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quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Análise: Maltempo

Maltempo, de Alfred - Devir

Maltempo, de Alfred - Devir
Maltempo, de Alfred

Geralmente mais centrada na publicação de banda desenhada de origem japonesa, bem como de alguns comics americanos, a editora Devir lançou há poucas semanas duas obras de autores europeus: Crónicas de Jerusalém, de Guy Delisle, e este Maltempo, de Alfred, de quem a editora já tinha publicado, em 2022, a obra Como Antes.

Quer Como Antes, quer este Maltempo, fazem parte de uma trilogia, da qual ainda consta Senso, que é ambientada em Itália. São histórias independentes e diferentes entre si, mas que têm em comum as paisagens e cultura italianas como pano de fundo.

Estava bastante desejoso de ler este Maltempo e posso dizer-vos que, se já tinha gostado dos trabalhos anteriores de Alfred, este Maltempo ainda consegue superar Como Antes

Maltempo, de Alfred - Devir
A história centra-se em Mimmo, um rapaz de 15 anos que vive numa pequena ilha italiana onde os dias soalheiros são uma constante. Embora as paisagens sejam de cortar a respiração, com a natureza a pontilhar a vista de verdejantes montes e vales e de um belo azul profundo, quer no céu, quer no mar, a vida nesta ilha não é fácil para os seus habitantes. A pobreza é um destino do qual não parece ser fácil de escapar e para isso também não ajuda que a máfia condicione a vida local. Ou que a calma da ilha pareça ameaçada pela construção de empreendimentos hoteleiros que as gentes locais tentam sabotar. As aspirações de um adolescente como Mimmo parecem, pois, estar mais que condicionadas. Para não dizer "condenadas". Ser-se pobre ou fazer-se parte da máfia local parecem os dois únicos caminhos possíveis.

No entanto, quando um canal de TV anuncia que vai fazer audições naquela ilha para um espetáculo musical na aldeia, Mimmo, que tem a sua guitarra como companhia omnipresente, encara esta iniciativa como a grande oportunidade da sua vida. Junta então os seus três amigos, com quem tem uma banda de rock há muito tempo, e procura resgatar essa simbiose musical com os colegas, através de ensaios, para que a apresentação perante o canal de TV possa ser um sucesso e catapultar os quatro rapazes para uma vida bem sucedida em Roma. Mas a vida local, com todas as suas dificuldades, encontros e desencontros, bons e maus timings, faz com que essa simples tarefa de reunir quatro adolescentes para ensaiar, possa não ser tão fácil quanto parece.

Maltempo, de Alfred - Devir
A forma como o autor constrói a jornada interior do protagonista é notável. Mimmo não é apenas um jovem lutando contra as forças externas; ele é um reflexo das escolhas difíceis que todos enfrentamos em algum momento da vida. O autor convida o leitor a criar empatia com a luta de Mimmo, sem julgar, mas apresentando as complexidades da sua realidade de forma honesta. Por outro lado, os outros três amigos e elementos da banda de Mimmo, também têm as suas próprias lutas individuais que o autor Alfred sabe explorar bem num livro que aborda temas como destino, livre-arbítrio e o impacto das condições sociais sobre as escolhas individuais. Alfred não oferece respostas fáceis, mas constrói uma narrativa que desafia o leitor a questionar as estruturas do poder e as alternativas disponíveis para aqueles que vivem à margem.

Em termos visuais, o autor oferece-nos uma obra verdadeiramente charmosa e elegante. Visualmente, Maltempo é impressionante. Alfred utiliza uma paleta de cores subtis e evocativas, captando a melancolia e a beleza da paisagem mediterrânica. Os cenários insulares e as figuras humanas são trabalhados com um detalhe expressivo, ainda que simples, que reforça o impacto emocional da narrativa. Cada vinheta é uma obra de arte em si, servindo tanto para avançar a história quanto para criar momentos de contemplação.

Maltempo, de Alfred - Devir
É verdade que já tinha apreciado aquilo que o autor nos deu em Como Antes, mas, pelo menos em termos de desenho, é inegável a evolução que houve dessa obra para este Maltempo  - ou mesmo para Senso, que tive a oportunidade de ler na sua versão francesa e que espero que a Devir venha a editar brevemente por cá. Face a Como Antes, o traço do autor parece mais limpo e confiante e a própria organização do espaço visual apresenta-se mais harmoniosa em termos estéticos. Cada pequena enseada, cada monte ou vale que o autor nos vai dando quando, inteligentemente, utiliza as curtas viagens de vespa de Mimmo para fazer os leitores percorrerem as plácidas e belas paisagens do sul italiano, fazem com que este seja um livro que nos faz viajar, levando-nos a esquecer o nosso dia a dia. E é bem provável que, para muitos leitores, aumente o desejo de conhecer ou voltar à bella Italia.

A edição da Devir apresenta-se de boa qualidade. O livro tem capa dura baça e bom papel baço no seu interior. Os acabamentos, a encadernação e a impressão apresentam boa qualidade.

Em resumo, Maltempo é uma obra que combina uma narrativa envolvente com uma arte expressiva, oferecendo uma reflexão profunda sobre as escolhas individuais face às circunstâncias sociais e económicas adversas. É um livro com o potencial de transcender as barreiras da BD, já que pode apelar tanto a leitores de banda desenhada como a amantes da literatura em geral devido à sua história que, embora profundamente enraizada numa realidade específica, possui uma universalidade que ressoa amplamente. Alfred mostra-nos que, mesmo nas circunstâncias mais sombrias, a esperança e a resistência humana podem encontrar formas de se manifestar. Um doce embalo de viagem e, a par do fabuloso Bairro Distante, de Jiro Taniguchi, o meu livro preferido da Devir lançado durante 2024!


NOTA FINAL (1/10):
9.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Maltempo, de Alfred - Devir

Ficha técnica
Maltempo
Autor: Alfred
Editora: Devir
Páginas: 324, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 14,8 x 21 cm
Lançamento: Novembro de 2024

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Análise: Senhor Apothéoz

Senhor Apothéoz, de Julien Frey e Dawid - ASA - Grupo LeYa

Senhor Apothéoz, de Julien Frey e Dawid - ASA - Grupo LeYa
Senhor Apothéoz, de Julien Frey e Dawid

Entre os numerosos lançamentos de banda desenhada que, durante o ano 2024, a editora ASA fez, um dos que mereceu a minha curiosidade foi Senhor Apothéoz, da autoria de Julien Frey e Dawid, que a editora portuguesa publicou há algumas semanas.

