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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Entrevista a Mário Freitas: "Não duvido que existe uma franja de leitores, os mais conservadores dos conservadores, que considera a BD de autores portugueses como coisa menor."



A propósito da recente publicação para o mercado americano, pela editora Image Comics, de O Homem Que Sonhou o Impossível, de Mário Freitas e Lucas Pereira, com o título The Man Who Dreamt The Impossible, estive à conversa com Mário Freitas, argumentista e editor da obra.

Falámos sobre este enorme feito, as suas possíveis consequências ou ilações, bem como de projetos futuros de Mário Freitas, numa conversa aberta e transparente, bem ao estilo do autor.

Deixo-vos, mais abaixo, com a nossa conversa e aproveito, uma vez mais, para enviar os meus parabéns ao Mário Freitas e ao Lucas Pereira. Que a produção portuguesa seja publicada no estrangeiro é - ou devia ser - sempre motivo de orgulho e regozijo para todos nós!

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Kingpin Books nos últimos 5 anos!


Hoje apresento-vos os 10 livros mais relevantes que li da editora Kingpin Books e que foram lançados nos últimos 5 anos, período de existência do Vinheta 2020.

A Kingpin Books foi responsável pela produção e lançamento de muita da banda desenhada nacional - e não só - relevante que foi editada em Portugal nos últimos 15 anos. Infelizmente, a cadência editorial da editora portuguesa decaiu um pouco nos últimos anos, embora a qualidade dos livros editados continue a ser muito boa. Dito por outras palavras, são poucos, mas bons os livros que têm saído da fornalha da Kingpin.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Sem mais demoras, eis aqueles que considero que são os 10 melhores livros de banda desenhada editados pela Kingpin entre 2020 e 2025.

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Análise: O Homem Que Sonhou o Impossível

O Homem Que Sonhou o Impossível, de Mário Freitas e Lucas Pereira - Kingpin Books

O Homem Que Sonhou o Impossível, de Mário Freitas e Lucas Pereira - Kingpin Books
O Homem Que Sonhou o Impossível, de Mário Freitas e Lucas Pereira

Mário Freitas tem o condão de, em O Homem que Sonhou o Impossível, fazer, ele próprio, algo digno dessa aparente impossibilidade adjacente ao título da obra: o simples ato de prestar uma sentida e documentada - embora não linear - homenagem a essa figura maior dos comics americanos - e, por arrasto, de toda a banda desenhada mundial - que foi Jack Kirby. E, ao fazê-lo, o autor português brinca com as próprias idiossincrasias da 9ª arte, fazendo um eficiente uso da própria linguagem da banda desenhada. E, quanto a mim - e mesmo reiterando que belas homenagens a figuras relevantes da banda desenhada são sempre bem-vindas - é essa a maior valência desta obra: a de, criativamente, tirar partido das oportunidades que um estilo, um género, um modus operandi, como a banda desenhada possibilita.

E essa boa e singular utilização da forma enquanto meio, começa logo pelo formato deste O Homem Que Sonhou o Impossível que, se não inédito em edições portuguesas, será certamente caso raro. Utilizando o formato gigante americano, denominado Treasury, este livro tem dimensões enormes. Pensando em livros de banda desenhada recentemente publicados em Portugal, tomem como exemplo O Burlão nas Índias ou o mais recente O Inferno de Dante. É, portanto, um tamanho muito grande para um livro de BD. E o que é mais positivo, é que este O Homem Que Sonhou o Impossível não é grande "só porque sim", ou por uma questão de capricho. Ao invés, o livro utiliza esse formato com sapiência, de forma a tornar a experiência do leitor mais agradável e, primordialmente, com o propósito de melhor servir a narrativa visual.

O Homem Que Sonhou o Impossível, de Mário Freitas e Lucas Pereira - Kingpin Books
Logo no início da história, na primeira página dupla que a mesma nos oferece, em que Sherm e Mike deambulam pelo lar onde decorre a ação, o leitor é presenteado com uma verdadeira masterclass de como se pode aproveitar uma página dupla em banda desenhada. As duas personagens mostram-nos “os cantos à casa” enquanto nos introduzem na história que teremos pela frente. Tudo é feito com uma grande sensação de movimento, com a legendagem a nunca nos fazer sentir perdidos - embora, no início, até possa dar essa impressão. Por si só, esta dupla página já seria para mim uma referência da qualidade e engenho de Mário Freitas, mas cingir-me a este ponto, quando falo de O Homem que Sonhou o Impossível, seria redutor. Até porque, em mais três ou quatro situações, há mais bons exemplos desta capacidade de narrativa gráfica e de boa utilização da prancha. E, já que falo em boa utilização da prancha, ou do espaço, a própria forma como a história começa, com utilização da primeira badana e guarda do livro - que num filme poderíamos considerar como uma breve cena introdutória para nos ambientar para o que daí viria - é apenas mais um dos múltiplos exemplos demonstrativos de que Mário Freitas se apresenta especialmente inspirado neste O Homem Que Sonhou o Impossível.

Mas estou a meter as mãos pelos pés. Comecemos pelo início.

