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quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Análise: Livro do Desassossego

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP
Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer

A editora Levoir surpreendeu os leitores portugueses quando, por alturas do mais recente Amadora BD, anunciou o lançamento duplo da adaptação para banda desenhada de O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. Especialmente, se tivermos em conta que a coleção dos Clássicos da Literatura Portuguesa em BD já havia chegado ao fim, após a publicação do anunciado 15º volume.

Mas a Levoir decidiu continuar a coleção que convoca os grandes clássicos da literatura portuguesa para uma adaptação em banda desenhada e fê-lo com mais uma adaptação da obra de Fernando Pessoa, desta feita com argumento de Pedro Vieira de Moura e desenhos, no primeiro volume, de Susa Monteiro e, no segundo, de Bernardo Majer.

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP
O Livro do Desassossego
é uma obra literária única, caracterizada pela sua estrutura fragmentária e introspectiva. Não se trata, portanto, de um romance tradicional com enredo linear, mas de uma coleção de pensamentos, reflexões e observações. A obra explora a vida interior do narrador, a sua percepção da cidade, do tempo, da existência e da arte, revelando sentimentos de melancolia, tédio, solidão e um constante questionamento sobre a realidade e a identidade. A escrita é muitas vezes poética, filosófica e profundamente subjetiva, refletindo a complexidade da mente humana e a inquietação existencial de Fernando Pessoa.

A obra não segue uma ordem cronológica e reúne fragmentos que foram escritos ao longo de muitos anos, publicados postumamente. Como tal, é uma das obras mais enigmáticas de Fernando Pessoa, e esta adaptação em banda desenhada propõe um mergulho visual que respeita essa complexidade. Não estamos perante uma narrativa convencional, mas sim diante de uma experiência sensorial que acompanha a pulsação introspectiva do texto. Pedro Vieira de Moura conseguiu transformar a fragmentação da escrita pessoana em algo coeso o suficiente para que o leitor possa navegar pelo labirinto de pensamentos sem se sentir perdido.

Mas não vos vou mentir: este é um livro difícil de ler. A fragmentação do original exige concentração, atenção aos detalhes e paciência. É normal que muitas vezes nos percamos ou que nos pareça que a obra navega em demasia na maionese. Não obstante, a beleza desta adaptação é que não tenta simplificar ou adulterar a obra; pelo contrário, oferece-nos ferramentas visuais para acompanhar a introspeção de Pessoa, mantendo a essência desconexa que caracteriza a escrita do autor. 

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP
O primeiro volume abarca textos escritos sob o heterónimo Vicente Guedes, entre 1913 e 1919. Aqui, o trabalho de Susa Monteiro brilha. O seu estilo contemplativo encaixa-se na perfeição com a natureza abstrata do texto original e a densidade filosófica dos fragmentos iniciais. Cada página transmite um ritmo meditativo, quase hipnótico - bem em linha com aquilo que a autora já nos havia oferecido em Mensagem - que permite ao leitor sentir a Lisboa da época através da lente da subjetividade pessoana. A composição das ilustrações cria um diálogo silencioso entre palavra e imagem que é muito gratificante.

O segundo volume, dedicado a Bernardo Soares e aos fragmentos escritos entre 1929 e 1935, introduz um contraste visual evidente com o primeiro livro. Bernardo Majer imprime cores mais soturnas e uma representação do ambiente lisboeta que é complexa, mas também mais acessível para o leitor contemporâneo. O equilíbrio entre abstração e referência realista é notável, levando o leitor a conseguir perceber a cidade, o movimento das ruas e a solidão do heterónimo sem perder a intensidade poética do texto.

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP
A divisão da obra entre dois ilustradores foi arriscada por haver o perigo de se perder alguma continuidade visual. No entanto, o próprio caráter desconexo da obra funciona como uma espécie de "cola" entre os dois estilos de ilustração. Susa Monteiro domina a parte mais introspectiva e etérea, enquanto Bernardo Majer traz densidade e textura urbana à fase mais tardia da obra, tornando a transição aceitável e até enriquecedora. A mistura de dois ilustradores acabou por, embora arriscada, funcionar bem.

O trabalho de ilustração de Susa Monteiro cumpre as expectativas que eu já tinha do seu estilo: contemplativo, poético e belo. Já Bernardo Majer surpreendeu-me de forma muito positiva. A forma como usa a cor, as sombras e o próprio desenho, transmite aquela sensação de inquietação e fragmentação interna do narrador. Confesso que, em termos de desenho, este pode ser o meu livro preferido do autor até agora. Gostei mesmo muito.

