quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Gorila Sentado publica nova BD a 1 cêntimo!




Sim, leram bem!

A editora Gorila Sentado, uma das mais refrescantes editoras independentes de banda desenhada em Portugal, prepara-se para editar, a partir do próximo dia 15 de Setembro, uma nova BD pela módica quantia de... 0,01€!

É óbvio que cada leitor é convidado a contribuir com o valor que achar justo, mas esse valor começa em um cêntimo.

Se puderem, por favor apoiem com mais euros, pois são estas as editoras que precisam de um pequeno empurrão para que os seus projetos possam singrar. Se gostamos que haja banda desenhada portuguesa, também temos que apoiar da melhor forma que conseguirmos.

Ainda para mais, este parece-me um lançamento especialmente interessante, pois é mesmo sobre a feitura de BD. Chama-se One More Page: Market Day e é da autoria de Daniel da Silva Lopes, autor e responsável da editora.
Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais. A obra pode ser pré-comprada aqui.


One More Page: Market Day, de Daniel da Silva Lopes

Fazer banda desenhada parecia uma boa ideia. Depois vieram as páginas em branco, os mercados, as conversas constrangedoras e aquelas pessoas que folheiam a banda desenhada… e voltam a pô-la na mesa.

Horas e horas a pensar se alguém realmente se importa. No final, ocasionalmente, a maravilhosa lembrança de que as contas continuam a existir vendendo ou não os livros.

One More Page: Market Day é uma banda desenhada divertida, desconfortável e ligeiramente deprimente sobre fazer banda desenhada, tentar encontrar leitores e continuar a criar quando aquilo que gostamos de fazer começa a pesar mais do que devia.

É também uma história sobre a realidade de quem cria de forma independente: os mercados que correm bem, os que correm mal, a ansiedade antes de abrir a banca, a dúvida constante e aquela vontade irritante de fazer novas páginas ou projetos.

Como forma de agradecimento a todos os leitores que têm acompanhado e apoiado o nosso trabalho, One More Page: Market day está disponível em pré-encomenda.

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Ficha técnica
One More Page: Market Day
Autor: Daniel da Silva Lopes
Com participações de: Miguel Peres e Miguel Ângelo Gonçalves
Editora: Gorila Sentado
Páginas: 16, a cores
Formato: A5
Preço: Decisão do leitor (a partir de 1 cêntimo)

Já foi lançada a campanha de crowdfunding da nova Umbra!




A Umbra está de volta para o seu sétimo lançamento!

Como sabem, este é um dos projetos nacionais de BD independente que mais tenho acarinhado, pois a sua qualidade tem-se mantido de número para número. E já serão 7 os volumes editados, o que é prova da consistência e vitalidade do projeto.

Neste momento, já podem adquirir o vosso exemplar da revista na página oficial de crowdfunding.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora.





Umbra #7, de Vários Autores

A UMBRA 7 arranca no final do Verão de 2026 para mais uma campanha de crowdfunding, estando previsto o seu lançamento em Outubro, como prometido.

Continuamos a saga KRIZ3 começada no número 5, inicialmente da autoria de Fernando Relvas, mas cujo episódio 3, "A voz de Eldved", é agora escrita por Pedro Moura e desenhada por Ricardo Baptista.

Com o drama espacial "Ectype", o autor neo-zelandês Scott Base regressa, tal como o francês Réza Benhadj, com um encontro surreal: “A rapariga de Plum Island”.

Trazemos uma história clássica da Argentina. Esta é a era de ouro da banda desenhada de ficção científica. Publicamos “Do fundo dos mares mortos”, o primeiro episódio da saga Eu, Ciborg, pelo grande argumentista e autor argentino Afredo Grassi e desenho do também celebrado mestre Lucho Olivera. Trata-se de uma interrogação sobre a condição humana, com a ocupação de Marte por pano de fundo. Publicaremos todas as partes nos números vindouros da Umbra.

Uma aquisição de monta é o celebrado autor Ricardo Cabral, que volta ao seu universo Terrea, com um novo episódio inédito, “Terra Umbrae”. E, estreando-se nas nossas páginas, o jovem autor Luís Ribeiro, com uma história de um ciclo de histórias em torno de gastronomias de pesadelo. “A primeira garfada” é o primeiro dos seus pratos. ""

Vejam a página do crowdfunding, está repleta de coisas incríveis!

