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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Análise: O Progresso da Humanidade

O Progresso da Humanidade, de João Sequeira e Rui Cardoso Martins - Polvo

O Progresso da Humanidade, de João Sequeira e Rui Cardoso Martins - Polvo
O Progresso da Humanidade, de João Sequeira e Rui Cardoso Martins

A editora Polvo voltou a dar-nos, recentemente, mais um livro da dupla formada por João Sequeira e pelo escritor Rui Cardoso Martins. Desta feita, chega-nos O Progresso da Humanidade, depois dos interessantes livros Espelho da ÁguaEstômago Animal.

E ainda que se verifiquem pontos em comum entre as três obras, diria que esta nova empreitada oferece-nos uma abordagem diferente ao nível da história. É certo que continua a verificar-se uma crítica social envolta ao retrato lusitano, mas em O Progresso da Humanidade estamos perante um policial na forma. E isso foi particularmente agradável de ler. Até porque, não esqueçamos, não são muitos os policiais que podemos encontrar na banda desenhada portuguesa.

A história arranca com a morte, inexplicável e brutal, de Oliveira, um homem solitário e enigmático. E mesmo que parecesse às testemunhas que com Oliveira privaram, que o mesmo não andava muito bem nos últimos tempos, a verdade é que esta morte parece não ter uma explicação plausível, já que não é encontrada nem uma arma nem um culpado evidente. Não parece ser assassinato, nem suicídio. Tudo o que as investigações encontram é apenas o cadáver do homem, um diário e algumas pistas difusas.

O Progresso da Humanidade, de João Sequeira e Rui Cardoso Martins - Polvo
A história constrói-se a partir desse vazio inicial, dessa impossibilidade de compreensão, e vai crescendo com uma cadência muito própria. 

O tom policial da obra é algo que apreciei particularmente. Sentem-se ecos claros de outras obras clássicas da banda desenhada mundial, como Alack Sinner ou Nestor Burma, não apenas na estrutura narrativa, mas sobretudo na forma como o mistério se instala e se prolonga, e no ambiente que nos é dado. Mas, claro, é tudo feito à boa maneira portuguesa ou não fosse esta uma obra com claros com claros laivos políticos subtis, mas bem presentes. O livro começa por, a partir da premissa inicial do "o que é que aconteceu?" divertir-se a adiar respostas, obrigando-nos a desconfiar de tudo e de todos. É daqueles livros que nos fazem franzir a testa e levantar a sobrancelha, antecipando que algo mais fundo e incómodo se aproxima.

O mistério nunca é, pois, um fim em si mesmo, mas antes um motor que nos empurra para camadas mais densas de significado. À medida que avançamos, percebemos que há aqui uma crítica social embutida que supera até a questão da investigação. E tudo é feito com uma boa dose de subtileza e ironia, com a obra a falar de fascismo, de memória, de palavras que tentaram ser limpas à força do dicionário, mas que continuam bem vivas no quotidiano. 

E, claro está, a referência a Santa Comba Dão, localidade berço de António Oliveira Salazar, e até o próprio nome do morto, Oliveira, não é inocente e funciona como mais uma camada de leitura, nunca sublinhada em excesso. O fascismo, aqui, não surge como caricatura histórica, mas como pulsão latente, algo que se traz “no coração”, como escreve Oliveira no seu diário. Esta dimensão política surge integrada na narrativa, sem didatismos, o que a torna ainda mais eficaz e densa.

O Progresso da Humanidade, de João Sequeira e Rui Cardoso Martins - Polvo
O desenho de João Sequeira mantém-se fiel ao estilo que já conhecemos, mas ganha aqui uma especial eficácia na vertente policial da história. O uso de sombras, enquadramentos fechados e silêncios visuais contribui para uma atmosfera pesada, quase sufocante, que acompanha o leitor do início ao fim, num ambiente noir muito bem conseguido por parte do autor. 

Não pude deixar de ser remetido, em vários momentos, para o trabalho do autor argentino Eduardo Risso, sobretudo na forma como os locais e os corpos são representados num traço a preto e branco puro, sem espaço para cinzentos e com as personagens a apresentarem feições caricaturais e guturais. Não se trata de uma imitação, até porque não vemos aqui um João Sequeira a afastar-se do estilo a que já nos habituou, mas, devido ao tom policial da obra, uma afinidade estética evidente, que encaixa como uma luva neste registo mais sombrio e introspectivo. Gostei especialmente.

A articulação entre texto e imagem é, portanto, particularmente feliz. Sequeira sabe quando deixar o desenho falar por si e quando reforçar o impacto das palavras. O ritmo da leitura é controlado com mestria, alternando momentos de tensão com pausas reflexivas que nunca quebram o envolvimento e, até, com algumas partes mais evocativas e poéticas.

Comparando com Espelho da Água e Estômago Animal, parece-me claro que O Progresso da Humanidade é o livro mais sólido da trilogia. Não só pela estrutura sólida e madura do discurso, mas também pela própria história que me deixou bastante agarrado ao livro. Admito que considerei o final da obra algo anti-climático, mas, lá está, este é um livro em que podemos utilizar a velha máxima de que "mais importante que o final, é a jornada em si".

A edição da Polvo é, à semelhança dos outros dois livros da dupla, em capa dura baça, com bom papel baço no miolo. A encadernação e a impressão também são boas. Este livro insere-se na coleção Biblioteca Polvo, na qual, para além de Espelho da Água e Estômago Animal, também se juntam as obras Morro da Favela, de André Diniz, e O Amor Infinito Que Te Tenho e Outras Histórias, de Paulo Monteiro.

No conjunto, O Progresso da Humanidade afirma-se como uma obra profundamente perspicaz, capaz de entreter e provocar pensamento em simultâneo. Num tempo marcado por discursos polarizados e incongruências normalizadas, este livro funciona como espelho desconfortável, mas necessário. É, quanto a mim, o melhor dos três livros que João Sequeira adaptou a partir dos contos de Rui Cardoso Martins, e um dos melhores livros da banda desenhada nacional editada em 2025.


