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quinta-feira, 6 de junho de 2024

Comparativo: O Vento nos Salgueiros pela Arte de Autor e pela Witloof

 

A editora Arte de Autor lançou há poucas semanas a obra integral de Michel Plessix que adapta para banda desenhada O Vento nos Salgueiros, esse clássico da literatura de Kenneth Grahame.

Em primeiro lugar, deixem-me começar por dizer que fiquei extremamente feliz com este lançamento. É uma história muito bonita, que deve ser lida por crianças e por adultos e que é ilustrada de forma sublime por Michel Plessix. Este é um daqueles álbuns que, quanto a mim, deve constar numa boa biblioteca de banda desenhada. Absolutamente imprescindível!

Convido-vos até a lerem a análise que fiz a esta obra aqui no Vinheta 2020, em 2021.

E deixo no ar o meu desejo de que a Arte de Autor venha a publicar a obra O Vento nas Areias em que Plessix continuou a desenvolver as personagens de O Vento nos Salgueiros mas, desta feita, com argumento seu, já que a obra original de Kenneth Grahame fica fechada neste volume integral que a Arte de Autor caba de publicar.

Mas bem, este artigo procura ser um comparativo, portanto, avancemos para ele.

O Vento nos Salgueiros já havia sido integralmente publicado em Portugal, em quatro volumes, pela agora extinta editora Witloof.

No entanto, essa edição tem mais de 20 anos e, lamentavelmente, com a passagem do tempo, foi sendo cada vez mais difícil de encontrar à venda. Dou-vos até o meu exemplo pessoal: tendo em conta que o primeiro volume publicado pela Witloof teve, na altura, uma tiragem mais pequena do que as dos outros volumes, esse primeiro tomo foi um daqueles livros que se tornou virtualmente impossível de encontrar. Como o meu amigo Nuno Neves, do blog Notas Bedéfilas, diz, foi um livro que se tornou "um unicórnio". Toda a gente sabia que existia, mas eram poucos aqueles que realmente o tinham. Como tal, vi-me forçado a ter que comprar o primeiro tomo na sua edição americana da editora NBM.

Ora, tudo isto serve para dizer taxativamente que era necessário que alguma editora voltasse a tornar disponível uma obra como esta. Já defendi várias vezes que certas obras merecem estar sempre disponíveis em loja. Este O Vento nos Salgueiros é uma dessas obras.

Portanto, como primeiro ponto, acho que só a aposta da Arte de Autor edição nesta obra já merece os meus louvores.

Mas esta não é meramente uma republicação, pois há coisas que a diferenciam da edição da Witloof.

Para já, é uma edição integral que reúne num único só volume os quatro tomos que compõem a edição original. E quer isto dizer que se torna num volume mais compacto, de mais fácil arrumação e que é mais fácil ler. 

Avançando no comparativo, e começando pela capa, a edição da Arte de Autor apresenta capa dura baça, com textura aveludada e detalhes a verniz. Acaba por ter um acabamento mais nobre do que a edição da Witloof que, mesmo sendo boa, com capa dura a verniz, era menos diferenciada.

O aspeto visual da capa, no que ao grafismo diz respeito, também é diferente da edição original. E tenho sentido, por essas redes sociais, que isto tem suscitado algumas críticas à edição da Arte de Autor. 

Bem, começo por dizer que mesmo achando que a capa da edição da Arte de Autor poderia ser melhor, a verdade é que certas críticas que lhe têm sido apontadas, também me parecem demasiado duras. Nomeadamente, a ideia de que a capa deveria ser igual à do primeiro tomo da série. Ora, se assim fosse, isso não faria tanto sentido, pois era necessário diferenciar e dizer, a priori, ao mercado que esta é uma edição integral. Claro que se poderia colocar a inscrição de "Edição Integral" na ilustração do primeiro tomo - como também acabou por ser feito numa das edições integrais francesas, mas quanto a mim, isso não diferenciaria convenientemente esta edição. 

