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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Análise: História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar

História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Cever - Porto Editora

História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Cever - Porto Editora
História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Cever

Foi com satisfação que soube recentemente que a Porto Editora iria publicar a adaptação, no formato de banda desenhada, do livro História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Luis Sepúlveda. Essa adaptação ficou a cargo do autor franco-suiço Cever que, com carinho pela obra original, nos oferece, pela primeira vez em banda desenhada, uma das mais belas e simbólicas fábulas da literatura contemporânea. 

A história decorre no porto de Hamburgo, em que temos Zorbas, um gato preto, como protagonista. O gato vive feliz na sua casa mas, de um momento para o outro, é confrontado com a visita de uma gaivota que, às portas da morte, pede ao gato um último desejo: que este cuide do seu ovo e que ensine a pequena gaivota, Ditosa, que daí há de nascer, a voar. Parece uma tarefa impossível para um gato, ensinar uma cria de gaivota a voar, certo? E é a partir dessa promessa que se desenrola uma narrativa terna e profunda sobre amizade, coragem e aceitação da diferença.

Conheço bem a obra original e posso dizer-vos que a adaptação de Cever consegue captar com grande sensibilidade o espírito do texto de Sepúlveda. O autor recria a atmosfera de humanidade e empatia que atravessa a obra original do escritor chileno, mantendo o equilíbrio entre a simplicidade da linguagem e a profundidade dos temas. É um daqueles livros que crianças leem bem, mas que os adultos conseguem capturar uma segunda linha narrativa na história descrita. 

História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Cever - Porto Editora
Esta adaptação tem o mérito de condensar a história sem a empobrecer, preservando as suas passagens mais simbólicas. Zorbas e os restantes gatos do porto tornam-se símbolos da solidariedade e da capacidade de cuidar do outro, mesmo quando esse “outro” pertence a um mundo diferente, como é o caso da gaivota no mundo dos gatos. Do ponto de vista narrativo, a história mantém o seu tom de fábula intemporal e o resultado é uma história universal, capaz de emocionar leitores de todas as idades, e que, apesar de simples na forma, é profunda no seu conteúdo.

Podemos então referir que a linguagem acessível da obra e as suas mensagens de amizade, coragem e solidariedade tornam-na uma leitura educativa e inspiradora. Contudo, a profundidade simbólica e o tom poético também a tornam apelativa para os adultos, que encontram nela uma reflexão sobre o amor, a perda e o poder da promessa. É um livro que, em cada leitura, revela novas camadas de significado. Já o tinha lido, mais do que uma vez, há uns anos e voltei a sair mais rico depois desta leitura da obra em banda desenhada.

A fábula de Zorbas e Ditosa é, acima de tudo, uma lição sobre a liberdade. A frase “só voa quem se atreve a fazê-lo” sintetiza de forma magistral o coração da obra. Encoraja-nos a enfrentar o medo, a acreditar nas nossas capacidades e a confiar no apoio dos outros. Esta mensagem, universal e intemporal, é aquilo que faz de História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar um clássico moderno.

A adaptação de Cever honra o legado de Sepúlveda, traduzindo-o num formato visual e narrativo acessível, mas sem perder a sua força simbólica. O equilíbrio entre humor, ternura e fantasia é bem conseguido, e o livro transmite uma sensação reconfortante de esperança. E a própria presença de Luis Sepúlveda enquanto personagem, permite uma homenagem ao autor chileno que nos deixou em 2020, vítima de complicações ligadas ao covid-19.

História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Cever - Porto Editora
Os desenhos de Cever funcionam bastante bem. O traço é limpo, elegante e expressivo, transmitindo emoção através da simplicidade. O gato Zorbas é retratado com particular mestria por Cever, apresentando um olhar sábio, um corpo pesado mas protetor, e uma ternura que emana da sua presença. Há também belos desenhos de dupla página, da zona portuária em que a história se desenrola, que oferecem ao conjunto diversidade e força.

No entanto, é possível sentir, em alguns momentos, que o traço excessivamente limpo deixa os cenários, especialmente os domésticos, um pouco despidos. Mesmo assim, reconheço que foco do autor recai intencionalmente sobre os animais e as suas expressões, o que acaba por servir bem o propósito da narrativa.

Quanto à edição, o livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz, e um papel ligeiramente brilhante no miolo. A encadernação e impressão são de boa qualidade, também. Acima de tudo, é bom ver que a Porto Editora vá lançando algumas obras de banda desenhada, mesmo que sejam em pouco número.

