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terça-feira, 19 de maio de 2026

Análise: Corto Maltese – O Dia Anterior

Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor

Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor
Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès

A editora Arte de Autor fez-nos chegar há algumas semanas o mais recente Corto Maltese, da autoria de Martin Quenehen e Bastien Vivès. Este já é o terceiro álbum que a dupla executa, o que me leva a crer que, apesar de algumas reservas dos leitores mais conservadores, a série até está a ser bem aceite no seu mercado original.

Nesta nova aventura, a história desenrola-se em 2022, na cidade de Sydney, Austrália, onde Corto tenta ajudar Marcus, um velho amigo pirata que se encontra preso num ciclo de dependência de drogas. A solução encontrada para salvar o seu amigo é fiel ao espírito aventureiro da personagem: partir numa nova missão. Esta surge através de uma advogada que representa um grupo de ativistas ambientais e que solicita a ajuda do nosso protagonista para resgatar com urgência uma jovem ativista detida nas ilhas Tuvalu, no Pacífico. 

Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor
De origem chinesa, esta mulher corre o risco de ser extraditada para o seu país, o que transforma a demanda numa verdadeira missão de resgate e numa autêntica corrida contra o tempo. É aliás essa corrida contra o tempo que imprime um sentido de urgência à narrativa que muito apreciei, pois mantive-se sempre agarrado ao livro até que terminasse a sua leitura. Assim, com Marcus aos comandos de um hidroavião envelhecido, os protagonistas lançam-se numa aventura que atravessa um dos territórios mais vulneráveis às alterações climáticas. 

A sensação que dá é que estamos perante um filme de ação/aventura a fazer lembrar vários clássicos do cinema. Quenehen constrói um argumento mais escorreito e amadurecido do que os anteriores, onde a ação e o contexto contemporâneo se equilibram de forma muito eficaz. O tema das alterações climáticas surge como pano de fundo, é certo mas fá-lo integrando-se naturalmente na narrativa, sem nunca se assumir como uma agenda explícita.

Nesse sentido, gostei da forma como o argumentista consegue abordar uma questão atual sem, no entanto, cair no panfletarismo ou no moralismo. O tema das alterações climáticas está presente, sim, tendo até relevância para a forma como o enredo se desenvolve, mas nunca é algo que pareça estar a ser imposto ao leitor como lição forçada. Pelo contrário, este tema é absorvido organicamente pelo universo da narrativa, o que resulta numa abordagem muito mais interessante e eficaz.

Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor
Ao nível do ritmo, a obra destaca-se, conforme já referido, por uma tensão narrativa constante. Isso já tinha acontecido nos anteriores álbuns desta dupla, Oceano Negro e A Rainha da Babilónia, mas neste O Dia Anterior até está mais presente. Mesmo nos momentos mais contemplativos, que, convém não esquecer, também são sempre bem-vindos num livro de Corto Maltese, existe sempre uma sensação de inquietação que impulsiona a leitura e que prende o leitor. 

É talvez por tudo isso junto que considero que, entre os três "Corto Maltese de Autor" da dupla, este terceiro título é o mais bem conseguido até agora. Nota-se claramente uma maior confiança da dupla de autores, especialmente do argumentista, tanto na construção da história como na forma como se lida com a herança da personagem. Tudo parece mais fluido, mais coeso e mais seguro.

Não obstante, é inegável que estamos perante um Corto Maltese diferente daquele que Hugo Pratt apresentou ao mundo. Há aqui uma contemporaneidade mais evidente, tanto nos temas como no tom geral da narrativa. Ainda assim, a essência da personagem permanece: continuamos a ter um aventureiro livre, com uma bússola moral própria e uma certa melancolia que o distingue de qualquer outra personagem.

Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor
Mesmo assim, há quem defenda que estas histórias poderiam ser protagonizadas por qualquer outra personagem e que o nome de Corto Maltese é utilizado sobretudo como forma de garantir vendas. Concordo parcialmente com essa afirmação. De facto, é verdade que o peso do nome atrai leitores e consequentes vendas; no entanto, não considero que essa escolha seja feita de forma gratuita ou unicamente oportunista. Pelo contrário, sinto que Quenehen e Vivès estão a construir histórias que, mesmo sendo modernas, dialogam com o espírito original da personagem, prestando homenagem ao enigma e ao charme original de Corto Maltese. E cada vez estou mais convencido disto.

