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quarta-feira, 20 de maio de 2026

Análise: Os Filhos do Império #2

Os Filhos do Império #2, de Yudori - ASA - LeYa

Os Filhos do Império #2, de Yudori - ASA - LeYa
Os Filhos do Império #2, de Yudori

A ASA editou recentemente o segundo volume da série Os Filhos do Império, de Yudori, dando continuidade à narrativa iniciada no primeiro volume da obra, editado no ano passado. Lembro-me que, quando analisei esse primeiro volume, referi que havia coisas bastante interessantes e outras não tão fantásticas, sendo que seria no segundo volume que teríamos uma noção mais clara do valor da série.

Ora, depois de finda a leitura deste volume 2, devo dizer que, sim, de facto, esta é uma daquelas obras que nos vai prendendo às personagens e ao enredo, mesmo admitindo que continua a apresentar algumas das fraquezas que já apontei ao volume 1.

Regressamos à Coreia de finais da década de 1920, durante a ocupação japonesa, com Gyeongseong ainda a afirmar-se como um espaço de tensão latente entre o Japão e a Coreia, entre o moderno e o clássico, mas agora com um maior enfoque nas personagens de Arisa Jo e Jun Seomoon. É a sua relação que sustenta a obra. E mais do que protagonistas, Arisa e Jun continuam a funcionar como arquétipos do tempo em que vivem. Enquanto a rapariga se reafirma como expressão de modernidade, autonomia e mudança, o rapaz mantém-se - quase exageradamente, diria - enraizado a valores mais rígidos do mundo. 

Neste segundo volume, essa dinâmica entre as personagens ganha alguma maturidade. Se no primeiro livro, a surpresa vinha do confronto inicial entre os dois, aqui há um maior aprofundamento emocional da relação de ambos. E embora Jun seja alguém incrivelmente inseguro, Arisa Jo vai-se aproximando dele, com algumas boas ações que o fazem sentir-se cada vez mais envolvido com a sua amiga de um estrato social superior ao seu. É notória a tensão amorosa que existe entre eles, especialmente nos sentimentos do rapaz em relação à rapariga. 

Os Filhos do Império #2, de Yudori - ASA - LeYa
Ainda assim, o comportamento de Jun continua a roçar o exagero, o que faz com que a obra pareça, não raras vezes, algo juvenil na abordagem. Por outro lado, há outros assuntos mais adultos e sérios, que também podemos aqui encontrar. É talvez por isso que, tal como no volume anterior, a série continue com uma certa crise de identidade. O lado bom é que pode apelar tanto a um público menos maduro como a um público mais adulto. O lado mau é que pode ser demasiado séria ou aborrecida para um público mais jovem e demasiado infantil para um público mais maduro.
 
Quanto a Arisa, a personagem parece-me bem mais interessante que Jun. É que sem abdicar da sua personalidade ousada e independente, Arisa volta a afirmar-se como figura disruptiva num contexto profundamente conservador. Se no primeiro volume já desafiava normas, neste segundo livro começa a demonstrar, com maior clareza, as consequências dessa atitude, especialmente em relação ao seu pai, com quem parece ter uma disputa constante.

Este livro desenvolve também os relacionamentos dos jovens com outros colegas de escola, o que leva Jun a ser muito protetor em relação a Arisa e permite ao enredo respirar um pouco, não ficando apenas dependente da relação entre os protagonistas. Essas personagens secundárias que aqui aparecem são, pois, um bom contributo para que a história fique mais interessante e menos repetitiva.

Apesar disso, a obra mantém um ritmo deliberadamente lento. Tal como no volume inicial, não há uma abundância de acontecimentos marcantes. A progressão faz-se mais pela construção dos laços entre personagens e pelo aprofundamento do contexto, do que pela ação propriamente dita. 

Consequentemente, este segundo volume, embora avance ligeiramente mais na narrativa, continua a funcionar como peça de um puzzle maior. Há pistas, há desenvolvimentos, mas não há ainda um verdadeiro clímax ou um sentido claro para onde a história pode caminhar. O que, convenhamos, até é um ponto a favor. Mas, se continuar nesta situação algo híbrida durante muitos mais volumes, também pode "secar" o potencial interesse da obra. Para uns pode parecer que se passa pouco nesta série, enquanto outros podem gostar deste desenvolvimento lento, quase de novela juvenil, em que acompanhamos o dia-a-dia das personagens.