Análise: Ascender - Volumes 2, 3 e 4

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal
Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen

Hoje falo-vos de Ascender, uma minisérie composta por 4 volumes, da autoria de Jeff Lemire e de Dustin Nguyen. Esta é uma obra que funciona como sequela da série maior Descender, da qual já aqui falei. Aliás, o próprio primeiro volume de Ascender - A Galáxia Assombrada, também já aqui foi analisado.

Agora que voltei a pegar nesta obra, a minha sensação não difere muito daquela com que tinha ficado quando li esse primeiro volume da série. É que Ascender nasceu com uma tarefa algo ingrata: a de dar continuidade a Descender, que é em tudo superior a este segundo trabalho. Depois de um universo dominado por máquinas, inteligência artificial e conflitos galácticos, o argumentista Jeff Lemire, do qual sou confesso fã, optou por uma mudança radical de paradigma, substituindo a tecnologia pela magia e transformando uma space opera futurista numa fantasia mais cósmica. 

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal
Nestes volumes 2, 3 e 4, intitulados, respetivamente, O Mar dos Mortos, O Mago Digital e Semente Estelar, a jovem Mila continua a assumir o centro da ação. À medida que os segredos da sua origem e do seu papel neste novo universo vão sendo revelados, aos poucos, a protagonista vê-se envolvida num conflito cada vez maior, onde magia, destino e sobrevivência se cruzam constantemente. Paralelamente, algumas personagens oriundas de Descender, como Andy, Effie ou o carismático TIM-21, aparecem nesta nova narrativa, permitindo a Jeff Lemire criar uma ponte mais sólida entre as duas séries.

Aquilo que inicialmente parecia ser apenas uma luta de sobrevivência transforma-se gradualmente numa história acerca da natureza do poder, da herança e do equilíbrio entre forças opostas. Ascender é quase o oposto simétrico de Descender. E procura ser um final para ambas as sagas. Sem entrar em detalhes que estraguem a experiência de quem ainda não leu a obra, diria apenas que os vários fios narrativos são reunidos para um desfecho que procura fazer justiça às personagens e ao universo criado pelos autores ao longo de dez volumes, somando Descender e Ascender.

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal
Tal como já tinha sentido ao ler o primeiro tomo desta nova série, continuo a considerar que Ascender não alcança o mesmo fulgor da série que a precedeu. A saga original apresentava uma premissa particularmente forte e abordava temas fascinantes relacionados com a inteligência artificial, a consciência das máquinas e a relação entre criador e criatura. Eram ideias muito estimulantes e que davam à obra um peso conceptual significativo. Em Ascender, a aposta na fantasia e na magia trouxe novidade ao universo criado pelos autores, é certo, mas também retirou alguma da identidade que tornava Descender tão especial. Pelo menos, quanto a mim.

Além de que um dos problemas que já tinha identificado em Descender continua igualmente presente aqui. Jeff Lemire tem uma enorme imaginação e uma grande capacidade para criar universos ricos e complexos. No entanto, também demonstra alguma tendência para introduzir demasiadas personagens, demasiadas ramificações e demasiados subplots. Por vezes, a história parece mais preocupada em expandir o seu universo do que em aprofundar a narrativa principal. Apesar disso, importa reconhecer que Ascender continua a ser uma leitura cativante. 

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal

Onde não existe quebra de qualidade é na componente gráfica ao nível da originalidade. Dustin Nguyen continua absolutamente extraordinário. O seu estilo permanece inconfundível e imediatamente reconhecível. As linhas soltas, os esboços assumidos e a utilização das aguarelas criam uma estética visual que considero única no panorama da banda desenhada atual.

E is cenários naturais, os ambientes mágicos e as criaturas fantásticas que aparecem nesta história parecem feitos à medida do seu talento. Muitas páginas assemelham-se mais a ilustrações de um livro de arte do que a vinhetas de uma série de banda desenhada convencional, havendo uma beleza muito própria na forma como as cores se espalham pelas páginas e ajudam a criar uma atmosfera simultaneamente delicada e fantástica.

Mesmo assim, nem neste ponto as coisas são perfeitas. Há alguns desenhos, especialmente no quarto e último volume da série, que revelam claramente terem sido feitos um pouco "à pressa". Bem sei que o estilo do autor é este mesmo, assumindo o esboço do desenho, mas ainda assim, torna-se mais evidente no último volume que houve um desenho menos aprimorado, talvez pela necessidade do cumprimento de um prazo mais apertado. Digo eu.

Em termos de edição, o trabalho da G. Floy Studio volta a demonstrar-se bastante bem executado. Os livros apresentam capa dura baça, bom papel brilhante no miolo e uma boa encadernação e impressão. Apenas o livro 3 apresenta conteúdo adicional. Neste caso, trata-se de um excerto de um guião.

