Mostrar mensagens com a etiqueta Tinta da China. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tinta da China. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Comparativo: Os Vampiros pela Companhia das Letras e pela Tinta da China

Comparativo: Os Vampiros pela Companhia das Letras e pela Tinta da China

Já está disponível, há alguns dias, mais uma reedição de uma das obras de Filipe Melo e Juan Cavia.

Primeiro foi Balada para Sophie, depois foi Comer / Beber e agora chega-nos a reedição de Os Vampiros que, tratando-se de um livro ambientado na guerra colonial, era mais uma dos obras que, lamentavelmente, se encontrava esgotada nas livrarias portuguesas.

A Companhia das Letras veio alterar essa situação. Esta excelente obra é exatamente a mesma mas há algumas diferenças entre as duas edições, que passarei a enumerar.

Em primeiro lugar, o que salta mais à vista é a mudança de capa com a substituída da ilustração de capa. 

Quanto a preferências sobre ambas as capas, acho que cada um terá a sua, com base nos seus gostos pessoais. A mim, a ilustração da capa original parece mais artística e de maior beleza mas a nova versão também me agrada e até me parece ter mais appeal comercial, pois talvez chame mais facilmente à atenção. 

O lettering do título também mudou. Provavelmente porque os direitos do letttering original estejam na posse da Tinta da China. Prefiro o original, com o pormenor da bala e das ervas nas letras. Mas, mais uma vez, é uma questão subjetiva.

Comparativo: Os Vampiros pela Companhia das Letras e pela Tinta da China

O que é mais objetivo é a questão da mudança de formato que, na nova edição, passou a ser mais pequeno, como podem ver na imagem acima. Se isto me fez torcer o nariz à partida, tenho boas notícias para os que possam estar cépticos perante esta alteração: é que o tamanho das vinhetas no interior do livro é exatamente o mesmo. 

Ou seja, a mancha de impressão não foi diminuída. O que foi diminuído foram as margens à volta das vinhetas. Mesmo que me possam dizer que, desta forma, talvez as ilustrações não "respirem" tão bem, a verdade é que acaba por ser uma coisa que, do meu ponto de vista, não afeta praticamente nada a leitura. E, claro!, prefiro esta opção ao ter-se diminuído as ilustrações para manter a mesma margem. 

Bem pensado, portanto, como podem ver abaixo.

Comparativo: Os Vampiros pela Companhia das Letras e pela Tinta da China

Em termos de qualidade de papel, de impressão e de encadernação, se há mudanças entre as duas edições, não as percecionei. Papel brilhante de boa qualidade, capa dura baça e fita de tecido marcadora - que passa da cor preta para a cor vermelha na nova edição. Tudo se mantém com boa qualidade.

A contracapa também foi alterada como podem ver abaixo. Mais uma vez, prefiro a edição original embora também ache que a nova versão está bem conseguida do ponto de vista gráfico e comercial.

Comparativo: Os Vampiros pela Companhia das Letras e pela Tinta da China

Por fim, convém dar conta da maior alteração entre as duas versões e que oferece à nova edição uma grande mais valia: o novo dossier sobre os acontecimentos históricos do ultramar e que também inclui esboços preparatórios de Juan Cavia e fotografias da época!

Está uma verdadeira delícia e considero que enriquece muito a leitura da obra.

Ora vejam:

Comparativo: Os Vampiros pela Companhia das Letras e pela Tinta da China

Comparativo: Os Vampiros pela Companhia das Letras e pela Tinta da China

Comparativo: Os Vampiros pela Companhia das Letras e pela Tinta da China

Comparativo: Os Vampiros pela Companhia das Letras e pela Tinta da China

Comparativo: Os Vampiros pela Companhia das Letras e pela Tinta da China


Em suma, se o objeto-livro da edição da Tinta da China me parece, por uma questão de gosto pessoal, mais bonito, a verdade é que esta nova edição da Companhia das Letras se torna, devido ao seu muito interessante e bem-vindo dossier de extras, mais apelativa. 

Quer para aqueles que já leram ou compraram a primeira edição, quer para os novos leitores que poderão agora ler uma das melhores obras da banda desenhada portuguesa.

Obviamente, recomenda-se vivamente!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Já é conhecido o vencedor do Prémio Jorge Magalhães!



A editora Ala dos Livros promove o Prémio de Argumento para Banda Desenhada Jorge Magalhães, que é um prémio com dois claros e importantes objetivos: 1) o de homenagear essa personalidade incontornável da banda desenhada em Portugal que foi Jorge Magalhães, avô dos editores, e 2), o de procurar assinalar e destacar os melhores trabalhos da banda desenhada portuguesa, ao nível do argumento. 

Por estes dois motivos, esta iniciativa, cuja primeira edição é esta mesmo, é algo que considero mais que relevante e que espero que se possa manter futuramente!

Foi também por achar que é algo muito pertinente e bem-vindo que aceitei fazer parte do júri que selecionou as melhores obras, ao nível do argumento, da banda desenhada de 2020. Não poderia estar mais bem acompanhado no júri, ou não fosse este painel composto por nomes tão ilustres da banda desenhada nacional como João Miguel Lameiras, Paulo Monteiro, Pedro Cleto ou Maria José Magalhães. Bem, na verdade, o único nome menos ilustre deste conjunto, é o meu!

Mas, deixando a constituição do júri de lado e focando-me no(s) vencedor(es), informo que o grande vencedor deste primeira edição do Prémio de Argumento para Banda Desenhada Jorge Magalhães foi Filipe Melo, com o seu Balada para Sophie, que arrecadou o prémio de melhor argumento de 2020. Este livro foi inicialmente publicado pela Tinta da China embora, neste momento, esteja a ser editado pela chancela Companhia das Letras, da Penguin Random House.

Vencedor: Balada para Sophie 
de Filipe Melo e Juan Cavia
Companhia das Letras (Originalmente publicado pela Tinta da China)



Também dignas de relevo e louvores são as duas obras que receberam uma menção honrosa por parte do júri: Desvio, da Planeta Tangerina, com argumento de Ana Pessoa, e O Penteador, da Escorpião Azul, com argumento de Paulo J. Mendes.

