segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Análise: O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros
O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar

Foi há poucas semanas que a Ala dos Livros lançou o livro O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar, dando assim continuidade a esta série retomada pela editora no tomo 6, Não Terás Outro Deus Além de Mim, há cerca de 5 anos - os primeiros cinco volumes já haviam sido lançados por cá, relembro, pela editora ASA. De facto, foi bastante grande o interregno entre os volumes 6 e 7, coisa rara nas coleções editadas pela Ala dos Livros.

Estamos, pois, de regresso a este universo muito particular criado por Joann Sfar, onde a reflexão filosófica, a sátira religiosa e um certo absurdo convivem de forma natural.

Este novo episódio leva-nos de volta a Argel e centra-se nas discussões relativamente pacíficas entre o rabino Sfar e o seu primo, o imã Sfar, que acabam analisar as diferenças das suas religiões. E mesmo quando a mesquita sofre uma inundação e o rabino e o imã se veem forçados a concordar que os muçulmanos terão que rezar na sinagoga enquanto as reparações da mesquita são feitas, as diferenças entre ambos parecem ser mais que muitas, mesmo que até haja uma natural e positiva boa vontade de parte a parte.

A história desenvolve-se, depois, em torno deste acontecimento maior, permitindo a Sfar revisitar muitos dos temas que se tornaram centrais na série: a identidade, a fé e a convivência entre culturas. Como é habitual em O Gato do Rabino, o enredo parece menos interessado em chegar a um destino específico do que em apreciar as reflexões, os desvios e os encontros que surgem às personagens pelo caminho.

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros
E, claro, para isso muito contribui as tiradas e monólogos do Gato que são verdadeiramente apetecíveis e divertidas, sempre com um humor muito próprio. A personagem protagonista parece ser o próprio catalisador do pensamento de Joann Sfar, permitindo depositar no animal os comentários divertidos, mas sempre lógicos, que pairam na sua própria mente. E na mente de tantos outros, diria.

Há também uma analogia sempre presente, que neste caso se apoia no microcosmos das inundações na mesquita e na própria vinda dos novos gatos "estrangeiros" para a casa da dona do protagonista, que lhe roubam o leite da sua tigela. Esta analogia reflete-se naquilo que vivemos nos tempos atuais, em que as religiões continuam de costas voltadas e em que, cada vez mais, surgem movimentos contra os imigrantes que - dizem os iletrados em economia demográfica - nos vêm tirar o nosso sustento. É curiosa e inteligente a forma como Sfar faz crítica social, sem parecer, à primeira vista, que este é um livro satírico.

E contrariamente ao volume anterior, Não Terás Outro Deus Além de Mim, que me tinha deixado com sentimentos bastante mistos, confesso, este A Torre de Bab-El-Oued conseguiu conquistar-me de forma mais evidente. Continua a ser uma obra profundamente excêntrica e muito própria, é certo, mas desta vez senti que a história, sendo por ventura mais linear e menos poética, conseguiu atar melhor as pontas entre os acontecimentos a envolver as personagens e aquilo que o autor procura passar em termos de mensagem. Saí da leitura mais satisfeito e mais envolvido com aquilo que Sfar procurava transmitir.

E gosto especialmente da forma como o autor continua a abordar a religião sem qualquer tipo de reverência excessiva. Judaísmo, cristianismo ou islamismo surgem constantemente sujeitas ao olhar crítico, irónico e provocador do autor. Sfar não parece interessado em atacar especificamente uma religião, mas sim em encontrar as contradições, os paradoxos e os absurdos que existem em todas elas.

O humor ácido presente ao longo da obra revela-se, por isso, uma das suas maiores virtudes. Muitas das melhores passagens resultam precisamente da capacidade que o autor tem para desmontar dogmas, questionar certezas e expor a fragilidade de muitas convicções humanas através de situações absurdas e diálogos mordazes. 

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros
Ainda assim, permanece uma reserva que já tinha identificado no tomo anterior: a sensação de que a narrativa avança frequentemente ao "sabor da maré". Nem sempre existe uma progressão dramática muito definida e há momentos em que a história parece construída a partir de associações livres de ideias, mais próximas do devaneio do que de uma estrutura narrativa tradicional. 

Contudo, desta vez senti que essa abordagem me incomodou bastante menos. Talvez porque as reflexões me pareceram mais inspiradas, talvez porque o humor funciona melhor, ou talvez porque a própria leveza do tom acaba por justificar essa estrutura mais errática. 

No campo gráfico, Joann Sfar continua a apresentar uma identidade visual absolutamente singular. O seu traço permanece expressivo, ondulado, espontâneo e quase improvisado. Há momentos em que essa aparente espontaneidade pode ser confundida com alguma falta de rigor, mas a verdade é que o conjunto continua a possuir uma personalidade artística inconfundível. As figuras são deformadas e as perspetivas irregulares, contribuindo para criar um mundo onde o absurdo e a reflexão coexistem sem qualquer atrito. É uma estética que pode não agradar a todos os leitores, imagino, mas que dificilmente deixará alguém indiferente, tendo em conta a sua singularidade.

A edição da Ala dos Livros é em capa dura brilhante, com bom papel brilhante no interior e um bom trabalho de encadernação e impressão.

