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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Análise: Bug - Livro 4

Bug - Livro 4, de Enki Bilal - Arte de Autor

Bug - Livro 4, de Enki Bilal - Arte de Autor
Bug - Livro 4, de Enki Bilal

Foi ainda no final de 2025 que a Arte de Autor nos fez chegar o quarto volume de Bug, obra na qual o conceituado autor franco-jugoslavo Enki Bilal continua a desenvolver uma das mais ambiciosas e intrigantes propostas de ficção científica da banda desenhada europeia. O que deve ser motivo de felicidade para alguns dos leitores portugueses que, por vezes, me dizem que gostariam de ver mais BD de ficção científica a ser editada por cá.

Depois de ter lido os três primeiros tomos de forma consecutiva há já algum tempo, quando deles falei na análise que aqui publiquei, confesso que estava curioso para perceber para onde é que o autor iria conduzir a história com este quarto tomo. A resposta, como é habitual em Bilal, é simultaneamente fascinante e algo desconcertante.

Bug - Livro 4, de Enki Bilal - Arte de Autor
Neste Livro 4, Kameron Obb continua a ser o homem mais procurado do planeta. Afinal de contas, desde o grande bug informático global que apagou toda a informação digital do mundo, Obb tornou-se uma espécie de "arquivo vivo" da humanidade. Enquanto governos, organizações e grupos de toda a espécie tentam capturá-lo ou, pelo menos, manipulá-lo, o protagonista procura manter contacto com a sua filha Gemma, que continua envolvida numa teia de acontecimentos cada vez mais complexa e perigosa.

A grande novidade deste álbum reside, no entanto, na forma como Bilal procura aprofundar a própria natureza do bug. Até aqui podíamos encarar o fenómeno sobretudo como uma gigantesca catástrofe tecnológica. Neste quarto tomo, o autor parece querer elevar a questão para um plano mais existencial, já que o referido bug deixa de ser apenas um problema informático para assumir contornos que tocam conceitos como consciência, transcendência, divindade e evolução. Se já era uma história complexa, torna-se ainda mais complexa com este quarto tomo.

A mente de Obb é então invadida por forças que parecem ultrapassar a compreensão humana, e a sua sanidade começa gradualmente a deteriorar-se. A sensação é a de que o protagonista se encontra preso entre o homem que era e algo completamente novo que começa a emergir dentro de si.

Bug - Livro 4, de Enki Bilal - Arte de Autor
Tal como já acontecia nos tomos anteriores, Bilal continua a apresentar ideias extremamente estimulantes, devo dizer-vos. Continua a agradar-me bastante o seu olhar pouco otimista sobre o futuro das nossas sociedades. O autor explora de forma muito interessante esta distopia assente numa dependência tecnológica da humanidade, a perda da memória coletiva e a forma como os seres humanos delegaram grande parte daquilo que são às máquinas que criaram. No tempo corrente, em que a IA parece estar a entrar em todos as áreas possíveis da atividade humana, não poderia ser um tema mais relevante.

Como tal, e mais do que nunca, Bug parece interessado em refletir sobre a relação entre a humanidade e as suas próprias invenções. Entre a consciência humana e aquilo que poderá vir depois dela. São temas extremamente ricos, diria.

O problema é que, paralelamente a estas ideias fascinantes, a narrativa continua a sofrer de algumas das limitações que já me tinham incomodado nos volumes anteriores. A trama é densa, complexa e, por vezes, excessivamente fragmentada. Existem momentos em que parece que Bilal toma decisões narrativas quase por impulso, introduzindo conceitos ou situações que surgem de forma algo arbitrária.

Bug - Livro 4, de Enki Bilal - Arte de Autor
E essa sensação de dispersão acaba por ser ainda mais visível neste quarto tomo. Confesso que me senti mais perdido durante a leitura do que tinha acontecido anteriormente. Em parte, reconheço que isso pode dever-se ao facto de eu ter lido os três primeiros livros de seguida, o que facilitou bastante a assimilação do universo e das múltiplas personagens da série. Agora, com um intervalo temporal maior entre leituras, senti algumas dificuldades em reencontrar todos os fios narrativos. Por essa razão, até recomendo que quem pretender mergulhar em Bug procure ler os vários volumes de forma relativamente próxima. É uma obra que beneficia claramente da leitura contínua, sobretudo porque Bilal não faz grandes concessões ao leitor e raramente perde tempo a relembrar acontecimentos anteriores.

Ainda assim, apesar da crescente complexidade e de alguma confusão narrativa, nunca senti que a série tivesse perdido totalmente o interesse. 

E falar de Bug continua a ser falar também dos desenhos do seu autor. E, nesse capítulo, pouco mudou. O trabalho gráfico de Enki Bilal permanece absolutamente singular e espetacular. Basta olhar para uma vinheta durante alguns segundos para identificarmos imediatamente a sua autoria. Poucos artistas possuem um estilo visual tão reconhecível e tão pessoal - o chamado signature style.

Bug - Livro 4, de Enki Bilal - Arte de Autor
As suas figuras humanas continuam a surgir envoltas naquela atmosfera fria, quase melancólica, que caracteriza grande parte da sua obra. Os tons azulados, os cinzentos e os jogos de sombra e luz criam páginas de enorme impacto visual. Mesmo quem não se deixar envolver totalmente pela história dificilmente ficará indiferente à beleza das ilustrações.

Dito isto, mantenho algumas reservas relativamente ao facto do autor continuar a recorrer com enorme frequência a grandes planos e a vinhetas muito amplas que, apesar de visualmente deslumbrantes, nem sempre contribuem para o avanço da narrativa.