Em suma, História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar é um livro que aquece o coração. A adaptação de Cever mantém intacto o espírito poético e humano do texto original, e os seus desenhos respiram beleza e emoção. É uma obra que continua a lembrar-nos de que o amor e a coragem podem vencer qualquer diferença e que, no fundo, todos podemos aprender a voar, se tivermos alguém que acredite em nós.


NOTA FINAL (1/10):
7.5

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Cever - Porto Editora

Ficha técnica
História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar
Autor: Cever
Adaptado a partir da obra original de: Luis Sepúlveda
Editora: Porto Editora
Páginas: 104, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 220 x 292 mm
Lançamento: Setembro de 2025

quarta-feira, 5 de março de 2025

Análise: Astrochimp

Astrochimp, de David Walliams e Adam Stower - Porto Editora

Astrochimp, de David Walliams e Adam Stower - Porto Editora
Astrochimp, de David Walliams e Adam Stower

​David Walliams é um dos autores de livros infanto-juvenis mais famosos da atualidade. Este escritor britânico, muitas vezes comparado a Roald Dahl pelo seu humor irreverente e personagens excêntricas, já conta com mais de 30 livros infantis publicados só em Portugal, pela Porto Editora. E este Astrochimp marca a sua primeira incursão no universo da banda desenhada.

Expectavelmente, volta a ser a Porto Editora que edita esta obra que procura ser uma divertida narrativa cósmica com a aptidão natural para cativar os jovens leitores. Não só para a obra do autor, que já tem muitos fãs em Portugal e em todo o Mundo, como, espero, para a banda desenhada enquanto meio. 

A história acompanha Chimpão, um marialva chimpanzé selecionado pela NASA para uma missão espacial, cuja aventura se desenrola de forma hilariante e inesperada. ​

Astrochimp, de David Walliams e Adam Stower - Porto Editora

A narrativa é repleta de humor e situações absurdas que apelam ao sentido de diversão das crianças. Desde encontros com piratas espaciais caninos até insetos malignos, cada página oferece uma surpresa que mantém o leitor interessado e ansioso por descobrir o que vem a seguir. ​

Para além da diversão, Astrochimp introduz subtilmente elementos históricos sobre a exploração espacial, proporcionando uma aprendizagem leve e integrada na trama. Esta abordagem educativa, disfarçada de entretenimento, enriquece o conteúdo e oferece às crianças a oportunidade de aprender enquanto se divertem. ​

Também a própria diversidade das personagens, cada uma com uma personalidade única, adiciona alguma profundidade à história, com as interações entre Chimpão e os outros seres espaciais a promoverem valores como a amizade, a coragem e a aceitação das diferenças, mensagens importantes para o público infantil. ​

Astrochimp, de David Walliams e Adam Stower - Porto Editora
Se as personagens e enredo criados por Walliams são divertidas, as ilustrações coloridas e dinâmicas de Adam Stower complementam bem o texto, enriquecendo a experiência de leitura e tornando-a mais envolvente para as crianças. O trabalho de Stower consegue resultar bastante bem, com personagens "cartoonescas" com uma bela expressividade e com uma paleta de garridas cores que tornam a obra visualmente vibrante.

A edição da Porto Editora é em capa mole brilhante, com relevo no título.  No miolo, o papel utilizado é brilhante e de boa qualidade, num bom trabalho de impressão e encadernação. Trata-se de um livro pequeno e "maneirinho", que os miúdos podem levar para todo o lado, o que é ideal para os mais novos.

Em suma, é óbvio que Astrochimp não se destina ao público que maioritariamente visita o Vinheta 2020, pois é direcionado para o público infanto-juvenil. Não obstante, quero acreditar que o público que me lê também oferece banda desenhada aos mais novos. E se assim é, estamos diante de uma bela opção com este livro que pode ser uma bela porta de entrada para o mundo da banda desenhada, combinando uma narrativa envolvente com ilustrações cativantes. A obra de Walliams e Stower não só entretém como também educa, o que faz dela uma aposta segura para pais e educadores que desejam incentivar o hábito da leitura entre os mais novos.


