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sexta-feira, 22 de agosto de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Kingpin Books nos últimos 5 anos!


Hoje apresento-vos os 10 livros mais relevantes que li da editora Kingpin Books e que foram lançados nos últimos 5 anos, período de existência do Vinheta 2020.

A Kingpin Books foi responsável pela produção e lançamento de muita da banda desenhada nacional - e não só - relevante que foi editada em Portugal nos últimos 15 anos. Infelizmente, a cadência editorial da editora portuguesa decaiu um pouco nos últimos anos, embora a qualidade dos livros editados continue a ser muito boa. Dito por outras palavras, são poucos, mas bons os livros que têm saído da fornalha da Kingpin.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Sem mais demoras, eis aqueles que considero que são os 10 melhores livros de banda desenhada editados pela Kingpin entre 2020 e 2025.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Gorila Sentado vai lançar 2 novas BDs... e um "livro-jogo"!



A Gorila Sentado prepara-se para lançar duas novas BDs no Maia BD, além de um "livro-jogo"!

Entre as novidades da editora independente, temos o regresso a Last Call, de Gonçalo Fernandes; a nova aposta da editora no trabalho da dupla Miguel Peres e Majory Yokomizo (autores de O Pescador de MemóriasA Foz do Esquecimento) e o lançamento de um "livro-jogo", da autoria de Daniel da Silva Lopes, responsável da editora, que, confesso, me está a deixar muito curioso, pois aparenta ter um conceito inovador e refrescante!

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse de cada um destes novos lançamentos da editora independente.




Last Call# 2, de Gonçalo Fernandes

LAST CALL é uma BD sempre com o pé a fundo no acelerador, repleta de ação, suspense e coragem, e perfeita para leitores que desejam histórias cheias de adrenalina! Esta segunda edição do criador Gonçalo Fernandes oferece a combinação perfeita de imaginação vívida com uma narrativa afiada. 

Nesta edição, acompanhamos a evolução das duas histórias que começaram no primeiro volume. "LAST CALL" #2 consolida a chegada de um criador capaz de entregar histórias cruas e inesquecíveis. 

Não percam este eletrizante segundo volume!

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Ficha técnica
Last Call #2
Autor: Gonçalo Fernandes
Editora: Gorila Sentado
Lettering por: Tiago Rodrigues
Revisão por: Miguel Gonçalves
Design por: Daniel da Silva Lopes
Páginas: 32, a preto e branco
Encadernação: Formato revista, com agrafos
Formato:  210 x 280 mm
PVP: 8,00€
*Capa alternativa e exclusiva Limitada apenas a 50x unidades


The Reflecting Void #1, de Miguel Peres e Majory Yokomizo

“Quando o espelho reflete a escuridão, o que é que nos resta?” 

Hesther, uma engenheira brilhante, mãe solteira e sobrevivente de um diagnóstico terminal, abraça a eternidade como parte de uma missão audaciosa. Agora, no infinito do cosmos, encontra um espelho enigmático que lhe mostra a Terra devastada por uma invasão alienígena. Mas será esta visão um reflexo do passado ou um vislumbre do futuro? 

Consumida pelo arrependimento e pela esperança de redenção, Hesther arrisca tudo para corrigir os seus erros e confrontar os segredos do vazio.
Nesta terceira colaboração entre Miguel Peres e Majory Yokomizo, que marca o primeiro trabalho publicado pela Gorila Sentado, The Reflecting Void é uma viagem arrebatadora pela culpa, sacrifício e os mistérios do universo dos Solar Sailors.

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Ficha técnica
The Reflecting Void #1
Autores: Miguel Peres e Majory Yokomizo
Editora: Gorila Sentado
Lettering por: Tiago Rodrigues
Revisão por: Miguel Gonçalves
Design por: Daniel da Silva Lopes
Páginas: 32, a preto e branco
Encadernação: Formato revista, com agrafos
Formato:  210 x 280 mm
PVP: 8,00€ *Capa alternativa e exclusiva Limitada apenas a 50x unidades

Solar: The Obsidian Whale, de Daniel da Silva Lopes

A Terra desapareceu, e o futuro da tua espécie depende daqueles que estão dispostos a aventurar-se no desconhecido. Tu és um Solar Sailor. Um membro de um grupo de exploradores encarregues da maior missão da humanidade: encontrar um novo lar entre as estrelas. Mas hoje, a tua missão é outra.

À deriva no vazio, uma nave perdida aguarda. Nome: The Obsidian Whale. Não há registos da sua tripulação, da sua missão, nem do seu destino. A sua própria existência foi apagada dos arquivos dos Solar Sailors. O que aconteceu a bordo desta nave esquecida? Que segredos se escondem nos seus corredores vazios? E por que razão foi a sua história deliberadamente apagada?
Neste livro-jogo de aventura onde escolhes o teu próprio caminho, irás explorar a nave abandonada, desvendar os seus segredos e enfrentar horrores inimagináveis. Cada decisão molda o teu destino. Cada percurso leva a um desfecho diferente. Irás sobreviver ou tornar-te mais uma alma esquecida, perdida na escuridão?
A tua missão começa agora.

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Ficha técnica
Solar: The Obsidian Whale
Autor: Daniel da Silva Lopes
Editora: Gorila Sentado
Capa por: Pedro Potier
Revisão por: Miguel Gonçalves
Páginas: 54, a preto e branco
Formato: 240 x 157 mm
PVP: 7,00€

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Magazine BD Independente - Análise a 10 BDs Independentes Nacionais


Hoje trago-vos um especial sobre as últimas bandas desenhadas de cariz mais independente que andei a ler nos últimos tempos.

Desde fanzines, a edições de autor e a edições que, mesmo apoiadas por dinheiros públicos ou pertencentes a "editoras", têm uma distribuição independente.

São BDs que, por isso, nem sempre são muito fáceis de encontrar à venda, embora, claro, hoje em dia, com o advento da internet e das redes sociais, quem estiver interessado em adquirir uma destas bandas desenhadas, apenas tem de contactar os responsáveis por estas publicações. Em alternativa, é frequente que esta BD mais independente seja encontrada à venda em eventos e festivais de banda desenhada.

Bem sei que poderia fazer um artigo para cada uma das propostas de leitura que hoje vos trago, mas diz-me a experiência - e também as estatísticas de visitas do blog - que cada uma destas bandas desenhadas independentes conseguirá chegar a mais gente se o artigo em que falo delas for mais global, com os leitores do blog a poderem, através de um estilo mais sintético de análise, em género de "magazine", tomar conhecimento das várias propostas que vos trago.

Sem mais demoras vos deixo, portanto, com as minhas breves análise a 10 Bandas Desenhadas independentes que li recentemente.

Ora vejam:

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Miguel Peres lança novo livro de banda desenhada!


Miguel Peres está de volta ao lançamento de banda desenhada! 