Não obstante, também é verdade que até já existia uma edição francesa integral cuja capa a Arte de Autor acabou por não reproduzir. A este propósito, a editora Vanda Rodrigues informou, no Maia BD, que considerou que a capa, tendo tons acastanhados, era algo sorumbática e pouco em linha com a leveza que se pretende de um livro infantil. Concordo com a Vanda, mas em parte.

Concedo que o tom azul para o fundo funciona melhor do que o castanho. E até aceito que o efeito a verniz das folhas dos salgueiros é um complemento bonito. Apenas acho que a ilustração completa do primeiro tomo inserido no canto inferior direito desta capa não fica tão apelativa como uma faixa de uma ilustração que, ainda por cima, e bem, é diferente da ilustração da capa do primeiro tomo, como acontece com a edição francesa integral em capa castanha, que vos mostro aqui ao lado. Portanto, a meu ver, perfeito seria uma capa igual a esta capa da edição francesa integral, com a única exceção da cor do fundo (poder) ser em tons de azul, em vez de tons acastanhados.

Mas, enfim, também me parece que se está a dar demasiada importância a um tema menor. Parece-me que a capa desta edição da Arte de Autor não é tão má como tenho lido por aí. Remete para aqueles livros de contos infantis e, nesse ponto, e tendo em conta o cariz narrativo de O Vento nos Salgueiros, até acaba por fazer sentido. E, não esqueçamos, se a editora detentora dos direitos da obra, validou esta capa, não pode estar assim tão má.



Se a capa poderá não agradar a alguns, penso que na contracapa não deverá haver qualquer tipo de críticas, uma vez que a edição da Arte de Autor é muito semelhante à da Witloof. A font para o texto da sinopse é a mesma e o aspeto, com uma pequena ilustração emoldurada de uma personagem, é igual.




Em termos de lombada, a edição da Arte de Autor também consegue melhorar a experiência, com um aspeto mais bonito.

Além de que, e isto é uma razão suficientemente relevante para aqueles que, como eu, são colecionadores e já têm muita banda desenhada, é incrível como a nova edição da Arte de Autor permite poupar espaço na estante, não abdicando, claro está, da integridade da obra. Basta olhar para a diferença de um livro face a quatro, quando colocados lado a lado. Esta nova edição acaba por ocupar cerca de metade do que ocupam os quatro livros.




Uma coisa que também importa referir é que o formato da obra foi alterado. A edição da Arte de Autor é ligeiramente mais larga, mas menos comprida. 

Se isso pode ser (mais) uma questão de gosto, uma coisa é mais concreta: é que a edição da Arte de Autor aproveita melhor a área de impressão, tendo margens um pouco mais curtas, o que possibilita que, na prática, cada uma das suas vinhetas/pranchas seja maior em dimensão do que na edição da Witloof. O que faz com que seja um ponto da edição da Arte de Autor.




Em termos de papel e de impressão, não considero que existam grandes diferenças entre as duas edições. A edição da Arte de Autor apresenta, como é hábito, um papel ligeiramente brilhante de excelente qualidade, bem como uma boa impressão, mas não é menos verdade de que a edição da Witloof também já era boa ao nível destes dois cômputos.




font utilizada nos balões é diferente entre ambas as edições, sendo que, mesmo assim, são bastante semelhantes, pelo que não posso dizer que prefira uma em detrimento da outra. Ambas funcionam muito bem.




Quando se abre o livro, as guardas também são um pouco diferentes. Na edição da Arte de Autor há duas guardas com o desenho dos salgueiros, enquanto que os livros publicados pela Witloof aproveitavam a guarda para aí inserir o título do livro. 

O livro da Arte de Autor é acaba, portanto, por ser mais elegante assim que o abrimos.