NOTA FINAL (1/10):
8.9

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Progresso da Humanidade, de João Sequeira e Rui Cardoso Martins - Polvo

Ficha técnica
O Progresso da Humanidade
Autores: João Sequeira e Rui Cardoso Martins
Editora: Polvo
Páginas: 72, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 17,1 x 24 cm
Lançamento: Outubro de 2025

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Análise: Como Pedra

Como Pedra, de Luckas Iohanathan - Polvo

Como Pedra, de Luckas Iohanathan - Polvo
Como Pedra, de Luckas Iohanathan

Uma das mais recentes bandas desenhadas editadas pela Polvo, dá pelo nome de Como Pedra e marca a estreia do autor brasileiro Luckas Iohanathan na feitura de banda desenhada. Foi uma estreia em grande, na verdade, já que esta foi a obra que venceu o relevante Prémio Jabuti, no Brasil, em 2023.

Como Pedra é daqueles livros que nos chegam de mansinho, quase sem que ninguém repare neles, mas aqueles que lhe dão uma oportunidade encontram nesta banda desenhada solitária, companhia para o espírito e matéria para reflexão. A obra promete-nos uma travessia pelo Sertão profundo, mas aquilo que o autor nos oferece é, acima de tudo, uma descida lenta, mas profunda, às camadas mais áridas da condição humana, onde a seca não é apenas climática, mas também espiritual, social, emocional; e onde a fome não é apenas por alimento para o corpo, mas também por alimento para a alma.

Como Pedra, de Luckas Iohanathan - Polvo
A história começa com um casal que luta, dia após dia, para garantir a sobrevivência de Rosa, a filha que depende inteiramente de uma cadeira de rodas e de medicamentos que o Estado brasileiro só oferece pela metade. A outra metade da medicação necessária ao tratamento de Rosa, têm que ser os pais a assegurar por falta de meios do Sistema de Saúde Brasileiro. Dias depois de ter lido o Dormindo Entre Cadáveres, de Luís Moreira Gonçalves e Felice Parucci, não deixa de ser curioso que, novamente, embora de forma muito diferente, o frágil e insuficiente sistema de saúde do Brasil seja exposto a nu. 

A narrativa, aqui, não tem pressa. A presença de Rosa é central, mesmo que ela própria esteja ausente do movimento e da palavra, mas é interessante como Luckas Iohanathan transforma essa ausência em presença simbólica: Rosa existe nos silêncios, nas pausas, nos olhares suspensos entre uma página e outra. Há um certo lirismo austero neste livro, quase seco, que amplifica a impotência e, ao mesmo tempo, o cuidado que afeta a vida de Rosa. E é talvez nessa vertente que este livro mais me fascinou.

A chegada do filho mais velho do casal, ausente durante anos, funciona como ponto de viragem na narrativa. Ele não vem sozinho, traz consigo uma seita religiosa, composta por amigos convertidos a um fanatismo que se propaga como uma praga silenciosa. A partir daqui, o livro mergulha numa espiral religiosa em que as personagens, especialmente os pais de Rosa, começam a acreditar que a fé pode resolver tudo… desde que haja um sacrifício, claro, pois nada é grátis, nem mesmo a misericórdia de Deus. E, claro, o alvo desse sacrifício não tarda a tornar-se evidente.

Como Pedra, de Luckas Iohanathan - Polvo
O ritmo, conforme já mostrado, é lento, o que pode ser uma forma de afastar alguns leitores nas primeiras páginas. Mesmo assim, garanto-vos que a viagem que fazemos enquanto leitores, vale bem a pena. A história demora a arrancar, sim, mas esse atraso prepara a explosão emocional que virá mais tarde. Quando a trama finalmente acelera, ou melhor, se afirma, o impacto da narrativa faz-se soar. 

A forma como Iohanathan explora o fanatismo é subtil mas incisiva. O autor não caricatura nem demoniza abertamente a religião, limitando-se a mostrar o modo gradual como a crença se infiltra e como a esperança distorcida pode ser mais devastadora do que a própria miséria. 

Mas talvez o que mais me tocou tenha sido o modo poético com que o autor trabalha os silêncios. Há vinhetas inteiras em que nada se diz, mas muito se sente. É nesses vazios que a narrativa respira e, paradoxalmente, onde nos afogamos. 

Como Pedra, de Luckas Iohanathan - Polvo
Outro aspecto particularmente forte, mesmo que subentendido, é a dimensão ecológica da obra. O livro expõe as consequências da destruição ambiental. No Nordeste brasileiro, onde a seca se agrava ano após ano, as alterações climáticas são uma violência diária que tem como principal causa a sobreexploração agrícola governamental - e privada -, que é empurrada por interesses económicos distantes, que leva a que natureza e as comunidades próximas que dependem dela pereçam. 

E é sempre o pobre quem mais paga. A família de Rosa, já vulnerável, fica ainda mais exposta quando o ambiente se torna hostil, quando o solo deixa de dar sustento, quando a fome se estabelece e quando o Estado falha. A precariedade climática e a precariedade social caminham, pois, de mãos dadas.

Visualmente, Como Pedra impressionou-me bastante. O estilo de desenho remete, de certa forma, e com as devidas distâncias, para o traço de Bastien Vivès, mostrando-se minimalista, elegante, de linhas limpas e expressivas e dando espaço a que as sombras possam desempenhar um papel essencial. As cores, em tons amarelados, incrementam a sensação de aridez, de calor, de seca, de desolação. É verdade que, por vezes, os desenhos podem ser um pouco despidos demais, mas creio que isso é opção autoral com um propósito claro de se atingir uma certa poesia.

A edição da Polvo apresenta capa mole baça, com badanas. No interior, o papel é baço e de boa qualidade. A impressão e encadernação também são boas. No início, há um texto introdutório de Marcelino Freire que nos enquadra perante a história. Há duas capas diferentes disponíveis.