E fá-lo com Majory Yokomizo, a autora com quem já havia colaborado no seu anterior álbum, O Pescador de Memórias que, aliás, até arrecadou o VINHETA D'OURO para Melhor Argumento de Autor Nacional em 2021.

Desta vez, a dupla luso-brasileira traz-nos um breve livro que conta a história do casal Literacidades e a forma como ambos terão que enfrentar o luto.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


A Foz do Esquecimento, de Miguel Peres e Majory Yokomizo
Qual o melhor refúgio para lidar com o luto? As nossas memórias.

Álvaro e Ludgero viveram uma vida preenchida ao lado dos seus 3 cães dos quais se foram despedindo ao longo do seu percurso. Agora, em mais um momento de despedida, que memórias prevalecem? As mais bonitas, as más? Ou serão todas boas?

"A Foz do Esquecimento" é um exercício sobre um futuro que Álvaro e Ludgero, o famoso casal literário "Literacidades" no Instagram, vão ter de enfrentar: a ausência permanente dos seus filhos caninos. Uma história que prova que não há apenas uma definição de família.

É a segunda colaboração entre o argumentista Miguel Peres e a artista Majory Yokomizo que em 2021 nos deram “O Pescador de Memórias” onde voltam aos elementos onde se sentem confortáveis: o mar, as memórias e a importância da família.
A dupla voltou igualmente a contar com o apoio gráfico e legendagem de Mário Freitas nesta edição de autor.

O livro é uma edição numerada e limitada de 250 exemplares e já está em venda exclusiva no perfil do Literacidades no Instagram.

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Ficha técnica
A Foz do Esquecimento
Autores: Miguel Peres e Majory Yokomizo
Editora: Independente (Edição de Autor)
Páginas: 20, a cores
Encadernação: Capa mole, com agrafos
PVP: 7,50€


quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Análise: O Pescador de Memórias

O Pescador de Memórias, de Miguel Peres e Majory Yokomizo - Kingpin Books

O Pescador de Memórias, de Miguel Peres e Majory Yokomizo - Kingpin Books
O Pescador de Memórias, de Miguel Peres e Majory Yokomizo

O facto de O Pescador de Memórias ser a única obra que a Kingpin Books edita em 2021, traz consigo, desde logo, um crescente interesse da minha parte. Além disso, e por outro lado, também é verdade que este livro até começou por ser lançado numa versão inglesa – através da editora inglesa Blue Fox Comics – e isso, também cativa o meu interesse. Em último lugar, Miguel Peres é um autor que me tem conquistado devido à diversidade, ou ecletismo de temas, que parece trazer nas suas obras. Por exemplo, o Cemitério dos Sonhos e Random são obras diametralmente opostas. E, ainda assim, ambas funcionam bastante bem.

Isto tudo para dizer que estava bastante entusiasmado com este regresso de Miguel Peres – e da própria editora Kingpin Books. Neste trabalho, o autor faz-se acompanhar de Majory Yokomizo que assina as ilustrações da obra.

O Pescador de Memórias, de Miguel Peres e Majory Yokomizo - Kingpin Books

E posso, desde já, dizer que, mais uma vez, Miguel Peres assume-se como um argumentista notável e sensível, que sabe levantar questões e reflexões pertinentes nas suas obras. Logicamente, O Pescador de Memórias aproxima-se muito mais da busca pelo Eu que também é feita em Cemitério dos Sonhos do que, propriamente, da ação visceral de Random, mas, ainda assim, esta nova obra também tem muito de original. E é um passo em frente em relação a Cemitério dos Sonhos.

Lethe, o protagonista desta história, sofre de alzheimer. E está a perder as suas próprias memórias, de um momento para o outro, sem que o consiga evitar. Ainda se aventura a tentar pescar as memórias que nadam algures nesse imenso mar do esquecimento. Mas essa é uma tarefa que vai sendo cada vez mais difícil. E se pensarmos que todos nós somos o resultado das memórias e vivências passadas, é fácil de perceber como Lethe se encontra à deriva da sua própria vida e auto-conhecimento. Miguel Peres aborda com sensibilidade – mas sem se tornar lamechas – a questão da doença de alzheimer.

É uma história cheia de alegorias e metáforas, onde está presente uma grande (demasiada?) dose de simbologia que, se por um lado, revela-nos um Miguel Peres mais maduro e mais cuidadoso nos temas que aborda – e especialmente na forma como os aborda -, por outro lado, também torna a leitura demasiado livre a interpretações para quem a lê. Mesmo depois de ler este livro duas vezes, ainda há reflexões e simbologias que eu julgo ter entendido, mas que posso ter falhado redondamente na minha interpretação. E não há nada de mal com isso, diga-se! Além de que, mais uma vez, nos revela um autor mais maduro e que sabe preparar uma leitura para mais do que uma camada de interpretação. No entanto, também considero que, mesmo tratando o leitor como um ser inteligente, que deve tomar a sua própria experiência e interpretação para fazer desta a sua história, talvez pudessem ter sido deixados mais pontos âncora de referência para que a interpretação fosse (mais) inequívoca. Seja como for, isto será uma crítica minha muito pequena a um argumento original, sensível e que merece ser lido.

O Pescador de Memórias, de Miguel Peres e Majory Yokomizo - Kingpin Books

Uma coisa que também é digna de comentário é a fantástica capacidade de Miguel Peres para começar e acabar este O Pescador de Memórias. Se há bons autores de bd – e não só – que não parecem demonstrar grandes atributos na forma como começam e, principalmente, como acabam uma história, Miguel Peres não é, seguramente, um desses autores. Até porque são esses dois momentos – o começo e o fim - os pontos mais altos deste livro, quanto a mim. Com as primeiras 5 páginas, o autor diz-nos, de forma inspirada, ao que vamos. Com um texto sentido, faz-nos praticamente uma síntese e convida-nos a entrar na (sua) história. E o final, que fecha a narrativa com verdadeira chave de ouro, é de uma carga emocional muito intensa, que é depois ainda sublinhada pela utilização de uma citação do autor Jeff Lemire, em Essex County, que assenta que nem uma cereja no final da obra. Verdadeiramente excelente!

Até me fez esquecer e “perdoar” algum do diálogo que achei menos inspirado e, por ventura, demasiado longo no passeio que Lethe deu de carro com a sua família e com o enfermeiro.