NOTA FINAL (1/10):
7.0



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Astrochimp, de David Walliams e Adam Stower - Porto Editora

Ficha técnica
Astrochimp
Autores: David Walliams e Adam Stower
Editora: Porto Editora
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 140 x 210 mm
Lançamento: Fevereiro de 2025

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Análise: À procura de Anne Frank

À procura de Anne Frank, de Ari Folman e Lena Guberman - Porto Editora

À procura de Anne Frank, de Ari Folman e Lena Guberman - Porto Editora
À procura de Anne Frank, de Ari Folman e Lena Guberman

Se há adaptações de livros para banda desenhada que muito me agradaram, O Diário de Anne Frank, de Ari Folman e David Polonsky, lançado em 2017 pela Porto Editora, é um desses livros. O original Diário de Anne Frank, esse rico testemunho de uma das milhentas vítimas judias da Segunda Guerra Mundial, é um livro que conheço muito bem e que já li em várias fases diferentes da minha vida. E devo dizer que essa adaptação para banda desenhada muito me surpreendeu pela forma, por vezes poética, por vezes em forma de homenagem, com que Ari Folman conseguiu (re)criar o original diário de Anne Frank.

Portanto, quando peguei neste À Procura de Anne Frank, do mesmo Ari Folman que, desta vez é acompanhado nas ilustrações por Lena Guberman, as minhas expectativas eram bem altas. Mesmo assim, não há quaisquer dúvidas que, desta vez, Ari Folman não foi tão bem sucedido neste regresso ao universo de Anne Frank. É que, sendo um livro com alguns pontos interessantes e, possivelmente, menos direcionado para adultos do que o primeiro, fica alguns furos abaixo do mesmo.

À procura de Anne Frank, de Ari Folman e Lena Guberman - Porto Editora
E, especialmente, por um motivo: se, em Diário de Anne Frank, Ari Folman adaptou para banda desenhada um diário real, servindo-se, é certo, de alguma liberdade nessa adaptação, em À Procura de Anne Frank, Folman tentou criar todo um enredo que tem como pano fundo a procura pelo conceito que Anne Frank encerra em si mesma, isto é, o facto de se ter transformado num símbolo de perseverança, tenacidade, esperança, inocência e coragem.

Para tal, o autor serve-se de Kitty, a amiga imaginária de Anne Frank, e dá-lhe vida. A história começa quando, no museu de Anne Frank, em Amesterdão, uma tempestade acaba por partir o vidro que protege o diário de Anne, soltando o espírito de Kitty. A partir daí, Kitty procurará encontrar a sua velha amiga Anne. Mas a procura por Anne não será tanto pela sua pessoa, mas por aquilo que ela simboliza. 

Ao fazê-lo, Folman mergulha os leitores nas memórias dos dia passados no anexo secreto onde se escondia a família de Anne Frank, e leva-nos a refletir sobre aquilo que foi o Holocausto e o que isso representou para Anne Frank e para tantas outras crianças e adolescentes que foram afetadas pelo mesmo. Explora também, expectavelmente, a relevância e pertinência de um documento tão indispensável como o diário de Anne Frank para entendermos o que foi o holocausto e como foi a perseguição feita aos judeus numa Europa controlada pelos nazis.

À procura de Anne Frank, de Ari Folman e Lena Guberman - Porto Editora
Os intuitos destes livro - cujo seu lançamento também foi acompanhado pelo lançamento do filme de animação homónimo na plataforma Netflix - são, pois, deveras relevantes. A história de Anne, sendo triste, não deve ser esquecida. Nem pelos adultos do tempo atual, nem pelas crianças. 

Mesmo assim, esta história que se apoia de uma maneira algo rocambolesca em Kitty, pareceu-me um pouco mais forçada do que o aceitável. São feitos vários paralelismos entre a holocausto e a crise de refugiados que tem afetado a Europa no período mais contemporâneo que vivemos. A analogia pode ser interessante - especialmente para uma criança que leia o livro - mas parece-me algo rebuscada para um adulto que saiba discernir o quão diferentes, mesmo podendo ter algumas semelhanças, são os dois momentos da história que Ari Folman compara. 

Repito que é um livro que se lê bem, especialmente direcionado para crianças e adolescentes, mas que talvez não corresponde à expectativa de um adulto. E isso é algo que não aconteceu em Diário de Anne Frank, do mesmo autor. Esse livro - que recomendo vivamente - pode e deve ser lido por crianças, jovens e adultos.

