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terça-feira, 12 de maio de 2026

Análise: Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida

Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida, de Julia Korbik e Julia Bernhard - Iguana - Penguin Random House

Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida, de Julia Korbik e Julia Bernhard - Iguana - Penguin Random House
Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida, de Julia Korbik e Julia Bernhard

O livro Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida, foi editado há poucas semanas pela Iguana - uma chancela do grupo editorial Penguin - e resulta do trabalho conjunto das autoras alemãs Julia Korbik (texto) e Julia Bernhard (ilustrações). Autoras essas que estarão presentes por cá, na próxima edição do Maia BD.

O livro apresenta‑se como uma biografia em banda desenhada que procura tornar acessível a vida e o pensamento de Simone de Beauvoir, uma das figuras centrais do século XX. A obra assume desde o início uma vocação introdutória, deixando claro que não pretende ser uma análise filosófica profunda, mas antes um retrato geral da trajetória pessoal e intelectual de Simone de Beauvoir.

Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida, de Julia Korbik e Julia Bernhard - Iguana - Penguin Random House
Nascida em 1908, Simone de Beauvoir foi uma filósofa, escritora e intelectual francesa, uma das figuras centrais do existencialismo no século XX. Parceira intelectual e amorosa do também famoso filósofo Jean‑Paul Sartre, com quem manteve uma relação livre e duradoura, Beauvoir teve formação em filosofia e destacou‑se num meio predominantemente masculino, sendo uma das primeiras mulheres a obter reconhecimento académico e literário nesse campo.

A sua obra mais marcante, O Segundo Sexo, acabou por se tornar num verdadeiro marco fundamental do pensamento feminista. Nesse livro, Simone argumenta que a condição feminina não é determinada apenas pela biologia, mas sobretudo por fatores históricos, sociais e culturais. 

Além desta importante obra, Simone de Beauvoir esteve politicamente envolvida em causas sociais ao longo da sua vida, como na defesa dos direitos das mulheres, desempenhando, por exemplo, um papel relevante no caso de Bobigny, já amplamente abordado no belo livro Bobigny 1972, de Marie Bardiaux-Vaïente e Carol Maurel (ASA), e que nesta biografia também merece algum destaque.

Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida, de Julia Korbik e Julia Bernhard - Iguana - Penguin Random House
A narrativa deste Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida estrutura‑se a partir de uma entrevista entre Madame Blair e Simone de Beauvoir, opção que funciona como eixo organizador da obra. Este enquadramento dá ao livro um tom intimista e dialogado, permitindo que os principais momentos da vida da filósofa surjam como recordações contadas na primeira pessoa, o que facilita a aproximação do leitor à personagem.

Deste modo, são abordados vários episódios fundamentais da vida de Beauvoir, como a sua infância burguesa, a sua formação intelectual, o seu encontro com Jean‑Paul Sartre, a sua afirmação como escritora, o seu envolvimento político e o seu impacto da obra, já por mim referida, O Segundo Sexo. Todos estes momentos que nos são dados ajudam a que seja composta uma linha cronológica clara para quem pouco conhece a autora. E isso é bem feito.

Contudo, apesar de cumprir essa função, diria, "panorâmica", o livro acaba por tratar muitos destes episódios de forma relativamente superficial. Os acontecimentos surgem uns após os outros, mas raramente são aprofundados ou ligados por um fio condutor mais robusto que permita compreender melhor as tensões internas, as evoluções ideológicas ou as próprias contradições de Simone de Beauvoir. Que eram algumas.

Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida, de Julia Korbik e Julia Bernhard - Iguana - Penguin Random House
Essa falta de maior densidade analítica faz com que o livro avance rapidamente, quase em ritmo de resumo ilustrado. A leitura é fluida e agradável, sim, mas por vezes deixa a sensação de que temas complexos, como o existencialismo, o feminismo ou a relação entre vida pessoal e obra, são apenas tocados à superfície.

