Mostrar mensagens com a etiqueta Charles Schulz. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Charles Schulz. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Análise: O Indispensável de Snoopy

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz

Falar de Peanuts é falar de um dos pilares fundamentais da história da banda desenhada em tiras e, por arrasto, da própria cultura popular do século XX. Criadas por Charles M. Schulz em 1950, estas histórias aparentemente simples, publicadas diariamente em jornais, tornaram-se rapidamente um espaço de reflexão sobre a condição humana, embalado por um humor seco, uma melancolia especial e uma lucidez rara. 

Parece-me até que foi Schulz o primeiro autor a perceber que algo simples como uma tira podia ser espaço para uma profundidade emocional e filosófica, mesmo quando protagonizada por crianças e um cão. Depois apareceram muitas outras tiras humorísticas ao longo dos anos - das quais destaco, pela sua qualidade, Mafalda, de Quino, ou Calvin and Hobbes, de Bill Watterson - que até podem ter ido mais longe em termos de profundidade nos temas, mas não há como negar a relevância cultural de Snoopy, Charlie Brown e companhia. 

Sim, de todas as personagens marcantes da série, o cão de Charlie Brown, Snoopy, sempre foi a mais popular. Talvez seja por isso que este livro não se chama "O Indispensável de Peanuts", mas "O Indispensável de Snoopy". E mesmo admitindo que talvez o nome mais ajustado fosse o primeiro, compreendo que, do ponto de vista comercial, "Snoopy" seja uma marca ainda mais forte e sonante do que "Peanuts".

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
Ao longo de décadas, Peanuts foi muito mais do que entretenimento ligeiro. Schulz construiu um universo coerente, recorrente e reconhecível, onde a repetição era uma ferramenta narrativa e não um defeito. Através de pequenas variações sobre os mesmos temas, o autor soube criar uma obra que cresceu com os seus leitores, acompanhando transformações sociais, culturais e até políticas, sem nunca perder a sua identidade.

Isto não esquecendo que, além do meio específico, Peanuts infiltrou-se profundamente na cultura pop. Snoopy, Charlie Brown e companhia tornaram-se ícones transversais, reconhecidos muito para lá das páginas dos jornais: animação, cinema, merchandising, música, moda, entre outros.

A juntar a isso, a série tem sabido manter-se atual mesmo depois do falecimento do seu criador, Charles M. Schulz, há mais de 25 anos. Talvez seja essa relação íntima entre simplicidade gráfica e complexidade emocional aquilo que melhor explica a longevidade e a atualidade de Peanuts. Schulz falava de crianças, mas escrevia claramente para adultos; fazia rir, mas quase sempre com um travo amargo. A sua obra é um espelho desconfortável, onde nos revemos sem a beleza que, por ventura, gostaríamos de encontrar, mas com uma honestidade desconcertante.

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
É neste contexto que surge O Indispensável do Snoopy, a edição portuguesa comemorativa dos 75 anos de Peanuts, lançada no passado mês de outubro pela editora Iguana (chancela do grupo Penguin).

Esta bela edição assume desde logo uma ambição clara: não apenas reunir tiras icónicas, mas celebrar uma obra maior. Trata-se de uma edição de luxo, com capa dura, bom papel e um cuidado gráfico que faz justiça à importância histórica e afetiva do material reunido.

Esta não é apenas uma antologia “best of”. É um objeto pensado, organizado e contextualizado, que procura dar ao leitor uma visão abrangente da evolução de Peanuts ao longo das décadas. As tiras estão organizadas cronologicamente, permitindo perceber como Schulz foi afinando o seu traço, o seu humor e a sua visão do mundo, sem nunca trair os fundamentos da série.

A personagem de Snoopy, naturalmente, ocupa aqui um lugar central. As suas múltiplas personas, como o ás da aviação da Primeira Guerra Mundial, o escritor fracassado de máquina de escrever ou o filósofo solitário no topo da casota, são apresentadas não apenas como gags recorrentes, mas como construções narrativas com peso simbólico. Esta contextualização transforma o livro num verdadeiro objeto de estudo, revelando camadas que muitas leituras rápidas tendem a ignorar.

