpo feminino... mas, enfim, é o que temos. Portanto, ainda que a opção de não incluir a capa original por parte das editoras A Seita e Arte de Autor não me agrade especialmente, tenho que compreender a razão de tal escolha. Se eu fosse editor, teria feito a mesma coisa.

Concluindo, eis-nos perante um livro de qualidade superior com este Naturezas Mortas, que é (mais) uma bela obra extraída da profícua mente de Zidrou que, sendo servida por um trabalho de ilustração magnífico e diferenciado de Oriol, nos oferece uma pertinente reflexão sobre a efemeridade da fama e o valor intrínseco da arte. A obra questiona o que significa ser um artista e os sacrifícios envolvidos na busca pela excelência e reconhecimento.​ É um livro lindo... não deixem de o ler!


NOTA FINAL (1/10):
9.4



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Naturezas Mortas, de Zidrou e Oriol - A Seita e Arte de Autor

Ficha técnica
Naturezas Mortas
Autores: Zidrou e Oriol
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 21 x 28,5 cm
Lançamento: Outubro de 2024

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Análise: Shi - Livro 1 (Tomos 1 e 2)

Shi - Livro 1 (Tomos 1 e 2), de Zidrou e Homs - Ala dos Livros

Shi - Livro 1 (Tomos 1 e 2), de Zidrou e Homs - Ala dos Livros
Shi - Livro 1 (Tomos 1 e 2), de Zidrou e Homs

Se os mais céticos (ainda) poderão franzir o olho a uma afirmação como "2024 tem sido dos melhores anos de sempre no que ao lançamento de banda desenhada de qualidade em Portugal diz respeito", uma coisa é clara: basta-nos olhar para o conjunto muito alargado de bandas desenhadas de qualidade superior lançadas em 2024 em Portugal para chegarmos a uma fácil conclusão: é bem possível que este seja, de um modo global, o melhor ano de sempre . Ou um dos melhores, vá.

E este breve parágrafo inicial serve apenas para introduzir uma das mais recentes apostas da editora Ala dos Livros: a série Shi, da autoria de Zidrou e Homs. Esta era uma série há muito esperada por mim. Desde que, numa livraria na Bélgica, depositei os olhos no primeiro tomo desta obra, que percebi que estávamos logo perante um trabalho que eu queria ter na minha biblioteca pessoal. Daí que não hesitei mais do que alguns segundos para comprar, de uma só vez, os dois primeiros tomos. Passados uns anos, fiquei, pois, muito agradado por saber que a obra seria por cá editada. Ainda por cima, numa edição de luxo, como poderei abordar um pouco mais à frente.

Shi - Livro 1 (Tomos 1 e 2), de Zidrou e Homs - Ala dos Livros
Originalmente lançada em 2017, esta série, ainda em continuação, depressa conquistou uma grande aclamação pelo público e crítica. Coisa que, olhando para o trabalho fortemente inspirado de Zidrou e Homs, não surpreende. O primeiro ciclo de Shi é composto por quatro tomos, enquanto que o segundo e terceiro ciclos, são constituídos, cada um, por dois tomos. No total, a série está pensada para vir a ter oito tomos. Para já, a Ala dos Livros brinda-nos com um volume duplo que, naturalmente, agrega os dois primeiros volumes da série, oferecendo-nos, de uma só assentada, metade do primeiro ciclo da série.

Desta vez, começo-vos por falar das ilustrações de Homs. Já li milhentos livros de banda desenhada e posso dizer-vos com sinceridade que o trabalho deste autor figura no círculo muito fechado dos meus ilustradores preferidos de banda desenhada. Sei que estas questões são sempre pessoais e algo subjetivas mas, com objetividade, também podemos ainda assim referir que os desenhos de Homs são tecnicamente muito evoluídos, com os cenários a serem de cortar a respiração, com as personagens a apresentarem uma expressividade incrível, com a dinâmica da planificação a ser estonteante, com as cores a serem magníficas. Enfim, para mim, em termos de ilustração, o trabalho de Homs é perfeito, pois não sei, honestamente, e mesmo em termos teóricos, de que forma poderia melhorar os desenhos de Homs. Dito por outras palavras, mesmo que eu quisesse andar aqui à procura de defeitos... não o conseguiria fazer. Está certamente entre os meus dez ilustradores preferidos de banda desenhada... de sempre.

Shi - Livro 1 (Tomos 1 e 2), de Zidrou e Homs - Ala dos Livros
E, portanto, só isso já era meio caminho andado para a obra Shi ser totalmente recomendada. Pois aqui, e possivelmente mais do que nunca, Homs pôde dar asas à sua criatividade e capacidade ilustrativa, através de vários cenários, várias épocas, várias indumentárias, vários momentos de ação e um conjunto variado de peripécias. O próprio Homs, nas notas de agradecimentos inaugurais da obra, agradece a Zidrou por este ter criado "a história que Homs gostaria de desenhar".

Não tenho muitos mais elogios superlativos a fazer a Homs... os seus desenhos são um autêntico deleite, uma verdadeira obra de arte, rica, refinada e trabalhada, que todos devem conhecer e que eleva, só por si, a qualidade de Shi.

Mas, claro, ainda falta fazer referência à outra parte da obra: o argumento. 

Zidrou é um dos meus argumentistas preferidos de banda desenhada - vejam lá a "dream team" responsável por esta obra! Nunca li um livro de Zidrou que não fosse do meu agrado. E já li bastantes. As suas histórias trazem sempre consigo algo que fica a ressoar no nosso pensamento já depois de finalizadas as leituras. E, tanto ou mais importante que isso, as suas personagens estão sempre munidas de uma personalidade muito própria que as fazem credíveis e inesquecíveis até para aqueles leitores que, como eu, travam conhecimento, num ritmo diário, com novas BDs e novas personagens.