Os Filhos do Império #2, de Yudori - ASA - LeYa
Do ponto de vista visual, o trabalho da autora parece até ter melhorado face ao primeiro volume, que já era muito interessante. Especialmente no que diz respeito ao tratamento das personagens, que é verdadeiramente excelente. As suas expressões e gestos, bem como o cuidado com o vestuário, continuam a destacar-se pela sua elegância e detalhe. Há uma sensibilidade no traço que confere vida às personagens, tornando-as credíveis e emocionalmente expressivas. Juntando essa expressividade e belas cores que acompanham a obra - tanto que eu gostaria que todos, sim TODOS, os mangás fossem integralmente coloridos, mas isso é tema para outra conversa - poderemos ser remetidos para vários filmes anime do mestre Miyazaki.

Admito que os cenários poderiam ser mais detalhados, pois são algo simplórios. Mesmo assim, a minha principal irritação com a componente visual da obra são os balões de diálogo com transparência que ficam muito estranhos nas páginas. Sei que é uma questão de gosto - e nada tem a ver com a edição portuguesa, que apenas obedece à edição original da obra -, mas faz-me mesmo alguma "comichão". Já assim o tinha sido no primeiro volume e volta a ser agora.

De resto, em termos de edição o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço no interior e boa encadernação e impressão. Cada capítulo vem acompanhado de algumas notas adicionais que continuam a enriquecer a experiência, oferecendo contexto histórico e cultural de forma leve, divertida e acessível. É um complemento particularmente bem conseguido pela autora.

Em suma, Os Filhos do Império #2 confirma as qualidades e fragilidades do volume inaugural, mantendo-se como uma leitura consistente dentro do universo que Yudori tem vindo a construir. Continua a ser uma obra interessante, envolvente na sua atmosfera e nas tensões entre personagens que explora, ainda que não isenta de imperfeições - nomeadamente no ritmo e em certos excessos nas reações das personagens que retiram maturidade à obra. 


NOTA FINAL (1/10):
8.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Os Filhos do Império #2, de Yudori - ASA - LeYa

Ficha técnica
Os Filhos do Império #2
Autora: Yudori
Editora: ASA
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 24,1 x 17 cms
Lançamento: Abril de 2026

quinta-feira, 16 de abril de 2026

ASA edita o novo volume de "Os Filhos do Império"!



A editora ASA acaba de lançar o mais recente volume da série Os Filhos do Império, da autora sul-coreana Yudori. 

Relembro que já aqui analisei o primeiro volume desta obra que deixou bons apontamentos e ideias.

Tratou-se de um livro que, não sendo perfeito, me deixou com fortes expectativas, uma vez que a história tinha (e tem) bom potencial para ser explanada no seguinte volume. Como tal, estou muito curioso por voltar a este enredo e a estas personagens.

O livro já se encontra a chegar às livrarias e também pode ser comprado diretamente através do site da editora.

Mais abaixo, deixo a sinopse da obra e algumas imagens promocionais da edição original francesa.
Os Filhos do Império #2, de Yudori

Coreia, 1930. 

Arisa Jo e Jun Seomoon estão numa encruzilhada. 

À medida que o passado de Arisa ressurge, o seu espírito rebelde leva-a a procurar refúgio em amores inesperados. 

Enquanto isso, a busca de Jun por significado impulsiona-o em direção a ideias radicais. Ambos navegam agora por um mundo onde as suas paixões podem muito bem levá-los por caminhos opostos. 

Nesta segunda parte da narrativa sobre os destinos entrelaçados de dois jovens na Coreia ocupada da década de 1930, Yudori revela gradualmente a tragédia por detrás de uma atitude despreocupada.

