Rever Paris, de François Schuiten e Benoît Peeters
Rever Paris é o quarto volume da
Coleção de Novelas Gráficas da
Levoir e do jornal Público, da autoria de François Schuiten e Benoît Peeters (conhecidos, principalmente pela série
As Cidades Obscuras) e é-nos apresentada na sua versão integral, reunindo os dois álbuns
Rever Paris (de 2014) e
A Noite das Constelações (de 2016). Trata-se, portanto, de um álbum duplo o que, por 10,90€, é uma autêntica pechincha para os amantes de banda desenhada.
E mesmo não sendo um álbum do universo de As Cidades Obscuras, acaba por utilizar uma linguagem, um ritmo, uma temática e, acima de tudo, uma estética, muito em linha com os trabalhos da dupla criativa em As Cidades Obscuras.
Neste caso, toda a história gira em torno da cidade de Paris. Quer na Paris histórica do passado, quer na Paris utópica do futuro. Estamos no ano de 2156 e acompanhamos a caminhada de Kârinh, a protagonista da obra, que nasceu na Arca, uma colónia espacial criada por um grupo de ex-terráqueos que cortaram todos os laços com o seu planeta natal. Kârinh sempre foi uma apaixonada pelo planeta Terra e especialmente pela cidade de Paris, baseando o seu conhecimento nos livros que lia sobre a arquitectura da cidade. Filha de pai terráqueo e órfã de mãe, sonha encontrar na capital francesa mais informação sobre as suas origens familiares. Entretanto, acaba por ser a escolhida para ingressar numa expedição à Terra. Fica feliz por realizar o sonho de conhecer a cidade que tanto ama, mas a verdade é que não vai encontrar exatamente aquilo que pretendia encontrar. E junte-se a isso o facto desta viagem ser igualmente uma busca de identidade e de pertença, por parte da protagonista.
Paralela à demanda e busca de Kârinh, o tema do espaço urbano, da arquitectura, do desenvolvimento e mutação das cidades e a (dist)utopia das cidades do passado, do presente e do futuro também estão presentes.
Relativamente à arte, diria que é um típico livro François Scuitten. Quem já é fã da sua arte, continuará a sê-lo e quem não aprecia muito, também não será neste livro que mudará de ideias. Mas, seja como for, e goste-se ou não do estilo de ilustração do autor, a verdade é que o seu traço apresenta uma singularidade incrível, num estilo genial, do ponto de vista arquitetónico, transportando o leitor para um outro universo que é, ao mesmo tempo, tão distante e impossível como, tão real e próximo. É uma arte impressionante da primeira à última página. Em termos de gosto pessoal, tenho que dizer, mais uma vez, e como já disse em
Uma Aventura de Blake e Mortimer - O Último Faraó, que, na conceção de expressões faciais das personagens, o autor é um pouco limitado. As suas personagens humanas parecem-me sempre pouco expressivas e com pouca sensação de movimento, levando a que me pareçam bonecos de cera, mesmo admitindo que as fisionomias estão muito bem caracterizadas. É nos objetos, nos edifícios, nos locais, nos veículos que, de facto, a arte do autor se transcende fazendo com que o seu estilo seja único e grandioso. E claro, é realmente impressionante que Schuiten consiga imaginar e conceber, através dos seus desenhos, todos estes locais, onde somos convidados a entrar. Destaque para a magnífica capa do livro. Perfeita, em termos estéticos.
Relativamente à história de Kârinh, diria que Peeters não aparece neste
Rever Paris tão inspirado como noutros livros. Há aqui muitas ideias interessantes, mas, no final, o argumento não parece tão sólido como os alicerces arquitetónicos onde se sustentam as maravilhosas ilustrações de Schuitten. A primeira parte da obra é marcada por Kârinh à procura de uma civilização que idealizou e que já não existe. A sua caminhada atravessa regiões áridas e locais abandonados, desprovidos de vida humana – que remetem, com as devidas diferenças, para a exploração que o videojogo
The Last Of Us coloca ao jogador. Ao longo da jornada, vão sendo introduzidas personagens no caminho da protagonista, mas são sempre personagens misteriosas e algo latas, que não conseguem adensar a trama convenientemente. A própria Kârinh é, aliás, uma personagem que, a meu ver, poderia estar mais bem desenvolvida na forma como traça o seu caminho e as suas ambições. Parece que o autor não tinha uma ideia clara de como queria construir a sua personagem e fê-lo aos poucos, enquanto escrevia o argumento desta obra. E eventualmente, a procura de Kârinh recai naquele lugar-comum narrativo da procura pelas raízes, por familiares até então desconhecidos, e por uma terra a que possa pertencer. Uma coisa que é apenas subtilmente levantada e que, por ventura, poderia dar mais suco ao argumento é a temática de ser – ou não - preferível viver num mundo limpo, organizado, climatizado e programado ou se, opostamente, a vida tem mais “sal” quando vivida num mundo onde impera o caos, a imprevisibilidade, o desconhecido.
