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quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Análise: Livro do Desassossego

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP
Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer

A editora Levoir surpreendeu os leitores portugueses quando, por alturas do mais recente Amadora BD, anunciou o lançamento duplo da adaptação para banda desenhada de O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. Especialmente, se tivermos em conta que a coleção dos Clássicos da Literatura Portuguesa em BD já havia chegado ao fim, após a publicação do anunciado 15º volume.

Mas a Levoir decidiu continuar a coleção que convoca os grandes clássicos da literatura portuguesa para uma adaptação em banda desenhada e fê-lo com mais uma adaptação da obra de Fernando Pessoa, desta feita com argumento de Pedro Vieira de Moura e desenhos, no primeiro volume, de Susa Monteiro e, no segundo, de Bernardo Majer.

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP
O Livro do Desassossego
é uma obra literária única, caracterizada pela sua estrutura fragmentária e introspectiva. Não se trata, portanto, de um romance tradicional com enredo linear, mas de uma coleção de pensamentos, reflexões e observações. A obra explora a vida interior do narrador, a sua percepção da cidade, do tempo, da existência e da arte, revelando sentimentos de melancolia, tédio, solidão e um constante questionamento sobre a realidade e a identidade. A escrita é muitas vezes poética, filosófica e profundamente subjetiva, refletindo a complexidade da mente humana e a inquietação existencial de Fernando Pessoa.

A obra não segue uma ordem cronológica e reúne fragmentos que foram escritos ao longo de muitos anos, publicados postumamente. Como tal, é uma das obras mais enigmáticas de Fernando Pessoa, e esta adaptação em banda desenhada propõe um mergulho visual que respeita essa complexidade. Não estamos perante uma narrativa convencional, mas sim diante de uma experiência sensorial que acompanha a pulsação introspectiva do texto. Pedro Vieira de Moura conseguiu transformar a fragmentação da escrita pessoana em algo coeso o suficiente para que o leitor possa navegar pelo labirinto de pensamentos sem se sentir perdido.

Mas não vos vou mentir: este é um livro difícil de ler. A fragmentação do original exige concentração, atenção aos detalhes e paciência. É normal que muitas vezes nos percamos ou que nos pareça que a obra navega em demasia na maionese. Não obstante, a beleza desta adaptação é que não tenta simplificar ou adulterar a obra; pelo contrário, oferece-nos ferramentas visuais para acompanhar a introspeção de Pessoa, mantendo a essência desconexa que caracteriza a escrita do autor. 

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP
O primeiro volume abarca textos escritos sob o heterónimo Vicente Guedes, entre 1913 e 1919. Aqui, o trabalho de Susa Monteiro brilha. O seu estilo contemplativo encaixa-se na perfeição com a natureza abstrata do texto original e a densidade filosófica dos fragmentos iniciais. Cada página transmite um ritmo meditativo, quase hipnótico - bem em linha com aquilo que a autora já nos havia oferecido em Mensagem - que permite ao leitor sentir a Lisboa da época através da lente da subjetividade pessoana. A composição das ilustrações cria um diálogo silencioso entre palavra e imagem que é muito gratificante.

O segundo volume, dedicado a Bernardo Soares e aos fragmentos escritos entre 1929 e 1935, introduz um contraste visual evidente com o primeiro livro. Bernardo Majer imprime cores mais soturnas e uma representação do ambiente lisboeta que é complexa, mas também mais acessível para o leitor contemporâneo. O equilíbrio entre abstração e referência realista é notável, levando o leitor a conseguir perceber a cidade, o movimento das ruas e a solidão do heterónimo sem perder a intensidade poética do texto.

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP
A divisão da obra entre dois ilustradores foi arriscada por haver o perigo de se perder alguma continuidade visual. No entanto, o próprio caráter desconexo da obra funciona como uma espécie de "cola" entre os dois estilos de ilustração. Susa Monteiro domina a parte mais introspectiva e etérea, enquanto Bernardo Majer traz densidade e textura urbana à fase mais tardia da obra, tornando a transição aceitável e até enriquecedora. A mistura de dois ilustradores acabou por, embora arriscada, funcionar bem.