A edição da Arte de Autor continua no mesmo nível dos restantes livros da série, apresentando capa dura baça, bom papel brilhante no miolo e boa encadernação, impressão e acabamentos.

Resumindo, este Bug - Livro 4 deixa-me com uma sensação muito semelhante à que já tinha retirado dos volumes anteriores. Continuo a considerar esta uma série interessante, inteligente e visualmente extraordinária. Contudo, também continuo a sentir que a história perdeu parte da força e da objetividade dos primeiros capítulos, afundando-se gradualmente numa complexidade que nem sempre resulta em maior profundidade. Felizmente, a imaginação do autor e a beleza das suas ilustrações continuam a ser mais do que suficientes para justificar a viagem. Mesmo que, por vezes, não saibamos exatamente para onde ela nos está a levar.


NOTA FINAL (1/10):
7.9



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Bug - Livro 4, de Enki Bilal - Arte de Autor

Ficha técnica
Bug - Livro 4
Autor: Enki Bilal
Editora: Arte de Autor
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 234 x 312 mm
Lançamento: Novembro de 2025

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Análise: Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia

Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon - Arte de Autor

Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon - Arte de Autor
Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon

Foi já durante o presente ano que a editora Arte de Autor publicou mais um volume da sua coleção dedicada à adaptação para banda desenhada dos clássicos de Agatha Christie. Esta é, relembro, a maior coleção - em número de volumes - da editora.

Desta vez, estamos perante a obra Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, do argumentista Frédéric Brrémaud (que desta feita assina o seu apelido com dois R's - não é erro da editora, descansem, é mesmo assim que o autor assinou este livro na sua edição original) e do ilustrador Alberto Zanon. Esta dupla tem-nos oferecido aquelas que considero as melhores obras desta coleção. E, mais uma vez, o trabalho de ambos é bastante meritório.

Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon - Arte de Autor
No caso em apreço, Hercule Poirot e o capitão Hastings estão de férias na Cornualha, onde conhecem a jovem Nick Buckley, uma proprietária de uma casa situada no topo de uma falésia. Nick afirma ter sobrevivido a uma série de estranhos "acidentes" que, segundo Poirot, são na realidade tentativas de homicídio. Poirot fica, então, convencido de que alguém pretende assassinar esta jovem mulher e decide protegê-la, investigando quem, entre os amigos e conhecidos que frequentam a casa, poderá ter um motivo para a eliminar. 

Como seria de esperar, tendo em conta que estamos perante uma obra extraída da mente intricada de Agatha Christie, à medida que a investigação avança Hercule Poirot depara-se com uma teia de mentiras, identidades ambíguas e interesses ocultos. E o caso torna-se ainda mais complexo quando ocorre uma morte que parece confirmar os piores receios do detective. Obviamente, Poirot consegue reunir pistas aparentemente insignificantes - daquelas que passam pelos nossos olhos sem que delas demos conta, mesmo sabendo de que se trata de uma obra de Agatha Christie - e consegue desmontar as falsas aparências que rodeiam os habitantes e hóspedes da Casa da Falésia. 

Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon - Arte de Autor

Brrémaud volta a conseguir adaptar bem o romance original para banda desenhada, mantendo a estrutura fundamental da obra original e preservando os seus elementos cruciais: os falsos indícios, que fintam os leitores; as suspeitas constantes, que vamos construindo enquanto lemos a obra; e a cuidadosa construção do suspense

Apesar da condensação narrativa, o leitor continua a ser convidado a observar pistas, formular hipóteses e tentar antecipar a solução antes da revelação final. E é precisamente essa participação ativa que torna a leitura particularmente satisfatória. É quase como se fosse um jogo, estilo escape room, que já sabemos que teremos que fazer, ainda antes de mergulharmos na leitura.

Não apreciei tanto o excesso da reprodução integral de correspondência entre personagens, mas também aceito que seria difícil abordar o assunto dessas cartas de outra forma num livro que apenas tem 64 páginas.

Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon - Arte de Autor
No plano gráfico, também Alberto Zanon volta a realizar um trabalho muito competente. O seu traço é claro, limpo, expressivo e acessível, favorecendo a legibilidade da narrativa. As personagens, mesmo sendo várias, distinguem-se facilmente entre si e as suas expressões faciais ajudam a transmitir emoções, aspeto particularmente relevante numa história assente em mentiras, disfarces e segundas intenções. Os cenários também constituem outro dos pontos fortes da obra. A recriação da Cornualha, da casa - quer vista de fora, quer vista de dentro, através dos seus elegantes interiores - bem como os jardins, contribui para uma forte sensação de época. 

Confesso que dei conta de, em algumas vinhetas, o desenho do autor parecer um pouco mais rápido e menos aprumado quando comparado com outros álbuns do autor. Não é nada que comprometa negativamente a nossa experiência de leitura, simplesmente faz com que este não seja o álbum com os melhores desenhos que o autor já fez para esta coleção.

A edição da Arte de Autor é em capa dura brilhante, com bom papel baço no interior. De resto, o trabalho de encadernação e impressão também está bem feito.

Em suma, Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia é mais uma adaptação sólida, elegante e respeitadora da obra de Agatha Christie. Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon voltam a conseguir equilibrar fidelidade e acessibilidade neste trabalho, como já o haviam feito noutras adaptações com que contribuíram para esta coleção.