O Pescador de Memórias, de Miguel Peres e Majory Yokomizo - Kingpin Books

Relativamente às ilustrações, considero este um livro um pouco enganador. E explico porquê, começando pela parte melhor. Em termos visuais, a experiência em O Pescador de Memórias até é bastante agradável. E tudo por causa da paleta de cores suaves que faz com que seja agradável imergir neste universo visual. A forma como as cores são aplicadas, em aguarela, dão toda a harmonia e sensibilidade que o argumento pedia. Majory Yokomizo faz, pois, um excelente trabalho nessa aplicação da cor. É, até, isso, o que “salva” as ilustrações, na minha opinião. Porque, sinceramente, e agora abordo aquela que é a principal fraqueza da obra, o desenho da autora é manifestamente demasiado simples e rudimentar. Eu considero-me completamente aberto a novos estilos de ilustração e, portanto, ninguém me pode acusar de eu ser obtuso face a estilos de ilustração que “saem da caixa”. Até acolho as chamadas novas abordagens modernas à ilustração em bd com muito interesse. Mas Yokomizo não me consegue convencer em relação ao seu desenho, que me parece conter um traço ainda bastante inseguro, onde as expressões faciais das personagens são pobres e a linguagem corporal das mesmas deixa algo a desejar. Dizer que é um mau desenho seria um exagero e uma injustiça da minha parte. Porque não o é. No entanto, considero justo afirmar que esta obra, com um argumento audaz por parte de Miguel Peres, poderia ascender a outro patamar se tivesse uma arte ilustrativa ao mesmo nível. Isso, sejamos honestos, não tem.

O Pescador de Memórias, de Miguel Peres e Majory Yokomizo - Kingpin Books
Embora seja verdade que há uma mão cheia de coisas que me entusiasmaram nas ilustrações, como alguns planos de detalhe bem conseguidos; a fantástica prancha em que as vinhetas estão rachadas; a lindíssima vinheta que coloca Lethe, a sua mulher e a sua filha a observarem o mar; ou a prancha dedicada aos vários flashbacks da vida do protagonista; também me pareceu que certas ilustrações partiram demasiado cedo para o processo de colorização. Que precisavam de mais cuidado e detalhe. Estão a ver quando uma mulher acorda com olheiras e disfarça isso aplicando muita base na cara? Senti isso a olhar para as ilustrações de Majory Yokomizo. Se as cores são bonitas, também é verdade que escondem – ou disfarçam – alguns desenhos menos bonitos. Dito por outras palavras, se não fossem as cores, a aguarela, a embelezarem os desenhos algo pobres, este não seria um álbum bonito de se observar. E é por isso que digo que, relativamente às ilustrações, este é um livro "enganador". Se o nosso olho despir as cores da obra, o resultado não será tão bom como pode parecer à primeira vista. Mas, felizmente, a obra também é para ser apreciada como um todo e, nesse ponto, Majory Yokomizo consegue entregar um trabalho que cumpre, concedo.

Quanto à edição, estamos perante mais um bom trabalho da Kingpin Books. A capa nova, da autoria de Lucas Pereira é de uma enorme força visual - e que bom seria que os desenhos do interior da obra tivessem este fulgor). A própria lombada merece destaque pois é das lombadas mais cute e originais do ano. Desenganem-se aqueles que não consideram importantes estas coisas, porque o são. Aliás, se estas coisas não fossem importantes, talvez estivéssemos todos a ler webcomics. Não me canso de dizer que a qualidade da edição de um objeto-livro (também) é muito relevante. 

Relembre-se ainda que esta nova versão da obra tem 5 páginas adicionais em relação à versão original inglesa. E todas elas – e em especial a página de flashback – contribuíram em muito para a melhor imersão do leitor na obra. Portanto, aqui tenho que dar os parabéns ao Mário Freitas pela sua constante tentativa de melhorar as obras de bd em que mexe. Junte-se ainda um prefácio do autor consagrado Edmond Baudoin e acho que podemos dizer que esta é uma edição muito bem conseguida.

Em conclusão, O Pescador de Memórias é um bom livro, onde Miguel Peres aparece, mais uma vez, bastante inspirado, a levantar questões relevantes e maduras nas entrelinhas do seu argumento. A arte visual não estando, a meu ver, ao mesmo nível da pretensão do argumento, consegue, ainda assim, decorar com belas cores esta história, que nos faz pensar de forma agri-doce sobre a nossa vida, e que tem o condão de começar e terminar de forma absolutamente brilhante. Merece ser lida.


NOTA FINAL (1/10):
8.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Pescador de Memórias, de Miguel Peres e Majory Yokomizo - Kingpin Books

Ficha técnica
O Pescador de Memórias
Autores: Miguel Peres e Majory Yokomizo
Editora: Kingpin Books
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Outubro de 2021

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Entrevista a Miguel Peres - "Em Portugal, tem surgido uma nova geração que está a dar à BD nacional o salto qualitativo que precisava"



Hoje trago-vos mais uma interessantíssima conversa que tive com um autor português que considero ter um enorme potencial: Miguel Peres.

Dos seus trabalhos, já aqui analisei O Cemitério dos Sonhos e Random. Este último até está nomeado para melhor fanzine ou publicação independente nos prémios do Amadora BD deste ano.

Miguel Peres prepara-se para lançar o seu novo livro O Pescador de Memórias, que conta com ilustrações da autora brasileira Majory Yokomizo e que é editado pela Kingpin Books. O livro será lançado no Amadora BD, no dia 24 de Outubro, pelas 16h30, com a presença de Miguel Peres, o editor Mário Freitas e André Oliveira.

Abaixo, deixo-vos com a conversa que tive com o Miguel.



Entrevista



1. A Kingpin Books prepara-se para editar o livro O Pescador de Memórias. Mas a verdade é que o livro foi anteriormente lançado em inglês, pela editora Blue Fox Comics. Como tem sido a adesão do público estrangeiro à obra?
O livro foi lançado em abril deste ano no Kickstarter pela editora escocesa Blue Fox Comics e superou todas as minhas expectativas, já que conseguiu angariar cerca de 300 apoiantes e atingir 500% do valor inicial pedido. Acho que isto traduz a adesão inicial do público estrangeiro a uma obra de autores completamente desconhecidos nesse mercado. No geral, a adesão tem sido muito positiva e quando vês o teu livro a ser distribuído pelas principais livrarias britânicas, a conquista tem um sabor especial.



2. E, já agora, qual foi a razão que te levou a lançar primeiramente a obra em inglês e só depois em português? Prendeu-se com calendarizações editoriais ou foi, também, uma forma de testar o mercado estrangeiro?
Na altura em que estávamos a finalizar o livro, o impasse de editar em Portugal ainda era grande – vontade havia, mas não estava nada fechado. Portanto, decidimos apostar na versão inglesa e tentar primeiro a nossa sorte no mercado estrangeiro. Não vou cair naquele discurso artístico do costume em que, para ser reconhecido cá, é preciso ir lá para fora primeiro – acredito que foi pela história em si e não por uma suposta validação exterior. Portanto, acabou por ser uma mistura dos dois: tivemos essa questão da estreia no Reino Unido e também a de encontrar a melhor altura para lançar em Portugal, sobretudo na incerteza da pandemia.