Em termos de edição, o trabalho da Levoir está em linha com os outros livros desta coleção. Cada livro tem capa dura baça, bom papel brilhante no miolo, e boa encadernação e impressão. No final de cada livro há um dossier de extras - maior no segundo volume - sobre a obra, o autor e o contexto social de ambos.

Em suma, estes dois livros constituem um acréscimo importante à coleção de Clássicos da Literatura Portuguesa em BD da Levoir. Mantêm a integridade da obra original, oferecem novas vias de interpretação e leitura, e combinam de modo eficiente o talento de dois belos estilos de ilustração diferentes. Quem se aventurar neste Livro do Desassossego encontrará não apenas uma obra literária, mas também uma experiência visual e sensorial única, tão complexa, abstrata e fascinante quanto a própria obra original de Fernando Pessoa.


NOTA FINAL (1/10):
8.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens dos álbuns. www.instagram.com/vinheta_2020


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Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP

Fichas técnicas
Livro do Desassossego I
Autores: Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro
Baseado na obra original de: Fernando Pessoa
Editora: Levoir
Páginas: 58, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Outubro de 2025

Livro do Desassossego, de Pedro Vieira de Moura, Susa Monteiro e Bernardo Majer - Levoir e RTP

Livro do Desassossego II
Autores: Pedro Vieira de Moura e Bernardo Majer
Baseado na obra original de: Fernando Pessoa
Editora: Levoir
Páginas: 58, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Outubro de 2025

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Análise: Sete Mulheres, Sete Musas

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro
Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Pedro Moura, Rita Mota e Susa Monteiro

Com um lançamento algo discreto que certamente passou fora do radar de muitos leitores, A Seita e a Comic Heart editaram em junho a antologia Sete Mulheres, Sete Musas - Lírica de Camões que consiste num projeto coletivo que reúne vários autores portugueses de banda desenhada em torno de um mesmo propósito: revisitar a obra e o imaginário de Luís de Camões a partir de uma perspetiva visual contemporânea. 

Trata-se, pois, de uma iniciativa que procura aproximar a poesia camoniana de novos públicos, nomeadamente leitores mais jovens, e que, só por isso, é mais que bem-vinda, diria. Até porque se ainda há dúvidas sobre esta questão, este é mais um livro que mostra bem como a banda desenhada pode servir como meio de tradução e recriação literária, tornando acessível - ou, pelo menos, mais acessível - um universo poético tantas vezes considerado denso e distante como o de Camões.

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro
Assim sendo, a importância deste projeto reside nessa capacidade de renovar o olhar sobre Luís de Camões, e da tentativa de retirar o poeta do pedestal escolar, colocando-o de novo no espaço da experimentação artística. Para tal, foram convidados sete ilustradores para desenhar uma história sobre cada uma das mulheres que marcaram presença na obra de Camões. As suas musas, portanto. Esses ilustradores são Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro que ilustraram as histórias a partir do argumento de Pedro Moura, autor experiente neste tipo de obras.

Como seria esperado, um dos aspetos mais cativantes do livro é a sua diversidade estética. Cada autor oferece uma leitura singular das musas de Camões, propondo interpretações visuais que vão do figurativo ao abstrato, do lírico ao experimental. Essa variedade torna a leitura uma experiência rica, por vezes desconcertante, mas sempre estimulante. A heterogeneidade dos estilos revela, lá está, o potencial da BD enquanto espaço de liberdade criativa e de diálogo com outras artes.

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro
Entre as histórias que melhor equilibram clareza e densidade poética, destacam-se, quanto a mim, as de Daniela Viçoso e Miguel Rocha. Ambos os autores conseguem transpor para a linguagem da banda desenhada a musicalidade e a intensidade emocional dos versos de Camões, mas sem tornar o texto pesado ou excessivamente hermético. Coisa que acontece, infelizmente, noutras histórias do livro. A abordagem de Daniela Viçoso, mais narrativa e de forte influência mangá, permite que o leitor acompanhe a história com facilidade, enquanto Miguel Rocha aposta numa síntese expressiva de texto e imagem que traduz bem o sentimento amoroso e a melancolia do poeta. Os desenhos de Jorge Marinho, de quem já aqui foi analisado Os Contos de Miguel Torga : Um Roubo | Natal, também são muito impactantes, remetendo-nos para o grande mestre Sergio Toppi. Susa Monteiro, fiel ao seu estilo muito peculiar, também nos brinda com belos desenhos.

