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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Análise: Um Feiticeiro de Terramar

Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham - Relógio D' Água

Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham - Relógio D' Água
Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham

Foi durante este mês de Abril que a editora Relógio D'Água editou a adaptação para banda desenhada de Um Feiticeiro de Terramar. A obra original é da autoria de Ursula K. Le Guin e o autor responsável por esta adaptação para a 9ª arte é Fred Fordham, que já nos havia dado as obras Mataram a Cotovia e Admirável Mundo Novo. Ambas adaptações para BD de obras de literatura e ambas editas por cá pela Relógio D' Água.

Embora conhecesse a obra Um Feiticeiro de Terramar e a autora Ursula K. Le Guin de nome, nunca tinha lido esta obra, nem nada da autora, pese embora o seu nome e o seu reconhecimento dentro da literatura de fantasia seja muito grande.

Um Feiticeiro de Terramar acompanha a infância e formação de Ged, um rapaz nascido na ilha de Gont que descobre possuir um grande talento natural para a magia. Inicialmente orgulhoso e impulsivo, Ged aprende feitiçaria com um mago local. Devido ao seu enorme potencial para as feitiçarias, Ged acaba por trocar os ensinamentos desse mago local por aqueles lecionados na Escola de Magos da ilha de Roke. Aí, estuda as leis profundas da magia, sobretudo a importância do verdadeiro nome das coisas. O que achei curioso é que a magia e controlo dos elementos da natureza, como o estado do tempo ou os comportamentos dos animais, por exemplo, advenha desse conhecimento da linguagem mágica, ou seja, da palavra que controla cada coisa que o mágico pretende controlar. Se um mágico procura controlar, por exemplo, um corvo, tem que saber a palavra mágica própria para que consiga controlar esse animal. É por isso que há muito que estudar e aprender naquela escola que, com as devidas distâncias, até nos pode remeter para a Hogwarts, de Harry Potter.

Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham - Relógio D' Água
Apesar do ensino rigoroso que é dado nesta Escola de Magos, o orgulho de Ged leva-o a cometer um ato proibido, pois ao tentar mostrar a sua superioridade sobre outro estudante, Ged liberta uma sombra maligna no mundo. E é a partir desse exato momento que a história se transforma numa jornada pessoal. Essa sombra passa a persegui‑lo, representando tanto um perigo real quanto o reflexo dos seus próprios medos e falhas. Ged vagueia pelo reino de Terramar, um local repleto de numerosas ilhas e muita água, tentando de alguma forma combater esta sombra das trevas que, sem querer, acabou por libertar. Mas qual será então o verdadeiro poder de um feiticeiro? O de fazer feitiços ou o do auto-conhecimento? Terão que ler a obra para responder a esta questão.

A adaptação de Fred Fordham traz consigo um tom meditativo, simbólico e íntimo bem explanado pela linguagem visual contida e poética das ilustrações. O traço de Fordham é deliberadamente simples e suave, evitando o excesso de detalhe. Esta escolha estética está intimamente ligada à filosofia da própria história, que valoriza o equilíbrio, a humildade e a moderação. De facto, os desenhos limpos e suaves de Fordham, bem como vários enquadramentos amplos, contribuem para uma leitura contemplativa, em perfeita sintonia com o carácter introspectivo da viagem de Ged.

Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham - Relógio D' Água
O uso da cor é outro elemento que merece menção. Predominam tons terrosos, azuis suaves e uma paleta contida, que evoca simultaneamente a naturalidade do arquipélago de Terramar e a sobriedade do universo mágico. Não tenho dúvidas de que é neste Um Feiticeiro de Terramar que Fordham se revela inspirado como nunca. Do ponto de vista visual, e tendo em conta os livros Mataram a Cotovia e Admirável Mundo Novo, é este o seu melhor trabalho. Ainda que, como um todo, eu tenha preferido o belíssimo Mataram a Cotovia.