Menção Honrosa: Desvio
de Ana Pessoa e Bernardo P. Carvalho
Planeta Tangerina

 
Menção Honrosa: O Penteador
de Paulo J. Mendes
Escorpião Azul



Parabéns aos autores vencedores, às editoras que apostaram nestas obras e aos criadores deste Prémio!

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Comparativo: Comer / Beber pela Companhia das Letras e pela Tinta da China

Comparativo: Comer / Beber pela Companhia das Letras e pela Tinta da China


Hoje regresso com mais um comparativo.

Desta feita, com duas edições diferentes da mesma obra portuguesa. Falo de Comer/Beber, de Filipe Melo e Juan Cavia, originalmente lançado pela editora Tinta-da-China, que já aqui foi analisado, e que acaba de receber uma nova edição por parte da Companhia das Letras (Grupo Penguin Random House).

Este lançamento traz com ele duas boas notícias para os leitores portugueses:

1) O legado criativo de dois dos autores mais relevantes na banda desenhada portuguesa volta a estar disponível no mercado. Tendo em conta a qualidade da obra, considero impensável que a mesma não esteja (sempre) disponível nas lojas para os interessados. E não falo apenas deste Comer / Beber, Já aconteceu com Balada para Sophie, que já se encontra disponível no mercado através de uma nova edição - que também já aqui analisei - e acontecerá, expetavelmente ainda em 2021, com a obra Os Vampiros. Quanto a Dog Mendonça e Pizza Boy ainda não há certezas quanto a datas ou opções de edição mas sei que uma edição integral (com os 3 volumes + o volume das mini-histórias) estaria no intento dos autores. Embora não haja ainda qualquer confirmação relativamente a isso. Portanto, aguardemos, para já. 

2) E, claro, a segunda boa notícia é que, tratando-se de Comer / Beber, a grande novidade é que, finalmente, muitos leitores poderão apreciar convenientemente este livro, muito interessante, que é composto por duas histórias: Majowski e Sleepwalk. A edição original da editora Tinta-da-China foi bem conseguida em termos de qualidade de encadernação e materiais mas a verdade é que a dimensão do livro era demasiado pequena.

Passemos, então, para o comparativo entre ambas as edições. 

A coisa que saltará mais à vista é a diferença nos formatos. Por muito cute e original que a edição da Tinta-da-China possa ter sido, a verdade é que, em termos de legibilidade, apresentava alguns problemas, já que as bonitas ilustrações de Juan Cavia não sobressaiam tanto dessa forma e o próprio texto era muito pequeno para ler. Não tendo eu - até agora - dificuldades de visão, tinha que enfiar o livro quase nos olhos para o conseguir ler. Agora, isso já não acontece. O formato tornou-se bem mais amplo e é fácil ler e acompanhar estas duas belas histórias.

Para além da diferença de tamanho, outra coisa que salta à vista é a mudança de papel. O papel das duas edições é de boa qualidade mas, na nova versão, e ao contrário da versão original onde era brilhante, o papel passou a ser baço. Ora, este é um assunto que quase sempre divide os leitores, bem sei. Uns preferem o papel brilhante, outros preferem o papel baço. No meu caso, e tendo em conta o tipo de história, bem como o tipo de arte visual, tenho preferência pelo papel baço. O que também não quer dizer que não considere que o papel brilhante poderia ter funcionado bem. São gostos. Mas deixo a nota. 

Para além do tipo de papel, o papel também foi mudado em termos cromáticos. Na primeira versão, cada folha tinha um aspeto amarelado e envelhecido. Na atual versão, as páginas passaram a ser simplesmente brancas. É verdade que gostei do tal aspeto envelhecido que dava um teor de documento perdido - que fazia ainda mais sentido se tivermos em conta o primeiro conto Majowski - mas compreendo que talvez se coadunasse mais com o formato pequeno dessa primeira edição que sempre me remeteu para o famoso diário do pai do Doctor Jones, em Indiana Jones. Ou, mais recentemente, no igualmente famoso diário de Nathan Drake em Uncharted. Olhando para a nova versão da Companhia das Letras, talvez este aspeto de diário envelhecido não ficasse tão bem devido à dimensão maior do formato. Portanto, aceito bem esta alteração, tendo em conta que o tamanho do livro foi bastante aumentado. Não se pode ter tudo.


Comparativo: Comer / Beber pela Companhia das Letras e pela Tinta da China


Faço ainda uma nota positiva para o facto da ilustração que figurou numa segunda edição, em capa mole, por parte da Tinta-da-China, tenha aqui sido resgatada e recuperada nesta nova edição da Companhia das Letras, conforme podem ver abaixo. É um plus simpático.


Comparativo: Comer / Beber pela Companhia das Letras e pela Tinta da China


Olhando, agora, para o exemplo de duas páginas de banda desenhada, é facilmente veificável como a edição em maior formato ganha legibilidade e permite apreciar ao detalhe a arte de Juan Cavia. As cores também parecem ligeiramente mais claras na nova edição. 


Comparativo: Comer / Beber pela Companhia das Letras e pela Tinta da China


Relativamente aos extras, são exatamente os mesmos.


Comparativo: Comer / Beber pela Companhia das Letras e pela Tinta da China

A única diferença é que o prefácio da primeira edição, feito por Carlos Vaz Marques, deixa de constar na edição da Companhia das Letras. 

Em contrapartida, na nova edição há duas novas páginas dedicadas às biografias dos autores.

Comparativo: Comer / Beber pela Companhia das Letras e pela Tinta da China

As lombadas são praticamente iguais mudando apenas, claro está, a altura das mesmas.

Comparativo: Comer / Beber pela Companhia das Letras e pela Tinta da China

Finalmente, o texto da contracapa foi reescrito e aparece complementado por duas citações de Gonçalo Frota, do jornal Público, e de José Mário Silva, do jornal Expresso.

