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quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Análise: O Caderno Azul | Depois da Chuva

O Caderno Azul | Depois da Chuva, de André Juillard - Devir


O Caderno Azul | Depois da Chuva, de André Juillard - Devir
O Caderno Azul | Depois da Chuva, de André Juillard

Um dos livros da nova Coleção Angoulême, editada pela Devir, que, até agora, mais prazer me deu ler, foi este O Caderno Azul, de André Juillard! Embora conhecesse a obra de nome e reputação, este era um dos livros desta coleção que eu nunca tinha lido. Talvez por isso, esta obra tenha constituído uma surpresa muito agradável.

Publicada originalmente em 1994, esta história ambientada na cidade de Paris, é um jogo narrativo sofisticado que explora o amor, o voyeurismo e a percepção. Esta edição inclui uma outra história, intitulada Depois da Chuva, que, sendo independente de O Caderno Azul, tem alguns pontos em comum, nomeadamente com a presença de algumas das personagens do primeiro livro e, claro, por também nos trazer André Juillard enquanto autor completo que, além do desenho, também assegura o argumento de ambas as histórias.

E confirmar a capacidade de argumentista do autor, cujo trabalho enquanto ilustrador o fez bastante célebre - já nem referindo a sua popularidade por ser um dos desenhadores mais respeitados da série Blake e Mortimer - foi, possivelmente, a melhor surpresa que esta leitura me ofereceu.

O Caderno Azul | Depois da Chuva, de André Juillard - Devir
A narrativa de O Caderno Azul inicia-se com uma avaria no metro de Paris, que deixa uma carruagem parada diante de uma janela sem cortinas. Nessa janela, Louise, que, depois de um banho quente, caminha nua pela sala, é vista por Armand, que se encontrava no metro parado em frente à janela da casa desta bela mulher. E o resultado é fulminante: Armand fica automaticamente apaixonado por Louise! Mas o que poderia parecer ser o mero início de uma história de amor convencional revela-se, na verdade, uma exploração profunda das diferentes perspectivas e interpretações dos mesmos eventos. E isso acontece porque surge depois uma terceira personagem, masculina, que se envolve com Louise e que complica, no bom sentido da palavra, a estrutura narrativa da história.

André Juillard utiliza a técnica de recontar a mesma história sob diferentes pontos de vista, uma abordagem mais comum no cinema, mas menos explorada com tanta profundidade na banda desenhada. Esta estrutura narrativa inovadora confere à obra, está claro, uma qualidade cinematográfica, mantendo o leitor constantemente envolvido e desafiado a reconsiderar as suas próprias percepções. E até a fazer uma nova leitura do livro já depois de chegar à última página, já que a complexidade da narrativa e a profundidade das personagens exigem uma segunda leitura para apreciar plenamente as nuances e detalhes que podem ter passado despercebidos na primeira vez. Esta qualidade de "leitura dupla" é um testemunho da riqueza da obra e da habilidade de Juillard como narrador.

Com efeito, embora Juillard seja amplamente celebrado pelo seu talento no desenho realista, foi na construção da narrativa deste O Caderno Azul que me surpreendeu positivamente. A habilidade de tecer uma história tão complexa e envolvente, utilizando uma estrutura narrativa menos linear, demonstra uma mestria que vai além do domínio do desenho.

O Caderno Azul | Depois da Chuva, de André Juillard - Devir
Mas não ficamos por aqui. Conforme já referi, esta edição traz um segundo tomo, um segundo livro, denominado Depois da Chuva. Esta segunda narrativa, embora mais clássica na sua abordagem, mantém o interesse do leitor com uma trama envolvente de amor e de mistério, que despois se desenvolve para uma história de cunho policial, com alguma ação e violência. 

Se O Caderno Azul é uma história mais sensorial, com camadas diversas que nos levam a refletir, Depois da Chuva é uma história mais expectável na estrutura e forma. Lê-se bem e acaba por ser um complemento muito bem-vindo à primeira parte do livro, mas não posso dizer que seja um trabalho tão singular, com o mesmo nível de elegância e profundidade, de O Caderno Azul. Não obstante, considero que Depois da Chuva oferece, ainda assim, uma leitura agradável, que mantém vivo o interesse do leitor, proporcionando uma visão mais ampla do universo criado por Juillard.