Em suma, os livros 2, 3 e 4 de Ascender confirmam aquilo que já me parecia evidente após a leitura do primeiro volume: estamos perante uma continuação interessante para o universo criado por Jeff Lemire e Dustin Nguyen, ainda que sem atingir o mesmo nível de qualidade da série original. A história mantém interesse, as personagens continuam cativantes e a arte permanece deveras deslumbrante. Pode não possuir o impacto emocional e conceptual de Descender, mas continua a ser uma leitura recomendável para quem deseja regressar a este fascinante universo de máquinas, magia, família e destino.


NOTA FINAL (1/10):
8.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal

Fichas técnicas
Ascender #2 – O Mar dos Mortos
Autores: Jeff Lemire e Dustin Nguyen
Editora: G. Floy Studio
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Fevereiro de 2022

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal

Ascender #3 – O Mago Digital
Autores: Jeff Lemire e Dustin Nguyen
Editora: G. Floy Studio Portugal
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Setembro de 2022

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal

Ascender #4 - Semente Estelar
Autores: Jeff Lemire e Dustin Nguyen
Editora: G. Floy Studio Portugal
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Fevereiro de 2023

terça-feira, 8 de setembro de 2026

As novidades da Devir para o segundo semestre de 2026!



São mais de 30(!) os novos livros que a Devir tem preparados para lançar ainda durante a segunda metade de 2026!

E, aviso já, há aqui boas notícias para amantes de diferentes géneros de BD!

Destaco as novas apostas em comics americanos, a reedição de um clássico americano, a aposta num autor francês, o fecho de algumas séries de mangá e a aposta em novas outras.

Ora vejam:

Vinheta 2020 aumenta visitas em... 8 vezes!!!


Se há coisas em que eu não sou obcecado é com as métricas, com os números, com os cliques, com as visitas aqui do Vinheta 2020. É óbvio que é bom saber que os visitantes se interessam, que aumentam em número e que as pessoas encontram aqui um espaço que fala de banda desenhada com que se possam identificar.

Mas, repito, não perco muito tempo a pensar nisso. Faço "a minha coisa", sempre que posso, da melhor forma que consigo. Bem ou mal.

Recentemente, dei conta de que o Vinheta 2020 ultrapassou os 2 milhões de visualizações! É o resultado de muita gente a vir aqui ao blog para ler os artigos que aqui são feitos.

É um número redondo e um feito porreiro, mas depois dei comigo a pensar: "espera... mas, se bem me lembro, o blog ultrapassou o milhão de visualizações há relativamente pouco tempo". Então, fui ver e dei-me conta que esse feito foi conseguido em novembro de 2025. Há menos de um ano!

Ora, se o blog demorou cerca de 5/6 anos a conquistar o seu primeiro milhão de visualizações, demorou apenas 9 meses a alcançar o seu segundo milhão!!! E isso sim deixou-me boquiaberto! Peguei numa calculadora e vi então que a média de visitas por dia neste espaço aumentou não uma, não duas, não três, não quatro, não cinco, não seis, não sete... mas oito vezes! Uau!

Só vos posso agradecer a todos os que estão aí desse lado. A grande maioria, anónima, que me visita diariamente. Este é, repito, um projeto pessoal que é feito apenas por uma pessoa. Não há uma equipa por detrás do Vinheta 2020... sou apenas eu. Não faço links patrocinados, não divido os meus artigos por várias páginas para aumentar cliques, não coloco publicidade no blog e muito menos tento criar tráfego para o blog com artigos que não falam de banda desenhada. Poderia falar de futebol, de política, de música, de cinema ou colocar vídeos de adolescentes a farmar aura... Não tenho dúvidas que aumentaria bem mais o número de visitas. Mas opto por me manter fiel a uma coisa: à banda desenhada. E saber que tanta gente me segue é um motivo de orgulho e deixa-me feliz por ter iniciado este projeto. E, ainda por cima, fi-lo sem grandes expectativas... apenas e só, porque amo banda desenhada. E que viagem tem sido...

Obrigado a todos vós!

Até breve.

Hugo Pinto

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Análise: Dostoiévski: O Sol Negro

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público
Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr

A segunda obra a ser lançada na mais recente Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público foi este Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr. Obra que procura traçar-nos uma biografia em banda desenhada sobre um dos mais célebres escritores de todos os tempos: Fiódor Dostoiévski. Escritor esse que, já agora, parece merecer especial atenção pela Levoir, já que a editora já nos fez chegar duas adaptações do autor para banda desenhada: Crime e Castigo, de Bastien Loukia, e O Idiota, de André Diniz.