Comparativo: Comer / Beber pela Companhia das Letras e pela Tinta da China

Concluindo este comparativo, acho que é justo e consensual dizer-se que esta edição melhora em muito a leitura deste bom livro que é Comer / Beber e a sua compra é recomendada para todos: os que ainda não leram devido à edição anterior se encontrar esgotada; e também aqueles que adquiriram a primeira edição mas que tiveram uma certa "luta ótica" com o livro devido ao reduzidíssimo formato dessa versão.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Comparativo: Balada para Sophie, pela Tinta da China e pela Companhia das Letras


Esta semana chegou às livrarias uma nova edição (a terceira) da obra-prima da banda desenhada portuguesa, Balada para Sophie, da autoria de Filipe Melo e Juan Cavia, que já se encontrava esgotada há vários meses, depois da editora original, a Tinta da China, que sempre tinha trabalhado com a dupla de autores até à presente data, ter lançado uma segunda edição da obra. Que também esgotou rapidamente.

Os autores mudaram então de editora, entrando no grupo editorial Penguin Random House e, mais concretamente, na chancela Companhia das Letras.

Como não podia deixar de ser, faço aqui um comparativo entre ambas as edições.

E convém, em primeiro lugar, dizer que o objetivo primeiro desta nova edição é, acima de tudo, vir preencher uma necessidade subjacente: a de colocar novamente a obra Balada para Sophie nas lojas. E isso serão boas notícias pois, como desde cedo afirmei, considero esta a melhor obra portuguesa de banda desenhada de sempre! Obrigatória em todas as estantes dos que adoram bd. E, também - porque não? - nas estantes daqueles que até não ligam muito a banda desenhada. De qualquer maneira, este fantástico livro já foi devida e exaustivamente analisado por mim no artigo que escrevi há uns meses. Portanto, para mais informações sobre a obra em si, aconselho uma (re)visita a esse artigo.

Assim, e tendo presente que o real objetivo deste lançamento é a recolocação de uma obra obrigatória no mercado, posso dizer que esta é uma fantástica notícia para todos nós!

Mas, claro, como houve uma mudança de editora, denotam-se algumas alterações entre as edições.


Em primeiro lugar, e talvez o que chama mais a atenção, o novo livro apresenta uma dimensão mais pequena como, aliás, é verificável nas imagens que aqui coloco. A nova edição, da Companhia das Letras, é mais pequena em cerca de 1 cm. Quer na altura, quer na largura. Não tenho presentes quais terão sido as razões para esta mudança. Pode ter que ver com custos (embora me pareça que sendo um diferença tão pequena talvez não seja essa a razão da alteração) ou pode estar relacionado com a vontade da nova editora em utilizar um formato mais estandardizado. Como não tive informações sobre o porquê desta alteração, estou apenas a especular. E tenho que ser sincero: para mim, quanto maior o formato, melhor a experiência de leitura de uma banda desenhada. 

Não nego que há certos tipos de banda desenhada - ou artes ilustrativas - que até podem funcionar melhor num formato mais pequeno. Mas, quase sempre, prefiro a versão grande. A maior possível. Portanto, acho que talvez tivesse funcionado melhor se se tivesse mantido exatamente o mesmo formato. Mas dizendo isto, também não posso afirmar que seja uma alteração que estrague ou dificulte a experiência de leitura. Nada disso. É uma alteração ínfima. Aceita-se.

Depois, e ainda na capa, salta a vista a alteração do lettering. Do tipo de letra utilizado quer para o nome dos autores, quer para o título da obra. E, se no caso do nome dos autores, a mudança do tipo de letra quase não se percebe, em relação às letras do título a mudança é mais notória. E, devo dizer, foi uma mudança para melhor. Eu já gostava da primeira versão mas esta segunda versão do lettering, com um tipo de letra mais clássico e com a ideia muito feliz e inspirada de inverter uma clave de sol para, com isso, formar o "S" de "Sophie" foi mais que bem conseguida. Um detalhe delicioso e que consegue melhorar algo que já roçava a perfeição.

O logótipo da Companhia das Letras, sendo mais horizontal do que o da Tinta da China não fica tão bem "arrumado" nesta segunda versão da capa. Mas esta é mais uma coisa ínfima, diria.

Finalmente, o amarelo desta nova capa é ligeiramente diferente do da capa original. Um pouco mais claro.


Rodando o livro, encontramos uma lombada ligeiramente diferente. Temos o lettering que, naturalmente, também é diferente entre edições. E temos o fundo da lombada que é de um tom de castanho mais escuro do que o da primeira versão. Mais uma vez, também prefiro a nova versão. Já era bom mas ficou ainda melhor.

A tira de tecido que serve como marcador de livro também mudou de cor. Passou de preto para vermelho/cor de vinho. É mais uma mudança mínima mas, atendendo às minhas escolhas futebolísticas, prefiro a versão vermelha, está claro!



Na contracapa, o texto foi alterado. Aqui não tenho a certeza de qual das versões gosto mais. Talvez até prefira o texto da primeira edição mas acho que o desta nova versão também está apelativo.

Existem também mais citações de análises e artigos que foram escritos sobre a obra. Sendo de publicações de prestígio (Expresso, Público e Time Out), considero que já li melhores comentários sobre esta obra fantástica. Blink, blink.



Todo o resto do livro é basicamente igual. O mesmo número de páginas e o mesmo preço de venda ao público. O papel, se não é o mesmo, é extremamente semelhante e cada uma das páginas é igual, até mesmo no dossier de extras. 

E por falar em dossier de extras, neste ponto é que gostaria que tivesse sido introduzida alguma coisa adicional para valorizar ainda mais esta edição. Mais alguns esboços do Juan Cavia, ou uma entrevista do Filipe Melo sobre a obra, ou mais citações da imprensa ou até mesmo uma nova ilustração original de Cavia para esta edição, teriam sido excelentes ideias.

Sei que sempre se diz: "em equipa que ganha, não se mexe". Se a primeira edição da Tinta da China estava sublime, porquê alterar o que quer que fosse? Verdade. Mas acho que teria sido simpática a introdução de algo mais. Mesmo que fosse uma pequena coisa. Mais duas ou quatro páginas já seria muito bom.