Nem todas as histórias conseguem, porém, atingir o equilíbrio necessário. Há autores que optam por caminhos mais abstratos e conceptuais, onde a dimensão visual se sobrepõe à narrativa. Estas histórias, embora visualmente interessantes, podem tornar-se difíceis de acompanhar e exigem do leitor um esforço interpretativo maior. Ainda assim, não deixam de ter valor (obviamente!), pois oferecem um exercício estético desafiante que convida à contemplação e à análise formal.

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro
Essa pluralidade de leituras e de intenções é, afinal, um dos pontos fortes da obra. Sete Mulheres, Sete Musas não procura impor uma leitura única de Camões, mas abrir um campo de possibilidades. Em cada história, o poeta é reinventado, questionado, reinterpretado. A multiplicidade das vozes autorais reflete a própria complexidade da figura camoniana, mostrando-se simultaneamente erudita e popular, clássica e moderna, universal e profundamente portuguesa.

Do ponto de vista editorial, o livro revela um tom algo académico, tanto pela seriedade do tema como pelo esforço de auto-contextualização através dos (longos) textos introdutórios de Cátia Verguete e Alexandra Lourenço Dias. No final, há ainda um interessante texto de Janek Scholz sobre a "historicidade na banda desenhada em língua portuguesa". De resto, o livro apresenta capa mole baça, com badanas, e um bom papel brilhante no seu miolo.

Em suma, Sete Mulheres, Sete Musas tenta levar Camões a novos públicos através de imagens e narrativas visuais que, embora desiguais na sua eficácia, revelam uma grande ambição estética e um profundo respeito pela poesia do autor. Vale a pena ser lido. E ainda que possa não conquistar o grande público, este é um livro necessário no panorama cultural português. Mostra que a banda desenhada é um meio maduro, capaz de dialogar com os grandes nomes da literatura e de oferecer novas formas de leitura e interpretação. A presença de um elenco notável de autores nacionais reforça essa ideia, celebrando a vitalidade da BD portuguesa e a sua capacidade de reinvenção.


NOTA FINAL (1/10):
7.7


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro

Ficha técnica
Sete Mulheres, Sete Musas
Autores: Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Pedro Moura, Rita Mota e Susa Monteiro
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 168 x 244 mm
Lançamento: Junho de 2025

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Análise: Os Lusíadas

Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos - Levoir e RTP


Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos - Levoir e RTP
Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos

Foi com o segundo volume de Os Lusíadas, a adaptação para banda desenhada da obra-prima de Luís de Camões, que a Levoir fechou a sua coleção dedicada aos Clássicos da Literatura Portuguesa em BD que a editora editou em parceria com a RTP.

Depois de lidos os dois volumes de uma só vez, para melhor poder imergir na obra, falo-vos hoje neste trabalho que junta o nome de seis autores nacionais! Um argumentista e cinco ilustradores! Algo que não vemos todos os dias!

Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos - Levoir e RTP
O que me leva já para à primeira observação de que, com este Os Lusíadas, estamos perante uma empreitada de enorme valor, quer do ponto de vista ludo-educativo, quer do ponto de vista conceptual e artístico. 

Trata-se de uma obra que se apresenta com um vigor estético que merece todas as vénias, uma vez que os vários ilustradores que participam neste trabalho conseguiram dotá-la de uma beleza ímpar e de uma inspiração conjunta, capaz de captar a atenção de leitores de diferentes idades e formações. A própria materialidade da obra, o seu desenho e composição, refletem uma intenção clara de transformar um clássico da literatura portuguesa numa experiência visual intensa e tão acessível quanto possível, tendo em conta o próprio estilo ilustrativo dos autores, claro está.

É natural que, em termos visuais, não se trate de uma obra homogénea, dado o número e diversidade dos estilos gráficos dos autores envolvidos. No entanto, neste caso concreto, essa diversidade não prejudica a continuidade narrativa; antes, contribui para enriquecer a obra. Os Lusíadas é, por si só, um texto repleto de camadas narrativas, episódios distintos e variações de tom, o que permite acomodar diferentes linguagens visuais sem que se quebre a unidade da história. A pluralidade de estilos acaba, pois, por refletir a própria complexidade e riqueza do poema original de Camões e, nesse sentido, podemos dizer que a escolha dos ilustradores foi uma aposta ganha.

Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos - Levoir e RTP
Miguel Rocha é o autor que, no somatório dos dois livros, ilustra o maior número de páginas, e o seu trabalho revela-se extremamente evocativo. As suas ilustrações conseguem transmitir a grandiosidade das aventuras marítimas, bem como os momentos de introspeção e de tensão narrativa, criando imagens que permanecem na memória do leitor. A força expressiva de Rocha marca a obra e serve como fio condutor para os diversos outros estilos que surgem depois ao longo do livro, garantindo uma base sólida.