Lembro-me que já tinha folheado a edição original francesa e tinha ficado muito bem agradado com as ilustrações de Dawid que se apresentavam verdadeiramente apelativas, enquanto que a história prometia ser interessante e original. Depois de feita a leitura, confirma-se que as ilustrações são uma pequena maravilha, sim. Mas já no que diz respeito à história arquitetada por Julien Frey, e mesmo podendo a mesma ser original, há certas opções que a tornam algo infantil e inverossímil em demasia, impedindo que a mesma seja tão boa quanto poderia ser. Imaginem um filme aparentemente adulto e sério que, nas últimas cenas, opta por não ser sério e por se tornar um pouco silly... é assim que este Senhor Apothéoz funciona.

A premissa da história é bastante interessante. O protagonista é Théo Apothéoz, um jovem que tem deixado a vida passar por si sem que tenha tentado alcançar os seus sonhos. E tudo isso por causa de uma "maldição". Nas gerações que o antecederam, os seus familiares acabaram por morrer sempre em condições funestas quando procuravam alcançar algum feito. Théo passou, pois, a acreditar que o seu nome de família trazia má sorte e que o melhor seria não tentar coisa nenhuma. Simplesmente sobreviver no lugar de viver. Tem 30 anos e vive com o seu pai, um alcóolico que vendeu a casa da família na modalidade de anuidade vitalícia. Ou seja, quando o pai de Théo morrer, a casa onde ambos vivem passará a ser posse de outro proprietário.

Senhor Apothéoz, de Julien Frey e Dawid - ASA - Grupo LeYa
A par disto tudo, Théo continua a amar Camile à distância. Desde os seus tempos de escola que Camille era a sua paixão, mas pelo tal medo de que algo corresse mal, Théo acabou sempre por não revelar nada a Camille, fazendo lembrar o heterónimo de Fernando Pessoa, Ricardo Reis, que, antevendo a indubitável tragédia e perda, preferia não avançar na vida, na busca pelos sonhos e por uma plenitude existencial.

O que nos leva a uma componente muito filosófica neste Senhor Apothéoz. A narrativa gira em torno de questões existenciais e humanísticas, propondo uma reflexão profunda sobre o sentido da vida e da morte, a natureza humana e a busca por propósito. Deveremos, afinal de contas, sucumbir aos próprios demónios que temos na nossa mente ou devemos ir à luta pela busca da felicidade, com unhas e dentes, porque, na maior parte das vezes, a verdadeira razão para que não a encontremos reside em nós mesmos?

Entretanto, Théo dá de caras com Antoine Pépin, um célebre escritor em crise criativa, que acaba por ser o propulsor para que algo mude na vida de Théo e este tente dar um passo na conquista da sua amada de sempre, Camille, que entretanto tem agora uma relação amorosa que não a deixa feliz. A partir daqui, a história começa a mudar de forma radical. O fio condutor, verossímil ao início, transforma-se numa sucessão de eventos que parecem saídos de um filme para adolescentes imberbes.

A história parecia uma coisa, mas acaba por se revelar outra, pois, sensivelmente a meio da trama, parece que o argumentista tomou qualquer substância psicotrópica que faz com que a história passe a ser uma comédia negra, com cadáveres por esconder à mistura. Se gosto de ser surpreendido nas leituras que faço e se reconheço que, por vezes, as histórias até são bastante expectáveis, não havendo muito lugar a surpresas narrativas, também acho que o preço a pagar por enredos que mudam bruscamente é que, a história acabe por nem ser "peixe", nem ser "carne". E é assim que é Senhor Apothéoz: nem é uma história série a profunda que nos faz pensar e refletir - embora o tente fazer um bocadinho - nem é uma história para rir à séria, carregada de humor negro - embora também o tente ser um bocadinho. O resultado é interessante e, sem dúvida, original, mas torna a obra mais esquecível do que o esperado e os dois universos, pelo menos da forma como nos são apresentados, não casam muito bem entre si. E é uma pena, pois parece-me que o livro tinha todos os ingredientes para ser um dos meus favoritos do ano.

Senhor Apothéoz, de Julien Frey e Dawid - ASA - Grupo LeYa
Até porque o arranque do livro é verdadeiramente promissor. Com a história contada na primeira pessoa, facilmente o leitor sente empatia com o protagonista. E a forma como a história e a já referida "maldição" vão sendo apresentadas, é muito boa. Contudo, à medida que a leitura vai avançando, o livro acaba por desiludir em termos de história. É verdade que é claro que a intenção do autor é que o próprio livro seja leve - e não há qualquer mal nisso -  e também é verdade que há aqui várias alegorias presentes que não devem ser levadas à letra, mas sim reinterpretadas para a vida que levamos. Mesmo assim, achei que houve uma certa incoerência ou mesmo infantilidade na forma como a história vai sendo desabotoada. Continua a ser um livro bom, não nego, mas falha em ser um livro mais especial do que aquilo que poderia ter sido. E, portanto, é uma obra que vai para aquelas mais olvidáveis. Quando, daqui a uns meses, me perguntarem se li Senhor Apothéoz, o mais provável é que a minha resposta seja: "Sim, li. Tinha boas ideias, mas o argumentista enterrou-se. Porém, os desenhos são lindos".

Sim, focando na questão das ilustrações de Dawid, há que dizer que as mesmas são absolutamente belas e cativaram-me da primeira à última vinheta. O traço do autor apresenta um estilo bastante "cartoonesco", mas com as expressões das personagens a irradiarem uma humanização e uma certa poesia visual que nos aquece a alma. E para isso também contam as cores, em tons acastanhados a aguarela, que embrulham o grafismo da obra numa certa sensação outonal que, não só é singular, como é verdadeiramente bela e contribui para a tal sensação de conforto que a história respira. Pelo menos, na parte inicial da história, lá está. Do ponto de vista da ilustração, até considero este um dos meus livros favoritos do ano.

A edição da ASA apresenta capa dura baça, bom papel brilhante no miolo e uma boa encadernação e impressão. No final, há um breve caderno gráfico com esboços e estudos de capa de Dawid.