Concluindo, Como Pedra é uma Bd demarcadamente poética. Não é apenas uma leitura, mas uma experiência emocionalmente desgastante e, quer queiramos, quer não, necessária. Luckas Iohanathan constrói um retrato brutal e poético do Sertão, onde a fé, a fome, a esperança e a loucura se entrelaçam. É uma obra que dói, que pesa e que exige bastante de nós, leitores. 


NOTA FINAL (1/10):
8.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Como Pedra, de Luckas Iohanathan - Polvo

Ficha técnica
Como Pedra
Autor: Luckas Iohanathan
Editora: Polvo
Páginas: 200, a cores
Encadernação: Capa mole, com badanas
Lançamento: Novembro de 2025

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Comparativo: "Living Will" pela Polvo e pela Ave Rara



Nem sabem a felicidade que tive quando soube que a editora Polvo iria editar, e de forma integral, a obra Living Will, de André Oliveira, Joana Afonso e Pedro Serpa!

Esta é, quanto a mim, uma das melhoras obras da banda desenhada nacional! A esse propósito, até vos convido a mergulhar na análise que fiz a este livro, aqui.

Originalmente lançado em formato comic, pela Ave Rara, uma chancela independente do próprio André Oliveira, Living Will foi-nos sendo dado aos poucos, de forma intermitente, entre os anos 2013 e 2018. No total, foram 7 mini-comics de 16 páginas que nos ofereceram uma história linda sobre a vida, sobre os remorsos, sobre o amor, sobre o passado, sobre a redenção.

É a obra onde, a meu ver, André Oliveira se demonstrou mais inspirado, com um texto completamente quotable e uma história profunda, ora amarga, ora doce. Por seu turno, Joana Afonso afirmou-se de vez como uma das mais importantes figuras da ilustração de banda desenhada em Portugal. Infelizmente, possivelmente por indisponibilidade de tempo, Joana Afonso foi substituída em dois dos sete volumes da série por Pedro Serpa. Não querendo, de forma alguma, descurar o comprometimento e talento do autor, é inegável que a continuidade visual da obra se (res)sentiu nesses números assinados por Pedro Serpa, o que foi uma pena.




A edição original da obra foi feita na língua inglesa para chegar a um mercado mais internacional. Percebo perfeitamente a razão, como é óbvio, mas era lamentável que esta obra, feita por portugueses, não estivesse disponível na sua língua materna, o português.

E é, também por isso, que fiquei muito feliz com esta edição da Polvo. Porque mais que fazer chegar esta bela obra aos leitores portugueses, fazia sentido que isso fosse feito em formato integral e, claro, na língua portuguesa. 

E só com essa cajadada, a Polvo mataria logo dois coelhos. E a editora não se ficou por aí! Mas já lá iremos.

Esta nova edição tem duas capas novas, à escolha. No meu caso, o meu livro tem a capa amarela, onde nos aparece o protagonista da história, Will, o seu cão e fotografias das várias personagens que aparecem na obra. Uma capa bonita que me remete para a igualmente bela capa de Rugas, de Paco Roca. Existe ainda outra capa, na cor roxa, que também funciona muito bem.




Esta nova edição tem generosas 180 páginas e é-nos dada em capa mole, com badanas. É uma edição bonita e respeitosa, mas tendo em conta a qualidade e a relevância da obra em questão, bem como não esquecendo que esta edição procura ser uma edição definitiva da obra, julgo que teria sido melhor se a edição fosse em capa dura. Não me chateiam as capas moles, mas acho que as capas duras granjeiam mais prestígio, requinte e durabilidade aos livros. E Living Will merecia-o.

Falando ainda em coisas menos positivas, talvez o formato da edição da Polvo pudesse ter sido um pouco maior. É quase igual ao formato original, sim, mas mesmo assim é um pouco menor.

Mas, apontadas as coisas que considero como menos positivas nesta edição, há que referir que são muitas as coisas positivas.

Desde logo, porque o "formato livro" supera, a todos os níveis, o "formato revista" em que a obra foi originalmente lançada. Respira melhor, nãose dispersa e permite que o leitor possa degustar a obra com mais afinco.



Uma coisa que apreciei nesta edição da Polvo, em que parece ter havido um carinho e cuidado especial para com a obra, foi que as belas capas dos sete capítulos originais não se perdessem. 

Todas elas servem como separador entre histórias. Talvez pudesse ter sido colocada a versão completa das ilustrações, uma vez que, originalmente, eram de dupla página, servindo a capa e a contracapa de cada livro, mas também não sei como isso poderia ter sido feito, sem aumentar o número de páginas do livro e sem distorcer a ordem das páginas.




Além disso, também gostei que até mesmo aquele breve sumário da história com que terminava cada um dos sete números, fosse resgatado nesta nova edição sempre que um capítulo termina. Teria sido uma pena tirar essa componente de séria televisiva a Living Will que é mais uma das (muitas) coisas que tanto aprecio nesta edição. 

Foi, portanto, uma escolha acertada nesta nova edição.




Embora esta nova reedição seja bastante fiel à edição original da Ave Rara, tendo a mesma font para a balonagem, inclusive, nota-se, especialmente logo no primeiro capítulo da história, que houve um reajuste da cor, passando agora a ser muito mais suave e agradável.

Nota positiva para essa alteração.




Além disso, e já olhando para os inúmeros extras que, generosamente, esta nova edição da Polvo nos traz, o livro abre com uma nota introdutória em que André Oliveira disserta sobre a feitura da obra e sobre o atual momento da mesma.




Além disso, a nova edição da obra inclui uma entrevista/conversa ente Gabriel Martins e os três autores, bem conduzida, que responde a algumas questões que, certamente, muitos dos leitores poderiam formar na sua cabeça. 