Quanto à edição, este livro merece-me um comentário mais extenso. Se, há uns dias, aplaudi a decisão da Levoir em redistribuir a obra
O Neto do Homem mais Sábio, de Tomás Guerrero, devido a vários erros ortográficos e à gralha no ano do nascimento de José Saramago, a verdade é que, tendo feito esse gesto – que mais uma vez aplaudo – a editora abriu um precedente perigoso para ela mesma. É que,
Rever Paris, tem tal como
O Neto do Homem mais Sábio, inúmeros erros ortográficos e de pontuação, bem como verbos mal conjugados ou palavras repetidas. Sendo assim, a pergunta coloca-se: “Então e agora, Levoir?” Irá a Levoir fazer uma nova impressão de
Rever Paris, como fez para a biografia de José Saramago? Ou ficamos com uma dualidade de critérios que em nada fica bem à editora portuguesa? Não andei a contar o número de erros dos dois livros mas diria que são abundantes em ambas as obras. E ainda nem mencionei o mais grave! Na página 58 de
Rever Paris acontece aquele que, a meu ver, é possivelmente o pior erro que pode acontecer na impressão de uma obra de banda desenhada: uma página ser impressa em baixa resolução, o que faz com que as ilustrações fiquem todas "pixelizadas" e, consequentemente, arruinadas. Não sei se este grave problema apenas afetou o meu exemplar e se isto é um erro de impressão externo à editora. De qualquer maneira, repito: de todos os problemas, na impressão e edição, que um livro de bd possa apresentar, este é o mais grave. Que fará a Levoir quanto a isto, repito? Novas impressões tal como em
O Neto do Homem mais Sábio? Ou será que a (verdadeira) razão da reimpressão d’
O Neto do Homem Mais Sábio foi a pressão externa que a editora sofreu, por se tratar de uma obra que cobre a vida de José Saramago? Afinal, a razão não foi a preocupação pelos leitores? São perguntas às quais a Levoir há-de dar uma resposta. Seja ela qual for.
É certo que a coleção de novelas gráficas é o acontecimento editorial da banda desenhada em Portugal e as valências desta coleção são mais que muitas, como, aliás,
já referi várias vezes. Os livros são verdadeiramente baratos tendo em conta a qualidade dos mesmos. Mas isso não pode - nem deve - justificar que este tipo de erros que revelam, acima de tudo, um descuido na edição e revisão das obras, possam acontecer.
Rever Paris é uma obra de dois nomes tão solenes da banda desenhada mundial, numa edição integral, complementada por um interessantíssimo dossier de extras, e que tem o fantástico preço de 10,90€. Sim, isso é incontestável. Mas infelizmente, também é verdade que a Levoir continua a apresentar erros e problemas nos seus livros que lhe tiram o grau de qualidade e profissionalismo que, certamente, a editora almeja deter. E é uma verdadeira pena, sublinho.
Porque, no final, Rever Paris é um livro de grande qualidade, que eleva o nível da coleção de novelas gráficas da Levoir e do Público. Schuiten aparece muito inspirado e dá-nos um trabalho grandioso nas ilustrações. Já Benoît Peeters, por seu turno, não se mostra tão inspirado no argumento, como noutros trabalhos da dupla. E, claro, a principal queixa na leitura deste livro, tem que ir para a fraca qualidade da edição – com problemas ainda mais crassos do que no anterior volume da coleção O Neto do Homem Mais Sábio – que, lamentavelmente, retiram prazer à leitura da obra. A pergunta subsiste: irá a Levoir lançar uma nova versão corrigida do livro?
NOTA FINAL (1/10):
8.3
-/-
Rever Paris
Autores: François Schuiten e Benoît Peeters
Editora: Levoir
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Setembro de 2020