O Homem Que Sonhou o Impossível, de Mário Freitas e Lucas Pereira - Kingpin Books
A história que nos é proposta tem como pano de fundo um lar. É aí que decorre a ação. Jack King é um dos residentes habituais desse espaço de repouso. E, como em quase todas as velhices, o protagonista desta história também se encontra já longe do fulgor da sua jovialidade, em que as ideias fervilhavam e as opções pareciam infinitas. No tempo atual, Jack é apenas uma pálida sombra dessa existência e parece sucumbir gradualmente a essa ausência de sede de vida que outrora lhe escorria dos poros. Mas isso começa a mudar a partir do dia em que chega ao lar um novo auxiliar, Mike, que, pelo seu interesse na vida de Jack, acaba por lhe restituir alguma da sua chama de vida que se encontrava extinta. A partir deste ponto, vamos mergulhando na existência mundana que se vive no lar, onde, para os amantes de banda desenhada, não faltam personagens facilmente identificáveis.

Para além da presença de Jack Kirby - que aqui recebe o lisonjeador nome de Jack King - são inúmeras as presenças de outras figuras proeminentes dos comics americanos como Stan Lee, Steve Ditko, Wally Wood, Gene Colan ou Bill Everett. Quem conhece Mário Freitas, sabe o quão defensor ele é da arte e obra de Jack Kirby que, infelizmente, muitas vezes acabou eclipsada pela (omni)presença de Stan Lee. Esta não é, ainda assim, uma biografia de Jack Kirby, mas antes uma homenagem à sua indelével relevância, não só para os comics americanos, como também para toda a banda desenhada mundial.

O Homem Que Sonhou o Impossível, de Mário Freitas e Lucas Pereira - Kingpin Books
O exercício acaba por ser grandioso: aquele de querer relembrar o verdadeiro criador, em detrimento daquele que recebe os louros por essa mesma criação. Um exercício nobre, diria, de tentar reescrever a História ou, talvez ainda mais forte que isso, restituir a História. São públicas as opiniões de Mário Freitas sobre o açambarcamento criativo de Stan Lee - que aqui tem o nome de Martin Flask - mas, neste livro, em forma de conto ficcional onde até há espaço para uma certa poesia e reflexão, os intentos de Mário Freitas acabam mais bem alcançados e regrados do que em comentários nas redes sociais. É que esta é uma história possível de Jack Kirby, Stan Lee e outros criadores de comics, mas bem que pode – e deve - ser explanada para outras áreas da criação artística. Só para dar uma referência possível do que acabo de afirmar, posso admitir que, enquanto lia este O Homem Que Sonhou o Impossível, várias vezes fui remetido para o igualmente belíssimo e, de certa forma, assustador Olhos Grandes (Big Eyes), filme realizado por Tim Burton.

Voltando à história do livro, há ainda espaço para a entrada em cena de Bolt Bisley - AKA Walt Disney - que aparece de forma bastante(!) demoníaca para arrecadar as criações dos outros, com vista ao seu enriquecimento pessoal. A história desemboca, depois, para uma luta entre o bem e o mal, entre o criador original e o açambarcador de criações, levando Jack a uma última batalha criativa que fará o seu espírito criativo ressoar novamente. Devo dizer que, neste ponto mais over the top da história, cheguei a temer que a narrativa se perdesse um pouco, com uma certa divagação no enredo, ao qual o autor não consegue fugir. No entanto, e felizmente, Mário Freitas sabe depois, já perto do final do livro, unir bem esses pontos mais soltos de forma a que o todo fique coeso e a experiência seja gratificante.

O Homem Que Sonhou o Impossível, de Mário Freitas e Lucas Pereira - Kingpin Books

Se Mário Freitas nos dá aqui um dos seus melhores trabalhos - que poderá rivalizar (ou mesmo superar) Fósseis das Almas Belas - também o brasileiro Lucas Pereira está à altura, dando-nos belos desenhos "cartoonescos" que encaixam bem no espírito americano da obra, com uma planificação verdadeiramente dinâmica e cheia de ritmo visual. E isso, claro está, assenta bem no próprio cerne “americanizado” da obra. O desenho e as cores são muito do meu agrado e, como já referido, a capacidade de ilustrar diferentes tipos de desenhos para dar boa resposta ao musculado ritmo narrativo imposto por Mário Freitas, revelam a rica valência do autor brasileiro. Diria que o casamento criativo de Mário Freitas com Lucas Pereira foi um verdadeiro sucesso. Gostaria de, no futuro, ler mais livros desta dupla criativa.

O Homem Que Sonhou o Impossível, de Mário Freitas e Lucas Pereira - Kingpin Books


A edição da Kingpin Books apresenta capa mole com agrafos. A capa é baça, com detalhes a verniz e badanas. À boa maneira americana, também há duas capas diferentes, sendo as duas muito belas e apresentando um belo grafismo. A contracapa tem uma breve citação de Mike Royer, arte-finalista de Jack Kirby que, de alguma forma, acaba ele próprio inserido dentro da própria história. Mais, não digo.

Em jeito de conclusão, O Homem que Sonhou o Impossível é uma das bandas desenhadas portuguesas do ano, conseguindo um belo equilíbrio entre ser um livro de clara homenagem a um dos principais criadores de banda desenhada de sempre - em que não faltam inúmeras referências ao universo da 9ª arte - e, ao mesmo tempo, oferecer-nos uma história que consegue funcionar per se e relembrar-nos da relevância que determinadas criações artísticas têm na sociedade, não deixando de ecoar na consciência coletiva, mesmo depois da morte dos autores dessas mesmas criações. Como se isso fosse um sonho impossível que alguém ousa sonhar.