Em conclusão, O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued deixou-me mais convencido do que o volume anterior. Continua a apresentar uma narrativa algo fragmentada e errática que, por vezes, parece avançar sem rumo definido, mas compensa essa fragilidade com reflexões inteligentes, um humor extremamente ácido e uma sátira religiosa tão irreverente quanto perspicaz. 


NOTA FINAL (1/10):
8.1


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros

Ficha técnica
O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued
Autor: Joann Sfar
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 84, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Julho de 2026



Ala dos Livros prepara-se para lançar "O Acidente de Caça"!



Eis uma bela surpresa e (mais) um dos lançamentos de BD do ano!

A Ala dos Livros já fez saber que vai lançar, brevemente, a obra O Acidente de Caça, da autoria dos americanos David L. Carlson e Landis Blair!

Esta é uma obra que abalou o mercado da banda desenhada, aquando do seu lançamento original em 2017, tendo sido vencedora nos prémios de Angoulême e dos Eisners!

Além disso, é uma obra gigante, com mais de 400 páginas, o que faz desta uma aposta de peso - a todos os níveis - por parte da Ala dos Livros, que não cessa de nos apresentar grandes obras de banda desenhada. Estou particularmente feliz com esta novidade.
Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais das edições inglesa e francesa.


O Acidente de Caça, de David L. Carlson e Landis Blair

Foi um acidente de caça - disso Charlie tem a certeza. Foi assim que o seu pai, Matt Rizzo - um intelectual gentil que escreve poemas épicos em Braille - perdeu a visão. Charlie só descobre a verdade durante a conturbada adolescência, quando enfrenta uma pena por pequenos delitos.

Matt Rizzo ficou cego depois de ter levado um tiro de caçadeira na cara - mas isso aconteceu enquanto participava num assalto à mão armada.

Recém-cego e sem esperança, Matt começou a sua nova e sombria vida na prisão de Stateville. Mas, neste lugar improvável, a vida e a própria alma de Matt foram salvas por um dos mais notórios assassinos da América: Nathan Leopold Jr., da infame dupla Leopold e Loeb.

De David L. Carlson e Landis Blair, surge a inacreditável história verídica de um pai, um filho e uma extraordinária viagem do desespero à iluminação.


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Vem aí um novo livro de Blueberry!




A ASA prepara-se para editar, a partir do próximo dia 22 de Setembro, um novo livro dedicado a Blueberry, um dos cowboys mais famosos de sempre do universo da banda desenhada!

Trata-se de uma edição especial, pois este é um livro comemorativo dos 60 anos de Fort Navajo, o primeiro álbum da série originalmente criada por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud (AKA Moebius).

O livro, que já se encontra em pré-venda no site da editora, conta com várias histórias curtas e ilustrações da autoria de nomes famosos da banda desenhada como Milo Manara, Mathieu Lauffray, Blutch, Jérôme Félix, Enrico Marini, Ralph Meyer, Corentin Rouge, entre muitos outros.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da edição original.


No Rasto de Blueberry, de Vários Autores

Por ocasião do 60.º aniversário de Blueberry (lançamento do primeiro álbum, Fort Navajo, 1965), série de culto criada por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud, grandes autores prestam homenagem a Mike Steve Blueberry. 

Assim, os autores Anlor, Alberto Belmonte, Dominique Bertail, Michel Blanc-Dumont, Blutch, Olivier Bocquet, Vincent Brugeas, Stefano Carloni, Alexandre Coutelis, Fred Duval, Jérôme Félix, Paul Gastine, Goossens, Mathieu Lauffray, Lu Ming, Jean Mallard, Milo Manara, Enrico Marini,
Mathieu Mariolle, Thierry Martin, Matz, Ralph Meyer, Félix Meynet, Vincent Perriot, Corentin Rouge, Olivier Taduc, Ronan Toulhoat, Jean- François Vivier e Philippe Xavier criaram, cada um, uma história curta ou uma ilustração para homenagear esta grande personagem da BD franco-belga.
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Ficha técnica
No Rasto de Blueberry
Autores: Vários
Editora: ASA
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 24,90€

Análise: Thorgal - Wendigo

Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge - A Seita

Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge - A Seita
Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge

Foi há poucas semanas que chegou às livrarias portuguesas o mais recente livro dedicado à série de fantasia Thorgal, uma saga originalmente criada por Jean Van Hamme e Grzegorz Rosinski. Este livro está inserido em Thorgal Saga, uma série que procura convidar autores a darem o seu cunho pessoal à série, através de um álbum autocontido e, portanto, fora da história da série canónica. O primeiro álbum desta iniciativa que já conta com 6 volumes em França foi o muito belo Adeus Aaricia, de Robin Recht, já por cá editado também pel' A Seita.

Wendigo chega-nos pelas mãos de Fred Duval e Corentin Rouge e a ideia com que fiquei, no final da leitura, é que estamos perante uma aventura sólida que nos entretém, e que é visualmente muito apelativa, mas que acaba por ficar um pouco aquém das expectativas. Pelo menos, das minhas expectativas. Especialmente, se tivermos em conta o anterior Adeus Aaricia

Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge - A Seita
A história de Wendigo leva-nos até ao território americano e decorre durante a viagem de regresso de Thorgal e da sua família do país de Qa. Pelo caminho, a família vê-se envolvida num conflito entre dois povos indígenas, numa região selvagem onde a violência se intensifica após a invocação da figura mitológica de Wendigo. Com Aaricia grávida e gravemente ferida, Thorgal vê-se obrigado a agir, entrando novamente numa guerra que não é a sua, mas da qual não consegue fugir. 

