Em Busca do Tintin Perdido, de Ricardo Leite
Enquanto artista wannabe e enquanto admirador de arte, há uma coisa que, para mim, tem muita relevância: olhar para uma peça de arte e verificar que houve empenho, que houve cuidado, que houve atenção ao pormenor, que houve paixão do artista por aquilo que estava a criar. Acreditem, nem sempre isso acontece, mesmo em obras que são consideradas como “boas”. Gosto desta postura de certos artistas de tratarem cada uma das suas obras como se fosse a última que farão. Depois de ler este Em Busca do Tintin Perdido, posso afirmar com certeza que a atenção ao cuidado e ao detalhe do seu autor brasileiro, Ricardo Leite, é para lá de admirável!
Aliás, essa, e possivelmente a própria homenagem que este livro procura ser à banda desenhada, é a tónica mais forte neste Em Busca do Tintin Perdido. De facto, depois de se ler esta obra, fica-se a perceber o porquê de a mesma ter levado cerca de 10 anos a ser concluída: por um lado, é um livro com uma dimensão considerável; depois, tem imensa informação pertinente, falando não só da vida do autor, como de grande parte da banda desenhada ocidental já feita. E, em última análise, tem ainda um desenho virtuoso e muito detalhado que, certamente, demorou bastante tempo a ser finalizado. Mas vamos por partes.
Aquilo que Ricardo Leite nos oferece
Em Busca do Tintin Perdido, cujo título deriva do clássico
Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, é uma viagem autobiográfica onde o amor pela banda desenhada se revela como tendo estado sempre presente na vida de Ricardo Leite. Até mesmo quando, algures na vida adulta do autor, pode ter parecido que a banda desenhada era uma coisa do passado. Da infância e da juventude.
Em criança, e à semelhança de tantos leitores de banda desenhada, entre os quais me incluo, Ricardo Leite era completamente transportado para essa terra de sonhos e aventuras que a banda desenhada permite. Nesta obra, o autor descreve, com paixão, a maneira como a banda desenhada e as suas personagens e criadores, o afetaram na infância, fazendo com que o sonho de Ricardo fosse o de ser autor de banda desenhada, quando fosse adulto.
E não se pode dizer que Ricardo seja uma daquelas pessoas que sonha sem tentar realizar o dito sonho. Assim, logo em criança, escreveu uma carta a Hergé, o criador de Tintin, em que lhe dizia que gostaria muito de conhecê-lo. Para seu espanto, Hergé respondeu à sua carta. Mas, como a vida (também) é feita de desencontros, não foi possível para o jovem Ricardo realizar o sonho de conhecer o seu ídolo, por uma questão logística de incompatibilidade de agendas. Hergé não estava disponível quando Ricardo e o seu pai viajaram até Bruxelas.
Mas Ricardo não desistiu. Mais tarde, já enquanto jovem adulto, Ricardo também tentou a sua sorte enquanto autor de banda desenhada, apresentando o seu trabalho nos estúdios de editoras tão relevantes como a Dargaud, a Casterman ou a Les Humanoïdes Associés. Mas, em cada um dos casos, viu o seu trabalho ser preterido. E assim, depois de diversas tentativas de realizar o seu sonho de criança de ser autor de banda desenhada, a idade adulta trouxe-o à terra e levou-o a colocar esse sonho de lado. Ricardo Leite tornou-se pai e um proeminente
designer.