Resumindo e concluindo, acima de tudo este lançamento de O Vento nos Salgueiros pela Arte de Autor tem dois atributos principais que, quanto a mim, fazem muito sentido:

1) Em primeiro lugar volta a estar disponíve para o mercado nacional uma obra de banda desenhada de qualidade superior que deve ser lida por crianças e adultos e que, infelizmente, encontrava-se extina das livrarias portuguesas;

2) Em segundo lugar, ao ser de uma edição integral, este livro congrega "mais por menos", diminuindo o espaço que a obra ocupa na prateleira e dando-nos um livro com ótimos acabamentos.

E isto, claro, já para não falar que acaba por ser uma edição bastante económica. O seu PVP é de 29.95€ mas, lá está, se o dividirmos pelos quatro tomos que aqui estão contidos, teremos cada um deles a custar cerca de 7,5€. Ora, sabemos como seria impossível que cada um dos tomos, se lançado de forma independente, fosse publicado a esse preço. É, portanto, de aproveitar.

terça-feira, 30 de maio de 2023

Comparativo: Sambre pela Arte de Autor, pela Baleia Azul e pela Witloof


Creio que os seguidores do Vinheta 2020 já saberão bem o quão feliz fiquei quando a Arte de Autor anunciou que ia lançar a série Sambre, de Yslaire. É uma das minhas séries favoritas de banda desenhada e tinha muita pena que a mesma permanecesse parcamente editada em português.

Como costumo fazer quando há reedições, hoje trago-vos um comparativo entre a edição da Arte de autor e as edições da Baleia Azul e da Witloof. A Baleia Azul apenas editou o primeiro tomo da série. A Witloof publicou os volumes 2, 3 e 4.

Portanto, é motivo ideal para colocar as 3 edições em cima da mesa e compará-las entre si.

Em primeiro lugar, em termos de edição, convém relembrar que a Arte de Autor optou por lançar a série em álbuns duplos. Coisa que não tinha sido feita pelas outras editoras.

A edição da Baleia Azul é a mais diferente. Não só porque é a única lançada em capa mole mas, também, porque a própria conceção visual da capa e contracapa, naqueles tons escarlate que são emblemáticos para a série, também não existe. Parece, portanto, um livro mais "normal" e menos diferenciado. 

A edição da Arte de Autor acaba por ser bastante semelhante à edição da Witloof. São poucas as diferenças que se encontram entre ambas as capas. A edição da Arte de Autor tem uns vermelhos mais vivos e a capa tem uma textura aveludada - comum nos lançamentos da Arte de Autor - mais agradável ao toque. Mas, tirando isso, ambos os livros são muito similares.




Tendo em conta que a edição da Arte de Autor é em capa dura e que se trata de um álbum duplo, não é de admirar que o livro seja muito mais grosso dos que os outros, especialmente do que a edição da Baleia Azul.




Olhando para as contracapas, todas elas são bonitas mas tenho que dizer que a contracapa da Arte de Autor acaba por ser a mais bela. A editora optou por usar as duas ilustrações das capas do tomo 1 e do tomo 2. A capa do tomo 2 foi usada como capa deste volume e a capa do tomo 1 foi usada como contracapa. 

Devo dizer que, apesar disso, também gostava bastante da contracapa da edição da Witloof que tinha as capas dos cinco volumes do início da série (o 5º acabaria por nunca ser editado pela editora), com um pormenor delicioso: o volume em questão recebia um tratamento a verniz para o diferenciar dos demais.




Olhando para o interior da obra, quando comparamos a edição da Baleia Azul com a edição da Arte de Autor, há uma grande diferença ao nível do tratamento das cores. É que a impressão da Baleia Azul apresentava cores demasiado esbranquiçadas que tiravam algo do ambiente escuro e misterioso da série, como pode ser visto na imagem acima.
 