3. Este é o teu primeiro livro publicado pela Kingpin Books. Qual a razão para esta obra não ser uma publicação da Bicho Carpinteiro como aconteceu com os teus últimos trabalhos?
Foram sobretudo duas as razões para o livro não ter sido publicado pela Bicho Carpinteiro Edições: uma delas foi o facto de eu me ter afastado em definitivo do projeto no final do ano passado. Orgulho-me do trabalho que desenvolvi em conjunto com o André Morgado, mas senti que o ciclo de auto-publicação chegara ao fim. Para evoluir enquanto autor, precisava de dar um passo qualitativo e essa é, no fundo, a outra razão para ser publicado pela Kingpin Books - queria ter a perspetiva de alguém com uma visão crítica, construtiva e interventiva. Ter sido aceite para entrar no catálogo foi para mim um reconhecimento e uma validação importante enquanto autor de BD.



4. Como tem sido trabalhar com o responsável da Kingpin Books, Mário Freitas?
O Mário Freitas dispensa apresentações, sendo que nem sempre reúne consenso à sua volta. Essa característica peculiar e em particular acabou por me aproximar dele, porque sabia que o Mário seria sempre brutalmente honesto comigo. Considero que só assim é que se consegue crescer como autor, não é com palmadas nas costas e dizer que está fantástico. Nós começámos a trabalhar juntos no RANDOM, onde já estava tudo demasiado fechado, por isso ele limitou-se à função de designer e legendador. No Pescador de Memórias já não foi assim - inicialmente também trabalhou toda a parte gráfica e a legendagem, mas acabou por se render à história e entrar como editor. E nesse campo, o Mário fez questão de ter o seu cunho muito pessoal e não replicar o que já se tinha publicado. O processo criativo foi saudável, repleto de negociações, recusas, sugestões, novas ideias e que culminou num género de “Editor’s Cut” ao acrescentarmos 5 páginas extra, exclusivas para a edição portuguesa. O balanço foi positivo, já que aprendi muito sobre a importância da legendagem, de certas subtilezas na disposição das vinhetas e pensar como leitor para identificar lacunas na história.


5. Esta edição conta com um prefácio do autor Edmond Baudoin. Imagino que tenha sido para ti um grande privilégio esta possibilidade?
O cuidado que tive com a construção do conceito, das personagens e da história foi muito maior e mais detalhado do que nas obras anteriores. Por isso, queria que qualquer pormenor à volta da edição seguisse o mesmo caminho. Na altura em que “A Viagem” de Edmond Baudoin foi publicado cá, fiquei atento à sua obra – não só por causa do seu traço fluido e onírico, mas também pela sensibilidade autobiográfica nas suas histórias. Como em bom português se diz, decidi “lançar o barro à parede” e contactá-lo para escrever o prefácio e ele, para minha grande surpresa, aceitou prontamente. Acredito que a decisão se tenha prendido sobretudo, por causa do tema - em 1995, Edmond Baudoin lançou “Éloge de la Poussière” onde retrata a luta da mãe contra a doença de Alzheimer e reflete a importância da memória. Portanto, para o autor, escrever este prefácio acabou por ser uma questão muito pessoal. Foi extremamente acessível e simpático, portanto foi daqueles privilégios que sei que não se vão repetir e, também por isso, me deixa particularmente feliz porque o torna especial.



6. Depois de uma ação non-stop em Random, O Pescador de Memórias parece ser um livro mais introspetivo e calmo. Algo como fizeste em O Cemitério dos Sonhos. Dirias que, em termos de história, o Pescador de Memórias estará mais perto desse trabalho ou é, ainda assim, muito diferente daquilo que já havias feito?
O Pescador de Memórias está muito perto do Cemitério dos Sonhos. Existe, aliás, uma relação não assumida entre os dois e que está patente logo na primeira página: a caixa que dá à costa tem escrito “CORAL”, uma alusão a uma das principais personagens do Cemitério dos Sonhos. Existem parecenças nas temáticas, sobretudo da importância da família, mas sem dúvida e com risco de falsa modéstia, O Pescador de Memórias reflete uma maturidade que não tinha há 5 anos. Na minha cabeça, estas duas histórias fazem parte de uma trilogia que hei-de terminar sobre o mundo onírico e a memória.


7. Olhando para as tuas obras de bd, encontro uma grande diversidade no tipo de histórias que crias. Sentes que ainda não encontraste “a tua voz” em termos de criador de histórias ou, pelo contrário, a tua voz é essa mesma, a de contar histórias com diferentes abordagens e com uma boa dose de ecletismo?
Esse é um dilema que ainda não resolvi e que aparece sempre que penso em novos projetos: será que a minha “voz” se traduz num género de camaleão, onde os leitores nunca sabem o que é que pode sair daqui ou ainda estou à procura do meu estilo? E se assumir um dos lados, é bom ou mau? Não tenho uma resposta definitiva.

Enquanto leitor, quando penso nos autores que adoro, geralmente existe um estilo muito vincado e sei o que quero e posso esperar. No entanto, como escritor, agrada-me essa imprevisibilidade, mesmo conhecendo o risco de perder um estilo próprio. É claro que isto advém das próprias referências e gostos que tenho, porque tanto leio um novo arco do Batman, como a seguir estou a ler Brecht Evens. Por um lado, adorava trabalhar para uma editora norte-americana reconhecida, por outro lado, também queria ser um autor de culto resistente ao mainstream. Como, a meu ver, estas posições são antagónicas, o que fica é um limbo que se pode traduzir em ecletismo. Até ver, prefiro assumir o meu lado artístico camaleónico.



8. A doença de Alzheimer é tema presente neste O Pescador de Memórias. Como foi abordar este assunto? Tens experiências de pessoas próximas que passaram pelo mesmo? Tiveste necessidade de te documentar sobre a doença?
Confesso que não me recordo exatamente porque é que decidi ir por aqui, já que a ideia inicial até era abordar a demência e não entrar pela especificidade da doença. Felizmente nunca tive casos próximos, portanto apoiei-me muito em testemunhos, tanto dos cuidadores como de quem sofre, que me ajudaram muito para que a parte clínica da história fosse credível. A fase da pesquisa é fundamental para quem escreve e percebi que em ideias anteriores tinha essa grande lacuna, tanto na parte técnica como no desenvolvimento do passado das personagens. Portanto desta vez tive o cuidado de investir mais tempo na fase de pré-produção. Por falar em pesquisa, encontrei um e-mail de fevereiro de 2018, onde o Fernando Dordio (curiosamente, um dos argumentistas da “casa” Kingpin Books) teve a amabilidade e paciência para fazer uma análise completa a um primeiro rascunho desta história. É engraçado reler o mail e perceber que alguns dos pontos de melhoria que levantou foram absorvidos.