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
O volume inclui ainda uma introdução geral à série e textos dedicados a cada uma das personagens principais: Charlie Brown, Linus, Lucy, Woodstock, Schroeder, Peppermint Patty, Sally, Marcie, entre outras.

Outro dos méritos desta edição é a inclusão de textos introdutórios para cada década, que enquadram histórica e artisticamente as tiras selecionadas. Estes textos ajudam o leitor a perceber como Peanuts dialoga com o seu tempo, refletindo mudanças sociais subtis, sem nunca se tornar panfletário ou datado. Há ainda algumas citações de Charles M. Schulz, que ajudam a compreender melhor as intenções do autor e a forma como via as suas próprias criações.

É certo que, ao contrário da edição de integral de Mafalda, de Quino, lançada em 2024 também pela Iguana, este livro não traz a obra completa de Peanuts. Mas isso, digo eu, talvez não fosse o mais adequado a fazer, dado que a série é muito grande e seriam necessários 26(!) livros com 300(!) páginas para que tivéssemos a coleção completa. Não me parece minimamente viável para o mercado português. Um best of bem feito, como é o caso, parece-me a melhor opção, tendo esta edição a capacidade de funcionar bem a vários níveis: como porta de entrada para novos leitores, como objeto nostálgico para quem cresceu com estas personagens e como um documento histórico, cultural e artístico. 

Estamos, pois, perante uma bela e equilibrada edição, daquelas que justificam plenamente a sua existência física num tempo de consumo rápido e descartável. Um livro que toda a gente devia comprar ou oferecer, não apenas pelo carinho que Snoopy e os seus amigos continuam a merecer, mas porque Peanuts permanece, 75 anos depois, tão indispensável quanto sempre foi.


NOTA FINAL (1/10):
9.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



-/-

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House

Ficha técnica
O Indispensável do Snoopy
Charles M. Schulz
Editora: Iguana
Páginas: 384, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 280 mm
Lançamento: Outubro de 2025

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Vem aí livro de Snoopy com quase 400 páginas!



A Iguana, chancela do grupo Penguin, prepara-se para lançar, no próximo dia 6 de Outubro, um volumoso livro dedicado a Snoopy, figura maior da série Peanuts, da autoria de Charles M. Schulz!

Relembro que, recentemente, a editora até tem estado a editar alguns livros relativamente pequenos dedicados a Snoopy ou a Charlie Brown, mas é neste livro, com quase 400 páginas, que a editora procura reunir um bom e alargado conjunto de histórias do divertido cão, numa edição de colecionador, que assinala os 75 anos da célebre série.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse e com algumas imagens promocionais.

O Indispensável do Snoopy, de Charles M. Schulz

75.º aniversário - Um livro indispensável para quem já conhece o Snoopy… e para quem está prestes a apaixonar-se.

Snoopy, o beagle mais sonhador, irreverente e adorável da história da banda desenhada, conquistou gerações com a sua imaginação transbordante e o seu charme inigualável.

Neste volume comemorativo, celebramos os 75 anos dos Peanuts com uma seleção das melhores tiras protagonizadas pelo Snoopy e os seus inseparáveis companheiros — Charlie Brown, Woodstock, Linus, Lucy, Sally e tantos outros.
Organizadas por décadas, estas tiras dão-nos o prazer de reencontrar as múltiplas facetas do Snoopy: o ás da aviação da Primeira Guerra Mundial, o escritor fracassado de máquina em riste, o amigo fiel (mas nem sempre obediente), o filósofo do alto do telhado da sua casota.

Criadas pelo mestre Charles M. Schulz, estas vinhetas misturam humor, ternura e um subtil olhar crítico sobre a condição humana — tudo visto a partir da perspetiva única de um cão que vive no seu próprio mundo (e ainda bem!).

Os elogios da crítica:

«O Snoopy é mais do que um cão: é um filósofo, um poeta e um herói.»
Time

«A genialidade de Schulz estava em mostrar que os dilemas de um cão e de uma criança são, na verdade, os dilemas de todos nós.»
The Guardian

«A poesia dos Peanuts resulta do facto de encontrarmos nas suas personagens infantis todos os problemas e sofrimentos dos adultos, que só são verbalizados pela boca das crianças após passarem pelo filtro da inocência.»
Umberto Eco

«Snoopy, o cão mais fixe do mundo!»
The Washington Post


-/-

Ficha técnica
O Indispensável do Snoopy
Charles M. Schulz
Editora: Iguana
Páginas: 384, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 280 mm
PVP: 30,95€

segunda-feira, 31 de março de 2025

Análise: Peanuts - Volta, Snoopy!

