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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Análise: A Aranha de Mashhad


A Aranha de Mashhad - Viagem a um Irão Desconhecido, de Mana Neyestani

Foi com este A Aranha de Mashhad - Viagem a um Irão Desconhecido, de Mana Neyestani, que a editora Levoir iniciou a sua mais recente Coleção de Novelas Gráficas. Uma boa escolha, parece-me, tendo em conta que já é um autor conhecido dos portugueses - tendo a mesma editora lançado anteriormente as belas obras Uma Metamorfose Iraniana e Os Pássaros de Papel. Mana Neyestani é mais um dos autores que se juntam ao coro de vozes que procuram dar destaque às práticas político-sociais presentes no Irão. 

Depois de, em Uma Metamorfose Iraniana, o autor nos ter dado um sentido e marcante relato biográfico onde ficámos a conhecer a história real que levou ao seu encarceramento de apenas e só porque publicou um cartoon que não caiu nas boas graças de outrem; e de, em Os Pássaros de Papel, o autor ter abordado a situação que se vive nas montanhas do Curdistão iraniano, na fronteira com o Iraque, em que são efetuadas perigosas expedições de transporte por pessoas extremadamente pobres que se veem forçadas, para obter algum dinheiro, a transportar às costas, em "mochilas" verdadeiramente gigantes, muitos materiais contrabandeados; este A Aranha de Mashhad fala-nos da história real de Saïd Hanaï, um homem aparentemente normal e sem quaisquer antecedentes criminais que, certo dia, decidiu eliminar prostitutas em nome da religião, na cidade santa xiita de Mashhad, no nordeste do Irão. Foram 16 as prostitutas assassinadas.

A inspiração do autor surgiu após assistir ao documentário And Along Came a Spider, do jornalista iraniano-canadense Maziar Bahari, que abordava este caso ocorrido entre os anos de 2000 e 2001.

Se o caso é interessante, a abordagem de Mana Neyestani é ainda mais interessante. Em vez de nos contar a história exata do que aconteceu, o autor opta por nos apresentar uma narrativa em formato de entrevista, em que Roya Karimi Majd conduz uma entrevista ao agora presidiário, e condenado à pena de morte, Saïd Hanaï. Trata-se de uma entrevista que procura dar a versão dos factos do assassino, de modo a levar-nos a perceber quais foram, realmente, as suas motivações para, no espaço de pouco mais de um ano, tirar a vida a 16 mulheres.

É-nos dada também a visão dos mesmos factos por parte da mulher e filho de Saïd Hanaï e do juiz Masouri que conduziu o caso judicial. É reproduzida, ainda, o dia na vida de Leila, uma das vítimas, que culminou com o contacto e confronto com Saïd Hanaï. 

O que mais impressiona é que este assassino seja um homem completamente sereno, que não se procura esquivar ou esconder daquilo que fez, mas, ao invés, não tem pruridos em confirmar os seus assassinatos e passar a ideia que os fez por um motivo maior: o de Alá não tolerar a prostituição. No fundo, era como se este homem considerasse que estava a fazer o trabalho certo, a função divina de eliminar as pessoas que, por serem prostitutas, não merecerem viver neste mundo.

Mais incrível ainda - especialmente aos olhos de um ocidental - é que a mulher e filho de Saïd Hanaï considerem que aquilo que este homem fez, não só é tolerável como até digno de louvores. E embora Saïd tenha sido preso e condenado, os locais passaram mesmo a olhar para ele como um exemplo a seguir e alguém que procurava fazer do mundo um lugar melhor. E mais limpo. Mesmo que, para isso, matasse quase duas dezenas de mulheres. É isto que um estado que faz brainwashing com os seus cidadãos, através de uma religião austera e castradora, faz à mentalidade e cultura vigentes. É triste de ler, mas é importante que livros como este A Aranha de Mashhad continuem a chamar a atenção do mundo para o atraso cultural que o Irão (ainda) vive.

O final, de cariz poético e político, é verdadeiramente espetacular. Funciona como um cartoon certo para concluir uma história tão impactante e triste como aquela que nos é dada neste livro. Talvez a causa do Irão seja mesmo uma causa perdida... pelo menos durante as próximas décadas, pois é difícil perceber como é que se altera um quadro de valores tão profundamente enraizado na população do país.