Sendo Um Feiticeiro de Terramar uma obra com vários momentos de ilustração que achei arrebatadores, nem tudo é perfeito. É verdade que, por vezes, as personagens são pouco expressivas. Noutros casos, podem ser dificilmente reconhecíveis, o que fragiliza o fio condutor da narrativa. Também há alguns problemas com as cores das ilustrações quando os ambientes ilustrados são mais escuros, como no caso em que a ação decorre no interior de casas ou nas alturas em que o relato acontece de noite. Isto torna certas ilustrações algo ilegíveis, de tão escuras que ficam. Primeiro, ainda achei que a "culpa" de isto acontecer era da edição da Relógio D'Água, que tinha deixado as páginas muito escuras. No entanto, fui procurar páginas de edições estrangeiras e cheguei à conclusão de que acontecia o mesmo fenómeno. Ou seja, as imagens acabam por ser bastante escuras em vários momentos, o que é uma pena.

Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham - Relógio D' Água
Mesmo assim, nas vezes em que a ação decorre ao ar livre - e felizmente isso acontece na maioria das páginas da obra - Fred Fordham oferece-nos magníficas vistas, com vários momentos e imagens que ficam na nossa mente muito depois de fecharmos o livro. Imagino que, se daqui a alguns anos, alguém me falar deste livro, prontamente se formará na minha mente uma imagem do nosso Ged envolvo por verdejantes montes e/ou azuladas ondas marinhas. É um daqueles livros em que, em termos visuais, quando funciona, funciona muitíssimo bem... mas quando não funciona, também o faz de forma inglória.

De resto, a edição da Relógio D'Água apresenta-se sólida. A capa é mole, baça e com badanas. No interior, o papel utilizado é brilhante e de boa qualidade. A encadernação também está bem feita. Quanto à impressão - e tal como referi no parágrafo anterior - a mesma me parece boa, pois o facto de haver páginas demasiado escuras está mais relacionado com a obra original do que com a impressão portuguesa da obra.

Em suma, a adaptação de Um Feiticeiro de Terramar para banda desenhada é um exemplo notável de como um clássico literário pode ser transposto para outro meio sem perder identidade nem profundidade. O resultado é um livro belo, equilibrado e profundamente humano, que confirma Terramar como um espaço de reflexão sobre identidade, responsabilidade e maturidade. É uma obra que confirma que a fantasia pode ser silenciosa, séria e profundamente humana.


NOTA FINAL (1/10):
8.3


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham - Relógio D' Água

Ficha técnica
Um Feiticeiro de Terramar
Autor: Fred Fordham
Adaptação a partir da obra original de Ursula K. Le Guin
Editora: Relógio D'Água
Páginas: 288, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Lançamento: Abril de 2026

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Relógio D'Água regressa ao lançamento de BD!




A editora portuguesa Relógio D'Água prepara-se para lançar a sua nova aposta em BD que, desta vez, incide na obra Um Feiticeiro de Terramar. Trata-se da adaptação para banda desenhada do autor inglês Fred Fordham, a partir da obra original de Ursula K. Le Guin.

Esta é uma história de fantasia e magia que volta a trazer-nos o autor responsável por outras adaptações de obras da literatura para BD - igualmente publicadas pela Relógio D'Água - como Mataram a Cotovia ou Admirável Mundo Novo.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora e deverá chegar às livrarias a partir do próximo dia 20 de Abril.

Por agora, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais.
Um Feiticeiro de Terramar (Um Romance Gráfico), de Fred Fordham

Pela primeira vez como romance gráfico, Um Feiticeiro de Terramar, de Ursula K. Le Guin.

Ged, o maior feiticeiro de Terramar, era, na sua juventude, o imprudente Gavião. Sedento de poder e conhecimento, a sua curiosidade por segredos centenários libertou uma sombra terrível sobre o mundo. O livro narra a tumultuosa história da sua iniciação, como aprendeu a dominar palavras mágicas, domou um dragão antigo e desafiou a morte para restaurar o equilíbrio que perturbou.

Esta adaptação de Fred Fordham, com paisagens amplas e personagens minuciosamente construídas, entrelaça a escala cinematográfica do vasto mundo de Le Guin com um drama profundo e pessoal.

As ilustrações retratam o realismo e a rudeza deste universo, com a sua assinatura de profundidade refinada e atenção ao detalhe, trazendo uma nova perspetiva à obra-prima clássica de Le Guin, tanto para fãs de longa data como para novos leitores.