E são essas as entrevistas que, quanto a mim, são bem feitas. Portanto, trata-se de mais um bom acrescento à nova edição da obra.




Além disso, há também espaço para que muitos autores consagrados da banda desenhada nacional homenageiem esta obra através das suas próprias ilustrações. 

São 13 estas ilustrações adicionais e apresentam um estilo que, naturalmente, é muito belo pelo seu ecletismo e capacidade artística dos autores que participam nesta homenagem conjunta, que são os seguintes: Filipe Andrade, Joana Mosi, Pedro Brito, Catarina Paulo, Francisco Sousa Lobo, Carla Rodrigues, Paulo Monteiro, Kachisou, Carline Almeida, Inês Galo, Filipe Abranches, Miguel Rocha e Jorge Coelho.




Há ainda espaço para seis páginas dedicadas a esboços e estudos de personagem por parte de Joana Afonso, que são um deleite para os olhos.




Por fim, a cereja em cima do bolo e talvez a grande iniciativa desta bela edição, é que este livro reúne um capítulo extra e inédito, feito de propósito para esta edição. 

É uma história de 18 páginas, onde mergulhamos na relação conturbada entre pai e filho e na importância, quer pelo lado positivo, quer pelo lado negativo, do pugilismo nas suas vidas. É uma história pungente e sentimental, em que André Oliveira se mantém inspirado e onde fica claro como a evolução de Joana Afonso tem-se registado de álbum para álbum, de história para história. 

Joana Afonso já era detentora de um talento especial em 2013, quando começou este Living Will, mas, em 2025, o seu talento é ainda mais exponencial. 

Que excelente ideia incluir esta história adicional na edição!



Não sei se têm ou não os 7 fascículos da primeira edição de Living Will. Quer os tenham ou não, parece-me que a compra deste novo livro da Polvo se assume como obrigatória. Qualquer amante de (boa) banda desenhada deve ler Living Will!

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Living Will é reeditado em português e num só volume!




Se houve notícia que me deixou extremamente feliz, foi saber que a editora Polvo iria reeditar a obra Living Will, originalmente editada em formato comic e na língua inglesa, pela editora Ave Rara, num só volume integral e na língua de Camões.

Eu já sou um grande fã da globalidade do trabalho de André Oliveira e Joana Afonso e, mesmo assim, considero este como um dos seus melhores trabalhos. Brilhantemente escrito por André Oliveira, Living Will é uma história marcante e uma das obras portuguesas da minha eleição.

Considero, pois, que havia uma autêntica lacuna no nosso mercado que era não termos, num só livro, e em português, já agora, - que aqui se fala português! - esta belíssima obra que, aliás, já recebeu análise aqui no Vinheta 2020.

Refiro que o livro com que a Polvo agora nos brinda apresenta duas capas diferentes, que poderão escolher, e já se encontra à venda no Amadora BD, estando prevista a sua apresentação para o próximo domingo, dia 26 de Outubro, às 11h no auditório do evento.

Por agora, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Living Will, de André Oliveira, Joana Afonso e Pedro Serpa

Acho que todos sentimos a falta de alguém.A vida do velho Will parece ter chegado a um beco sem saída. Depois de meio século passado lado a lado com a sua alma gémea, Judith, está agora sozinho e sem nada que lhe desperte o interesse.

Sim, é rabugento, tem os olhos pesados e tristes, e a verdade é que, quando desaparecer, poucos sentirão a sua falta. Tirando o barman Richie ou o médico Terry, não tem realmente ninguém a quem possa chamar amigo. E é quando vê o fim a aproximar-se que decide atar as pontas soltas que deixou para trás, junto de todos aqueles com quem se incompatibilizou.

Ao mesmo tempo, Betty, uma apresentadora de TV em busca de redenção, está à beira do colapso e só quer deixar uma marca positiva no mundo. Mas será mesmo possível? Ou estaremos prestes a ser surpreendidos?

Living Will reúne os comics editados entre 2013 e 2018, agora em português.

Inclui ainda:

- Capítulo adicional desenhado por Joana Afonso

- Galeria de imagens por 13 autores convidados: Jorge Coelho, Miguel Rocha, Filipe Abranches, Inês Galo, Carline Almeida, Kachisou, Paulo Monteiro, Carla Rodrigues, Francisco Sousa Lobo, Catarina Paulo, Pedro Brito, Joana Mosi e Filipe Andrade

- Entrevista aos autores, por Gabriel Martins

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Ficha técnica
Living Will
Autores: André Oliveira, Joana Afonso e Pedro Serpa
Editora: Polvo
Páginas: 180, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 16,5 x 23 cm
PVP: 24,95€

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Polvo nos últimos 5 anos!



Cá estou eu para mais um TOP 10 com a melhor banda desenhada editada nos últimos 5 anos em Portugal! Hoje é dia de ficarmos a conhecer quais os melhores livros de BD que a editora Polvo lançou nos últimos 5 anos.

A Polvo é uma das editoras de banda desenhada mais antigas em Portugal, tendo já editado perto de 200 livros, desde o seu início de atividade há quase 30 anos. Sendo uma editora de cariz independente, não tem uma assiduidade muito constante no lançamento de novos livros, ao longo dos meses, embora, todos os anos, seja quase garantido que haverá novos livros desta editora a serem lançados por alturas do Amadora BD

Com um catálogo que se concentra numa clara aposta em obras de origem brasileira, a editora tem também editado muitas obras de referência de autores nacionais, bem como de outros autores europeus.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Faço aqui uma pequena nota sobre o procedimento: considerei séries como um todo e obras one-shot. Tudo junto. Pode ser um bocado injusto para as obras autocontidas, reconheço, e até ponderei fazer um TOP exclusivamente para séries e outro para livros one-shot, mas depois achei que isso seria escolher demasiadas obras. Deixaria de ser um TOP 10 para ser um TOP 20. Até me facilitaria o processo, honestamente, mas acabaria por retirar destaque a este meu trabalho que procura ser de curadoria. Acabou por ser um exercício mais difícil, pois tive que deixar de fora obras que também adoro, mas acho que quem beneficia são os meus leitores que, deste modo, ficam com a BD que considero ser a "crème de la crème" de cada editora.