O estilo gráfico de André Juillard é, claro, outro dos ponto altos desta obra. Conhecido pelo seu desenho realista e detalhado, o autor traz Paris à vida com uma sensibilidade única, capturando a essência da cidade e das emoções humanas com precisão. As expressões faciais e os gestos das personagens comunicam sentimentos profundos, muitas vezes mais do que as palavras poderiam expressar. A paleta de cores suaves e as composições cuidadosas criam uma atmosfera intimista e sensual que convida o leitor a mergulhar na história. Isto já para não falar nas personagens femininas que são misteriosamente belas e que irradiam uma sensualidade muito própria.

A edição da Devir apresenta capa dura baça, bom papel baço no interior e um bom trabalho a nível de impressão e encadernação. No final, há um dossier de extras com generosas 16 páginas, onde nos são dados esboços, estudos de capa e ilustrações de Juillard, bem como textos do jornalista Thierry Bellefroid sobre O Caderno Azul e Depois da Chuva.

Neste caso concreto, em que o formato da obra se mantém nos 17 x 24 cms, parece-me que se torna uma dimensão algo curta para uma melhor imersão na obra e estética dos desenhos do autor. Não diria que não dê para absorver bem a obra, mas poderia funcionar melhor se a dimensão fosse um pouco superior, tenho que referir.

Em suma, O Caderno Azul é uma leitura aconselhada a qualquer apreciador de banda desenhada que procure uma narrativa profunda e bem construída, aliada a uma arte visual impressionante, num estilo gráfico refinado e sensual. A originalidade da estrutura narrativa e a riqueza das personagens fazem desta obra uma experiência literária e visual que merece ser explorada e apreciada.


NOTA FINAL (1/10):
9.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Caderno Azul | Depois da Chuva, de André Juillard - Devir

Ficha técnica
O Caderno Azul | Depois da Chuva
Autor: André Juillard
Editora: Devir
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cms
Lançamento: Julho de 2025

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Análise: Blake e Mortimer - Assinado “Olrik”

Blake e Mortimer - Assinado “Olrik”, de Yves Sente e André Juillard - ASA - LeYa

Blake e Mortimer - Assinado “Olrik”, de Yves Sente e André Juillard - ASA - LeYa
Blake e Mortimer - Assinado “Olrik”, de Yves Sente e André Juillard

Blake e Mortimer - Assinado "Olrik" é o mais recente álbum da clássica série franco-belga criada por Edgar P. Jacobs, que desta vez nos é servida pelas mãos dos autores Yves Sente e André Juillard. Infelizmente, este é um álbum que se torna emblemático por funcionar como uma despedida ao ilustrador André Juillard, um nome grande da banda desenhada europeia - e mundial - que faleceu recentemente e que tem neste livro o seu último trabalho. Talvez por isso, fica uma sensação agridoce após a leitura deste Assinado "Olrik": por um lado, é sempre bom termos uma última oportunidade para mergulhar em mais alguma obra de um artista relevante que nos deixa, por outro lado, convenhamos que este é um dos piores Black e Mortimer da história da série.

Blake e Mortimer - Assinado “Olrik”, de Yves Sente e André Juillard - ASA - LeYa
A história desenrola-se na Cornualha, com o Rei Artur e a sua famosa espada Excalibur como tema central que, infelizmente, acaba por ser parcamente explorado. Um grupo independentista da região está a protestar contra o fluxo de novos migrantes económicos ao mesmo tempo que tenta encontrar o lendário tesouro do Rei Artur. A Blake, é incumbida a missão de desmantelar esta organização, enquanto Mortimer se encontra a apresentar a sua nova invenção revolucionária: uma escavadora a que dá o nome de The Mole. No meio de tudo isto, Olrik assume um papel relevante ao aliar-se ao grupo independentista para, claro está, usufruto pessoal, enquanto tenta deitar mãos à invenção de Mortimer. E tudo isto fazendo um acordo com os protagonistas da série.

