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quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Análise: Livro do Desassossego

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP
Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer

A editora Levoir surpreendeu os leitores portugueses quando, por alturas do mais recente Amadora BD, anunciou o lançamento duplo da adaptação para banda desenhada de O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. Especialmente, se tivermos em conta que a coleção dos Clássicos da Literatura Portuguesa em BD já havia chegado ao fim, após a publicação do anunciado 15º volume.

Mas a Levoir decidiu continuar a coleção que convoca os grandes clássicos da literatura portuguesa para uma adaptação em banda desenhada e fê-lo com mais uma adaptação da obra de Fernando Pessoa, desta feita com argumento de Pedro Vieira de Moura e desenhos, no primeiro volume, de Susa Monteiro e, no segundo, de Bernardo Majer.

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP
O Livro do Desassossego
é uma obra literária única, caracterizada pela sua estrutura fragmentária e introspectiva. Não se trata, portanto, de um romance tradicional com enredo linear, mas de uma coleção de pensamentos, reflexões e observações. A obra explora a vida interior do narrador, a sua percepção da cidade, do tempo, da existência e da arte, revelando sentimentos de melancolia, tédio, solidão e um constante questionamento sobre a realidade e a identidade. A escrita é muitas vezes poética, filosófica e profundamente subjetiva, refletindo a complexidade da mente humana e a inquietação existencial de Fernando Pessoa.

A obra não segue uma ordem cronológica e reúne fragmentos que foram escritos ao longo de muitos anos, publicados postumamente. Como tal, é uma das obras mais enigmáticas de Fernando Pessoa, e esta adaptação em banda desenhada propõe um mergulho visual que respeita essa complexidade. Não estamos perante uma narrativa convencional, mas sim diante de uma experiência sensorial que acompanha a pulsação introspectiva do texto. Pedro Vieira de Moura conseguiu transformar a fragmentação da escrita pessoana em algo coeso o suficiente para que o leitor possa navegar pelo labirinto de pensamentos sem se sentir perdido.

Mas não vos vou mentir: este é um livro difícil de ler. A fragmentação do original exige concentração, atenção aos detalhes e paciência. É normal que muitas vezes nos percamos ou que nos pareça que a obra navega em demasia na maionese. Não obstante, a beleza desta adaptação é que não tenta simplificar ou adulterar a obra; pelo contrário, oferece-nos ferramentas visuais para acompanhar a introspeção de Pessoa, mantendo a essência desconexa que caracteriza a escrita do autor. 

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP
O primeiro volume abarca textos escritos sob o heterónimo Vicente Guedes, entre 1913 e 1919. Aqui, o trabalho de Susa Monteiro brilha. O seu estilo contemplativo encaixa-se na perfeição com a natureza abstrata do texto original e a densidade filosófica dos fragmentos iniciais. Cada página transmite um ritmo meditativo, quase hipnótico - bem em linha com aquilo que a autora já nos havia oferecido em Mensagem - que permite ao leitor sentir a Lisboa da época através da lente da subjetividade pessoana. A composição das ilustrações cria um diálogo silencioso entre palavra e imagem que é muito gratificante.

O segundo volume, dedicado a Bernardo Soares e aos fragmentos escritos entre 1929 e 1935, introduz um contraste visual evidente com o primeiro livro. Bernardo Majer imprime cores mais soturnas e uma representação do ambiente lisboeta que é complexa, mas também mais acessível para o leitor contemporâneo. O equilíbrio entre abstração e referência realista é notável, levando o leitor a conseguir perceber a cidade, o movimento das ruas e a solidão do heterónimo sem perder a intensidade poética do texto.

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP
A divisão da obra entre dois ilustradores foi arriscada por haver o perigo de se perder alguma continuidade visual. No entanto, o próprio caráter desconexo da obra funciona como uma espécie de "cola" entre os dois estilos de ilustração. Susa Monteiro domina a parte mais introspectiva e etérea, enquanto Bernardo Majer traz densidade e textura urbana à fase mais tardia da obra, tornando a transição aceitável e até enriquecedora. A mistura de dois ilustradores acabou por, embora arriscada, funcionar bem.