No campo gráfico, Bastien Vivès continua a apresentar um trabalho muito interessante. O seu traço é elegante, solto e expressivo, conseguindo transmitir uma sensualidade muito própria ao conjunto. Há vinhetas verdadeiramente lindas neste álbum. Essa beleza, especialmente das mulheres, nem é feita à custa de um desenho muito detalhado, mas sim através de uma leveza, simplicidade e de uma estética singulares. Também as personagens são desenhadas com economia de linhas, mas com grande capacidade expressiva. Talvez certos cenários pudessem ter um pouco mais de detalhe, reconheço, mas, mais uma vez, não me parece que esse vazio cénico seja fruto do acaso... acho que isso é mesmo explorado pela própria estética de Vivès. 

Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor
Os desenhos são a preto e branco, com escala de cinzentos, mas não deixo de pensar que uma versão a cores poderia elevar ainda mais o impacto visual da obra, como demonstram, aliás, as belíssimas capas coloridas das edições francesas. Mesmo assim, admito que os desenhos de Bastien Vivès, mesmo numa escala a cinzento, são belíssimos na sua leveza, simplicidade e singularidade.

A edição da Arte de Autor é em capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel brilhante no miolo. A encadernação, impressão e acabamentos também são bons. No final, há um caderno de extras, com oito páginas, que inclui um texto de Martin Quenehen e um texto de Antonio Politano sobre o tema ambiental que serve como pano de fundo à história. Há ainda um belo conjunto de ilustrações a cores, onde fica patente a capacidade singular de Vivès para as aguarelas, lembrando, com as devidas distâncias, o trabalho original de Pratt.

Em suma, Corto Maltese - O Dia Anterior é uma obra muito sólida e, até agora, a mais bem conseguida desta nova fase da personagem (re)imaginada por Quenehen e Vivès. Mesmo sendo um Corto diferente, revela-se cada vez mais interessante e apelativo. É uma banda desenhada que consegue equilibrar aventura, ação e atualidade, nunca descurando o respeito pelo legado de Hugo Pratt e provando que ainda há muito caminho a explorar - seja em terra, céu ou mar - pelo célebre viajante maltês.


NOTA FINAL (1/10):
8.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor

Ficha técnica
Corto Maltese - O Dia Anterior
Autores: Martin Quenehen e Bastien Vivès
Editora: Arte de Autor
Páginas: 176, a preto e branco (mais caderno final a cores)
Encadernação: Capa dura
Formato: 196 x 285 mm
Lançamento: Abril de 2026

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Vem aí um novo livro de Corto Maltese!




A Arte de Autor prepara-se para editar o mais recente livro de Corto Maltese!

O livro chama-se O Dia Anterior e mantém a abordagem mais contemporânea dos autores Martin Quenehen e Bastien Vivès, que se afasta do teor original da série criada por Hugo Pratt - teor esse que tem vindo a ser seguido pelas criações paralelas para a série de Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero.

Depois de Oceano Negro e A Rainha da Babilónia, este é o terceiro álbum extraído da criação de Martin Quenehen e Bastien Vivès. A abordagem destes dois autores não tem sido muito consensual em termos de aceitação por parte da crítica e do público, mas posso dizer-vos que, pelo menos para mim, têm sido bons livros, o que me deixa na expectativa para este O Dia Anterior.
Por agora, o livro já se encontra em pré-venda no site da editora e deve ser primeiramente vendido nos próximos eventos bedéfilos, Coimbra BD e Comic Con, antes de chegar às livrarias.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès

Corto regressa ao Pacífico!

Em 2022, enquanto está em Sydney, Corto tenta ajudar Marcus, um amigo pirata que luta contra o vício das drogas. E que melhor forma de o tirar desta enrascada do que uma nova aventura?

Esta aventura é-lhes oferecida pela advogada de um grupo de activistas ambientais. 

Uma das integrantes do grupo foi presa nas Ilhas Tuvalu, no meio do Oceano Pacífico. De origem chinesa, corre o risco de ser entregue às autoridades do seu país e sugeriu o nome de Corto Maltese à sua advogada como a sua última hipótese de liberdade… 

Com Marcus aos controlos de um hidroavião velho, Corto e a sua cliente levantam voo em direcção a estas ilhas, as primeiras vítimas das alterações climáticas que provocam a subida do nível do mar.