«Ursula K. Le Guin é um ícone literário.»
[Stephen King]


«Uma das grandes figuras da literatura do século xx.»
 [Margaret Atwood]


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Ficha técnica
Um Feiticeiro de Terramar
Autor: Fred Fordham
Adaptação a partir da obra original de Ursula K. Le Guin
Editora: Relógio D'Água
Páginas: 288, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
PVP: 24,00€

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Relógio D' Água nos últimos 5 anos!


Termina hoje o ciclo de TOPs 10 em que analisei a melhor banda desenhada editada nos últimos 5 anos em Portugal - período de existência do Vinheta 2020.

O objetivo destes TOPs foi demonstrar, aos cada vez mais seguidores deste site, as principais obras de BD que por cá foram lançadas por aquelas que considero terem sido as principais editoras de BD nos últimos 5 anos, em Portugal.

E hoje é altura de olhar para as melhores BDs que a editora Relógio D'Água editou por cá.

De todas as editoras que analisei, esta será aquela com menor produção em termos de banda desenhada. E também é verdade que, salvo algumas (boas) exceções, a aposta da Relógio D' Água tem sido em adaptações para banda desenhada de obras da literatura. Mesmo assim, essa produção já é grande o suficiente para um TOP 10 e é mesmo isso que hoje vos trago.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Faço aqui uma pequena nota sobre o procedimento: considerei séries como um todo e obras one-shot. Tudo junto. Pode ser um bocado injusto para as obras autocontidas, reconheço, e até ponderei fazer um TOP exclusivamente para séries e outro para livros one-shot, mas depois achei que isso seria escolher demasiadas obras. Deixaria de ser um TOP 10 para ser um TOP 20. Até me facilitaria o processo, honestamente, mas acabaria por retirar destaque a este meu trabalho que procura ser de curadoria. Acabou por ser um exercício mais difícil, pois tive que deixar de fora obras que também adoro, mas acho que quem beneficia são os meus leitores que, deste modo, ficam com a BD que considero ser a "crème de la crème" de cada editora.

Antes de avançar para o TOP 10 dedicado à Relógio D'Água, convido-vos ainda a (re)lerem os outros TOPs feitos para as restantes editoras:


Relógio D' Água


E agora sim, eis o TOP relativo à melhor BD editada pela Relógio D'Água nos últimos 5 anos.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Análise: Admirável Mundo Novo – Romance Gráfico

Admirável Mundo Novo – Romance Gráfico, de Fred Fordham - Relógio D'Água


Admirável Mundo Novo – Romance Gráfico, de Fred Fordham - Relógio D'Água
Admirável Mundo Novo – Romance Gráfico, de Fred Fordham

A editora Relógio d’Água lançou recentemente a adaptação para banda desenhada da obra-prima de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, escrita originalmente em 1932. À semelhança de um 1984, de George Orwell, ou de um Nós, de Zamiatine, esta é uma das distopias mais famosas da literatura mundial e, convenhamos, uma adaptação para banda desenhada era, quanto a mim, bem-vinda. O responsável por tal feito, é Fred Fordham, de quem a editora Relógio D’Água até já publicou Mataram a Cotovia, outra adaptação de um romance literário que, por acaso, me agradou muito.

Ora, dito tudo isto, estava bastante intrigado com este Admirável Mundo Novo pelas mãos e mente de Fred Fordham, já que sou um grande admirador do romance original de Huxley. E, com efeito, esta é uma adaptação que, mesmo podendo não ser perfeita, consegue bastantes feitos e honra a obra original.

A história passa-se num futuro distante onde a humanidade vive sob um regime totalitário que utiliza a biotecnologia, a engenharia genética e o condicionamento psicológico para manter o controlo social dos humanos. A obra aborda temas como a perda da individualidade, a manipulação do comportamento humano e a superficialidade das relações sociais num mundo claramente dominado pela tecnologia. Parece próximo do mundo em que vivemos? Sim, diria que sim. De facto, Aldous Huxley foi verdadeiramente visionário com esta obra escrita há quase 100 anos.