NOTA FINAL (1/10):
9.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Homem Que Sonhou o Impossível, de Mário Freitas e Lucas Pereira - Kingpin Books

Ficha técnica
O Homem que Sonhou o Impossível
Autores: Mário Freitas e Lucas Pereira
Editora: Kingpin Books
Páginas: 32, a cores
Encadernação: Capa mole com agrafos
Lançamento: Maio de 2024

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Kingpin Books lança livro sobre Jack Kirby!



Mário de Freitas e a sua Kingpin Books estão de regresso ao lançamento de banda desenhada! E este, meus caros, não parece ser apenas "mais um lançamento", tendo em conta as características da obra que, poeticamente, se intitula O Homem que Sonhou o Impossível.

Quem conhece Mário Freitas, sabe o quão defensor ele é da arte e obra de Jack Kirby que, infelizmente, muitas vezes acabou eclipsada pela (omni)presença de Stan Lee. 

Esta não é, ainda assim, uma biografia de Jack Kirby, mas antes uma homenagem à sua indelével relevância, não só para os comics americanos, como também para toda a banda desenhada mundial.

Devo dizer que estou muito curioso com este lançamento. O conceito da obra, que tem argumento de Mário Freitas, parece-me apetecível e as ilustrações do brasileiro Lucas Pereira que já tive oportunidade de ver, são muito do meu agrado.

O livro deverá estar disponível na livraria Kingpin durante a próxima semana e terá a sua primeira apresentação no Maia BD, no dia 25 de Maio, às 14h. O lançamento oficial está agendado para o Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, nos dias 8 e 9 de Junho, com exposição dedicada à obra e com a presença de ambos os autores.

Como nota curiosa, refiro que o livro terá duas capas diferentes, que podem ser vistas mais abaixo.

Por agora, deixo-vos com a nota de imprensa do editor, bem como com algumas imagens promocionais.


O Homem que Sonhou o Impossível, de Mário Freitas e Lucas Pereira
Jack King é o mais velho do lar. Um tipo único, um prodígio de imaginação, sempre a contar histórias vívidas e fascinantes. 

Os últimos tempos, porém, têm sido difíceis. Cansaço extremo, perda de memória, perda de motivação. 

E é então que chega Mike, um novo auxiliar jovem e dinâmico que vai ajudar a recuperar o espírito de Jack e a sua tão estimada biblioteca; entretanto votada à desarrumação e ao quase abandono, a que não será decerto alheia a sinistra peçonha que se esconde nas suas estantes...

O Homem que Sonhou o Impossível é um álbum de BD com 32 páginas, no formato gigante clássico dos anos 70, o Treasury americano. Uma homenagem ficcionada a Jack Kirby, aos homens que melhor tomaram conta do seu trabalho, e a outros que sofreram os mesmos entraves criativos e editoriais ao longo das suas carreiras.

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Ficha técnica
O Homem que Sonhou o Impossível
Autores: Mário Freitas e Lucas Pereira
Editora: Kingpin Books
Páginas: 32, a cores
Encadernção: Capa mole com agrafos
Formato: 25,6 x 34 cms
PVP: 17,99€













quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Análise: Vinil Rubro

Vinil Rubro, de Mário Freitas e Alice Prestes - Kingpin Books - Mário Breathes Comics

Vinil Rubro, de Mário Freitas e Alice Prestes - Kingpin Books - Mário Breathes Comics
Vinil Rubro, de Mário Freitas e Alice Prestes

A Kingpin Books lançou recentemente, através da chancela Mário Breathes Comics, a obra Vinil Rubro que, no espaço de um ano, é a terceira história (curta) de banda desenhada de Mário Freitas que, arredado durante bastante tempo do lançamento de novas BDs da sua autoria, parece agora ter voltado com uma renovada e fecunda energia para a escrita de novos livros. Pessoalmente, e sendo um admirador do seu trabalho, faço votos para que esta aura criativa se mantenha nos próximos tempos. Até porque neste Vinil Rubro que hoje vos trago, Mário Freitas atesta que ainda tem muito para dar ao género.

Depois do polémico (para alguns) A Polaroid em Branco, em que o autor se fez valer de ferramentas de Inteligência Artificial para a conceção do livro, e de Há Quem Queira que a Luz se Apague onde, em parceira com Derradé, criou uma história de humor e crítica social, Mário Freitas faz-se acompanhar neste Vinil Rubro por Alice Prestes, cuja incursão na banda desenhada é a primeira.

Os dois esforços anteriores de Mário Freitas tiveram os seus bons momentos e méritos, sim, mas é com Vinil Rubro que, quanto a mim, o autor se transcende e consegue recriar-se nesta belíssima obra em que é inequívoca e transbordante a inspiração do mesmo para textos profundos e para uma narrativa inteligente que consegue desafiar o leitor.

Vinil Rubro, de Mário Freitas e Alice Prestes - Kingpin Books - Mário Breathes Comics
É difícil falar da história de Vinil Rubro sem dar spoilers ou encaminhamentos involuntários para a compreensão da mesma, mas vou tentar: a história centra-se numa jovem mulher que trabalha de noite, como DJ, e vive sozinha com um gato. Parece estar à beira de uma valente depressão que é causada pela aparente ausência de uma relação passada. É na música, no vinho e nos momentos passados com o seu gato que a protagonista parece encontrar a sua redenção. Ou a sua perdição.