NOTA FINAL (1/10):
8.4



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Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon - Arte de Autor

Ficha técnica
Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia
Autores: Frédéric Brémaud e Alberto Zanon 
Adaptado a partir da obra original de: Agatha Christie
Editora: Arte de Autor
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Fevereiro de 2026

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Análise: Brigantus #2 - O Picto

Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor

Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H.

Editado por cá no início de 2025, quando ainda não tínhamos perdido Hermann, um dos autores mais prolíficos da banda desenhada europeia, que viria a falecer já em 2026, este segundo capítulo de Brigantus, intitulado O Picto, encerra o último díptico da extensa carreira do autor.

Esta é uma história que nos leva à Britânia, ao coração da Escócia picta, numa altura em que o avanço das legiões romanas ameaça esmagar os últimos focos de resistência aí presentes. A narrativa continua a acompanhar Melo Brigantus, antigo soldado romano repudiado e expulso da legião, que havia encontrado refúgio entre os pictos, mas esse refúgio é apenas inicial, pois este homem parece ser persona non grata aonde quer que vá. 

Aliás, diria que esse é o cerne da questão: Brigantus é um homem dividido entre mundos opostos, alguém que não pertence verdadeiramente a lado nenhum. Um perfeito "outcast". Essa condição de excluído e de potencial traidor torna-se, pois, o principal motor dramático do álbum.

Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
O argumento desenvolve-se de forma muito direta, sem grandes adornos ou desvios narrativos. No fundo, estamos perante uma história sobre um homem rejeitado por todos aqueles que o rodeiam e que procura uma forma de redenção. A história funciona, sim, mas é algo direta em demasia, sem que haja grande profundidade no tema ou nas personagens.

Confesso que o primeiro tomo desta série, Banido, me deixou com a promessa de estarmos diante de algo mais especial. Havia elementos interessantes na construção do contexto histórico e na situação ambígua do protagonista, que pareciam apontar para um desenvolvimento mais marcante. No entanto, este segundo volume acaba por confirmar que Brigantus dificilmente figura entre os melhores trabalhos de qualquer um dos seus autores.

O argumento de Yves H. cumpre os mínimos exigíveis, mas raramente surpreende. Os acontecimentos sucedem-se de forma algo previsível e faltam momentos verdadeiramente memoráveis capazes de elevar a obra acima da média. Não me interpretem mal: a trama funciona e este livro até se lê bem, mas pouca coisa entusiasma. É uma leitura fluida, mas também algo esquecível. 

Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Ainda assim, reitero que gostei da opção de abandonar os cenários do faroeste que tantas vezes marcaram as colaborações entre Hermann e Yves H., pai e filho, em detrimento de um ambiente inspirado nas guerras entre romanos e pictos, o que permitiu a exploração - ainda que superficial - de um cenário, de uma cultura e de um conflito diferentes. 

O que se calhar ainda posso referir é que senti uma clara carga emocional associada à leitura deste álbum, por este ser um livro que serve, de certa forma, para nos despedirmos de Hermann, um dos maiores mestres da banda desenhada europeia. É certo que este não foi o último álbum feito por Hermann antes do seu falecimento. A última obra a sair foi Cartagena, que acredito que a editora Arte de Autor venha a publicar junto de nós, se bem que ainda não há nenhuma confirmação oficial nesse sentido. Seja como for, e tendo eu lido este segundo tomo de Brigantus já depois do desaparecimento de Hermann, foi com um certo sentido de nostalgia e agradecimento que fiquei pelo conjunto da sua obra. A série Comanche, em especial, marcou-me bastante enquanto leitor de BD, quando ainda era criança. 

Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Em termos de desenho, e em linha com o que vinha a acontecer já há alguns anos, sente-se que o autor estava menos inspirado e capaz neste Brigantus, com as suas ilustrações a evidenciarem uma perda de precisão e de exatidão. Certas proporções nas faces e corpos das personagens parecem estranhas, algumas perspectivas são construídas de forma pouco convincente e existe uma irregularidade gráfica que por vezes distrai da narrativa.

E as figuras humanas são, talvez, o exemplo mais evidente dessas fragilidades. Cabeças e corpos surgem frequentemente deformados, com traços por vezes excessivamente feios ou desadequados. Em vários momentos, as personagens parecem mal resolvidas e distantes do nível de excelência que outrora associávamos ao desenhador belga.

Curiosamente, esse mesmo lado grotesco acaba por funcionar melhor nas sequências mais violentas e viscerais deste Brigantus. As cenas de guerra, em concreto, até beneficiam dessa crueza expressiva, transmitindo uma sensação de brutalidade que encaixa bem no ambiente da obra. Gostei particularmente de alguns desses momentos de combate e também da sequência passada em alto-mar, uma das passagens visualmente mais conseguidas do álbum. E, claro, em termos de cores, Hermann manteve-se um mestre até ao fim dos seus dias. 

Mesmo assim, tenho que ser sincero e dizer que este Brigantus não é propriamente um trabalho que possamos considerar como memorável. Quer em termos narrativos, quer em termos de ilustração.

A edição da Arte de Autor mantém-se em linha com o volume anterior, apresentando capa dura baça, bom papel brilhante no miolo e um bom trabalho ao nível de impressão e encadernação.

Em suma, Brigantus #2 - O Picto é uma leitura competente, mas dificilmente memorável. A história nunca ultrapassa verdadeiramente os limites de um drama histórico simples e o desenho revela as debilidades de um autor já no ocaso da vida. Ainda assim, há algo de admirável na perseverança de Hermann, que continuou a trabalhar até aos seus últimos dias. Mesmo longe do seu auge, o mestre belga merece o respeito e a gratidão de todos os leitores pela extraordinária contribuição que deixou à banda desenhada europeia.