O estilo de desenho de Mana Neyestani mantém-se fiel àquilo que já conhecemos. Apresenta uma linha expressiva, a preto e branco, que recorre a hachuras e que é simultaneamente simples e carregada de tensão emocional. As personagens aparecem muitas vezes com feições exageradas ou ligeiramente distorcidas, criando um efeito que sublinha a opressão das situações retratadas. Funciona muito bem, na minha opinião.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço e um bom trabalho a nível de impressão e encadernação. O livro abre com uma introdução do próprio Mana Neyestani e fecha com um epílogo onde se dão breves notas adicionais sobre o assassino Saïd Hanaï, a jornalista Roya Karimi Majd e o próprio Maziar Bahari, autor do documentário original e que aqui também aparece como personagem, sendo a pessoa responsável por filmar a entrevista a Saïd Hanaï.

Em suma, A Aranha de Mashhad é mais um belo livro de Mana Neyestani que consegue fazer-nos parar para refletir sobre as atrocidades que, dia após dia, continuam a ser feitas no Irão, ao mesmo tempo que vai um pouco mais longe e nos mostra que mudar a mentalidade profundamente doutrinada presente no Irão, em que os direitos humanos são menos importantes do que as escrituras religiosas sobre uma personagem fictícia como Alá, é algo virtualmente impossível. Pelo menos, para já.


NOTA FINAL (1/10):
8.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
A Aranha de Mashhad - Viagem a um Irão Desconhecido
Autor: Mana Neyestani
Editora: Levoir
Páginas: 164, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240m
Lançamento: Maio de 2026

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Arranca hoje a Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do Público!




Já se encontra nas bancas o primeiro livro da nova coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público! É o acontecimento editorial do ano e, como tal, estou muito satisfeito pelo regresso desta coleção, depois de um hiato de um ano.

O conjunto de obras, do qual já aqui falei, é diverso e heterogéneo, coisa que pode ajudar a estabelecer uma boa qualidade para a coleção.

Cada livro sairá quinzenalmente, a partir de hoje, com o custo de 16,90€.

O primeiro livro é A Aranha de Mashhad, de Mana Neyestani, autor de quem a editora já por cá editou os belos livros Os Pássaros de Papel e Uma Metamorfose Iraniana.
Mais abaixo, deixo-vos com a apresentação desta obra e da própria coleção por parte da editora.

A Aranha de Mashhad, de Mana Neyestani

A colecção "Novela Gráfica" regressa ao Público, em parceria com a Levoir, para uma nova série de doze volumes. Uma nona série, de distribuição quinzenal, que continua a apostar na diversidade de temas e de autores das mais variadas geografias, dando a descobrir aos leitores portugueses doze obras de grande fôlego, inéditas no nosso país.

Dividida entre as biografias e os relatos e reportagens que nos transmitem o pulsar da história e do mundo, esta IX série da "Novela Gráfica" prossegue com alguns dos melhores autores dos quatro cantos do mundo.
Com autores de 11 países diferentes nesta colecção o leitor vai conhecer melhor o Médio Oriente pela mão dos já conhecidos autores Zeina Abirached (Líbano), Mana Neyestani (Irão), mas também através do trabalho do italiano Zerocalcare que nos conta a sua viagem ao norte do Iraque, onde as pessoas que sobreviveram ao genocídio perpetrado pelo ISIS em 2014 e que se encontram sob a proteção das milícias curdas veem a sua autonomia ameaçada pelas tensões internacionais.

Pere Ortín e Nze Esono Ebale apresentam-nos a história real duma expedição à Guiné Equatorial em 1944/1946 no período do colonialismo espanhol em África.

Também o português Daniel Silvestre se encontra nesta colecção com o seu premiado A Armação. E da Ásia vem Li-Chin-Lin com Formosa. A autobiografia em que conta a sua infância passada em Taiwan, dividida entre a cultura da sua família e a doutrina oficial.
O título que abre a colecção A Aranha de Mashhad, sai a 22 de Maio.

O autor Mana Neyestani já é bem conhecido dos leitores portugueses com as obras editadas pela Levoir Uma Metamorfose Iraniana e Os Pássaros de Papel.

Mana exilado em França, nunca deixou de se interessar pela situação do seu país natal, o Irão. Com A Aranha de Mashhad decidiu debruçar-se sobre um caso noticioso do início dos anos 2000: a história de Saïd Hanaï, um aparente e corajoso pedreiro, casado e sem antecedentes criminais, que um dia decidiu eliminar prostitutas e toxicodependentes, em nome da religião, na cidade santa xiita de Mashhad, no nordeste do Irão. Segunda maior cidade do país, é também uma das mais sagradas, albergando o mausoléu de Ali-Ibn-Musa Reza, é local de peregrinação, contudo não é poupada à miséria e à droga.
Com este álbum, Mana Neyestani consegue assim mostrar na perfeição as hipocrisias de uma sociedade rigorosa onde as primeiras vítimas são as mulheres.