Shi - Livro 1 (Tomos 1 e 2), de Zidrou e Homs - Ala dos Livros
Em Shi, Zidrou avança por caminhos novos, dando-nos uma história complexa, megalómana, com várias camadas, que acontece em vários momentos e tempos de ação. Quer no tempo presente, quer no tempo passado. É uma obra que mistura a narrativa de ação com uma exploração profunda de temas de conflito pessoal, questões éticas e misticismo, com vários toques de fantasia onde até vemos Zidrou a piscar o olho a algumas das criações de Jodorowsky. Mesmo assim, e ao contrário do autor por mim mencionado, Zidrou não parece, pelo menos para já, perder as rédeas da sua própria criação. De facto, e isso é uma coisa que sempre admiro numa argumentista, por muito rocambolesca e audaz que possa ser a história de Shi, Zidrou parece saber exatamente para onde quer levar a trama, não oferecendo, por isso, partes do enredo  de forma aleatória ou introduzidas à força, como fillers, como, infelizmente, tantas vezes vemos em banda desenhada.

O próprio género é de difícil catalogação: Shi é um policial, é uma história de época, é uma história de ação, é uma história de aventura, é uma história de fantasia e até tem um cariz de consciencialização social. 

Estamos em Londres, em pleno século XIX, onde a primeira Exposição Universal acaba de ser inaugurada. Uma das famílias que marca presença em tão importante evento é a família Winterfield. A filha, chama-se Jennifer, e é uma fã de fotografia. A esse propósito, decide fotografar uma mulher japonesa com o seu bebé nos braços. Mas, depois de feita a fotografia, Jennifer descobre que o bebé estava morto no momento da fotografia.

As circunstâncias que rapidamente se sucedem acabam por unir estas duas mulheres em cenas de ação agitadas, que as leva a uma sede de vingança perante o Império Britânico e, indo até mais longe, perante todo o mundo, onde as mulheres acabam por ver a sua existência relegada para segundo plano. Não diria que seja uma história "forçadamente feminista", se é que me entendem, mas é inegável que está bem presente em Shi um feminismo latente, que é bem-vindo, bem doseado e adequado. As mulheres acabam, por isso, por ser as verdadeiras heroínas desta história que nos mantém sempre com máxima atenção, num ritmo narrativo fulgurante. Talvez por isso, de início até pode ser uma história algo confusa e difícil de acompanhar. O que faz merecer reparo que a opção da Ala dos Livros em publicar álbuns duplos até permite que o leitor mergulhe melhor na narrativa, sem que nela fique tão perdido como ficaria se apenas pudesse ler um tomo de cada vez.

Shi - Livro 1 (Tomos 1 e 2), de Zidrou e Homs - Ala dos Livros
Mas há muito mais nesta narrativa do que aquilo que aqui referi. E das duas umas: ou eu contava aqui tudo aquilo que acontece neste primeiro volume duplo, estragando dessa forma o prazer de leitura a todos aqueles que - acertadamente - não hesitarão em ler este fantástico livro; ou quedava-me por não falar mais sobre a história aqui presente. E é isso que farei.

Direi apenas, e ainda, que a história de Shi, cujo nome tem origem num ideograma que significa “a morte”, não é apenas uma história de vingança, mas uma busca por identidade e autoconhecimento no meio de um contexto caótico e violento. Zidrou consegue tecer uma narrativa complexa em que o leitor é forçado a lidar com questões existenciais, de identidade e, claro, com a moralidade de ações como a vingança. Este volume traz-nos, portanto, a construção inicial de um drama épico que mistura misticismo com um olhar humano sobre como a dor, a injustiça e o sofrimento podem mudar a essência de um ser humano. 

Já a edição da Ala dos Livros, é um verdadeiro mimo para os leitores. Para além de reunir, conforme já referido, dois tomos da série num só volume, o livro apresenta capa dura coma textura aveludada suave ao toque e uma ilustração (linda!) diferente das ilustrações das capas ditas normais. Mas se, como eu, também apreciam as ilustrações das capas normais, não se apoquentem porque a Ala dos Livros teve o cuidado de incluir essas ilustrações de capa no interior da obra. Além disso, refira-se ainda que o livro traz fita marcadora de tecido e que a lombada também é em tecido e que, à semelhança do que a Ala dos Livros tem estado a fazer com a série Blacksad, o conjunto das lombadas dos livros da coleção formará depois uma ilustração. Sim, babem-se colecionadores, porque esta edição é linda. No interior há ainda, como extra, um caderno de 12 páginas com ilustrações e estudos de capa de Homs, que são um mimo para a vista.

Em suma, se ainda não compraram este livro, não percam mais tempo, pois é seguro que ficarão bem servidos numa autêntica orgia visual onde Homs se assume como um dos melhores ilustradores em banda desenhada, e onde Zidrou se arrisca numa história complexa, intensa, impactante e que consegue transformar Shi num clássico instantâneo da banda desenhada franco-belga. Obrigatório! 


NOTA FINAL (1/10):
9.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Shi - Livro 1 (Tomos 1 e 2), de Zidrou e Homs - Ala dos Livros

Ficha técnica
Shi - Livro 1 (Tomos 1 e 2) - No princípio era a fúria e O rei demónio
Autores: Zidrou e Homs
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Setembro de 2024