NOTA FINAL (1/10):
6.0


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Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor

Ficha técnica
Brigantus #2 - O Picto (2 de 2)
Autores: Hermann & Yves H.
Editora: Arte de Autor
Páginas: 586, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Fevereiro de 2025

quinta-feira, 23 de julho de 2026

As novidades da Arte de Autor para o segundo semestre de 2026!


Hoje é dia de olharmos para as novidades que a editora Arte de Autor prepara para o segundo semestre de 2026! Não são muitas as obras avançadas pela editora, por agora, mas são propostas bastante interessantes que refletem, acima de tudo, continuidade editorial com o trabalho que a Arte de Autor tem vindo a fazer nos últimos meses.

Acredito que possa haver ainda espaço para o lançamento de mais livros, mas, pelo menos por agora, são estas as obras confirmadas para o segundo semestre do ano.

E atenção que, no final deste artigo, há uma nota explicativa sobre duas das mais aguardadas obras da editora. Leiam tudo, por favor.

Eis, então, as novidades da Arte de Autor para o segundo semestre de 2026:

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Análise: Elric (Volumes 3 e 4)

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor
Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo

Foi com a publicação de O Lobo Branco e A Cidade Que Sonha, respetivamente os tomos 3 e 4, que a adaptação para banda desenhada da obra-prima de Michael Moorcock, Elric, por Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo, concluiu o seu primeiro arco narrativo, encerrando de forma particularmente satisfatória e convincente uma obra que já nos dois volumes iniciais tinha demonstrado uma enorme ambição artística e narrativa, conforme escrevi por alturas em que analisei esses dois livros.

Se esses primeiros dois tomos, O Trono de Rubi e Stormbringer, funcionaram sobretudo como uma introdução ao universo de Melniboné e ao conflito entre Elric e Yyrkoon, estes dois volumes finais deste primeiro arco elevam a escala da narrativa, aprofundando a tragédia do protagonista e conduzindo a história para um desfecho simultaneamente épico, melancólico e inevitável.

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor
Começando por vos falar de O Lobo Branco, neste tomo encontramos um Elric profundamente transformado pelos acontecimentos anteriores. Já não estamos perante o jovem imperador dividido entre o dever para com o seu povo e as suas convicções pessoais. Depois de passar um ano em alto mar, navegando pelos Reinos Jovens, Elric tornou-se agora numa figura quase mítica, um mercenário temido por muitos, cuja reputação cresce a grande velocidade. É especialmente interessante observar esta evolução, porque a narrativa explora a forma como o antigo soberano se vai afastando progressivamente da identidade que o definiu durante os livros anteriores. 

Em A Cidade Que Sonha, por sua vez, esta componente trágica que já se poderia antever no final do terceiro tomo, atinge o seu ponto máximo, com Elric a ter que enfrentar os seus maiores inimigos em batalhas épicas e extraordinárias, voltando à sua terra para reconquistar o que é seu por direito.

Os dois livros - aliás, todo o arco narrativo - aprofundam uma das características mais fascinantes da personagem que é a sua permanente luta interior. Elric continua a ser um herói profundamente atípico no panorama da fantasia, pois não é movido pela ambição, pela glória ou pela conquista. Pelo contrário, é uma personagem dorida e melancólica que é consumida pela dúvida, pela culpa e pela reflexão moral. E até mesmo quando Elric exerce uma violência extrema sobre os demais, existe sempre uma consciência crítica relativamente aos seus próprios atos. Essa dimensão oferece profundidade e maturidade à obra e talvez seja mesmo por esse motivo que esta história se mantém atual nos dias de hoje. Como o será nos dias do amanhã.

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor
Houve também uma outra coisa que me agradou nestes volumes que foi o aparecimento da personagem de Smiorgan, que se torna companheiro de viagem e luta de Elric. Bem sei que se trata apenas de uma personagem secundária, mas consegue ser relevante para a história, não só pelo papel que desempenha na progressão da narrativa, mas sobretudo pela forma como complementa a personalidade de Elric. Sendo o protagonista alguém naturalmente reservado, introspetivo e emocionalmente contido, a presença de Smiorgan introduz maior dinamismo, jovialidade e emoção às interações entre personagens. Há uma humanidade e uma leveza na sua presença que ajudam a equilibrar o tom frequentemente sombrio da narrativa. Que jogada de mestre a introdução desta personagem.

Mas é claro que o tema mais central em todo este ciclo, é a relação ambígua entre Elric, Stormbringer e Arioch. A espada negra ceifadora de almas continua a ser simultaneamente uma bênção e uma maldição, pois sendo uma fonte inesgotável de poder, por um lado, também inflige sempre a Elric um elevado a preço a pagar, por outro. Já o vilão Arioch mantém-se como uma presença constante, quase omnipresente, manipulando acontecimentos e conduzindo subtilmente Elric por caminhos que talvez nunca escolhesse livremente. Esta dinâmica cria uma tensão muito eficaz, uma vez que nunca é totalmente claro - pelo menos, para mim não é - onde termina a vontade do protagonista e onde começam as influências das forças sobrenaturais que o rodeiam.

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor
E, claro, temos ainda a bela amada de Elric, Cymoril, por quem o protagonista atravessa todos os mares que sejam necessários atravessar, mas que, curiosamente, tem um papel que pode surpreender alguns. E mais, não digo.