9. A obra procura sensibilizar as pessoas sobre a doença?
Embora a doença seja o catalisador dos diferentes momentos do livro, não é o foco principal. Não tive a intenção de transformar o Lethe numa vítima indefesa do Alzheimer, onde se entra em grandes pormenores técnicos da doença, precisamente porque os temas centrais da história são a importância da família e da memória. É claro que não foi uma mera escolha estilística, o apelo à sensibilização para a doença está lá, mas é algo mais subtil do que se pode pensar. Não queria ir pelo óbvio e desenvolver esse lado, porque podia resvalar para a exploração gratuita.



10. Nesta obra as ilustrações ficaram a cargo da brasileira Majory Yokomizo. Como foi trabalhar com ela?
Inicialmente o projeto era para ser desenhado pelo Tainan Rocha, mas estávamos desencontrados em termos de disponibilidade para desenvolver a BD. A Majory Yokomizo surgiu assim como uma “discípula” do Tainan e não podia ter ficado mais satisfeito com o resultado final. Neste tipo de acontecimentos, acredito que o Universo tenha contribuído em larga para encontrar uma artista única. Acho que até hoje foi a autora com o ritmo de produção mais eficaz e rápido que encontrei, mas nunca perdendo a qualidade no traço e nas suas aguarelas. Durante todo o processo foi sempre disponível, sensível à crítica, simpática e com uma dose generosa de imaginação para dar vida à história. O timing para trabalhar com ela foi perfeito, porque ainda é uma artista emergente com um potencial enorme e por isso suspeito que daqui a uns tempos fique sem tempo para se dedicar a novas aventuras, pois já estará noutro nível de produção e de mercado. Formaram-se boas memórias para contar sobre o processo criativo.


11. Normalmente fazes colaborações com autores brasileiros. Porque é que existe esta tendência em ti para colaborares com autores brasileiros em detrimento de autores portugueses?
Antes de tudo, é preciso dizer que esta questão nada tem a ver com talento. Em Portugal, tem surgido uma nova geração que está a dar à BD nacional o salto qualitativo que precisava. Portanto, não pela falta de potencial por cá.


Agora, se olharmos para a minha carreira como argumentista desde 2011, a questão que colocas não reflete totalmente a verdade: até aos dias de hoje trabalhei com 13 artistas portugueses e 12 brasileiros. É natural que exista essa perceção porque o que é mais visível para o público em geral são as obras de grande fôlego e sim, nesse caso, a escolha tem recaído para os autores brasileiros. Há várias razões para isso acontecer, sendo que a principal é a diferença abismal da dimensão do mercado artístico português em relação à brasileira. A minha perceção é que em Portugal, infelizmente, são raros os artistas que conseguem dedicar-se em exclusivo à Banda Desenhada. Os que conseguem, em geral são absorvidos pelo mercado estrangeiro, por isso, quando têm alguma disponibilidade, dedicam-se aos seus próprios projetos (o que é natural). Portanto, o restante mercado é intermitente em termos de ritmos de produção, de disponibilidade, porque simplesmente não têm tempo nem condições. No meu caso, a escolha de artistas portugueses tem recaído quando surge a oportunidade de produzir curtas para antologias nacionais e internacionais. Reconheço que esta perspetiva é dura, mas sei se quiser uma obra maior, arrisco-me a ficar demasiado tempo à espera que o processo se desenvolva, por mais boa vontade e paixão que os artistas portugueses possam ter. Como sou impaciente por natureza, é assumida esta escolha. Mesmo assim, sempre tentei juntar artistas portugueses aos álbuns de BD, fosse através de curtas, ilustrações extra ou pela parte técnica de legendagem, com o intuito de levar o seu trabalho para outros mercados.

Já no Brasil, existem muitos artistas que se dedicam a tempo inteiro à BD, que têm uma gestão de tempo e ritmo de produção muito influenciada pelos comics americanos e, como partilhamos a Língua Portuguesa, o processo criativo não fica afetado. Depois, há também a questão da abertura ao mercado brasileiro, já que uma editora lá fica naturalmente mais inclinada a publicar um projeto onde participem autores do próprio país. Não estou a dizer que um livro só com artistas portugueses não possa lá ser publicado, até porque há casos de sucesso, mas existe uma componente editorial de incentivo aos seus artistas. Esta ponte artística não é nova, nos principais festivais de BD portugueses vemos muitos convidados brasileiros, ou seja, existe um reconhecimento do seu trabalho. A expectativa é que esta ligação traga novas dinâmicas de parcerias entre os dois mercados, que nós lá também tenhamos a atenção que merecemos.



12. Estando os ilustradores brasileiros separados de ti por uma grande distância geográfica, isso torna o processo criativo mais moroso e difícil ou sentes que se o teu ilustrador vivesse a dois quarteirões de distância, a dificuldade seria a mesma?
A internet, as ferramentas digitais esbatem essa distância geográfica. Mesmo com a diferença horária, nunca senti que o processo fosse mais demorado, até porque os guiões que desenvolvo já vão muito direcionados e descritivos, portanto é raro ter de fazer calls a explicar o que desenhar. Quanto à liberdade criativa dos artistas, confio e gosto de ser surpreendido, portanto o processo geralmente flui muito bem.


13. Depois deste O Pescador de Memórias, já tens projetos para o futuro, relativamente a novos livros de banda desenhada? Queres partilhar alguma novidade com os leitores do Vinheta 2020?
Tenho ideias em carteira, mas a minha nova aventura como pai é agora a história que estou concentrado em trilhar. Portanto, tão cedo não terei novidades, mas é bom porque quero que O Pescador de Memórias tenha espaço necessário para respirar e fazer o seu caminho no Reino Unido, no Brasil e em Portugal.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

A Kingpin Books regressa à edição de BD!




É verdade que nos últimos anos a Kingpin Books - em tempos uma das editoras que mais apostou na edição nacional de banda desenhada - tem andado um pouco arredada do lançamento de bd. Seja de origem nacional, seja de origem estrangeira. Se não estou em erro, em 2020 a editora só lançou Mindex, de Fernado Dordio e Pedro Cruz.

Ainda assim, há boas notícias para aqueles que, como eu, têm seguido o trabalho da editora, já que a obra O Pescador de Memórias, que junta o autor português Miguel Guedes à autora brasileira Majory Yokomizo, será lançada já no Amadora BD, sob a chancela da Kingpin Books, no dia 24 de Outubro, pelas 16h30! 

Nesse dia, estarão presentes o argumentista Miguel Peres e o editor/legendador/designer Mário Freitas. A sessão será moderada pelo argumentista André Oliveira. Seguir-se-á, a partir das 18h, uma sessão de autógrafos com Miguel Peres. Os primeiros 30 exemplares adquiridos no Festival serão presenteados com um print exclusivo, da autoria da ilustradora brasileira Majory Yokomizo.

O livro também já se encontra disponível para aquisição no site da Kingpin Books. Oferta do print para os primeiros 10 compradores online.