Além do trabalho de Rocha, também as páginas de Daniel Silvestre se destacam através da intensidade e originalidade do seu traço, que confere a certas passagens uma expressividade singular, tornando-as visualmente memoráveis. É inequívoco o talento deste autor, que consegue equilibrar detalhe e dinamismo e, em termos de narrativa, opera como que uma nova passagem, um portal, para o próprio Luís de Camões enquanto personagem cativa dentro da sua própria obra. Refira-se ainda que sendo estilos bastante díspares, os de Miguel Rocha e de Daniel Silvestre, há paginas especialmente bem sucedidas na forma airosa e imaginativa como se passa de um universo para o outro de forma orgânica.

Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos - Levoir e RTP
João Lemos oferece páginas mais leves e refrescantes, proporcionando um contraponto bem-vindo às ilustrações mais densas ou dramáticas dos demais ilustradores. A sua abordagem é marcada por traços fluidos e uma paleta que transmite alegria, permitindo que certas passagens do poema, especialmente aquelas de caráter mais contemplativo ou narrativo, ganhem leveza e dinamismo.

No segundo volume, o trabalho de Xico Santos e Rami Tannous também merece louvor. Xico Santos imprime força e solidez através de uma abordagem de banda desenhada mais clássica na forma, enquanto Rami Tannous demonstra capacidade para dotar a obra de (mais) uma abordagem singular em termos pictóricos, que nos remete para um estilo de outro tempo e de outro lugar. Cada ilustrador traz algo distinto, mas complementar, contribuindo para que a adaptação seja não apenas visualmente apelativa, mas também diversificada e multifacetada.

A adaptação do texto de Camões ficou a cargo de Pedro Vieira de Moura, que já tinha desempenhado semelhante função noutros clássicos desta coleção, como Mensagem ou Sermão de Santo António aos Peixes. E Pedro Moura volta a ter mérito, conseguindo transportar a linguagem e a grandeza da epopeia para o formato da banda desenhada, preservando a essência da narrativa e os principais episódios de Os Lusíadas.

Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos - Levoir e RTP
Apesar da escolha acertada de dividir a adaptação em dois volumes, permanece, porém, um sentimento de incompletude quando terminamos a leitura. Ou de uma certa sensação de que fomos apenas presenteados com episódios soltos, sem que depois houvesse uma coluna vertebral que unisse todos os pontos. A densidade e riqueza do texto original exigem uma condensação, e ainda que a divisão seja compreensível, o resultado deixa a sensação de que há episódios ou detalhes que não foram plenamente explorados. 

Por outro lado, e apesar do que acabei de referir, assiste-se também a um sobrepovoamento de texto em muitas páginas que, embora necessário para manter fidelidade ao poema, pode afastar alguns leitores.

O excesso de texto em algumas páginas compromete, sem dúvida, o ritmo visual da banda desenhada. As vinhetas tornam-se carregadas e, em certos momentos, a leitura da imagem compete com a leitura do texto, diminuindo a fluidez narrativa. O que é que poderia ter atenuado este problema? É simples... um maior número de páginas. Ou, não as tendo, uma maior divisão da obra original, abdicando de mais momentos. Assim, como foi feito, ficamos pelo meio: tentou-se meter muita coisa em pouco espaço, mesmo tendo em conta que são dois os livros.

Quanto à edição, os livros apresentam capa dura baça, com bom papel brilhante no interior, e uma boa encadernação e impressão. O primeiro livro é complementado com um dossier informativo acerca da obra original de Camões e do seu contexto histórico, que é bastante relevante. 

O que também é relevante, mas pelas más razões, é que várias páginas do segundo livro se encontrem sem legendas, quando foram pensadas e trabalhadas para serem legendadas. Ora, isto é lastimoso para a experiência do leitor e põe em causa o bom trabalho da editora. Esta, tentou corrigir o erro apresentando uma errata com o texto em falta nas mencionadas páginas, numa tentativa de tornar menos penosa a situação para o leitor. Erros acontecem a toda a gente, bem sei, mas é na resolução dos mesmos e, por ventura mais importante ainda, na garantia que tal coisa não voltará a acontecer no futuro, que as editoras conquistam a confiança dos leitores. Infelizmente, também tinha acontecido coisa semelhante - embora menos badalada - com a mesma editora no livro Dorian Gray - que, por acaso, e com pena minha, é um livro belíssimo - em que também houve páginas com balões sem texto. Se tenho afirmado que, por vezes, certas queixas e críticas feitas à Levoir são injustas, outras há, como é o caso, que são indefensáveis. 