Sendo uma série de espadas e batalhas, uma coisa que aprecio especialmente nela é a maturidade narrativa da obra que, em vez de transformar a história numa mera sucessão de batalhas e confrontos espetaculares, tenha, também, um especial cuidado no desenvolvimento das implicações emocionais e filosóficas dos acontecimentos. As grandes revelações não servem apenas para surpreender o leitor... servem sobretudo para aprofundar o drama pessoal de Elric e o peso das suas escolhas.

Não li a obra original, mas daquilo que pude perscrutar, há nestes terceiro e quarto volumes uma maior independência na forma como a obra é adaptada. No entanto, essa liberdade parece sempre colocada ao serviço da narrativa e nunca em oposição ao espírito da obra original.

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor
E talvez seja mesmo esse um dos vários triunfos desta adaptação. É que adaptar não significa reproduzir mecanicamente. E isso é sentido até nas próprias declarações de Moorcock sobre esta banda desenhada. O grande feito passou por reapropriar a matéria-prima criada originalmente por Michael Moorcock para construir uma verdadeira banda desenhada, pensada para tirar partido das potencialidades específicas do meio. O resultado é uma narrativa fluida, moderna e visualmente impressionante, que sabe respeitar as bases da saga original sem ficar totalmente aprisionada por elas.

No plano gráfico, a qualidade da obra também se mantém em elevado nível. Tal como nos volumes anteriores, encontramos aqui uma obra visualmente magnífica, capaz de alternar bem entre a grandiosidade épica e a intimidade emocional das personagens. Quando a história exige escala, os desenhadores oferecem panoramas monumentais, cidades impossíveis, paisagens fantásticas, embarcações impressionantes e cenas de combate de enorme impacto. Mas quando o foco se desloca para as emoções das personagens, a expressividade dos rostos e das poses assume o papel principal.

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor
É igualmente digno de elogio o facto de uma equipa com tantos desenhadores ter conseguido preservar uma identidade visual tão consistente. Com tantos desenhadores no projeto "tinha tudo para correr mal", diria, mas a verdade é que, ao longo dos quatro volumes, a homogeneidade gráfica não é posta em causa, não havendo nunca a sensação de fragmentação ou de mudança brusca de estilo. Pelo contrário, todo o projeto apresenta uma coerência estética admirável, fruto de um evidente esforço coletivo e de uma visão artística partilhada. Vê-se que houve cuidado, logo de iníco, na preparação e concepção da obra.

As cores continuam também a desempenhar um papel fundamental, com a paleta utilizada a contribuir para reforçar a atmosfera simultaneamente gótica, melancólica e grandiosa da obra.

Em termos de edição, a Arte de Autor mantém os elevados padrões de qualidade já demonstrados nos volumes anteriores. Os livros apresentam capa dura, com textura aveludada e detalhes a verniz. No miolo, o papel utilizado é brilhante e de excelente qualidade. A impressão, encadernação e acabamentos também são de primeira linha. No final do terceiro volume, encontramos um dossier com oito páginas que reúne ilustrações, esboços e estudos de página. Por sua vez, o quarto volume, apresenta um caderno de extras, com cinco páginas, em que nos é dada bastante informação sobre Melniboné. por William Blanc. Os livros têm prefácios de Neil Gaiman e Jean-Pierre Dionnet.

Nota positiva, ainda, para o facto deste arco da série ter sido finalizado em meros dois meses, o que não é nada comum. Bem sei que a presença dos autores no Maia BD há de ter estimulado a editora portuguesa a não perder a oportunidade de editar o maior número possível de volumes. Mas, seja como for, a verdade é que os leitores portugueses puderam deitar mãos a uma mini-série de 4 volumes que foi completada em pouquíssimo tempo, o que é sempre positivo.

Sombria, gótica, violenta, bárbara, romântica, trágica e profundamente fantástica, esta adaptação de Elric afirma-se como uma das mais impressionantes obras de fantasia publicadas em banda desenhada nos últimos anos. Para os admiradores de Michael Moorcock, trata-se de leitura obrigatória. Para os fãs de fantasia épica em geral, é uma recomendação facílima. E até para todos aqueles que procuram uma BD capaz de combinar espetáculo visual, densidade temática e personagens memoráveis, esta série é uma proposta que não deve ser ignorada.


NOTA FINAL (1/10):
9.4



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Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor

Fichas técnicas
Elric #3 - O Lobo Branco
Autores: Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo
Editora: Arte de Autor
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 232 x 310 cm
Lançamento: Maio de 2026

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor

Elric #4 - A Cidade que Sonha
Autores: Julien Blondel, Jean-Luc Cano e Julien Telo
Editora: Arte de Autor
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 232 x 310
Lançamento: Maio de 2026

terça-feira, 14 de julho de 2026

Análise: Brigada de Costumes

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre

As duas editoras A Seita e Arte de Autor voltaram a editar, recentemente, e de forma conjunta uma obra de Zidrou, autor de quem as duas editoras portuguesas já por cá editaram Lydie, Emma G. Wildford, Naturezas Mortas e Amore. Desta feita, foi a vez de Brigada de Costumes chegar até nós. De todos os livros editados em parceria pelas duas editoras eu gostei bastante, mas devo até dizer que este Brigada de Costumes está entre os meus favoritos!

Há muito que considero o nome de Zidrou como sinónimo de qualidade. Sou um grande adepto de todos os seus livros e, felizmente, até já são muitas as suas obras que por cá foram editadas. Além das que referi acima, também os excelentes A Fera (A Seita), Verões Felizes (Arte de Autor), Shi e A Adopção (estes últimos da Ala dos Livros) me conquistaram totalmente.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
E não me fico por aí. É que Jordi Lafebre, ilustrador dos já supramencionados Verões Felizes e Lydie, bem como, enquanto autor completo, de Apesar de Tudo, Sou o Seu Silêncio ou Sou um Anjo Perdido, também é dos meus autores preferidos da atualidade.