Peanuts - Volta, Snoopy!, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House

Peanuts - Volta, Snoopy!, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
Peanuts - Volta, Snoopy!, de Charles M. Schulz

Volta, Snoopy! marca o regresso de uma das mais célebres séries de tiras humorísticas às livrarias portuguesas: a série Peanuts que, para além de Snoopy, conta com um vasto conjunto de personagens famosas, como Charlie Brown, por exemplo, que marcaram várias gerações desde o seu lançamento. A obra volta agora pelas mãos da editora Iguana que, à semelhança daquilo que já fez com Mafalda, de Quino, volta a apostar num clássico. Há, pois, obras que merecem estar sempre disponíveis e Peanuts é uma delas.

Este livro reúne tiras que, originalmente publicadas em jornais entre os anos de 1962 e 1965, retratam as aventuras e desventuras de Snoopy, o carismático beagle, e do seu dono, Charlie Brown. À boa maneira do trabalho executado na plena de longevidade série Peanuts, o autor Charles Schulz utiliza o humor e a sensibilidade para abordar temas universais como a amizade, a solidão, o fracasso, a perseverança e muitos outros temas mundanos.

Peanuts - Volta, Snoopy!, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
Podemos considerar que, entre histórias, há uma narrativa conjunta, embora as tiras que nos são dadas sejam independentes entre si, o que faz com que este seja um livro apetecível para abrir de forma aleatória e descobrir um gag que nos surpreende e nos deixa com um sorriso na face. Por outro lado, isso também gera uma certa desconexão entre histórias, fazendo com que, naturalmente, algumas piadas funcionem melhor do que outras ou que a envolvência entre o que é retratado numa história e o próprio leitor vá variando em impacto. 

Cada breve história é constituída por quatro vinhetas que nos oferecem diálogos afiados e expressões marcantes, mantendo a leveza e o humor típicos da série. Além disso, há uma notável economia de palavras e desenhos, algo que reforça a genialidade do autor ao transmitir emoções profundas com traços simples.

Peanuts - Volta, Snoopy!, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
Um dos aspectos mais cativantes deste livro é a personalidade multifacetada de Snoopy. Este simpático cão tem uma imagem de si mesmo como um aventureiro destemido, mas, ao mesmo tempo, não esconde a sua afeição pelo conforto do seu lar e dos seus amigos. "Cão que ladra, não morde". A dualidade entre independência e apego emocional é, pois, um dos pontos centrais do livro e ressoa com leitores de todas as idades, pois reflete dilemas humanos comuns.

Outro ponto de destaque é a forma como Schulz equilibra melancolia e humor. Apesar de o livro tratar de temas como solidão e rejeição, a abordagem nunca se torna excessivamente pesada. O autor consegue arrancar risos e, ao mesmo tempo, provocar reflexões subtis sobre o significado de pertença e amizade.

Peanuts - Volta, Snoopy!, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
E embora Charlie Brown, Lucy, Linus, Schroeder e Woodstock também façam a sua aparição neste Volta, Snoopy!, o mesmo assume-se como especialmente dedicado à personagem de Snoopy. Coisa que, a meu ver, neste regresso da obra, faz todo o sentido, pois nenhuma personagem da série é mais popular do que Snoopy - nem mesmo Charlie Brown.

Reconheço que, como ponto menos positivo, há uma certa previsibilidade nas histórias. Razão pela qual a leitura conjunta do livro, de uma ponta à outra, se possa tornar repetitiva, concedo. Mesmo assim, o brilho de muitas histórias mantém-se intacto passados tantos anos, o que atesta a qualidade do material.

Peanuts - Volta, Snoopy!, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
A edição da Iguana é em capa mole com badanas, com bom papel, impressão e encadernação. Nota positiva para o facto da editora portuguesa estar a aproveitar (e a capitalizar) uma lacuna no nosso mercado recente de banda desenhada que é - ou, melhor dizendo, era - a das tiras humorísticas. Tirando as constantes reimpressões de Calvin & Hobbes que a Gradiva vai fazendo, não estavam a sair muitas obras de tiras humorísticas em Portugal. E em pouco mais de um ano, a Iguana assegurou que quer Mafalda, quer Peanuts, voltam a estar presentes nas livrarias portuguesas.