Em suma, Senhor Apothéoz, em gíria futebolística, é um belo remate que... não só não dá golo, como sai bastante ao lado. Poderia ser muito mais do que aquilo que é se o argumentista tivesse uma ideia mais clara daquilo que pretendia para a história. Não há dúvidas de que a bipolaridade do enredo torna a experiência de leitura original, mas no final da mesma é bem possível que fiquemos com uma mão cheia de nada - ou com uma mão meio vazia, vá - quando a história tinha potencial para tanto mais. Além disso, refira-se com justiça que os desenhos de Dawid tornam este livro verdadeiramente acolhedor e belo. Pena que a história não esteja ao nível dessa qualidade superior.


NOTA FINAL (1/10):
7.5




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Senhor Apothéoz, de Julien Frey e Dawid - ASA - Grupo LeYa

Ficha técnica
Senhor Apothéoz
Autor: Julien Frey e Dawid
Editora: ASA
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 275 x 206 mm
Lançamento: Outubro de 2024

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Análise: Chumbo

Chumbo, de Matthias Lehmann - Levoir e jornal Público

Chumbo, de Matthias Lehmann - Levoir e jornal Público
Chumbo, de Matthias Lehmann

Uma das obras lançadas na mais recente Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do Público que mais curiosidade estava a despertar em mim, era este Chumbo, do autor brasileiro Matthias Lehmann, que tem sido aclamada por público e crítica e que a Levoir optou por editar para o mercado nacional em dois volumes.

Depois de lida esta obra de grande fulgor, com quase 400 páginas, em que o autor nos leva numa grandiosa viagem que perpassa os últimos 60 anos da história político-social do Brasil, enquanto nos aproxima de uma saga familiar em duas gerações, posso dizer que fiquei encantado e muito bem impressionado! Eis o livro que, a par com o igualmente impressionante Kobane Calling, de Zerocalcare, está entre as duas melhores obras lançadas pela Levoir em 2024.

Chumbo, de Matthias Lehmann - Levoir e jornal Público
Este é, afinal de contas, um daqueles livros que nos dá muito, quer em quantidade, quer em qualidade, deixando-nos mais ricos após finalizarmos a sua leitura. E embora haja aqui uma forte componente histórica, em que o autor, que é filho de pai francês e de mãe brasileira, nos mergulha de forma profunda, apreciei especialmente o facto do foco da obra ser a caminhada da família Wallace que, pela sua influência, timing e longevidade, percorre uma fase tão relevante do Brasil como os chamados "anos de chumbo", em que a ditadura instalada em terras de Vera Cruz tomava conta dos desígnios do país. 

A história arranca com uma primeira parte a focar-se na personagem de Oswaldo Wallace, o patriarca da família, que, curiosamente, é inspirado no avô do autor. Estamos na época em que Getúlio Vargas se encontra no poder. Oswaldo, por sua vez, é dono de uma influente mineradora que o faz tomar contacto com as mais eminentes personalidades do topo social da sociedade local. À medida que nós, leitores, vamos acompanhando a mão firme com que Wallace desenvolve os seus negócios, vamos igualmente mergulhando na vida da sua mulher e dos seus filhos, que são cinco, com especial destaque para os dois irmãos Ramires e Severino que as circunstâncias da vida e os próprios valores pessoais basilares de cada um, colocam em polos opostos. Com efeito, os dois irmãos não poderiam ser mais diferentes: Severino é jornalista e escritor, opondo-se ao regime militar e desenvolvendo um pensamento comunista. Já Ramires, apresenta-se com ideias mais conservadoras e próximas do militarismo então reinante. As circunstâncias da vida de ambos vão, depois, colocá-los muitas vezes frente e frente e, em casos mais raros, a remar no mesmo sentido. Pelo meio, ainda acompanhamos a vida das suas três irmãs que também seguem caminhos diferentes entre si.

Chumbo, de Matthias Lehmann - Levoir e jornal Público
Se no início da obra acompanhamos os anos em que era o conservadorismo militar que governava o país, numa segunda fase, assistimos à tomada do poder por parte do comunismo que, indubitavelmente, agitou as estruturas mais conservadoras da sociedade brasileira. É verdade que, por vezes, o livro se pode tornar algo denso, com muita informação a ser-nos dada em barda e com muitas personagens que, a certo momento, poderemos confundir entre si. Além disso, também senti que, em alguns casos, o autor deu muito destaque a algumas personagens secundárias que, depois, acabaram por ficar esquecidas com o desenrolar da história. Mas, lá está, isto são coisas menores numa obra tão grandiosa que, quanto a mim, todos deverão ler.

É-me difícil falar mais da história deste livro, pois sinto que este é um daqueles casos em que a história é tão completa/complexa que ou falamos de tudo e mais alguma coisa, destruindo, com isso, o prazer de leitura daqueles que lerão a obra depois deste meu texto, ou então parece que não contamos nada de especial, pois os acontecimentos estão demasiada e organicamente bem encadeados entre si. Como acontece com a vida real. Mesmo assim, posso dizer-vos que aquilo que se retira da leitura desta grandiosa obra é o detalhado retrato, repleto de nuances e idiossincrasias, que o autor consegue fazer de toda a sociedade brasileira. Com as coisas boas e com as coisas más, como um bom retrato que se preze deve possuir.

Chumbo, de Matthias Lehmann - Levoir e jornal Público
Nota ainda, positiva, para as personagens imaginadas pelo autor que são profundas e bidimensionais, tornando-se mais verossímeis. Todas elas têm algumas qualidades, mas todas elas têm profundos vícios e defeitos que fazem com que a imersão do leitor seja ainda maior.

O traço a preto e branco puro do autor - que até marcou presença no último Amadora BD para o lançamento desta obra - apresenta-se bastante "cartoonesco" e rico em detalhes, que dão riqueza visual à obra. Este não é um daqueles livros em que nos basta olhar para três ou quatro páginas para percebermos "ao que vamos". Não, porque o autor tenta constantemente recriar-se, através de uma muito inventiva planificação, que desconstrói alguns dos cânones clássicos da banda desenhada, enquanto que, noutros casos, os desenhos também se apresentam diferentes, através de grandes ilustrações de página dupla que contrastam com outras páginas onde as vinhetas são mínimas em dimensão. Não se pode dizer que, apesar do volumoso número de páginas, Lehmann não se esforce - com sucesso - para que a leitura não fique repetitiva. Dou destaque a uma longa cena muda, sem o recurso a qualquer balão de fala, onde o autor nos apresenta o romance vivido por Severino. Verdadeiramente brilhante!

