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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Análise: O Caso Alan Turing

O Caso Alan Turing, de Arnaud Delalande e Éric Liberge - Levoir

O Caso Alan Turing, de Arnaud Delalande e Éric Liberge - Levoir
O Caso Alan Turing, de Arnaud Delalande e Éric Liberge

O Caso Alan Turing foi o último livro a ser publicado na mais recente Coleção de Novelas Gráficas da editora Levoir. Sendo da autoria de Arnaud Delalande e Éric Liberge, mergulha-nos na história de Alan Turing, figura (agora) célebre que teve um contributo incomensurável para a decifração das mensagens codificadas pelo exército nazi durante a Segunda Guerra Mundial, o que, em consequência, foi decisivo para a vitória dos Aliados no conflito militar. 

Relembro até que esta história já foi retratada em cinema, com o filme The Imitation Game, com o ator Benedict Cumberbatch e, mesmo em banda desenhada, embora de forma mais livre, apareceu na muito recomendada banda desenhada Champignac - Enigma, de Béka e David Etien.

O Caso Alan Turing, de Arnaud Delalande e Éric Liberge - Levoir
Este O Caso Alan Turing é uma obra que combina narrativa gráfica e biográfica para retratar a vida do matemático britânico Alan Turing. A história centra-se no recrutamento de Turing pelos serviços secretos britânicos para decifrar os códigos da máquina Enigma, utilizada pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Este desafio monumental não só contribuiu decisivamente para a vitória dos Aliados, mas também lançou as bases da revolução informática. Talvez por esse motivo, se diga com propriedade que Alan Turing é o pai da computação moderna.

A narrativa mergulha-nos na vida de Turing, desde a sua tenra infância e juventude, e destaca a genialidade do mesmo, bem como a sua dedicação incansável ao trabalho, mesmo enfrentando obstáculos pessoais e profissionais. 

Um desses obstáculos prendeu-se com a sua homossexualidade que, então, era vista como um entrave à aclamação dos seus feitos pelos demais. E tanto assim o foi que, infelizmente, foi especialmente por essa homossexualidade que Alan Turing se viu irremediavelmente perdido num mundo onde não havia espaço para a sua maneira de estar perante a vida e perante o amor. Assim, após a guerra, em vez de ser celebrado como herói, Turing enfrentou uma constante perseguição devido à sua orientação sexual, culminando numa condenação por "indecência grave" e sendo submetido à castração química. Esses eventos trágicos levaram ao seu suicídio em 1954, uma perda gritante para a ciência e para a humanidade. O que é bastante triste de, no tempo atual, poder testemunhar. Que mundo este que criámos em que as escolhas sexuais de um indivíduo eclipsam e anulam a sua genialidade e todas as coisas boas que se tem para dar à humanidade. Enfim.

O Caso Alan Turing, de Arnaud Delalande e Éric Liberge - Levoir
Mas o livro não é apenas sobre a questão da sexualidade. Mostra-nos também o percurso universitário e profissional de Alan Turing e a forma inteligente como o mesmo pensava. O enredo é, pois, enriquecido com flashbacks que exploram a infância e a juventude de Turing, oferecendo uma compreensão mais profunda das motivações e desafios internos que moldaram a sua personalidade e trajetória. Turing era um autêntico génio e a sua forma de pensar permitiu criar as bases para a própria computação moderna que haveria de surgir mais tarde.

Por isso, a obra também procura destacar o reconhecimento póstumo de Turing. Décadas após a sua morte, vários cientistas de renome, incluindo Stephen Hawking, solicitaram ao governo britânico um pedido formal de desculpas pela maneira como Turing foi tratado. Embora inicialmente recusado, em 2013 a Rainha Isabel II concedeu-lhe mesmo um perdão real, reconhecendo a sua inestimável contribuição durante a guerra e o seu papel como pioneiro da computação moderna.

O Caso Alan Turing, de Arnaud Delalande e Éric Liberge - Levoir
Há um esforço do argumentista Arnaud Delalande (do qual, já temos publicada, pela Verbo, a obra Francisco) em tornar simples a linguagem e os processos de raciocínio de Turing em algo fácil de apreender. Ainda assim, por vezes a leitura deste livro torna-se desafiante, com balões carregados de texto e informações complexas, mas acho que, de um modo geral, a simplificação do tema foi bem conseguida - na medida do possível - e consegue combinar uma pesquisa meticulosa com uma narrativa envolvente. 

O estilo artístico de Éric Liberge é bastante original, oscilando entre o realismo e os elementos mais abstratos que refletem o estado emocional de Turing. As ilustrações capturam com precisão a atmosfera da época, desde os ambientes claustrofóbicos dos centros de decifração até aos momentos mais introspectivos do protagonista. O autor mistura dentro da mesma vinheta vários estilos, entre o desenho à mão e a introdução de diversos recursos digitai, como tramas, que, quanto a mim, oscilam entra a obtenção de resultados muito interessantes, em alguns casos, e uma artificialidade não tão bem-vinda noutros.