No próximo fim-de-semana no Festival Maia BD, este ano dedicado às Vozes do Irão, estarão representadas todas as obras do autor.

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Ficha técnica
A Aranha de Mashhad
Autor: Mana Neyestani
Editora: Levoir
Páginas: 164, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240m
PVP: 16,90€






segunda-feira, 29 de julho de 2024

Análise: Os Pássaros de Papel

Os Pássaros de Papel, Mana Neyestani - Levoir


Os Pássaros de Papel, Mana Neyestani - Levoir

Os Pássaros de Papel, de Mana Neyestani

Foi durante o Maia BD e também devido à vinda do autor Mana Neyestani ao evento, que a editora Levoir lançou este Os Pássaros de Papel, que já é a segunda obra do autor publicada pela editora, depois do muito bem conseguido Uma Metamorfose Iraniana.

Além disso, o trabalho de Neyestani também já foi publicado em Portugal pela editora Iguana, com a edição do livro Mulher Vida Liberdade, no qual o autor iraniano, juntamente com vários outros autores, também participa.

Com este Os Pássaros de Papel, Mana Neyestani regressa à BD com uma bela obra que nos relata uma realidade que eu ignorava totalmente até ler este livro. Essa é, também, uma das funções das criações artísticas e, neste caso, da banda desenhada. A de educar, a de dar a conhecer. 

Os Pássaros de Papel, Mana Neyestani - Levoir
A obra aqui em análise elucida-nos sobre a situação que se vive nas montanhas do Curdistão iraniano, na fronteira com o Iraque, em que são efetuadas perigosas expedições de transporte por pessoas extremadamente pobres que se veem forçadas, para obter algum dinheiro, a transportar às costas, em "mochilas" verdadeiramente gigantes, muitos materiais contrabandeados. Estas expedições são efetuadas a pé, em percursos perigosos, por montanhas sinuosas onde as condições atmosféricas são de infinito perigo para a existência humana, havendo numerosas tempestades de neve e, ao mesmo tempo, certas partes do trajeto são tão apertadas que um passo em falso poderá levar esses transportadores - a que se dá o nome de Kolbars - ao fundo de uma ravina. Como se isto já não fosse suficientemente mau, ainda há numerosas patrulhas efetuadas pelas autoridades locais que atiram a matar, caso encontrem um destes transportadores ilegais. 

A história acompanha a personagem de Jalal que se junta a um grupo de homens - cada um com as suas vicissitudes e dramas pessoais - que com ele embarcam na já referida viagem carregada de privações para conseguirem uma remuneração que, de tão pequena, é ridícula - pelo menos para aqueles que vivem "no primeiro mundo" - mas que, ao mesmo tempo, é crucial para a subsistência destas pessoas. Sendo uma história ficcionada, é baseada em algo que acontece na realidade e que, portanto, atribui à obra essa valência de dar enfoque a um tema que, pelo menos na sociedade ocidental, é de pouco ou nenhum conhecimento.

Os Pássaros de Papel, Mana Neyestani - Levoir
À medida que vamos acompanhando a viagem destes kolbars, vamos tomando contacto com Rojan, a mulher com quem Jalal espera casar, que é a filha de um dos homens que embarca na mesma expedição de Kolbars. Cada um dos capítulos do livro é começado com Rojan a fazer tapetes que vão crescendo gradualmente entre capítulos, permitindo que o leitor se aperceba do tempo que demoram estas expedições. E Rojan fabrica estes tapetes para, com o dinheiro obtido através dos mesmos, conseguir uma hipótese de fuga com o seu amado Jalal. A introdução destes breves momentos de Rojan é, sem dúvida, uma boa forma de tornar a história mais dinâmica e menos repetitiva, acrescentando-lhe uma pitada de poesia e de reflexão.

O desenho de Neyestani, com um traço bastante rabiscado e caricatural a preto e branco - onde só raramente aparecem alguns detalhes a cores - agrada-me especialmente, pois traz consigo um certo dramatismo ao relato, com as caras e expressões das personagens a apresentarem os sinais de uma vida carregada de peso e dificuldades. Também na caracterização da montanha e das tempestades de neve, o desenho de Neyestani é, quanto a mim, muito belo. Utilizando os delírios dos Kolbars depois de tantas privações, o autor ainda nos oferece alguns desenhos mais caricaturais ainda, onde há oportunidade para um pouco de fantasia que funciona bastante bem. De resto, reitero o que já havia escrito sobre os desenhos de Neyestani em Uma Metamorfose Irariana: "apreciei bastante o estilo de tramas que acrescentam profundidade e detalhe aos desenhos. Mesmo sendo um estilo caricatural, é aquilo a que chamo um estilo “caricatural rico”".