Abaixo, podem ver, à esquerda, um exemplo do que o livro acabou por ser e, à direita, aquilo que o livro seria se não tivesse havido este lamentável erro.

Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos - Levoir e RTP


Em síntese, a adaptação para BD, em dois volumes, de Os Lusíadas é uma obra de grande mérito artístico e conceptual. A pluralidade de estilos gráficos e o vigor estético da obra tornam-na rica e envolvente, enquanto a adaptação cuidadosa de Pedro Vieira de Moura garante uma ligação sólida com o poema original. Apesar de algumas limitações no ritmo e na quantidade de texto, bem como um lapso clamoroso com a edição da obra, esta é uma iniciativa louvável, que oferece aos leitores uma experiência visual e literária única, aproximando um clássico português das novas gerações e de um público mais amplo.


NOTA FINAL (1/10):
8.3




Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens dos álbuns. www.instagram.com/vinheta_2020




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Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos - Levoir e RTP

Fichas técnicas
Os Lusíadas - Primeira Parte
Autores: Pedro Moura, Daniel Silvestre, João Lemos e Miguel Rocha
Adaptado a partir da obra original de: Luís de Camões
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Outubro de 2024

Os Lusíadas, de Pedro Vieira de Moura, Daniel Silvestre, João Lemos, Miguel Rocha, Rami Tannous e Xico Santos - Levoir e RTP

Os Lusíadas - Segunda Parte
Autores: Pedro Moura, Daniel Silvestre, Miguel Rocha, Rami Tannous, Xico Santos
Adaptado a partir da obra original de: Luís de Camões
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Maio de 2025

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Já decorre a campanha de crowdfunding para a Umbra #5!



A campanha de crowdfunding para o lançamento impresso do quinto volume da antologia de banda desenhada Umbra já está ativa!

A campanha procura atingir 2.900€ para poder financiar a impressão do quinto número da antologia. Esta é uma das minhas antologias preferidas de banda desenhada, como tenho referido várias vezes.

A belíssima ilustração da capa é da autoria de Rita Alfaiate e poderemos encontrar histórias dos autores Vasco Colombo, Pedro Morais, Fernando Relvas, Pedro Moura, Marta Teives e Gustaffo Vargas.

Reservem já o vosso exemplar, contribuindo para a campanha de crowdfunding que pode ser encontrada, aqui.


Mais abaixo deixo-vos com as primeiras imagens do projeto que, por agora, são conhecidas.







quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Levoir lança "Os Lusíadas" em Banda Desenhada!


A Levoir acaba de lançar uma adaptação para banda desenhada da célebre Os Lusíadas, de Camões!

Este é mais um dos livros da coleção Clássicos da Literatura Portuguesa em BD que a editora tem vindo a lançar em parceria com a RTP.

Ao leme desta adaptação estão os autores Pedro Moura (que, da mesma coleção, também adaptou Mensagem, com Susa Monteiro), Daniel Silvestre, João Lemos e Miguel Rocha. E uma das coisas que me está a deixar bastante curioso com este livro em particular é que é desenhado a seis mãos, por três autores distintos. Algo que, convenhamos, é pouco comum na banda desenhada portuguesa.

Posso dizer que fiquei bastante agradado com as pranchas que já vi deste livro. Esta é a primeira de duas partes e espera-se que o segundo livro seja editado no primeiro trimestre de 2025.
Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais.


Os Lusíadas - Primeira Parte, de Pedro Moura, Daniel Silvestre, João Lemos e Miguel Rocha

A Levoir e a RTP editaram no passado fim-de-semana na abertura do Festival Amadora BD, Os Lusíadas, uma das obras mais importantes da literatura de língua portuguesa. A obra está integrada numa exposição em conjunto com Mensagem de Fernando Pessoa. 

Pedro Moura fez a adaptação do argumento e Daniel Silvestre, João Lemos e Miguel Rocha a ilustração deste primeiro volume.

Os Lusíadas foram escritos pelo poeta português Luís Vaz de Camões e publicados em 1572. Trata-se de um poema épico, que glorifica o povo português. Narra a descoberta do caminho marítimo para a Índia pelo navegador Vasco da Gama.

Camões nasceu em Lisboa, por volta de 1524. Em 1527, durante uma epidemia de Peste, em Lisboa, D. João III e a corte transferiram-se para Coimbra, os pais e Camões com apenas três anos, acompanharam o rei.

Luís de Camões viveu a sua infância na época das grandes descobertas marítimas e também no início do Classicismo em Portugal. Foi aluno do colégio do convento de Santa Maria e tornou-se um profundo conhecedor de história, geografia e literatura.