O trabalho de ilustração de Susa Monteiro cumpre as expectativas que eu já tinha do seu estilo: contemplativo, poético e belo. Já Bernardo Majer surpreendeu-me de forma muito positiva. A forma como usa a cor, as sombras e o próprio desenho, transmite aquela sensação de inquietação e fragmentação interna do narrador. Confesso que, em termos de desenho, este pode ser o meu livro preferido do autor até agora. Gostei mesmo muito.

Em termos de edição, o trabalho da Levoir está em linha com os outros livros desta coleção. Cada livro tem capa dura baça, bom papel brilhante no miolo, e boa encadernação e impressão. No final de cada livro há um dossier de extras - maior no segundo volume - sobre a obra, o autor e o contexto social de ambos.

Em suma, estes dois livros constituem um acréscimo importante à coleção de Clássicos da Literatura Portuguesa em BD da Levoir. Mantêm a integridade da obra original, oferecem novas vias de interpretação e leitura, e combinam de modo eficiente o talento de dois belos estilos de ilustração diferentes. Quem se aventurar neste Livro do Desassossego encontrará não apenas uma obra literária, mas também uma experiência visual e sensorial única, tão complexa, abstrata e fascinante quanto a própria obra original de Fernando Pessoa.


NOTA FINAL (1/10):
8.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens dos álbuns. www.instagram.com/vinheta_2020


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Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP

Fichas técnicas
Livro do Desassossego I
Autores: Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro
Baseado na obra original de: Fernando Pessoa
Editora: Levoir
Páginas: 58, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Outubro de 2025

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP

Livro do Desassossego II
Autores: Pedro Vieira de Moura e Bernardo Majer
Baseado na obra original de: Fernando Pessoa
Editora: Levoir
Páginas: 58, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Outubro de 2025

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Polvo nos últimos 5 anos!



Cá estou eu para mais um TOP 10 com a melhor banda desenhada editada nos últimos 5 anos em Portugal! Hoje é dia de ficarmos a conhecer quais os melhores livros de BD que a editora Polvo lançou nos últimos 5 anos.

A Polvo é uma das editoras de banda desenhada mais antigas em Portugal, tendo já editado perto de 200 livros, desde o seu início de atividade há quase 30 anos. Sendo uma editora de cariz independente, não tem uma assiduidade muito constante no lançamento de novos livros, ao longo dos meses, embora, todos os anos, seja quase garantido que haverá novos livros desta editora a serem lançados por alturas do Amadora BD

Com um catálogo que se concentra numa clara aposta em obras de origem brasileira, a editora tem também editado muitas obras de referência de autores nacionais, bem como de outros autores europeus.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Faço aqui uma pequena nota sobre o procedimento: considerei séries como um todo e obras one-shot. Tudo junto. Pode ser um bocado injusto para as obras autocontidas, reconheço, e até ponderei fazer um TOP exclusivamente para séries e outro para livros one-shot, mas depois achei que isso seria escolher demasiadas obras. Deixaria de ser um TOP 10 para ser um TOP 20. Até me facilitaria o processo, honestamente, mas acabaria por retirar destaque a este meu trabalho que procura ser de curadoria. Acabou por ser um exercício mais difícil, pois tive que deixar de fora obras que também adoro, mas acho que quem beneficia são os meus leitores que, deste modo, ficam com a BD que considero ser a "crème de la crème" de cada editora.

Deixo-vos então, as 10 melhores BDs editadas pela Polvo nos últimos 5 anos.

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Análise: Espiga

Espiga, de Bernardo Majer - Polvo

Espiga, de Bernardo Majer - Polvo
Espiga, de Bernardo Majer

Depois de Estes Dias, a primeira obra a solo de Bernardo Majer, ter conquistado amplamente a crítica nacional, bem como os leitores portugueses, ou não tivesse sido a obra vencedora dos Prémios de Banda Desenhada da Amadora, Bernardo Majer não perdeu muito tempo antes de lançar um novo livro. E felizmente que assim o foi!

A sua mais recente obra, Espiga, lançada no último Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, conta com edição da Polvo e volta a dar-nos uma narrativa em estilo slice of life, em que somos mergulhados na vida quotidiana de uma personagem - ou, neste caso, de duas - sem que haja grande base introdutória ou, sequer, conclusiva. Como se o leitor fosse uma mosca que, deambulando pelo ar, fosse pousar ao parapeito da janela da casa de uma qualquer pessoa e a observasse durante algum tempo até que, mais tarde, seguisse viagem voando para um outro sítio.