Os Pássaros de Papel, Mana Neyestani - Levoir
Reconheço que, por vezes, algumas personagens podem ser algo confundíveis entre si e este seria, quanto a mim, o ponto mais negativo que se pode apontar à parte visual da obra que, sendo simples, é bastante bela.

Quanto à edição da Levoir, estamos perante um bom trabalho. Mesmo não tendo sido lançado em nenhuma coleção de Novelas Gráficas da editora, o livro apresenta o mesmo tipo de aspeto: capa dura baça com a lombada a preto e a inscrição "Novelas Gráfica". No miolo, o papel é baço e de boa qualidade e o trabalho de encadernação e impressão é bom. Nota positiva para o acrescento de um prólogo e de um epílogo, com imagens, onde são dadas ao leitor mais informações sobre a existência dos kolbars. Uma boa edição, portanto.

Em suma, mesmo que Os Pássaros de Papel não chegue a ser tão impactante como Uma Metamorfose Iranina - em que o autor nos contou a sua história pessoal em que esteve preso apenas e só por ter feito um cartoon que não caiu nas boas graças do regime iraniano - estamos perante mais uma bela aposta da Levoir, que vale a pena conhecer e que consolida o bom trabalho do autor iraniano como um autor de causas sociais e registo gráfico diferenciado.


NOTA FINAL (1/10):
8.6

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Os Pássaros de Papel, Mana Neyestani - Levoir

Ficha técnica
Os Pássaros de Papel
Autor: Mana Neyestani
Editora: Levoir
Páginas: 216, a preto, branco e vermelho
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240mm
Lançamento: Maio de 2024


quarta-feira, 29 de maio de 2024

Levoir lança nova BD do iraniano Mana Neyestani!




A Levoir lançou na passada semana uma nova banda desenhada do autor Mana Neyestani, do qual já havia publicado recentemente, na última coleção de Novelas Gráficas que a editora lançou em parceria com o jornal Público, o muito interessante Uma Metamorfose Iraniana.

Desta vez, a editora portuguesa traz-nos Os Pássaros de Papel, a mais recente obra do autor iraniano.

Confesso que fiquei muito agradado com o livro Uma Metamorfose Iraniana e, por isso, estou bastante interessado neste novo livro do autor, que até marcou presença no Festival Maia BD.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais da obra.

Os Pássaros de Papel, de Mana Neyestani

A Levoir lança a 25 de Maio no Festival Maia BD a obra de Mana Neyestani, Os Pássaros de Papel, com a presença do autor e sessão de autógrafos.

Mana Neyestani nasceu em Teerão em 1973, formou-se em arquitetura, em 1990 inicia a sua carreia como desenhador e ilustrador para várias revistas culturais, literárias, económicas e políticas. Tornou-se ilustrador de imprensa com a ascensão dos jornais reformistas do Irão em 1999. Mana Neyestani recebeu numerosos prémios iranianos e internacionais, incluindo o Prémio Coragem 2010 da CRNI (Cartoonists Rights Network International). Membro da Cartooning for Peace, foi galardoado com o Prémio Internacional de Caricatura de Imprensa atribuído por Kofi Annan em 3 de maio de 2012 e com o Prix Alsacien de l'Engagement Démocratique em 2015.

O Curdistão iraniano situa-se no noroeste do país, ao longo da fronteira com o Iraque. É uma região montanhosa muito pobre, conhecida como um foco de contrabando de cigarros, álcool e vestuário. Os aldeões são explorados por bandos mafiosos para contrabandearem através das montanhas entre os dois países. Os traficantes percorrem rotas mortíferas e perigosas, atravessando os picos de 4 000 metros das montanhas Zagros, transportando mercadorias. Estes contrabandistas são conhecidos como kolbars e todos os anos dezenas deles são vítimas dos guardas fronteiriços iranianos, de minas terrestres, de avalanches ou dos invernos rigorosos da região.

Jalal, conhecido como o “Engenheiro”, é recrutado para participar numa destas expedições com homens da sua aldeia. Uma pequena tropa é formada e embarca na perigosa viagem.
Drama humano arrebatador e cheio de suspense, que conta também a história dos crimes de honra e o terrível quotidiano dos habitantes das montanhas do Curdistão iraniano, obrigados a correr riscos insanos para garantir a sua subsistência. A história desenrola-se à medida que os membros da expedição vão morrendo um a um.