Chumbo, de Matthias Lehmann - Levoir e jornal Público
Muito relevante também é a forma como o autor reproduz visualmente este período histórico brasileiro, com a introdução de cartazes publicitários, artigos de jornal e documentos históricos que, naturalmente, aumentam o cariz documental da obra e a sua dinâmica visual.

Em termos de edição, relembro a opção da editora Levoir por dividir a obra original em dois volumes. Algo que, bem sei, desagradou a muita gente. Podemos fazer um esforço para compreender que a editora tenha optado por dividir a obra em duas partes de modo a não tornar o livro demasiadamente extenso para a coleção que, relembro, não costuma ter livros tão volumosos em número de páginas - e, mesmo assim, recordo que, na mesma coleção, a Levoir editou, há uns anos, e num só volume, a obra O Idiota, de André Diniz, que tinha mais páginas do que este Chumbo. Não obstante essa tentativa de compreensão da nossa parte, e tendo em conta que a editora tem estado a editar algumas obras fora da coleção das novelas gráficas, como Dissident Club, Kobane Calling ou A Árvore Despida, com um preço diferente e mais elevado do que os da coleção, parece-me que teria sido mais apropriado que a editora lançasse Chumbo num só volume e fora da coleção. Mesmo que o preço da mesma fosse mais elevado, a edição e a fidelidade perante a obra original acabaria por sair beneficiada. Mas são opções. Compreendo que, por outro lado, a introdução desta obra na coleção também aumentou a qualidade e appeal comercial da mesma.

De resto, os dois livros apresentam capa dura baça, bom papel baço no interior e boa impressão e encadernação. No final do segundo volume, há um texto adicional do autor Matthias Lehmann. Nota positiva para a segunda capa do livro que, quanto a mim, até é bem mais apelativa do que a capa do primeiro volume, igual à versão original da obra.

Em suma, Chumbo é mais outra das grandes obras de banda desenhada editadas em Portugal durante o ano de 2024 que, provavelmente, se assume com um dos melhores anos de sempre no nosso país, no que à quantidade de obras com enorme qualidade intrínseca diz respeito. Chumbo é pesado como chumbo em termos de qualidade e deve ser lido por todos!


NOTA FINAL (1/10):
9.7



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Chumbo, de Matthias Lehmann - Levoir e jornal Público

Fichas técnicas
Chumbo - Parte 1
Autor: Matthias Lehmann
Editora: Levoir
Páginas: 224, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Setembro de 2024

Chumbo, de Matthias Lehmann - Levoir e jornal Público

Chumbo - Parte 2
Autor: Matthias Lehmann
Editora: Levoir
Páginas: 168, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 mm x 270 mm
Lançamento: Outubro de 2024

Análise: O Punhal


O Punhal, de Nuno Duarte, João Lemos, Osvaldo Medina, Rita Alfaiate e André Caetano

O único lançamento que este ano a Kingpin Books fez no Amadora BD foi este O Punhal, um álbum que marca o regresso de Nuno Duarte ao lançamento de banda desenhada. E, desta feita, o reverenciado autor faz-se acompanhar por um pequeno "exército" de confirmados talentos nacionais nas ilustrações: João Lemos, Osvaldo Medina, Rita Alfaiate e André Caetano.

Na prática, o livro é dividido por quatro histórias, cada uma delas ilustrada pelos autores supramencionados, que têm em comum o facto de orbitarem em torno de um objeto físico: o punhal que dá nome à obra.

Cada uma das histórias ocorre em tempos diferentes: em 1916, período em que o mundo estava (mais uma vez) dividido ao meio devido à Primeira Guerra Mundial; em 1974, em vésperas do 25 de Abril num Portugal ainda controlado pela PIDE; em 2001, no exato momento em que as Torres Gémeas, em Manhattan, foram alvo de um ataque terrorista; e em 2222, num futuro relativamente longínquo onde as (des)humanas relações entre os intervenientes são assunto principal. 

Em cada uma destas histórias, constituídas escrupulosamente por 14 pranchas, o mesmo punhal marca presença. Gosto desta ideia de unir várias histórias, no tempo e no espaço, através de um artefacto e lembro-me de ter sido algo que, recentemente, pude especialmente apreciar no livro Go West - Young Man, de Tiburce Oger e vários outros autores, que a Gradiva publicou por cá há pouco mais de um ano, e que também tinha em comum a todas as suas histórias o facto de todas elas serem atravessadas por um objeto físico. Nesse caso, era um relógio de bolso.

Neste O Punhal, devo dizer que, infelizmente, não me parece que Nuno Duarte tenha conseguido explanar todo o potencial que este interessante conector narrativo tinha à partida. Na verdade, a presença do artefacto punhal acaba por parecer mais um engodo, uma interligação forçada entre histórias, do que um real elemento fulcral para o desenvolvimento da obra no seu todo. E é apenas por isso que, de algum modo, este livro fica um pouco aquém de outros trabalhos de Nuno Duarte, como O Baile e, especialmente, A Fórmula da Felicidade, dos quais sou confesso admirador.

Mas não me entendam mal. As histórias e temas trazidos por Nuno Duarte parecem-me interessantes e dignos de nota. A "cola" que os une é que me parece menos espessa, menos credível. E se o livro fosse apresentado como uma simples antologia, um livro de contos de Nuno Duarte, provavelmente não só eu não apontaria esta fraqueza à obra, como ainda enalteceria o facto da quarta história fazer uma ponte direta aos eventos vividos na primeira história. Sim, aí sim, há uma ligação direta entre histórias. Na primeira e na quarta. 

Lá pelo meio, há duas histórias que me parecem avulsas e desconectadas do suposto tema central mas que, ainda assim, são as mais interessantes do álbum. Falo da história ilustrada por Osvaldo Medina, que nos remete para o ambiente pesado e assustador de uma sala de interrogatório da PIDE, tema sempre atual e que Nuno Duarte resgata muito bem; e da história ilustrada por Rita Alfaiate - de longe, a melhor das quatro - onde, através de um estilo slice of life, o argumentista nos pinta um belo retrato de uma época mais contemporânea - embora ocorrida há mais de 20 anos(!) -  quando, em 2001, o mundo se chocou perante o ataque ao centro nevrálgico financeiro dos Estados Unidos - e do mundo ocidental - que levou à queda das Torres Gémeas de Nova Iorque e à morte de alguns milhares de pessoas. E tal como as torres foram abaixo, também a relação das duas protagonistas desta história parece estar a sucumbir. O paralelismo encetado por Nuno Duarte é muito bem conseguido.