Ainda assim, importa reconhecer que essa abordagem não compromete totalmente o livro. Dentro dos seus próprios pressupostos, a obra até funciona realtivamente bem, pois oferece uma visão geral coerente, contextualiza a importância histórica de Beauvoir e desperta curiosidade para leituras futuras mais exigentes sobre a filósofa.

No plano visual, o desenho é realizado a preto e branco, com a aplicação dominante de uma única cor, um amarelo esverdeado, que atravessa grande parte do livro. Esta escolha confere unidade gráfica, mas também cria um ambiente visual algo mortiço e pouco dinâmico, fazendo com que haja uma certa monotonia visual, especialmente em sequências mais longas. 

Outro problema significativo da ilustração prende‑se com a caracterização das personagens. O estilo de ilustração de Julia Bernhard aposta em traços faciais muito simples e lineares, o que faz com que muitas personagens se tornem confundíveis entre si. Em várias cenas, é difícil distinguir quem é quem. Essa limitação compromete, claro, a clareza narrativa em alguns momentos, sobretudo quando surgem várias figuras históricas ou secundárias na mesma página. 

Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida, de Julia Korbik e Julia Bernhard - Iguana - Penguin Random House
Outro aspeto particularmente irritante nos desenhos é a sensação de pixelização presente em certas páginas, onde parecem haver imagens ampliadas a partir de um formato menor, o que prejudica a nitidez do traço. Como tal, tentei perceber se este problema se devia à qualidade da impressão da Iguana ou se era uma opção estética da autora. Ao comparar com páginas promocionais disponíveis na web, não me foi possível chegar a uma conclusão definitiva sobre a origem deste efeito. Mas bem, seja falha de impressão ou escolha gráfica da autora, o resultado não é satisfatório e quebra a experiência de leitura em vários momentos.

De resto, a edição da Iguana apresenta capa dura baça e bom papel baço no miolo. No final da obra, há ainda um caderno de extras, com mais de 10 páginas, que inclui excertos de cartas enviadas a Simone de Beauvoir, textos conclusivos e biografias das duas autoras e uma extensa lista de literatura selecionada e fontes de inspiração. As guardas do livro incluem ainda uma cronologia detalhada com alguns momentos relevantes da vida de Simone de Beauvoir, em paralelo com os acontecimentos político-sociais mais marcantes do período histórico em que viveu. 

Em conclusão, Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida cumpre o seu objetivo principal: apresentar a vida de uma mulher extraordinária, moderna e ainda profundamente relevante. No entanto, fá‑lo sem o primor narrativo e visual que tornaria a obra verdadeiramente memorável. Trata‑se, pois, de uma leitura recomendável sobretudo para fãs de Simone de Beauvoir ou para quem deseja ter um primeiro contacto com a sua vida, mais do que para leitores exigentes de (boa) banda desenhada.


NOTA FINAL (1/10):
6.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida, de Julia Korbik e Julia Bernhard - Iguana - Penguin Random House

Ficha técnica
Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida
Autoras: Julia Korbik e Julia Bernhard
Editora: Iguana
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Março de 2026

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Vai sair BD portuguesa ambientada no tempo do Estado Novo!



A Iguana prepara-se para editar, a partir do próximo dia 13 de Abril, a nova BD da dupla portuguesa formada por Paulo Caetano e Jorge Mateus!

Depois de O Segredo dos Mártires, dos mesmos autores, nos ter transportado até ao tempo dos Descobrimentos Portugueses, desta vez a sua nova obra leva-nos para um tempo menos dourado da História portuguesa: o dos anos 50, em que o Estado Novo estava bem instalado no poder e era apoiado pela PIDE.

É um livro que me está a despertar bastante a curiosidade e que já pode ser encontrado em pré-venda no site da editora.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

A Fuga, de Paulo Caetano e Jorge Mateus

Nos turbulentos finais dos anos 50, quando Portugal fervilhava entre a miséria, a coragem e a repressão, um homem simples torna-se protagonista de uma das fugas mais audaciosas da história do regime salazarista. António Tereso, motorista da Carris e militante clandestino do PCP, é preso pela PIDE e, quebrado pela tortura, carrega uma culpa que o consome: falou quando não devia. Agora, precisa de recuperar a honra - perante a família, os companheiros e o próprio Partido.