Concluindo, Volta, Snoopy! é uma leitura encantadora com o potencial de, nos tempos correntes, conseguir chegar a leitores de todas as idades. Através do estilo simples e inteligente de Schulz, a obra capta bem a essência das personagens e a beleza das pequenas coisas da vida. É um convite aos novos leitores, por um lado, e, para os fãs antigos de Peanuts, é um livro que oferece uma experiência nostálgica e, ao mesmo tempo, atemporal, reafirmando o legado duradouro de Charles Schulz na literatura e na cultura popular.


NOTA FINAL (1/10):
7.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020




-/-


Peanuts - Volta, Snoopy!, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House

Ficha técnica
Peanuts - Volta, Snoopy!
Autor: Charles M. Schulz
Editora: Iguana
Páginas: 136, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 200 x 220 mm
Lançamento: Março de 2025

segunda-feira, 3 de março de 2025

Série "Peanuts" está de volta!


A série Peanuts, de Charles M. Schulz, volta a ver as suas tiras humorísticas serem publicadas em Portugal!

Desta vez, isso acontece pelas mãos da Iguana (Grupo Penguin) que, relembro, já por altura do último natal lançou O Guia de Peanuts para o Natal, um breve e pequeno livro que também se centrava na personagem de Snoopy.

O centro deste novo livro, conforme o nome assim faz perceber, volta a ser Snoopy, o célebre cão do também célebre - embora em dimensão menor - Charlie Brown.

Nota-se que a Iguana está a aproveitar uma franja de mercado - a das tiras humorísticas clássicas - que andava um pouco esquecida no mercado nacional.

Nota positiva, portanto, para esta aposta da editora portuguesa que, deste modo, torna disponíveis obras obrigatórias.

O livro chega hoje às livrarias!

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa e com algumas páginas promocionais.


Peanuts - Volta, Snoopy!, de Charles M. Schulz

A personagem de banda desenhada que conquistou várias gerações com as suas tiras repletas de humor está de volta, juntamente com o seu grupo de amigos.

Descubra o mundo de Snoopy enquanto ele luta para salvar a sua estimada casota, se faz de abutre para impor respeito, chuta bolas para aliviar a alma, põe óculos para assumir um estatuto superior… isto quando não está a dançar, a evitar gatos ou a refletir sobre os caprichos da vida.
Com muitas personagens incontornáveis da banda desenhada, incluindo Snoopy, Woodstock, Charlie Brown, Lucy, Schroeder, Linus, Susan Brown e Shermy, esta seleção de tiras dos Peanuts convida os leitores a viajar pelo universo imaginário do cão mais querido de todos os tempos, apreciando o humor inteligente, irónico e, por vezes, fantástico de Charles M. Schulz.

Este livro reúne uma seleção de tiras dos Peanuts publicadas em diferentes jornais entre 1962 e 1965, criadas com o humor inteligente, irónico e único de Charles M. Schulz.
«A poesia dos Peanuts resulta do facto de encontrarmos nas suas personagens infantis todos os problemas e sofrimentos dos adultos, que só são verbalizados pela boca das crianças após passarem pelo filtro da inocência.»
Umberto Eco

-/-

Ficha técnica
Peanuts - Volta, Snoopy!
Autor: Charles M. Schulz
Editora: Iguana
Páginas: 136, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 200 x 220 mm
PVP: 14,35€

quarta-feira, 10 de março de 2021

Análise: Snoopy #16 – A Peanuts Collection

Snoopy #16 – A Peanuts Collection, de Charles M. Schulz - Planeta DeAgostini


Snoopy #16 – A Peanuts Collection, de Charles M. Schulz - Planeta DeAgostini
Snoopy #16 – A Peanuts Collection, de Charles M. Schulz

A Planeta DeAgostini apanhou todos desprevenidos quando, no início de Março, lançou em Portugal a coleção Snoopy – A Peanuts Collection, que reúne em 61 volumes, as tiras dominicais que o célebre Charles M. Schulz, lançou ao longo de 50 anos.