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Ficha técnica
Corto Maltese - O Dia Anterior
Autores: Martin Quenehen e Bastien Vivès
Editora: Arte de Autor
Páginas: 176, a preto e branco (mais caderno final a cores)
Encadernação: Capa dura
Formato: 196 x 285 mm
PVP: 27,95€

quarta-feira, 5 de março de 2025

Análise: Corto Maltese - A Linha da Vida

Corto Maltese - A Linha da Vida, de Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero - Arte de Autor

Corto Maltese - A Linha da Vida, de Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero - Arte de Autor
Corto Maltese - A Linha da Vida, de Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero

O mais recente álbum da muito celebrada série Corto Maltese - originalmente criada por Hugo Pratt - intitula-se A Linha da Vida e em Portugal foi lançado pela editora Arte de Autor, no final de 2024.

Ao contrário da versão dos autores Bastien Vivès e Martin Quenehen, que modernizou a série nos temas e nos desenhos - em álbuns como A Rainha da Babilónia ou Oceano Negro -esta incursão de Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero tem tido uma abordagem clássica e canónica de Corto Maltese num total de cinco álbuns que passo a elencar: Sob o Sol da Meia Noite, Equatória, Dia de Tarowean, Nocturno Berlinense e este A Linha da Vida.

Corto Maltese - A Linha da Vida, de Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero - Arte de Autor
Desta vez, estamos no final dos anos 1920, e Corto Maltese encontra-se no México para uma nova missão para Boca Dourada, que o incumbiu de negociar uma remessa de antiguidades com um arqueólogo a quem faltam escrúpulos e ética de negócio. Tudo parecia simples, mas só até ao momento em que o famoso marinheiro se vê forçado a ter que transportar um carregamento de armas para os Christeros, um grupo de rebeldes católicos que trava uma luta contra as leis anticlericais do governo republicano. Estão, então, lançados os dados para mais uma série de eventos que transportam o leitor para um clássico mundo de aventuras.

O livro mantém a tradição das narrativas de Corto Maltese, misturando exotismo, aventura e uma boa dose de reflexão existencial, e levando o protagonista a uma viagem repleta de intriga e enigmas históricos. 

Um dos elementos mais notáveis deste A Linha da Vida é o respeito pelo estilo original dos desenhos de Hugo Pratt. Não é uma surpresa, pois já assim tinha acontecido nos álbuns anteriores desta dupla de criativos. O ilustrador Pellejero assume, pois, um traço que dialoga de forma notável com o de Pratt, captando a expressividade e a melancolia de Corto Maltese sem cair numa simples imitação. Em certos momentos, a recriação gráfica de Pellejero chega mesmo a superar a original, com um jogo de sombras e composições de página que enriquecem a atmosfera e tornam a leitura visualmente estimulante e, por ventura, mais contemporânea.

Corto Maltese - A Linha da Vida, de Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero - Arte de Autor

No entanto, a nível narrativo, nota-se que a fluidez da história nem sempre é tão bem conseguida. Existem momentos em que a transição entre cenas parece abrupta, dando a sensação de que certos elos narrativos foram subaproveitados ou mesmo deixados de lado. Esse aspeto pode comprometer o envolvimento do leitor, que, por vezes, precisa de um esforço adicional para conectar os diferentes acontecimentos e compreender plenamente as motivações das personagens. 

A história começa muito bem, mas parece que, ao longo da leitura, perde algum do seu fulgor e potencial inicial. Dos álbuns lançados até agora pela dupla Canales/Pellejero, o meu preferido continua a ser o anterior Nocturno Berlinense.

A construção dos diálogos mantém-se, porém, fiel ao espírito de Pratt, com um tom irónico e filosófico que caracteriza Corto Maltese e onde Canales é especialmente bem sucedido. 