Em Espiga, não temos um conjunto de histórias independentes como tivemos em Estes Dias. Temos duas histórias aparentemente independentes, mas que acabam por se entrecruzar. Mesmo assim, acho que há semelhanças suficientes entre as duas obras, quer ao nível de argumento, quer ao nível de ilustração, para ser quase uma garantia que quem apreciou Estes Dias também vai gostar de Espiga.

Espiga, de Bernardo Majer - Polvo
Começamos por acompanhar Abel, que é um autor que, viajando para um festival literário em Bolonha, para a apresentação do seu livro, acaba por travar conhecimento com outra autora, Laura. Embora Abel tenha um relacionamento amoroso com Teresa, que não o acompanha nesta viagem, sente a sua relação a esmorecer cada vez mais. Talvez porque, como acontece com muitos casais, um e outro parecem estar em fases diferentes da vida. Com interesses, vontades e objetivos que já não são tão comuns como, no início da sua relação, ambos poderiam ter esperado que fossem. E com isso vem o impasse típico: será que devemos sucumbir aos desejos e objetivos da outra pessoa, deixando-nos levar ao sabor da (sua) corrente? Será isso o melhor comportamento para contribuirmos positivamente para uma relação amorosa?

Enquanto Teresa quer comprar uma casa e dar o "próximo passo" na relação, Abel não parece ter foco nesse objetivo. E, a par disso, também sofre de insónias. Possivelmente, por uma sensação de desconforto latente. 

O livro avança, então, até ao final da primeira parte e, a partir daí, o enfoque passa a ser na personagem de Laura. No seu percurso pessoal. Laura tem uma relação amorosa com Benjamim, mas esta não é bem um grande romance… é mais uma "amizade colorida". Não são bem namorados, mas também não são bem amigos. A sua relação mantém-se apenas à superfície, trazendo consigo, claro, uma certa felicidade, mas uma felicidade que é apenas e só isso mesmo: superficial. E será esse tipo de relação que nos deixa verdadeiramente completos e realizados?

Espiga, de Bernardo Majer - Polvo
A vida, por muito boa que seja, traz sempre consigo uma boa dose de coisas menos boas, menos agradáveis, menos positivas. Tal como um arranjo floral que, para além de ter as flores, também tem a verdura e as espigas. As flores até podem ser a coisa que no arranjo floral mais recebe destaque para cativar a atenção do cliente, mas o que é certo é que nunca teremos apenas as flores. Como canta Rui Veloso, em mais uma bela letra de Carlos Tê, “todos temos um lado lunar” e é, também, sobre isso que versa este Espiga. Todos nós somos belos arranjos florais mas que, lá mais para dentro, de forma mais oculta, também temos verdura e espiga. Coisas que não sendo forçosamente horríveis - afinal de contas, se todos as temos, devíamos saber aceitá-las melhor nos outros ou até mesmo em nós próprios, não? - tiram algum do encanto (superficial) com que observamos os outros à nossa volta e com que nos deixamos observar. 

Dito assim, Espiga pode parecer uma obra desencantada ou pessimista mas, hey!, esta foi apenas a minha interpretação. Bernardo Majer é neutro e lato o suficiente, para "passar a bola" ao leitor e dizer-lhe: “faz o que quiseres com estas fotografias de toda uma geração que não tirei com uma lente fotográfica, mas com papel e lápis, através de pranchas e vinhetas".

A pecar em alguma coisa - e se é que isto se pode considerar como "pecado" - Espiga (e também Estes Dias, já agora) só peca no facto de os relatos do autor serem sempre muito latos e neutrais. Não há uma ajuda à reflexão do leitor. Essa, a reflexão, fica ao critério de cada um. Se as histórias de Bernardo Majer nos revelam uma aptidão escondida do autor, essa não será a de filósofo, de sociólogo ou sequer de um teórico… essa aptidão é a de fotógrafo. Majer fotografa a realidade millennial através das suas breves histórias em banda desenhada. Sem julgamentos, sem conclusões, sem teorias, ficando, depois, a tarefa de interpretar esses retratos da sociedade ao critério e olhar de cada um.