A questão das cores foi resolvida com a redição da Witloof, diga-se, que acaba por ficar bastante equiparada à edição da Arte de Autor, como pode ser visto acima. Nalguns casos parece-me que as cores da Witloof talvez sejam ligeiramente escuras em demasia. Mas a diferença é diminuta, admito.

Olhando para o todo, a edição da Arte de Autor parece-me melhor do que todas as restantes embora a edição da Witloof apresente uma qualidade bastante boa, também.




A única coisa onde não me parece que a edição da Arte de Autor tenha sido tão feliz, é na escolha das fonts para o texto manuscrito que aparece em algumas cartas. Mesmo assim, também aceito que esta seja uma opção mais estética porque, convenhamos, ambos os tipos de letra têm boa leitura.




Nota ainda, positiva, para a inclusão de uma belíssima ilustração na edição da Arte de Autor. A capacidade ilustrativa do autor Yslaire é verdadeiramente impressionante.



Por fim, a edição da Arte de Autor também inclui uma árvore genealógica das várias personagens e gerações que fazem parte da família Sambre. Um bom pormenor. Não sei se isto é, ou não, um compromisso da Arte de Autor para os leitores de que, além do arco principal da série, a editora ponderá publicar, no futuro, o restante arco de A Guerra dos Sambre que, embora sob a batuta de Yslaire, é desenhada por outros autores e que inclui 3 ciclos de 3 livros. 

Da minha parte, posso dizer que adoraria que isso acontecesse. Mas também considero que talvez ainda seja muito cedo para pensar, sequer, nessa hipótese. Para que isso pudesse, eventualmente, acontecer, acho que a série principal teria que vender muito bem. Fica o desejo, por agora.

Em suma, sendo verdade que a edição que a extinta editora Witloof fez de Sambre era muito boa, a Arte de Autor volta a não desiludir e apresenta-nos uma bela edição para uma obra absolutamente obrigatória. Já não há razões plausíveis para não se apostar nesta obra prima da banda desenhada europeia!

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Análise: O Vento nos Salgueiros

O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM

O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM

O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix

O Vento nos Salgueiros é um clássico da literatura infantil, com mais de 100 anos de existência, que foi originalmente escrito por Kenneth Grahame. Desde a sua publicação, a obra tem sido aclamada por muitos e já teve adaptações ao teatro, ao cinema, aos desenhos animados, a livros ilustrados e, também, à banda desenhada. Quanto à 9ª arte, a adaptação ficou a cargo do autor francês Michel Plessix.

Os primeiros 4 tomos, que compõem o primeiro ciclo da série, foram publicados em Portugal pela extinta editora Witloof. E, hoje em dia, o primeiro tomo, O Bosque Selvagem, é virtualmente impossível de encontrar à venda por cá. Encontra-se completamente esgotado! Mesmo os outros três volumes, 2) Automóvel, Sapo, Texugo; 3) A Bela Evasão e 4) Confusão na Mansão também não são nada fáceis de encontrar embora, com jeitinho, ainda se vão vendo em feiras dos livros, sites de compra e venda de BD em segunda mão e alfarrabistas. No meu caso, sempre me faltou o primeiro livro. E tive que o encomendar em inglês, numa edição da editora americana NBM (Nantier Beall Minoustchine) à livraria BD Mania que, por sorte a minha, ainda tinha, algures perdido no seu armazém, um único(!) exemplar. Em parte, também foi por esta minha procura que arrisquei formar o grupo do facebook “PROCURA-SE BD PERDIDA” para que os leitores portugueses de BD possam colocar anúncios relativos às bandas desenhadas que procuram.
O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM

Julgo que a história de O Vento nos Salgueiros é sobejamente conhecida por todos mas faço aqui uma pequena síntese. Este clássico conta-nos as aventuras de quatro personagens antropomórficos, o Toupeira, o Rato, o Sapo e o Texugo, numa Inglaterra de cariz bucólico, e apresenta-nos a importância de certos valores universais como a amizade, a camaradagem e a humildade.