De facto, Fiódor Dostoiévski é um dos mais importantes escritores da literatura mundial, autor de várias obras fundamentais e mais do que um "simples" romancista, pois conseguiu ser um dos grandes exploradores da alma humana, sendo igualmente capaz de mergulhar nas zonas mais sombrias da consciência, de forma a transformar as suas próprias angústias - e as da população, de um modo geral - em literatura.

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público
Este Dostoiévski: O Sol Negro começa com um dos episódios mais extraordinários da sua vida que eu, sinceramente, desconhecia. Em dezembro de 1849, Dostoiévski é conduzido para um pelotão de fuzilamento após ter sido condenado por atividades consideradas subversivas pelo regime czarista. No momento em que a execução parece inevitável, chega a ordem que suspende a sentença e a converte em trabalhos forçados na Sibéria. É a partir desse instante decisivo que os autores constroem uma viagem ao passado do autor em que revisitam alguns dos principais acontecimentos da sua vida.

E que vida foi essa! Ainda antes de se transformar no autor que todos conhecemos, Dostoiévski teve uma existência bastante conturbada e não particularmente fácil. Era jogador compulsivo, o que o deixou na penúria financeira e amorosa, já que a sua companheira - e compreensivelmente - foi perdendo a paciência para com o incessante vício ao jogo de Fiódor Epiléptico. Além da "vida vivida", o autor também tinha um demarcada "vida pensada", já que era constantemente assombrado por dúvidas espirituais, o que o fez viver em conflito consigo próprio e com o mundo que o rodeava. Consequentemente, a sua relação com a religião, com a política, com o amor e com a própria ideia de liberdade alimentaria grande parte da sua obra literária.

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público
Nota-se que a argumentista belga Chantal Van den Heuvel procurou realizar um trabalho sério e bem documentado. O livro percorre as várias fases da vida de Dostoiévski, desde a juventude até aos seus últimos anos, cruzando acontecimentos biográficos com o contexto político, social e cultural da Rússia do século XIX. Há um esforço evidente para mostrar a complexidade da personagem e a forma como as suas vivências influenciaram a sua produção literária.

Contudo, é precisamente aqui que surge, a meu ver, a principal limitação da obra. Ao tentar abarcar praticamente toda a vida do escritor, o livro acaba por se tornar um pouco difuso. Há tantos acontecimentos, tantas relações, tantas crises pessoais e tantos contextos históricos para abordar que a narrativa perde, por vezes, alguma concentração. Não é que fique desinteressante, mas sim confusa.

Acredito que teria sido (muito mais) preferível selecionar apenas os episódios mais relevantes e desenvolvê-los com maior profundidade. Em vez disso, a obra opta frequentemente por uma abordagem "panorâmica" que nos apresenta uma enorme quantidade de informação, mas sem dar a determinadas situações o espaço que mereciam para adquirir verdadeiro peso dramático. A questão do vício do jogo do autor é um ótimo exemplo disto. Embora seja uma faceta importante da personalidade de Dostoiévski, existem várias sequências que acabam por repetir essencialmente a mesma ideia: o descontrolo financeiro de Fiódor, a sua compulsão e as expectáveis consequências. Ficamos com situações que acabam por ser recorrentes, sem que isso mude muito a narrativa. É um desperdício de vinhetas. 

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público
Curiosamente, noutros momentos acontece exatamente o contrário. Certos períodos da vida do autor ou determinadas reflexões filosóficas surgem condensados em poucas páginas ou vinhetas, obrigando o leitor a absorver grandes quantidades de informação num curto espaço de tempo. O equilíbrio entre síntese e aprofundamento nem sempre é o mais eficaz, portanto.

Em termos visuais, o autor dinamarquês Henrik Rehr apresenta um trabalho competente e frequentemente interessante. Mais importante que isso, é um trabalho eficiente que consegue transmitir a atmosfera opressiva de São Petersburgo, o sofrimento físico do escritor e as várias situações que nos são relatadas. Não diria que o resultado gráfico seja verdadeiramente deslumbrante, mas é um desenho que cumpre bem os seus propósitos. 

Algo que considero menos positivo é a a planificação que se revela bastante densa, com muitas vinhetas por página. E tendo em conta o formato relativamente contido do livro, este tipo de planificação não ajuda a que os desenhos respirem. Em diversos momentos, a leitura adquire uma sensação algo claustrofóbica, não tanto por opção artística, mas pela quantidade de informação visual concentrada em cada página.