Até porque para salvar Aaricia, Thorgal terá que embarcar numa missão que faz recordar algumas das aventuras mais clássicas da série. A solução para a saúde da sua amada passa pela obtenção de uma flor rara que cresce no topo de uma gigantesca árvore-mundo. E para alcançar esse objetivo, Thorgal une forças com um dos indígenas da tribo e com uma guerreira viking quem, entretanto, aparece no seu caminho. 

É uma abordagem bastante clássica das histórias da personagem, o que pode agradar aos leitores mais clássicos da série. A ação desenrola-se entre florestas densas e os impressionantes ramos da árvore-mundo, proporcionando vários momentos de tensão e de espetáculo visual.

No entanto, apesar da premissa interessante e do recurso a elementos do folclore ameríndio que são bem-vindos, a verdade é que a história acaba por seguir caminhos demasiado previsíveis. Quase tudo decorre da forma esperada, sem verdadeiras surpresas ou reviravoltas marcantes. 

Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge - A Seita
E esse acaba por ser, quanto a mim, a principal fragilidade do álbum. É que sendo uma obra integrada na linha de "livros de autor", esperava-se uma abordagem mais ousada, capaz de explorar aspetos menos conhecidos das personagens ou apresentar uma leitura diferente deste universo. Algo como Robin Recht fez - e bem - no já anteriormente mencionado Adeus Aaricia. Fred Duval opta, pelo contrário, por construir uma aventura muito convencional, que poderia facilmente integrar a série principal sem causar qualquer estranheza. Parece-me até que Fred Duval não entendeu bem a razão de ser desta "coleção de autor" preferindo fazer uma história que funciona mais como hommage, sem recriar algo de verdadeiramente novo.

Isto não significa que a leitura seja desinteressante, atenção. Pelo contrário, a narrativa mantém um ritmo eficaz e consegue prender a atenção ao longo das suas páginas. O "problema" não está na qualidade da execução, mas sim na falta de ambição em relação às possibilidades oferecidas por este formato mais livre e experimental.

Se o argumento deixa algumas reservas, o mesmo não pode ser dito do trabalho gráfico de Corentin Rouge. O desenhador confirma mais uma vez o enorme talento que tem demonstrado em trabalhos anteriores. As personagens são extremamente expressivas, transmitindo emoções de forma imediata e convincente. E também os momentos de ação constituem outro dos grandes destaques da obra. As cenas de combate, perseguição e sobrevivência apresentam uma excelente dinâmica visual. Rouge consegue criar movimento dentro de cada prancha, envolvendo o leitor nos acontecimentos e aumentando a intensidade das sequências mais espetaculares. E há várias delas. Sou um grande admirador do trabalho deste autor, reconheço!

Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge - A Seita
Ainda assim, fiquei com a sensação de que o estilo gráfico de Corentin Rouge funciona melhor em universos mais contemporâneos. Obras como Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, Islander ou Rio parecem, quanto a mim, adequar-se de forma mais natural às características do seu traço, que é muito direto, energético e centrado na ação. Em contextos históricos ou de fantasia, como acontece em Thorgal, o resultado continua a ser bastante bom, mas talvez menos surpreendente. Não se trata de uma questão de qualidade de desenho, porque essa está presente em abundância ao longo de todo o álbum. Simplesmente, a vertente mais poética, contemplativa e mítica que se associa ao universo de Thorgal parece não beneficiar tanto deste estilo mais moderno, desnudo e cinematográfico de Rouge. Ainda assim, reitero que Corentin Rouge é um ilustrador fenomenal, do qual sou um totalmente fã. 

Nota ainda, muito positiva, para a fantástica ilustração da capa que é impactante, elegante e imediatamente apelativa. É uma daquelas capas que, quer parecer-me, capta o olhar de qualquer transeunte de uma livraria, ao transmitir na perfeição o ambiente de aventura e mistério presente na obra. 

A edição da editora A Seita é muito bem conseguida. O livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz e com uma textura aveludada, suave ao toque, que tanto aprecio, e um excelente papel brilhante no miolo. A impressão, a encadernação e os acabamentos também têm uma qualidade que impressiona. Por fim, o caderno de extras também está fantástico, reunindo oito ilustrações verdadeiramente espetaculares e ainda um texto de cada um dos autores.

Em suma, Thorgal - Wendigo revela-se uma leitura competente, bem desenhada e agradável, que tem o potencial para aguardar aos fãs mais antigos da série, mesmo que, a meu ver, dificilmente possa figurar entre os livros mais memoráveis do universo de Thorgal, sobretudo por optar por uma fórmula demasiado segura quando poderia ter arriscado muito mais. É, acima de tudo, para isso que servem - ou deveriam servir - "os álbuns de autor"... para que se possa arriscar mais a todos os níveis.