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Ficha técnica
Os Pássaros de Papel
Autor: Mana Neyestani
Editora: Levoir
Páginas: 216, a preto, branco e vermelho
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240mm
PVP: 28,90€

quarta-feira, 6 de março de 2024

Análise: Mulher Vida Liberdade

Mulher Vida Liberdade, de Marjane Satrapi e vários autores - Iguana - Penguin Random House

Mulher Vida Liberdade, de Marjane Satrapi e vários autores - Iguana - Penguin Random House
Mulher Vida Liberdade, de Marjane Satrapi e vários autores

Este é um livro de forte mensagem política, como se de um statement de resistência se tratasse, e que, até por esse bom motivo, em boa hora foi lançado em Portugal. E a proeza de tal feito coube à editora Iguana que, como tenho vindo a dizer, e de forma gradual, começa a tornar-se mais relevante no lançamento de banda desenhada de qualidade.

Mulher Vida Liberdade é um esforço criativo conjunto, orquestrado por Marjane Satrapi, a célebre autora de Persépolis, que junta um alargado conjunto de autores para assinalar, acusar, testemunhar e relatar o constante ataque aos direitos humanos, especialmente os das mulheres, que continua a ser feito no Irão. Por tudo isto, mais do que um livro de banda desenhada, Mulher Vida Liberdade é uma afirmação político-cultural. De um conjunto de autores que procura chamar a atenção do mundo para a triste realidade que ainda se vive no Irão. E cabe a nós, leitores, inteirarmo-nos pelo assunto, divulgando-o e, já agora, e se possível, tomando ação.

Mulher Vida Liberdade, de Marjane Satrapi e vários autores - Iguana - Penguin Random House
Portanto, com tamanhos propósitos, talvez a análise à arte e argumento deste livro, que é dividido por um grande conjunto de curtas histórias de BD, seja o mais acessório e irrelevante que posso fazer. Logicamente, com a participação de nomes sonantes da banda desenhada, como Joann Sfar, Lewis Trondheim ou Paco Roca, entre outros, é fácil para um leitor de banda desenhada sentir o seu interesse neste livro a crescer. Até porque são várias as abordagens e tipos de desenho que nos são dados, naturalmente.

A ignição para todo este movimento, que tem crescido em força, deu-se quando, a 16 de Setembro de 2022, Mahsa Amini, uma jovem mulher iraniana, foi espancada pela “Polícia dos Costumes” no Irão (sim, eles têm disso no Irão), pela única razão de não estar a usar o véu de forma correta. Whatever that means, como se diz em inglês. Depois do espancamento, Mahsa Amini não conseguiu resistir aos ferimentos e acabou por se tornar numa mártir e numa heroína pela luta dos direitos das mulheres no país. Passou a ser o símbolo desta luta pela Mulher, pela Vida e pela Liberdade. Esse foi, aliás, o slogan político que acabou por ser usado neste movimento pela independência curda que procura, acima de tudo reconhecer a importância da mulher. E que também dá nome a este livro.

Mulher Vida Liberdade, de Marjane Satrapi e vários autores - Iguana - Penguin Random House
Mas resumir esta Luta apenas ao nome de Mahsa Amini, será por demais redutor e, de certa forma, também é isso que este livro procura demonstrar: que são muitas as caras e os nomes que se têm rebelado contra o regime autoritário e castrador de princípios básicos dos direitos humanos que é o Estado do Irão. Assim, o livro está dividido por breves contos que procuram demonstrar e esquematizar vários momentos e pessoas desta Luta do povo iraniano. Para tal, Satrapi reuniu três especialistas no assunto (Farid Vahid, Jean-Pierre Perrin e Abbas Milani) que assumem a quase totalidade dos argumentos.

Cada um desses breves contos é depois ilustrado por um autor diferente, sendo que alguns dos participantes ilustram mais do que uma mera história. No total, são 17 os autores que colaboram neste livro.

Mulher Vida Liberdade, de Marjane Satrapi e vários autores - Iguana - Penguin Random House
Apreciei especialmente os contributos de Mana Neyestani - que muito me surpreendeu, também, em Uma Metamorfose Iraniana, editado pela Levoir - de Paco Roca, de Patricia Bolaños, de Lewis Trondheim e de Deloupy. 