Corto Maltese - A Linha da Vida, de Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero - Arte de Autor
Outro aspeto interessante é a forma como o álbum equilibra ação e contemplação. Tal como nas histórias de Pratt, A Linha da Vida não se limita a ser um simples relato de aventuras, mas incorpora momentos de pausa e reflexão que reforçam a complexidade da personagem e a sua visão desencantada do mundo. Esse respeito pela tradição de Corto Maltese faz com que A Linha da Vida se encaixe harmoniosamente na continuidade da série, sem destoar do espírito original. Nota ainda, positiva, para o aparecimento de dois velhos conhecidos de Corto nesta história: Rasputine, que se assume como parceiro do protagonista, e Banshee O'Dannan, a revolucionária irlandesa.

A edição da Arte de Autor apresenta-se em consonância com os outros livros desta mesma coleção que a editora tem vindo a publicar. O livro tem capa dura brilhante, bom papel brilhante no interior e apresenta um bom trabalho quer na impressão, quer na encadernação.

Em suma, Corto Maltese – A Linha da Vida é um álbum visualmente belo que presta uma homenagem competente ao legado de Hugo Pratt. Embora a narrativa apresente alguns saltos menos fluídos e certas passagens não sejam tão bem desenvolvidas, a essência de Corto Maltese permanece intacta, e a arte de Pellejero consegue, em momentos, não apenas evocar, mas até superar o traço do Mestre original. 


NOTA FINAL (1/10):
8.3



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Corto Maltese - A Linha da Vida, de Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero - Arte de Autor

Ficha técnica
Corto Maltese - A Linha da Vida
Autores: Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero
Editora: Arte de Autor
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Novembro de 2024

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Corto Maltese está de volta!



A Arte de Autor prepara-se para lançar, já no próximo Amadora BD, que arranca no final desta semana, o novíssimo Corto Maltese, de Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero, uma dupla de autores que tem vindo a dotar a série original de Hugo Pratt de novas aventuras que colocam o marinheiro mais famoso da banda desenhada em novos cenários e enredos.

Ao contrário da versão dos autores Bastien Vivès e Martin Quenehen, que modernizou a série nos temas e nos desenhos, esta versão de Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero tem uma abordagem clássica e canónica de Corto Maltese.

O novo volume intitula-se A Linha da Vida.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais do novo livro.
Corto Maltese - A Linha da Vida, de Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero

Corto no coração de uma revolução mexicana esquecida.

No final dos anos 20, Corto Maltese está no México numa nova missão para a Boca Dourada. Tem de negociar uma remessa de antiguidades maias com um arqueólogo sem escrúpulos.

Mas como sempre, nada corre como planeado, e o nosso marinheiro vê-se obrigado a transportar um carregamento de armas para os Christeros, rebeldes católicos que lutam contra o governo republicano e as suas novas leis anti-clericais. 

Entre eles estão dois dos seus velhos conhecidos, Rasputine, que se juntou às ordens, e Banshee O'Dannan, a revolucionária irlandesa.

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Ficha técnica
Corto Maltese - A Linha da Vida
Autores: Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero
Editora: Arte de Autor
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 23,00€

quarta-feira, 10 de julho de 2024

Análise: Corto Maltese - A Rainha da Babilónia

Corto Maltese - A Rainha da Babilónia, de Bastien Vivès e Martin Quenehen - Arte de Autor


Corto Maltese - A Rainha da Babilónia, de Bastien Vivès e Martin Quenehen - Arte de Autor
Corto Maltese - A Rainha da Babilónia, de Bastien Vivès e Martin Quenehen

Se há coisas onde pareço ser uma voz dissonante, pelo menos em Portugal, é na opinião sobre a recente reinvenção de Corto Maltese que Vivès e Quenehen iniciaram em 2021 com o lançamento de Corto Maltese - Oceano Negro. E digo isto porque oiço e leio muita gente descontente com esta nova abordagem à emblemática personagem criada por Hugo Pratt. Todavia, a verdade é que - e pese embora o argumento não seja perfeito (mas também não os eram, quanto a mim, os de Pratt) - sou um admirador desta faceta moderna que os autores Vivès e Quenehen à personagem clássica de Corto Maltese.

A objeção que mais vejo surgir contra este novo Corto, é que as aventuras criadas por Quenehen, quer neste A Rainha da Babilónia, que hoje vos trago, quer em Oceano Negro, poderiam ter sido criadas para qualquer outra personagem. Que a única ligação do Corto de Quenehen ao Corto de Hugo Pratt é o nome da personagem. Não poderia discordar mais desta so called "objeção”. Ou, concordando, poderemos usá-lo conforme "dá jeito" para qualquer reimaginação de alguma personagem clássica: as histórias do Lucky Luke do Bonhomme também poderiam ser criadas para outra personagem que não Lucky Luke, as histórias do Spirou, desenvolvidas por Bravo, também poderiam ser criadas para outra personagem que não Spirou… enfim, estas objeções são frágeis como flocos de neve.