E se esta série depressa chegou ao mercado português, depressa gerou igualmente polémica e críticas por parte de leitores, blogs e sites especializados em banda desenhada. Há coisas mal conseguidas nesta série, sem dúvida, mas diria que o grande calcanhar de Aquiles desta coleção é o preço ou o modelo de negócio que a mesma traz consigo.

As (muitas) críticas que li na internet apontam como erros nesta coleção a língua utilizada (português do Brasil), o nome da coleção (Snoopy em vez de Peanuts), as vinhetas pixelizadas, o papel de baixa qualidade, a ordem de lançamento dos volumes (cujo primeiro livro lançado em banca é o volume 16) e o preço, claro.

Todas estas coisas apontadas são verdade, sim. Mas aquele que, para mim, é o grande problema desta coleção é, sem dúvida, o preço. E isso, por si só, creio, fará com que a série não tenha o sucesso que, certamente, a Planeta DeAgostini, esperaria.

Senão vejamos: cada livro tem 64 páginas a preto e branco e custa, excetuando a primeira e segunda entrega, 9,99€. O que faz com que a série, no total custe 597,39€. E parece-me um preço excessivo mesmo que a edição fosse: a) em português de Portugal; b) com o nome Peanuts; c) sem qualquer vinheta pixelizada; d) com papel de melhor qualidade; e e) com a ordem de lançamento ajustada.

Snoopy #16 – A Peanuts Collection, de Charles M. Schulz - Planeta DeAgostini
O real problema desta série é mesmo o preço. Ainda para mais, acaba por ter um preço injusto para com os leitores portugueses, se tivermos em conta que, no Brasil, a mesma série, com os mesmos problemas, tem o custo unitário de 7,29€. “Ah, mas a editora tem custos de handling, de transporte e tal... com a colocação dos livros em Portugal”. Pois, talvez. Mas quanto a isso, não considero que seja razão suficiente para aumentar tanto o preço. Parece que a diferença entre 7,29€ e 9,99€ não é muita, certo? Num só volume até não é muita, de facto, mas no total da coleção são 159,3€! Sim, leram bem! Cada leitor paga mais 159€ pela mesmíssima coleção que sai no Brasil. A menos que cada livro venha em jato privado, é uma diferença pornográfica no preço. Ultrajante, mesmo. E das duas uma: eu até aceitaria os 159€ adicionais se a coleção fosse em português de Portugal. Era o mínimo! Não o sendo, acho vergonhoso e sinto-me até ofendido enquanto português. Não há razão que justifique esta escalada de preço.

Compreenderia também que cada livro custasse 9,99€ se, em vez de 64 páginas, cada volume tivesse o dobro das páginas, ou seja, 128 páginas. Porque, na verdade, sendo um livro com 128 páginas, neste tipo de papel e com impressão a preto e branco, 9,99€ seria um preço aceitável. E, lá está, desta forma, não teríamos 61 volumes mas sim 31 volumes. O que, fazendo novamente as contas, nos daria a mesma coleção integral por 297,69€.

Portanto, olhando para o preço, encontro 4 opções. E a única que não acho minimamente aceitável é a opção que a Planeta DeAgostini escolheu. Vejamos então as quatro opções:

1) Lançar 31 livros de 128 páginas, ao preço de 9,99€, daria o preço final de 297,69€;

2) Lançar 61 livros de 64 páginas, ao preço de 7,29€ (igual ao preço brasileiro), daria o preço final de 430,11€;

3) Lançar os 61 livros de 64 páginas, ao preço de 9,99€, mas em português de Portugal, daria o preço de 597,39€;

4) A quarta opção seria gozar com a cara dos portugueses e lançar os 61 livros, de 64 páginas, ao preço de 9,99€, mas sem se darem ao trabalho de colocar a obra em português de Portugal, e daria o preço de 597,39€.

E sim, é mesmo isto que a Planeta De Agostini está a fazer!