Espiga, de Bernardo Majer - Polvo
Em termos de desenho, o autor mantém o mesmo registo de Estes Dias, embora o seu traço tenha um aspeto diferente, com as linhas a serem menos claras e nítidas, parecendo ter sido feitas com lápis de cera. Algo semelhante ao que o autor também nos deu recentemente no seu Sermão de Santo António aos Peixes, editado pela Levoir. Pessoalmente, prefiro o traço mais limpo e conciso que o autor utilizou em Estes Dias, mas também reconheço que esta nova opção estilística do autor lhe dá, quiçá, mais singularidade e originalidade. Trata-se, portanto, de uma questão de mero gosto pessoal, porque o que é certo é que Bernardo Majer continua a dar-nos um desenho personalizado, moderno e que se coaduna perfeitamente com o tipo de histórias aqui presentes.

A edição da Polvo é em capa dura baça, com papel brilhante de boa qualidade no miolo do livro. O trabalho é bom, se bem que me pareceu haver uma certa diferença entre os tons de amarelo apresentados nas páginas promocionais e os tons de amarelo das páginas do livro.

Concluindo, Bernardo Majer sedimenta, pois, com este Espiga, a sua "voz de autor", ficando bem patente que o seu trabalho é fruto de um tempo e de um espaço próprio e que - não só por isso, mas também por isso - se destina especialmente para essas mesmas pessoas suas contemporâneas. É "O escritor" millennial e para os millennials - mas não só, claro está - trazendo nas suas histórias as preocupações, as vivências e as dores de crescimento que todos os millennials têm - e que nos quais eu também me incluo. Talvez por isso, acredito que nem toda a gente consiga, ou saiba, apreciar convenientemente as suas histórias. Mas quem o faz, tem em Espiga um bom reflexo de toda uma geração em várias páginas de banda desenhada.


NOTA FINAL (1/10):
8.7



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Espiga, de Bernardo Majer - Polvo

Ficha técnica
Espiga
Autor: Bernardo Majer
Editora: Polvo
Páginas: 80, a duas cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17,3 x 24,6 cm
Lançamento: Maio de 2024

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Bernardo Majer e Polvo estão de volta!


Autor e editora regressam ao lançamento de banda desenhada original! O novo livro de Bernardo Majer, intitulado Espiga, será lançado no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja!

Bernardo Majer, que recentemente publicou, em parceria com Pedro Vieira de Moura, na coleção Clássicos da Literatura em BD da Levoir, a obra Sermão de Santo António aos Peixes, tem um novo livro que será lançado através da editora Polvo, já depois desta ter publicado os seus celebrados livros Estes Dias (que arrecadou mesmo o Prémio Melhor Obra Portuguesa nos Prémios da Amadora BD) e Toutinegra, em parceria com André Oliveira.

Por tudo isto, e por admirar o trabalho do autor, estou muito curioso com este lançamento!

Nota ainda para o facto de a editora Polvo estar de volta à edição de banda desenhada, depois de vários meses sem lançar nenhum livro.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Espiga, de Bernardo Majer

Abel viaja para um festival literário onde conhece Laura, uma jovem escritora que o distrai da sua penosa realidade doméstica. 

Laura tenta equilibrar a relação conturbada com a mãe e o romance tóxico com Benjamin, um encenador charmoso. 

Abel e Laura têm insónias.

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Ficha técnica
Espiga
Autor: Bernardo Majer
Editora: Polvo
Páginas: 80, a duas cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17,3 x 24,6 cm
PVP: 13,60€

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Sermão de Santo António aos Peixes ganha versão em Banda Desenhada!


Já chegou às livrarias o novo livro da coleção dos Clássicos da Literatura Portuguesa em BD, da Levoir e da RTP!

Desta vez, estamos perante a adaptação para banda desenhada do Sermão de Santo António aos Peixes, de Padre António Vieira.

Este é o terceiro lançamento desta coleção e volta a trazer-nos Pedro Vieira de Moura na adaptação da obra original, que já tinha sido o argumentista de a Mensagem, de Fernando Pessoa. As ilustrações deste Sermão de Santo António aos Peixes ficaram a cargo de Bernardo Majer (autor de Estes Dias e de Toutinegra).