Deixo-vos então, as 10 melhores BDs editadas pela Polvo nos últimos 5 anos.

terça-feira, 22 de abril de 2025

Análise: Lovistori | Cadafalso | O Diabo e Eu

Lovitori | Cadafalso | O Diabo e Eu, de Alcimar Frazão - Polvo

Lovitori | Cadafalso | O Diabo e Eu, de Alcimar Frazão - Polvo
Lovistori | Cadafalso | O Diabo e Eu, de Alcimar Frazão

Hoje trago-vos uma dose tripla de um autor brasileiro que muito aprecio e cuja obra tem vindo a ser editada em Portugal pela editora Polvo, mas que, com alguma pena minha, não tem recebido o destaque e o louvor que, quanto a mim, lhe é devido.

Falo-vos de Alcimar Frazão que, com uma obra marcada por um traço visual inconfundível e uma escrita densa e poética, se tem vindo a afirmar como uma das vozes mais singulares da banda desenhada contemporânea do Brasil. Por cá, a Polvo já editou O Diabo e Eu, Cadafalso e, mais recentemente, Lovistori.

Comecemos por este último.

Lovitori | Cadafalso | O Diabo e Eu, de Alcimar Frazão - Polvo
Lovistori, com argumento de Lobo, narra uma história de amor que se desenrola nas ruas de Copacabana entre um travesti e um polícia. É uma história em género slice of life que nos coloca no turbilhão de sentimentos que envolve as personagens Sereia e Paixão, num relacionamento amoroso que, aos olhos de muitos, e possivelmente dos próprios protagonistas, tem muito de condenável. Sereia e Paixão tentam, como podem, fazer o seu amor e a sua paixão resistir a barreiras que parecem demasiado altas para serem ultrapassadas. Abordando os temas da transfobia, do preconceito e da violência de que é alvo a comunidade LGBTQI+ no Brasil atual, este é um livro de forte impacto, com alguma violência à mistura, que desafia o leitor a uma reflexão sobre os temas aqui presentes. Reflexão essa que não é demasiado politizada, o que me agradou. A narrativa, aparentemente simples, esconde camadas emocionais profundas e uma crítica subtil à banalização das relações humanas e da aceitação do outro. Dos três livros, é este o meu preferido - embora também tenha gostado muito de O Diabo e Eu

Em Cadafalso, Alcimar Frazão oferece-nos um conjunto de histórias curtas, em que os temas e as abordagens diferem bastante entre si, embora quase todas estas histórias curtas nos apresentem uma realidade algo sombria e triste que é, como expectável, sublinhada pela bela utilização dos tons negros e do espaço negativo das ilustrações, por parte do autor brasileiro. Há bastantes referências nestes contos, passando pela música, pela literatura ou pela filosofia existencialista, e as várias histórias acontecem em lugares muito variados como Florença, Barcelona, São Paulo ou Porto Alegre. Sendo um bom livro, admito que, dos três do autor, foi este aquele que menos me marcou, talvez pelo fio condutor - se é que o mesmo existe - ser algo disperso entre as diversas histórias. O que, reconheço, até pode ser um ponto a favor para os leitores que procuram histórias mais curtas e independentes, sobre variados temas.

Lovitori | Cadafalso | O Diabo e Eu, de Alcimar Frazão - Polvo
Finalmente, O Diabo e Eu, obra através da qual conheci o trabalho do autor brasileiro, é uma biografia/homenagem muda, sem qualquer balão de fala ou legenda, ao músico Robert Johnson, uma figura incontornável dos blues americanos que criou na década de 1930 uma sonoridade entendida por muitos como a ligação entre o blues rural, acústico e sujo, e o blues moderno e eletrificado. O seu talento foi atribuído a um suposto pacto que ele teria feito com o Diabo na encruzilhada das estradas 61 com a 49, nos Estados Unidos. Pegando nas canções de Johnson para a partir daí construir uma narrativa de tom existencial sobre esta figura emblemática, Alcimar Frazão oferece-nos um livro que consegue o feito de fazer o leitor refletir e, por ventura, reler o livro uma segunda vez para mais profundamente conseguir captar os intentos do autor, já que há várias mensagens subliminares a retirar daqui. Gostei muito!

Olhando para estes três livros como um todo, é legítimo afirmar que os mesmos formam uma espécie de tríptico temático e estético, cada um mergulhado em atmosferas próprias é certo, mas todos conectados por uma visão profundamente humana e estilisticamente apurada da condição existencial. A arte ilustrativa de Frazão é um elemento unificador poderoso, com traços firmes e contrastes duros, que evocam tanto a elegância clássica da banda desenhada europeia, quanto um certo lirismo moderno e cinematográfico.

Lovitori | Cadafalso | O Diabo e Eu, de Alcimar Frazão - Polvo
O desenho de Alcimar Frazão é, pois, e sem dúvida, um espetáculo à parte. Executado sempre a preto e branco puro, o seu estilo alia o rigor técnico à expressividade emocional. A elegância realista com que representa corpos e rostos é impressionante, revelando uma atenção minuciosa ao detalhe sem nunca perder a força simbólica. As sombras e luzes, magistralmente distribuídas, conferem profundidade psicológica a cada cena, enquanto os enquadramentos e composições sugerem uma clara influência do cinema clássico e da banda desenhada europeia.

O seu estilo de ilustração é verdadeiramente belo, diferenciado e magnífico! Daqueles tipos de desenho carregados de charme, drama e noção estética que, tudo somado, são um deleite para os olhos e que é particularmente notável nas sequências de silêncio, onde as personagens falam apenas com os olhos ou com o corpo. Nestes momentos, o estilo de Frazão transcende o desenho narrativo e entra no território da poesia visual. 