Corto Maltese - A Rainha da Babilónia, de Bastien Vivès e Martin Quenehen - Arte de Autor
E afirmar isso sobre este Corto Maltese é, quanto a mim, não perceber a real essência de Corto Maltese. Que não são as viagens que a personagem enceta ou a icónica indumentária que o marinheiro maltês enverga. É claro que isso também faz parte do folclore, chamemos-lhe assim, de Corto Maltese. Mas aquilo que mais define esta personagem e aquilo que a faz ser única, é o espírito de aventura, as reflexões profundas e a própria sensualidade da personagem e das suas peripécias. Queiramos nós admiti-lo ou não.

E espírito de aventura, reflexões profundas e sensualidade habitam - com toda a força! - neste A Rainha da Babilónia. Vou até mais longe e considero - especulando, é certo - que o próprio Hugo Pratt certamente apreciaria mais aquilo que Bastien Vivès e Martin Quenehen fazem por Corto Maltese, do que propriamente o trabalho que os autores Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero têm feito por esta icónica personagem. E não o digo com desprimor para estes últimos. Também aprecio muito o seu trabalho, mas, lá está, arrisca menos, procura menos, almeja menos, consegue menos.

Neste A Rainha da Babilónia, estamos no ano 2002. O livro abre de uma forma maravilhosa. A sensualidade vivida entre Corto e Semira é qualquer coisa de espantosa. Para isso conta, claro, a forma elegante e bela como Vivès representa a interação entre as duas personagens, com a sua utilização de planos apertados e close ups que intensificam a experiência sensorial. Com efeito, só as primeiras páginas do livro já são de uma força grandiosa que ressoa no leitor. Só depois dessa ambientação, dessa introdução no mood pretendido, é que mergulhamos mesmo na história, que coloca Corto Maltese a unir-se a Ismet "Ćelo” Bajramović, uma personagem real que foi um reputado soldado bósnio que, no tempo do cerco a Sarajevo, teve um importante papel na luta pelo povo Bósnio. A ideia de Célo, Semira e o resto do gangue é intercetar um negócio entre os sérvios e os iraquianos, o que vai levar as personagens a um golpe na vidade de Veneza. 

Depois da brilhante cena inicial da história, verdadeiramente bem executada, quer no timing, na tensão, ou nos momentos de ação, a narrativa dá-nos um flashback onde recuamos no tempo de forma a conhecermos o que une Corto a Semira. Esta, que acaba por ser quem mais protagoniza este A Rainha da Babilónia - e o próprio título da obra o confirma - é uma mulher bósnia que Corto conhece alguns meses antes numa discoteca em Berlim. Semira tem traumas de guerra bem demarcados que tiveram origem na invasão da sua aldeia por parte dos soldados sérvios em 1992.

Corto Maltese - A Rainha da Babilónia, de Bastien Vivès e Martin Quenehen - Arte de Autor
Se Quenehen, enquanto argumentista, não me tinha deixado totalmente satisfeito em Oceano Negro, neste A Rainha da Babilónia conquistou-me com uma história mais bem urdida, em que o controlo narrativo do relato é mais bem executado e em que os diálogos fazem jus aos bons diálogos que sempre existiram nas aventuras de Corto Maltese. São inúmeras as citações que poderíamos tirar deste livro e inseri-las junto a um esboço de Hugo Pratt sem que alguém pudesse objetar que a citação não pertencia ao Corto de Pratt. O que me leva ao ponto inicial: Quenehen consegue aproximar-se do Corto Maltese naquilo que mais interessa: no espírito da personagem.