Aproveito para dizer que estou bastante entusiasmado com este livro, do qual já tinha falado há uns meses (aquando o lançamento da versão inglesa) e que até já tive a oportunidade de entrevistar o simpatiquíssimo autor Miguel Peres. Publicarei essa entrevista ainda durante esta semana, espero.

Para já, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

O Pescador de Memórias, de Miguel Guedes e Majory Yokomizo
Lethe está preso numa ilha deserta, sem se lembrar de como lá chegou.

A sua única esperança de salvação está na pesca de fragmentos de memória que flutuam pelo mar, peças fulcrais na busca de recuperação da identidade. Um retrato pungente daqueles que sofrem os seus últimos dias com a doença de Alzheimer e uma história sensível sobre o significado das recordações e da família.

“(...) Majory e Miguel são capazes de nos mostrar a complexidade desta imensa perda: a das memórias acumuladas ao longo de uma vida.”; trecho do prefácio de Edmond Baudoin, nome grande na BD franco-belga e mundial, que se predispôs gentilmente a escrever o prefácio do livro, uma honra para os autores e editor.

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Ficha técnica
O Pescador de Memórias
Autores: Miguel Guedes e Majory Yokomizo
Editora: Kingpin Books
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 14,99€


quarta-feira, 30 de junho de 2021

Lançamento: Fishing Memories




Saiu recentemente a obra Fishing Memories, do português Miguel Peres (autor de Random e de Cemitério dos Sonhos) e da brasileira Majory Yokomizo. 

Inicialmente editada em inglês, é esperado que a obra receba uma versão portuguesa, que deverá ser lançada em Portugal e no Brasil, ainda durante o ano de 2021. A legendagem e design do livro é feita por outro português, bem conhecido dos leitores portugueses de bd: Mário Freitas.

Abaixo, fiquem com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Fishing Memories, de Miguel Peres e Majory Yokomizo
Lethe está preso numa ilha deserta, sem se lembrar de como chegou até lá. A única esperança que ele tem de se salvar é pescar memórias que flutuam no mar e tentar recuperar a sua identidade para escapar. 

Uma alegoria sobre aqueles que sofrem os seus últimos dias com a doença de Alzheimer.

"Pescador de Memórias" é uma história sensível sobre o significado da memória e da família. 

Miguel Peres é um dos mais promissores escritores da nova cena da BD portuguesa e juntou-se à emergente artista brasileira Majory Yokomizo para contar uma história que também é um lembrete, agora mais do que nunca, de que devemos aproveitar os bons momentos da vida, pois o amanhã pode trazer um mundo imprevisível de caos.
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Ficha técnica
Fishing Memories
Autores: e Miguel Peres e Majory Yokomizo
Editora: Blue Fox Comics
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa mole
PVP: 15,14€ (£12.99)

terça-feira, 22 de junho de 2021

Análise: Cemitério dos Sonhos



Cemitério dos Sonhos, de Miguel Peres, Marília Feldhues, Cinthia Fujii, Rodrigo Martins e Rômulo de Oliveira

Cemitério dos Sonhos é um álbum cujo argumento é da autoria do português Miguel Peres – que também nos deu o muito interessante Random, já aqui analisado - e que conta com ilustrações de quatro autores brasileiros: Marília Feldhues, Cinthia Fujii, Rodrigo Martins e Rômulo de Oliveira.

A história de Cemitério dos Sonhos coloca-nos na pele da personagem Dre Amos que tem como profissão ser responsável por testar o bom funcionamento de máquinas de lavar roupa. A sua vida é repetitiva, rotineira e desencantada, não parecendo deixar, de forma alguma, feliz o protagonista. Como se não bastasse, a perda do pai traz consigo um enorme peso na tristeza que inunda a existência de Dre Amos.


Mas um dia é visitado por uma entidade, a personagem Cristal, que o ajuda a colocar em questão e perspetiva certos eventos e traumas, que Amos tinha como certos, e com isso redescobrir-se a si próprio e à alegria de viver. O “Cemitério dos Sonhos” é, pois, uma alegoria para todos os sonhos que deixamos morrer sem que encetemos os esforços necessários para os alcançar. E, neste ponto, creio que Miguel Peres se afirma como um argumentista inteligente e emotivo ao mesmo tempo. O que é de louvar. Se há uma certa racionalidade na forma – e nas soluções – que o autor nos oferece para, nós próprios, combatermos a procrastinação e resignação fácil que, não raras vezes, assombram a luta pelos nossos sonhos, por outro lado, Miguel Peres também se serve de uma boa dose de sentimentalismo – sem nunca se aproximar, sequer, de ser “lamechas” – para nos ajudar a acatar a moral da obra.

É que o facto de ter sido o trauma e amargura que funcionou como principal dínamo para que Dre Amos deixasse de sonhar e de lutar pelos seus desejos, também nos permite ver que as razões da nossa aparente apatia perante a vida até podem ter que ver com certas dificuldades com que nos deparámos em algum momento das nossas vidas. Certos obstáculos que a partir de certa altura nos passaram a marcar e a condicionar. Mas será através da descoberta das causas e consequências desses traumas que, eventualmente, os conseguiremos superar. Vendo bem, Miguel Peres assume aqui uma função de quase psicólogo. Ou, pelo menos, de coach motivacional.

E acho que é aí que a história mais brilha. Se eu encontrar alguém descontente com aquilo que a sua própria vida se tornou, ou infeliz com a pessoa que é e com os sonhos que acabou por deixar de lado, há fortes probabilidades para que lhe recomende que vá ler este Cemitério dos Sonhos.


Como ponto menos positivo em termos de argumento, acho que é na materialização da luta contra os problemas que Miguel Peres quase perde a boa história que tinha em mãos. Ao querer formar uma alegoria mais clássica, com exemplos mais lineares, que na obra aparecem como o combate literal contra os seus problemas, parece-me que o autor não é tão bem-sucedido. Esta é uma história mais profunda e intensa que, a meu ver, dispensava este tipo de combate físico. Bem sei que tudo isto não passa de uma metáfora para a real luta interior, mas insisto que, na minha opinião, fica um bocado over the top. Mesmo assim, o autor demonstra ter a noção exata para não “nadar fora de pé” e a partir do momento em que Dre Amos confronta a sua mãe e a visão do passado desta, a história volta a ganhar a força inicial, acabando por ser bem agarrada por Miguel Peres.

Destaque-se ainda a boa capacidade do autor em resolver a história, de um modo bastante bem conseguido e cinematográfico. Miguel Peres não é um daqueles autores que apenas coloca questões para o ar. Não. Ele também está preocupado em dar-nos respostas. Por isso, apresenta-nos vários caminhos, mas, também, o caminho certo a seguir.