Ora, juntar estes dois "pesos pesados" não só já se revelou um autêntico sucesso em Verões Felizes ou Lydie, como me fez ficar bastante empolgado para este Brigada de Costumes, bem antes de o ler.

Editado originalmente em 2014, em dois tomos isolados, a narrativa desta obra é ambientada na Paris dos anos 1930, onde acompanhamos o jovem inspetor Aimé Louzeau na sua integração na chamada "Brigada de Costumes", uma força especial da polícia francesa que procura investigar e anular a libertinagem dos cidadãos. 

Recém-chegado à polícia parisiense, Aimé aprende os meandros deste tipo de vigilância sobre as vidas privadas dos outros, especialmente das suas práticas sexuais, recolhendo todas as informações que possam depois ser utilizadas contra esses supostos prevaricadores da moral e da decência. A cidade parisiense que Zidrou nos apresenta é uma cidade fascinante, mas profundamente desigual, onde a corrupção e a hipocrisia convivem lado a lado com os discursos de moralidade. O habitual, diria.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
No entanto, o verdadeiro coração da narrativa está em Aimé Louzeau. Ele é filho de um padre excomungado, carregando consigo uma herança pesada que influencia a sua visão da autoridade, da religião e da justiça. Enquanto investiga os segredos dos outros, é obrigado a confrontar-se com os seus próprios fantasmas. Isto não esquecendo que, entretanto, quer o seu pai, quer a sua mãe, parecem sucumbir à saúde mental. Além disso, tudo muda na vida de Aimé quando este dá de caras com Eeva, uma prostituta exótica que o faz experenciar uma paixão nunca antes vivida. E é nessa dimensão íntima e mais pessoal da personagem de Aimé e de todas as outras que a rodeiam, que Brigada de Costumes se revela muito mais do que uma simples história policial.

A primeira coisa que me impressionou nesta obra foi a forma como Zidrou constrói as personagens. Não é que isso me tenha surpreendido, pois já conheço as valências do autor em conseguir despertar sentimentos de empatia perante as suas personagens profundamente humanas... mas diria que o seu trabalho volta a ser impressionante. Não há aqui heróis perfeitos nem vilões de cartilha. Existem pessoas. Homens e mulheres. E, como sabemos, as pessoas são frágeis, são contraditórias. Por vezes perdem-se e por vezes encontram-se. E são tão capazes de gestos de enorme generosidade, como de atitudes profundamente destrutivas. É esse lado humano que torna a leitura tão absorvente e que nos faz permanecer emocionalmente ligados a este livro. Assim que o terminei, voltei a lê-lo de enfiada.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
E diria que estamos perante uma das histórias mais tristes escritas por Zidrou. Ainda assim, o autor mantém aquela característica tão própria de introduzir uma espécie de luz ao fundo do túnel. Não se trata de um final feliz convencional. Ou de uma resolução que põe tudo em pratos limpos. Pelo contrário, existe neste Brigada de Costumes uma postura agridoce perante a vida que acaba por tornar os momentos alegres menos leves e os momentos dolorosos um pouco mais suportáveis. E poucos argumentistas conseguem trabalhar tão bem esta ambiguidade emocional.

Os temas abordados são particularmente densos. Saúde mental, religião, perversões sexuais, obsessão, solidão e hipocrisia institucional cruzam-se constantemente ao longo da narrativa. A própria polícia surge retratada de forma paradoxal, como uma instituição encarregada de combater práticas que, de uma forma ou de outra, também ajuda a perpetuar. 

Aimé Louzeau espelha bem a complexidade da história. Inicialmente surge como uma personagem extremamente cativante, quase ingénua, com quem simpatizamos imediatamente. Contudo, à medida que a narrativa avança, algo começa a mudar e a sua personalidade revela zonas mais sombrias, cada vez mais inquietantes, levando-nos a olhar para ele de forma diferente. É um retrato duro e, ao mesmo tempo, profundamente humano da incapacidade de controlar determinados impulsos.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
Confesso que a única reserva que tenho em relação à obra resulta precisamente da riqueza do material apresentado. Isto porque fiquei diversas vezes com a sensação de que havia aqui matéria suficiente para uma série bastante mais longa. Dira até de uns seis ou sete volumes. Ou mais. É que temos a questão das práticas da polícia e do ambiente boémio da prostituição; a relação amorosa de Aimé; a paixão que este nutre por Eeva; a questão da religião e do convento; a própria relação dos pais de Aimé; e até mesmo o flashforward que nos coloca em 1944 numa Paris bombardeada. É muita coisa para um díptico apenas. E não é que os principais acontecimentos da obra não fiquem devidamente bem encerrados -poruq ficam - mas sinto que havia riqueza para muito mais.

Nesse sentido, tenho a sensação de que Zidrou colocou demasiadas ideias em apenas dois volumes. Não porque a narrativa fique incompreensível ou desequilibrada, repito, mas porque existe tanta substância que acabamos por desejar mais espaço para explorar cada fio desta teia. 