Snoopy #16 – A Peanuts Collection, de Charles M. Schulz - Planeta DeAgostini
Atenção que não devemos ser ingénuos e achar que as editoras devem fazer algum tipo de caridade para com os leitores de banda desenhada. Naturalmente, as editoras de BD estão no negócio da BD para fazerem dinheiro. Para terem lucro. E não há mal nenhum nisso! É, aliás, isso que deve ser feito para que as editoras tenham liquidez financeira e continuem a editar por muitos anos. Agora, uma coisa é fazer dinheiro, outra coisa é extorqui-lo. Há um limite de bom senso para tudo e também o deve haver a nível empresarial. Senão, às tantas, a frase: “quem tudo quer, tudo perde” começa a ser um imperativo. No final, não seria mais lógico lançar mais barato e vender mais unidades? O preço desta coleção é anedótico. Ponto final.

E é lógico que cada um faz o que quer com o seu dinheiro mas parece-me o pior negócio dos últimos anos em banda desenhada. Por muito que se goste da série em questão! Se tal for o caso, haverão outras opções de ter a série – ou grande parte dela – por uma melhor relação qualidade/preço.

Voltando aos problemas que já foram verificados por leitores e outros colegas bloggers que pude ler, confirmo que todas essas coisas são legítimas. Também acho que o nome certo da coleção seria “Peanuts”, embora reconheça que se aceita "Snoopy" pois este é um dos casos que, em Portugal e no Brasil – e não só – o branding Snoopy superou em força o branding de Peanuts ou de Charlie Brown. E sendo a assinatura/subtítulo A Peanuts Colection, acho que fica respeitada a série. Não é por aí que as coisas ficam destruídas, a meu ver.

Snoopy #16 – A Peanuts Collection, de Charles M. Schulz - Planeta DeAgostini
Uma das páginas (a página 15) está pixelizada. Se há coisas que me chateiam e que destroem um livro de bd é a existência de imagens pixelizadas, como já referi na altura em que a Levoir lançou Rever Paris, de François Schuiten e Benoît Peeters, com uma página completamente piexelizada. No caso deste livro do Snoopy, só encontrei mesmo essa página 15 mal impressa. É grave, claro, mas sendo uma bd a preto e branco, não é tão irritante à vista como se fosse a cores. O que me permite fazer vista grossa a este erro, de forma algo relutante, reconheço.

Quanto ao papel de baixa qualidade, sim, é verdade que é bastante fino, o que permite ver as ilustrações do verso da página. Poderia - deveria - ser melhor, claro. Mas também não diria que seja algo vergonhoso, ainda assim. Poderia ter mais qualidade mas aceito e digo que não é por isso que as coisas ficam destruídas também.

E depois ainda há a questão da Planeta DeAgostini estar a lançar a coleção sem ser pela sequência natural cronológica. Confesso que isto a mim não me causa confusão nenhuma e até compreendo que a editora o faça. É um golpe de marketing, claro, mas daqueles legítimos, a meu ver. Errado era se, depois de feita a coleção, os anos não ficassem em sequência cronológica. E não é isso que acontece. Convém que as pessoas percebam que a sequência dos anos do lançamento original das histórias de Schulz mantém-se. O que vem trocado é a ordem da venda dos livros. Não me chateia minimamente. É o único problema apontado pelos leitores e bloggers que não considero, sequer, um problema.

Snoopy #16 – A Peanuts Collection, de Charles M. Schulz - Planeta DeAgostini
Finalmente, persiste a questão do livro ser em português do Brasil. Ora bem, é claro que prefiro SEMPRE que a leitura dos livros que faça sejam em português de Portugal. A minha língua materna. E aí sou um claro purista em relação ao assunto. No entanto, também é verdade que o português brasileiro será a língua mais próxima ao português de Portugal e se esta for a única forma de ler algumas obras em Portugal, aceita-se. Ou seja, temos aqui uma situação de “copo meio cheio” ou “copo meio vazio”, conforme quisermos olhar para ela. A edição em português do brasil não me deixa totalmente feliz pois prefiro o português de Portugal. Todavia, se essa for a única forma de lançar uma obra em Portugal, é melhor isso do que nada, certo? Preferimos ter apenas 10 livros a serem lançados em Portugal com português lusitano ou preferimos ter o dobro dos lançamentos de obras, mesmo que metade seja em português do Brasil?
Não ficando totalmente feliz com nenhuma das opções, eu prefiro esta segunda hipótese, naturalmente. O que depois está errado, e que já referi, é que a editora tenha o desplante de encarecer os livros só porque sim. O grave não é ser em brasileiro. É ser em brasileiro e, mesmo assim, ser mais caro.