Em termos de arte, há que conceder que este é um álbum audaz. Audaz porque como estamos perante uma história que nos remete para algumas questões metafísicas, ao nível do subconsciente e das realidades alternativas assentes num mundo onírico, naturalmente havia oportunidade para a construção de um universo visual menos mundano e com elementos do fantástico.

No entanto, há que dizer que isso também traz o seu peso negativo à obra. Porque, visualmente falando, Cemitério dos Sonhos acaba por ser demasiado heterogéneo entre si. Os estilos dos quatro ilustradores são demasiado diferentes, o que faz com que não haja uma certa unidade e continuidade na narrativa. Cada um dos quatro autores ilustra uma parte diferente da história. As formas de ilustrar quer de Marília Feldhues, quer de Cinthia Fujii, sendo diferentes, até se tentam aproximar e encaixam bem uma na outra. Mas Rodrigo Martins e Rômulo de Oliveira acabam por apresentar (mais) dois estilos bastante diversos. No final, pode-se então dizer que há 3 grandes “famílias” de estilos ilustrativos.

A minha preferida é a de Rodrigo Martins, que me parece a mais cativante e a que consegue apresentar mais soluções narrativas eficientes. As ilustrações de Marília Feldhues, mesmo rompendo muito com o estilo de Rodrigo Martins, também trazem alguma beleza pueril à história. Já quanto à arte ilustrativa de Rômulo de Oliveira, não fiquei tão convencido. Não é que o autor nos ofereça ilustrações feias ou mal conseguidas, mas pareceu-me um estilo de ilustrar menos atraente do que os demais. Nas suas páginas encontramos um traço mais rígido e grosso, com menos expressividade, e umas vinhetas marcadas com um traço demasiado grosso que também não ajudam ao resultado final.


Mais uma vez refiro: o meu problema nem sequer é o estilo ou a falta de beleza neste ou naquele método de desenho. O meu problema – se é que assim o podemos considerar – é mesmo a demasiada heterogeneidade entre géneros. Embora Miguel Peres faça o que pode e até consiga, de certa forma, dividir a história de forma a que a mesma possa apresentar algumas alterações, que procuram atenuar a diferença do ilustrador – e isto é particularmente bem sucedido na primeira mudança de ilustradores, quando passamos da arte de Rodrigo Martins para a arte de Marília Feldhues - acho que, ainda assim, e tendo em conta que é uma história com um certo grau de complexidade e diferentes camadas ao nível narrativo, teria funcionado melhor com apenas um ilustrador – ou dois, vá.

Quanto à edição, a cargo da editora Bicho Carpinteiro, temos um livro bastante parecido ao já mencionado Random: capa mole, com papel brilhante de boa qualidade e boa encadernação, sendo o livro um pouco mais dobrável e mole do que aquilo que eu gostaria. E uma capa dura permitiria, certamente, dar mais destreza física ao objeto em si. Mesmo assim, tem uma boa apresentação, certamente. Faço uma nota à presença de alguns erros ortográficos que eram facilmente evitáveis. Destaque para a excelente ilustração de capa e para o prefácio de André Oliveira que nos oferece (mais) um texto muito inspirado e profundo.

Em suma, Cemitério dos Sonhos é um álbum muito interessante e sério que versa sobre temáticas verdadeiramente adultas, como a superação pessoal face à persona em que nos tornámos e que é -por vezes - tão distante da persona que queríamos ser. Não é uma obra perfeita, mas traz consigo ideias muito, muito interessantes que são ilustradas por quatro autores brasileiros que, não obstante os seus bons esforços e alguns ótimos momentos no desenho, não conseguem oferecer-nos a unidade visual que seria expetável. Não sendo, portanto, perfeito é, ainda assim, e há que reconhecê-lo, um livro original que merece ser tido em conta pelos leitores de banda desenhada.


NOTA FINAL (1/10):
7.9


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Ficha técnica
Cemitério dos Sonhos
Autores: Miguel Peres, Marília Feldhues, Cinthia Fujii, Rodrigo Martins e Rômulo de Oliveira
Editora: Bicho Carpinteiro
Páginas: 96, a cores
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Setembro de 2016

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Análise: Random

Random, de Miguel Peres, Marcus Aquino e Fabi Marques - Bicho Carpinteiro


Random, de Miguel Peres, Marcus Aquino e Fabi Marques - Bicho Carpinteiro
Random, de Miguel Peres, Marcus Aquino e Fabi Marques

Random é uma obra que resulta dos esforços conjuntos de Miguel Peres, o argumentista, Marcus Aquino, o ilustrador, e Fabi Marques que assegura as cores deste livro. Na verdade, uma nota relevante sobre esta obra, e que vale a pena assinalar, é que foi levada a cabo uma campanha de crowdfunding em 2018, com o intuito de produzir e editar a obra, e que acabou por ser bem sucedida. Enquanto músico, posso dizer que tenho alguma experiência em campanhas de crowdfunding que foram um sucesso, e se há coisa que esta modalidade oferece aos artistas – para além do óbvio alcance de fundos monetários – é um envolvimento recíproco entre criadores e seus seguidores. Antes de sair para o mercado, já a obra conseguiu conquistar um pequeno - ou grande - público que acompanha o artista. E isso é, a meu ver, fundamental e uma forte alavanca para alcançar e delinear um potencial público e mercado. É assim na música e também é assim na banda desenhada, estou certo. Portanto, aplaudo a iniciativa e os apoiantes que acreditaram nesta iniciativa editorial. Valeu a pena!

Falando agora sobre a obra, propriamente dita, devo dizer que fiquei bastante surpreendido – pela positiva – com este lançamento. Olhando, em primeiro lugar, para o conceito deste anti-herói, posso dizer que o português Miguel Peres construiu uma premissa bastante cativante. Confesso até – e acreditem que isto é verdade – que eu já tinha pensado num conceito algo semelhante com o de Random para uma banda desenhada. E digo isto porque, na verdade, Random é uma personagem com que me identifico bastante.

Random, de Miguel Peres, Marcus Aquino e Fabi Marques - Bicho Carpinteiro
Afinal de contas, quem nunca quis fazer o que Random faz? Imaginem todo o tipo de irritações quotidianas - nos transportes públicos, no trabalho, no trânsito, no supermercado, nos serviços, etc - com que nos deparamos ao longo da nossa vida. Quem é que nunca teve pensamentos completamente agressivos de espancar alguém de forma a fazer-lhe entender algo, de uma vez por todas? É claro que, não sendo nós sociopatas, é normal que nunca partamos para a ação e que estas pequenas (por vezes grandes!) irritações não passem de um mero pensamento ou de uma fantasia que acontece apenas no nosso imaginário. E porquê? Bem, porque sendo cidadãos e tendo auto-controlo e inteligência emocional, sabemos compreender que a partida para o conflito, especialmente o físico, poderá trazer-nos vários dissabores. E de muitas formas diferentes!