Seja como for, volto ao cerne do meu texto: sendo o objetivo primordial desta nova edição, a disponibilização da obra em loja novamente, então são excelentes notícias para os leitores de banda desenhada.

Se ainda não compraram, aqui têm uma excelente oportunidade. Se, enquanto leitores de bom gosto que são, já têm um Balada para Sophie nas vossas estantes, então podem sempre aproveitar para oferecer esta obra a uma pessoa que vos é querida.

Balada para Sophie continua maravilhoso e, não me canso de repeti-lo, a merecer o estatuto, atribuído por mim, de melhor livro de banda desenhada na história da bd portuguesa!

Indispensável!

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

TOP 15 – As Melhores BD’s portuguesas de sempre



TOP 15 – As Melhores BD’s portuguesas de sempre 

Ui! Este TOP não será certamente consensual. E ainda bem que assim é. Nem eu, nem ninguém, é dono da verdade e qualquer opinião, por mais conhecedora e formada que seja, é sempre passível de ser contrariada pelos demais. 

Vasculhando a minha biblioteca pessoal, e mesmo tendo noção de que a maioria dos meus livros é, compreensivelmente, de origem estrangeira, a verdade é que já li quase duas centenas de livros portugueses de banda desenhada. 

E, como tal, achei que faria sentido fazer este TOP 15. Desta vez, como a minha escolha era muita, não são 10, mas sim um lista com os 15 melhores. E até porque, quanto maior vai sendo a oferta no mercado, mais difícil se torna a escolha e, por esse motivo, mais importantes são estes TOPs para aqueles que estão indecisos em apostar em autores/livros novos. Claro que este TOP 15 deu-me imensas “dores de cabeça”, por ter que deixar de fora algumas coisas que também adoro. Obras como as de José Carlos Fernandes, Luís Louro ou muitos lançamentos da Escorpião Azul. E, também, obras como Jardim dos Espectros, O Baile, Assembleia das Mulheres ou Amadeo, por exemplo, quase entraram neste TOP. E já agora, Portugal, de Cyril Pedrosa, iria ocupar uma posição cimeira neste TOP, pois eu achava que ele tinha dupla nacionalidade portuguesa e francesa. Mas depois de investigar, verifiquei que eu estava equivocado e que o autor, embora filho de pais portugueses, é unicamente francês e, por uma questão de coerência, vi-me forçado a retirá-lo do TOP

Mesmo sendo um dos TOPs mais difíceis que já fiz, no derradeiro momento, a minha escolha é sempre efetuada com base nisto: se as minhas estantes de bd estivessem em chamas e eu só pudesse salvar 15 livros de bd portuguesa… quais seriam? 

Esses livros seriam estes: 

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Análise: Balada para Sophie




Balada para Sophie, de Filipe Melo e Juan Cavia

Nota introdutória: para tentar fazer a análise mais sóbria e menos “a quente” possível, dei-me ao cuidado de ler este livro duas vezes. Portanto, tenham os meus leitores noção que esta análise é “a frio” e da forma mais ponderada que me é possível.

Dito isto, penso que há uma afirmação justa, fácil e verdadeira a fazer: Balada para Sophie é o melhor livro de banda desenhada na história da bd portuguesa! Vou repetir-me: Balada para Sophie é o melhor livro de banda desenhada na história da bd portuguesa! E até acrescento mais a isso: é um dos melhores livros de banda desenhada que já li. E já levo 30 anos disto. Aludindo ao meu tom trágico, se a minha estante, que tem centenas de livros de banda desenhada, estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 20 livros… Balada para Sophie seria um dos escolhidos, por mim.

Mas vamos por partes, porque esta obra merece-me uma análise cuidada.

Estão a ver aquele filme especial que vos marcou para a vida? Ao qual estão sempre a regressar em memória? Estão a ver aquele livro, cujas frases, a história, o argumento, vos tocou no âmago do vosso ser? Estão a ver aquele prato que a vossa avó, a vossa mãe, o vosso pai ou um qualquer cozinheiro de um restaurante, mais ou menos famoso, preparou e que vocês não mais esqueceram? Estão a ver aquela pessoa que vos olhou de uma forma que mais nenhuma outra olhou? Bem, estes exemplos servem para demonstrar que, ao longo das nossas vidas, de formas mais ou menos parecidas, todos nós vivenciamos momentos de grandeza que nos tocam para o resto da vida. Balada para Sophie, do português Filipe Melo e do argentino Juan Cavia, será um desses momentos grandiosos da banda desenhada mundial (sublinho: mundial!) que, certamente, arrebatará grande parte das pessoas – senão todas – que tiverem a oportunidade de ler tamanha obra-prima. Sim, deixemo-nos de rodeios: esta é uma obra-prima da banda desenhada.


Sobre Filipe Melo, e mesmo podendo desviar-me um pouco daquilo que eu deveria estar aqui a analisar, eu tenho que admitir que o homem é um génio. Génio porque o fruto da sua criação – e agora, não me refiro apenas à banda desenhada – é de uma qualidade que faz os demais criadores parecerem medíocres. Não posso dizer que o conheça bem pessoalmente, mas é verdade que já nos cruzámos algumas vezes, muito por conta dos lançamentos dos Dog Mendonça 1 e 3 e nos corredores e salas de exposição do Amadora BD. Também - e deixo aqui esta pequena trivia aos interessados – até mesmo musicalmente, os nossos caminhos já se podiam ter cruzado, não fora a indisponibilidade do Filipe Melo, para participar no meu disco do projeto |UGO| - Leap of Faith, que lancei há uns anos. Sempre humilde e respeitoso, o Filipe declinou amavelmente o meu convite, por falta de disponibilidade. Isso também me mostrou que ele é um autor que sabe bem o que quer fazer e o que é preciso ser feito para alcançar os seus objetivos. Tem noção da sua obra, do seu output criativo. E portanto, trabalha em função dos seus standards que são elevadíssimos. Coisa típica de um génio. É lógico que os amantes de banda desenhada muito respeitam o Filipe Melo; também é óbvio que os fãs de cinema o respeitam enquanto realizador de cinema independente (I’ll See You In My Dreams, Um Mundo Catita ou Sleepwalk são obras que merecem ser referenciadas). E nem vale a pena mencionar a importância que Filipe Melo tem na música, sendo dos melhores pianistas portugueses e um professor inesquecível para tantos músicos – alguns deles, amigos meus – que o tiveram enquanto professor. É por isso que falo de genialidade. Não porque o precise de fazer para ganhar a simpatia de Filipe Melo – ele já é simpático, por natureza – mas porque considero justo que lhe seja dada a merecida admiração. A meu ver, são pessoas como o Filipe Melo que elevam a arte para um patamar superior. Já o admiro verdadeiramente há bastantes anos, mas após este Balada para Sophie, a minha admiração e respeito pelo autor ainda aumentou exponencialmente. 