A edição da Levoir é na habitual capa dura baça, com bom papel baço no miolo e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação. No final do livro há cinco páginas com ilustrações e estudos de personagem, que sendo tão belos, também nos mostram que quiçá o trabalho final de Rehr nas ilustrações pudesse ter sido melhor. Pelo menos, havia potencial para tal.

Em suma, Dostoiévski: O Sol Negro não é uma obra-prima da banda desenhada biográfica nem uma leitura particularmente inovadora do ponto de vista formal, mas cumpre bem os seus propósitos. Não é um livro fantástico, mas é um livro útil, interessante e suficientemente competente para justificar a sua leitura, sobretudo junto daqueles que desejem conhecer melhor a vida atribulada de um dos maiores escritores de sempre.


NOTA FINAL (1/10):
7.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público

Ficha técnica
Dostoiévski: O Sol Negro
Autores: Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr
Editora: Levoir
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Junho de 2026

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Análise: Bug - Livro 4

Bug - Livro 4, de Enki Bilal - Arte de Autor

Bug - Livro 4, de Enki Bilal - Arte de Autor
Bug - Livro 4, de Enki Bilal

Foi ainda no final de 2025 que a Arte de Autor nos fez chegar o quarto volume de Bug, obra na qual o conceituado autor franco-jugoslavo Enki Bilal continua a desenvolver uma das mais ambiciosas e intrigantes propostas de ficção científica da banda desenhada europeia. O que deve ser motivo de felicidade para alguns dos leitores portugueses que, por vezes, me dizem que gostariam de ver mais BD de ficção científica a ser editada por cá.

Depois de ter lido os três primeiros tomos de forma consecutiva há já algum tempo, quando deles falei na análise que aqui publiquei, confesso que estava curioso para perceber para onde é que o autor iria conduzir a história com este quarto tomo. A resposta, como é habitual em Bilal, é simultaneamente fascinante e algo desconcertante.

Bug - Livro 4, de Enki Bilal - Arte de Autor
Neste Livro 4, Kameron Obb continua a ser o homem mais procurado do planeta. Afinal de contas, desde o grande bug informático global que apagou toda a informação digital do mundo, Obb tornou-se uma espécie de "arquivo vivo" da humanidade. Enquanto governos, organizações e grupos de toda a espécie tentam capturá-lo ou, pelo menos, manipulá-lo, o protagonista procura manter contacto com a sua filha Gemma, que continua envolvida numa teia de acontecimentos cada vez mais complexa e perigosa.

A grande novidade deste álbum reside, no entanto, na forma como Bilal procura aprofundar a própria natureza do bug. Até aqui podíamos encarar o fenómeno sobretudo como uma gigantesca catástrofe tecnológica. Neste quarto tomo, o autor parece querer elevar a questão para um plano mais existencial, já que o referido bug deixa de ser apenas um problema informático para assumir contornos que tocam conceitos como consciência, transcendência, divindade e evolução. Se já era uma história complexa, torna-se ainda mais complexa com este quarto tomo.

A mente de Obb é então invadida por forças que parecem ultrapassar a compreensão humana, e a sua sanidade começa gradualmente a deteriorar-se. A sensação é a de que o protagonista se encontra preso entre o homem que era e algo completamente novo que começa a emergir dentro de si.

Bug - Livro 4, de Enki Bilal - Arte de Autor
Tal como já acontecia nos tomos anteriores, Bilal continua a apresentar ideias extremamente estimulantes, devo dizer-vos. Continua a agradar-me bastante o seu olhar pouco otimista sobre o futuro das nossas sociedades. O autor explora de forma muito interessante esta distopia assente numa dependência tecnológica da humanidade, a perda da memória coletiva e a forma como os seres humanos delegaram grande parte daquilo que são às máquinas que criaram. No tempo corrente, em que a IA parece estar a entrar em todos as áreas possíveis da atividade humana, não poderia ser um tema mais relevante.

Como tal, e mais do que nunca, Bug parece interessado em refletir sobre a relação entre a humanidade e as suas próprias invenções. Entre a consciência humana e aquilo que poderá vir depois dela. São temas extremamente ricos, diria.

O problema é que, paralelamente a estas ideias fascinantes, a narrativa continua a sofrer de algumas das limitações que já me tinham incomodado nos volumes anteriores. A trama é densa, complexa e, por vezes, excessivamente fragmentada. Existem momentos em que parece que Bilal toma decisões narrativas quase por impulso, introduzindo conceitos ou situações que surgem de forma algo arbitrária.