O livro já se encontra disponível em livraria.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa e com algumas imagens promocionais.

Sermão de Santo António aos Peixes, de Pedro Vieira de Moura e Bernardo Majer

A 13 de Junho de 1654, dia de Santo António, o Padre António Vieira prega no Maranhão, Brasil, o Sermão de Santo António aos Peixes, obra que a Levoir e a RTP editam a 2 de abril.

O autor, Padre António Vieira, foi missionário, teólogo, diplomata e orador, nasceu em Lisboa, em 1608. Em 1614, foi para o Brasil com a família, onde mais tarde ingressou no Colégio dos Jesuítas de Salvador, Baía. Foi ordenado padre, tendo iniciado a sua carreira de pregador em 1633.
Voltou a Portugal, onde participou ativamente na vida política, colocando-se em defesa dos cristãos-novos e despertando o ódio da Inquisição, o que resultou na sua prisão. É considerado o principal autor do barroco de Portugal e do Brasil. Grande orador, pregava com eloquência para índios, brancos, negros, brasileiros, africanos, portugueses, dominadores e dominados. Os seus sermões, apesar de quase sempre direcionados à pregação do cristianismo, também serviram às causas políticas do seu tempo, como a defesa do índio e da colónia.

O Sermão de Santo António aos Peixes, foi proferido na cidade de São Luís do Maranhão, na sequência de uma disputa com os colonos portugueses no Brasil. constitui um documento surpreendente de imaginação, habilidade oratória e poder satírico do Padre António Vieira. Com uma construção literária e argumentativa notável, o sermão tem como objetivo louvar algumas virtudes humanas e, principalmente, censurar com severidade alguns vícios dos colonos.

O Sermão de Santo António aos Peixes, faz parte das leituras do 11º ano.~

Pedro Vieira de Moura, argumentista deste livro, de Mensagem e também de Os Lusíadas, é docente (presentemente Escola Superior de Arte e Design-Caldas da Rainha, Universidade do Algarve, Escola Superior Artística do Porto e Ar.Co), investigador académico, crítico, ensaísta, documentarista, comissário de exposições e galerista, semi-editor e lojista ocasional.

A banda desenhada é da autoria do ilustrador/designer Bernardo Majer, nascido em 1990. Bernardo Majer tirou a licenciatura de Design de Comunicação na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, e trabalha como designer gráfico na VMLY&R Branding desde 2014. Foi vencedor da Melhor Obra de Banda Desenhada de Autor Português no Festival Amadora BD em 2022.

Para o dossier pedagógico foi escolhido o Professor Dr. João Paulo Braga investigador do Centro de Estudos Filosóficos e Humanísticos, Universidade Católica Portuguesa.

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Ficha técnica
Sermão de Santo António aos Peixes
Autores: Pedro Vieira de Moura e Bernardo Majer
Adaptado a partir da obra original de: Padre António Vieira
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
PVP: 15,90€

quarta-feira, 13 de julho de 2022

Análise: Estes Dias

Estes Dias, de Bernardo Majer - Polvo

Estes Dias, de Bernardo Majer - Polvo
Estes Dias, de Bernardo Majer

Estes Dias marca a estreia de Bernardo Majer enquanto autor completo de banda desenhada, assegurando o argumento e as ilustrações. E, diga-se em abono da verdade, que bela estreia é!

Depois de ter sido o ilustrador de Toutinegra, com argumento de André Oliveira, e de mais algumas aventuras em histórias curtas ou enquanto colorista, Este Dias representará para Bernardo Majer a sua grande afirmação enquanto autor de banda desenhada.

O livro é uma antologia com seis histórias independentes entre si, mas que, de algum modo, têm em comum o facto de serem pequenos e breves retalhos da vida contemporânea. Da exata maneira que ela é: quotidiana, genuína, simples e, por oposição, totalmente complexa.