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Ficha técnica
Os Filhos do Império #2
Autora: Yudori
Editora: ASA
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 24,1 x 17 cms
PVP: 18,90€

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Análise: Os Filhos do Império #1

Os Filhos do Império #1, de Yudori - ASA - LeYa

Os Filhos do Império #1, de Yudori

Os Filhos do Império, da autora sul-coreana Yudori, é uma das mais recentes obras editadas pela editora ASA. Trata-se do primeiro tomo de uma narrativa que se desenrola na Coreia, em 1929, durante a ocupação japonesa, uma época marcada por intensos conflitos identitários e políticos. A cidade de Gyeongseong (que hoje conhecemos como Seul) serve como cenário para esta história onde o peso da tradição coreana se cruza com a influência crescente do Ocidente e, claro, a opressão colonial nipónica. É, pois, num contexto carregado de tensão que acompanhamos a (con)vivência das duas figuras centrais: Arisa Jo, filha de um rico comerciante, e Jun Seomoon, descendente de uma nobreza já sem poder e sem dinheiro.

E começo já por dizer que estes dois protagonistas representam mais do que apenas personagens ficcionais, pois são, em si, símbolos das forças que moldavam a Coreia do início do século XX. Arisa, com os seus modos decididos, a sua postura confiante e a recusa em aceitar as normas impostas às mulheres da sua época, é a representação máxima do espírito moderno e progressista que se insinuava, paulatinamente, na Coreia. Já Jun, preso a ideais de honra, hierarquia e moralidade tradicional extremas, espelha a dificuldade em aceitar um mundo em transformação. Não se trata, portanto, de um mero conflito de personalidades aquilo que a autora Yudori nos propõe, mas de uma colisão entre dois mundos: o velho e o novo, o masculino e o feminino, o opressor e o subjugado... a Coreia do Norte e a Coreia do Sul? 

Os Filhos do Império #1, de Yudori - ASA - LeYa
Um dos temas centrais é, com efeito, a emancipação feminina, e aqui Arisa brilha. Esta jovem é moderna, segura, e move-se com uma liberdade que desafia as convenções sociais do seu tempo. Demonstrando-se, com delicadeza e de uma forma natural, fora dos moldes tradicionais, Arisa é uma mulher que desafia os padrões e é exatamente isso que desconcerta Jun, rapaz criado num mundo onde as mulheres devem ser recatadas, obedientes e previsíveis. Hoje, o comportamento de Arisa parecer-nos-ia normal e até é provável que aquilo que consideramos mais chocante e anormal seja o comportamento do rapaz e não tanto o da rapariga... Mas à luz dos anos 20 coreanos? Arisa seria sinónimo de puro escândalo!

E Jun não consegue compreender nem aceitar a postura da bela rapariga. Ela é, para ele, uma anomalia. Mas é precisamente nesse choque, nessa tensão constante entre repulsa e fascínio, que a narrativa ganha força. Por vezes, até pode parecer que o comportamento das personagens, especialmente o de Jun, é bastante exagerado nas reações, o que pode tornar a obra mais infantil. No entanto, devo dizer que a dinâmica entre as personagens vai agarrando o leitor. Dado o ritmo lento da obra, comecei a leitura com pouco entusiasmo, reconheço, mas também me vejo obrigado a admitir que me fui interessando cada vez mais pelo desenlace da relação destas duas personagens, tendo acabado por ler este livro num sopro, de forma sôfrega.

Apesar da ausência de grandes reviravoltas, a leitura acabou por ser envolvente, portanto. Há algo de hipnótico na forma como Yudori constrói o ambiente e as relações entre personagens. Aquilo que ao início parecia leve, quase juvenil, foi ganhando densidade à medida que progredia na leitura. Conforme as páginas vão passando, o leitor começa a perceber as camadas que estão a ser construídas. E o que parecia um relato leve revela-se uma história com implicações (mais) sérias, emocionais e políticas. Não é que nos prenda pela ação, que é quase inexistente, mas agarra-nos pela atmosfera e pelas questões que levanta. 

No entanto, mantenho alguma contenção na análise a esta obra, pois "o jogo" ainda está bastante em aberto, com este primeiro volume a ser mais uma preparação do que um desenvolvimento. Pouca coisa acontece, o ritmo é lento, e temos a sensação de que a autora está a montar o "palco", mais do que a dar início ao "espetáculo". Isso pode frustrar alguns leitores, mas para mim foi um convite à imersão. Um lento mergulho numa época histórica complexa. Pode vir algo mais fantástico com o desenvolvimento da trama no futuro, mas também pode ser algo que fica pela rama. Como tal, estou otimista, mas com um otimismo contido.