Mas a vida dá muitas voltas e, já com 55 anos de idade, e após um divórcio, Ricardo Leite viu o seu sonho de criança a vir, novamente, ao de cima. E com o regresso desse sonho, voltou também a vontade de regressar a Bruxelas – esse berço de tantas obras que marcaram a banda desenhada mundial. Iniciou, assim, uma viagem à capital da Bélgica que, entre uma experiência real e uma experiência psicológica, do foro onírico, o fez ter conversas e diálogos com alguns dos maiores mestres da 9ª Arte, que vão deambulando e aparecendo em cena, como Hergé, Goscinny, Hugo Pratt, Milo Manara, Breccia, Maurício de Sousa, Winsor McCay, André Franquin, Frank Miller, Moebius, Hermann, e tantos, tantos, tantos outros. É importante referir que estes diálogos são fabricados pelo autor, mas, ainda assim, Ricardo Leite consegue, devido ao seu grande conhecimento de causa, que cada um dos autores que lhe fala, diga coisas coerentes com aquilo que conhecemos dos mesmos. Se os diálogos não são reais, bem que o poderiam ser, portanto. E, sendo verdade que estes diálogos são bons, devo dizer que também apreciei especialmente os longos monólogos que Ricardo enceta e que, de forma eloquente, nos permitem mergulhar, de modo profundo, na sua vida, nos seus sonhos, nas suas vitórias e nas suas derrotas.
De facto, a eloquência é uma das características mais fortes do autor. Tive a oportunidade de assistir à apresentação deste livro em Beja, pelo próprio Ricardo Leite, e não pude deixar de me sentir empolgado para mergulhar na obra. Não há, aliás, forma melhor de sentirmos a crescer uma onda de interesse por um livro que ainda não lemos, do que vermos o modo apaixonado como um autor fala do mesmo.
As referências neste Em Busca do Tintin Perdido são tantas que estamos perante um verdadeiro tour de force. A obra de uma vida. Não sei até que ponto Ricardo Leite vai fazer mais livros de banda desenhada ou não. Pela parte que me toca, enquanto leitor, é óbvio que eu gostaria de ler mais livros deste fantástico autor. De qualquer maneira, se Ricardo Leite optar por não o fazer, também já pode dizer que tem a sua opus magnum neste Em Busca do Tintin Perdido. E que, acima de tudo, realizou o seu sonho de se tornar um criador de histórias aos quadradinhos. E dos bons!
Em termos menos positivos, posso admitir que, por vezes, a tentativa de não deixar ninguém de fora é tanta que algumas partes do livro até podem ser exaustivas em demasia, por terem tantas e tantas figuras proeminentes da banda desenhada. E este é um sentimento que vai crescendo mais para o final do livro. Na verdade, até os portugueses José Ruy, Eduardo Teixeira Coelho, Paulo Monteiro, Maria José Magalhães ou Rui Brito chegam a marcar presença no livro. É claro que, se, por um lado, a obra se torna algo exaustiva, também é verdade que isso a torna mais completa ainda. O que também aumenta o cariz enciclopédico da mesma.

Mas, se até aqui tenho comentado a história deste livro, há que dizer que os desenhos que compõem a obra, são verdadeiramente lindos. O traço fino, e a preto e branco, de Ricardo Leite é hiper-realista e pormenorizado, o que aumenta ainda mais a imersão do leitor na obra. Se os desenhos são lindíssimos, com a caracterização das figuras humanas e das suas expressões a ser muito bem conseguida, também salta à vista a maneira dinâmica e, por vezes, ousada com que o autor subverte algumas regras clássicas e nos dá uma planificação moderna, que acaba por traçar as suas próprias regras e originalidade. contribuindo, também, para a imersão do leitor na obra. O domínio do preto e branco e do espaço negativo que ele permite, bem como boas opções de luz e sombra, também são impressionantes. Aliás, nesse ponto da escolha por uma banda desenhada a cores ou a preto e branco, que o próprio autor aborda na obra, devo dizer que Ricardo Leite é, sem dúvida, da “equipa a preto e branco”. Estou certo que, visualmente, este livro não seria tão impactante e belo se fosse a cores, uma vez que foi pensado para utilizar as valências do preto e branco.
Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, com bom papel baço e um bom trabalho ao nível da impressão e da encadernação. O próprio grafismo do livro, com belas guardas, é muito bem pensado, o que o torna bem bonito. É de realçar o facto da edição d’
A Seita ser acompanhada por um
ex-libris exclusivo limitado a 149 exemplares numerados e assinados. A existência de um glossário, no final, com 11 páginas onde o autor explica cada um dos autores que aparecem nas várias vinhetas do livro, também é bem-vinda e funciona como mais uma prova do grau de envolvimento do autor na obra.