Debrucemo-nos então em Balada para Sophie, essa obra-prima, esse clássico instantâneo da banda desenhada mundial. A história é certamente muito pessoal para os autores, ou não fossem ambos muito ligados à música e, em especial, ao piano. 

A obra, coloca-nos na pele de Julien Dubois, um pianista que, desde tenra idade, é educado e formado para vir a ser um pianista de renome mundial. Oriundo de uma família privilegiada, e ainda durante os tempos de criança, Julien Dubois cruza-se, num concurso musical, com François Samson, o filho do responsável pela limpeza do teatro, onde o referido concurso toma lugar. Estamos em 1933 e a história passa-se em Cressy-la-Valoise, França. Independentemente do resultado desse concurso musical, que um dos jovens pianistas acaba por vencer, Julien nunca mais será o mesmo depois de escutar François a atuar. O misto de admiração e raiva por François consome Julien ao longo da sua vida. 70 anos mais tarde, após a visita de uma jornalista, Julien decide finalmente abrir-se e contar a história da sua vida. E a viagem, meus caros leitores, é um deleite para quem gosta de um bom argumento, bigger than life, que nos acompanhará muitos anos. Já para não falar da magnífica arte visual com que Juan Cavia ilustra esta belíssima história. Mas, quanto a isso, já lá irei.


Mais do que oferecer-nos um conto clássico em que o protagonista é confrontado com um problema ou um obstáculo e depois opera algum tipo de atitude quanto a isso, aquilo que Balada para Sophie nos dá, é uma história de vida com as devidas reflexões sobre a procura de redenção, a (in)capacidade humana de saber lidar com a rivalidade e, acima de tudo, a busca por algo maior do que nós, na arte. Não é, pois, uma daquelas histórias que se resumem em duas linhas: “a personagem x encontra o problema y e resolve ultrapassar isso através da seguinte ação, e, no final, consegue ter sucesso (ou não)". Neste caso, à semelhança do clássico do cinema, que agora me vem à memória, Era uma Vez na América, de Sergio Leone, em que o argumento assenta mais na história de vida do personagem principal do que, propriamente, na atitude do mesmo em superar determinadas barreiras, para um fim melhor ou pior, também em Balada para Sophie, o que interessa não é bem o destino mas sim a viagem. 

Eu podia estar aqui a resumir os principais acontecimentos que sucedem ao protagonista da história. Mas não é isso que farei. O que interessa aqui, é a jornada toda. E a jornada é feita de pequenas coisas, de pequenos momentos. Há conversas de 5 minutos que temos nas nossas vidas, que nos mudam para sempre. Há filmes, livros, ou quadros que transformam a nossa vida. O tema Childhood and Manhood, do recentemente falecido génio Ennio Morricone, só tem 2 minutos e 15 segundos, e não é por isso que não mudou a minha vida, na primeira vez que o ouvi. Penso que esta capacidade de certas coisas em evocarem o nosso espírito é comum a todos nós. No final, as nossas vidas, sem exceção, não passam de mantas de retalhos que tiveram o condão de nos marcar, moldar, alterar, transformar e fazerem-nos ser quem somos. E claro, no final deste livro, a sensação de uma vida, por vezes bem, por vezes mal, vivida, com desencontros, desilusões, tristezas, glória, felicidade, amor, paixão… é aquilo que Balada para Sophie nos dá. A interpretação é aberta: agarramo-nos aos bons momentos? Aos maus? Ao que vivemos? Ao que podíamos ter vivido? Às nossas escolhas? Fazemos um apanhado de tudo? E depois disso, ficamos com um sorriso feliz ou com um travo amargo na boca? No derradeiro final, que teremos nós para dizer ou para relembrar? Deixamos este mundo com a música (AKA vida) que absorvemos ou partimos deste mundo criando nova música para outros? A música acabará alguma vez? Caberá a cada um a própria reflexão sobre esta obra. Os autores colocam as cartas em cima da mesa. E nós só temos que reagir às mesmas consoante o “jogo” (ou vivências pessoais) que temos em mãos. 

Julien Dubois tem em si todos os sonhos de glória mas encontra em François Samson uma nuvem negra para a sua vida. Entretanto, a Segunda Guerra Mundial acontece e a vida de ambos acaba por sofrer repercussões disso. Que desenlace terá a vida do inconformado Julien? Não me peçam para contar mais detalhes sobre a história. Há que lê-la. 


As personagens são extremamente bem esculpidas por Filipe Melo. Até mesmo as mais secundárias nos deixam saudade quando terminamos a história. Uma outra coisa que também merece destaque é a grande sensibilidade que Melo coloca neste argumento. Como se cada uma das personagens que aqui aparecem lhe fossem entes queridos, o autor consegue criar empatia entre elas e o leitor. Parece-me também, que Filipe Melo é, provavelmente, o primordial leitor de si mesmo. Uma leitura atenta da nossa parte, faz-nos perceber que há um cuidado cirúrgico com o argumento, por parte do autor. Com o que é dito, como é dito, o que se revela, o que não se revela. E em que alturas. As peças encaixam na perfeição, de forma fluída e consistente. E também são inúmeros os exemplos em que a obra parece ter consciência de si mesma, isto é, como o autor, atento àquilo que o leitor poderá sentir, tem a iniciativa de fazer as perguntas e dar as respostas, rapidamente anulando qualquer fissura narrativa que poderia surgir. Um exemplo claro disto é a caracterização, com cara de Bode - a fazer lembrar a igualmente genial banda desenhada Blacksad, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - da personagem de Hubert Triton. Lembro-me que ainda estava a franzir a testa pensando de forma céptica: “hmmm… um bode? Que foste tu fazer, Filipe Melo?” e, já duas vinhetas abaixo, o autor me dava a resposta com um simples: “É assim que me lembro dele”, dito por Julien Dubois. Mas que maravilha! Não deu para não sorrir com a forma como o autor me "fintou", narrativamente. Não é para todos esta agilidade no argumento, definitivamente. 