Lamento, ainda assim, que o enredo vá perdendo um certo fulgor ao longo da obra. Este é dos livros de Corto Maltese em que há mais ação. Depois de um golpe executado com sucesso, há um plot twist que muda a história e que leva Corto a refugiar-se junto de uma comunidade de ciganos, enquanto procura vingança perante a traição de que é vítima. Se até aqui o livro estava a deixar-me 100% satisfeito, a partir deste ponto tenho que admitir que a história se torna um pouco mais expectável, menos relevante e menos "Corto Maltesiana". Aqui, mergulhamos numa parte mais política e racional, em contraste com a parte mais sentimental e romântica de Corto da primeira parte da história. Acho que a coisa que causou o tal plot twist de que falei mais acima fez com que a história perdesse bastante da sua força, pois foi uma opção ousada e arriscada por parte do argumentista. E, depois de finda a leitura, reconhece-se que A Rainha da Babilónia começa em altas, mas acaba de forma algo murcha. Mesmo assim, com Corto Maltese a safar a sua pele um pouco à maneira de um Edmond Dantès em O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, não posso dizer que a história não funcione bem. Funciona e supera facilmente Oceano Negro mas, por momentos, julguei estar perante uma obra prima. Não o será, mas é um belo livro e um ótimo presságio para aquilo que Quenehen e Vivès ainda poderão vir a dar a Corto Maltese em futuros álbuns.

Corto Maltese - A Rainha da Babilónia, de Bastien Vivès e Martin Quenehen - Arte de Autor
Quanto a Bastien Vivès, já tinha ficado convencido no álbum anterior e aqui ainda fico mais. A maneira como o autor desenha é simplesmente bela e consegue abrir o espectro pictórico, tão emblemático!, de Corto Maltese a novos patamares. O autor mantém-se fiel ao estilo utilizado em Oceano Negro, portanto, retiro algumas das palavras que, por altura do lançamento dessa obra, já tive ocasião de escrever: "Bastien Vivès é dono de um estilo com muita personalidade (...) e brinda-nos, muitas vezes (...) com bonitas e elegantes ilustrações, que dão a este Corto Maltese um caráter próprio e singular, diferente do estilo de ilustração de Hugo Pratt, é certo, mas fazendo-lhe as devidas homenagens. Até porque, convenhamos, aquela poesia única e contemplativa no Corto Maltese de Hugo Pratt, também aparece no Corto Maltese de Vivès. Saibamos nós encontrá-la. Em termos de ilustração, o resultado final é diferente? Sim, sem dúvida. Mas a sensação poética inerente ao visual de Corto, povoado por horizontes áridos, pela presença do mar como musa inspiradora, por linhas claras e simples, mas plenas de sedução, está toda presente neste livro." 

O trabalho de edição por parte da editora Arte de Autor está muito bem feito e em linha com o trabalho feito pela editora na edição de Oceano Negro. O livro apresenta capa dura baça com detalhes, no nome da série, a verniz. O papel é brilhante e de boa qualidade e, no final, há um dossier de 12 páginas com um texto do jornalista Jean Hatzfeld sobre a obra, que é acompanhado por lindíssimas aguarelas e estudos de personagem de Bastien Vivès.

Em suma, se no primeiro livro eu tinha ficado, por um lado satisfeito, por outro lado de “pé atrás”, perante esta incursão dos autores Quenehen e Vivès no universo de Corto Maltese, com este A Rainha da Babilónia as minhas dúvidas saem dissipadas e estou bem mais satisfeito com estas novas aventuras que têm o condão de serem modernas, com vida própria, mas sem que isso belisque de alguma forma o espírito e vibe de uma das mais icónicas personagens da banda desenhada mundial. 


NOTA FINAL (1/10):
8.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Corto Maltese - A Rainha da Babilónia, de Bastien Vivès e Martin Quenehen - Arte de Autor

Ficha técnica
Corto Maltese - A Rainha da Babilónia
Autores: Martin Quenehen e Basiten Vivès
Editora: Arte de Autor
Páginas: 192, a preto e branco (mais caderno final a cores)
Encadernação: Capa dura
Formato: 196 x 285 mm
Lançamento: Abril de 2024

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Está a chegar o novo Corto Maltese!!!



A Arte de Autor prepara-se para lançar, no próximo Coimbra BD, o novo Corto Maltese!

Falo de A Rainha da Babilónia, dos autores que já nos deram Oceano Negro. Relembro que não estamos perante a continuação mais canónica, por assim dizer, da série original de Hugo Pratt - essa tarefa tem sido levada a cabo pela dupla formada por Canales e Pellejero -, mas sim face a um "Corto Maltese de autor". Uma adaptação livre que tem, ainda assim, a personagem de Corto Maltese como protagonista.