Quanto às edições dos três livros, todas elas apresentam o mesmo tipo de aspeto e acabamento. Os três livros envergam capa mole com badanas, bom papel baço no interior, boa encadernação e boa impressão. Os livros O Diabo e Eu e Cadafalso, por terem papel preto, adquirem um certo requinte e destaque visual que me agrada especialmente.

Em suma, Alcimar Frazão é um artista verdadeiramente impressionante, que muito admiro, e que ao longo destes três livros nos acena com um estilo de ilustração depurado, belo, cinematográfico e poético. O facto de também as histórias terem algum existencialismo abstrato pode fazer com que os livros do autor não sejam necessariamente fáceis - ou para toda a gente. Contudo, isso não me impede de afirmar que este é um dos meus autores preferidos da banda desenhada brasileira da atualidade. Não deixem de dar uma oportunidade ao seu trabalho.


NOTA FINAIS (1/10):
Lovistori: 8.6
Cadafalso: 7.4
O Diabo e Eu: 8.2




Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Lovitori | Cadafalso | O Diabo e Eu, de Alcimar Frazão - Polvo

Fichas técnicas
Lovistori
Autores: Lobo e Alcimar Frazão
Editora: Polvo
Páginas: 80, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 169 x 233 mm
Lançamento: Outubro de 2023

Lovitori | Cadafalso | O Diabo e Eu, de Alcimar Frazão - Polvo

Cadafalso
Autor: Alcimar Frazão
Editora: Polvo
Páginas: 120, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 169 x 233 mm
Lançamento: Maio de 2019

Lovitori | Cadafalso | O Diabo e Eu, de Alcimar Frazão - Polvo

O Diabo e Eu
Autor: Alcimar Frazão
Editora: Polvo
Páginas: 48, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 169 x 233 mm
Lançamento: Junho de 2015

quarta-feira, 5 de março de 2025

Análise: Maria - Vida Ordinária | Em Cada Rosto, Igualdade


Maria - Vida Ordinária | Em Cada Rosto, Igualdade, de Henrique Magalhães

Hoje trago-vos dois livros editados pela Polvo da série Maria, do autor brasileiro Henrique Magalhães, com quem já por duas vezes tive a oportunidade - e o privilégio - de apresentar publicamente os seus livros, por altura dos seus lançamentos no Amadora BD.

Os livros em questão são Vida Ordinária, lançado em 2022, e o mais recente lançamento do autor, Em Cada Rosto, Igualdade, que foi lançado no final de 2024.

Maria é uma personagem que comemora este ano 50 anos, tendo sido originalmente criada no já longínquo(?) ano de 1975. 

Através de breves tiras humorísticas, Henrique Magalhães utiliza a personagem como veículo de crítica social desde que esta surgiu. E o que é mais interessante é que, inicialmente, Maria até era uma voz ativa mais política, ou revelar-se contra a ditadura militar que se vivia no Brasil durante os anos 70, mas, ao longo do tempo, tem vindo a renovar-se, a adaptar-se à realidade, sendo agora militante contra a opressão às mulheres, o machismo, o racismo, a homofobia e todas as formas de discriminação social. Com o tempo, a personagem adaptou-se, pois, às transformações sociais, mantendo-se relevante e crítica perante as novas realidades. ​Continua atual, portanto.

As pranchas das breves histórias que estes livros reúnem, apresentam situações do quotidiano que, embora possam parecer banais, refletem questões profundas da sociedade contemporânea. Esta dualidade entre o humor e a reflexão é uma característica marcante da obra que aprecio bastante.​

Em Vida Ordinária, que reúne cerca de 50 pranchas, Magalhães aborda temas contemporâneos como a desigualdade social, a internet, as redes sociais e as fake news. Estas histórias refletem a capacidade de Maria em adaptar-se aos tempos modernos, mantendo a sua essência crítica e bem-humorada, sendo várias as vezes em que Maria, acompanhada por Zefinha ou Pombinha, as suas amigas, nos consegue arrancar uma gargalhada. Mas, se algumas histórias nos fazem sorrir, outras também se revelam oportunidades para reflexão, tal é a forma inteligente como o autor aborda certos assuntos em tão reduzido número de vinhetas. ​

Já no livro, Em Cada Rosto, Igualdade, mantemos, novamente em mais 50 pranchas, o mesmo tom irónico e divertido da série, mas neste caso há a valência adicional de o livro ter reunido um conjunto de tiras propositadamente criadas sobre o 25 de Abril. Mesmo sendo Maria uma personagem do Brasil, da autoria de um autor brasileiro, a verdade é que os seus valores são universais ao tema central da liberdade e igualdade de direitos, razão pela qual me parece muito bem-vinda esta incursão da personagem no tema português da Revolução dos Cravos, de modo a que se possa assinalar em livro os recentemente comemorados 50 anos da liberdade portuguesa.

O estilo de ilustração de Henrique Magalhães é bastante simples, por vezes quase pueril, mas revela-se muito eficiente na forma como nos consegue passar as ideias subjacentes às histórias e questões levantadas pelas personagens. As próprias expressões das mesmas, bastante caricaturais, aumentam esta vertente exagerada e divertida, normalmente presente nas tiras humorísticas.

A edição destes livros, por parte da editora Polvo, apresenta-se em cada mole, com badanas, com papel decente, boa impressão e boa encadernação. Cada um dos livros é introduzido através de um prefácio do próprio autor.

Em suma, vale a pena conhecer a personagem Maria que continua a ser um espelho da sociedade, adaptando-se às mudanças e mantendo-se fiel aos seus princípios de crítica e reflexão social. Eis uma personagem que, como uma Mafalda de Quino, continua ao fim de várias décadas, com uma longevidade impressionante, já que o mundo e as suas inconsistências e incongruências, continua a dar que falar. 