A história começa quando o Toupeira, farto de fazer limpezas em casa, decide sair de casa e ir passear, acabando por travar conhecimento com o Rato. Este leva o Toupeira num passeio de barco e rapidamente surge uma amizade entre ambos. Mais tarde estes personagens encontram-se com o Sapo que é, na minha opinião, o grande protagonista deste O Vento nos Salgueiros, pois é a personagem mais errónea, mais egoísta e, consequentemente, mais divertida e carismática da obra. Um autêntico George Constanza da série Seinfeld. Este Sapo é arrogante, acha-se o maior e não olha a meios para alcançar o que quer. É por isso que, apaixonado por automóveis, acaba por roubar um. O que fará com que seja preso. Depois disso, acompahamos a sua fuga da prisão e o seu reencontro com os amigos Toupeira, Rato e Texugo. Nesta altura, o enorme palácio do Sapo foi ocupado por outros animais e caberá aos quatro amigos reconquistarem a sumptuosa residência do anfíbio.

A história é simples e infantil embora seja pertinente realçar que é muito bem conseguida, ao trazer consigo uma mensagem assente na importância da amizade, ao mesmo tempo que, através da personagem do Sapo, tenta demonstrar como a humildade e o altruísmo devem estar presentes nas nossas vidas.

O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM
Relativamente ao trabalho de Plessix, posso dizer que o mesmo é exímio. Por um lado, na adaptação para BD da obra original, que conheço bem, realço que o autor fez um excelente trabalho. A narrativa aparece dividida por 12 capítulos (3 capítulos por livro) e estão aqui contidos os principais eventos que sucedem no romance original, havendo uma clara fidelidade à obra de Kenneth Grahame.

Por outro lado, e em relação aos desenhos do autor, posso dizer que os mesmos são absolutamente maravilhosos. A forma como Plessix dá imagem às palavras de Grahame é fantástica, com o autor a captar maravilhosamente bem o tal ambiente bucólico que esta obra pedia, enquanto que nos consegue oferecer personagens adoráveis e marcantes, com um estilo de ilustração algo clássico, que já não é muito frequente de encontrar em banda desenhada.

De facto, a sensação que tenho, quando pego nestes livros, é que estou a ler uma obra de banda desenhada “do antigamente”. O primeiro tomo foi originalmente publicado em 1996 e, portanto, já tem alguns anos, reconheço. Mas a verdade é que me parece bem mais antigo do que isso. Com muitas décadas de existência. E digo isto no melhor dos sentidos, pois é revelador de que Plessix soube imprimir às suas ilustrações este cunho clássico no estilo e na forma.

Asssim, os ambientes campestres e citadinos são fantásticos, as expressões das personagens são inequívocas e vibrantes. E o detalhe que o autor coloca em alguns dos cenários é verdadeiramente impressionante.

O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM
Outra coisa que merece enormes louvores é a enorme quantidade de referências que algumas das ilustrações trazem consigo, aludindo, de uma forma mais ou menos direta, a outras obras de arte de vários artistas que influenciaram Plessix. O mais famoso destes easter eggs será a ilustração em que Plessix se baseia claramente na mulher nua da obra L'origine du Monde, de Gustave Coubert. Mas outros exemplos podem ser encontrados ao longo deste O Vento nos Salgueiros, tais como Train dans la Campagne, de Monet, ou La Méridienne, da autoria de Jean Millet, que merecem vinhetas de Plessix que são perfeitos piscares de olhos às obras originais. 

Muita gente pode considerar estas inclusões por parte de Plessix como meras homenagens às obras e aos artistas que o mesmo aprecia. Mas eu considero um pouco mais do que isso: julgo que acabam por dotar a própria obra de O Vento nos Salgueiros de uma interpretação mais profunda e mais complexa. Por conseguinte, e se, de facto, esta é uma banda desenhada altamente recomendável para crianças, também é verdade que os adultos obterão nela uma leitura madura e extremamente interessante.