Os Filhos do Império #1, de Yudori - ASA - LeYa
Visualmente, o uso de ilustração digital resulta em cenários algo crus e numa textura que pode parecer artificial. A ausência de detalhe em certos momentos e o contraste entre personagens e fundos criam uma sensação de estranhamento que poderá prejudicar a imersão inicial. No entanto, esta impressão tende a suavizar-se à medida que avançamos na leitura. Além de que há muitas ilustrações belíssimas, especialmente no tratamento das personagens e das suas expressões, que parecem extraídas de um filme de Miyazaki. Essa parte é tão boa que, se na parte dos cenários houvesse mais detalhe e aprumo, poderíamos estar a falar de uma obra verdadeiramente perfeita em termos visuais. Seja como for, na componente gráfica, há uma harmonia que se vai revelando, gradualmente, com o tempo. Há ali uma elegância discreta, que se impõe sem fazer alarde. O cuidado da autora no tratamento do vestuário de época também merece menção positiva.

Em termos de desenho, torna-se portanto evidente, com o tempo, que há uma elegância própria nos desenhos de Yudori. O estilo, ainda que contido, tem coerência. A composição das cenas obedece a uma lógica visual clara, e há um equilíbrio entre simplicidade e intenção, o que revela uma maturidade estética considerável. 

Quanto à edição, o livro apresenta-se muito apelativo. Tem capa dura baça, um bom grafismo, bom papel baço no interior e boa encadernação e impressão. No final do livro há um conjunto de notas da autora, em que a mesma nos oferece, através de uma banda desenhada a preto e branco, e num registo mais divertido, despreocupado e esboçado, relevantes informações sobre a época, indumentárias e personagens do livro. Já agora, refiro que no final de cada capítulo também costuma haver uma página com estas informações adicionais. Algo que acrescenta boas informações à experiência global de leitura. Uma nota menos positiva para a balonagem que utilizando muitas transparências e uma font menos apropriada, quanto a mim, para as legendas, quebrou um pouco da imersão na obra.

Em suma, Os Filhos do Império é uma daquelas obras que ainda não revelou tudo o que pode ser. O potencial está lá: há personagens interessantes, um contexto histórico rico e vários temas relevantes. Mas "a missa ainda vai no adro" e é o segundo volume que ditará se esta série se tornará memorável ou não. Ainda assim, esta introdução deixou-me curioso e, mais importante, envolvido.

NOTA FINAL (1/10):
8.1


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Os Filhos do Império #1, de Yudori - ASA - LeYa

Ficha técnica
Os Filhos do Império 1
Autora: Yudori
Editora: ASA
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 241 x 170
Lançamento: Junho de 2025

quinta-feira, 29 de maio de 2025

ASA prepara-se para lançar "Os Filhos do Império"



A partir do próximo dia 10 de junho, começa a chegar às livrarias portuguesas a banda desenhada Os Filhos do Império, da jovem autora coreana Yudori.

Confesso que não conheço a obra, nem a autora, mas que fiquei agradado com aquilo que pude ver das ilustrações desta obra.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Os Filhos do Império 1, de Yudori

Coreia, 1929.

Na capital, que então se chamava Gyeongseong, enquanto o Ocidente difunde pouco a pouco a sua cultura «moderna», o Japão impõe a lei do ocupador. Arisa Jo, filha de um rico negociante, e Jun Seomoon, o jovem herdeiro de uma nobreza destituída, encarnam essas influências contrárias e os violentos conflitos interiores que elas fazem despontar em cada coreano.

Ao contar-nos a história do destino de dois jovens que tudo põe em confronto na Coreia ocupada dos anos trinta, Yudori confirma o seu talento de autora e a incrível beleza do seu trabalho gráfico.


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Ficha técnica
Os Filhos do Império 1
Autora: Yudori
Editora: ASA
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 241 x 170
PVP: 18,90