À procura de Anne Frank, de Ari Folman e Lena Guberman - Porto Editora
Os desenhos de Lena Guberman são bastante agradáveis, com um traço moderno, simples e expressivo. Por vezes, sente-se que alguns cenários estão despidos em demasia e isso acaba por ser atenuado pela autora através da utilização de alguns bem conseguidos efeitos de luz e cor, de forma digital. Relembra bastante o tipo de desenhos que hoje em dia podemos encontrar em alguns desenhos animados da televisão, o que faz duplamente sentido por, como já disse, ter saído uma versão animada para filme deste À Procura de Anne Frank. É, pois, um estilo de ilustração que funciona bem nas duas plataformas: no cinema e na banda desenhada.

A edição da Porto Editora é bastante bem feita. O livro apresenta capa dura brilhante, bom papel brilhante e um trabalho bem conseguido ao nível da encadernação e da impressão. No final, há ainda um posfácio do autor Ari Folman.

Em suma, posso dizer que, no geral, À Procura de Anne Frankn não homenageia apenas a vida de Anne Frank, mas também convida os leitores a refletirem sobre as lições históricas e humanas que a sua história oferece, destacando a importância de lembrar e aprender com o passado para construir um futuro melhor. Contudo, e mesmo com boas intenções, este livro fica bastante aquém da adaptação para banda desenhada do Diário de Anne Frank, do mesmo argumentista.


NOTA FINAL (1/10):
6.9



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À procura de Anne Frank, de Ari Folman e Lena Guberman - Porto Editora

Ficha técnica
À Procura de Anne Frank
Autores: Ari Folman e Lena Guberman
Editora: Porto Editora
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 204 x 280 mm
Lançamento: Abril de 2022

quinta-feira, 28 de março de 2024

Análise: A Viagem do Elefante

A Viagem do Elefante, de João Amaral - Porto Editora

A Viagem do Elefante, de João Amaral - Porto Editora
A Viagem do Elefante, de João Amaral

Com primeira edição em 2014, esta adaptação para banda desenhada, levada a cabo por João Amaral, de A Viagem do Elefante, de José Saramago, caminhou, em 2022, para a sua terceira edição. Ou reimpressão, vá. E isso explica bem, quanto a mim, a importância desta obra em BD. Devo até dizer que será A Viagem de Elefante o melhor e mais relevante livro de João Amaral. Não é perfeito, mas é um livro que faz muitas coisas bem. E tratando-se da adaptação para BD de uma das obras do único prémio Nobel da Literatura portuguesa, José Saramago, foi particularmente oportuno este trabalho de João Amaral.

O livro original de José Saramago foi publicado em 2008 e assume-se como um romance histórico em que se explora, de forma ficcional, um evento real que foi a jornada do elefante Salomão, presenteado pelo Rei de Portugal ao Arquiduque Maximiliano da Áustria, no século XVI. Neste romance que acabou por ser uma das últimas obras publicadas por José Saramago, o elefante Salomão é a personagem principal, e a sua jornada através da Europa, numa longa viagem terrestre, é uma metáfora para explorar temas mais profundos, como a condição humana, o poder político, a religião e a liberdade.

A Viagem do Elefante, de João Amaral - Porto Editora
Um dos aspetos mais marcantes da obra, é a forma como Saramago permite que o elefante seja representado como uma testemunha silenciosa e, ao mesmo tempo, eloquente das vicissitudes da humanidade. Através dos olhos de Salomão, o leitor é levado a uma viagem filosófica e introspetiva sobre a natureza humana e as complexidades do mundo. A narrativa é, pois, rica e multifacetada, continuando a ressoar em quem mergulha pela primeira vez na obra.

Ora, a adaptação para BD com que João Amaral nos brinda - e assinalo que não me parece de todo uma obra fácil de adaptar - consegue fazer justiça ao texto original de Saramago e ser, além disso, uma boa forma de entrada na obra do escritor português. Diria mesmo que, em termos de enredo, João Amaral soube condensar bem o texto original, deixando a perceção no leitor de que são poucas as coisas que se perderam na adaptação. E isso é um mérito de João Amaral, sem dúvida.

O que acho mais louvável nesta obra, é que fica bem presente o modo apaixonante e de total respeito de João Amaral para com a obra original. Talvez por isso, o processo criativo de Amaral tenha durado cerca de dois anos. Gosto especialmente que o próprio José Saramago apareça na obra, enquanto personagem, servindo-nos na função de narrador que nos convida a mergulhar no relato de viagem.