A FUGA revela o percurso íntimo e heróico de Tereso: a vergonha, o isolamento entre os «rachados», a humilhação e o plano impossível que aceita para se redimir - organizar uma evasão da fortíssima cadeia de Caxias. Durante dois anos vive uma dupla identidade, conquista a confiança dos guardas e prepara, em segredo absoluto, uma operação digna de cinema.

O resultado é uma fuga espetacular: um carro blindado oferecido por Hitler a Salazar, sete dos mais importantes dirigentes comunistas escondidos no seu interior e um homem determinado a recuperar a dignidade perdida - custe o que custar.

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Ficha técnica
A Fuga
Autores: Paulo Caetano e Jorge Mateus
Editora: Iguana
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 170 x 240 mm
PVP: 18,45€

quinta-feira, 19 de março de 2026

Iguana lança BD sobre Simone de Beauvoir!



A editora Iguana prepara-se para publicar uma biografia em banda desenhada e Simone de Beauvoir!

O livro em questão chama-se Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida, é da autoria de Julia Korbik e Julia Bernhard e deverá chegar às livrarias a partir do próximo dia 30 de Março.

Por agora, já se encontra em pré-venda no site da editora.

Deixo-vos, mais abaixo, com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida, de Julia Korbik e Julia Bernhard

Desde a infância, numa época em que as mulheres não podiam estudar, votar ou escolher a sua profissão, Simone de Beauvoir embarcou com paixão na grande aventura de ser ela própria.

Motivada por uma enorme curiosidade em relação a si e aos outros, pela recusa em aceitar papéis impostos e por uma busca radical pela liberdade, esta filósofa e escritora existencialista, autora da obra revolucionária O Segundo Sexo, desafiou normas sociais sobre o papel da mulher na sociedade e tornou-se um ícone incontestável do feminismo e uma fonte de inspiração para uma legião de leitores.

As premiadas autoras Julia Korbik e Julia Bernhard retratam Simone de Beauvoir como filha, amiga, uma intelectual que quis tudo da vida e explorou como ninguém a condição da mulher, a sexualidade, a liberdade e as diferentes formas de amar.

Os elogios da crítica:

«Uma história ilustrada concebida com humor e inteligência. Duas autoras que mostram a modernidade do feminismo de Simone de Beauvoir.»
Kristine Harthauer, SWR2

«Que inteligente e divertido! Lemos e contemplamos esta biografia ilustrada com enorme prazer.»
Nicole Seifert

«Uma biografia ilustrada que vale muito a pena. Ficará surpreso com a sua atualidade.»
Deutschlandfunk

«É emocionante como a Simone é retratada: literalmente, como uma superestrela. Um livro impressionante.»
Die Tageszeitung

«Impressionante. Uma banda desenhada que cativa o leitor.»
WAZ

«Perspicaz, extremamente esclarecedora.»
Tagesspiegel

«Uma fabulosa banda desenhada em que tudo está em perfeito equilíbrio.»
Salzburger Nachrichten

«O leitor descobrirá uma vida plena, rica em conhecimentos, dor e alegria, e uma mulher que, ao longo de toda a sua existência, se sentiu impulsionada pela curiosidade sobre si mesma e sobre as pessoas, que lutou para ser sempre ela mesma em todas as suas facetas, sem fazer distinções de classe ou sexo, à margem de normas e regras.»
Modern Graphics

«Um século inteiro de feminismo em palavras e imagens. Esta banda desenhada catapulta brilhantemente o pensamento de Simone de Beauvoir até aos nossos dias. Leitura obrigatória!»
Sonja Eismann