Em 1537, D. João III transferiu a Universidade de Lisboa para Coimbra. Camões iniciou o curso de Teologia, mas levava uma vida irrequieta, desordeira, além da fama de conquistador, mostrando pouca vocação para a Igreja.

Em 1544, com 20 anos, deixou as aulas de teologia e ingressou no curso de filosofia. Já era conhecido como poeta. 

Nessa época, compôs uma elegia à Paixão de Cristo, que ofereceu ao seu tio. 

Os seus versos revelam que estudou os clássicos da Antiguidade e os humanistas italianos.

Leitura obrigatória para o 9º ano.

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Ficha técnica
Os Lusíadas - Primeira Parte
Autores: Pedro Moura, Daniel Silvestre, João Lemos e Miguel Rocha
Adaptado a partir da obra original de: Luís de Camões
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
PVP: 15,90€

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Sermão de Santo António aos Peixes ganha versão em Banda Desenhada!


Já chegou às livrarias o novo livro da coleção dos Clássicos da Literatura Portuguesa em BD, da Levoir e da RTP!

Desta vez, estamos perante a adaptação para banda desenhada do Sermão de Santo António aos Peixes, de Padre António Vieira.

Este é o terceiro lançamento desta coleção e volta a trazer-nos Pedro Vieira de Moura na adaptação da obra original, que já tinha sido o argumentista de a Mensagem, de Fernando Pessoa. As ilustrações deste Sermão de Santo António aos Peixes ficaram a cargo de Bernardo Majer (autor de Estes Dias e de Toutinegra).

O livro já se encontra disponível em livraria.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa e com algumas imagens promocionais.

Sermão de Santo António aos Peixes, de Pedro Vieira de Moura e Bernardo Majer

A 13 de Junho de 1654, dia de Santo António, o Padre António Vieira prega no Maranhão, Brasil, o Sermão de Santo António aos Peixes, obra que a Levoir e a RTP editam a 2 de abril.

O autor, Padre António Vieira, foi missionário, teólogo, diplomata e orador, nasceu em Lisboa, em 1608. Em 1614, foi para o Brasil com a família, onde mais tarde ingressou no Colégio dos Jesuítas de Salvador, Baía. Foi ordenado padre, tendo iniciado a sua carreira de pregador em 1633.
Voltou a Portugal, onde participou ativamente na vida política, colocando-se em defesa dos cristãos-novos e despertando o ódio da Inquisição, o que resultou na sua prisão. É considerado o principal autor do barroco de Portugal e do Brasil. Grande orador, pregava com eloquência para índios, brancos, negros, brasileiros, africanos, portugueses, dominadores e dominados. Os seus sermões, apesar de quase sempre direcionados à pregação do cristianismo, também serviram às causas políticas do seu tempo, como a defesa do índio e da colónia.

O Sermão de Santo António aos Peixes, foi proferido na cidade de São Luís do Maranhão, na sequência de uma disputa com os colonos portugueses no Brasil. constitui um documento surpreendente de imaginação, habilidade oratória e poder satírico do Padre António Vieira. Com uma construção literária e argumentativa notável, o sermão tem como objetivo louvar algumas virtudes humanas e, principalmente, censurar com severidade alguns vícios dos colonos.

O Sermão de Santo António aos Peixes, faz parte das leituras do 11º ano.~

Pedro Vieira de Moura, argumentista deste livro, de Mensagem e também de Os Lusíadas, é docente (presentemente Escola Superior de Arte e Design-Caldas da Rainha, Universidade do Algarve, Escola Superior Artística do Porto e Ar.Co), investigador académico, crítico, ensaísta, documentarista, comissário de exposições e galerista, semi-editor e lojista ocasional.

A banda desenhada é da autoria do ilustrador/designer Bernardo Majer, nascido em 1990. Bernardo Majer tirou a licenciatura de Design de Comunicação na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, e trabalha como designer gráfico na VMLY&R Branding desde 2014. Foi vencedor da Melhor Obra de Banda Desenhada de Autor Português no Festival Amadora BD em 2022.

Para o dossier pedagógico foi escolhido o Professor Dr. João Paulo Braga investigador do Centro de Estudos Filosóficos e Humanísticos, Universidade Católica Portuguesa.