O trabalho de ilustração de Susa Monteiro cumpre as expectativas que eu já tinha do seu estilo: contemplativo, poético e belo. Já Bernardo Majer surpreendeu-me de forma muito positiva. A forma como usa a cor, as sombras e o próprio desenho, transmite aquela sensação de inquietação e fragmentação interna do narrador. Confesso que, em termos de desenho, este pode ser o meu livro preferido do autor até agora. Gostei mesmo muito.

Em termos de edição, o trabalho da Levoir está em linha com os outros livros desta coleção. Cada livro tem capa dura baça, bom papel brilhante no miolo, e boa encadernação e impressão. No final de cada livro há um dossier de extras - maior no segundo volume - sobre a obra, o autor e o contexto social de ambos.

Em suma, estes dois livros constituem um acréscimo importante à coleção de Clássicos da Literatura Portuguesa em BD da Levoir. Mantêm a integridade da obra original, oferecem novas vias de interpretação e leitura, e combinam de modo eficiente o talento de dois belos estilos de ilustração diferentes. Quem se aventurar neste Livro do Desassossego encontrará não apenas uma obra literária, mas também uma experiência visual e sensorial única, tão complexa, abstrata e fascinante quanto a própria obra original de Fernando Pessoa.


NOTA FINAL (1/10):
8.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens dos álbuns. www.instagram.com/vinheta_2020


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Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP

Fichas técnicas
Livro do Desassossego I
Autores: Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro
Baseado na obra original de: Fernando Pessoa
Editora: Levoir
Páginas: 58, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Outubro de 2025

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP

Livro do Desassossego II
Autores: Pedro Vieira de Moura e Bernardo Majer
Baseado na obra original de: Fernando Pessoa
Editora: Levoir
Páginas: 58, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Outubro de 2025

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Análise: Sete Mulheres, Sete Musas

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro
Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Pedro Moura, Rita Mota e Susa Monteiro

Com um lançamento algo discreto que certamente passou fora do radar de muitos leitores, A Seita e a Comic Heart editaram em junho a antologia Sete Mulheres, Sete Musas - Lírica de Camões que consiste num projeto coletivo que reúne vários autores portugueses de banda desenhada em torno de um mesmo propósito: revisitar a obra e o imaginário de Luís de Camões a partir de uma perspetiva visual contemporânea. 

Trata-se, pois, de uma iniciativa que procura aproximar a poesia camoniana de novos públicos, nomeadamente leitores mais jovens, e que, só por isso, é mais que bem-vinda, diria. Até porque se ainda há dúvidas sobre esta questão, este é mais um livro que mostra bem como a banda desenhada pode servir como meio de tradução e recriação literária, tornando acessível - ou, pelo menos, mais acessível - um universo poético tantas vezes considerado denso e distante como o de Camões.

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro
Assim sendo, a importância deste projeto reside nessa capacidade de renovar o olhar sobre Luís de Camões, e da tentativa de retirar o poeta do pedestal escolar, colocando-o de novo no espaço da experimentação artística. Para tal, foram convidados sete ilustradores para desenhar uma história sobre cada uma das mulheres que marcaram presença na obra de Camões. As suas musas, portanto. Esses ilustradores são Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro que ilustraram as histórias a partir do argumento de Pedro Moura, autor experiente neste tipo de obras.

Como seria esperado, um dos aspetos mais cativantes do livro é a sua diversidade estética. Cada autor oferece uma leitura singular das musas de Camões, propondo interpretações visuais que vão do figurativo ao abstrato, do lírico ao experimental. Essa variedade torna a leitura uma experiência rica, por vezes desconcertante, mas sempre estimulante. A heterogeneidade dos estilos revela, lá está, o potencial da BD enquanto espaço de liberdade criativa e de diálogo com outras artes.