O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM

Ainda no cômputo da arte ilustrativa, convém dizer que, em termos de planificação, o trabalho do autor também é deveras interessante, oferecendo-nos uma planificação dinâmica e original nessa vertente, com a inclusão de vinhetas de todos os tamanhos e feitios, o que atribui uma variedade cinematográfica à planificação que, ora nos oferece grandes planos, ora nos brinda com planos de pormenor, demonstrando-nos que as pranchas de Plessix não são apenas a soma de várias vinhetas, mas que trazem uma identidade e um valor estético muito próprios.

Em termos de edição, posso dizer que a Witloof fez um bom trabalho com estes livros. Capa dura e bom papel caracterizam estas edições. Comparando-os até com o meu Tomo 1, da editora americana NBM, têm uma legendagem muito mais bem conseguida - e legível – do que a versão americana da obra. Embora a versão americana tenha capa em tecido, o que também é sempre algo que aprecio e que acrescenta dignidade ao objeto-livro.

Em conclusão, esta é uma história adorável que recomendo para as crianças e para os jovens. E, claro, para os adultos que queiram relembrar este conto universal, enquanto apreciam uma arte de qualidade superior, por parte de Michel Plessix. Embora já tenha sido lançada em Portugal, esta adaptação de O Vento nos Salgueiros é um obra que, infelizmente, já não é possível de encontrar por cá e que, a meu ver, seria interessante de relançar. Se possível numa edição integral visto que, como cada um dos livros tem apenas 32 páginas, o integral ficaria só com 128 páginas. O que não me parece muito excêntrico, em termos de edição. Gostaria também que, eventualmente, o segundo ciclo da série, publicado entre 2005 e 2013, e constituído por 5 tomos, pudesse ser igualmente publicado em Portugal. Talvez um dia.


NOTA FINAL (1/10):
8.9


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM

Fichas técnicas
The Wind in The Willows – Volume 1 – The Wild Wood
Autor: Michel Plessix
Editora: NBM
Páginas: 32, a cores
Encadernação: Capa dura em tecido
Lançamento: Dezembro de 1997

O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM

O Vento nos Salgueiros – Tomo 2 – Automóvel, Sapo, Texugo
Autor: Michel Plessix
Editora: Witloof
Páginas: 32, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Maio de 2002

O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM

O Vento nos Salgueiros – Tomo 3 – A Bela Evasão
Autor: Michel Plessix
Editora: Witloof
Páginas: 32, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Agosto de 2002

O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM

O Vento nos Salgueiros – Tomo 4 – Confusão na Mansão
Autor: Michel Plessix
Editora: Witloof
Páginas: 32, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Agosto de 2002

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Séries de BD de culto que ficaram esquecidas pelas editoras portuguesas

séries de bd de culto que ficaram esquecidas pelas editoras portuguesas


Séries de BD de culto que ficaram esquecidas pelas editoras portuguesas
Com aquilo a que eu chamo "advento da BD em Portugal" a acontecer, sensivelmente, de há 5 anos para cá, começa agora a ser dada, gradualmente, uma maior aposta na banda desenhada "franco-belga" ou, como me parece mais justo dizer: "banda desenhada europeia".

É óbvio que a continuação na aposta deste tipo de livros, só manter-se-á, por parte das editoras, se os livros venderem bem. Isto parece-me uma verdade la palisse.

Não obstante, começa a haver espaço para mais livros de "bd europeia", que tanto são apreciados pelos leitores portugueses, incluindo a minha pessoa.