Admirável Mundo Novo – Romance Gráfico, de Fred Fordham - Relógio D'Água
O livro descreve uma sociedade altamente organizada e tecnologicamente avançada, na qual as pessoas são produzidas em massa em laboratórios, geneticamente modificadas e condicionadas desde o nascimento para pertencer a uma das várias castas sociais. Estas castas são rigidamente hierarquizadas, com os Alfas no topo, destinados a posições de liderança, e os Ípsilones na base, destinados a trabalhos braçais. A estabilidade social é mantida através do uso de uma droga chamada "soma", que proporciona prazer e alívio do stress sem efeitos colaterais negativos aparentes. A liberdade individual é sacrificada em nome da estabilidade e da felicidade superficial. As emoções são suprimidas e as artes, a religião e a filosofia são praticamente inexistentes, uma vez que poderiam gerar questionamentos e instabilidade.

Um dos temas centrais do livro é também o contraste entre o controlo totalitário exercido pelo Estado e a perda de liberdade individual. A sociedade descrita em Admirável Mundo Novo prioriza a estabilidade e o bem-estar coletivo, mas isso é alcançado à custa do suprimento da individualidade e da liberdade pessoal. Os cidadãos são, pois, condicionados a aceitar o seu papel na sociedade sem se poderem questionar. E se estiverem descontentes em algum dos seus dias, uma dose de “soma” fá-los-á ficarem automaticamente felizes com a vida.

A obra ainda levanta questões sobre o uso da tecnologia para controlar e desumanizar a sociedade e, também, a superficialidade de um consumismo sem travão por parte da sociedade moderna, já que os habitantes deste “admirável mundo novo” são incentivados a procurar prazer imediato e gratificação instantânea, evitando qualquer tipo de reflexão ou desconforto emocional. Por esse motivo, ninguém estabelece relações familiares e toda a gente é independente. Mesmo ao nível da sexualidade, os parceiros sexuais não devem ser repetidos ou mantidos. O sexo é praticado pelo prazer físico do ato e não por questões amorosas.

Admirável Mundo Novo – Romance Gráfico, de Fred Fordham - Relógio D'Água
Bernard Marx, o protagonista, é um Alfa que se sente deslocado devido a sentir uma certa insatisfação com a sociedade que o rodeia, tornando-o crítico do sistema. Quando este faz uma viagem com Lenina Crowne até ao mundo selvagem – onde as pessoas levam uma existência mais próxima daquela que vivemos – encontram John, o Selvagem. E é a vinda deste personagem para o “admirável mundo novo” que leva o leitor a ter dois pontos de vista diferentes e a mergulhar nas críticas que a obra faz à sociedade humana. Um exercício deveras interessante, a meu ver. E que prova que a obra se mantém atual nos dias de hoje.

Olhando para a adaptação de Fred Fordham para banda desenhada, considero que o autor conseguiu captar a essência da obra original. Se é verdade que, do ponto de vista narrativo, por vezes Fordham parece deixar o leitor algo desorientado, perdendo o fio à meada se não conhecer bem a obra original, a verdade é que o autor foi especialmente bem sucedido na reimaginação do mundo onde decorre a ação. Havia discrições na obra original, sim, mas Fred Fordham acabou por adaptar os cenários, a tecnologia presente, os edifícios e as próprias indumentárias das personagens a um futuro que podemos considerar (mais) próximo da realidade em que vivemos no ano 2024 e, por conseguinte, como sendo mais verosímil. A mim, convenceu-me esta abordagem visual que o autor faz da obra de Huxley.

Há uma certa sensação de despovoamento face aos cenários demasiado vazios, mas, por uma vez, parece-me que isso era tudo o que era necessário numa obra deste calibre. É que o universo de Admirável Mundo Novo é totalmente vazio, clean e acético.

Admirável Mundo Novo – Romance Gráfico, de Fred Fordham - Relógio D'Água
E uma nota positiva tem que ser dada à forma como Fordham representa as exuberantes festas e orgias sexuais, através de cores fortes e garridas que poderiam lembrar o filme Blade Runner – ou, já agora, a banda desenhada Neon, da portuguesa Rita Alfaiate. Esta utilização da cor por parte de Fordham resulta muito bem para mostrar a superficialidade e surrealismo de uma falsa felicidade que assenta na utilização de drogas e no sexo sem barreiras.

Mesmo assim, também é verdade que, por vezes, os diálogos me pareceram algo longos em demasia. Compreendo que parte de uma distopia é explicar - através da narração ou dos diálogos - esse próprio universo distópico, mas, mesmo assim, talvez alguns diálogos pudessem ser um pouco mais pequenos.