NOTA FINAL (1/10):
8.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge - A Seita

Ficha técnica
Thorgal - Wendigo
Autores: Fred Duval e Corentin Rouge
Editora: A Seita
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 325 mm
Lançamento: Maio de 2026

Penguin aposta em novo autor português!!!


A editora Penguin, que aparentemente está a deixar cair o nome da chancela Iguana para usar apenas a nomenclatura "Penguin", prepara-se para editar, a partir do próximo dia 7 de Setembro, Mar de Rosas, a primeira obra de grande fôlego do autor português Tomás Sousa!

Posso dizer-vos que já conheço um pouco do trabalho do autor, especialmente pela sua história curta A Paragem (Cadernos da Tentáculo 2), que até lhe valeu uma nomeação para o VINHETA D'OURO para Melhor Curta de Autor Nacional no ano passado, e que sou um admirador do seu traço e do seu trabalho.

Agora, o autor lança-se com este Mar de Rosas, que é apelidado como uma "fotonovela", coisa que despertou o meu interesse, já que parece tratar-se de uma história de amor carregada de intriga.

Estou mesmo muito curioso para o que pode vir deste livro.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Mar de Rosas, de Tomás Sousa

Uma história de amor proibida, uma heroína muito boa, uma vilã muito má e uma teia de intrigas digna de novela.

Numa família abastada prestes a enfrentar o caos, Rosalinda fará tudo para casar com Sebastião e garantir a herança — até afastar Celeste, a jovem apaixonada por ele. Quando o patriarca morre e o casamento ameaça ruir, intrigas, chantagem e ambições desmedidas rebentam à superfície.
Entre uma irmã determinada a proteger o legado, outra dividida entre o mundo e o convento, e um advogado cúmplice que acaba por recuar, a teia de Rosalinda implode. 

Presa e traída, jura regressar… mas até os cúmplices têm limites.

Uma banda desenhada inspirada nas antigas fotonovelas, onde nem os anúncios (ou reclames, como se dizia antigamente) faltam.




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Ficha técnica
Mar de Rosas
Autor: Tomás Sousa
Editora: Penguin
Páginas: 192, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 171 x 239 mm
PVP: 20,45€

Nova Novela Gráfica da Levoir e do Público já está nas bancas!


Sai com hoje com o jornal Público, a obra Estamos Todas Bem, de Ana Penyas! E este é um dos livros que mais está a despertar a minha curiosidade, por toda a relevância e destaque que ganhou no país vizinho quando, em 2018, foi o livro vencedor do Premio Nacional del Cómic, em Espanha.

Relembro que esta é também a 8ª obra - de um total de 12 - já publicada da Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais da obra.

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas

O Público e a Levoir apresentam a obra biográfica da primeira Mulher galardoada com o Prémio Nacional do Comic em Espanha. 

A 28 de Agosto será editado Estamos todas bem, a premiada obra da espanhola Ana Penyas.

Através das memórias das suas avós, a autora, oferece um olhar íntimo sobre as vidas de duas mulheres sob o franquismo e nas primeiras décadas da democracia espanhola, e explora a experiência de toda uma geração de mulheres cujas vidas quase não foram contadas.

Misturando passado e presente, Estamos todas bem ilustra, através de fotografias, colagens e ilustrações gráficas, o quotidiano daquela época com uma visão decididamente feminista.

Ana Penyas contrasta o passado com o presente da rotina diária de Maruja: a solidão, o envelhecimento e a consequente dificuldade de se deslocar num ambiente pouco favorável aos peões como o retrata nas primeiras páginas. A longa caminhada de regresso a casa a partir do parque, que antes demorava apenas alguns segundos, leva-lhe agora vários minutos. As memórias misturam-se com os acontecimentos actuais através de imagens e vozes.

Um livro simplesmente espantoso em que Penyas mostra ser uma narradora muito subtil, permitindo que os seus desenhos revelem ao leitor exactamente o que este deseja descobrir.

Depois de uma história verdadeira passada no Irão dos ayatollahs (A Aranha de Mashaad), da vida do grande escritor russo (Dostoiévski o sol negro), da história da colonização espanhola na Guiné Equatorial (Dez Mil Elefantes),
de uma viagem ao Alasca que foi sem ser (Partir, ficando), da história de Taiwan (Formosa) ou de um thriller inspirado em acontecimentos reais (Albert Londres tem de desaparecer) surge ainda no âmbito do 80.º aniversário da publicação de O Principezinho em França, (Saint-Exupéry e a origem do Principezinho).

Penyas nasceu em Valência (Espanha), em 1987. É licenciada em Design Industrial e em Belas-Artes pela Universidade Politécnica de Valência.

Recebeu uma menção especial no Ibero-America Ilustra 2015 e venceu o VII Catálogo Ibero Catálogo Ibero-Americano de Ilustração, em 2016. Em 2017, recebeu o Prémio Internacional de Banda Desenhada Fnac-Salamandra, graças ao qual publicou a sua primeira banda desenhada, Estamos todas bem. Em 2018, foi galardoada com o Prémio de Revelação de Autor Nacional da Feira da Banda Desenhada de Barcelona e com o Prémio Nacional de Banda Desenhada pela mesma obra.