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro
Entre as histórias que melhor equilibram clareza e densidade poética, destacam-se, quanto a mim, as de Daniela Viçoso e Miguel Rocha. Ambos os autores conseguem transpor para a linguagem da banda desenhada a musicalidade e a intensidade emocional dos versos de Camões, mas sem tornar o texto pesado ou excessivamente hermético. Coisa que acontece, infelizmente, noutras histórias do livro. A abordagem de Daniela Viçoso, mais narrativa e de forte influência mangá, permite que o leitor acompanhe a história com facilidade, enquanto Miguel Rocha aposta numa síntese expressiva de texto e imagem que traduz bem o sentimento amoroso e a melancolia do poeta. Os desenhos de Jorge Marinho, de quem já aqui foi analisado Os Contos de Miguel Torga : Um Roubo | Natal, também são muito impactantes, remetendo-nos para o grande mestre Sergio Toppi. Susa Monteiro, fiel ao seu estilo muito peculiar, também nos brinda com belos desenhos.

Nem todas as histórias conseguem, porém, atingir o equilíbrio necessário. Há autores que optam por caminhos mais abstratos e conceptuais, onde a dimensão visual se sobrepõe à narrativa. Estas histórias, embora visualmente interessantes, podem tornar-se difíceis de acompanhar e exigem do leitor um esforço interpretativo maior. Ainda assim, não deixam de ter valor (obviamente!), pois oferecem um exercício estético desafiante que convida à contemplação e à análise formal.

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro
Essa pluralidade de leituras e de intenções é, afinal, um dos pontos fortes da obra. Sete Mulheres, Sete Musas não procura impor uma leitura única de Camões, mas abrir um campo de possibilidades. Em cada história, o poeta é reinventado, questionado, reinterpretado. A multiplicidade das vozes autorais reflete a própria complexidade da figura camoniana, mostrando-se simultaneamente erudita e popular, clássica e moderna, universal e profundamente portuguesa.

Do ponto de vista editorial, o livro revela um tom algo académico, tanto pela seriedade do tema como pelo esforço de auto-contextualização através dos (longos) textos introdutórios de Cátia Verguete e Alexandra Lourenço Dias. No final, há ainda um interessante texto de Janek Scholz sobre a "historicidade na banda desenhada em língua portuguesa". De resto, o livro apresenta capa mole baça, com badanas, e um bom papel brilhante no seu miolo.

Em suma, Sete Mulheres, Sete Musas tenta levar Camões a novos públicos através de imagens e narrativas visuais que, embora desiguais na sua eficácia, revelam uma grande ambição estética e um profundo respeito pela poesia do autor. Vale a pena ser lido. E ainda que possa não conquistar o grande público, este é um livro necessário no panorama cultural português. Mostra que a banda desenhada é um meio maduro, capaz de dialogar com os grandes nomes da literatura e de oferecer novas formas de leitura e interpretação. A presença de um elenco notável de autores nacionais reforça essa ideia, celebrando a vitalidade da BD portuguesa e a sua capacidade de reinvenção.


NOTA FINAL (1/10):
7.7


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro

Ficha técnica
Sete Mulheres, Sete Musas
Autores: Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Pedro Moura, Rita Mota e Susa Monteiro
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 168 x 244 mm
Lançamento: Junho de 2025

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Análise: Mensagem

Mensagem, de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro - Levoir - RTP

Mensagem, de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro - Levoir - RTP
Mensagem, de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro

Começo por dizer o óbvio: adaptar para banda desenhada Mensagem, de Fernando Pessoa, essa obra incontornável da literatura portuguesa, parece-me um verdadeiro cabo dos trabalhos. Uma demanda verdadeiramente hercúlea! Não só por ser um trabalho em poesia, com um texto complexo e rico, e com um tema histórico-contemplativo, mas também por ser uma obra carregada de insinuações, interpretações, misticismos e mensagens subliminares. E, ainda por cima, é uma obra onde o seu texto assenta, em termos de forma, numa estrutura bastante rígida. Digo-vos mais ainda: não sei se consigo pensar numa obra da literatura portuguesa mais difícil de adaptar para banda desenhada. Não me espanta por isso que, Silvia Reig, responsável da editora Levoir, que edita esta obra na sua coleção de Clássicos da Literatura Portuguesa em BD, tenha referido numa entrevista que deu à televisão (!) que houve um primeiro argumentista que acabou por desistir da ideia de adaptar para banda desenhada esta obra de Fernando Pessoa. Esse argumentista não fui eu… mas bem que podia ter sido!