E, claro, as editoras poderão fazer várias coisas:
1) Trazer séries que são relativamente novas nos países de origem e que os portugueses ainda não conhecem;
2) Trazer séries que, embora já tenham alguns anos de idade, continuam novas para o público português, por nunca terem tido edição em português;
3) Trazer séries que tiveram edição integral em português mas que já são difíceis de encontrar em loja;
4) Trazer séries que, sendo parcialmente editadas em português, ficaram a meio, tendo sido canceladas antes da publicação da obra integral;

E é neste último grupo que me vou concentrar desta vez. Até porque, a meu ver, será o grupo cuja aposta por parte das editoras me parece ter o risco mais pequeno.

Os leitores de banda desenhada em Portugal saberão, tão bem quanto eu, que isto era uma prática comum por parte das editoras. Apostava-se numa série e, passados alguns números, a mesma acabava por ser cancelada. Sem que fossem dadas grandes razões por parte das editoras. Os leitores ficavam então com duas opções a fazer: ou compravam os números em falta das séries noutra língua (no meu caso, ajeito-me a ler em inglês, em francês ou em espanhol); ou ficavam sem conhecer o resto da história, deixando-a a meio. Para mim, qualquer uma das hipóteses era má. Se é verdade que cheguei a encomendar alguns livros noutras línguas, em termos de colecionismo acabava por ser desagradável pois invariavelmente, os livros de outras editoras eram diferentes em termos de formato, edição, artwork, etc. E claro, é muito mais fácil e agradável lermos na nossa língua mãe, mesmo que dominemos outras línguas. Sei que há alguns leitores – especialmente de comics – que preferem ler na língua original dos livros. Mas não me insiro minimamente nesse grupo. Ler noutra língua é sempre um plano b, para mim.

Dito isto, cada um dos leitores que ler este artigo lembrará, certamente, um bom conjunto de séries de bd das suas preferências, que ficaram a meio, contra sua vontade. Esta poderia, portanto, ser uma lista muito grande.

Mas vou apenas focar-me em três séries que lamento muito que tenham sido esquecidas por parte das editoras. Quem sabe, algum editor português não lê este artigo e não equaciona a possibilidade de editar uma destas obras! Estou certo que seriam "boas apostas". E não digo isto baseado nos meus gostos pessoais apenas, pois tratam-se de séries muito aclamadas por público e crítica, que conquistaram inúmeros prémios.


Sambre, Yslaire
Sambre, de Yslaire
Na verdade, o primeiro ciclo desta série até foi publicado na íntegra em portugal pelas editoras Baleia Azul (Tomo 1) e Witloof (Tomos 2, 3 e 4). No entanto, a história é densa e continuou a crescer para muitos mais livros, o que faz com que a parcela do total da obra que foi publicada em português, seja mínima. Não compreendo como nenhuma editora pega nesta série. Parece-me até que consegue agradar a um público masculino e, ao mesmo tempo, feminino, dada a natureza de "romance vitoriano gráfico". Quando, há uns meses entrei numa livraria em Bruxelas e vi que o maior destaque de toda a loja estava a ser dado à série Sambre, pensei para mim mesmo: "Esta série pode(ria) ter um mercado enorme, também em Portugal". É uma série multi-premiada que nos conta a história de uma família rural burguesa do século XIX, cujo protagonista, Bernard Sambre, se apaixona por Julie, uma jovem vagabunda de olhos vermelhos que a sua família odeia ao nível da superstição. A série principal Sambre já conta com 8 livros publicados e a série paralela, intitulada a Guerra dos Sambre, já tem 9 livros editados. Em Portugal, destes 17 livros, apenas 4(!) foram editados. É verdade que esses 4 álbuns fecharam o primeiro ciclo da saga, repito. Mas há tanto mais para ler desta fantástica série de enorme qualidade! Acredito piamente que a Editora que pegar nesta série vai ter muito sucesso com ela!