Apesar disso, Brigada de Costumes permanece uma obra notável. Está impregnada de uma melancolia constante que acompanha o leitor do princípio ao fim. Há uma tristeza difusa em muitas das situações e personagens, mas nunca uma tristeza gratuita ou manipuladora. Tudo surge organicamente integrado na história e contribui para a sua autenticidade emocional.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
Relativamente aos desenhos de Jordi Lafebre, é impossível não destacar o extraordinário trabalho do autor. Uma vez mais. À partida, e tendo em conta a história que temos em mãos, até poderia pensar-se que o seu talento para histórias mais luminosas e optimistas entraria em conflito com uma narrativa tão sombria. Mas acontece precisamente o contrário. O desenhador entrega belas páginas, belas opções visuais e velos enquadramentos. As cores nos desenhos, a recriação da Paris dos anos 30, as roupas de época, a elegância dos cenários, os corpos femininos e, acima de tudo, a expressividade das personagens são absolutamente magníficos. 

A edição é em capa dura baça, de textura aveludada e com detalhes a verniz. No miolo, o papel é baço e de boa qualidade. Também de boa qualidade é a encadernação, impressão e acabamentos. A opção das editoras por lançarem a obra num único volume integral também foi a mais ajustada, claro.

Em suma, Brigada de Costumes é uma belíssima obra que em boa hora foi editada em Portugal. No final da leitura, fica uma sensação agridoce: a tristeza de abandonar estas personagens, por um lado, e a gratidão por termos podido acompanhá-las, por outro. E isso, para mim, é sinal de uma grande obra!


NOTA FINAL (1/10):
9.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor

Ficha técnica
Brigada de Costumes
Autores: Zidrou e Jordi Lafebre
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 cm
Lançamento: Junho de 2026

quarta-feira, 8 de julho de 2026

30 Bandas desenhadas para crianças e jovens (e adultos)


Se é verdade que é comummente aceite que, em Portugal, vivemos na atualidade uma das melhores fases - em termos de variedade, quantidade e qualidade - na edição de banda desenhada, o mesmo não é dito relativamente ao lançamento de banda desenhada destinada às crianças e aos jovens.

Com efeito, é frequente que oiçamos gente do meio da BD a dizer que "não são lançadas obras para um público infanto-juvenil em Portugal". Poderia ser verdade há uns anos, mas de há uns tempos (largos) para cá, com especial incidência nos últimos três ou quatro anos, é cada vez mais frequente e robusta a aposta em banda desenhada para as crianças e jovens. E isto já sem falar de mangás ou das bandas desenhadas mais clássicas como Astérix ou Lucky Luke. Portanto, achar-se que é pouca a BD infanto-juvenil editada por cá, no tempo presente, revela apenas uma coisa: desconhecimento sobre o meio.

E a prova cabal do que acabo de dizer é que me foi bastante fácil chegar à listagem de 30(!) obras de BD infanto-juvenil, editadas nos últimos dois/três anos, que vos trago hoje. Tive até que deixar outras obras relevantes de fora. É claro que poderemos sempre objetar que ainda há espaço para que se publiquem mais obras para este público. Sim, claro que há. Mas isso também é válido para qualquer mercado. Até o franco-belga.

Assim, este artigo tem a função de vos fazer conhecer boas obras de banda desenhada que poderão comprar para oferecer aos vossos filhos, aos vossos netos, aos vossas afilhados, aos vossos sobrinhos. A qualquer criança que vos rodeie, portanto. Pois, se queremos que a 9ª Arte prospere, também importa formar leitores. E cabe-nos a nós, leitores e amantes de banda desenhada, fazê-lo. Não contemos com grandes iniciativas do Ministério da Educação ou da Cultura...

E mesmo que não estejam rodeados de crianças, posso até dizer-vos que há nesta listagem de 30 obras, vários livros que, sendo para crianças ou jovens, também são leituras ricas para adultos.

Portanto, sem mais demoras, eis a minha lista de 30 Bandas desenhadas para crianças e jovens (e adultos):

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Análise: O Fantasma da Ópera

O Fantasma da Ópera, de Gaëtan e Paul Brizzi - A Seita e Arte de Autor

O Fantasma da Ópera, de Gaëtan e Paul Brizzi - A Seita e Arte de Autor
O Fantasma da Ópera, de Gaëtan e Paul Brizzi

Começo com uma afirmação muito clara e simples: cada vez, estou mais maravilhado com o trabalho dos irmãos Brizzi nas suas adaptações para banda desenhada de clássicos da literatura mundial. O Inferno de Dante tinha sido impressionante; Dom Quixote de La Mancha encheu-me as medidas; mas este O Fantasma da Ópera, recentemente publicado pelo esforço conjunto das editoras A Seita e Arte de Autor, é o melhor dos três! E sabendo que mais livros desta dupla virão no futuro - sendo que o próximo, a ser editado unicamente pela Arte de Autor, será Macbeth - não posso deixar de ficar feliz e com altas expectativas.

A história de O Fantasma da Ópera, originalmente escrita por Gaston Leroux e já amplamente adaptada a vários meios, é bastante conhecida: estamos no final do séc. XIX e a ação decorre na grandiosa Ópera de Paris, onde começam a suceder-se alguns acontecimentos inexplicáveis que despertam o medo e a curiosidade das pessoas afetas à opera, alimentando a crença generalizada na existência de um fantasma que habita os bastidores do teatro. A partir daqui, a história arranca para uma narrativa carregada de dramatismo e suspense.

O Fantasma da Ópera, de Gaëtan e Paul Brizzi - A Seita e Arte de Autor
No centro do enredo, encontra-se Christine Daaé, uma jovem cantora que ascende inesperadamente no mundo da ópera, quando tem que substituir Carlotta, a atriz/cantora estrela da peça em cena. As coisas correm tão bem na atuação de Christine, que esta passa a ser adorada pela audiência e começa a acreditar que um misterioso “anjo da música” a está, de algum modo, a guiar até ao sucesso. No meio disto tudo, reenconta-se com Raoul, um velho amigo de infância, que está apaixonado por si.