Dito assim, estas breves linhas até nos podem fazer acenar a cabeça de forma positiva. No entanto, a história revela-se verdadeiramente desinspirada, com pouco ritmo, pouco encadeamento dos acontecimentos e com um enredo que depressa se torna fastidioso. 

Depois de um lamentável O Grito do Moloch - decididamente o pior álbum da série - até tenho que reconhecer que os álbuns O Último Espadão e Oito Horas em Berlim tinham sido bastante coesos e interessantes. A série parecia num melhor momento. Porém, com este Assinado "Olrik", a franquia volta a dar um passo atrás. Às tantas, já não sei se é boa ideia lançar estes livros - especialmente tendo em conta os nomes sonantes dos autores que os encabeçam. É que: 1) não são livros suficientemente bons para entrada de novos leitores na série e 2) muito menos são estes livros interessantes para os leitores da série clássica. Acredito que só mesmo os mais nostálgicos leitores de Blake e Mortimer - e à boleia de uma certa carolice ou "fanboyismo" - podem realmente apreciar este livro.

Não é algo que seja impossível de ler ou nada que se pareça, mas é uma leitura olvidável, que pouco acrescenta, e que se apresenta muitíssimo datada. Nem consegue ter o brilho do passado, nem consegue recriar-se, adaptando-se ao tempo atual. A trama proposta por Yves Sente carece, pois, de originalidade e desenvolve-se de modo forçado, sem o lado inventivo ou a presença de mistério característicos das melhores histórias de Edgar P. Jacobs. 

Blake e Mortimer - Assinado “Olrik”, de Yves Sente e André Juillard - ASA - LeYa
Mesmo o trabalho de André Juillard, que se assume como eficaz, não está com o refinamento a que o autor já nos habituou. Verifica-se que há vários desenhos que parecem ter sido feitos à pressa ou sem o aprimoramento necessário. Também os cenários, normalmente um ponto forte na série, aqui não possuem o mesmo nível de detalhe e sofisticação de alguns álbuns anteriores. 

Enfim, talvez esta sensação menos positiva seja justificada pela condição de saúde do autor, o que é compreensível. Não posso dizer que a ilustração seja o elo fraco da obra - esse será o argumento - mas deixo a nota.

O que também é bastante fraca é a capa do livro. Possivelmente, a mais fraca da série.

A edição da ASA está em consonância com os livros da mesma coleção - capa dura brilhante com bom papel baço no miolo - sendo que, desta vez, também saiu uma edição especial, em formato horizontal (ou italiano). Como o livro acaba por ter mais páginas - cerca de 300 - devido a esta opção de formato, também é mais caro. Ideal para colecionadores, mas não tanto para os leitores mais casuais, dado que a obra não foi originalmente concebida para o formato horizontal e, por esse motivo, a leitura do mesma, desse modo horizontal, pode não funcionar tão bem.

Em suma, Blake e Mortimer - "Assinado Olrik" assume-se como uma obra esquecível dentro do cânone da série. O argumento pouco inspirado, as ilustrações apressadas e a falta de dinamismo fazem com que o álbum não consiga capturar a essência da saga original. Para os fãs mais exigentes, é uma leitura frustrante que falha tanto no desenvolvimento da história quanto no aspeto visual.


NOTA FINAL (1/10):
6.0



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Blake e Mortimer - Assinado “Olrik”, de Yves Sente e André Juillard - ASA - LeYa

Ficha técnica
Blake & Mortimer - Assinado “Olrik”
Autores: Yves Sente e André Juillard
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 310 x 238 mm
Lançamento: Novembro de 2024


sexta-feira, 15 de novembro de 2024

ASA prepara-se para lançar o novo livro de Blake e Mortimer!



O novo livro da série Blake e Mortimer, intitulado Assinado "Olrik", chegará às livrarias a partir do próximo dia 26 de Novembro pelas mãos da ASA!

Este novo livro é da autoria de Yves Sente e André Juillard e já se encontra em pré-venda no site da editora.

Haverá uma edição especial, em formato horizontal, com o triplo das páginas da edição normal e cm uma capa diferente.

Falando da capa deste novo álbum, acho-a francamente má. Lembro-me de muita gente ter torcido o nariz à capa do anterior álbum da série, Oito Horas em Berlim. Mas comparando essa capa com a capa deste Assinado "Olrik", parece-me que a capa deste novo álbum é infinitivamente pior do que a de Oito Horas em Berlim.