A primeira história assume uma aura mais fantástica e a última, a que é ambientada no futuro, é de ficção científica que, à boa maneira do género, levanta boas questões sob a forma de uma distopia. A escrita de Nuno Duarte é, como habitual, bastante boa e inspirada.

Em termos de ilustração, cada um dos autores nos oferece um bom trabalho. Osvaldo Medina dificilmente entrega um trabalho mal concebido em termos de desenho; João Lemos dá-nos belas e familiares personagens, cuja expressividade cria empatia com o leitor; e André Caetano, num registo de traço "mais cartoonesco" premeia-nos com pranchas muito dinâmicas na planificação e com um desenho que muito me agrada. 

Se os três autores que refiro são bons e competentes, é Rita Alfaiate, com o seu traço fino e inspirado, que utiliza muitas e belas tramas, quem, na minha opinião, mais brilha neste O Punhal. Acho que o leitor português de banda desenhada já não tem dúvidas quanto a isto mas, de facto, Rita Alfaiate é um autêntico tesouro da 9ª Arte em Portugal. Quando penso que a autora já não me pode impressionar mais pela positiva, sou confrontado com algo novo que me surpreende e me faz ser um verdadeiro fã do seu trabalho. E acho até que, depois de outras duas curtas feitas por Nuno Duarte e Rita Alfaiate, igualmente muito boas, a pergunta sacramental que se impõe é apenas esta: quando é que teremos uma história longa da autoria de Nuno Duarte e Rita Alfaiate cuja criação conjunta em banda desenhada é tão boa e tem tanto potencial?

Todas as histórias são a preto e branco, com os autores a explanarem as potencialidades que essa opção dá. Neste tema, considero que a primeira história, aquela que é ilustrada por João Lemos, não funciona tão bem como as demais, já que a sensação que dá é que a mesma foi feita a cores e depois impressa a preto e branco, com demasiados tons a cinza que retiram algumas potencialidades dos bons desenhos do autor, tornando-os escuros em demasia. Tirando isso, Osvaldo Medina, André Caetano e Rita Alfaiate revelam-se muito à vontade com o preto e branco.

A edição da Kingpin é bastante boa, com o livro a apresentar capa dura baça e bom papel baço no miolo. A impressão, encadernação e design do livro também são igualmente bons, bem ao jeito das edições de Mário Freitas que, para além do design, também assegura a boa legendagem da obra.

Em suma, O Punhal prima especialmente por marcar o regresso de Nuno Duarte ao lançamento de nova banda desenhada e por este trazer consigo uma quase mão cheia de ilustradores. Fica um pouco aquém do enorme potencial que a premissa de usar um punhal como elemento agregador das quatro histórias teria, mas é, ainda assim, um interessante livro de BD que vale a pena conhecer.


NOTA FINAL (1/10):
7.4



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Ficha técnica
O Punhal
Autores: Nuno Duarte, João Lemos, Osvaldo Medina, Rita Alfaiate e André Caetano
Legendagem e design: Mário Freitas
Editora: Kingpin Books
Páginas: 64, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 19,5 x 27 cm
Lançamento: Outubro de 2024

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Análise: O Arauto

O Arauto #1, de Ruben Mocho (participação no argumento de Allen Dunford) - A Seita e Comic Heart

O Arauto #1, de Ruben Mocho (participação no argumento de Allen Dunford) - A Seita e Comic Heart
Análise: O Arauto #1, de Ruben Mocho (participação no argumento de Allen Dunford)

O Arauto é uma das mais recentes apostas das editoras A Seita e Comic Heart e foi recentemente lançado no Amadora BD. Sendo da autoria de Ruben Mocho, que se estreia no lançamento do seu primeiro álbum - embora já tenha vários trabalhos de banda desenhada publicados para o mercado americano - este trabalho é um ótimo cartão de visita, apresentando-se moderno, refrescante e exportável.

Aliás, pegando nesta última afirmação, e talvez por ser claro que Ruben Mocho tem já experiência a trabalhar para o mercado estrangeiro, é bom de ver que, cada vez mais, as obras portuguesas parecem menos cativas dessa própria condição de serem mais direcionadas para o pequeno mercado nacional, apresentando-se com características - quer em terma, quer em argumento, quer em ilustrações - que as aproximam do que se faz lá fora. E O Arauto é uma dessas obras muito exportáveis.

O Arauto #1, de Ruben Mocho (participação no argumento de Allen Dunford) - A Seita e Comic Heart
Este é o primeiro de três livros e, para o bem e para o mal, dá-nos apenas um leve "cheirinho", um breve vislumbre do que pode ser a história. É, pois, difícil de antever, para já, aonde nos pode levar este O Arauto, mas não deixa de ser verdade que a perceção deste primeiro livro é positiva e apresenta-se com bastante potencial.

A história, que conta com a colaboração de Allen Dunford, decorre na aridez das paisagens do faroeste e apresenta-nos como protagonista um pistoleiro dotado de vários poderes especiais. Mas que não caminha sozinho. Na sua demanda por alguma coisa que, pelo menos para já, não ficou muito definida, este pistoleiro conta com um cavalo vindo de um tempo imemorial, um monstruoso cão de proporções colossais e um corvo que aparenta ser a chave para o mistério que envolve este primeiro livro.

A história abre com a clássica cena típica de um western, com a chegada de um forasteiro a uma cidade desconhecida e posterior entrada no saloon local onde uma violenta briga entre o recém-chegado e as gentes locais toma lugar.  São elementos clássicos do género, mas que Ruben Mocho repesca com graciosidade para esta história que procura ser mais do que um habitual conto do faroeste. Para tal, ajuda que nos seja dado um interlúdio que nos remete para o passado, para a Grécia Antiga, onde fica claro que o nosso pistoleiro já (sobre)viveu a essa era, sublinhando portanto, e desta forma, o cariz fantástico da obra e da personagem que está munida de superpoderes e de uma vida de vários séculos. Estaremos perante um ser imortal? Será ele a própria morte? Não sabemos exatamente as respostas a estas questões, mas sabemos que é uma personagem poderosa.