Em Vinil Rubro, Mário Freitas parece andar a brincar com as palavras e com o leitor, não sendo claro nem óbvio para onde nos quer levar e, ao mesmo tempo, oferecendo-nos um texto poético e muito bem escrito que permite interpretações mistas. E é quando atingimos a última página do livro que somos levados a relê-lo, percebendo que talvez o relato não tenha sido tecido por quem parecia estar a comunicar com o leitor primeiramente. Este exercício narrativo não é único em banda desenhada, e muito menos o é no cinema, mas também não é algo assim tão comum e, portanto, acaba por ter um resultado fabuloso e gratificante neste livro.

Assim sendo, e embora seja um pequeno livro de 16 páginas, é como se, quando atingimos a última página, só tenhamos lido metade do livro. Posso dizer que já fiz duas leituras completas de 32 páginas do livro (4 leituras, portanto) e quanto mais leio este Vinil Rubro, mais acho que este é o melhor argumento de Mário Freitas. E, se não me equivoco, já li todos os seus livros. Como pequeno detalhe/sugestão para que este inteligente jogo narrativo fosse ainda mais perfeito, acho que, de alguma forma, poder-se-ia ter demonstrado que o gato era uma gata. Através de um plano de detalhe da coleira do(a) mesmo(a) que mostrasse o seu nome feminino, por exemplo. Seria ainda mais perfeito para o jogo narrativo criado! Não digo mais nada. Quem já leu deverá compreender o porquê desta minha sugestão.

Vinil Rubro, de Mário Freitas e Alice Prestes - Kingpin Books - Mário Breathes Comics
Mas, se o trabalho de Mário Freitas é notável, não o seria tanto se toda a componente visual criada por Alice Prestes não fosse tão singular, elegante e bela, com a capacidade de servir a tónica mais que certa para a história imaginada pelo argumentista. Com um estilo de desenho completamente diferente daquilo a que estamos habituados ao nível da banda desenhada nacional, Alice Prestes convence logo na primeira prancha. Ou melhor, na primeira vinheta. 

Se o desenho é belo e diferenciado, as cores - onde, consoante a cena e aquilo que da mesma interessa extrair, a paleta vai mudando entre os tons verdes, azuis e vermelhos - são verdadeiramente lindas. É um universo pictórico muito belo aquele que a autora nos consegue dar. Para um livro que apenas tem 16 páginas, não deixa de ser notável que o seu grafismo sobressaia e se acomode na nossa memória. Se daqui a 10 anos alguém me falar de Vinil Rubro, estou certo que lembrar-me-ei com facilidade e em poucos segundos do estilo gráfico da obra. E isso, meus caros, e especialmente tendo em conta a quantidade de banda desenhada que leio, é um imenso feito.

O estilo de ilustração de Alice Prestes será mais oriundo da ilustração do que da banda desenhada e isso é mais sentido nos casos em que as personagens fazem alguma ação mais física. Nesses casos, sente-se que o desenho é algo rígido, carecendo da dinâmica necessária para passar a noção de movimento. Não obstante, e perante um desenho que em tudo o resto é tão belo, diria que isto será apenas um detalhe. E, claro, como é uma obra que não pressupõe muita ação física por parte das personagens, isto não chega a ser um problema. Alice Prestes pode não ser a autora perfeita para qualquer tipo de banda desenhada, mas sem dúvida que é a escolha certa para Vinil Rubro

Se há algo que me deixa insatisfeito com este livro? Sim, a sua dimensão. Muito embora este seja um livro que, mesmo tendo 16 páginas, é como se tivesse 32, conforme já referi, creio que havia aqui espaço para tornar a experiência mais inolvidável e fazer deste livro um marco na banda desenhada nacional. E isso teria sido alcançado se o livro tivesse mais páginas para melhor conhecer e desenvolver as personagens e a trama. 

Vinil Rubro, de Mário Freitas e Alice Prestes - Kingpin Books - Mário Breathes Comics
As curtas em banda desenhada – e no cinema ou na música, quando falamos de EPs e não de LPs - têm essa dicotomia: por um lado, permitem exercícios extremamente interessantes e gratificantes, como é o caso; por outro lado, a sua relevância acaba por estar confinada a essa mesma opção de tamanho mais pequeno. Por muito especial que uma curta seja, terá sempre adjacente a si mesma uma certa efemeridade, pois a curta metragem parece sempre um trailer alargado e não o próprio filme. Como se fosse o pitch promocional de uma obra que se quer grande. Pode ser um preconceito meu, admito, mas pergunto-vos, caros leitores: da vossa lista de 10, 50 ou 100 filmes preferidos, quantos são curtas metragens? Dois? Um? Zero? No meu caso, até há uma curta metragem linda que figura entre os meus 100 filmes preferidos - Harvie Krumpet, de Adam Elliot, para quem interessar saber. Mas, lá está, é caso único. É difícil para uma curta metragem almejar voos que não sejam curtos.

E, voltando a Vinil Rubro, gostei tanto que a minha queixa até é mesmo essa: que seja uma experiência curta demais. Mesmo que tenha, na verdade, 32 páginas. E nisso, tiro o chapéu a Mário Freitas. São 16 páginas que valem por dois.

Em termos de edição, o livro apresenta capa mole, com agrafos, e bom papel couché. A capa e a contracapa são baças, com verniz localizado em algumas partes, o que faz com que o aspeto da “embalagem” – porque é isso que as capas são nos livros – seja, desde logo, muito apetecível. Especialmente, tendo em conta que se trata de uma curta história, é com bons olhos que vejo esta elevação em termos de qualidade editorial como aliás, também já foi feito pela Kingpin Books em A Polaroid em Branco ou em Há Quem Queira que a Luz se Apague.