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Ficha técnica
Estamos Todas Bem
Autora: Ana Penyas
Editora: Levoir
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 170 mm
PVP: 16,90€

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Análise: Blacksad #5 - Amarillo

Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros

Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido

Foi há poucas semanas que a editora Ala dos Livros lançou o quinto volume da série Blacksad, assegurando deste modo que tem toda a série disponível no seu catálogo. Trata-se de uma edição super especial dos primeiros cinco tomos que reúne a A História das Aguarelas em que nela nos é dado um rigoroso conteúdo extra em que o ilustrador Juanjo Guarnido nos explica as opções tomadas em relação às cores utilizadas em cada álbum. Além disso, a lombada em tecido agrupada dos cinco volumes forma o logótipo "Blacksad". É uma edição espetacular! 

Para que não se percam, relembro que estes primeiros cinco tomos da série já haviam sido lançados em Portugal há vários anos pela ASA e pela Arcádia. Os quatro primeiros pela ASA e o quinto pela Arcádia. Entretanto, a série recebeu mais uma história dividida em dois volumes, Então, tudo cai, que a Ala dos Livros também tem no seu catálogo. Há a possibilidade - mas ainda sem confirmação - desse díptico vir a ser incluído nesta coleção, reunindo os dois tomos num só volume com lombada a condizer e a inclusão da História das Aguarelas. Mas, claro, isso ainda é algo em estudo, não havendo para já nenhuma confirmação da Ala dos Livros.

Centrando-me neste quinto tomo, Amarillo, que tive a oportunidade de reler há uns dias, devo dizer que este é, quanto a mim, o menos impressionante de todos os álbuns da série. No entanto, essa perceção resulta menos das fragilidades da obra e mais da extraordinária qualidade daquilo que a precede e sucede.

Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Aqueles que me leem já o devem saber - pelo menos, faço referência a isso muitas vezes que Blacksad - juntamente com Armazém Central, por motivos diferentes - é a minha série favorita de banda desenhada. Esta é uma daquelas raras séries que, para mim, parece ter tudo. Adoro as histórias, adoro o ambiente noir, adoro o carisma das personagens e adoro, acima de tudo, a arte absolutamente extraordinária de Juanjo Guarnido. Talvez por adorar tanto a série é que considero que Amarillo acabe por ficar uns furos abaixo dos restantes álbuns.

Quero deixar uma coisa clara desde o início: considero Amarillo um belo álbum. O problema, se é que lhe podemos chamar "problema", é que pertence a uma série que me habituou à excelência absoluta. E quando comparo este quinto volume com os anteriores, sinto que é o menos forte da coleção. Mas, lá está, essa observação diz mais sobre o nível extraordinário de Blacksad do que sobre qualquer falha grave deste livro.

Desta vez, Canales leva-nos por um caminho diferente. Em vez de uma investigação policial clássica, temos uma espécie de viagem pelas estradas americanas, numa narrativa mais próxima de um road movie. A mudança de registo é interessante e permite explorar novos cenários e novas personagens, mas ao mesmo tempo senti falta daquela intensidade narrativa e daquele suspense que marcaram profundamente os restantes álbuns.

Ao longo da leitura nunca perdi o interesse, é certo, mas também nunca senti aquele fascínio quase hipnótico que experimentei em álbuns como Arctic-Nation ou Algures Entre as Sombras. A história de Amarillo flui bem, é envolvente e está cheia de bons momentos, mas nem sempre atinge os mesmos picos emocionais e dramáticos a que a série me habituou.

Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Ainda assim, há algo neste livro que é muito do meu agrado: a forma como Canales retrata a América dos anos 50. As estradas intermináveis, os motéis esquecidos, os pequenos negócios à beira da estrada e os sonhos de liberdade criam uma atmosfera irresistível. Mesmo quando a narrativa parece menos ambiciosa, o mundo de Blacksad continua a ser um lugar onde adoro passar o meu tempo.

As personagens secundárias, especialmente Chad Lowell, voltam a ser um dos grandes trunfos da obra. Uma das coisas que mais admiro nesta série é a capacidade de apresentar figuras que surgem durante poucas páginas e, mesmo assim, conseguem deixar marca. 

Quanto ao protagonista, John Blacksad, continua simplesmente incrível. O seu humor, a sua inteligência, o seu sentido moral e o seu charme fazem dele uma personagem realmente impactante.

Já visualmente, Amarillo continua a estar muito acima da esmagadora maioria da banda desenhada que podemos ler. No entanto, confesso que mesmo neste ponto senti que Guarnido talvez não tenha sido tão meticuloso como costuma ser. E isso nota-se claramente no desenho mais em esboço de personagens em segundo plano ou em alguns cenários. É claro que, em contraponto, há imensos desenhos que são lindos de morrer e que nos deixam verdadeiramente deslumbrados. 

Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
As aguarelas, por seu turno, continuam a ser de uma beleza impressionante. Guarnido mantém uma capacidade quase mágica para trabalhar a luz, as cores e as atmosferas. As paisagens quentes e poeirentas do sudoeste americano estão cheias de vida e ajudam a criar uma identidade visual muito própria para este volume.