Mas enfim, mais abaixo deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Blake & Mortimer: Assinado: “Olrik”, de Yves Sente e André Juillard

Um novo grupo independentista da Cornualha, o Free Cornwall Group, está a operar na pequena cidade de Sainte Corineus. Enquanto protestam contra o fluxo de novos migrantes económicos, o grupo procura o lendário tesouro do Rei Artur e a sua famosa espada, Excalibur.

Blake é então enviado para o local para desmantelar a organização e impedir o triste desígnio do seu líder, um certo “Grande Druida”.

Ao mesmo tempo, no Centro de Investigação Científica e Industrial de Londres, o Professor Mortimer apresentou uma das suas novas invenções revolucionárias: uma escavadora de bolso, “The Mole”. 

Para testar a resistência deste feito tecnológico, a imprensa britânica anuncia que “a Toupeira” será enviada para a Cornualha.

Neste novo álbum, Blake e Mortimer procuram frustrar os ataques de um pequeno grupo independentista com a ajuda de um aliado essencial e inesperado... o próprio Coronel Olrik! 

Mas podemos confiar nele para “amigo”?




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Ficha técnica
Blake & Mortimer: Assinado: “Olrik”
Autores: Yves Sente e André Juillard
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 310 x 238 mm
PVP: 15,90€

terça-feira, 18 de maio de 2021

Análise: Lena (Edição Integral)

Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard - Arte de Autor


Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard - Arte de Autor
Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard

A Arte de Autor engrossou o seu catálogo de banda desenhada com Lena, o seu lançamento mais recente. Esta é uma obra com argumento de Pierre Christin, autor da célebre série Valérian, e com ilustrações de André Juillard, que tem colaborado em alguns álbuns da série Blake e Mortimer.

Este Lena tem como característica distintiva o facto de ser um álbum triplo, uma edição integral que reúne, num só volume, os três tomos de Lena. O primeiro, A Longa Viagem de Lena, foi originalmente lançado em 2006, o seguinte, Lena e as Três Mulheres, em 2009 e o último, Lena em Pleno Braseiro chegou às livrarias francesas em 2020.

Embora existam alguns pontos de contacto entre as histórias deste livro, as mesmas são independentes entre si. Portanto, lidos de forma isolada, estes 3 tomos até funcionam bem. Mas também é claro que, lidos de forma seguida, a sensação de leitura fluída sai mais beneficiada. Mesmo assim, acho curioso como, mesmo tendo uma linguagem comum nas três obras, existam diferenças claras entre as três narrativas. Mas já lá irei.

Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard - Arte de Autor
Olhando na globalidade para esta obra, acho que interessa apontar que estamos perante um romance de cariz político, que tem como pano de fundo a atividade de espionagem e serviços secretos na luta contra (e a favor) do terrorismo internacional. Algo bastante atual e que procura ser o mais realista possível. Talvez (também) por isso, Lena apresente uma linha narrativa bastante lenta, pontuada pela presença de muito texto. Acho que essa é logo a primeira sensação que a obra nos dá.

Tem um ritmo muito lento que, por vezes, até pode tornar-se entediante para muitos leitores. Não obstante, também é verdade que mesmo sem nos dar cenas de ação, propriamente dita, Pierre Christin sabe dar-nos, praticamente ao longo de todo o livro, uma sensação ominipresente de tensão. Estamos sempre à espera de algo que possa correr mal, de sermos surpreendidos. E isso é, sem dúvida, um ponto a favor deste Lena. Algo que assegura a atenção daqueles que até poderiam lamentar a ausência de cenas de ação.