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Ficha técnica
Sermão de Santo António aos Peixes
Autores: Pedro Vieira de Moura e Bernardo Majer
Adaptado a partir da obra original de: Padre António Vieira
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
PVP: 15,90€

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Análise: Mensagem

Mensagem, de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro - Levoir - RTP

Mensagem, de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro - Levoir - RTP
Mensagem, de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro

Começo por dizer o óbvio: adaptar para banda desenhada Mensagem, de Fernando Pessoa, essa obra incontornável da literatura portuguesa, parece-me um verdadeiro cabo dos trabalhos. Uma demanda verdadeiramente hercúlea! Não só por ser um trabalho em poesia, com um texto complexo e rico, e com um tema histórico-contemplativo, mas também por ser uma obra carregada de insinuações, interpretações, misticismos e mensagens subliminares. E, ainda por cima, é uma obra onde o seu texto assenta, em termos de forma, numa estrutura bastante rígida. Digo-vos mais ainda: não sei se consigo pensar numa obra da literatura portuguesa mais difícil de adaptar para banda desenhada. Não me espanta por isso que, Silvia Reig, responsável da editora Levoir, que edita esta obra na sua coleção de Clássicos da Literatura Portuguesa em BD, tenha referido numa entrevista que deu à televisão (!) que houve um primeiro argumentista que acabou por desistir da ideia de adaptar para banda desenhada esta obra de Fernando Pessoa. Esse argumentista não fui eu… mas bem que podia ter sido!

Mensagem, de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro - Levoir - RTP
O trabalho acabou por ficar assente nos ombros de Pedro Vieira de Moura que, sabiamente, fez as escolhas certas na forma como abordou a emblemática obra de Fernando Pessoa. O trabalho de Vieira de Moura foi, por isso, bastante sóbrio e acertado, quanto a mim.

É claro que, como quase tudo o que Fernando Pessoa escreveu, há nesta - e em qualquer outra - adaptação de Mensagem uma verdadeira dose de interpretação, tal não é profundo e profícuo o universo ao qual o maior autor da literatura portuguesa de sempre nos convida a entrar nesta obra. Sim, eu sei: foram muitos os estudiosos e académicos que interpretaram e decifraram as analogias, figuras de estilo e mensagens subliminares contidas na própria Mensagem. No entanto – e nem tentem dizer-me o contrário! – os estudos que se fazem sobre esta obra são sempre meramente especulatórios e potencialmente redutores. Ainda assim, pode-se afirmar com propriedade que a obra reflete sobre a identidade nacional de Portugal, explorando temas como a história, a mitologia, a religião e a saudade. Tudo isto são elementos intrínsecos à cultura portuguesa e são-nos dados por Fernando Pessoa através de um rico e complexo relato poético.

Mensagem, de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro - Levoir - RTP
Pedro Vieira de Moura optou por deixar o texto como ele é, tentando respeitar também as três partes que dividem a obra: “Brasão”, “Mar Português” e “O Encoberto”. Para isso, o autor decidiu incluir no cimo das pranchas uma referência às partes concretas do poema a que as pranchas dizem respeito. Foi uma escolha acertada, pois não só serve como uma certa forma de mapeamento do próprio momento da obra em que estamos, como acaba por ter um cariz didático. Estou a imaginar um jovem que está a estudar a Mensagem na escola e, com esta banda desenhada, e graças às tais referências de que falo, consegue visualizar e, quiçá, perceber melhor as palavras do mestre Fernando Pessoa.

Pedro Vieira de Moura poderia ter interpretado, por palavras suas, o significado da Mensagem, mas optou, e bem, por se resguardar dessa empreitada, sendo fiel ao texto original da obra. Todavia, obviamente, em termos de ilustração visual, teve que haver uma interpretação mais direta das palavras. E, portanto, nessa vertente acaba por haver toda uma conjetura - também ela potencial alvo de subconjeturas. Para isso, coube, portanto, à ilustradora Susa Monteiro - em estreita colaboração com Pedro Vieira de Moura, imagino – o desenho de tais momentos.

E que belas ilustrações Susa Monteiro nos oferece neste Mensagem! Digo até mais, Susa Monteiro foi o casting perfeito para este livro. Até porque o estilo de ilustração da autora, podendo não ser o mais ajustado para outros tipos de banda desenhada, encaixa que nem uma luva numa adaptação deste gabarito.

Mensagem, de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro - Levoir - RTP
Com efeito, quem conhece o estilo de desenho da autora, verá facilmente o quão fiel a ele mesmo a autora se revela neste livro. O traço é simples – mas não tão simples como, à primeira vista, pode parecer - de cariz naïf, envergando o estilo perfeito para que mergulhemos nesses tempos idos, relembrados e reinterpretados por Fernando Pessoa. Mesmo em termos de planificação, a autora utiliza várias opções narrativas de algum arrojo, que se encaixam muito bem no espírito da obra: seja a utilização de uma espada para separar quatro vinhetas, a opção por ilustrações de página dupla ou a utilização de vinhetas de todas as dimensões, em que as de maior tamanho surpreendem pela beleza.