Também continuo completamente rendido ao design das personagens antropomórficas. Cada animal parece escolhido ao detalhe para refletir a personalidade de quem representa. É um dos (muitos) aspetos geniais da série e algo que nunca deixa de me impressionar, mesmo ao fim de tantas leituras.

Em termos de edição, já pouco posso dizer, além de dar nota de que é uma das minhas edições preferidas de banda desenhada. A lombada em tecido, a inclusão de a História das Aguarelas, o cuidado editorial, os acabamentos de qualidade... tudo está feito na perfeição.

Em conclusão, reitero que Blacksad - Amarillo é o volume menos forte da saga, tanto a nível narrativo como, em certa medida, a nível artístico. Mas essa avaliação só faz sentido quando comparada com os restantes livros da coleção, que considero verdadeiras obras-primas. A fasquia está tão absurdamente alta que um álbum "simplesmente muito bom" acaba por parecer uma pequena desilusão. E talvez isso seja o maior elogio que se pode fazer a Canales e Guarnido com o seu Blacksad: mesmo quando os autores não atingem o seu melhor, continuam a criar banda desenhada de altíssimo nível.


NOTA FINAL (1/10):
8.9



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros

Ficha técnica
Blacksad #5 - Amarillo
Autores: Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Julho de 2026

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Análise: Batman - Grant Morrison - Volumes 4, 5 e 6


Batman - Grant Morrison - Volumes 4, 5 e 6, de Grant Morrison, Tony Daniel, Lee Garbett, Frank Quitely, Philip Tan, Cameron Stewart, Scott Kolins, Andy Kubert, David Finch, Andy Clarke e Chris Sprouse 

A Devir tem continuado ativa na edição de livros dedicados a Batman e, em particular, à saga desenvolvida por Grant Morrison. Hoje falo-vos dos três volumes mais recentes desta famosa run do autor.

E estes números 4, 5 e 6 que hoje vos trago representam uma fase particularmente ambiciosa da longa saga que o autor construiu para o Cavaleiro das Trevas. Depois dos acontecimentos de Batman R.I.P. e da aparente morte de Bruce Wayne em Crise Final, que fecham o 4º volume da saga, Morrison afasta-se deliberadamente da abordagem tradicional ao mito de Batman para explorar questões de legado, identidade e continuidade. O resultado é uma obra que continua a distinguir-se pela enorme densidade conceptual e pela capacidade de transformar décadas de histórias dispersas numa narrativa surpreendentemente unificada. Quer dizer, mais ou menos unificada. Porque embora haja um esforço hercúleo do autor em atar muitas das pontas soltas da célebre franquia, isso também acaba por ser feito à custa de uma densidade narrativa que, por vezes, pode ser assoberbante e desconexa. Mas já lá irei.

Antes disso, reconheço que grande parte do fascínio desta obra de Morrison reside precisamente na forma como o argumentista parece encarar Batman não como um único homem, mas como uma ideia, um conceito capaz de sobreviver à ausência do seu criador. Um homem pode morrer sem que a sua ideia morra, certo? E a substituição temporária de Bruce Wayne por Dick Grayson dá força a este ponto, revelando-se uma opção corajosa. Em vez de procurar um mero imitador de Batman, Grant Morrison explora como diferentes personalidades podem encarnar o mesmo símbolo sem que este perca a sua força.

Esta nova dinâmica ganha particular relevância através da relação entre Dick Grayson e Damian Wayne. Morrison já havia introduzido Damian nos primeiros volumes, mas é aqui que, quanto a mim, a personagem encontra verdadeiramente o seu espaço. A inversão dos papéis clássicos da dupla Batman e Robin, com um Batman mais leve e acessível a contracenar com um Robin agressivo, arrogante e imprevisível, dá-nos alguns dos melhores momentos dos três volumes.

Ao mesmo tempo, Grant Morrison continua a demonstrar uma impressionante capacidade para expandir o universo da série. Talvez até em demasia, diria eu. Gotham deixa de ser apenas uma cidade dominada pelo crime e transforma-se num palco onde coexistem conspirações seculares, organizações internacionais, vilões extravagantes e até mesmo algumas reflexões metafísicas sobre o próprio conceito de heroísmo. É um guisado com muitos ingredientes. 

Por esse motivo, nestes três volumes volta a consolidar-se, por um lado, aquela que considero ser a grande virtude da escrita de Morrison em Batman: a criação de um universo rico em camadas. Quase todas as personagens parecem possuir múltiplas dimensões, motivações contraditórias e ligações inesperadas a acontecimentos anteriores. Não existem apenas heróis e vilões. É este grau de complexidade que torna a leitura especialmente estimulante para quem aprecia narrativas mais exigentes.

Por outro lado, essa mesma complexidade constitui também o principal obstáculo da obra. Morrison parece por vezes tão fascinado pelas possibilidades do seu próprio universo que acaba por sacrificar a clareza narrativa. Existem momentos em que as histórias avançam através de associações simbólicas e referências internas que nem sempre produzem uma recompensa emocional proporcional ao esforço exigido ao leitor. Sim, se aquele que me lê procura mergulhar pela primeira vez em Batman, talvez os livros de Grant Morrison não sejam a melhor porta de entrada. Pelo contrário, considero que esta saga se destina bem mais ao fã mais conhecedor de Batman.