O cuidado estético de ambos os autores é tanto que o próprio fumo dos cigarros é uma personagem, per si, nesta obra. O que revela bem, de forma quase extrema, que nada é deixado ao acaso. Como o compositor de uma música, movida a crescendos, a pausas, a silêncios, a eloquência, a drama, Filipe Melo é um autêntico maestro no argumento. Outra coisa extremamente bem conseguida é a cinematografia da obra. Enquanto lia Balada para Sophie, sentia-me a ver um filme. E aqui o responsável não é apenas Melo. Cavia, sabe dar vida a uma planificação diversa, com uma excelente utilização de “planos de câmara”. Vê-se claramente que ambos os autores são experientes no cinema. 

Há outra coisa que quero realçar, e que já vai sendo algo recorrente aqui no Vinheta 2020. Para que a banda desenhada deixe definitivamente de ser catalogada como “livros para miúdos” e que possa evoluir e tornar-se mais adulta, é necessário que os argumentos tenham tempo (quando falo de “tempo”, refiro-me a páginas) para maturar ideias e aprofundar personagens, tornando os livros mais intensos, densos e inesquecíveis. E isso, felizmente, também é muito bem feito em Balada para Sophie. Se não fosse tão grande em dimensão, esta obra não conseguiria ser tão profunda e inesquecível, mesmo que o argumento e a arte fossem igualmente bons. Por muito boa que uma curta-metragem possa ser, uma longa-metragem, igualmente boa, vai deixar mais marcas na nossa vida. Também é assim na banda desenhada. Felizmente, livros grandes são, cada vez mais, uma tendência comum na banda desenhada que vai sendo lançada.

Quanto à arte de Juan Cavia, é uma maravilha para os olhos! Já o é desde o primeiro livro de Dog Mendonça e continua a melhorar, de livro para livro. A maneira como consegue dar vida às personagens é maravilhosa. Exímio na caracterização facial das personagens – esse calcanhar de Aquiles para tantos bons autores de banda desenhada -, Juan Cavia consegue criar um laço com o leitor logo nas primeiras pranchas. Não há uma única personagem que não seja carismática. O seu traço é elegante e descomprometido, ao mesmo tempo. A forma como deixa, propositadamente, as linhas-guia na arte final das personagens é uma característica singular que funciona tão bem. Os ambientes, os detalhes dos objetos nos cenários, a utilização de planos com perspetivas algo complexas e audazes, a diversidade nas pranchas para acentuar determinado tipo de sentimento… bolas! Está tudo bem feito! Existem ainda magníficas ilustrações abstratas que acompanham o período mais narcótico de Julien, que são um gáudio para os olhos. Também a paleta de cores, variando consoante a situação retratada, com tons que são alterados entre os amarelos torrados, os azuis fortes e os vermelhos baços, acrescentam identidade artística à obra. Este é o melhor livro de Juan Cavia, também.

Como se isto não fosse já suficientemente perfeito, a edição da obra, por parte da Tinta-da-China não poderia ser melhor, também. Com uma edição de luxo, capa dura, papel baço de excelente gramagem e uma fita de tecido marcadora, a obra apresenta um design magnífico e não há aqui quaisquer defeitos a apontar. Até coisas simples (mas importantes) como a lombada do livro, a fonte escolhida para o título ou a magnífica ilustração da capa, com um teclado de piano a emergir do fumo do cigarro de Julien Dubois, são magníficas.


Tenho lido alguns comentários na blogosfera e redes sociais manifestando desagrado pelo preço, alegadamente elevado da obra (36€). Ora, considero isto uma “não-discussão”, mas, ainda assim, teço um pequeno comentário pessoal: o valor até pode ser avultado, reconheço, mas há que ter em conta as características do produto em si. 5 dias de férias num resort também são mais baratos do que 15 dias nesse mesmo resort, certo? Da mesma forma que um Dacia também é mais barato do que um Porsche. Uma noite no Hotel Ibis também é mais barata do que uma noite no Ritz. Um piano digital Yamaha também é mais barato do que um piano de cauda Steinway & Sons. Um bife do pojadouro também é mais barato do que um bife da vazia. Podia estar aqui o dia todo. Se queremos quantidade e qualidade, há um preço a pagar. Mais ainda: para um livro com esta qualidade de edição, com 320 páginas impressas a cores, num papel de excelente gramagem, este preço parece-me ajustado. E muito mais preferível e, curiosamente, “mais em conta”, do que se a editora dividisse estas 320 páginas por 5 livros , com 60 páginas, e os lançasse a 15€ no mercado. Ou se os dividisse em 3 livros com 100 páginas e os lançasse a 20€. Já fizeram as contas? Parece-me, pois, uma “não-discussão” esta do livro ser "caro".