NOTA FINAL (1/10):
7.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Fichas técnicas
Maria - Vida Ordinária
Autor: Henrique Magalhães
Editora: Polvo
Páginas: 64, a preto e branco
Encadernação: Capa mole, com badanas
Lançamento: Outubro de 2022


Maria - Em Cada Rosto, Igualdade
Autor: Henrique Magalhães
Editora: Polvo
Páginas: 64, a preto e branco
Encadernação: Capa mole, com badanas
Lançamento: Outubro de 2024

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

A análise ao trabalho das editoras portuguesas de BD em 2024

A análise ao trabalho das editoras portuguesas de BD em 2024

2024 foi um ano de muita banda desenhada lançada em Portugal! 

O excelente artigo publicado recentemente por Daniel Maia confirma, aliás, aquilo que tenho vindo a dizer há muito tempo: vivemos numa era dourada da banda desenhada em Portugal! Sei que estas coisas são sempre cíclicas, de certa forma, e que também já tivemos, no passado mais e menos recente, boas épocas de edição de BD que, infelizmente, acabaram por dar lugar a um certo marasmo editorial após iniciais tempos promissores. 

Isso é verdade, mas uma coisa que também é inegável, é que este "período dourado" já se arrasta há alguns anos. E as coisas até vão melhorando de ano para ano. São cada vez mais os autores portugueses a publicarem os seus trabalhos em belas edições, são cada vez mais as editoras a lançarem obras estrangeiras de qualidade superior (também em belas edições), são cada vez mais os eventos dedicados à banda desenhada que pululam por esse país fora, são cada vez mais os livros sobre banda desenhada a serem publicados... Não esquecendo que já há em Portugal, segundo a Constituição Portuguesa, um dia dedicado à banda desenhada, enfim... estamos mesmo a viver o melhor momento de sempre!

A análise ao trabalho das editoras portuguesas de BD em 2024

2024 até pode ter sido o ano mais forte de todos, mas apenas por ter tido em si o natural e orgânico desenvolvimento das sementes plantadas nos últimos cinco ou seis anos, parece-me.

Trago-vos, portanto, mais abaixo, uma breve análise ao ano de 2024, centrando-me nas editoras portuguesas e no trabalho que as mesmas nos apresentaram ao longo do último ano.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Passatempo Especial Luís Louro!




O Vinheta 2020, em parceria com a editora Polvo e com o autor Luís Louro, traz-vos um passatempo muito especial para esta quadra natalícia: a oferta do novo integral do Cogito Ego Sum com um autógrafo e dedicatória de Luís Louro!

Não é todos os dias que são oferecidos livros de banda desenhada autografados por autores de renome da BD nacional, mas o Vinheta 2020 quer fazer a diferença premiando os seus leitores.

E este pode muito bem a ser o presente de natal que procuravam, pois é um livro absolutamente recomendado para qualquer fã do trabalho de Luís Louro, garanto-vos!





REGRAS

Para que se habilitem a vencer este prémio, peço-vos o envio para vinheta2020@gmail.com de uma frase com as palavras Cogito Ego Sum, Vinheta 2020 e Polvo.

A frase mais divertida e criativa vencerá este fantástico prémio!

O passatempo é válido até à próxima sexta-feira, dia 6 de Dezembro.

Boa sorte a todos!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Análise: Edgar

Edgar - De Lisboa a Paris, nos Passos do meu Sogro Revolucionário, de Mathieu Sapin - Editora Polvo

Edgar - De Lisboa a Paris, nos Passos do meu Sogro Revolucionário, de Mathieu Sapin - Editora Polvo
Edgar - De Lisboa a Paris, nos Passos do meu Sogro Revolucionário, de Mathieu Sapin

Foi ainda durante o Amadora BD que a editora Polvo publicou, entre outras novidades, o livro Edgar - De Lisboa a Paris, nos Passos do meu Sogro Revolucionário, do francês Mathieu Sapin. Era um livro que me estava a deixar com muita curiosidade de o conhecer, por vários motivos: a obra teve direito a uma exposição no Amadora BD e ainda tive o prazer de ouvir parte da apresentação da mesma durante o evento. E todas estas coisas aumentaram o meu interesse na obra.

Este é um livro que narra alguns dos principais acontecimentos na caminhada de Edgar, o sogro de Mathieu Sapin, cuja trajetória de vida foi marcada pela participação, de forma mais ou menos ativa, em acontecimentos históricos e pessoais significativos. Edgar é português e acompanhou de perto a ditadura de Salazar e a revolução portuguesa.

Depois de finda a minha leitura, posso dizer-vos que estamos perante um belo trabalho que tem o condão de ser recomendável por vários motivos: por um lado, a história de Edgar está repleta de eventos e experiências que valem a pena conhecer; por outro lado, o facto de Mathieu Sapin fazer de Edgar uma personagem muito interessante, que evoca o Dom Quixote de Miguel de Cervantes, ao levar-nos a questionar alguma da veracidade dos seus relatos, faz com que a leitura seja, por ventura, mais impactante. Por último, tratando-se de uma personagem portuguesa, até agora anónima, que testemunhou tantos eventos da história recente do nosso país, o livro reveste-se, claro está, de mais relevância para que possamos compreender melhor o período pelo qual Portugal passou. Diria até que é um daqueles casos em que seria um "crime" que as editoras portuguesas deixassem passar a oportunidade de publicar esta obra "tão portuguesa", mesmo tendo sido feita por um estrangeiro.