No entanto, tenho que ser justo e dizer que, desta vez, A Seita me deixou algo desiludido por ter optado por lançar o livro em português do Brasil. Acho que constitui uma verdadeira oportunidade perdida que a cooperativa editorial tenha enveredado por esta via. Bem sei que há alguns casos em que se justifica que um livro seja editado por cá com o português do Brasil, mas apenas quando essa valência passa a ser uma característica inerente à própria obra. Estou a lembrar-me do
Morro da Favela, de André Diniz, por exemplo. Mesmo que o calão falado pelas personagens possa ser difícil de interpretar para os leitores portugueses, a verdade é que essa forma de falar da favela também é vida e forma da própria obra. Podemos discutir se fará sentido, ou não, a introdução de algum glossário ou legendagem que ajude à compreensão de certas expressões. Mas, repito, nesse caso – e noutros – compreende-se a opção.
No entanto, não acho que o português brasileiro utilizado por Ricardo Leite nesta obra seja um elemento inerente à própria obra. E justifico com simplicidade: é que Ricardo Leite não é “apenas” (e deixo a palavra apenas entre aspas) um cidadão brasileiro. Ricardo Leite é um cidadão do mundo. Tal como a importância desta obra é demasiado grande para que o discurso fique cingido ao idioma brasileiro quando estamos perante uma edição portuguesa. E ainda que a obra também toque na história da banda desenhada no Brasil, acaba por se centrar (bem mais) na banda desenhada franco-belga, tocando também na banda desenhada americana, italiana ou argentina. A cultura local brasileira não será, portanto, elemento justificativo para que o discurso se mantenha em português brasileiro. Ora, por esta mesma razão, acho que Em Busca do Tintin Perdido merecia uma edição em português de Portugal. Até porque, não esqueçamos, a própria editora brasileira Noir publicou o livro em português do Brasil no final do ano passado. Portanto, mesmo que o argumento para optar por uma edição com português brasileiro fosse a possibilidade de fazer chegar o livro ao mercado brasileiro, também é algo que cai por terra com a existência da edição da Noir.
Ainda sobre este assunto, permitam-me uma ressalva: se estou a incidir bastante nesta tecla, nem é por este ser um livro que não se leia bem neste português do Brasil. Claro que sim. Não há aqui problemas na compreensão de qualquer palavra utilizada. Portanto, aos que me leem, eu apelo para que não seja essa a razão para que não comprem este fantástico livro. No entanto, é mesmo por essa razão, do autor utilizar uma linguagem fácil (e por já haver uma edição em português do Brasil) que fico desiludido e, de certa forma, até acho incompreensível, que A Seita não tenha feito uma obra para Portugal com o português de Portugal. Na obra em questão, não se ganha nada em ter-se optado pelo português do Brasil.
Mas bem, isso é outra questão. Olhando, em suma, para Em Busca do Tintin Perdido, pode-se afimar que este é um dos grandes livros do ano e que está para a banda desenhada como o filme Cinema Paraíso, de Giuseppe Tornatore, está para o cinema! É uma autêntica homenagem e carta de amor à banda desenhada que, sendo sobre a vida pessoal de Ricardo Leite, ecoa e reflete-se em todos aqueles que amam a 9ª Arte. Acho difícil que um (verdadeiro) amante de banda desenhada não se relacione, pelo menos em parte, com este livro. Obrigatório para todos os fãs de banda desenhada. É especialmente a eles que este livro se destina!
NOTA FINAL (1/10):
9.5
-/-
Em Busca do Tintin Perdido
Autor: Ricardo Leite
Editora: A Seita
Páginas: 220, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 220 x 290 mm
Lançamento: Maio de 2023