O Arauto #1, de Ruben Mocho (participação no argumento de Allen Dunford) - A Seita e Comic Heart
Há, depois, uma clara abordagem religiosa à coisa, com cada um dos dois capítulos que compõem este livro a abrirem com uma citação de um dos livros da bíblia. Isso permite aumentar os níveis de leitura, simbolismo e profundidade do que nos é dado, embora também não deixa de ser verdade estes elementos sejam, para já, algo latos. Se certas pontas soltas forem bem unidas pelo autor nos dois próximos livros, a experiência será ainda mais gratificante, não tenho dúvidas.

No meio disto tudo, se há coisa que impera nesta primeiro livro de O Arauto é a violência, demonstrada quer por tiroteios quer por longas cenas de combate entre as personagens. São cenas em que há poucos diálogos e onde o leitor mergulha de cabeça nos combates corpo a corpo. Ruben Mucho parece dominar com especial à vontade este tipo de cenas.

Não obstante, onde O Arauto salta mais à vista é mesmo na sua componente visual, muito estilizada e cinematográfica, onde as cores são garridas e carregadinhas de personalidade, fazendo a obra ficar com um aspeto muito moderno e "flashy". O desenho, de traço rápido e confiante, consegue ser muito bom, especialmente nas cenas com mais dramatismo ou nos momentos de ação, onde a linguagem corporal e expressividade facial das personagens é muito boa. É verdade que há alguns desenhos que se apresentam rabiscados um pouco mais à pressa, não apresentando a beleza de outros que se sente terem sido mais aprimorados pelo autor, e os cenários também beneficiariam mais se fossem menos despidos de detalhes. Mesmo assim, e quiçá para colmatar esse vazio cénico, as cores vibrantes já mencionadas permitem que o aspeto geral das pranchas seja muito convidativo.

O Arauto #1, de Ruben Mocho (participação no argumento de Allen Dunford) - A Seita e Comic Heart
Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, com uma belíssima ilustração, já agora, e, no miolo, o livro é composto por papel brilhante. Em muitos casos, sou um adepto incondicional do papel baço em detrimento do papel brilhante, mas este é um claro exemplo onde o papel mais adequado para a arte visual de Ruben Mocho seria o brilhante, pelo que a escolha da editora me pareceu bastante adequada. De resto, quer a encadernação, quer a impressão, são muito boas. Em termos de extras, o livro também é bem composto. Podemos encontrar esboços das personagens, capas alternativas de autores convidados e ainda uma antevisão, com três pranchas, do próximo volume dois que deverá sair em 2025, por alturas do próximo Amadora BD.

Em suma, e mesmo admitindo que, relativamente a este O Arauto, ainda a procissão vai no adro, com tantas mais coisas por descobrir e desvendar, a obra assume-se como portadora de um enorme potencial. Quer pela história, que junta coboiada, antiguidade clássica, religião e criaturas mitológicas, quer pela componente visual que, com os seus desenhos plenos de dramatismo e uma paleta de cores garridas e impactantes, deixam água na boca para o que ainda pode vir nos próximos dois volumes. Resta-nos tentar que a espera seja paciente.


NOTA FINAL (1/10):
8.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Arauto #1, de Ruben Mocho (participação no argumento de Allen Dunford) - A Seita e Comic Heart

Ficha técnica
O Arauto #1
Autor: Ruben Mocho (com a participação no argumento de Allen Dunford)
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18,5 x 27,5 cm
Lançamento: Setembro de 2024

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Análise: Edgar

Edgar - De Lisboa a Paris, nos Passos do meu Sogro Revolucionário, de Mathieu Sapin - Editora Polvo

Edgar - De Lisboa a Paris, nos Passos do meu Sogro Revolucionário, de Mathieu Sapin - Editora Polvo
Edgar - De Lisboa a Paris, nos Passos do meu Sogro Revolucionário, de Mathieu Sapin

Foi ainda durante o Amadora BD que a editora Polvo publicou, entre outras novidades, o livro Edgar - De Lisboa a Paris, nos Passos do meu Sogro Revolucionário, do francês Mathieu Sapin. Era um livro que me estava a deixar com muita curiosidade de o conhecer, por vários motivos: a obra teve direito a uma exposição no Amadora BD e ainda tive o prazer de ouvir parte da apresentação da mesma durante o evento. E todas estas coisas aumentaram o meu interesse na obra.

Este é um livro que narra alguns dos principais acontecimentos na caminhada de Edgar, o sogro de Mathieu Sapin, cuja trajetória de vida foi marcada pela participação, de forma mais ou menos ativa, em acontecimentos históricos e pessoais significativos. Edgar é português e acompanhou de perto a ditadura de Salazar e a revolução portuguesa.

Depois de finda a minha leitura, posso dizer-vos que estamos perante um belo trabalho que tem o condão de ser recomendável por vários motivos: por um lado, a história de Edgar está repleta de eventos e experiências que valem a pena conhecer; por outro lado, o facto de Mathieu Sapin fazer de Edgar uma personagem muito interessante, que evoca o Dom Quixote de Miguel de Cervantes, ao levar-nos a questionar alguma da veracidade dos seus relatos, faz com que a leitura seja, por ventura, mais impactante. Por último, tratando-se de uma personagem portuguesa, até agora anónima, que testemunhou tantos eventos da história recente do nosso país, o livro reveste-se, claro está, de mais relevância para que possamos compreender melhor o período pelo qual Portugal passou. Diria até que é um daqueles casos em que seria um "crime" que as editoras portuguesas deixassem passar a oportunidade de publicar esta obra "tão portuguesa", mesmo tendo sido feita por um estrangeiro.

Edgar - De Lisboa a Paris, nos Passos do meu Sogro Revolucionário, de Mathieu Sapin - Editora Polvo
Ora, estas duas coisas que acabo de apontar podem soar um pouco divergentes, reconheço. Se, por um lado, Edgar é um contador de histórias que, bem ao jeito do protagonista do filme Big Fish, de Tim Burton, nos apresenta passagens que parecem (demasiadamente) mirabolantes na sua vida, o que nos faz duvidar da sua veracidade; por outro lado, a obra também tenta ser educativa e, portanto, essas duas valências poderão opor-se uma à outra. Mesmo assim, não se apoquentem: parece-me que o livro Edgar consegue fazer as duas coisas bem: é um importante contributo para que possamos mergulhar nestes factos históricos e, paralelamente, se a personagem real de Edgar é algo dúbia nas suas afirmações, isso permite, quanto a mim, uma proximidade do leitor à mesma. Devo dizer que fiquei fã de Edgar e, especialmente, da sua personalidade, completamente "fora da caixa" e extremamente genuína, bem apanhada pelo autor Mathieu Sapin.