Mensagem, de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro - Levoir - RTP
O trabalho acabou por ficar assente nos ombros de Pedro Vieira de Moura que, sabiamente, fez as escolhas certas na forma como abordou a emblemática obra de Fernando Pessoa. O trabalho de Vieira de Moura foi, por isso, bastante sóbrio e acertado, quanto a mim.

É claro que, como quase tudo o que Fernando Pessoa escreveu, há nesta - e em qualquer outra - adaptação de Mensagem uma verdadeira dose de interpretação, tal não é profundo e profícuo o universo ao qual o maior autor da literatura portuguesa de sempre nos convida a entrar nesta obra. Sim, eu sei: foram muitos os estudiosos e académicos que interpretaram e decifraram as analogias, figuras de estilo e mensagens subliminares contidas na própria Mensagem. No entanto – e nem tentem dizer-me o contrário! – os estudos que se fazem sobre esta obra são sempre meramente especulatórios e potencialmente redutores. Ainda assim, pode-se afirmar com propriedade que a obra reflete sobre a identidade nacional de Portugal, explorando temas como a história, a mitologia, a religião e a saudade. Tudo isto são elementos intrínsecos à cultura portuguesa e são-nos dados por Fernando Pessoa através de um rico e complexo relato poético.

Mensagem, de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro - Levoir - RTP
Pedro Vieira de Moura optou por deixar o texto como ele é, tentando respeitar também as três partes que dividem a obra: “Brasão”, “Mar Português” e “O Encoberto”. Para isso, o autor decidiu incluir no cimo das pranchas uma referência às partes concretas do poema a que as pranchas dizem respeito. Foi uma escolha acertada, pois não só serve como uma certa forma de mapeamento do próprio momento da obra em que estamos, como acaba por ter um cariz didático. Estou a imaginar um jovem que está a estudar a Mensagem na escola e, com esta banda desenhada, e graças às tais referências de que falo, consegue visualizar e, quiçá, perceber melhor as palavras do mestre Fernando Pessoa.

Pedro Vieira de Moura poderia ter interpretado, por palavras suas, o significado da Mensagem, mas optou, e bem, por se resguardar dessa empreitada, sendo fiel ao texto original da obra. Todavia, obviamente, em termos de ilustração visual, teve que haver uma interpretação mais direta das palavras. E, portanto, nessa vertente acaba por haver toda uma conjetura - também ela potencial alvo de subconjeturas. Para isso, coube, portanto, à ilustradora Susa Monteiro - em estreita colaboração com Pedro Vieira de Moura, imagino – o desenho de tais momentos.

E que belas ilustrações Susa Monteiro nos oferece neste Mensagem! Digo até mais, Susa Monteiro foi o casting perfeito para este livro. Até porque o estilo de ilustração da autora, podendo não ser o mais ajustado para outros tipos de banda desenhada, encaixa que nem uma luva numa adaptação deste gabarito.

Mensagem, de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro - Levoir - RTP
Com efeito, quem conhece o estilo de desenho da autora, verá facilmente o quão fiel a ele mesmo a autora se revela neste livro. O traço é simples – mas não tão simples como, à primeira vista, pode parecer - de cariz naïf, envergando o estilo perfeito para que mergulhemos nesses tempos idos, relembrados e reinterpretados por Fernando Pessoa. Mesmo em termos de planificação, a autora utiliza várias opções narrativas de algum arrojo, que se encaixam muito bem no espírito da obra: seja a utilização de uma espada para separar quatro vinhetas, a opção por ilustrações de página dupla ou a utilização de vinhetas de todas as dimensões, em que as de maior tamanho surpreendem pela beleza.

É verdade que, a certa medida, são ilustrações que se apresentam algo estáticas quando se pretende passar qualquer ideia de movimento, mas, lá está, tendo em conta a natureza contemplativa e interpretativa de um texto já de si contemplativo de um passado lusitano de glória, acaba por funcionar muito bem.

Em todas as páginas encontramos uma beleza simples e, portanto, carregada de Portugalidade nos desenhos de Susa Monteiro. As próprias guardas do livro, sendo lineares, transmitem beleza e um saboroso aperitivo para o que aí vem. E tenho que dizer que algumas das partes mais conhecidas deste extenso poema de Fernando Pessoa, como por exemplo, a do “Oh Mar Salgado…” estão representadas de forma exímia por Susa Monteiro.