Mas Random, o protagonista desta obra, parece não se preocupar tanto com as consequências dos seus atos e decide partir para a violência. Especialmente depois de descobrir que o seu amigo, uma boa pessoa, provida de uma grande consciência cívica, tem cancro e poucos dias de vida pela frente. Isto é a gota de água para que Random sinta que o mundo é verdadeiramente injusto e que nem sempre premeia (alguma vez?) os que são bons. Munido de um taco de baseball e de uma máscara bastante original que lhe cobre a cara, começa então a castigar quem lhe falta ao respeito: seja o condutor que não parou na passadeira; a pessoa que não se desvia para que ele saia no metro; a dona de um cão que não apanha os dejetos do animal da rua; a pessoa que, no cinema, come pipocas fazendo demasiado barulho; o condutor “chico-esperto” que rouba o lugar de estacionamento; ou a pessoa a quem o protagonista segura a porta e que nem lhe diz um simples “obrigado”. 

Random, de Miguel Peres, Marcus Aquino e Fabi Marques - Bicho Carpinteiro
Toda a premissa da obra remeteu-me para o filme Um Dia de Raiva (Falling Down, no título original), com Michael Douglas no papel de protagonista. Completamente enervado por estar bloqueado numa fila de trânsito, Douglas abandona o seu carro no meio da estrada e começa a fazer todo o tipo de atrocidades àqueles que lhe aparecem pelo caminho. E, se a memória não me atraiçoa, também se faz valer de um taco de baseball e de armas de fogo. Portanto, consciente deste facto ou não, Miguel Peres revisita um conceito já existente, embora o faça com a sua própria criatividade, garantido personalidade própria a Random.

A história vai depois andando para a frente e para trás no tempo, aumentando o interesse do leitor. Às tantas, Random parece perder a noção das coisas grandes e pequenas que irritam uma pessoa - e que merecem punição – e, cada vez mais, parte para a violência por "tuta e meia". Parece-me uma coisa bem pensada pois nesta banda desenhada, casualmente ou não, Miguel Peres acaba por nos traçar o início de um comportamento desviante e criminoso. No começo até nutrimos simpatia e compreendemos Random mas, às tantas, já nos parece que as suas ações são demasiado aleatórias e exageradas. Demasiado “random”, portanto.

E se pode parecer que esta obra é algo gratuita na violência que dela emana, a verdade é que considero que a moral desta história, a mensagem que Miguel Peres pretende passar, é que a violência não é o caminho para a resolução dos problemas, dos conflitos e da falta da educação. Pelo contrário, a violência ainda incentiva esse tipo de ações. Mesmo que, no calor dos nossos nervos em franja, face a algo que nos irrita, possamos achar o contrário. É uma história simples e honesta, mas que se lê muito bem. De um só trago até.

Random, de Miguel Peres, Marcus Aquino e Fabi Marques - Bicho Carpinteiro
E embora, por um lado, eu tenha gostado da forma como o autor resolve e fecha a história, por outro lado, lamentei que o conceito, ao ser resolvido da forma que é, nos prive de novas aventuras de Random. O autor abriu uma porta muito interessante, mas logo a fechou. E isso acaba por saber a pouco. Mesmo que se possa admitir que a última página do livro deixa em aberto a continuidade de, pelo menos, a iniciativa, a atitude e a forma de estar de Random poder vir a renascer numa outra personagem que, eventualmente, saia para a rua com a característica máscara de Random e o seu sangrento taco de baseball.

Random é servido por uma arte que achei muito convincente. Com fortes influências nos comics americanos, a arte do brasileiro Marcus Aquino é estilizada, dinâmica na planificação, com bons enquadramentos cinematográficos, várias splash pages, que acentuam dramatismo à trama, e com personagens que revelam boas expressões faciais e físicas. Sendo uma banda desenhada onde há bastante violência gráfica, importa dizer que o trabalho de Aquino é muito bem conseguido na forma como sabe criar poses dramáticas e marcantes. Considero que algumas ilustrações poderiam ter recebido um pouco de mais detalhes para ficarem ainda melhores. O que está feito está bem feito, mas com mais detalhes ao nível dos cenários, por exemplo, teríamos uma experiência ainda melhor. Mas não deixa de ser verdade que Random é uma obra bem ilustrada, que apela à vista. E para isso também contribuem as cores da brasileira Fabi Marques que aproximam esta obra dos bons comics americanos. Um aspeto moderno e que sabe encher-nos o olho.

Random, de Miguel Peres, Marcus Aquino e Fabi Marques - Bicho Carpinteiro
A edição que, tal como referi no início do texto, resulta de uma campanha de crowdfunding, está muito interessante, com papel brilhante de boa qualidade e com boa encadernação. Devo dizer que considero que a obra teria beneficiado se tivesse sido lançada em capa dura. Quando temos a obra nas mãos verificamos que talvez seja mais mole e dobrável do que o desejado. Mas, sendo uma edição de autor, compreende-se que cada pequeno custo tenha sido ponderado pelos autores. E, se calhar, esta edição foi mesmo a possível de executar com qualidade. 

A bonita capa do livro foi desenhada por Miguel Mendonça. Em termos de design – assegurado por Mário Freitas - Random também está bem conseguido. Destaque para a introdução de dois pequenos extras: o primeiro é uma ilustração de Jorge Coelho e o segundo é uma pequena curta, de quatro páginas, de Miguel Montenegro. É uma pequena história pertinente, bem montada e bem desenhada pelo autor. Mas uma nota negativa tem que ser dada para a presença de 3 erros ortográficos (de alguma gravidade) nesta pequena história. Tendo em conta que a mesma só tem 4 páginas, parece-me um pouco inacreditável que tenham ocorrido 3 erros (2 deles na mesma vinheta!) deste gabarito. Não gosto de ser o “nazi dos erros ortográficos” pois sei que é algo que acontece – e aqui no Vinheta 2020 esse tipo de erros também acontecem, por vezes – mas acho que, ao contrário do ambiente online em que esses erros ortográficos podem (e devem) ser editados e corrigidos, quando estamos perante edições impressas isso não é possível, fazendo com que a obra fique manchada para sempre. Um cuidado redobrado é necessário, pois está claro.

Em suma, esta é uma banda desenhada muito interessante, de fácil leitura e que entretém bastante. Gostei especialmente da premissa que Miguel Peres criou para Random, embora, em termos de arte ilustrativa, esta também seja uma obra muito apelativa e interessante. É importante valorizar a banda desenhada nacional que é boa e esta, seguramente, merece ser valorizada.



NOTA FINAL (1/10):
8.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Random, de Miguel Peres, Marcus Aquino e Fabi Marques - Bicho Carpinteiro

Ficha técnica
Random
Autores: Miguel Peres, Marcus Aquino e Fabi Marques
Editora: Bicho Carpinteiro
Páginas: 80 páginas, a cores
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Agosto de 2020