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Ficha técnica
Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida
Autoras: Julia Korbik e Julia Bernhard
Editora: Iguana
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 mm
PVP: 21,95€

terça-feira, 3 de março de 2026

Análise: Vincent

Vincent, de Barbara Stok - Iguana - Penguin Random House

Vincent, de Barbara Stok - Iguana - Penguin Random House
Vincent, de Barbara Stok

Foi muito recentemente que tive a oportunidade de visitar, pela primeira vez, o Museu Van Gogh, em Amesterdão, onde a vida e obra do famosíssimo pintor está muito bem documentada e explanada. Já conhecendo um pouco do percurso do pintor neerlandês, foi uma boa oportunidade para recuperar alguns conhecimentos sobre a sua obra que, com a passagem dos anos, tinha olvidado.

Portanto, ler agora Vicent, de Barbara Stok, recentemente editado pela editora Iguana, que procura dar-nos um retrato intimista dos últimos anos de Van Gogh, foi uma sensação especialmente prazerosa até pelo simples facto de ter os meus conhecimentos "vangoghianos" em dia.

Devo começar por dizer que trazer a figura incontornável de Van Gogh para a 9ª arte é, por si só, um projeto meritório e de interesse inegável para muita gente: os que leem banda desenhada e têm algum interesse na vida do pintor e os que, mesmo não lendo banda desenhada, são admiradores do pintor. O que pode ainda ser um engodo para trazer mais gente para a banda desenhada. E isso é sempre positivo e digno de nota. Por falar nisso, recordo também a obra Vincent e Van Gogh, de Gradimir Smudja, publicada por cá pela Arte de Autor em 2023.

Vincent, de Barbara Stok - Iguana - Penguin Random House
O foco da narrativa deste Vicent centra-se no período em que Van Gogh tentou encontrar inspiração e alguma serenidade para a sua mente no sul de França, em Arles. Acompanhamos a transição da sua vida atribulada num quarto de hotel para a célebre "Casa Amarela", onde o sonho de fundar uma colónia de artistas acaba por colidir com a rigidez e o temperamento explosivo de um Van Gogh assumidamente workaholic

É durante esse período que Van Gogh convive mais de perto com o seu amigo Paul Gauguin, outro célebre pintor, partilhando casa e locais de inspiração com ele, mas experenciando, igualmente, algumas divergências e incompatibilidades. É que a convivência forçada e os métodos de trabalho díspares dos dois amigos pintores acabam mesmo por afastá-los um do outro, culminando no desmoronamento dos planos de Vincent para a criação da comunidade criativa.

De resto, acedemos ainda aos vários períodos em que Vincent tem que ser internado em hospitais psiquiátricos para aí recuperar, tanto quanto possível, dos seus surtos psicóticos.

Vincent, de Barbara Stok - Iguana - Penguin Random House
Além de Gauguin, outra das presenças assíduas neste livro, ainda que à distância, é a de Theo, o irmão de Vincent que, trabalhando enquanto comerciante de arte em Paris, não só enviava dinheiro a Van Gogh para este poder viver do seu sonho de ser pintor, como ainda se correspondia assiduamente com o irmão. Várias dessas cartas são integralmente reproduzidas na obra para, desse modo, nos narrarem algumas das experiências, dificuldades, processos criativos e sonhos de Vincent. É nestas passagens que sentimos a admiração profunda de Van Gogh pela luz e paisagem da Provença.

Embora estejamos perante uma leitura "que se faz bem" e cujos intuitos são mais do que bons, o livro padece de uma crise de identidade, pois revela-se perdido entre dirigir-se a um público infantil e/ou um público adulto. Podendo considerar-se que é para ambos, mas para nenhum em concreto. Analisado enquanto "livro infantil", a história e densidade do livro - bem como alguns episódios mais adultos como, por exemplo, a confraternização do pintor com prostitutas - pode ser desadequada. Por outro lado, observado enquanto "livro para adultos", talvez a abordagem seja demasiadamente leve e otimista, não refletindo a profundidade da depressão do pintor, tratando-o de uma forma algo unidimensional e simplista, não se sentindo, consequentemente, a verdadeira profundidade da sua depressão. Como se a sua dor fosse apenas um acessório e não a sua essência. A obra fica, portanto, algures a meio caminho entre um livro que parece destinado aos mais novos e um livro que parece destinado aos mais velhos, não sendo excelsa em nenhuma dessas duas opções.