A protagonista é Lena, que dá nome à série. Uma mulher serena, algo masculina – mas elegante - e admiradora de nadar sempre que as suas viagens o permitem. É uma personagem misteriosa que prende a nossa atenção desde o início. No primeiro volume, A Longa Viagem de Lena, a sensação de leitura para mim foi diferente dos tomos seguintes. Como desconhecia a série e como resisti a ir procurar informações antes de iniciar a minha leitura, não sabia com o que contar. E, devo dizer, que já não me lembrava de um livro de bd que me deixasse tanto na escuridão, durante tanto tempo, como o primeiro tomo deste Lena. É que, mesmo sendo o primeiro volume da série, este A Longa Viagem de Lena, não se preocupa em traçar um perfil da protagonista ou da história. As coisas vão-nos sendo dadas aos poucos. A conta-gotas. Não sabemos de onde vem nem para onde vai Lena. E tudo o que nos é dado a testemunhar, são as diferentes paragens que a protagonista vai fazendo durante a sua viagem.

Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard - Arte de Autor
Começa em Berlim-Leste, onde um homem lhe entrega uma lista com nomes e números de telefone que Lena tem que decorar antes de destruir. Mesmo à Missão Impossível! Depois disto, a protagonista viaja para as cidades de Budapeste, Kiev e Odessa, antes de passar também pela Turquia e pela Síria. Em todas essas paragens Lena dá um objeto a cada uma das pessoas com quem se encontra. Até que, no final, todos esses objetos pessoais – e as pessoas que os transportam - contribuem entre si para criar algo maior e mais importante, com consequências políticas. Nada mais devo comentar sobre a história. Mas digo apenas que achei o ritmo demasiado lento e, por vezes, a roçar o entediante. Mesmo assim, dou crédito ao autor por conseguir prender a minha atenção até ao culminar da história. Se o final vale a pena? Gostei mas não sei se esteve à altura de tanta “espera narrativa”, chamemos-lhe assim. O background pessoal de Lena também nos é revelado já na parte final da obra. E isso dá força à personagem de Lena, sem dúvida.

Quanto à segunda história, Lena e as Três Mulheres, o autor já não podia brincar ao “jogo do rato e do gato” com o leitor, uma vez que já conhecíamos a personagem de Lena e as suas pretensões. Optou, portanto, por uma abordagem narrativa mais clássica. Creio que resultou muito bem. Este segundo conto é, aliás, e na minha opinião, o mais bem conseguido dos três, em termos globais. Lena e as Três Mulheres arranca com Lena refugiada na Austrália – devido aos eventos do primeiro tomo – onde agora tenta levar uma vida dita normal. Mas os Serviços Secretos voltam a conseguir chamá-la para mais uma missão. A partir da Geórgia e de um campo de treino subsariano, Lena tem como objetivo apoiar e instruir três mulheres que farão um atentado suicida ao serviço da Jihad, em pleno coração parisiense. Todas essas mulheres são bastante diferentes entre si, o que nos permite um breve vislumbre a essas pessoas (reais) que o mundo oriental tem utilizado nas suas missões geo-políticas. Acaba por ser interessante a ironia de vermos Lena a infiltrar-se num grupo que procura, também ele, infiltrar-se na sociedade ocidental para a destruir a partir de dentro. Como se o autor estivesse, com esta história, a oferecer aos membros da Jihad um pouco do seu próprio veneno. Acho que funcionou muito bem e que é a história mais completa e bem conseguida entre as três.

Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard - Arte de Autor
Finalmente, no último tomo, Lena em Pleno Braseiro, encontramos Lena num hotel situado numa região distante e montanhosa dos Estados Unidos, onde decorre em segredo uma conferência com membros de países tão antagónicos entre si como o Irão, a Turquia, os Estados Unidos, a Rússia, a França, a Alemanha, entre outros, cujo objetivo é discutir a crise que abala a Síria. O papel de Lena é organizar a conferência e deixar todos estes diplomatas felizes. Claro que, à semelhança de um conto de Agatha Christie, cada um dos diplomatas parece guardar segredos inconvenientes e ter segundas intenções. Devo dizer que, dos três tomos, este foi o menos bem conseguido, na minha opinião. A história torna-se demasiado teórica, quase burocrática, sem que a atenção do leitor seja agarrada por parte do autor. Na verdade, até admito que tive que fazer um certo esforço para conseguir terminar a história. Ao contrário do Tomo 1 em que, mesmo estando “às escuras”, o nosso interesse estava desperto, aqui pareceu-me uma narrativa onde há imensos balões de fala e de narração mas onde, na verdade, pouco ou nada se passa. E mesmo o final, também me pareceu que carece de alguma inspiração. Está muito tempo sem acontecer nada e quando acontece, é tudo feito um bocado “a martelo”, de forma algo forçada.

Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard - Arte de Autor
De facto, e olhando para o argumento de todos os tomos, Christin dá-nos demasiado texto para digerir. Ou, por outras palavras, acho que poderia ser contado o mesmo com o recurso a (muito) menos texto. Temos a narração da protagonista – que nos vai contando os seus pensamentos na primeira pessoa – e que funciona bastante bem, a meu ver. Mas, depois, temos os balões de diálogo onde há demasiado texto envolvido que acaba por se tornar redundante em várias vezes.

Se as histórias dos três tomos que constituem esta edição integral são diferentes quanto ao argumento, em termos de ilustração, pode-se dizer que há uma total harmonia gráfica. O estilo clássico, em linha clara, de André Juillard, remeteu-me para outras séries clássicas da banda desenhada franco-belga como IRS, Largo Winch ou XIII. Um estilo de ilustração muito sóbrio, quase vintage, que não arrisca muito em termos de dinâmica, de planificação ou até na conceção das personagens, focando-se em proporcionar uma linguagem gráfica madura e eficaz, sem grandes divagações artísticas.

Creio que as ilustrações de Juillard se coadunam muito bem nas histórias de cariz político que Christin nos dá neste Lena. Diria que, por vezes, gostaria de ter sentido mais dinâmica e coragem do autor em termos gráficos. E também as emoções das personagens poderiam ser mais vincadas e a escolha de planos mais chamativa. E digo isto com a ideia de poder transformar a narrativa, talvez serena demais, em algo mais dinâmico e que prendesse mais a nossa atenção. Porém, também é verdade que os desenhos são maioritariamente bonitos. Para os amantes das séries que mencionei acima ou de outras bds franco-belgas mais clássicas, acho que a arte ilustrativa que Juillard nos oferece neste Lena, será de grande valor. Quanto a mim, considero que não é um desenho magnífico mas que é agradável, de forma genérica. Há pois uma sensação de revivalismo nesta banda desenhada. Embora o primeiro tomo “só” seja de 2006 (e o terceiro até seja de 2020), este parece ser um livro saído diretamente dos anos 80, em termos de história e de arte visual.

Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard - Arte de Autor
Quanto à edição, e repetindo aquilo que tenho vindo a escrever sobre as edições da Arte de Autor, este Lena apresenta uma qualidade fantástica. Boa encadernação, com capa dura de textura aveludada, bom papel e, claro, o plus de ser uma edição integral.

Aplaudo esta iniciativa da editora em avançar para uma edição integral pois considero que conter uma história inteira num só livro, num só objeto, é sempre uma mais valia para o leitor. E, nesse sentido, isto que a Arte de Autor fez com Lena é pensar nos seus leitores. Se olharmos para o preço total da obra (31€) até o podemos considerar algo avultado. Porém, se tivermos em conta que é um livro que contém no seu interior 3 livros, então estamos a pagar pouco mais do que 10€ por livro. O que é fantástico! Além disso, pelo menos na minha opinião, é muito mais preferível ler tudo de enfiada, num só livro, do que estar a ler as obras as poucos.

Em conclusão, diria que Lena é uma aposta interessante e com qualidade por parte da Arte de Autor. Não estará, a meu ver, entre as suas melhores obras, mas é uma boa banda desenhada, que vale a pena conhecer. Especialmente para todos aqueles que têm interesse em espionagem, serviços secretos e relações internacionais. E claro, tudo isto embrulhado numa fantástica edição integral que contém 3 tomos num só volume. Não será fácil para muitos resistir a esta oferta tão apetecível.


NOTA FINAL (1/10):
8.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard - Arte de Autor

Ficha técnica
Lena (Edição Integral)
Autores: Pierre Christin e André Juillard
Editora: Arte de Autor
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Maio de 2021

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Lançamento: Lena (Edição Integral)





A Arte de Autor acaba de anunciar mais um lançamento de banda desenhada! E desta vez trata-se de um volume integral que reúne 3 tomos numa só edição.