Concluindo, Vinil Rubro é uma autêntica pérola que merece ser conhecida e lida por todos os amantes de uma bela narrativa em banda desenhada. É uma das belas surpresas do ano - onde Mário Freitas nos dá, possivelmente, o seu melhor argumento até à data e onde Alice Prestes entra pela porta grande da BD nacional, oferecendo-nos ilustrações belíssimas e únicas - e só peca mesmo por ser curto em dimensão, não obstante as variadas leituras que, para uma melhor compreensão da inteligente trama, pressupõe do leitor. Quero mais!


NOTA FINAL (1/10):
8.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Vinil Rubro, de Mário Freitas e Alice Prestes - Kingpin Books - Mário Breathes Comics

Ficha técnica
Vinil Rubro
Autores: Mário Freitas e Alice Prestes
Editora: Kingpin Books
Páginas: 16, a cores
Encadernação: Capa mole, com agrafos
Formato: 16,5 x 23,5 cm
Lançamento: Outubro de 2023

terça-feira, 17 de outubro de 2023

Mário Freitas lança nova BD com autora estreante!



Ainda só passaram algumas semanas desde o seu lançamento mais recente, Há Quem Queira Que a Luz se Apague, e já temos Mário Freitas a preparar-se para lançar, no próximo Amadora BD, mais um livro.

O nome da obra é Vinil Rubro e, desta feita, o autor promete algo diferente e mais sério, em relação ao livro que lançou com Derradé, de tom demarcadamente humorístico.

Este título tem também a curiosidade de ser a primeira obra de banda desenhada da autora Alice Prestes, que assina as ilustrações deste pequeno livro de 16 páginas. 

E que ilustrações, meus caros! É difícil não se ficar entusiasmado com tão belas pranchas, que partilho mais abaixo, juntamente com a sinopse da obra.

Antes disso, relembro, também, que Vinil Rubro, terá sessão de lançamento no próximo domingo, pelas 15h20, no Auditório do Amadora BD, com a presença dos autores e de David Soares. Mais tarde, entre as 17 e as 19h, os autores estarão a dar autógrafos.


Vinil Rubro, de Mário Freitas e Alice Prestes

É sobre as incertezas da vida. Sobre as memórias que a música nos traz. Sobre as feridas abertas que nos corroem e o lastro que transportamos. E sobre o desejo egoísta, o maior dos manipuladores.
A estreia em BD da ilustradora Alice Prestes traz consigo o complemento perfeito para a história mais negra de sempre do veterano argumentista e editor Mário Freitas (A Polaroid em Branco, Há quem quem queira que a luz se apague), na sua terceira incursão na colecção Mário Breathes Comics.

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Ficha técnica
Vinil Rubro
Autores: Mário Freitas e Alice Prestes
Editora: Kingpin Books
Páginas: 16, a cores
Encadernação: Capa mole, com agrafos
Formato: 16,5 x 23,5 cm
PVP: 7,50€

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Mário Freitas e Derradé lançam o seu primeiro livro em conjunto!


Decerto que os mais atentos já tinham percebido que Mário Freitas e Derradé andavam a preparar um novo livro, tendo em conta alguns teasers que os autores portugueses foram fazendo - e bem - pelas redes sociais. 

E para os que têm ficado curiosos perante esta parceria inédita, posso dizer-vos que o livro se prepara para ser lançado na próxima semana!

A esse propósito, informo que o lançamento já tem data marcada para o próximo dia 23 de Setembro, às 16h00, na livraria Kingpin Books, em Lisboa.

Além disso, também já está traçado um plano de apresentações a que poderão assistir caso falhem o lançamento oficial:

• 30 de Setembro, Sábado, 17h, na Feira do Livro Independente de Arroios (Mercado de Arroios)

• 1 de Outubro, Domingo, 17h10, no Fórum Fantástico (Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, Telheiras)

• 3 de Outubro, 3ª feira, 20h, na Tertúlia BD de Lisboa (Restaurante Maracanã, Rua Pinheiro Chagas, 1)

Trata-se de um pequeno livro de 16 páginas, que se insere na chancela Mário Breathes Comics, que Mário Freitas lançou no ano passado, com a edição do livro A Polaroid em Branco.

De assinalar que, neste Há Quem Queira que a Luz se Apague, as cores ficam a cargo de Beatriz Duarte, a filha de Derradé.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Há Quem Queira que a Luz se Apague, de Mário Freitas e Derradé

Findo o humor, finda a empatia.

Dário e Álvaro são os últimos humoristas vivos, encarcerados num centro de detenção especialmente destinado à supressão dos desvios neurais normativos.

O semblante seráfico do Supremo Líder tudo contempla. E até a Lua brilha menos.


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Ficha técnica
Há Quem Queira que a Luz se Apague
Autores: Mário Freitas, Derradé e Beatriz Duarte
Editora: Kingpin Books
Páginas: 16, a cores
Encadernação: Capa mole, com agrafos
Formato: 16,5 x 23,5 cm
PVP: 6,50€

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Análise: A Polaroid em Branco

A Polaroid em Branco, de Mário Freitas - Kingpin Books

A Polaroid em Branco, de Mário Freitas - Kingpin Books
A Polaroid em Branco, de Mário Freitas

Em outubro de 2022 história foi feita quando Mário Freitas, um conhecido autor e editor de banda desenhada da nossa praça, lançou A Polaroid em Branco, a primeira obra portuguesa feita através – ou com – Inteligência Artificial. E este é um daqueles casos em que, a priori, e independentemente do quão bom ou mau o livro pudesse ser, já representava algo histórico para a banda desenhada nacional.