O próprio Mathieu Sapin - e até mesmo o editor da Polvo, Rui Brito, já agora - aparece como personagem da obra, sendo que o livro não é mais do que um extenso conjunto de diálogos entre Sapin e o seu sogro, Edgar, com este último a contar-lhe, ou melhor, a contar-nos, a sua história de vida. Desde os tempos em que era jovem e começou a pôr em causa o regime que controlava Portugal, até aos tempos em que chegou mesmo a militar contra o mesmo, unindo-se aos grupos comunistas, participando em movimentos revolucionários, e acabando, eventualmente, por desertar do exército português e procurar asilo em Paris. Chegado a França, Edgar encontra não só refúgio do regime português, como a oportunidade para recomeçar a sua vida. 

Edgar - De Lisboa a Paris, nos Passos do meu Sogro Revolucionário, de Mathieu Sapin - Editora Polvo
O livro acaba, pois, por revelar a complexidade de uma experiência de vida que pode muito bem ter sido partilhada por tantos e tantos outros portugueses que se viram confrontados com uma existência semelhante. Esta jornada inclui não apenas momentos de luta política, mas também a adaptação à vida num novo país e as suas relações pessoais e familiares. Pelo meio, Sapin vai-nos introduzindo a várias figuras e momentos chave da história contemporânea de Portugal, o que contribui, lá está, para a vertente mais educativa da obra e para dar alguma dinâmica narrativa à mesma. 

O facto de Edgar ser um trabalho autobiográfico, focada no sogro de Sapin, confere uma camada de intimidade e autenticidade à história. O autor consegue entrelaçar elementos de sua própria vida com a história de Edgar, mostrando a influência que esta personagem tem na sua vida pessoal e na forma como ele vê o mundo. Essa abordagem pessoal torna a obra não apenas um retrato histórico, mas também uma homenagem a uma figura que, para Sapin, representa coragem e resiliência.

O que ainda não referi e que, a meu ver, é um ponto alto da obra, é o cariz humorístico da mesma. Não só considero este livro como pertencente ao subgénero do humor, como admito ter-me rido bastantes vezes à medida que ia avançando na leitura. Não é que estejamos perante um livro de gags clássicos, com a introdução cirúrgica dos clássicos punchlines que estão ali só mais para nos fazerem rir. Não. Mas estamos perante uma personagem forte, por vezes caricata, que, pela sua forma de estar e pelas suas afirmações - que são depois complementadas pelos comentários, pensamentos e justificações de Sapin - nos consegue arrancar várias risadas. Edgar é paranoico, achando sempre que os chineses o estão a vigiar, e conta-nos com desfaçatez o facto de ter sido a estrela de um documentário de Lazareff, de ser um descendente afastado do Duque de Wellington ou de ter escrito um livro sobre as suas vivências.

Edgar - De Lisboa a Paris, nos Passos do meu Sogro Revolucionário, de Mathieu Sapin - Editora Polvo
Face a todas estas afirmações estonteantes, vemos depois Sapin a fazer pesquisa em cima do que lhe é contado pelo sogro e a descobrir que, mesmo de uma forma que podemos considerar parcial, há verdade naquilo que Edgar afirma. Ou uma parte de verdade, vá. Bem à semelhança do já mencionado filme Big Fish, de Burton.

O estilo de ilustração combina bem com esta abordagem humorística. Os desenhos são "cartoonescos" e, por vezes, algo toscos nas formas, com as cabeças das personagens a serem bem maiores, em termos proporcionais, do que os corpos que as sustentam. Mesmo assim, a maneira como o autor desenha os cenários, como a baixa lisboeta, a Ericeira ou a cidade de Paris, por exemplo, é bastante agradável à vista. Nota positiva para as cores, da autoria de Clémence Sapin, que tornam as ilustrações de Mathieu Sapin ainda mais apelativas. 

Em termos de edição, estamos perante um belo trabalho da editora Polvo que até não costuma editar livros nestes moldes: o livro apresenta capa dura brilhante, bom papel baço no interior do livro e bom trabalho ao nível da impressão e da encadernação. No final, enquanto extra, há um caderno gráfico onde temos acesso ao bloco de notas do autor, com textos e esboços. A edição portuguesa desta obra - que foi originalmente lançada em 2023 - apresenta uma nova capa que é bastante mais bonita do que a capa da edição original da obra.

Em suma, este é um livro bem-vindo e lançado com bom sentido de oportunidade por parte da editora Polvo, já que se comemoram em 2024 os 50 anos do 25 de Abril e importa não esquecer o quão negativamente impactante foi a ditadura de Salazar em milhares e milhares de portugueses que se viram perseguidos e forçados a trocar de pátria para a demanda por uma vida melhor. E mais livre. E em Edgar, Mathieu Sapin, dá-nos tudo isso enquanto nos apresenta uma personagem real e irresistivelmente cómica: o seu próprio sogro.


NOTA FINAL (1/10):
8.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Edgar - De Lisboa a Paris, nos Passos do meu Sogro Revolucionário, de Mathieu Sapin - Editora Polvo

Ficha técnica
Edgar - De Lisboa a Paris, nos passos do meu sogro revolucionário
Autor: Mathieu Sapin
Editora: Polvo
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 215 x 283 mm
Lançamento: Novembro de 2024 

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Análise: Em Redes

Em Redes, de Audrey Caillat e Xico Santos - Escorpião Azul

Em Redes, de Audrey Caillat e Xico Santos - Escorpião Azul
Em Redes, de Audrey Caillat e Xico Santos

Não sabia bem o que esperar desta nova aposta da editora Escorpião Azul, denominada Em Redes, um álbum do autor português Xico Santos que se faz acompanhar, no argumento, pela francesa Audrey Caillat, e posso dizer-vos que fiquei rendido à relevância, maturidade, ambiente e ritmo deste novo livro. Passou a ser, quanto a mim, um dos melhores livros do catálogo da editora portuguesa.

De Xico Santos apenas conhecia o livro Vil – A Tragédia de Diogo Alves, com argumento de André Oliveira, publicado pela editora Kingpin Books. Sinceramente, e apesar de alguns bons atributos desse trabalho, esse até não foi um livro que me tenha convencido muito. Quer no argumento, quer na ilustração. E, também por isso, lá está, este novo livro que vos trago hoje, me surpreendeu bastante. E pela positiva.