Mensagem, de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro - Levoir - RTP
Quanto à edição da Levoir, temos um livro em capa dura baça, com bom papel no miolo e boa impressão e boa encadernação. No final, e tal como já acontecera na anterior coleção Clássicos da Literatura em BD, temos um muito bem traçado dossier informativo, onde são dadas informações sobre a obra, sobre o autor e sobre o contexto histórico em que o mesmo viveu. E isto, naturalmente, engrandece a qualidade da proposta editorial.

A coleção é parecida à anterior dos Clássicos da Literatura em BD, mas apresenta algumas diferenças. Em termos visuais, as capas são agora coloridas. Parece-me uma boa opção, que as torna apelativas e menos frias. O lettering dos títulos continua a ocupar a grande mancha da capa. Ainda que admita que o aspeto é apelativo e, especialmente, original, não posso deixar de apontar que, na parte inferior da capa, a informação referente ao nome da coleção, ao nome dos autores e à utilização dos logótipos da Levoir e da RTP está muito mal arrumada em termos de grafismo. Diria que funcionaria muito, mas mesmo muito melhor, se tivesse sido utilizado um belo friso horizontal que tivesse toda esta informação de uma forma com um mínimo de aprumo na arrumação dos elementos gráficos. Mesmo assim, destaca-se a boa opção de dar destaque, na capa, aos autores responsáveis pela adaptação.

Mensagem, de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro - Levoir - RTP
E, pondo os detalhes sobre o grafismo da edição em segundo plano, importa dizer que esta coleção é uma grande aposta por parte da Levoir! E que aplaudo veementemente! Não só por se centrar na cultura portuguesa, como por ser feita (adaptada) por autores maioritariamente portugueses. A escolha de obras parece-me interessante, com nomes incontornáveis como Fernando Pessoa, Luís de Camões, Gil Vicente, Almeida Garret, Fernão Mendes Pinto, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco ou Alexandre Herculano mas, ainda assim, pergunto-me se, em vez da aposta em algumas obras que, não obstante o seu valor literário inquestionável, têm menos appeal comercial, não teria sido interessante a introdução de obras de autores mais contemporâneos - embora igualmente clássicos - como José Saramago, Aquilino Ribeiro, Vergílio Ferreira, António Lobo Antunes, José Cardoso Pires, Sophia de Mello Breyner Andresen, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Miguel Torga ou Agustina Bessa-Luís, por exemplo. Espanta-me especialmente que não exista uma adaptação de um dos romances do único Prémio Nobel da literatura portuguesa quando se lança uma coleção que procura adaptar os Clássicos da Literatura Portuguesa. Mas, talvez me esteja a adiantar nesta minha análise e talvez estes nomes que elenco já estejam pensados para uma potencial segunda coleção. Atenção: isto é meramente uma especulação da minha parte. Mas leram-na aqui em primeiro lugar.

Em suma, Mensagem abre bem a coleção de Clássicos da Literatura Portuguesa em BD. Sendo uma obra de inquestionável dificuldade de adaptação para banda desenhada – ou para qualquer outro meio – devo dizer que o trabalho conjunto de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro me convenceu. Tal como, aliás, me convence esta coleção e toda a pertinência que a mesma tem para Portugal, dando uma achega na interpretação dos clássicos e permitindo, quiçá, a introdução à banda desenhada por parte de uma larga franja de leitores que, de outra forma, poderia não cruzar caminhos com a 9ª arte.


NOTA FINAL (1/10):
8.4



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Mensagem, de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro - Levoir - RTP

Ficha técnica
Mensagem
Autores: Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro
Adaptação a partir da obra original de: Fernando Pessoa
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Janeiro de 2024

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Levoir lança clássicos da literatura portuguesa em BD!


A Levoir prepara-se para lançar, já a partir do próximo dia 23 de Janeiro, uma das suas grandes apostas para este ano de 2024!