Por isso, insisto que o verdadeiro problema desta coleção é o preço.

Olhando agora para as histórias aqui presentes, parece-me que começar o lançamento com as tiras de 1967 até faz algum sentido pois nessa altura a série Peanuts já estava muito enraizada na sociedade, tendo muitos fãs. E Schulz já estava a navegar em velocidade cruzeiro em termos de criação. Portanto, as histórias que este volume traz, são engraçadas e aquilo que um fã de Peanuts pode esperar.

Snoopy #16 – A Peanuts Collection, de Charles M. Schulz - Planeta DeAgostini
Reconheço todo o mérito a Schulz pela criação desta série que marcou milhões e milhões de pessoas. E alguns (muitos?) desses milhões até não eram seguidores de banda desenhada. E esse feito é incontestável. Ainda assim, admito que não sou um grande fã. Acho giro, que se lê bem, mas não é uma série que me encha as medidas. Acho um tipo de humor algo seco e insonso. Algumas tiradas são inteligentes, sim. Mas outras são apenas aceitáveis e não arrancam da minha cara mais do que um ligeiro sorriso. Nunca na minha vida gargalhei com uma história de Peanuts. Mas, lá está, se há algo que é subjetivo é o humor. Lá por eu não achar graça, não quer dizer que os outros não achem.

Olho mais para Peanuts como uma série com simpáticas personagens, que marcou o universo das tiras humorísticas, saltando do meio original para todo e qualquer meio que possamos imaginar (merchandising de todo o tipo e feitio, brinquedos, desenhos animados na televisão e no cinema, entre muitos outros). E isso merece todo o meu respeito. Peanuts conseguiu ser universal. Décadas passarão e Snoopy continuará a ser um dos cães mais famosos em todo o mundo.

Olhando ainda para este primeiro livro, considero que a capa está bem conseguida, a lombada em tecido é sempre agradável e que gostei bastante da introdução feita à obra de Charles M. Schulz.

O primeiro livro, por um preço tão simbólico de 1,99€ e o segundo, por 5,99€, merecem ser comprados. Por aqueles que estão com saudades de Peanuts e/ou por aqueles que ainda não conhecem a série – os leitores mais novos, claro. Mas não é uma série que possa recomendar pelo preço ridículo. E tenho as minhas dúvidas que existam muitas coleções a serem finalizadas em Portugal.

Veremos.


NOTA FINAL (1/10):
7.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-


Snoopy #16 – A Peanuts Collection, de Charles M. Schulz - Planeta DeAgostini

Ficha técnica
Snoopy #16 – A Peanuts Collection
Autor: Charles M. Schulz
Editora: Planeta de Agostini
Páginas: 64, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Março de 2020

quarta-feira, 3 de março de 2021

Lançamento: Snoopy - A Peanuts Collection





Chega hoje ás bancas a coleção Snoopy - A Peanuts Collection que nos traz as tiras integrais de Snoopy, Charlie Brown e Companhia, pelas mãos da Planeta DeAgostini.

Trata-se de uma coleção especial, que reúne mais de 17.000 tiras que foram publicadas entre 1950 e 2000, pelo célebre Charles Schulz.

A coleção inteira forma uma bonita lombada e a encadernação é em capa dura, com as lombadas em tecido.

Esta coleção já foi lançada no Brasil há alguns meses. Infelizmente, é essa coleção que as bancas portuguesas vão receber, não havendo qualquer adaptação ao português de Portugal.

A coleção brasileira conta com 61 volumes, com o formato de 27,5 x 22 cm, e 64 páginas, e cada livro tem materiais extras sobre a obra e o seu criador.

O primeiro número sairá com o preço de 1,99€. O segundo com o preço de 5,99€ e, a partir do volume 3, o preço passa a ser 9,99€. O que me parece um pouco avultado se compararmos com a edição brasileira onde o preço regular da coleção é 49,98 Reais (aproximadamente 7,29€). Se a editora tivesse adaptado a coleção ao português de Portugal eu ainda consideraria justo que o preço fosse mais elevado. Mas assim, sem ter qualquer preocupação com o mercado português, acho que, pelo menos, pedia-se que o preço fosse igual ao brasileiro.