Do género slice of life, Bernardo oferece-nos, em cada uma destas seis histórias, um pouco da vida de alguma personagem, sendo que cada história tem como título um mês do ano, começando com Julho e terminando com Dezembro. Não quer dizer que haja uma conclusão ou um fim para cada uma destas histórias. Mas também não quer dizer que isso não exista. Logicamente, em cada história, que é constituída por apenas algumas páginas, não temos aquela narrativa convencional, de introdução, desenvolvimento e conclusão, mas antes um breve vislumbre a vivências alheias. Como se nos fosse dada a hipótese de bisbilhotar um pouco da vida de um outro alguém.

Bernardo Majer parece saber ambientar-se muito bem neste género já que, na minha opinião, cada uma destas histórias funciona de forma natural, sem parecer que o autor nos está a querer, permitam-me a expressão, “martelar” à força alguma ideia. Pelo contrário, ficamos mais com a ideia que o autor soube, qual fotógrafo da realidade, captar bem a essência de um conjunto de personagens verosímeis do nosso dia-a-dia, optando apenas por nos convidar a conhecer a sua realidade. A sua caminhada. E as dores inerentes à mesma.

Estes Dias, de Bernardo Majer - Polvo
O intuito do autor não estará, portanto, em contar-nos uma história, mas antes em oferecer-nos um convite à reflexão por observação. Para que nos outros nos vejamos a nós mesmos. Como se de um espelho se tratasse. E é por isso que, mesmo sendo histórias com personagens que aparentemente não têm qualquer ligação entre si, temos, por oposição, o construto de uma personagem maior que encaixa características e comportamentos dos homens e mulheres deste milénio. Como se o conjunto de todas as personagens permitissem que formássemos uma personagem-maior, assente na contemporaneidade. Todas as personagens se mostram, por isso, absortas nas suas vidas, quase sempre mundanas, mas, ao mesmo tempo, únicas e singulares. Mesmo que essa singularidade esteja envolta na matriz contemporânea da vida. Lá está, há aqui uma dicotomia. Por um lado, somos todos muito únicos e originais pois "ninguém é igual a ninguém". Por outro lado, somos todos muito mais parecidos uns com os outros do que aquilo que gostamos de admitir. Os obstáculos, em maior ou menor número, acabam por ser muito parecidos.

Portanto, Bernardo Majer não está interessado em dar-nos as respostas nestas suas seis histórias. Propõe-nos apenas alguns caminhos de interpretação. Mas, depois, fica à nossa consideração o caminho de interpretação que escolhemos.

Temas como a entrada no mercado de trabalho e todas os desafios inerentes a isso. Um divórcio visto pelos dois filhos adolescentes. As relações amorosas que pareciam destinadas a acontecer desde o início, mas que, por circunstâncias naturais da vida, acabaram por não acontecer. As relações que têm que terminar levando consigo uma enorme parte de nós. Ou, até mesmo, os momentos de auto-reflexão que todos nós fazemos - que por vezes até nos deixam em baixo - e que acabam por ocorrer na mais inesperada situação: numa passagem de ano, por exemplo.

Enfim, falando um pouco de cada uma das histórias, mas tendo o cuidado de não falar em demasia das mesmas, estas são as “fatias” que Bernardo Majer nos convida a ruminar. O discurso quase sempre tem monólogo/narração onde estará a maior profundidade da reflexão que nos é dada, enquanto que os diálogos muito verosímeis entre personagens nos revelam conversas de circunstância. Aquelas que passamos mais tempo a fazer.

Estes Dias, de Bernardo Majer - Polvo
Em termos de ilustração, a obra também parece ser de afirmação para o autor já que, a meu ver, Bernardo Majer consegue aqui um estilo de ilustração personalizado e extremamente eficaz. Não serão desenhos que nos deixarão de boca aberta devido ao seu virtuosismo técnico, mas também não me parece que seria esse o objetivo do autor com aquilo que nos procura oferecer. 

Com efeito, a ilustração é moderna, adulta, bela e não falha, em momento algum, no momento de nos dar a sentir algo. A narração é, pois por isso, muito fluída e direta. Há pequenas variações no estilo de desenho ao longo das seis histórias, em que o traço aparece mais ou menos carregado, dando a ideia que há um processo digital, maior ou menor, na forma como a arte final foi preparada, mas, mesmo assim, a harmonia gráfica é mantida de uma história para outra.