A Viagem do Elefante, de João Amaral - Porto Editora
Em termos de ilustração, também fica claro que, neste A Viagem do Elefante, João Amaral procurou elevar a sua arte a um patamar superior. É certo e sabido que, em termos de expressões faciais e alguma da linguagem corporal das personagens, os desenhos de João Amaral deixem, por vezes, algo a desejar. No entanto, não menos verdade é que, a certos momentos, o autor se consegue transcender. E esses momentos mais gloriosos no que à ilustração dizem respeito, pululam várias vezes neste livro. Destaca-se também a planificação em que o autor tentou ter a máxima dinâmica, com várias soluções narrativas diferentes, de modo a que a leitura se tornasse mais escorreita e mais apetecível.

Nota ainda para a capa, muito bem conseguida. Se muitas vezes acho que um livro vende mal devido a não ter a capa certa, no caso deste A Viagem do Elefante, acho que o livro começa a vender-se assim que olhamos para a sua capa. A ilustração é simples, em sombra, mas funciona perfeitamente, e o grafismo dos elementos também está bem executado. Sendo simples, é uma capa perfeita e inteligente.

A edição da Porto Editora é em capa dura baça. No miolo, o papel é de boa qualidade, embora me pareça que a opção por um papel (tão) brilhante não tenha sido a melhor escolha. O livro abre com um prefácio de Pilar Del Rio, viúva de José Saramago, o que granjeia a esta obra uma clara aceitação, promoção e importância por parte da pessoa que mais privou com Saramago. E, claro, dá mais algumas luzes sobre a feitura da obra em BD.

Em suma, este A Viagem do Elefante, a par de A Voz dos Deuses, é o livro que mais e melhor define João Amaral enquanto autor de banda desenhada. É uma boa adaptação da obra original de Saramago e, com todo o cariz de relevância que, também por isso, traz consigo, é fácil de compreender que já tenha merecido uma terceira reimpressão.


NOTA FINAL (1/10):
7.9



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A Viagem do Elefante, de João Amaral - Porto Editora

Ficha técnica
A Viagem do Elefante
Autor: João Amaral
Editora: Porto Editora
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Novembro de 2014

terça-feira, 26 de abril de 2022

A Porto Editora acaba de lançar um novo livro de BD!



É com gosto que vejo que a Porto Editora de volta aos lançamentos de banda desenhada! E, desta feita, com a obra À Procura de Anne Frank, da autoria de Ari Folman e Lena Guberman.

Ari Folman já tinha adaptado O Diário de Anne Frank, juntamente com David Polonsky, numa obra, também editada pela Porto Editora em 2017, que muito me agradou, na altura. Considerei mesmo que tinha momentos absolutamente sublimes.

Portanto, devo dizer que estou bastante curioso com esta nova abordagem ao tema.


À Procura de Anne Frank, de Ari Folman e Lena Guberman
À Procura de Anne Frank é uma história apaixonante, que foi lançada simultaneamente em formato de novela gráfica e em filme de animação, e que chega hoje aos escaparates das livrarias nacionais.

No seu famoso diário, Anne Frank criou uma amiga imaginária, Kitty. Agora, Ari Folman, juntamente com Lena Guberman, dão-lhe vida.

Quando uma estranha tempestade se abate sobre Amesterdão e quebra o vidro que protege o diário guardado na Casa de Anne Frank, Kitty irrompe daquelas páginas e vai viver uma verdadeira aventura em busca da sua amiga.

Acompanhada pelas memórias dos dias passados no anexo secreto, Kitty percorre as ruas da capital holandesa de hoje e com a ajuda de amigos inesperados irá descobrir o que foi o Holocausto, o que isso significou para Anne e o que, por sua vez, o seu diário continua a representar para as crianças de todo o mundo.

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Ficha técnica
À Procura de Anne Frank
Autores: Ari Folman e Lena Guberman
Editora: Porto Editora
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 18,80€

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Análise: Soldados de Salamina



Soldados de Salamina, de José Pablo García

A Porto Editora não tem tido uma grande consistência, em termos de assiduidade, no lançamento de banda desenhada. O que é uma pena pois olhando para a grandeza do grupo estou certo que se houvesse uma verdadeira aposta em BD, a Porto Editora poderia, sem dúvida, conquistar a sua fatia de mercado, por um lado, e, por outro, presentear-nos - a nós, leitores - com mais possibilidades de oferta de bons títulos.

Seja como for, há cerca de um ano, em 2020, apostou neste Soldados de Salamina que resulta como adaptação para banda desenhada do romance de Javier Cercas que, sendo originalmente lançado em 2001, depressa conquistou louvores junto da crítica. Esta adaptação para banda desenhada é assegurada por José Pablo García.