Não escondo que sou muito admirador da obra de banda desenhada que, até agora, Filipe Melo e Juan Cavia já nos deram: Dog Mendonça foi divertido e excitante; Os Vampiros foram uma abordagem intensa e séria; e Comer/Beber, já analisado no Vinheta 2020, foi a afirmação do amadurecimento dos autores, enquanto bons contadores de histórias de banda desenhada, com cariz cinematográfico. No entanto, parece-me agora que todas essas obras, por boas que sejam, foram meros degraus que os autores percorreram para se conseguirem tornar nos autores de Balada para Sophie. Naturalmente, faço votos para que a colaboração criativa de Filipe Melo e Juan Cavia continue por muitos longos anos, de forma a dar-nos muitos mais livros de banda desenhada com esta qualidade. Mas também considero que, se por ventura, (batam na madeira!), a dupla se retirasse da BD, teria aqui um livro perfeito, um final feliz, um portento da banda desenhada para o fazer. Não me parece possível ultrapassar Balada para Sophie em qualidade. Mas claro, a qualidade da obra talvez possa – e deva - ser igualada. Até mesmo para outros criadores de banda desenhada – nacional ou internacional – esta deverá ser uma obra de referência a ter em conta. Acho até que este trabalho, se bem promovido internacionalmente nas versões inglesa e francesa da obra, pode sonhar com prémios internacionais ao nível dos Eisners ou do Festival de Angoulême

Uma coisa é certa: a parceria de Melo e Cavia é como que um match made in heaven

Os críticos de banda desenhada parecem ter sempre aquela capacidade para, até mesmo nas obras mais magníficas, encontrarem alguma pequena coisa ínfima para apontar negativamente. Mas vou-me deixar de tretas: esta obra é perfeita. À luz dos meus olhos não tem defeitos. Com enorme capacidade de alcançar – e conquistar – o mercado internacional, com hipóteses de chegar a ter uma versão no cinema (se eu fosse um produtor de Hollywood com dinheiro, já teria certamente comprado os direitos da obra para cinema), este é um daqueles livros que vai ficar no pedestal das melhores obras de banda desenhada e que vai vencer o teste do tempo. Daqui a 10, 20, 50, 100 anos continuará uma obra maravilhosa e inolvidável. E é isso que acontece com as obras-primas. Ultrapassam o teste do tempo. Dickens, Twain, Dumas, Cervantes, Shakespeare, Lewis Caroll, Saint-Exúpery e outros tantos, na literatura. Tchaikovsky, Schubert, Chopin, Wagner, Mozart, Beethoven, Bach, Dvořák, John Williams, Ennio Morricone e outros tantos, na música. Balada para Sophie estará, certamente, na lista de melhores bandas desenhadas de sempre. Este não é daqueles "simplesmente recomendados”. Se uma pessoa que se diz amante de banda desenhada não tiver este livro nas suas estantes, não me merece respeito. Qual recomendado, qual quê, este livro é obrigatório.


NOTA FINAL (1/10):
10.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020




-/-

Ficha técnica
Balada para Sophie
Autores: Filipe Melo e Juan Cavia
Editora: Tinta-da-China
Páginas: 320, a cores
Encadernação: capa dura
Lançamento: Setembro de 2020

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Lançamento: Balada para Sophie






A espera terminou e, finalmente, está disponível - por enquanto na Feira do Livro, apenas - o muito aguardado Balada para Sophie, de Filipe Melo e Juan Cavia! A obra deverá chegar às lojas a partir de 18 de Setembro.

Esta obra, que sucede aos 4 livros de Dog Mendonça, a Os Vampiros e a Comer/Beber, da mesma dupla criativa, já teve direito a apresentação na Feira do Livro de Lisboa. Ainda a 7 de Junho, antecipando o lançamento do livro, Filipe Melo havia partilhado em primeira mão, com o Vinheta 2020, uma página inédita e informações sobre a obra.

O livro já chegou ao Vinheta 2020 e brevemente terá análise por aqui. Para já, salta à vista a enorme qualidade da edição e as mais 300 páginas a cores.

Fiquem com a nota de imprensa e respetivas imagens promocionais:


Balada para Sophie, de Filipe Melo e Juan Cavia

Cressy-la-Valoise, 1933. Dois jovens pianistas, nascidos numa pequena vila francesa, cruzam-se num concurso local. Julien Dubois, o herdeiro privilegiado de uma família rica, e François Samson, o invisível filho do responsável pela limpeza do teatro. Nessa noite, um deles venceu.

Cressy-la-Valoise, 1997. Uma enorme mansão é abalada pela inesperada visita de uma jornalista. Numa nuvem de cigarros e memórias, algures entre a realidade e a fantasia, Julien vai compondo, como numa partitura, uma história sobre o preço do sucesso, rivalidade, redenção e pianos voadores.

Afinal, algum deles alguma vez terá vencido? E haverá ainda alguma música por tocar?



Ficha Técnica
Balada para Sophie
Autores: Filipe Melo e Juan Cavia
Editora: Tinta da China
Páginas: 320, a cores
Encadernação: capa dura
PVP: 36,00€

domingo, 7 de junho de 2020

Novidades acerca de Balada para Sophie, da dupla Filipe Melo e Juan Cavia!



Filipe Melo acaba de partilhar, em exclusivo com o Vinheta 2020, uma página inédita do muito aguardado Balada para Sophie!

Uma página que, sem dizer muito, nos mostra tanta coisa, e uma possível emotividade que o novo livro parece vir a ter.

Filipe Melo também revela que as primeiras ideias para esta obra - desenvolvida, mais uma vez, com Juan Cavia - surgiram ainda em 2015. Balada para Sophie terá mais de 300 páginas, em capa dura, no formato 17x25 cms e a cores. A Editora continuará a ser a Tinta da China mas, desta vez, vai-se experimentar um papel sem brilho, para variar. A dupla tem vindo agora a trabalhar na capa definitiva, que ainda não está fechada.

Filipe Melo assume que esta é uma história muito pessoal para si e para Juan Cavia, pois ambos os autores têm uma ligação muito imediata com o piano (ambos tocam e gostam muito do piano). A narrativa conta-nos a história de dois pianistas numa França ficcional, acompanhando sete décadas, que apanham a Segunda Guerra Mundial pelo meio.

Filipe Melo conclui, dizendo que tem "muito orgulho na história e nos desenhos, acho que o Juan está em topo de forma. Temos trabalhado para concluir o livro a tempo da feira do livro, em Setembro."