Com o tempo, descobre-se que o Fantasma é, na verdade, um génio musical com aparência deformada que vive isolado da sociedade. Ele apaixona-se obsessivamente por Christine e decide ajudá-la a tornar-se uma grande estrela. No entanto, quando Christine se apaixona por Raoul, o "fantasma" sente-se traído e passa a agir de uma forma cada vez mais possessiva e ameaçadora. Este conflito causado por este triângulo amoroso, que orbita entre o amor, a rejeição e o desejo de aceitação, acaba por conduzir a um clímax intenso e emotivo que define o carácter trágico da obra. Penso que a maioria dos que me leem saberá qual o clímax em questão, mas sob pena de haver alguém que não conheça a história original, não revelo mais nada sobre a mesma, para não criar qualquer tipo de spoiler.

Em termos de história, a adaptação de Paul e Gaëtan Brizzi mantém-se bastante fiel ao espírito e à narrativa original. Os irmãos Brizzi conseguem preservar a essência do conto de Leroux, respeitando tanto o seu tom sombrio como os elementos românticos que tornam a história intemporal. A narrativa, muito clássica na sua génese, está verdadeiramente espetacular nesta versão e nota-se o cuidado dos autores em transpor para o formato da banda desenhada toda a profundidade do texto original.

O Fantasma da Ópera, de Gaëtan e Paul Brizzi - A Seita e Arte de Autor
Confesso que fiquei verdadeiramente maravilhado com mais esta adaptação de um clássico da literatura para banda desenhada por parte dos irmãos Brizzi. Há uma sensibilidade muito própria na forma como os autores tratam o material original, equilibrando respeito e criatividade de forma exemplar.

E, claro, os desenhos são, sem dúvida, um dos pontos mais fortes desta obra. As ilustrações, a duas mãos, voltam a ser majestosas, num traço a lápis que, mesmo sendo bastante despido de truques, apresenta um aprimoramento tal, que nos deixa embasbacados perante tão belos desenhos. As personagens, num estilo realista, apresentam uma expressividade incrível, também. Os seus olhares, os seus gestos e as suas posturas transmitem emoções profundas, permitindo ao leitor conectar-se de forma imediata com as várias personagens desta história. Há uma humanidade muito bem captada em cada figura. 

Além de tudo isso, e ainda em matéria de desenho, também fiquei muito bem impressionado com o charme irresistível que os autores colocam nas roupas das personagens e nos próprios cenários. Os figurinos evocam a elegância da época e contribuem para a imersão na história, reforçando o carácter sumptuoso da obra. Um verdadeiro prato cheio que me encheu as medidas.

O Fantasma da Ópera, de Gaëtan e Paul Brizzi - A Seita e Arte de Autor
Permitam-me apenas uma pequena crítica, com base no meu gosto: apenas a ilustração da capa me deixou de pé atrás. Não é que o desenho não seja bom...claro que é. Mas não acho que a ilustração da capa faça justiça aos desenhos constantes no interior do livro: Christine é bem mais bonita do que a rapariga deslavada da capa, deixem que vos diga. E a presença da máscara do fantasma na capa, também poderia ter sido mais bem introduzida. Ao contrário de outros livros, cujas capas vendem vem o livro, não me parece que isso aconteça desta vez. Mas, admito, é uma questão de gosto pessoal. E o que importa é que o resto da obra é absolutamente fabuloso.

Em termos de edição, o livro é editado em grande formato, em capa dura baça. No interior, o papel é brilhante e de ótima qualidade. O trabalho a nível de impressão, encadernação e acabamentos é de bela qualidade, também. No final, há um belo caderno de extras, com 16 páginas, com esboços e ilustrações. Desta vez, as editoras Arte de Autor e A Seita optaram por não editar a obra com uma capa exclusiva para a loja online Wook. Houve uma coisa, não muito relevante, mas que me fez um pouco de "comichão": a existência de, por vezes, algumas margens de vinhetas que pareciam mal delimitadas. Na verdade, essa sensação resulta da utilização de legendas, sem linhas, que são colocadas muito perto da margem das vinhetas. É um micro-detalhe que não põe em causa a experiência de leitura, mas que, infelizmente, notei em bastantes momentos da leitura. Além disso, esta opção é dos autores e da edição original, e não da edição portuguesa.

Em suma, esta adaptação de O Fantasma da Ópera confirma de forma inequívoca o talento extraordinário de Paul e Gaëtan Brizzi na transposição de grandes clássicos para banda desenhada. Entre a fidelidade ao espírito original da obra, a força intemporal da história e a excelência de um desenho verdadeiramente majestoso, que nos deixa de queixo caído por inúmeras vezes, estamos perante uma edição que não só honra o legado literário como eleva a fasquia deste tipo de adaptações. Aliás, se todas as adaptações de clássicos da literatura para banda desenhada fossem deste gabarito, eu estaria sempre na fila da frente para as ler de enfiada!


NOTA FINAL (1/10):
9.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Fantasma da Ópera, de Gaëtan e Paul Brizzi - A Seita e Arte de Autor

Ficha técnica
O Fantasma da Ópera
Autores: Gaëtan e Paul Brizzi
Adaptado a partir da obra original de: Gaston Leroux
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 168, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 340 mm
Lançamento: Março de 2026