Já em relação à colaboração de Sfar, não fiquei tão empolgado, uma vez que o autor apenas se limitou a ilustrar um longo diálogo entre Satrapi, Jean-Pierre Perrin, Milani e Farid Vahid. Por muito interessante que seja este diálogo com mais de 30 páginas, e é, o facto de as ilustrações serem apenas das quatro individualidades sentadas, numa esplanada, a conversar, sem que haja lugar a diversidade ou outro tipo de dinâmica, tornou esta última parte do livro bem abaixo das minhas expectativas. 

Marjane Satrapi não é apenas a "coordenadora" deste livro e também faz a sua contribuição. Mas, também neste caso, a autora deixou-me algo desiludido, pois limitou o seu contributo apenas a alguns textos e a uma ilustração o que, quanto a mim, foi manifestamente pouco, embora, claro está, a autora mereça as minhas vénias por ter encabeçado a feitura/curadoria do livro em si.

Mulher Vida Liberdade, de Marjane Satrapi e vários autores - Iguana - Penguin Random House
De resto, devo dizer que há muitas histórias curtas/contributos que me impressionaram pela positiva. Lamento que algumas participações sejam demasiado breves, tendo apenas uma ou duas páginas. No entanto, outras há que têm mais páginas e permitem uma maior imersão do leitor naquilo que nos é contado.

Em termos de edição, a Iguana dá-nos aqui um trabalho exemplar que apresenta capa dura, com textura aveludada, bom papel baço e um excelente trabalho de encadernação e impressão. Também pela relevância dos testemunhos aqui presentes, parece-me legítimo afirmar que o trabalho de edição da Iguana sai reforçado com a aposta nesta obra. Para além das histórias em banda desenhada, o livro também é complementado por alguns textos de apoio que procuram iluminar os leitores acerca dos principais acontecimentos históricos e culturais do Irão. O que é uma mais valia, sem dúvida.

Portanto, em suma, esta é uma boa aposta da editora Iguana num livro que, acima de tudo, está carregado de uma mensagem política que convém que o mundo ocidental não esqueça. Recomenda-se a sua leitura.


NOTA FINAL (1/10):
8.5



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Mulher Vida Liberdade, de Marjane Satrapi e vários autores - Iguana - Penguin Random House

Ficha técnica
Mulher Vida Liberdade
Autores: Marjane Satrapi e vários autores
Editora: Iguana (Penguin Random House)
Páginas: 288, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Outubro de 2023

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Análise: Uma Metamorfose Iraniana

Uma Metamorfose Iraniana, de Mana Neystani - Levoir e Público

Uma Metamorfose Iraniana, de Mana Neystani - Levoir e Público
Uma Metamorfose Iraniana, de Mana Neystani

A pouco e pouco, à medida que vou lendo, um após o outro, os livros editados na mais recente coleção das Novelas Gráficas que a Levoir lançou com o jornal Público há uns meses, vou atestando - se é que dúvidas houvesse - a qualidade geral desta última coleção. Que é muito boa. Se calhar, até melhor do que outras coleções que foram mais badaladas no passado. É verdade que os nomes e obras presentes nesta última coleção, possivelmente à exceção de Chabouté (em Moby Dick), bem como de Schuiten e Peeters (em O Regresso do Capitão Nemo), não são tão célebres em Portugal. Porém, como é óbvio, isso não invalida - ou não deveria invalidar - que sejam livros muito bons. E este Uma Metamorfose Iraniana, do autor Mana Neystani, é mais um dos bons exemplos.

Parti para esta leitura com pouco ou nenhum conhecimento acerca desta obra. Quer dizer, quando a Levoir anunciou que iria lançar este álbum, fui investigar um pouco sobre o mesmo, mas mantive-me sem saber muito bem o que esperar da obra.

Uma Metamorfose Iraniana, de Mana Neystani - Levoir e Público
Uma Metamorfose Iraniana
é um sentido e marcante relato biográfico onde ficamos a conhecer a história real que levou ao encarceramento do autor iraniano Mana Neystani apenas e só porque publicou um cartoon que não caiu nas boas graças de outrem. Sim, leram bem. Ainda há países onde pessoas são condenadas a penas de prisão (ou coisas piores, ainda) pela simples razão de escreverem, dizerem ou desenharem algo que vai contra as ideologias e crenças dos outros. Estamos a falar do Irão, afinal de contas.