E também é verdade que certos desenhos apresentam, por vezes, pouca definição nas linhas de contorno das personagens. Não consegui perceber se tal se devia à própria arte original de Fordham ou se isso tem que ver com algum erro ou imperfeição a nível editorial e de impressão. Não pude comparar com a versão original da obra. Mesmo assim, é algo negativo e que saltou à minha vista por diversas vezes.

A edição da Relógio d´Água é, como já vem sendo hábito, em capa mole e com bom papel baço no interior e um bom trabalho ao nível de encadernação, embora me pareça que o livro, enquanto objeto físico, beneficiaria se tivesse badanas. 

De qualquer maneira, realço com satisfação a continuação da aposta da editora no lançamento de banda desenhada. É certo que das nove bandas desenhadas lançadas, sete delas são adaptações de obras da literatura mundial e apenas duas foram primeiramente pensadas e projetadas para banda desenhada (O Segredo da Força Sobre Humana e Patos), mas isso não invalida que seja positivo que a editora persista no lançamento de banda desenhada. Que assim continue!

Concluindo, pode-se dizer que Admirável Mundo Novo não seria, à partida, uma obra fácil de adaptar para banda desenhada, mas que Fred Fordham se sai bem nessa empreitada. E, convenhamos, a própria opção por tornar mais presente e mais atual esta obra, que assenta numa crítica poderosa às tendências autoritárias e tecnocráticas da sociedade moderna, também é mais que bem-vinda. Afinal de contas, Admirável Mundo Novo continua a ser relevante hoje, provocando reflexões sobre o papel da tecnologia na sociedade e os limites do controlo estatal sobre a vida humana.


NOTA FINAL (1/10):
8.6


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Admirável Mundo Novo – Romance Gráfico, de Fred Fordham - Relógio D'Água

Ficha técnica
Admirável Mundo Novo - Romance Gráfico
Autor: Fred Fordham
Adaptado a partir da obra original de: Aldous Huxley
Editora: Relógio d’ Água
Páginas: 244, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 16,3 x 23,5 cms
Lançamento: Maio de 2024

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Relógio D'Água anuncia 3 novas BDs para 2024!


Não vos trago uma entrevista com a Relógio D'Água, pois são poucos os livros de banda desenhada que a editora tem, por agora, para anunciar para 2024.

Mesmo assim, já vos posso dar a conhecer as tês bandas desenhadas que a editora me confirmou que lançará em 2024. Logo no primeiro trimestre. Portanto, é possível (e expetável) que, entretanto, surjam ao longo do próximo ano mais BDs pelas mãos da editora. Mas, por ora, são estas as confirmações.

Sendo, para muitos leitores, imagino, poucas obras, são bastante interessantes, pelo menos quanto a mim.

Gostei particularmente do trabalho de Fred Fordham em Mataram a Cotovia (também publicado pela Relógio D'Água) e estou especialmente interessado em conhecer a obra de Kate Beaton que tem sido tão aclamada. 

Quanto a Duna, é um clássico da ficção científica. Não está entre as minhas preferências pessoais, mas acredito que interesse a muita gente, tendo em conta que é uma obra de culto.

Portanto, as obras em causa, são:


Patos
de Kate Beaton
(Vencedor Eisner Award, Best Graphic Memoir)




Duna II
de Brian Herbert, Kevin J. Anderson, Raúl Allén e Patricia Martín



Admirável Mundo Novo
 de Fred Fordham

terça-feira, 19 de abril de 2022

Análise: O Grande Gatsby - Romance Gráfico

O Grande Gatsby - Romance Gráfico, de Aya Morton e Fred Fordham - Relógio D'Água

O Grande Gatsby - Romance Gráfico, de Aya Morton e Fred Fordham - Relógio D'Água
O Grande Gatsby - Romance Gráfico, de Aya Morton e Fred Fordham

O Grande Gatsby – Romance Gráfico é o primeiro livro de banda desenhada que a editora Relógio d’Água lança em 2022, depois de nos últimos anos ter apostado no lançamento de adaptações de clássicos da literatura, como Mataram a Cotovia, 1984 ou Fahrenheit 451 - O Romance Gráfico.