É verdade que, a certa medida, são ilustrações que se apresentam algo estáticas quando se pretende passar qualquer ideia de movimento, mas, lá está, tendo em conta a natureza contemplativa e interpretativa de um texto já de si contemplativo de um passado lusitano de glória, acaba por funcionar muito bem.

Em todas as páginas encontramos uma beleza simples e, portanto, carregada de Portugalidade nos desenhos de Susa Monteiro. As próprias guardas do livro, sendo lineares, transmitem beleza e um saboroso aperitivo para o que aí vem. E tenho que dizer que algumas das partes mais conhecidas deste extenso poema de Fernando Pessoa, como por exemplo, a do “Oh Mar Salgado…” estão representadas de forma exímia por Susa Monteiro.

Mensagem, de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro - Levoir - RTP
Quanto à edição da Levoir, temos um livro em capa dura baça, com bom papel no miolo e boa impressão e boa encadernação. No final, e tal como já acontecera na anterior coleção Clássicos da Literatura em BD, temos um muito bem traçado dossier informativo, onde são dadas informações sobre a obra, sobre o autor e sobre o contexto histórico em que o mesmo viveu. E isto, naturalmente, engrandece a qualidade da proposta editorial.

A coleção é parecida à anterior dos Clássicos da Literatura em BD, mas apresenta algumas diferenças. Em termos visuais, as capas são agora coloridas. Parece-me uma boa opção, que as torna apelativas e menos frias. O lettering dos títulos continua a ocupar a grande mancha da capa. Ainda que admita que o aspeto é apelativo e, especialmente, original, não posso deixar de apontar que, na parte inferior da capa, a informação referente ao nome da coleção, ao nome dos autores e à utilização dos logótipos da Levoir e da RTP está muito mal arrumada em termos de grafismo. Diria que funcionaria muito, mas mesmo muito melhor, se tivesse sido utilizado um belo friso horizontal que tivesse toda esta informação de uma forma com um mínimo de aprumo na arrumação dos elementos gráficos. Mesmo assim, destaca-se a boa opção de dar destaque, na capa, aos autores responsáveis pela adaptação.

Mensagem, de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro - Levoir - RTP
E, pondo os detalhes sobre o grafismo da edição em segundo plano, importa dizer que esta coleção é uma grande aposta por parte da Levoir! E que aplaudo veementemente! Não só por se centrar na cultura portuguesa, como por ser feita (adaptada) por autores maioritariamente portugueses. A escolha de obras parece-me interessante, com nomes incontornáveis como Fernando Pessoa, Luís de Camões, Gil Vicente, Almeida Garret, Fernão Mendes Pinto, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco ou Alexandre Herculano mas, ainda assim, pergunto-me se, em vez da aposta em algumas obras que, não obstante o seu valor literário inquestionável, têm menos appeal comercial, não teria sido interessante a introdução de obras de autores mais contemporâneos - embora igualmente clássicos - como José Saramago, Aquilino Ribeiro, Vergílio Ferreira, António Lobo Antunes, José Cardoso Pires, Sophia de Mello Breyner Andresen, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Miguel Torga ou Agustina Bessa-Luís, por exemplo. Espanta-me especialmente que não exista uma adaptação de um dos romances do único Prémio Nobel da literatura portuguesa quando se lança uma coleção que procura adaptar os Clássicos da Literatura Portuguesa. Mas, talvez me esteja a adiantar nesta minha análise e talvez estes nomes que elenco já estejam pensados para uma potencial segunda coleção. Atenção: isto é meramente uma especulação da minha parte. Mas leram-na aqui em primeiro lugar.

Em suma, Mensagem abre bem a coleção de Clássicos da Literatura Portuguesa em BD. Sendo uma obra de inquestionável dificuldade de adaptação para banda desenhada – ou para qualquer outro meio – devo dizer que o trabalho conjunto de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro me convenceu. Tal como, aliás, me convence esta coleção e toda a pertinência que a mesma tem para Portugal, dando uma achega na interpretação dos clássicos e permitindo, quiçá, a introdução à banda desenhada por parte de uma larga franja de leitores que, de outra forma, poderia não cruzar caminhos com a 9ª arte.


NOTA FINAL (1/10):
8.4



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Mensagem, de Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro - Levoir - RTP

Ficha técnica
Mensagem
Autores: Pedro Vieira de Moura e Susa Monteiro
Adaptação a partir da obra original de: Fernando Pessoa
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Janeiro de 2024