Esperemos até lá, então. 


sexta-feira, 5 de junho de 2020

Análise: Comer / Beber




Comer / Beber, de Filipe Melo e Juan Cavia

Esta dupla de criadores não é desconhecida dos leitores de banda desenhada em Portugal (e não só). Tendo criado a série de sucesso Dog Mendonça e Pizzaboy (que acabou mesmo por chegar a ser publicada na prestigiada editora norte-americana Dark Horse) e, também, a muito aplaudida novela gráfica Os Vampiros, o português Filipe Melo e o argentino Juan Cavia apresentam-se neste Comer / Beber num registo mais diferente, quiçá maduro, carregado de nuances cinematográficas, em duas histórias bastante bem explanadas. A única queixa que podemos fazer, será que sabe a pouco e é tudo bastante curto.

Realmente, que o livro seja curto demais (cada história tem apenas 23 páginas) e que o formato seja demasiado pequeno são, possivelmente, as únicas queixas que posso apresentar. No entanto, e tendo em conta as condições em que este livro foi projetado, percebemos que não se tratam de escolhas menos acertadas, por parte dos autores. Porque, de facto, este livro resultou do convite que Carlos Vaz Marques fez a Filipe Melo para desenvolver histórias para a revista Granta, sob os temas de comer e beber. Só depois deste convite ser feito e aceite pela dupla criativa, é que o livro veio à luz do dia. Portanto, sem esse convite, talvez este livro não existisse.

A primeira história, Majowki, é baseada numa história real em que Franciszek Majowki, durante o período da história em que a Alemanha nazi ocupou o seu país natal - a Polónia - , escondeu a sua melhor garrafa de champanhe no cofre do seu restaurante, em Berlim. Eventualmente, teve que lidar com muitos soldados alemães intragáveis. Mas, no final, quando os bombardeamentos americanos destruíram toda a zona onde o restaurante se encontrava, foi nessa mesma garrafa de champanhe escondida, que Franciszek pareceu encontrar redenção.

A segunda história, Sleepwalk, passada no Arizona, Estados Unidos, também é um conto de redenção. Trata-se de uma igualmente história comovente, de como um homem percorre um país inteiro em busca de uma tarde de maçã especial. Se a primeira história pode parecer daquelas que mais “enche o olho”, do ponto de vista histórico e emocional – afinal de contas, trata-se de uma história real que ocorreu no período da Segunda Guerra Mundial, uma época nefasta na memória de tantos nós – a verdade é que Sleepwalk ainda surpreende mais, por ter um ritmo tão bem compassado, que nos deixa carregados de perplexidade e de interrogações até que a narrativa se abra verdadeiramente, e nos revele as pretensões do protagonista. O porquê daquela tarte de maçã. Ambas as histórias têm um cariz cinematográfico em termos de planificação, de ritmo e de trama.

Filipe Melo consegue surpreender-nos, uma vez mais, por toda a criatividade que demonstra nas suas histórias, mas, e acima de tudo, pelo excelente contador de histórias que tem vindo a tornar-se. Sendo um autor com “apenas” seis livros publicados (quatro de Dog Mendonça, Os Vampiros e este Comer / Beber) não podemos dizer ainda que conhecemos o seu signature style. E isto está longe de ser uma coisa menos boa a apontar. Ao invés, é algo que torna os seus livros como algo imprevisível e compensador para o leitor. Um novo livro de banda desenhada assinada por Filipe Melo tem sido, justamente por esta razão, sinónimo de qualidade, surpresa e de singularidade.

Já quanto a Juan Cavia, penso que já é mais justo dizer que tem um estilo bastante próprio e identificável, com a sua arte bem estilizada e cartoonesca, com influências americanas e asiáticas, ao mesmo tempo. Em Comer / Beber aparece-nos igual a ele próprio e com uma arte que tem muita personalidade e beleza no seu traço, algo nervoso, mas detalhado. O trabalho de cor merece especial destaque, principalmente na história passada nos Estados Unidos. A iluminação e a aplicação de cores ajudam a criar o ambiente certo para que a história se desenrole harmoniosamente.

Quanto à edição da Tinta da China, e muito embora o formato (de livro de bolso) seja demasiado pequeno para o meu gosto, o que prejudica, de certa forma, a adequada observação da beleza das pranchas de Cavia, por parte do leitor, devo admitir que este é um livro - um objeto - bonito de se ter e de se pegar. Embora tenham existido duas versões no mercado, a edição em análise é "a especial", em capa dura. A paginação está bem conseguida e o próprio aspeto das folhas apresenta-se propositadamente amarelado, dando uma tónica envelhecida e poética, que torna toda a experiência (ainda) mais cinematográfica. Acresce ainda a adição de 8 páginas de extras, que enriquecem a experiência de leitura.

Para o meu gosto, e tendo em conta que a banda desenhada é um tipo de livro que se lê rapidamente, confesso que talvez preferisse que as histórias fossem mais longas porque, na verdade, é um livro que se lê em apenas 30 minutos – ou menos. No entanto, isto não será uma real crítica negativa – quiçá um mero desejo apenas – porque são histórias curtas e simples, que funcionam bem, como nos são dadas. Por outras palavras, se as histórias tivessem muitas mais páginas, talvez tivessem um certo “enchimento” só porque sim, o que prejudicaria o relato narrativo final. Mesmo sendo de cariz cinematográfico, não são bem dois filmes que aqui nos são dados, mas antes, duas curtas-metragens.

A emotividade das histórias é profunda, madura e bem construída, sem ser lamechas. E a arte é um prazer para acompanhar as palavras. Filipe Melo e Juan Cavia formam uma dupla de criadores de banda desenhada que ainda terá certamente muito para dar à 9ª arte. Ambos os autores, são uma lufada de ar fresco para o panorama da banda desenhada, não só em Portugal, como em todo o mundo e, parece-me, estão a fazer algo de novo e de original, carregado de uma enorme qualidade em termos de arte escrita e arte ilustrada. No ano em que é esperado um novo livro destes autores, Balada para Sophie, que, baseado nas informações que circularam na internet, será uma novela gráfica com mais de 300 páginas, este Comer / Beber é um ótimo aperitivo para os leitores de (boa) banda desenhada.


NOTA FINAL (1/10):
8.0

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

-/-

Ficha Técnica
Comer / Beber
Autores: Filipe Melo e Juan Cavia
Editora: Tinta da China
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura (edição especial e numerada)