Outra questão a notar é que há sempre uma paleta de cores que vai variando ao longo das histórias. Ou é o azul que predomina, ou o amarelo, ou o verde ou o próprio preto. Isso dá uma sensação de mudança suave. Parece-me que as escolhas das cores foram feitas de modo algo aleatório, mas foi uma boa escolha diferenciadora por parte do autor.

A bela capa – e, já agora, bela contracapa, também – deste livro está belíssima. Belas cores, belo arranjo gráfico, bela ilustração. Tudo feito de forma muito harmoniosa e elegante e que espelha bem o próprio conteúdo da obra. Coisa que nem todas as capas de livros de banda desenhada conseguem fazer.

A edição da Polvo é em capa dura, com bom papel, com a quantidade certa de brilho. Boa encadernação e boa impressão, também. Tudo bem feito, portanto.

Em suma, Estes Dias é uma bela surpresa que me deixou muito satisfeito. Com um registo muito próprio, despretensioso, até, na forma como nos apresenta esta antologia de seis histórias baseadas nos dramas do quotidiano que inundam todas as nossas vidas – quer o admitamos ou não – Bernardo Majer acerta em cheio na forma, no ambiente, nos diálogos e no registo gráfico. Não tenho dúvidas que este é um dos melhores livros de banda desenhada portuguesa do ano! Obrigatório conhecer.


NOTA FINAL (1/10):
8.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Estes Dias, de Bernardo Majer - Polvo

Ficha técnica
Estes Dias
Autor: Bernardo Majer
Editora: Polvo
Páginas: 80, a preto e branco e a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 24,5 x 17,5 cm
Lançamento: Junho de 2022

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Polvo prepara-se para lançar um novo livro!



Chama-se Estes Dias e é da autoria de Bernardo Majer, que já coloborou com André Oliveira enquanto ilustrador de Toutinegra, também lançado pela Polvo.

A obra será apresentada no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, amanhã, sábado, dia 28, pelas 15h15, e terá uma exposição dedicada a ela e a Toutinegra, no certame.

O livro deverá chegar às livrarias na segunda quinzena de Junho. 

Devo dizer que estou bastante curioso com este trabalho.

Mais abaixo, deixo-vos algumas imagens promocionais e sinopse da obra.

Estes Dias, de Bernanrdo Majer

Carolina vê-se envolvida com um homem perigoso, de intenções duvidosas. Rui sente-se perdido com o anúncio do divórcio dos pais. Sofia deixa-se encantar pelo namorado de uma amiga, E Flor é intolerante à lactose.

Estas são algumas das histórias que compõem “Estes dias”, uma antologia de seis Bandas Desenhadas que falam sobre monotonia, relações e dores de crescimento na vida moderna.

Depois de “Toutinegra”, com argumento de André Oliveira, Bernardo Majer aventura-se aqui, pela primeira vez, como autor completo.


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Ficha técnica
Estes Dias
Autor: Bernardo Majer
Editora: Polvo
Páginas: 80, a preto e branco e a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 24,5 x 17,5 cm
PVP: 13,90€

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Análise: Toutinegra



Toutinegra, de André Oliveira e Bernardo Majer

Toutinegra é uma banda desenhada publicada pela editora Polvo e oferece-nos uma história verdadeiramente madura, maravilhosamente escrita por André Oliveira e curiosamente ilustrada por Bernando Majer. E à qual os leitores portugueses de banda desenhada – e não só – deviam dar uma oportunidade. Certamente, a grande maioria desses leitores ficaria maravilhada com esta obra. 

A necessidade de pertença de alguém que, sem saber a sua origem, consegue, ainda assim, arriscar que não faz parte daquele lugar nem daquelas gentes, é o mote inicial com que Toutinegra nos brinda. E se, aparentemente, ao folhearmos desprendidamente o livro, ficamos com a ideia de que se trata de uma história sobre crianças, diria que, na verdade, após lermos o livro com atenção, percebemos que é uma história sobre adultos, que já foram crianças e que cujas vivências não mais os largaram. Não é, contudo, um livro saudosista no sentido positivo e alegre da palavra, que remete para os dias belos passados na infância. Sem querer revelar muito da trama aqui presente, diria que o tipo de saudosismo que emana desta obra é aquele referente à perda de algo bom na infância e a forma como isso nos molda e confina o modo de ser, na vida adulta. Não mais somos a mesma coisa depois de perdermos algo que fazia (tanto) parte de nós. Isto já foi dito muitas vezes, por muitas pessoas, em muitos livros, filmes e canções mas há formas e formas de o dizer e Toutinegra, dá-nos a sua própria visão. Profunda, triste mas que, no derradeiro final, deixa entrar uma luz de esperança. Uma redenção.