E também por todo o debate que a Inteligência Artificial tem gerado nos últimos meses, é difícil falar de A Polaroid em Branco, fugindo a esse tema. São muitas as vozes que defendem cegamente a utilização da IA, mas também são muitas as vozes que defendem que a utilização deste tipo de tecnologias é em tudo menos ética, especialmente tendo em conta que, aparentemente, estes softwares recolheram o estilo de ilustração de muitos autores e o sintetizaram virtualmente. E quando alguém pede à máquina, através de um prompt, para criar determinada imagem, a máquina está a “roubar” os estilos de outros autores que não são remunerados por tal. A apropriar-se da arte de outrem, vá. No outro lado da barricada, os defensores da IA contra-argumentam que mesmo quando é o homem o desenhador, este também está, de forma consciente ou não, a apropriar-se de estilos e técnicas já perpetrados no tempo por outros autores.

A Polaroid em Branco, de Mário Freitas - Kingpin Books
Sou-vos sincero: ao contrário de muita gente que é "totalmente contra" ou "totalmente a favor", eu não tenho, ainda, uma opinião muito formada sobre o tema. Como é algo novo, tenho estado atento a todos os argumentos e acho que percebo as diferentes fações. Simplesmente, e por agora, é-me difícil ser totalmente a favor ou totalmente contra neste assunto. Tendo em conta que sou alguém que não sabe desenhar, gosto de olhar para a IA como uma ferramenta que me permitirá desenhar ou, pelo menos, chegar ao desenho que eu quero. Bem o sei, e neste livro, Mário Freitas refere-o, não é a máquina que faz tudo. Depois é preciso tratar as imagens, alterando-as a bel gosto do autor. A máquina não faz, por isso, a papinha toda.

Não obstante, e porque sou alguém que respeita a criação do autor original, também não sei se não será uma apropriação não ética da criação de outros autores. Preocupa-me que o criador original de algo não seja remunerado – ou, no mínimo, creditado ou bonificado – pela sua criação visto que, sem ele, essa criação não existira. Mas, dito isto, entra em cena a fação “pró-IA” e diz: “ah, mas nenhuma criação é totalmente original. Somos sempre influenciados por toda a envolvente e é humanamente impossível, creditarmos todas as nossas influências”. Pois, como vêem, o assunto dá pano para mangas.

Eu acredito que, se usado como ferramenta e tentando acautelar a criação dos autores humanos da melhor forma possível (não me perguntem qual), a IA pode ser algo muito positivo. Já quanto àquele argumento do “ah… mas isto vai tirar trabalho aos desenhadores”, não concordo tanto. Quanto a mim, estas máquinas representam apenas mais uma forma de fazer algo. Admito que a IA possa até fazer com que mais argumentistas se aventurem a fazer um livro de BD (ou ilustrado) que, de outra forma, não conseguiriam. Todavia, continuará a ser necessário o trabalho humano. 

Na música, as mesas de loops de ritmo também iriam acabar com os bateristas, não era? Ou os ProTools e as suas enormes bibliotecas de instrumentos em MIDI também iriam acabar com os instrumentistas não era? Também se dizia que os condutores da UBER iriam acabar com os taxistas e continuo a ver táxis em todo o lado, certo? As coisas novas geram sempre algum medo, mas daí a dizermos que uma tecnologia, ainda por cima artística, vai exterminar com uma profissão já existente… vai uma longa distância. 

Até porque o facto de uma tecnologia assegurar que eu consigo ter desenhos para ilustrar as minhas histórias, não pressupõe que, depois, os leitores as apreciem. A palavra final, em termos comerciais, cabe sempre ao mercado. E se, por ventura, os leitores preferirem ilustrações feitas por humanos, então essas serão mais apreciadas e valorizadas, comercialmente falando. Aliás, e tal como já escrevi anteriormente, continuo a achar que a grande razão da polémica pela utilização de ilustrações geradas por IA é o facto de o resultado final ser verdadeiramente impressionante. Estou certo que se a qualidade do output da IA não fosse tão boa, não haveria qualquer polémica.

Portanto, e como julgo ter deixado claro, ainda me é difícil ter uma opinião fechada sobre o tema. Pelo menos, para já.

A Polaroid em Branco, de Mário Freitas - Kingpin Books
E focando-me mais em A Polaroid em Branco, há que dizer que Mário Freitas merece, em primeiro lugar, o meu louvor pela tentativa, pela coragem e pelo passo em frente que deu, ao atirar-se para fora de pé e proporcionar-nos esta primeira BD feita com o auxílio da Inteligência Artificial.

Este é um curto livro de 16 páginas em que o autor nos convida a uma divagação narrativa – chamemos-lhe assim - de teor onírico sobre a procura de uma identidade e a tentativa de rutura com aquilo que é suposto ser, só porque é o pré-estabelecido. Aquilo que os outros esperam de nós e aquilo que nós mesmos queremos ser. É um bom mote, diria.