A história incide na guerra civil espanhola quando, nos finais deste conflito, e perto da fronteira entre Espanha e França, é levado a cabo o fuzilamento de alguns prisioneiros franquistas. Mas, por incrível que possa parecer, um destes prisioneiros consegue escapar com vida deste fuzilamento. E, para além de ter sorte e engenho para escapar a esta morte anunciada, também tem a sorte de ser ajudado por um jovem republicano que, tendo-o na mira da sua arma, opta por deixar o prisioneiro escapar. O prisioneiro em questão é Rafael Sánchez Mazas que era, na altura, uma autêntica celebridade espanhola, sendo o fundador da Falange e um futuro ministro de Franco. Mas quem seria aquele jovem republicano que, tão descaradamente, deixou o seu prisioneiro fugir? E quais foram os seus motivos?

Esta é a ignição para que, passados sessenta anos, um romancista, Javier Cercas, o autor do romance, que se encontrava em crise criativa, decida começar a investigar aquilo que se passou neste episódio de Rafael Sánchez Mazas. O autor é pois personagem ativa desta obra.

Acaba por ser um romance duplo porque temos, por um lado, a reconstituição histórica de Rafael Sánchez Mazas e, por outro lado, a demanda de Javier Cercas, que procura obter informações fidedignas que possam fazê-lo escrever o seu livro baseado em Mazas. Para tal, acompanhamos as suas pesquisas e as numerosas conversas que vai tendo com pessoas que privaram com Mazas, de forma a construir uma cronologia dos eventos que sucederam naquela ação de fuzilamento. 


Se, por um lado, considero interessante toda esta parte de mostrar ao leitor quais foram as dificuldades, viagens, conversas que enfrentou para descobrir a verdade, quase que como um making of da produção do livro; por outro lado, também considero que isso torna o livro com demasiado conteúdo adicional que, eventualmente, acaba por se tornar algo repetitivo e monótono. No entanto, também é verdade que o livro tem a capacidade de informar o leitor sem ser demasiado informativo, isto é, sem nos bombardear com demasiada informação. Embora me pareça que, ainda assim, certas conversas que Cercas vai tendo com outras personagens poderiam não ter aparecido, de forma a que algumas informações não se tornassem tão redundantes.

A história aparece dividida em 3 partes: a primeira parte coloca-nos na investigação inicial de Javier Cercas e nas primeiras conversas e pesquisas que ele leva a cabo para encontrar a história de Mazas. A segunda parte, é a parte mais histórica e factual, e conta-nos o percurso de vida de Rafael Sánchez Mazas. A terceira parte – a mais bem conseguida, a meu ver – revela-nos quem foi, afinal, esse soldado republicano que optou por salvar a vida de um inimigo.


O livro traz consigo uma moral e uma reflexão acerca do heroísmo. De quem são os verdadeiros heróis e que actos podem fazer de nós, comuns mortais, verdadeiros heróis. Por vezes, é apenas o momento e o estado de espírito momentâneo do indivíduo que o leva a fazer algo extraordinário.

A leitura deste livro remeteu-me para dois autores de banda desenhada espanhola: Antonio Altarriba que, em A Arte de Voar e em A Asa Quebrada, ambos publicados em Portugal pela Levoir, também tratam o tema da guerra civil espanhola; e, duma forma global, Paco Roca, devido à proximidade no estilo de ilustração. Contudo, e apesar deste Soldados de Salamina ser um bom livro, fica uns furos abaixo destes autores que nomeio. A meu ver, a história não é tão boa como a dos dois livros de Altarriba que referi acima e as ilustrações de José Pablo García neste Soldados de Salamina também não são tão agradáveis como as de Paco Roca. Ainda assim, calculo que ambos os autores tenham sido referências para o autor.


O estilo de traço em linha clara de José Pablo García torna as suas páginas bastante agradáveis de acompanhar. Não são ilustrações de uma técnica ou virtuosismo muito demarcados, mas são as ideiais para nos contar este relato em forma de crónica jornalística. As peripécias do autor no tempo presente são sempre mais coloridas e suaves e as cenas do passado de Mazas apresentam, normalmente, uma paleta de cores em tons de azul. Funciona bastante bem, quanto a mim.