Bug - Livro 4, de Enki Bilal - Arte de Autor
E essa sensação de dispersão acaba por ser ainda mais visível neste quarto tomo. Confesso que me senti mais perdido durante a leitura do que tinha acontecido anteriormente. Em parte, reconheço que isso pode dever-se ao facto de eu ter lido os três primeiros livros de seguida, o que facilitou bastante a assimilação do universo e das múltiplas personagens da série. Agora, com um intervalo temporal maior entre leituras, senti algumas dificuldades em reencontrar todos os fios narrativos. Por essa razão, até recomendo que quem pretender mergulhar em Bug procure ler os vários volumes de forma relativamente próxima. É uma obra que beneficia claramente da leitura contínua, sobretudo porque Bilal não faz grandes concessões ao leitor e raramente perde tempo a relembrar acontecimentos anteriores.

Ainda assim, apesar da crescente complexidade e de alguma confusão narrativa, nunca senti que a série tivesse perdido totalmente o interesse. 

E falar de Bug continua a ser falar também dos desenhos do seu autor. E, nesse capítulo, pouco mudou. O trabalho gráfico de Enki Bilal permanece absolutamente singular e espetacular. Basta olhar para uma vinheta durante alguns segundos para identificarmos imediatamente a sua autoria. Poucos artistas possuem um estilo visual tão reconhecível e tão pessoal - o chamado signature style.

Bug - Livro 4, de Enki Bilal - Arte de Autor
As suas figuras humanas continuam a surgir envoltas naquela atmosfera fria, quase melancólica, que caracteriza grande parte da sua obra. Os tons azulados, os cinzentos e os jogos de sombra e luz criam páginas de enorme impacto visual. Mesmo quem não se deixar envolver totalmente pela história dificilmente ficará indiferente à beleza das ilustrações.

Dito isto, mantenho algumas reservas relativamente ao facto do autor continuar a recorrer com enorme frequência a grandes planos e a vinhetas muito amplas que, apesar de visualmente deslumbrantes, nem sempre contribuem para o avanço da narrativa.

A edição da Arte de Autor continua no mesmo nível dos restantes livros da série, apresentando capa dura baça, bom papel brilhante no miolo e boa encadernação, impressão e acabamentos.

Resumindo, este Bug - Livro 4 deixa-me com uma sensação muito semelhante à que já tinha retirado dos volumes anteriores. Continuo a considerar esta uma série interessante, inteligente e visualmente extraordinária. Contudo, também continuo a sentir que a história perdeu parte da força e da objetividade dos primeiros capítulos, afundando-se gradualmente numa complexidade que nem sempre resulta em maior profundidade. Felizmente, a imaginação do autor e a beleza das suas ilustrações continuam a ser mais do que suficientes para justificar a viagem. Mesmo que, por vezes, não saibamos exatamente para onde ela nos está a levar.


NOTA FINAL (1/10):
7.9



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Bug - Livro 4, de Enki Bilal - Arte de Autor

Ficha técnica
Bug - Livro 4
Autor: Enki Bilal
Editora: Arte de Autor
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 234 x 312 mm
Lançamento: Novembro de 2025

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Ala dos Livros encerra (por agora) a espetacular série "Shi"!




A Ala dos Livros prepara-se para publicar, a partir do próximo dia 8 de Setembro, o terceiro e último livro da série Shi, de Zidrou e Homs.

Faço aqui uma ressalva: supostamente, a série não está totalmente "fechada". É esperado que os autores venham a fazer mais um ciclo, dividido por dois tomos. 

Mas, pelo menos ao dia de hoje, podemos dizer que a série fica integralmente publicada em Portugal, pois apenas existem 6 volumes de Shi, divididos em dois ciclos: o primeiro ciclo, que inclui 4 tomos e que a Ala dos Livros editou em dois volumes duplos; e este segundo ciclo, composto por 2 tomos, respetivamente, Black Friday e O Grande Fedor, que a editora portuguesa se prepara agora para editar, novamente num álbum duplo.

Esta é uma série verdadeiramente espetacular, a todos os níveis, que recomendo vivamente a qualquer leitor. Tanto o primeiro como o segundo volume me deixaram abismalmente fascinado perante uma história tão densa e desenhos tão incríveis.

Por todos estes motivos, quero muito ler este volume que, por agora, encerra a série Shi.