A partir daí, o autor leva-nos para um mundo abstrato, onde o bigode e a posterior ausência e procura pelo mesmo simbolizam esta tal sede de autoconhecimento e de identidade. Ao longo da caminhada do protagonista, surge uma peculiar e algo sinistra Fada dos Bigodes que, narrativamente falando, funciona bem, ao permitir ao protagonista interessantes diálogos e a presença de um metatexto naquilo que nos é dado, não só pela personagem principal como, e especialmente, pela própria Fada dos Bigodes.

Em termos de argumento, e sabendo de antemão que foram as experiências visuais de Mário Freitas que o levaram a construir, posteriormente, uma história que ligasse todos os pontos, acho que este A Polaroid em Branco encerra em si um belo exercício criativo. Logicamente, isto também faz com que, de certo modo, a história possa parecer algo "amarrada" e que navega ao sabor da corrente visual.

Talvez por isso, a história deste A Polaroid em Branco acabe por ser, e como o próprio autor o admite, no início do livro, um certo devaneio narrativo. O texto é bom e bem tecido, e está carregado de mensagens subliminares e vários piscares de olhos. Alguns deles, como algumas frases que parecem autobiográficas ou a referência a Tintin, são mais facilmente percetíveis. No entanto, há depois um conjunto de afirmações ou referências que, certamente, por serem mais abstratas ou menos lineares, servirão muito mais como capricho criativo do próprio autor do que como reais complementos à história que nos é dada.

Visualmente, temos a presença de todo um universo imagético que achei deveras interessante. Fica clara a inteligência do autor em ter sabido fazer uma história que pudesse navegar ao bom sabor, algo do fantástico e do abstrato, que as imagens nos passavam. A história encaixa bem nas imagens e as imagens encaixam bem na história, por assim dizer.

A Polaroid em Branco, de Mário Freitas - Kingpin Books
Em termos de desenho, podemos então dizer que o resultado é muito interessante. Estranho, mas no bom sentido da palavra. Estranhamente interessante ou interessantemente estranho. Há vários casos em que os bigodes parecem tão reais e palpáveis, que parecem feitos a partir de colagens, remetendo-me, por exemplo, para alguns trabalhos de Dave Mckean. Também em termos de cor, onde predominam os amarelos e os laranjas, a obra assume um tom bastante surrealista. 

Posso dizer que o grande desafio de utilizar um software de Inteligência Artificial para gerar uma história em banda desenhada será, sem sombra de dúvidas, o alcance – ou não – de um fio condutor imagético, isto é, que de umas imagens para outras fiquemos com a noção de que estamos a ler uma história com princípio, meio e fim, e com uma sequência constante em termos visuais. Acho que, bem vistas as coisas, Mário Freitas consegue com este A Polaroid em Branco, superar essa dificuldade maior.

É verdade que há alguns casos onde a arte visual talvez mude de forma mais abrupta do que aquilo que seria recomendável. Contudo, e como o autor teve a inteligência de escolher uma história do universo onírico e surrealista, acaba por ser mais fácil de aceitar esta certa heterogeneidade gráfica. Estes desenhos não serviriam para contar uma história mais mundana, mais terra-a-terra. Mas servem bem para navegarmos por este universo abstrato.

A Polaroid em Branco, de Mário Freitas - Kingpin Books
Mas se Mário Freitas consegue nesta obra um bom equilíbrio entre argumento e ilustrações oníricas, devo dizer que foi na forma como a obra foi planificada - e, com isto, refiro-me ao desenho das páginas - que me senti mais defraudado. Especialmente porque sei que o autor muito valoriza este tipo de questões. 

Explico: são muitas as páginas onde - inexplicavelmente, diria - Mário Freitas opta por não colocar divisões ou margens entre vinhetas e creio que isso faz com que haja uma menor orgânica entre as mesmas, ficando a parecer que as ilustrações foram ali coladas sem grande preocupação. No par de páginas em que a Fada dos Bigodes se dá a conhecer, o autor colocou (e bem) margens brancas entre as vinhetas. E é nestas duas páginas que o arranjo de página melhor funciona. Infelizmente o autor não o volta a fazer. E aquilo que mais temos são largas margens pretas verticais, mas sem margens entre vinhetas. Ou quando há divisão entre vinhetas, aparece apenas um fino traço preto. Faz com que tudo pareça muito “all over the place”, claustrofóbico e desarrumado. 

Conhecendo o autor como conheço, e a sua (bendita) preocupação com o detalhe, custa-me a crer que este desenho das páginas não tenha sido bem pensado por Mário Freitas. Talvez tenha sido um experimento seu ou talvez tenha pretendido passar algo ao leitor, que eu não fui capaz de alcançar. Seja como for, é a minha principal “queixa” em relação ao livro.

A Polaroid em Branco, de Mário Freitas - Kingpin Books
Em termos de edição, o livro apresenta capa mole com agrafos e um bom papel couchê. Convém dizer também que este é o livro que inaugura uma nova chancela do autor, intitulada Mário Breathes Comics. Aparentemente, o autor terá outras ideias de histórias curtas de banda desenhada para lançar nos próximos tempos. Que venham elas.

Ainda sobre a edição, posso dizer que achei curiosa a não tão breve explicação que o autor dá sobre a forma como usou a Inteligência Artificial nesta obra. Tendo em conta o processo pioneiro para o mercado português, acho que foi uma boa explicação mesmo que, de certa forma, o autor me parecesse estar a justificar-se. Não creio que o autor o tivesse que fazer. É legítimo - e digno de respeito - o trabalho do autor neste livro.