Armazém Central, Régis Loisel e Tripp
Armazém Central, de Régis Loisel e Tripp
Antes ainda de falar sobre Armazém Central, faço um comentário sobre o autor. De facto, sobre Régis Loisel e a sua qualidade de desenho e capacidade sublime para contar uma história, apenas posso abanar tristemente a cabeça e pensar: "COMO É POSSÍVEL QUE A OBRA DESTE AUTOR ESTEJA TÃO DEFICIENTEMENTE PUBLICADA EM PORTUGAL?". Desculpem o uso do CAPSLOCK mas é algo que me deixa verdadeiramente indignado. Régis Loisel é incontornável na banda desenhada europeia – e até mundial. Já ganhou inúmeros prémios pelas suas várias obras, tendo até trabalhado para os estúdios Disney em filmes como Mulan ou Atlantis. A sua série mais aclamada, Em Busca do Pássaro do Tempo é também a série mais publicada em Portugal, mas mesmo esta, ficou a meio, tendo sido publicados em português, salvo erro, apenas os primeiros 6 álbuns da série constituída por 9 tomos. Mas ainda que seja uma série excelente de banda desenhada, quero-me debruçar em duas obras que considero ainda mais injustamente esquecidas em Portugal.
A primeira é Armazém Central e apenas um terço da série foi publicado em Portugal. Armazém Central leva-nos a uma pequena aldeia da região do Quebeque, no Canadá, onde são relatados os eventos que aí se passam de forma sublime e adulta, com uma qualidade de desenho e cor que estão, segundo os meus gostos e padrões, entre o que de melhor já se fez em banda desenhada. Eu sou suspeito a falar porque coloco esta entre as minhas 5 séries de banda desenhada preferidas. Dos 9 álbuns que compõem a série original, apenas 3(!) foram publicados em português pela Asa. E lembro-me que houve um grande distanciamento temporal entre o Tomo 2 e o Tomo 3. Também em Bruxelas, cheguei a ver esta série publicada em versão integral, separada por 3 volumes (cada volume com 3 dos 9 tomos). Talvez pedir isso fosse demais (e talvez o mercado português não reagisse) mas, pelo menos, terminar esta fantástica série, estou certo que seria aposta ganha para a editora que o fizesse.


Peter Pan, Régis Loisel
Peter Pan, de Régis Loisel
E o mesmo pode ser dito de Peter Pan. Esta adaptação livre da obra de J. M. Barrie, por Régis Loisel, é como se fosse uma forma mais adulta e menos encantada de olhar para este clássico da literatura. O desenho continua a ter a marca inconfundível de Loisel. É constituído por seis volumes e em Português (pasmemo-nos!) foram editados 4 números, não terminando a série por meros e escassos 2 tomos! Sei também que há uma versão integral – em inglês e em francês - num só volume desta obra. Neste caso, até me parece que a edição integral poderia funcionar em Portugal. Seria um álbum de 300 e muitas páginas e mesmo com um possível preço de 40 ou 50€, acho que haveria mercado para esta obra premiada de Loisel. Mas se isso for sonhar demais, pelo menos a edição normal do quinto e sexto tomo deveria acontecer e penso que registaria boas vendas.





Finalizando, e não querendo ser muito exaustivo, há muitas séries de banda desenhada - para além das 3 que aqui menciono, repito - que foram deixadas incompletas por parte das editoras portuguesas, o que abre uma janela de oportunidade para que, as editoras mais antigas que se mantêm ativas ou as novas que entretanto apareceram, saibam aproveitar este vazio que falta preencher, em seu proveito. Caso algumas destas coleções fossem (re)editadas ou terminadas, estou certo que muitas pessoas comprariam de forma "compulsiva e obrigatória".


Abaixo deixo algumas pranchas das 3 séries que mencionei neste post:


Sambre:




Sambre, Yslaire
Sambre, Yslaire

Armazém Central:
Armazém Central, Régis Loisel e Tripp
Armazém Central, Régis Loisel e Tripp

Peter Pan:
Peter Pan, Régis Loisel
Peter Pan, Régis Loisel
Peter Pan, Régis Loisel
Peter Pan, Régis Loisel
Capa da Edição Integral Francesa