Edgar - De Lisboa a Paris, nos Passos do meu Sogro Revolucionário, de Mathieu Sapin - Editora Polvo
Ora, estas duas coisas que acabo de apontar podem soar um pouco divergentes, reconheço. Se, por um lado, Edgar é um contador de histórias que, bem ao jeito do protagonista do filme Big Fish, de Tim Burton, nos apresenta passagens que parecem (demasiadamente) mirabolantes na sua vida, o que nos faz duvidar da sua veracidade; por outro lado, a obra também tenta ser educativa e, portanto, essas duas valências poderão opor-se uma à outra. Mesmo assim, não se apoquentem: parece-me que o livro Edgar consegue fazer as duas coisas bem: é um importante contributo para que possamos mergulhar nestes factos históricos e, paralelamente, se a personagem real de Edgar é algo dúbia nas suas afirmações, isso permite, quanto a mim, uma proximidade do leitor à mesma. Devo dizer que fiquei fã de Edgar e, especialmente, da sua personalidade, completamente "fora da caixa" e extremamente genuína, bem apanhada pelo autor Mathieu Sapin.

O próprio Mathieu Sapin - e até mesmo o editor da Polvo, Rui Brito, já agora - aparece como personagem da obra, sendo que o livro não é mais do que um extenso conjunto de diálogos entre Sapin e o seu sogro, Edgar, com este último a contar-lhe, ou melhor, a contar-nos, a sua história de vida. Desde os tempos em que era jovem e começou a pôr em causa o regime que controlava Portugal, até aos tempos em que chegou mesmo a militar contra o mesmo, unindo-se aos grupos comunistas, participando em movimentos revolucionários, e acabando, eventualmente, por desertar do exército português e procurar asilo em Paris. Chegado a França, Edgar encontra não só refúgio do regime português, como a oportunidade para recomeçar a sua vida. 

Edgar - De Lisboa a Paris, nos Passos do meu Sogro Revolucionário, de Mathieu Sapin - Editora Polvo
O livro acaba, pois, por revelar a complexidade de uma experiência de vida que pode muito bem ter sido partilhada por tantos e tantos outros portugueses que se viram confrontados com uma existência semelhante. Esta jornada inclui não apenas momentos de luta política, mas também a adaptação à vida num novo país e as suas relações pessoais e familiares. Pelo meio, Sapin vai-nos introduzindo a várias figuras e momentos chave da história contemporânea de Portugal, o que contribui, lá está, para a vertente mais educativa da obra e para dar alguma dinâmica narrativa à mesma. 

O facto de Edgar ser um trabalho autobiográfico, focada no sogro de Sapin, confere uma camada de intimidade e autenticidade à história. O autor consegue entrelaçar elementos de sua própria vida com a história de Edgar, mostrando a influência que esta personagem tem na sua vida pessoal e na forma como ele vê o mundo. Essa abordagem pessoal torna a obra não apenas um retrato histórico, mas também uma homenagem a uma figura que, para Sapin, representa coragem e resiliência.

O que ainda não referi e que, a meu ver, é um ponto alto da obra, é o cariz humorístico da mesma. Não só considero este livro como pertencente ao subgénero do humor, como admito ter-me rido bastantes vezes à medida que ia avançando na leitura. Não é que estejamos perante um livro de gags clássicos, com a introdução cirúrgica dos clássicos punchlines que estão ali só mais para nos fazerem rir. Não. Mas estamos perante uma personagem forte, por vezes caricata, que, pela sua forma de estar e pelas suas afirmações - que são depois complementadas pelos comentários, pensamentos e justificações de Sapin - nos consegue arrancar várias risadas. Edgar é paranoico, achando sempre que os chineses o estão a vigiar, e conta-nos com desfaçatez o facto de ter sido a estrela de um documentário de Lazareff, de ser um descendente afastado do Duque de Wellington ou de ter escrito um livro sobre as suas vivências.

Edgar - De Lisboa a Paris, nos Passos do meu Sogro Revolucionário, de Mathieu Sapin - Editora Polvo
Face a todas estas afirmações estonteantes, vemos depois Sapin a fazer pesquisa em cima do que lhe é contado pelo sogro e a descobrir que, mesmo de uma forma que podemos considerar parcial, há verdade naquilo que Edgar afirma. Ou uma parte de verdade, vá. Bem à semelhança do já mencionado filme Big Fish, de Burton.

O estilo de ilustração combina bem com esta abordagem humorística. Os desenhos são "cartoonescos" e, por vezes, algo toscos nas formas, com as cabeças das personagens a serem bem maiores, em termos proporcionais, do que os corpos que as sustentam. Mesmo assim, a maneira como o autor desenha os cenários, como a baixa lisboeta, a Ericeira ou a cidade de Paris, por exemplo, é bastante agradável à vista. Nota positiva para as cores, da autoria de Clémence Sapin, que tornam as ilustrações de Mathieu Sapin ainda mais apelativas. 

Em termos de edição, estamos perante um belo trabalho da editora Polvo que até não costuma editar livros nestes moldes: o livro apresenta capa dura brilhante, bom papel baço no interior do livro e bom trabalho ao nível da impressão e da encadernação. No final, enquanto extra, há um caderno gráfico onde temos acesso ao bloco de notas do autor, com textos e esboços. A edição portuguesa desta obra - que foi originalmente lançada em 2023 - apresenta uma nova capa que é bastante mais bonita do que a capa da edição original da obra.

Em suma, este é um livro bem-vindo e lançado com bom sentido de oportunidade por parte da editora Polvo, já que se comemoram em 2024 os 50 anos do 25 de Abril e importa não esquecer o quão negativamente impactante foi a ditadura de Salazar em milhares e milhares de portugueses que se viram perseguidos e forçados a trocar de pátria para a demanda por uma vida melhor. E mais livre. E em Edgar, Mathieu Sapin, dá-nos tudo isso enquanto nos apresenta uma personagem real e irresistivelmente cómica: o seu próprio sogro.


NOTA FINAL (1/10):
8.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Edgar - De Lisboa a Paris, nos Passos do meu Sogro Revolucionário, de Mathieu Sapin - Editora Polvo

Ficha técnica
Edgar - De Lisboa a Paris, nos passos do meu sogro revolucionário
Autor: Mathieu Sapin
Editora: Polvo
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 215 x 283 mm
Lançamento: Novembro de 2024