Esta sensação torna-se particularmente evidente na enorme quantidade de subtramas que atravessam os três volumes. Conspirações internacionais, identidades secretas, mistérios ligados a várias personagens, o regresso de Bruce Wayne, os planos de organizações criminosas e os conflitos familiares sucedem-se a um ritmo quase vertiginoso. Embora seja admirável a forma como Grant Morrison tenta articular todas estas peças, nem sempre é bem-sucedido.

Na verdade, uma das conclusões a que cheguei durante a leitura destes três livros é que quantidade de subplots nem sempre é qualidade de subplots. Algumas ideias parecem existir porque contribuem para a arquitetura geral do projeto de Morrison, mas não porque sejam verdadeiramente cativantes enquanto histórias autónomas. 

Ainda assim, é impossível não admirar a capacidade do autor para planear histórias a longo prazo. Elementos introduzidos centenas de páginas antes regressam com novo significado, personagens secundárias ganham importância inesperada e referências aparentemente insignificantes revelam afinal uma função precisa dentro do conjunto. E isso é riqueza narrativa, claro.

No plano gráfico, estes três volumes mantêm um nível qualitativo muito elevado. A alternância de artistas continua a conferir diversidade visual à série, mas sem comprometer muito a identidade global do projeto. Há um equilíbrio interessante entre espetacularidade, ação, atmosfera e caracterização das personagens. Sendo talvez injusto sublinhar o trabalho de alguns desenhadores - tendo em conta que todos eles são bons - tenho que referir que apreciei especialmente os contributos de Frank Quitely, pela conhecida originalidade do traço, e de Philip Tan, pela grandiosidade do seu desenho.

Em termos de edição, o trabalho da Devir está bastante bom em todos os livros. As capas são duras, com detalhes a verniz; o papel é brilhante e de bela qualidade; e a edição, impressão e acabamentos também são muito bons. No final do volume 4, há cinco capas alternativas e um texto que procura fazer um ponto de situação da história de Grant Morrison até esse ponto. Já nos volumes 5 e 6, o conteúdo extra ainda se torna mais interessante, com 10 páginas dedicadas a explicar-nos, por texto, o trabalho de prospeção e execução das capas, dos visuais das personagens, do desenho do batmobile, incluindo vários esboços e estudos. Belas edições.

Em suma, os volumes 4, 5 e 6 reforçam aquilo que já me parecia evidente nos livros anteriores: Grant Morrison criou uma das interpretações mais complexas, ambiciosas e intelectualmente estimulantes de Batman alguma vez publicadas. Contudo, também permanece a sensação de que, por vezes, o autor se deixa seduzir em demasia pela complexidade da sua própria construção. Nem todas as subtramas justificam o espaço que ocupam e nem todos os mistérios possuem um desfecho à altura das expectativas criadas. Ainda assim, mesmo quando tropeça nos seus próprios excessos, Morrison continua a oferecer uma visão singular e fascinante de Batman que vale a pena conhecer.


NOTA FINAL (1/10):
8.2


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Fichas técnicas
Batman - Grant Morrison - Volume 4
Autores: Grant Morrison, Tony Daniel e Lee Garbett
Editora: Devir
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27 cms
Lançamento: Outubro de 2025


Batman - Grant Morrison - Volume 5
Autores: Grant Morrison, Frank Quitely, Philip Tan e Cameron Stewart,
Editora: Devir
Editora: Devir
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27 cms
Lançamento: Fevereiro de 2026


Batman - Grant Morrison - Volume 6
Autores: Grant Morrison, Cameron Stewart, Tony Daniel, Frank Quitely, Scott Kolins, Andy Kubert, David Finch, Andy Clarke e Chris Sprouse 
Editora: Devir
Páginas: 188, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27 cms
Lançamento: Abril de 2026

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Análise: Trilogia Shakespeariana

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca

Foi no passado mês de Março que as editoras Levoir e A Seita se juntaram para o lançamento de uma obra clássica da banda desenhada italiana, originalmente editada a partir de 1975, que, inexplicavelmente, ainda não se encontrava publicada em Portugal: falo de Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca, que adapta para banda desenhada três das mais celebradas peças de William Shakespeare: Romeu e Julieta, Hamlet e A Tempestade.

E uma das coisas que tenho que começar por referir é que adaptar para banda desenhada as peças de Shakespeare, que foram originalmente escritas para o teatro e que, portanto, são mais assentes em diálogos/monólogos do que em narrações de eventos, não me parece uma tarefa nada fácil. Mas Gianni De Luca, que conta com a colaboração de Sigma, pseudónimo de Raoul Traverso na adaptação do argumento, é bem sucedido a dar a volta à questão com um estilo muito próprio que consegue, de forma incrível e inovadora, dar ação visual a cenas em que, supostamente, teríamos uma personagem estática a conversar. Mas já lá irei.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita

Dando uma tão breve quanto possível nota sobre cada uma das histórias aqui presentes, posso dizer-vos que Hamlet me parece a história mais sombria e introspectiva do volume. Aqui a tragédia do príncipe da Dinamarca mantém intactos os seus grandes temas: a dúvida, a culpa, a corrupção do poder e o desejo de vingança. E o famoso dilema existencial de Hamlet - "ser ou não ser, eis a questão" - encontra em De Luca um intérprete visual particularmente inspirado, pois em vez de depender apenas do texto, o autor utiliza a movimentação das figuras, a composição dos espaços e a encenação das cenas para expressar os estados de espírito da personagem. 