Falo de uma coleção de adaptações para banda desenhada de Clássicos da Literatura mas, ao contrário das anteriores duas coleções, que se baseavam em adaptações da literatura internacional, e que já haviam sido publicadas pela editora francesa Glénat, - excetuando as três obras de origem portuguesa Os Maias, Amor de Perdição e Auto da Barca do Inferno - esta nova coleção é feita de raiz para o mercado português, adaptando apenas obras da literatura portuguesa e tendo autores nacionais envolvidos nessas mesmas adaptações. 

E há, portanto, uma diferença gritante entre as duas coleções anteriores e esta. E convém que isto seja sabido e compreendido por todos.
É uma iniciativa que considero verdadeiramente relevante para a banda desenhada nacional, portanto, dou os meus parabéns à editora por esta aposta. Se tivermos em conta que a Levoir - tirando algumas raras exceções - não tem apostado muito na edição de banda desenhada oriunda de Portugal, a iniciativa pode ser considerada ainda como mais marcante!

O primeiro dos volumes é a adaptação para banda desenhada da Mensagem, de Fernando Pessoa, por parte dos autores Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro, e deverá chegar às livrarias no próximo dia 23 de Janeiro.

Esta é uma coleção que a Levoir edita em parceria com a RTP.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora, em que apresenta a coleção e, mais concretamente, o primeiro livro da mesma.

Coleção Clássicos da Literatura Portuguesa em BD

Os Clássicos da Literatura em BD estão de regresso!

A Levoir e a RTP editam a partir de 23 de janeiro uma coleção inédita, sobre os Clássicos da Literatura Portuguesa em BD.

Criada de raiz, tem na sua maioria argumentistas, ilustradores e responsáveis pelo dossier pedagógico portugueses, a coleção é composta por 15 volumes, dois deles serão em 2 volumes: Peregrinação e Os Lusíadas.





Lista de Obras

1. Mensagem - Fernando Pessoa

2. Farsa de Inês Pereira - Gil Vicente

3. Sermão de Santo Antonio aos peixes - Padre António Vieira

4. Carta a el-Rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil - Pero Vaz de Caminha

5. O Fato novo do Sultão - Guerra Junqueiro

6. Frei Luís de Sousa - Almeida Garrett

7. O Crime do Padre Amaro - Eça de Queirós

8. Crónica de D. João I - Fernão Lopes

9. Peregrinação I - Fernão Mendes Pinto

10. Peregrinação II - Fernão Mendes Pinto

11. A Dama do Pé-de-Cabra - Alexandre Herculano

12. Menina e Moça - Bernardim Ribeiro

13. Maria Moisés - Camilo Castelo Branco

14. Os Lusíadas I - Luís Vaz de Camões

15. Os Lusíadas II - Luís Vaz de Camões



No ano em que se celebra 90 anos da primeira edição, abrimos a coleção com Mensagem, um dos livros de poemas mais emblemáticos do multifacetado escritor português Fernando Pessoa.

Publicado apenas um ano antes da morte do autor,  a obra trata do glorioso passado de Portugal de forma apologética e tenta encontrar um sentido para a antiga grandeza e a decadência existente na época em que o livro foi escrito. Glorifica acima de tudo o estilo camoniano e o valor simbólico dos heróis do passado, como os Descobrimentos portugueses.

Originalmente intitulada Portugal, a obra publicada em 1934 continua tão atual hoje como quando foi publicada.

Contém 44 poemas agrupados em 3 partes, representando as três etapas do Império Português: Nascimento, Realização e Morte, seguida de um renascimento.

A obra é adaptada por Pedro Vieira de Moura, especialista em Banda Desenhada e professor universitário, e tem belas ilustrações de Susa Monteiro, sendo o dossier pedagógico da autoria do especialista em Fernando Pessoa, Ricardo Belo de Morais da Casa Fernando Pessoa. 

O Pedro e a Susa oferecem uma releitura da Mensagem, uma outra forma de ver e de revisitar a obra de Pessoa, e é nos seus mais pequenos detalhes que poderão apreciar subtis novas visões do poema.


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Ficha técnica
A Mensagem
Autores: Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro
Adaptação a partir da obra original de: Fernando Pessoa
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
PVP: 15,90€