Tenho sentido um certo preconceito e uma certa fricção de muita gente face a esta variante de Corto Maltese, mas que são, quanto a mim, injustos. Gostei bastante de Oceano Negro onde Vivès demonstrou a beleza dos seus desenhos. O argumento poderia, quiçá, ter sido mais bem trabalhado, mas foi um belo livro.

Portanto, estou bastante empolgado com esta nova aventura denominada A Rainha da Babilónia.

Por agora, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Corto Maltese - A Rainha da Babilónia, de Martin Quenehen e Basiten Vivès

Entre a vida e a morte, uma das aventuras mais memoráveis de Corto.

Outono de 2002. 
Enquanto uma nova guerra se desenrola no Iraque, os contrabandistas de Veneza estão a festejar. Mas quando o amor, a honra e a fortuna se cruzam, o infortúnio não pode faltar... 

Do Adriático ao Golfo Pérsico, dos Balcãs à Babilónia, entre cães e lobos, Corto terá de voltar a traçar a sua rota, amar, lutar e descobrir que a aventura é uma maldição que o impede de regressar ao porto...

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Ficha técnica
Corto Maltese - A Rainha da Babilónia
Autores: Martin Quenehen e Basiten Vivès
Editora: Arte de Autor
Páginas: 192, a preto e branco (mais caderno final a cores)
Encadernação: Capa dura
Formato: 196 x 285 mm
PVP: 27,95€

terça-feira, 30 de maio de 2023

Corto Maltese de Canales e Pellejero é relançado a preto e branco!



Depois de ser a primeira editora portuguesa a reunir no seu catálogo a totalidade dos álbuns de Corto Maltese da autoria de Hugo Pratt, numa fantástica coleção a preto e branco, a Arte de Autor continua a editar os restantes Corto Maltese, assinados pela dupla formada por Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero, a preto e branco.

Recordo que a editora editou este Sob o Sol da Meia-Noite a cores, o primeiro assinado por Canales e Pellejero, mas lança-o agora na sua versão a preto e branco.

Parece-me uma opção acertada, tendo em conta que há muitos fãs da coleção a preto e branco e, desta forma, poderão finalizá-la/continuá-la. Já está em pré-venda no site da editora e deverá chegar às livrarias a partir de 15 de Junho.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Corto Maltese 13 - Sob o Sol da meia-noite, de Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero

1915. Acabado de chegar ao Panamá acompanhado por Rasputine, Corto Maltese está novamente de partida!

O destino é São Francisco e a sua Exposição Internacional onde espera encontrar um amigo de longa data, o escritor Jack London. Mas o autor de O Apelo da Selva dirige-se já para o México, a fim de efectuar uma reportagem sobre a revolução de Pancho Villa e ambos se desencontram. 
Deixou uma mensagem pedindo a Corto que entregasse uma carta a uma certa Waka Yamada, uma antiga estrela de ‘saloon’ em Dawson City durante a corrida para o ouro, havia-se convertido em militante contra o tráfego de brancas no Alasca. 

Em troca de lhe fazer chegar essa carta, London promete a Corto uma nova aventura… e um misterioso tesouro!

Corto Maltese inicia assim um longo périplo pelas vastas extensões geladas do Grande Norte, numa viagem pautada por inúmeros perigos e ameaças. 

Porque, sob o sol da meia-noite, há outros predadores que rondam para além dos lobos e dos ursos…

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Ficha técnica
Corto Maltese 13 - Sob o Sol da meia-noite (Edição a Preto e Branco)
Autores: Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero
Editora: Arte de Autor
Páginas: 96, a preto e branco (com alguns extras a cores)
Encadernação: Capa dura
Formato: 225 x 297 mm
PVP: 25,95€

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Corto Maltese está de volta para mais uma aventura!



E é pelas mãos da editora Arte de Autor, como não podia deixar de ser.

A mais recente aventura do famoso marinheiro intitula-se Nocturno Berlinense. A dupla responsável por estas novas aventuras de Corto Maltese continua a ser composta por Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero que regressam com este quarto álbum.