Em Romeu e Julieta, embora essa utilização da movimentação das personagens se mantenha -e atinja até mesmo um cume, face às restantes histórias -, o tom muda radicalmente. Aqui, a narrativa privilegia o romance, a paixão e a tragédia inevitável dos jovens amantes de Verona. Gianni De Luca representa com grande elegância tanto os momentos de intimidade como as cenas de conflito entre as famílias rivais, criando um equilíbrio eficaz entre lirismo e dramatismo.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
A Tempestade
, por sua vez, introduz uma atmosfera mais fantástica e alegórica. A peça acompanha Próspero, legítimo duque de Milão, exilado numa ilha em que há forças mágicas, espíritos, ilusões e naufrágios. É aqui que encontramos a história mais clássica de banda desenhada, em termos de planificação, embora, não obstante, já se sinta um domínio da ação e da planificação da história.

Assim sendo, a verdadeira grandeza deste Trilogia Shakespeariana não reside apenas nas adaptações literárias em si. O elemento mais revolucionário do livro é mesmo o seu aspecto visual. Gianni De Luca rompe deliberadamente com a estrutura tradicional da banda desenhada baseada em vinhetas sucessivas. Em vez disso, desenvolve páginas organizadas como grandes espaços cénicos contínuos, onde as personagens aparecem várias vezes ao longo do mesmo cenário. 

Esta solução gráfica transforma a página num palco teatral. E acaba por tornar as peças de teatro originais menos aborrecidas - ou mais facilmente apreendidas - pois permite à narrativa ter uma fluidez e uma dinâmica que mantém os leitores atentos ao desenrolar da história. A passagem do tempo deixa de ser representada pela fragmentação da ação em vinhetas separadas e passa a ser sugerida pelo deslocamento das figuras no espaço. Assim, o leitor observa simultaneamente diferentes momentos da narrativa, acompanhando os trajetos das personagens quase como se estivesse perante uma representação ao vivo.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
Esta inovação foi tão marcante que acabou por ficar associada ao chamado "Efeito De Luca", uma abordagem que influenciou numerosos autores posteriores. É algo que, de vez em quando, ainda conseguimos ver em algumas bandas desenhadas da atualidade, mas em 1975, quando esta obra começou a ser publicada, era algo verdadeiramente inovador.

O domínio do espaço, da composição e do ritmo visual de Gianni de Luca é verdadeiramente incrível. Se querem que vos seja sincero, e olhando para a obra à luz dos dias atuais, talvez o autor abuse um pouco desta forma de contar a história. Admito que consideraria a leitura mais equilibrada se esta técnica não fosse constantemente utilizada, prancha após prancha. Pois ao querer tornar-se a história menos aborrecida com uma planificação mais dinâmica, acaba por, ironicamente, se tornar também a história aborrecida pela presença sempre constante dessa planificação mais dinâmica. Parece-me que se esta técnica fosse utilizada com maior gestão, toda a história ganharia. Mas imagino que assim que o autor chegou a este nível, não mais quis parar. E reitero, claro, que é impossível não ficar abismado com a forma incrível, detalhada e original como Gianni de Luca nos mergulha nas suas histórias. E só por isso, considero este como um dos grandes lançamentos de banda desenhada clássica do ano em Portugal. Ler esta obra acaba por ser semelhante a ter-se uma masterclass sobre banda desenhada e sobre sequencialidade.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
Além da inovação narrativa, devo ainda mencionar a bela qualidade do desenho. A linha de De Luca é elegante, precisa, limpa e expressiva. Os cenários são detalhados sem se tornarem excessivamente pesados, enquanto as figuras humanas comunicam emoções com grande naturalidade. 

A edição da obra é em tudo semelhante aos livros presentes na Coleção de Novelas Gráficas da Levoir. O livro tem capa dura baça, bom papel baço no interior, boa encadernação e boa impressão. Até tem, junto à lombada, a referência a "Novela Gráfica", numa tira de cor preta, o que é a imagem de marca da emblemática coleção da Levoir. De resto, há ainda um interessante texto introdutório de Pedro Moura e, no final, encontramos estudos e versões finais das capas originais dos álbuns e uma ilustração dedicada a Dante Alighieri.

Em conclusão, Trilogia Shakespeariana é uma obra fundamental para compreender a evolução da banda desenhada europeia. As adaptações de Hamlet, Romeu e Julieta e A Tempestade demonstram um profundo respeito pelo legado de Shakespeare, enquanto a extraordinária experimentação gráfica de Gianni De Luca é verdadeiramente impressionante, tendo redefinido os limites da narrativa visual. O resultado é um clássico intemporal que continua a impressionar leitores, estudiosos e autores, afirmando-se como uma obra que cada amante de banda desenhada deve conhecer.


NOTA FINAL (1/10):
8.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita

Ficha técnica
Trilogia Shakespeariana
Autor: Gianni De Luca
Adaptado a partir da obra original de: William Shakespeare
Editoras: Levoir e A Seita
Páginas: 144, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Março de 2026