Toutinegra
reveste-se de uma sensibilidade que, infelizmente, não é tão comum assim em banda desenhada. Uma sensibilidade que nos toca lá no fundo, que nos tira o sorriso superficial que temos na cara, deixando-nos com um nó na garganta. André Oliveira é exímio no uso da palavra, dando-nos um texto simples e profundo, que nos faz pensar e refletir sobre a vida, sobre os sonhos, sobre as vivências passadas, as raízes, as memórias e a ausência de um tempo que já não volta a ser.

A história apresenta-nos duas crianças, Pedro e Adelaide que vivem em Moinho, uma isolada e desabitada aldeia do interior do país. São as únicas crianças que frequentam a escola e, também por isso, são amigos inseparáveis. Mas claro, mesmo estando confinadas a um local tão recôndito e particular, ambas têm origens e famílias muito diferentes. Pedro apenas tem mãe – Dona Luz, a mulher maluca da aldeia – e Adelaide, mesmo tendo um pai com grave doença, tem uma família dita mais normal e abastada. Pedro é como que o enigma, uma pergunta sem resposta, da qual apenas se pode especular. Já Adelaide é um milagre da vida – pois nasceu de pais já algo idosos. Ela é, portanto, uma luz para eles e para a própria aldeia onde vivem.

A história assume depois, uma dimensão do universo fantástico, com o aparecimento de uma criatura, com quem as personagens começam a esgrimir argumentos e questões sem resposta. Esta figura apresenta-se como que uma consciência carregada de negritude que as crianças começam a ganhar da vida que as rodeia.

O que é maravilhoso neste livro é a forma inteligente e sensível como André Oliveira nos embala, ao sabor e ritmo das suas palavras, construindo uma história que parece levar a um sítio, mas que, à medida que a vamos desvendando, nos leva a um outro caminho. Quiçá menos fantasioso, mas com uma violência emocional cortante. 

O estilo de ilustração aqui presente encaixa bem na narrativa, sendo bastante bem conseguido. Com um traço pueril e linear, Bernando Majer apresenta-se em grande estilo na banda desenhada portuguesa. E embora o seu estilo seja  naïf e infantil na ilustração, com as personagens a fazerem lembrar-me a saudosa série infantil televisiva de Tom Sawyer, o autor soube munir as suas ilustrações de um processo de colorização graciosa que em muito contribui para um resultado bonito de se observar. Diria até, que o seu desenho sem estas cores não seria tão cativante, nem as suas cores utilizadas num estilo de ilustração mais detalhado e desenvolvido, teriam, presumivelmente, um resultado tão agradável. O seu signature style, acaba mesmo por depender em muito das cores que são utilizadas de forma leve e bonita, através da aplicação de aguarelas em tons muito suaves. É um livro bonito e com uma identidade muito própria na parte das ilustrações. Talvez este tipo de ilustração não agrade a toda a gente mas, pelo menos para mim, funciona muito bem, quando aplicado à narrativa construída por André Oliveira.

Em termos de edição, a Polvo oferece-nos um bom produto, com uma (bonita) capa dura. A meu ver, talvez o tipo de papel brilhante que aqui foi utilizado não fosse o mais indicado. Olhando para a arte de Bernardo Majer e para o próprio cariz poético da obra, diria que um papel baço funcionaria melhor. Mas isso é um detalhe porque a edição da Polvo, repito, está bem conseguida.

Em conclusão e em poucas palavras: Toutinegra é uma obra fantástica que merece ser conhecida e que consolida, ainda mais, André Oliveira como um dos melhores argumentistas de banda desenhada em Portugal.


NOTA FINAL (1/10):
8.9


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
Toutinegra
Autores: André Oliveira e Bernardo Majer
Editora: Polvo
Páginas: 96, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Novembro de 2019