O Caso Alan Turing, de Arnaud Delalande e Éric Liberge - Levoir
A edição da Levoir apresenta capa dura baça e bom papel baço no miolo. O trabalho de encadernação e impressão também é consistente. Nota positiva para a inclusão de um extenso dossier de extras com 10 páginas que nos oferece mais informações sobre os eventos retratados na obra e sobre o longo processo de reconhecimento de Alan Turing.

Permitam-me uma nota sobre a capa do livro que me parece muito mal conseguida. Percebo a ideia de utilizar códigos para compor a silhueta de Alan Turing, mas parece-me que o exercício gráfico ficou aquém do desejável fazendo a capa parecer mais como uma mancha gráfica sem nexo do que outra coisa qualquer. A "culpa" desta opção não será da Levoir, que se limitou a seguir a capa original da segunda edição francesa da obra. Mesmo assim, parece-me óbvio que a capa da primeira edição da obra, que coloco aqui ao lado, resultava não dez, mas vinte vezes melhor. Não só em termos estéticos, como em termos de legibilidade.

Em suma, O Caso Alan Turing não é apenas uma biografia ilustrada, é uma reflexão profunda sobre temas como o dever, o amor não correspondido, a diferença, a solidão e a busca pela identidade. Através da vida de Turing, os autores exploram como a sociedade pode falhar em reconhecer e valorizar indivíduos que não se encaixam em normas estabelecidas, mesmo quando as suas contribuições são inestimáveis.


NOTA FINAL (1/10):
8.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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O Caso Alan Turing, de Arnaud Delalande e Éric Liberge - Levoir

Ficha técnica
O Caso Alan Turing
Autores: Arnaud Delalande e Éric Liberge
Editora: Levoir
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Novembro de 2024

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

A 8ª Coleção de Novelas Gráficas chega amanhã ao fim!


Amanhã é publicada, em conjunto com o jornal Público, a última obra daquela que foi a 8ª Coleção de Novelas Gráficas da Levoir!

A obra em questão é O Caso Alan Turing, de Arnaud Delalande e Éric Liberge, que versa sobre o célebre investigador e matemático Alan Turing, cujo contributo foi fulcral para decifrar as mensagens codificadas do exército nazi durante a Segunda Guerra Mundial. Sobre esta impressionante história já foi feito, em 2014, o filme The Imitation Game, com o ator Benedict Cumberbatch.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


O Caso Alan Turing, de Arnaud Delalande e Éric Liberge
A finalizar a VIII colecção de Novela Gráfica a Levoir e do Público escolheram O Caso Alan Turing, do escritor e argumentista Arnaud Delalande e do cartoonista Éric Liberge, prémio René-Goscinny em 1999.

Em 1938 os serviços secretos britânicos recrutaram um jovem e brilhante investigador de matemática: Alan Turing. A sua missão: decifrar os códigos da Enigma, a máquina utilizada para transmitir as instruções do Führer às suas tropas. Todas as tentativas anteriores para decifrar os códigos tinham falhado.

Era o maior desafio da vida de Alan Turing. Um confronto científico sem precedentes.

Em total secretismo, ele iniciou a tarefa. E foi bem-sucedido. Ao quebrar o código da Enigma, Turing deu aos Aliados uma vantagem decisiva e lançou as bases para a revolução dos computadores.

O seu sucesso deveria tê-lo levado ao pináculo da glória, mas teve de se esconder e permanecer na sombra.

Na Inglaterra puritana, a sua homossexualidade era uma marca de infâmia. Os tribunais condenaram-no à castração química. Em 7 de junho de 1954, um homem solitário e desesperado pôs fim à sua vida mordendo uma maçã envenenada.

No final da banda desenhada há um dossier documental que reconstitui e explora o seu percurso, em particular o, longo processo de reconhecimento, que se traduz agora em monumentos, na abertura de um museu informático em Bletchley e, sobretudo, no perdão real concedido pela rainha Isabel II em 2013, que o reconheceu oficialmente como "herói de guerra".

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Ficha técnica
O Caso Alan Turing
Autores: Arnaud Delalande e Éric Liberge
Editora: Levoir
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
PVP: 13,90€

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Análise: Francisco

Francisco, de Delalande, Bidot e Bertorello - Verbo (Grupo Babel)

Francisco, de Delalande, Bidot e Bertorello - Verbo (Grupo Babel)
Francisco, de Delalande, Bidot e Bertorello

Passando meio despercebido no vasto lançamento de álbuns de banda desenhada de 2021, apareceu nas livrarias portuguesas, no passado mês de Agosto, este Francisco que, pelas mãos de Delalande, e Bidot – e com a ajuda de Bertorello – procura ser uma biografia do Papa Francisco em banda desenhada.

Lançado pela Verbo, do grupo Babel, que lamentavelmente tem andado arredada do lançamento de banda desenhada, devo dizer que achei muito curiosa a aposta neste livro que estará, certamente, direcionado para um público muito específico. Não será tanto o público habitual de banda desenhada, mas o público que se interessa por assuntos da religião católica, ou de teor histórico-biográfico, já que estamos a falar de um retrato biográfico.