O livro deve chegar às livrarias durante esta e a próxima semana.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.
Corto Maltese - Nocturno Berlinense, de Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero

Alemanha, 1924.

Corto Maltese vagueia pelas ruas de Berlim com o escritor Joseph Roth quando descobre a morte de um velho amigo. 

O marinheiro seguirá a pista o assassino sobre o pano de fundo de um país convulsionado pela bancarrota, a guerra, o assassinato político, os golpes de Estado e a ameaça incipiente do nazismo. 

O argumentista Juan Díaz Canales (Blacksad) e o desenhador Rubén Pellejero (Dieter Lumpen) projectam as luzes e sombras da Alemanha entre guerras sobre a silhueta mítica do marinheiro criado por Hugo Pratt.

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Ficha técnica
Corto Maltese - Nocturno Berlinense
Autores: Juan Díaz Canales e Rúben Pellejero
Editora: Arte de Autor
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 22,00€

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Corto Maltese está de volta!



A Arte de Autor acaba de anunciar que irá publicar, até ao final do mês, Corto Maltese - As Helvéticas, bem como vai fazer a reimpressão do livro A Balada do Mar Salgado, que já se encontrava esgotado há bastante tempo.

Com este As Helvéticas, a editora aproxima-se do fim da coleção de Corto Maltese, a preto e branco.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora e deverá chegar às livrarias a partir de 17 de Abril.

Mais abaixo, deixo-vos com algumas imagens promocionais e com a sinopse da obra.
Corto Maltese - As Helvéticas, de Hugo Pratt

“A aventura em Corto é sempre a de uma palavra que se esforça por maravilhar, a imagem do livro em que ele entra a coberto da noite.

Mergulhar nessa palavra é sair de si, abrir-se ao mundo e responder a um juramento que fez a si mesmo num tempo demasiado longínquo para que se possa lembrar dele. Tal é a aventura que diz respeito à imaginação poética: uma verdade sempre em devir, da qual o Graal é a promessa simbólica, ao mesmo tempo coração do mundo e coração do homem. Na tradição, o Graal toma, de resto, tanto a forma de um cálice como a de um livro.

Esse livro é aquele que tem nas mãos. Leia-o com cuidado: ele contém o coração de Pratt.”

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Ficha técnica
Corto Maltese - As Helvéticas
Autor: Hugo Pratt
Editora: Arte de Autor
Páginas: 72, a preto e branco (prefácio a cores)
Encadernação: Capa dura
PVP: 25,95€

sexta-feira, 1 de abril de 2022

A Arte de Autor anuncia uma mão cheia de novidades para os próximos meses!


Sim, é verdade que algumas destas obras já aqui tinham sido anunciadas há uns meses.

No entanto, há algumas novidades que estavam no segredo dos Deuses até agora e que ontem a Arte de Autor anunciou nas suas redes sociais!!!

Já neste mês de Abril, chegam-nos Corto Maltese, na sua edição a preto e branco, com a publicação de As Helvéticas e a reedição de A Balada do Mar Salgado.




Ainda em Abril, lá mais para o final do mês, a editora publicará a obra prima, infanto-juvenil, Mausart, de Gradimir Smudja, numa edição integral que reúne os volumes Mausart e Mausart em Veneza.


Em Maio chegará ao fim a publicação da maravilhosa série Armazém Central, com um volume duplo As Mulheres e Notre-Dame-des-Lacs que inclui um caderno gráfico.



Em Junho, a editora publicará o integral Conde Skarbek, de Sente e Rosinsky, que inclui um caderno gráfico erótico.



Edgar P. Jacobs - Sonhador de Apocalipses chegará em Julho. O retrato biográfico de um dos maiores autores da nona arte por François Rivière, ensaísta e romancista que conversou longamente com o mestre ainda em vida e Philippe Wurm, um dos herdeiros óbvios e reivindicados da linha Jacobs.



A continuação da saga BUG, escrita e desenhada por Enki Bilal, chega em Agosto com a publicação do volume 3.


, o último livro da serie Corto Maltese, escrito e desenhado por Pratt, chegará em Outubro.




E, até ao fim do ano, mais algumas novidades como O Castelo dos Animais 3, Os Filhos de El Topo 3 e mais algumas coisas que, por agora, a editora ainda não revela!


É (tentar) esperar pacientemente por tantas e tão boas novidades!