O pesadelo de Mana Neystani começou, pois, quando numa publicação destinada aos jovens, o autor fez um cartoon em que colocava uma criança a conversar com uma barata. Essa barata utiliza a palavra “namana” que é um termo Azeri. Ora, os Azeri, são um grupo étnico de origem turca que habita no Irão. E, de alguma forma, o cartoon caiu mal a muitas pessoas Azeri, pois depreendeu-se - de forma bastante rebuscada, diria eu - que o autor estava a considerar os Azeri como baratas. E tudo isso causou um enorme tumulto e revolta do povo Azeri, que culminou numa série de mortos. Ora, com sede de encontrar um bode expiatório para toda esta convulsão social, o governo iraniano viu no cartoon de Mana a causa de todos estes problemas.

Uma Metamorfose Iraniana, de Mana Neystani - Levoir e Público
Eventualmente, por causa desta publicação - que, ainda por cima, foi feita sem qualquer motivação política ou crítica social - o autor, juntamente com o diretor do jornal, acabaram por ser chamados ao Ministério da Informação para prestar declarações. E o que eles não poderiam imaginar era que, à conta desse cartoon e desse interrogatório, acabariam presos.

A partir deste ponto, o autor dá-nos todo um retrato arrebatador de todas as privações, medos e dificuldades que passa na prisão. O relato é bastante preciso, fazendo com que o próprio leitor desta obra sinta de perto aquilo que Mana Neystani teve que experienciar na própria pele. É impossível não sentirmos compaixão pelo autor.

É longa toda a caminhada que Mana acaba por percorrer até se poder ver livre do regime iraniano - se é que esse processo chegará a estar finalizado alguma vez. Desde o primeiro encarceramento, até à passagem para uma pior prisão, as sessões de interrogatório, a conquista da liberdade condicional, a fuga para fora do país, os problemas burocráticos com inúmeras Embaixadas que optaram por não ajudar Mana Neystani… enfim, tudo nos é dado neste Uma Metamorfose Iraniana. Daí que haja uma clara e direta referência à obra A Metamorfose, de Franz Kafka, onde o peso do Estado e do establishment parecem pisar a leveza do cidadão. Do indivíduo.

Uma Metamorfose Iraniana, de Mana Neystani - Levoir e Público
E mesmo que Uma Metamorfose Iraniana acompanhe um longo e cansativo processo real, no que toca ao facto de ser um livro de banda desenhada, consegue dar-nos todas as informações necessárias, sem o fazer de uma forma exaustiva, mas de um modo que me deixou sempre atento e imerso na obra.

E algo que também gostei, foi a própria linguagem narrativa do autor. Porque, ao invés de se limitar em relatar apenas os factos, Mana dá-nos algo mais que considero precioso e que eleva a qualidade do livro: vai-nos revelando graficamente os medos e terrores que sentiu, sim, mas tentando exemplificar visualmente essas imagens acústicas que habitaram a sua mente durante o encarceramento. É por isso que, utilizando um estilo por vezes "cartoonesco", o autor consegue criar momentos alternativos e dinâmicos que permitem à história não se tornar repetitiva, mesmo que estejamos perante um livro com quase 200 páginas. Funciona muito bem.

Em termos de desenho, Mana Neystani utiliza um belo traço a preto e branco, bastante caricatural, onde as emoções vividas pelas personagens são passadas para os leitores de forma inequívoca. Apreciei bastante o estilo de tramas que acrescentam profundidade e detalhe aos desenhos. Mesmo sendo um estilo caricatural, é aquilo a que chamo um estilo “caricatural rico”.

Uma Metamorfose Iraniana, de Mana Neystani - Levoir e Público
Com as devidas distâncias, e não só no relato real como, também, nos próprios desenhos, este Uma Metamorfose Iraniana remeteu-me várias vezes para o inesquecível trabalho de Joe Sacco em obras como Palestina, ou mesmo Gorazde - Zona de Segurança, que a própria Levoir já havia publicado numa outra coleção de Novelas Gráficas.

A edição da Levoir é em linha com aquilo que a editora faz com a sua coleção de novelas gráficas, ou seja: capa dura, papel decente, boa encadernação e boa impressão. O prefácio à obra é feito por Fernando Camacho.

Em suma, Uma Metamorfose Iraniana é um marcante e, por vezes, chocante retrato de uma realidade que ainda acontece no mundo atual, em que a repressão a qualquer tipo de liberdade de expressão ainda é coisa que persiste no Irão. Agora, enquanto eu escrevo esta minha análise e os meus leitores a leem. E, especialmente por esse motivo, este livro é leitura mais que recomendada. Mesmo que, no final da leitura, fiquemos com uma sensação de desespero por ainda existirem tantos regimes políticos que parecem presos à idade das trevas.