Em suma, acredito que este A Polaroid em Branco vale mais pelo statement que traz consigo e por ser um livro que, aconteça o que acontecer, ficará na história da banda desenhada portuguesa como a primeira BD ilustrada com o auxílio da IA. Aparte esse grande feito, é bom que o autor Mário Freitas, que andava meio afastado da criação enquanto argumentista, volte ao lançamento de novas histórias. Devido ao seu carácter experimental, não será um livro perfeito. Mas, tal como tudo aquilo que é pioneiro, traz consigo essa mesma valência de ser o primeiro em algo o que, certamente, influenciará novas tentativas de outros autores no futuro. Que assim seja.


NOTA FINAL (1/10):
7.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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A Polaroid em Branco, de Mário Freitas - Kingpin Books

Ficha técnica
A Polaroid em Branco
Autor: Mário Freitas
Editora: Kingpin Books
Páginas: 16, a cores
Formato: 16,5 x 23,5 cms
Lançamento: Outubro de 2022

terça-feira, 4 de outubro de 2022

Vai ser lançada a primeira BD portuguesa feita com Inteligência Artificial!



Mário Freitas, autor, editor e dono de uma famosa loja de banda desenhada, a Kingpin, prepara-se para fazer história na banda desenhada portuguesa!

O autor acaba de anunciar que irá lançar, no final deste mês, a banda desenhada Polaroid em Branco. Trata-se de uma curta de banda desenhada, com 16 páginas, na qual o autor assegura o argumento e a ilustração da obra. Bem, na verdade, para a questão dos desenhos, Mário Freitas fez-se valer de um software de banda desenhada (Inteligência Artificial) que o ajudou a chegar às ilustrações pretendidas para a sua história!

E isto, meus caros, é um momento histórico na bd portuguesa. Eu próprio tenho vindo a acompanhar o tema destas "plataformas" (chamemos-lhes máquinas porque são isso que elas são) que desenvolvem os desenhos com base nas especificações que os humanos lhes dão, através dos chamados prompts. Isto é, eu peço à máquina que me desenhe, por exemplo, um rapaz com sardas a andar de bicicleta, por um caminho de terra lamacento, com moinhos ao fundo, na paisagem, e um céu cinzento, onde há corvos a esvoaçar... e, pasmem-se, é isso que a máquina vai desenhar. E não o faz de forma arcaica ou simplória mas sim, de forma muito bem desenvolvida. Como se o desenho parecesse ter sido desennhado pelo mais profissional e virtuoso ilustrador.
Sei também que já vários álbuns de banda desenhada foram lançados por esse mundo fora com base nestes softwares. São vários os softwares que estão a surgir mas diria que o Midjourney e o DALL-E me parecem ser os mais empolgantes. Porém, em Portugal ainda ninguém lançou um livro construído desta forma. Até este A Polaroid em Branco.

A questão destes softwares que desenham através de Inteligência Artificial tem levantado algumas "vozes contra", devido a ser um desenho que não é bem feito pelo homem. Bem, se querem que vos seja sincero, não acho que seja isso o que está no cerne da polémica. O que está a causar algum desconforto para muitos, é a qualidade anormalmente boa das ilustrações que estes softwares debitam. Tenho um amigo designer que já me disse: "Isto são boas e más notícias. Por um lado, é excelente que a inteligência artificial tenha evoluído de tal forma. Por outro lado, talvez eu venha a perder o meu emprego enquanto designer daqui a alguns anos." Ora, se o output destes softwares fosse "fraquinho", estas plataformas não criariam qualquer celeuma, estou certo.
Mas como os desenhos que estas máquinas desenvolvem são magistralmente bem desenvolvidos, claro que há desconforto e problema para muitos que os condenam.
 
Eu acho que, como tudo na vida, há várias vantagens e desvantagens. No entanto, e aproveito para fazer uma confissão aos que me lêem, eu mesmo já comecei a planear uma história de banda desenhada com o recurso a estas ferramentas e posso dizer-vos que não é tão fácil como pode parecer. Uma história de banda desenhada precisa de uma sequência visual - ou não fosse por isso denominada de "arte sequencial" - e boas sequências ainda são coisas complexa de conseguir fazer através da inteligência artificial. Mas não há impossíveis, claro está.

Bem, mas seja como for, e ainda sem ter visto o seu livro, queria aproveitar para fazer uma vénia ao Mário Freitas, pois considero que este seu lançamento é verdadeiramente pioneiro e histórico para a banda desenhada portuguesa. Mário merece os meus parabéns por estar sempre um passo à frente. E sempre ao serviço da banda desenhada.

Abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas páginas promocionais.


A Polaroid em Branco, de Mário Freitas

Uma decisão tomada a quente revela-se o inesperado gatilho para momentos de verdadeira angústia e incerteza. Será, porém, uma fada de modos bruscos e um peculiar bigode a chave para o enigma da Polaroid em Branco?

7 anos depois do premiado "Fósseis das Almas Belas", Mário Freitas regressa à escrita a solo, com a primeira BD portuguesa ilustrada com o auxílio de Inteligência Artificial. 

A Polaroid em Branco marca também a estreia do selo Mário Breathes Comics, da Kingpin Books, com histórias escritas em exclusivo pelo editor/autor.

Lançamento previsto para o Amadora BD 2022, no final de Outubro.

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Ficha técnica
A Polaroid em Branco
Autor: Mário Freitas
Editora: Kingpin Books
Páginas: 16, a cores
Formato: 16,5 x 23,5 cms