Mas se julgam que, sendo uma biografia de um Papa, podemos esperar uma vida aborrecida dedicada à oração e aos retiros espirituais, deixem-me, desde já, desenganar-vos: a vida de Jorge Bergoglio, o Papa Francisco, tem sido uma vida extremamente agitada, que tem conhecido um percurso sinuoso e que tem, até, convivido de perto com a violência. Não que Bergoglio seja – ou aparente ser – um homem violento, mas sim porque tem lutado de forma veemente contra certos grupos violentos.

Francisco, de Delalande, Bidot e Bertorello - Verbo (Grupo Babel)
E é, aliás, sobre esse ponto, que vão incidir os seus primeiros anos enquanto padre Bergoglio. O livro ainda começa antes disso, nos tempos em que Jorge era um rapaz completamente igual aos outros. Vivendo nas favelas de Buenos Aires, na Argentina, este jovem gostava de futebol, de estar com os amigos na rua, de tango e pensava ingressar no curso de medicina. E, claro, tal como todos os jovens adolescentes, também esteve apaixonado. No entanto, há um dia em que Jorge sente o chamamento para ser padre.

E é já enquanto padre que este livro nos mostra o quão ativo, em diversas frentes, Bergoglio tem sido. Especialmente no início das suas novas funções quando, num clima tenso de repressão militar e violência da libertação marxista, vivido nos anos 70 na Argentina, o padre promove uma teologia do povo, aproximando-se das pessoas, sem medo de defender os pobres e as vítimas da ditadura. Um verdadeiro corajoso. Especialmente num tempo em que os padres argentinos foram muitas vezes assassinados, como nos demonstra o livro.

Francisco, de Delalande, Bidot e Bertorello - Verbo (Grupo Babel)
E quando, para surpresa de muitos, Jorge Bergoglio é eleito Papa, passará a ser um Papa diferente dos seus antecessores, tomando posições a favor da ecologia, da biodiversidade, do acolhimento aos refugiados e procurando reformar o próprio Vaticano de certos maus hábitos, que aí se foram sedimentando, ao longo dos anos. Goste-se ou não da personalidade, é uma história de vida extremamente marcante e que merece ser conhecida.

O argumento é de Arnaud Delalande e Yvon Bertorello e consegue contar a história do Papa Francisco com bom ritmo. O livro lê-se bem embora, por vezes, me tenha parecido que houvesse um certo excesso de texto. Nota positiva para o facto de a história nos ser dada a dois tempos: o tempo passado, que conta o percurso de Bergoglio desde o início, e o tempo presente que nos coloca na fase de nomeação do protagonista enquanto Papa.

Quanto às ilustrações, o resultado é-nos dado por Laurent Bidot que faz, de forma geral, um trabalho bastante competente. Com uma planificação bastante diversificada, Bidot acaba por nos dar um conjunto variado de soluções narrativas que contribuem para que a leitura não se torne enfadonha. Muito pelo contrário. Na verdade, em muitos pontos, este parece ser mais um livro de ação do que um livro de uma figura eclesiástica. 

Francisco, de Delalande, Bidot e Bertorello - Verbo (Grupo Babel)
Nota positiva para a forma como o ilustrador soube representar de forma fidedigna as várias fases da vida do Papa Francisco. Quer em jovem, quer na meia idade, quer nos anos mais recentes. 

Embora seja um tipo de desenho que não é provido de muito detalhe, a verdade é que em algumas ilustrações – especialmente nas cenas de maior ação – o autor utiliza uma técnica original, em que as sombras são aplicadas com as pontas dos dedos. Se a técnica me parece peculiar e audaz – especialmente tendo em conta o tipo de livro em questão – por vezes, esta técnica também me pareceu que sujou em demasia os desenhos. Portanto, a sensação é dividida: nuns casos funciona muito bem, noutros casos o resultado parece meio que “estragado”. Mas é uma questão algo subjetiva, reconheço.

Resta ainda dizer que a edição da obra, pela Verbo, apresenta capa dura, um bom papel brilhante e uma boa qualidade ao nível da encadernação e impressão. Resta-me fazer votos para que a Verbo - ou a Arcádia, que também pertence ao Grupo Babel e tem deixado pendurada a excelente série de bd O Combóio dos Orfãos - volte a uma publicação de banda desenhada mais assídua.

Em suma, este Francisco é uma obra que é bem melhor do que aquilo que poderia parecer a muitos amantes de banda desenhada que, possivelmente, olharam de soslaio para esta obra. Uma agradável e competente surpresa.


NOTA FINAL (1/10):
7.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Francisco, de Delalande, Bidot e Bertorello - Verbo (Grupo Babel)

Ficha técnica
Francisco
Autores: Arnaud Delalande, Laurent Bidot e Yvon Bertorello
Editora: Verbo
Páginas: 96, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Agosto de 2021