Desta vez, a editora optou, então, por lançar a obra-prima de F. Scott Fitzgerald, cuja adaptação ficou a cargo da dupla de autores Aya Morton – nas ilustrações – e Fred Fordham, na adaptação do argumento original para banda desenhada.

Quando soube que Fred Fordham fazia parte da dupla de criadores, fiquei entusiasmado pela positiva, já que gostei mesmo muito do seu trabalho na já supramencionada Mataram a Cotovia. Livro esse que recomendo totalmente. Nesse caso, o autor assume quer a adaptação da obra, quer as belas ilustrações e cores da mesma, obtendo um resultado muito gratificante. No caso deste O Grande Gatsby, e lamentavelmente, Fordham apenas faz a adaptação da obra original para banda desenhada. Melhor seria se também tivesse sido responsável pelas ilustrações. Mas já lá irei.

O Grande Gatsby - Romance Gráfico, de Aya Morton e Fred Fordham - Relógio D'Água
E começando por isso, pelo argumento, esta adaptação faz um trabalho que considero aceitável e eficiente. Mesmo aqueles que nunca tenham lido a obra – ou visto o, relativamente recente, filme de Baz Luhrmann, com Leonardo DiCaprio – podem, com esta novela gráfica, ficar com uma boa ideia geral da boa trama e do belo texto montados por F. Scott Fitzgerald.

A história é relativamente simples e linear. Estamos nos loucos anos 20 nova-iorquinos e Jay Gatsby é um bilionário que vive em Long Island. Nick Carraway, que nos conta a história na primeira pessoa, muda-se para a casa ao lado de Gatsby e passa a ficar fascinado com a estranha, misteriosa e peculiar forma de vida de Gatsby. E, gradualmente, passam a ficar amigos. Mas, pelo meio, a prima de Carraway, Daisy, (re)aproxima-se de Gatsby, reatando, dessa forma, uma paixão antiga mal curada por ambos. Para complicar mais as coisas, o marido de Daisy, Tom Buchanan, que (também) mantém uma vida dupla, não fica nada satisfeito com o aparecimento de Gatsby na vida da sua mulher.

Basicamente, esta é uma história onde F. Scott Fitzgerald critica subtilmente a alta sociedade e as suas falsidades, as buscas incessantes pelo prazer hedonista e demais frivolidades que giram em torno da alta sociedade. No fundo, a alta sociedade até é a classe social que mais alicerça a sua vida em aparências e em falsidades. E muitas vezes os seus membros até são os mais infelizes, apesar do seu aparente sucesso e riqueza. Mas já todos sabemos que “o dinheiro não compra felicidade”, certo? Se as críticas de F. Scott Fitzgerald à alta sociedade eram certeiras  em 1925, data da primeira publicação do romance, passados praticamente 100 anos, todas essas críticas continuam "na mouche".

Olhando agora para esta banda desenhada, embora seja verdade que, por vezes, exista algum excesso de texto a habitar esta adaptação, acho que Fred Fordham faz um bom trabalho a "separar o trigo do joio" e a dar-nos o principal da obra original nesta adaptação. Tendo em conta o texto delicado e inspirado do autor original, também compreendo esse tal excesso de texto aqui e ali. Mas não é nada que estrague a experiência de leitura, quanto a mim.

O Grande Gatsby - Romance Gráfico, de Aya Morton e Fred Fordham - Relógio D'Água
O que estraga a experiência de leitura é, nada mais, nada menos, que as ilustrações de Aya Morton. Mas, comecemos pela parte boa. As ilustrações da autora até têm a capacidade de nos transportar para o universo glamoroso de O Grande Gatsby. Está cá tudo: as festas, os vestidos, os penteados, os automóveis, as diferentes mansões, a célebre luz verde. E também é verdade que as ilustrações da autora, por vezes, funcionam bem. Especialmente a nível cénico, mas igualmente na audácia de algumas pranchas originais que (des)constroem, com clareza, certas verdades certas da narração em banda desenhada. Por último, também apreciei a coragem e a diversidade de planos e perspetivas – algumas complexas – com que a autora nos brinda. Mas, tirando isso, o trabalho da autora é manifestamente pobre. Até o poderá não ser tanto em termos de “ilustração” – até porque isso abrirá a porta da subjetividade de cada um – mas, certamente, se a obra procura ser uma arte sequencial, traz consigo vários problemas.