A edição da Porto Editora é impecável. Excelente encadernação, capa dura que, com os detalhes da chuva com acabamento em verniz, fica espetacular. O papel é brilhante e de boa qualidade. Destaque para o facto do segundo capítulo ter um papel diferente – mais amarelado – em relação aos restantes capítulos.

Em conclusão, Soldados de Salamina é um livro bem conseguido, com um carácter histórico-informativo, que nos conta um relato real sobre Rafael Sánchez Mazas e como – e porquê? – o mesmo conseguiu escapar com vida de uma operação de fuzilamento. Recomenda-se principalmente para os adeptos da história recente de Espanha. 


NOTA FINAL (1/10):
8.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
Soldados de Salamina
Autor: José Pablo García
Editora: Porto Editora
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Abril de 2020

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Lançamento: Soldados de Salamina





Eis mais uma boa notícia para o mercado da banda desenhada nacional! 

A Porto Editora lançou recentemente a sua nova aposta numa obra de bd. 

Trata-se de Soldados de Salamina, da autoria de José Pablo García e é uma adaptação para banda desenhada da obra de Javier Cercas.

Fiquem com a sinopse da editora e com as imagens promocionais.


Soldados de Salamina, de José Pablo García

Nos dias finais da guerra civil, perto da fronteira franco-espanhola, deu-se um fuzilamento de prisioneiros franquistas. 

Um destes escapou com vida, graças a um jovem soldado republicano, e conseguiu refugiar-se no bosque. 

Era Rafael Sánchez Mazas, poeta, fundador da Falange e futuro ministro de Franco. 

Sessenta anos mais tarde, um romancista em crise desenterra este episódio bélico e, fascinado por ele, propõe-se investigar e esclarecer as suas circunstâncias.

Soldados de Salamina, romance de Javier Cercas publicado originalmente em 2001, foi aclamado como um clássico moderno da literatura por, entre outros, Kenzaburo Oé, Susan Sontag, George Steiner ou Mario Vargas Llosa. 

Apresentamos agora uma minuciosa adaptação gráfica pela mão de José Pablo García, um dos autores de banda desenhada espanhóis com maior projeção internacional.


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Ficha técnica
Soldados de Salamina 
Autor: José Pablo García
Editora: Porto Editora
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 18,80€

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Análise: Sabrina


Análise: "Sabrina", de Nick Drnaso

O lançamento de Sabrina, de Nick Drnaso, não tem deixado indiferente a comunidade mundial de leitores - especialmente aqueles que não lêem banda desenhada. Afinal de contas, trata-se da “primeira novela gráfica finalista do Booker Prize”, como é ostentado no folheto promocional do livro. Se isso poderia ser motivo de orgulho para os leitores de banda desenhada, por afinal, ser sinal de que a banda desenhada está a ser, cada vez mais, respeitada e tida em conta pela sociedade, a verdade é que Sabrina é uma banda desenhada com sérios problemas enquanto obra deste género. 

Por esse motivo, o sentimento de ver esta obra de banda desenhada a receber destaque fora do universo da BD, será semelhante a vermos um documentário sobre dromedários de que gostámos muito, vencer um prémio de cinema para “melhor comédia”. Podemos regozijarmo-nos com o prémio. No entanto, e na verdade, aquele documentário não é exemplificativo daquilo que é o estilo da comédia. Não está na catalogação específica, por outras palavras. Não me entendam mal! Não estou a dizer que Sabrina não se trata, afinal, de uma banda desenhada/novela gráfica. É um livro com uma história contada através de texto e desenhos, organizados em pranchas e vinhetas. Portanto, em teoria, é uma banda desenhada. Mas parece-me mais que Nick Drnaso utiliza a banda desenhada para contar uma história que é, acima de tudo, parece-me, uma crónica quase jornalística da atualidade. 