Shi - Livro 3, de Zidrou e Homs

Após os acontecimentos em Londres, Jay e Kita săo, mais do que nunca, consideradas terroristas pela burguesia hipócrita.
No entanto, graças ao grupo "Măes Furiosas", a sua luta espalhou-se como fogo em palha seca. Tanto que a marca SHI nunca esteve tăo visível em Londres. No túmulo de Jay, Apolline começa a compreender a vida que a sua măe biológica levou até entăo. Uma vida de lutas e de batalhas, dedicada a uma causa. Mas será Apolline suficientemente forte para suportar o peso do seu legado? Estará preparada para assumir o lugar dessa măe falecida sobre quem nada sabe, excepto através de boatos populares e pedidos de resgate?

Londres, 1858. Enquanto Jay aguarda o seu julgamento na prisăo, após os trágicos eventos de Trafalgar Square, e tanto Kita como Sensei, com os seus demónios, lutam para recuperar dos seus ferimentos, uma nova calamidade assola a Inglaterra e a capital do Império Vitoriano. Uma onda de calor intensa seca o Tamisa, poluindo Londres e ameaçando reacender uma epidemia de cólera.

Mas isso năo impede as fundadoras das "Măes Furiosas" de planearem novos ataques, de lutarem pelo fim do trabalho infantil e de procurarem a filha de Jay. Só falta a encarnaçăo do quarto demónio para finalmente se vingarem do Império, porque, como diz a cantiga infantil: "4 é o seu número, o seu número maligno"... Desta vez, Zidrou mergulha as suas heroínas, sedentas por vingança e justiça social, no coraçăo de um evento histórico que ressoa com particular força nos dias de hoje: "O Grande Fedor", uma catástrofe climática que desencadeou uma verdadeira revoluçăo na saúde pública de Inglaterra. Um ambiente crepuscular onde a arte evocativa de Homs mais uma vez opera maravilhas.

“Shi” é uma das mais aclamadas séries da BD franco-belga da actualidade, uma obra fascinante que a Ala dos Livros publica em Portugal.

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Ficha técnica
Shi - Livro 3
Autores: Zidrou e Homs
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura, com lombada em tecido
Formato: 235 x 320 mm
PVP: 32,00€

Análise: Adèle Blanc-Sec - Série Completa

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir
Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi

Hoje falo-vos de Adèle Blanc-Sec, de Jacques Tardi, uma série que já conheço há muitos anos e que, embora já tivesse sido editada, em parte, pelas editoras Bertand e ASA, só foi integralmente editada, no final do ano passado, pelas mãos da editora Levoir. Coisa que merece as minhas vénias, pois a série tinha estado décadas - sim, décadas! - incompleta. Demorou 47 anos(!) entre a publicação do primeiro tomo, pela Bertrand, em 1978, e o último, em 2025, e não sei se isto é algo que nos devamos orgulhar ou envergonhar. Mas adiante!

Esta é uma série especial e profundamente original, que marcou bastante as minhas leituras durante os anos 90, quando a li pela primeira vez. E esta releitura que fiz de alguns clássicos - bem como, a primeira leitura de alguns dos tomos que eu ainda não conhecia - levou-me a mergulhar neste universo especial que, naturalmente, ocupa um lugar muito particular na história da banda desenhada europeia. 

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir
Publicada originalmente a partir de 1976, Adèle Blanc-Sec é uma série que parece diferente de todas as outras e que rapidamente se destacou pela sua combinação improvável de fantasia, terror, mistério, ficção científica, policial e sátira social. Sim, Adèle Blanc-Sec é tudo isso!

A protagonista, Adèle Blanc-Sec, é uma das grandes heroínas da banda desenhada europeia. Ela é escritora, aventureira, investigadora e uma mulher com uma independência pouco comum para a época em que as histórias decorrem. Adèle move-se por um mundo repleto de fenómenos inexplicáveis, cientistas loucos, sociedades secretas, múmias, monstros pré-históricos e conspirações de toda a espécie. E o mais curioso é que, apesar da extravagância dos acontecimentos, a personagem mantém quase sempre uma atitude pragmática perante o absurdo que a rodeia.

Considero que um dos maiores méritos da série é precisamente a forma como Tardi mistura géneros. As aventuras de Adèle começam muitas vezes como histórias policiais ou de mistério, mas rapidamente derivam para territórios fantásticos e surrealistas. Dinossauros que sobrevoam Paris, experiências científicas impossíveis ou figuras saídas do ocultismo - "you name it" - convivem naturalmente com uma recriação histórica meticulosa da capital francesa do início do século XX.