O primeiro e, talvez, o que mais me incomodou, é a caracterização facial das personagens. Vamos ser sinceros: Aya Morton não sabe desenhar caras. Não ao nível das expressões, pois as personagens não conseguem passar de forma conveniente qualquer emoção. E, muito menos, ao nível da diferenciação entre personagens. As principais figuras masculinas desta obra, Jay Gatsby, Nick Carraway e Tom Buchanan, são exatamente iguais em termos de desenho! As únicas coisas que fazem com que, a custo, as consigamos distinguir são as cores do cabelo e as cores da roupa que vestem. Exatamente a mesma maneira de diferenciar as personagens que eu usava, quando tinha 7 anos e desenhava no ATL. 

O Grande Gatsby - Romance Gráfico, de Aya Morton e Fred Fordham - Relógio D'Água
É claro que reconheço que posso estar a ser um pouco duro em relação às ilustrações da autora que, tal como comecei por referir, até apresenta algumas ideias interessantes. Mas, caramba, chega a ser risível a forma pobre como representa as caras das personagens. E não me parece que o seu traço infantil e pouco desenvolvido, o seja por opção.

E, claro, se tivermos em conta que o universo criado por F. Scott Fitzgerald é, todo ele, muito rico, detalhado, glamoroso e requintado, os desenhos de Morton acabam por não se adequar à obra original. A própria nota introdutória de Blaze Hazard pareceu-me que tentava justificar a “bela escolha” que foi Aya Morton para esta adaptação. Como se fossem necessários argumentos para a escolha. Se esses argumentos fossem óbvios, não seria preciso que o editor da obra os referisse com tanto afinco. Digo eu! Aya Morton pode ser uma bela ilustradora ao nível cénico ou mesmo em termos de livro ilustrado, mas os seus dotes e técnica não chegam para a arte sequencial, vulgo banda desenhada.

Em termos de edição, a Relógio d’ Água, não fugindo ao seu catálogo de banda desenhada em capa mole, brinda-nos com mais uma edição em capa mole, com bom papel e boas encadernações. O único extra é a nota introdutória de Blaze Hazard que referi mais acima.

O Grande Gatsby - Romance Gráfico, de Aya Morton e Fred Fordham - Relógio D'Água
Há umas semanas este livro também causou algum rebuliço nas redes sociais pela sua capa que comete alguns dos erros mais primários na conceção de capas. Como já tive oportunidade de opinar, consigo pensar em muitas, muitas capas piores do que esta. É fraca, sim, mas pareceu-me que também houve uma certa histeria com a mesma. No entanto, é claro que esta capa apresenta erros difíceis de compreender. Não tanto na ilustração – pode não ser a mais bela de sempre, mas também não a considero minimamente má –, mas sim no grafismo, isto é, nos elementos que foram, depois, introduzidos em cima da ilustração. E se a versão original americana já é má, a portuguesa ainda consegue ser pior. Especialmente na forma mal-amanhada e amadora como o título foi colocado na capa. Até me faz ter arrepios de dor ao pensar como alguém disse: “Sim, a capa está boa e pronta para ir para a gráfica”. Não sou designer, mas até tive duas cadeiras de produção gráfica na universidade e, baseando-me no finito conhecimento que daí retirei, digo-vos que havia tantas e tantas formas de salvar esta capa. Mas nada disso foi feito. Tivesse eu mais tempo em mãos e até fazia uns exemplos no photoshop, só para demonstrar que a minha crítica não é gratuita ou fácil, mas sim construtiva.

Em suma, e embora eu goste muito da obra original de F. Scott Fitzgerald, tenho que dizer que este livro fica bastante aquém da minha expetativa. Fred Fordham ainda consegue salvar a honra do convento, com uma adaptação do argumento convincente, mas Aya Morton não consegue oferecer a esta adaptação a beleza, a vivacidade, a dinâmica, a riqueza e a qualidade narrativo-visual  que este livro merecia.


NOTA FINAL (1/10):
5.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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O Grande Gatsby - Romance Gráfico, de Aya Morton e Fred Fordham - Relógio D'Água

Ficha técnica
O Grande Gatsby - Romance Gráfico
Autores: Aya Morton e Fred Fordham
Editora: Relógio d’Água
Páginas: 216, a cores
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Março de 2022