Enquanto texto e história até pode ser bom (já lá irei) mas enquanto obra de banda desenhada, peca em várias frentes. Para começar, a arte é demasiado simplista. Bem sei que aquilo que é bonito para mim, pode não ser bonito para os outros, e vice-versa. E mesmo pondo de parte esta característica da subjetividade da beleza de algo, talvez se pudesse argumentar que determinada abordagem gráfica pode ser feita de forma consciente por parte de autor, para invocar certos tipos de estado de espírito. Não obstante, a verdade é que Nick Drnaso, enquanto desenhador, apresenta certas limitações ao nível da conceção das personagens - que, por vezes, até se parecem umas com as outras e não conseguem de forma alguma transmitir sensações. Repito: de forma alguma! Mas também aos níveis dos cenários, Drnaso, não consegue atingir a competência mínima de desenhador. O estilo é portanto infantil e simplista, com personagens e cenários a serem desenhados de forma deficiente. Torna-se um livro feio para ler, se é que me entendem. E mesmo na legendagem é um trabalho difícil de digerir por ter um estilo de letra que, sendo tão pequena em dimensão, se torna difícil de ler. Não precisei de usar óculos até à data de hoje mas este livro obrigou-me a mergulhar a cabeça dentro do mesmo, para conseguir ler algumas legendas. Mais ainda: existem muitas vinhetas que estão cheias de texto, sem qualquer desenho. Afinal de contas, é uma banda desenhada mascarada de livro sério ou é um crónica, em prosa, mascarada de livro de banda desenhada? 

O ritmo da narrativa é por demais lento, também. Atenção que há muitos livros de banda desenhada - e não só - que têm um ritmo propositadamente lento mas que funcionam bem porque pretende-se sedimentar a relação entre o leitor e as personagens ou, simplesmente, sublinhar traços que se pretendem destacar, quer seja na história, nas personagens ou nas relações das mesmas. Aqui, não. Várias vezes é-nos dada uma vinheta sem texto, em que temos uma personagem deitada na cama, virada para o seu lado esquerdo. Na vinheta seguinte encontraremos a mesma personagem virada para o lado direito. Na vinheta seguinte, encontramos a personagem deitada na cama e virada para o lado esquerdo, mas em posição fetal. Dir-me-ão que é uma forma do autor nos dar a ideia da passagem do tempo. Ou que a personagem está numa situação de tédio. Mas este ritmo demasiado lento – e ainda por cima desenhado de forma amadora - parece-me mais falta de técnica e inspiração do que outra coisa qualquer. Se a ideia é unicamente demonstrar que as nossas vidas são vazias, há formas menos vazias de o demonstrar.

Mas nem tudo são problemas. Se a arte fica aquém, o texto e a ideia adjacente, são bons. Sabrina conta-nos a história de como a personagem que dá título à obra desaparece, sem deixar rasto, e como as personagens que a rodeavam – o namorado e a família, essencialmente – terão que superar esse acontecimento, num universo onde as vidas de cada um de nós se tornaram tão solitárias e, ao mesmo tempo, tão mergulhadas nas redes sociais. Considero, pois, que a história, a trama e a crítica social aqui embutida, estão bem conseguidas. O olhar de Nick Drnaso em relação à forma como vivemos o mundo atual, sempre mergulhados nos telefones e nas redes sociais e onde a imprensa é tão efémera nos temas que aborda, estão muito bem conseguidos. A forma como as pessoas, ditas normais, têm que lidar com uma situação traumatizante, como a perda ou desaparecimento de alguém, também me parece estar bem conseguida.

Se a história fosse em prosa em vez de banda desenhada seria certamente um bom livro. O que não funciona aqui é uma coisa muito simples: a história, tendo um ritmo lento, acaba por ser contemplativa. Mas como o que aqui há em termos de arte para contemplar, não é propriamente muito interessante ou bem desenhado, acaba por ser um "tiro ao lado". Talvez seja algo que um Terrence Malick  pudesse transformar num filme bonito para contemplar. Assim, como está, não chega.

Por vezes há livros que conseguem fazer a proeza de terem uma história e um desenho bons. Noutras vezes, há livros que têm um história fraca mas uma arte soberba. Finalmente, há livros que têm uma história boa mas uma arte miserável. Este enquadra-se, infelizmente, neste último grupo. É daqueles livros que, desenhados por alguém que soubesse desenhar decentemente, poderia ser um bom livro de Banda Desenhada. Não o é. Não o considero horrível como já li em certas partes, mas também está a anos luz de ser um bom livro (de banda desenhada). Fica-se pelo meio e acaba por ser um livro que talvez caia no esquecimento e na efemeridade. Ironia das ironias, possivelmente o hype deste livro será igualmente efémero como são as notícias efémeras que, inteligentemente, critica.

É um daqueles livros que quem não lê BD pode gostar, para dizer que também lê BD. O comum dos leitores de BD certamente terá dificuldades em digerir este livro.


NOTA FINAL (1/10)
5.5

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Sabrina
Autor: Nick Drnaso
Editora: Porto Editora
Páginas: 204, a cores
Encadernação: Capa dura