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir
Paris é, aliás, uma verdadeira protagonista da série. As ruas, os cafés, as avenidas, os monumentos e os bairros são recriados com um rigor impressionante por parte de Jacques Tardi. Como tal, essa é outra das coisas que me agrada nesta série: a de ser transportado para uma cidade que tanto admiro. As próprias guardas dos livros não só são lindas, como representam um autêntico postal ilustrado de Paris!

Outra das coisas que aprecio na série é o seu humor. É verdade que há uma presença frequente da morte, do crime, do sobrenatural e de acontecimentos perturbadores, mas a série é constantemente atravessada por uma ironia subtil. Tardi ridiculariza autoridades, cientistas, militares, burocratas e figuras do poder com uma elegância mordaz. Mas atenção que não é um tipo de humor que se apoie em gags ou trocadilhos... é um estilo de humor que nasce mais do contraste entre a seriedade das personagens e o absurdo das situações em que elas se veem metidas.

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir
Mas nem tudo é leveza na série porque, contrariamente a algumas bandas desenhadas mais clássicas de aventura, há frequentemente uma atmosfera melancólica e desencantada. E isso, parece-me, acontece porque existe uma certa dureza no olhar de Tardi sobre a sociedade, sobre o exercício do poder e sobre a natureza humana. 

É também justo reconhecer que Adèle Blanc-Sec nem sempre é uma leitura fácil ou entusiasmante. A liberdade criativa de Tardi, que constitui uma das grandes forças da série, reconheço, pode igualmente transformar-se numa das suas maiores limitações. Isto porque a sucessão constante de acontecimentos absurdos ou delirantes tende, nalguns casos, a enfraquecer a credibilidade do enredo e a reduzir o envolvimento emocional do leitor. Pelo menos, foi isso que senti nesta nova leitura que fiz de alguns álbuns mais clássicos. Certos elementos do fantástico deixaram-me muito impressionados quando li a série enquanto adolescente, mas, no tempo presente, senti que alguns acontecimentos nas histórias eram algo forçados em demasia.

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir
Visualmente, os desenhos de Jacques Tardi, essa celebridade da banda desenhada francesa - e não só - apresentam um traço verdadeiramente reconhecível. Tardi é mais um daqueles autores em que nos basta olhar durante segundos para um desenho seu para percebermos logo quem é o autor. Não se trata de um desenho exuberante ou excessivamente espetacular, mas de um estilo profundamente eficaz e expressivo. Considero que, por vezes, existe algum caos visual, com balões com bastante texto e encavalitados junto às personagens, mas diria que isso também faz parte do charme singular das obras do autor.

Pessoalmente, considero que os primeiros volumes continuam a representar o auge criativo da série. Existe neles uma frescura, uma imprevisibilidade e um sentido de descoberta que dificilmente se repetem mais tarde. Ou melhor, até se repetem, mas sem a mesma frescura. Isso não significa que os álbuns posteriores sejam fracos. Apenas que os primeiros tomos possuem, a meu ver, uma maior energia criativa e um encanto difícil de replicar.

Em termos de edição, a Levoir apresentou-nos um bom trabalho. Cada um dos volumes apresenta capa dura brilhante - exceto os dois últimos volumes, O Labirinto Infernal e O Bebé de Buttes-Chaumont, o que merece a minha única chamada negativa à edição. Tratando-se de uma coleção integral, este lapso foi uma pena. De resto, os livros apresentam bom papel brilhante no interior e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação.

No final, Adèle Blanc-Sec permanece uma das grandes criações da banda desenhada europeia, e recomenda-se a públicos de todas as idades. Original, inventiva e elegante, a série demonstra que é muito mais do que uma simples sucessão de aventuras fantásticas. É uma obra que continua a surpreender pela inteligência, pela imaginação e pela capacidade de transformar o passado histórico num território sem limites para a fantasia. Um clássico da banda desenhada, portanto.


NOTA FINAL (1/10):
9.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Fichas técnicas
Adèle Blanc-Sec #1 - Adèle e o Monstro
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Junho de 2024

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #2 - O Demónio da Torre Eiffel
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Julho de 2024

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #3 - O Cientista Louco
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Setembro de 2024

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #4 - Múmias à Solta
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Fevereiro de 2025

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #5 - O Segredo de Salamandra
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores  
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Junho de 2024

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #6 - O Afogado com as Duas Cabeças
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Julho de 2024

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #7 - Todos os Monstros
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Setembro de 2024

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #8 - O Mistério das Profundezas
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Fevereiro de 2025

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #9 - O Labirinto Infernal
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Outubro de 2025

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #10 - O Bebé de Buttes-Chaumont
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 72, a cores 
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Outubro de 2025