O trabalho de ilustração de Xico Santos neste Em Redes parece ter evoluído bastante, apresentando várias vinhetas de belíssima inspiração e execução, numa história que tem muito de evocativa e que nos faz pensar. Se de Xico Santos eu não conhecia muito, da autora francesa Audrey Caillat eu não sabia absolutamente nada.

Lendo a nota introdutória deste livro, percebemos que Audrey Caillat não assumiu, sozinha, os desígnios deste argumento mas que, ao invés, colaborou na escrita do mesmo com Xico Santos, sendo, portanto, co-autora do argumento. 

Em Redes, de Audrey Caillat e Xico Santos - Escorpião Azul
Xico Santos afirma na mesma nota que é natural da zona onde decorre a ação para este Em Redes: a zona da Ria Formosa, no Algarve. Mais concretamente, a Ilha da Culatra onde, a partir da Primeira Guerra Mundial, esta pequena ilha funcionou como um centro de aviação naval destinado à luta antissubmarinos, onde aterravam hidroaviões, já que as condições naturais da região eram perfeitas para que os franceses pudessem aterrar os seus hidroaviões que serviam de apoio à luta submarina.

Com base neste facto da história portuguesa, poucas vezes comentado ou conhecido, Xico Santos e Audrey Caillat oferecem-nos uma história que se passa em dois períodos diferentes: os anos 40 e os anos 80. Durante essas duas épocas, acompanhamos a história de duas personagens: Rafael, um solitário pescador local, e Jean, um cativante piloto francês que, já depois da Segunda Guerra Mundial terminar, nos anos 40, continua na ilha. Eventualmente, acaba por nela assentar bases e construir família com uma portuguesa dali.

E Jean não era o único a proceder de tal forma. Já antes dele, as gentes locais, quase todos pescadores ou familiares dos mesmos, tinham-se fixado na ilha recorrendo à construção de casas de madeira ilegais. E isso acaba por servir como pano de fundo para que, na segunda parte da história, que se passa nos anos oitenta, acompanhemos a reação da população local ao anúncio de demolição daquelas casas por parte do Governo português. Confrontada com esta opção governamental, a população residente nesta ilha da Culatra não teve outra opção que, mesmo protestando, ver as suas antigas casas deitadas abaixo. Tudo isto é factual e pertence à nossa história. 

É esta a contextualização histórica, bem explanada, da obra, mas Em Redes é muito mais do que um livro com o propósito único de ser informativo ou histórico. Este é um livro de profunda reflexão, de profunda contemplação e de profundo amadurecimento.

É na história destas duas personagens, Jean e Rafael, aparentemente desconexas uma da outra, que reside toda a beleza deste livro. Ambas as personagens são completamente díspares mas, de algum modo, encontram pontos em comum de um modo bastante incomum. Jean é o tipo de homem que cativa todas as mulheres locais e que, eventualmente, até acaba por se casar com uma delas. Já o pescador Rafael, é daquelas pessoas lunáticas, totalmente solitárias, que até é alvo de um certo gozo e desdém por parte daqueles com quem se cruza. Mas a vida tem caminhos insondáveis. E as emoções também.

Em Redes, de Audrey Caillat e Xico Santos - Escorpião Azul
E acaba por haver (?) uma relação amorosa não resolvida entre os dois homens. Nada que seja muito denunciado, panfletário ou que tente sequer politizar o tema da homossexualidade. Nada disso. Muito mais puro, honesto e subtil que tudo isso. Tal como no ato da pesca, apenas as redes são lançadas, cabendo ao leitor a sua própria reflexão sobre o tema. A sua própria "pesca".

O tempo era outro e se calhar nem passou pela cabeça dos dois homens envolverem-se para um relação amorosa assumida que, nos dias atuais, seria algo aceitável e relativamente normal. Mas os sentimentos são coisas difíceis de contrariar e fica muito bem presente, mas sempre com a maturidade e a classe que o tema também merece, que houve algo especial entre aquelas duas personagens.

A abordagem ao tema por parte dos dois autores, através de bons diálogos que deixam certas ideias no ar sem nunca as materializar ou através de belíssimos e inspirados desenhos, que tanto evocam, de Xico Santos, tornam a obra uma verdadeira beleza. Diria até que esta história daria um ótimo filme que, mantendo o mesmo tom, poderia ser um verdadeiro sucesso.

Como se o tema, as personagens e a relação platónica vivida não fosse algo já suficientemente bom de ver e evocar, a história liga bem os pontos ao encontrar, através da questão da demolição das casas, o evento certo para uma certa resolução, uma certa conquista, um certo "silver lining" para a relação entre ambas as personagens, já com o peso da idade, mostrando que um amor ou uma admiração entre duas pessoas pode existir durante toda uma vida, mesmo quando não existe uma relação física entre ambas. Bela mensagem.

Quanto às ilustrações de Xico Santos, devo dizer que a forma como o autor representa os ambientes locais, o mar, as embarcações e as personagens, através de um traço a preto e branco, com escala de cinzentos, bem mais confiante do que em Vil – A tragédia de Diogo Alves, tal como o modo como as suas ilustrações "respiram" calmamente, com uma boa gestão de silêncios ou da cadência do tempo, me pareceram muito convincentes e em total harmonia com aquilo que a história nos procura dar.

Relativamente à edição, também é bom ver que a Escorpião Azul tem vindo a estabilizar a qualidade e homogeneidade dos seus lançamentos: o livro apresenta capa mole, com badanas, e bom papel no interior, com boa encadernação e impressão. No final, há um caderno de extras, com oito páginas, em que nos são dados muitos esboços e estudos de personagem. Como elemento diferenciador, as páginas têm na sua extremidade um tratamento a cor azul - que simboliza a cor do mar, sempre presente na história - e que, mais uma vez, oferece beleza ao objeto-livro.

Em suma, Em Redes é uma bela, subtil e madura obra. Confesso-vos: o livro tinha despertado o meu interesse, mas honestamente não esperava que fosse tão bom. Dentro das bandas desenhadas nacionais lançadas até agora, em 2024, Em Redes está claramente entre as minhas preferências!


NOTA FINAL (1/10):
9.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Em Redes, de Audrey Caillat e Xico Santos - Escorpião Azul

Ficha técnica
Em Redes
Autores: Xico Santos e Audrey Caillat
Editora: Escorpião Azul
Páginas: 120, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Setembro de 2024