NOTA FINAL (1/10):
8.8




Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Uma Metamorfose Iraniana, de Mana Neystani - Levoir e Público

Ficha técnica
Uma Metamorfose Iraniana
Autor: Mana Neyestani
Editora: Levoir
Páginas: 196, a preto e branco
Encadernação: capa dura
Lançamento: Setembro de 2023

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Chega hoje às bancas a nova Novela Gráfica da Levoir e do Público!



Hoje é dia de Novela Gráfica da Levoir e do Público!

Naquele que é o quinto lançamento desta coleção, temos a obra Uma Metamorfose Iraniana, de Mana Neyestani.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais.


Uma Metamorfose Iraniana, de Mana Neyestani

Quando o ilustrador iraniano Mana Neyestani fez um cartoon em que uma barata dialogava com uma criança azeri, estava longe de imaginar as repercussões que esse desenho iria ter, servindo de pretexto para uma revolta do povo azeri, que terminou com uma série de mortos. 

Usados como bode expiatórios, Mana e o diretor da revista passaram semanas na prisão, num processo kafkiano, bem revelador da falta de liberdade de expressão no Irão. 

Publicado originalmente em 2012 em França, país aonde o autor chegou depois de viver 3 anos exilado na Malásia, Uma Metamorfose Iraniana é um relato impressionante e profundamente humano do drama vivido pelo autor e a sua família.

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Ficha técnica
Uma Metamorfose Iraniana
Autor: MAna Neyestani 
Editora: Levoir
Páginas: 196, a preto e branco
Encadernação: capa dura
PVP: 13,90€




segunda-feira, 5 de junho de 2023

Levoir apresenta mais uma das suas novelas gráficas



A Levoir acaba de apresentar uma nova aposta editorial!

Trata-se de A Metamorfose Iraniana, do autor Mana Neystani.

A editora confirma que a obra será lançada no próximo mês de Setembro mas não se compromete, para já, a dizer se a mesma está inserida dentro da coleção das Novelas Gráficas ou se será lançada de forma avulsa.

Eu diria que apostava que esta obra será lançada dentro da coleção de Novelas Gráficas. O que quereria dizer que também a coleção das novelas gráficas seria lançada algures entre Agosto e Setembro. Mas é um palpite meu. Tão válido como qualquer outro. Não o levem à letra.

Mais abaixo, deixo-vos com algumas informações sobre a obra, que desconhelo, e com algumas imagens promocionais da versão original francesa.

A Metamorfose Iraniana, de Mana Neystani

Anunciamos a edição em Setembro da novela gráfica, A metamorfose Iraniana do autor Mana Neystani, cujo trabalho é considerado o ícone da resistência iraniana desde 2009.

A verdadeira história de um cartunista da imprensa iraniana preso e forçado a fugir por causa de uma palavra infeliz e não intencional em um cartoon...

Nascido em Teerão em 1973, Mana Neystani formou-se como arquiteto, mas iniciou a sua carreira em 1990 como ilustrador para inúmeras revistas culturais, literárias, económicas e políticas. Tornou-se  ilustrador de imprensa graças à ascensão dos jornais reformistas iranianos em 1999.

No ano 2000, publicou o seu primeiro livro no Irão, "Kaaboos" (Pesadelo), que foi seguido por "Ghost House" (2001) e "Mr. Ka's Enigma do Amor" (2004). 

Catalogado como cartunista político, Neystani foi então obrigado a fazer ilustrações para crianças. A que ele fez em 2006 levou-o à prisão e à fuga do país. Entre 2007 e 2010, viveu exilado na Malásia, fazendo ilustrações para sites de dissidentes iranianos ao redor do mundo. Após a eleição fraudulenta de 2009, o seu trabalho tornou-se um ícone do desafio do povo iraniano. Em 2012, publicou em França a história da sua prisão e fuga do Irão, “Uma metamorfose iraniana". 

Publicou então em 2013 uma coletânea de cartoons de imprensa, "Tout va Bien!", depois em 2015 o seu "Pequeno manual para o refugiado político perfeito".

Mana Neyestani ganhou inúmeros prémios iranianos e internacionais, mais recentemente o Prémio Coragem 2010 da CRNI (Cartoonists Rights Network International). Membro da associação Cartooning for Peace, recebeu o Prémio Internacional de Cartoons de Imprensa em 3 de maio de 2012 das mãos de Kofi Annan e o Prémio Alsaciano de Compromisso Democrático em 2015.

Mana Neyestani é refugiado político em França desde 2011 e vive em Paris com a sua esposa.