Falo de Lena, um romance de cariz político, da autoria de Pierre Christin e André Juillard, que compila os três tomos que constituem esta mini-série, nomeadamente A Longa Viagem de Lena, Lena e as Três Mulheres e Lena em Pleno Braseiro.

Confesso que pouco ou nada conheço sobre esta série mas, naturalmente, há já duas coisas que estão a despertar o meu interesse: 1º as ilustrações da obra, parecem-me muito elegantes e bonitas; e 2º como a Arte de Autor raramente falha nas suas apostas editoriais, acredito que possa ser mais uma série de qualidade por parte da editora.

Outra coisa que aplaudo ainda é a opção por um lançamento integral. Conter uma história inteira num só livro, num só objeto, é sempre uma mais valia, a meu ver.

Abaixo, fiquem com as sinopses da obra e com as imagens promocionais.


Lena (Edição Integral), de Pierre Christin e André Juillard

Lena é uma série de ficção política que conduz o leitor aos bastidores das alterações geopolíticas que marcaram a história do século xx e xxi.


A Longa Viagem de Lena

Ela chama-se Lena. É uma jovem morena, elegante e misteriosa. Ignoramos de onde vem e para onde vai. A sua viagem começa em Berlim-Leste, no bairro onde vivem os antigos dignitários de um regime apagado pelos ventos da História. Lena vai visitar um homem que lhe entrega uma lista de nomes e números de telefone, que ela decora antes de destruir. Depois de Berlim, virá Budapeste e um outro encontro. E depois de Budapeste, Kiev, Odessa, a Turquia e a Síria. De cada vez, um encontro. Poucas palavras são pronunciadas, apenas um objecto estranho é dado por Lena ao seu destinatário: um frasco de perfume, um estojo de emergência para diabéticos. Com A longa viagem de Lena, Pierre Christin e André Juillard conduzem o leitor através de uma Europa onde se entrelaça o presente e o passado. 

Uma Europa onde os sobressaltos de uma História não muito longínqua parecem prolongar-se em estranhos projectos partilhados por aquelas mulheres e homens com quem Lena se cruza. Mas, ela própria, que papel desempenha? Christin e Juillard deixam pairar a dúvida sobre as suas intenções. Como pano de fundo, adivinham-se as sombras do terrorismo internacional alimentado pela frustração de um passado que parecia enterrado, o do ideal comunista. Narração de um percurso que não é como outros, impregnado de nostalgia e melancolia. A longa viagem de Lena permite a Pierre Christin dar livre curso ao seu interesse pela História e pelo destino contrariado dos países do Leste.



Lena e as Três Mulheres

Refugiada na Austrália, Lena tenta reconstruir a sua vida longe da violência cega dos atentados. Os serviços secretos, entretanto, não a esqueceram. Em breve ela volta a mergulhar na loucura humana, passando por uma Geórgia perturbada e um campo de treino subsariano, antes de acabar num esconderijo parisiense na companhia de três mulheres destinadas ao martírio. Pierre Christin e André Juillard voltam a formar a dupla que tanto nos perturbou com A longa viagem de Lena e assinam uma obra rara, ao mesmo tempo política e contemplativa, que nos permite decifrar o nosso torturado mundo.



Lena em Pleno Braseiro

Numa região perdida do norte da América, uma importante conferência desenrola-se no maior segredo, reunindo representantes de diferentes países (Irão, Turquia, Estados Unidos, Rússia, França, etc.) com o objectivo de discutir a crise que sacode o Médio Oriente, incluindo a Síria, que é objecto de considerações geopolíticas. Os diplomatas confrontam os seus pontos de vista, oferecendo por vezes um espectáculo chocante num mundo ameaçado, pronto a explodir... Lena assiste a essa conferência, que tem de supervisionar, não sem dificuldades... Dez anos depois do segundo tomo, Pierre Christin e André Juillard reencontram-se graças a Lena, a personagem que é o centro de uma narrativa de rara inteligência, onde as questões geopolíticas estão mais presentes que nunca.

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Ficha técnica
Lena (Edição Integral)
Autores: Pierre Christin e André Juillard
Editora: Arte de Autor
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 31,00€