Vincent, de Barbara Stok - Iguana - Penguin Random House
Ainda assim, não deixa de ser verdade que Barbara Stok consegue retratar, com alguma emoção e de forma convincente, várias características basilares de Van Gogh: a sua obsessão pela arte e pelo processo artístico, o sentimento de solitude, o desajuste social e a angústia da sua doença mental.

Quanto às ilustrações, a obra apresenta um estilo gráfico extremamente naïf e simples, quase infantil. Pode não ser deslumbrante nos primeiros momentos em que observamos as pranchas deste livro, mas devo reconhecer que, depois de nos habituarmos à abordagem de Barbara Stok, começamos a melhor valorizar as suas ilustrações. A utilização de uma paleta de cores muito vivas dá uma certa sensação de frescura e leveza ao trabalho. E há algumas vinhetas ou pranchas onde parecemos entrar dentro de um quadro de Van Gogh. Não por Stok e Van Gogh terem o mesmo estilo de ilustração, sublinhe-se, mas pelo facto de a autora ter conseguido transmitir - no seu próprio estilo - a ambiência e estética, mesmo que de uma forma muito pictórica, do trabalho de Van Gogh. Gostei particularmente das ilustrações onde são reproduzidos os campos de trigo, os ciprestes, os girassóis, a noite estrelada ou até mesmo o famoso quarto desarrumado onde viveu Vincent.

A edição da Iguana apresenta capa dura baça, bom papel baço, e uma boa encadernação e impressão. Nada a objetar, portanto.

Em suma, esta é uma obra que mesmo sendo, devido ao seu tema, mais que bem-vinda, deixa um certo travo agridoce devido à opção por uma abordagem algo lata e pouco densa da narrativa. Barbara Stok apresenta-nos um Vincent estranhamente feliz e luminoso, o que, para quem conhece minimamente a biografia do pintor, soa a uma simplificação excessiva da sua realidade atormentada. Mesmo assim, também é verdade que é uma leitura agradável para que não esqueçamos o quão especial foi este homem de nome Vincent Van Gogh.


NOTA FINAL (1/10):
7.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Vincent, de Barbara Stok - Iguana - Penguin Random House

Ficha técnica
Vincent
Autora: Barbara Stok
Editora: Iguana
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Fevereiro de 2026

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Análise: O Indispensável de Snoopy

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz

Falar de Peanuts é falar de um dos pilares fundamentais da história da banda desenhada em tiras e, por arrasto, da própria cultura popular do século XX. Criadas por Charles M. Schulz em 1950, estas histórias aparentemente simples, publicadas diariamente em jornais, tornaram-se rapidamente um espaço de reflexão sobre a condição humana, embalado por um humor seco, uma melancolia especial e uma lucidez rara. 

Parece-me até que foi Schulz o primeiro autor a perceber que algo simples como uma tira podia ser espaço para uma profundidade emocional e filosófica, mesmo quando protagonizada por crianças e um cão. Depois apareceram muitas outras tiras humorísticas ao longo dos anos - das quais destaco, pela sua qualidade, Mafalda, de Quino, ou Calvin and Hobbes, de Bill Watterson - que até podem ter ido mais longe em termos de profundidade nos temas, mas não há como negar a relevância cultural de Snoopy, Charlie Brown e companhia. 

Sim, de todas as personagens marcantes da série, o cão de Charlie Brown, Snoopy, sempre foi a mais popular. Talvez seja por isso que este livro não se chama "O Indispensável de Peanuts", mas "O Indispensável de Snoopy". E mesmo admitindo que talvez o nome mais ajustado fosse o primeiro, compreendo que, do ponto de vista comercial, "Snoopy" seja uma marca ainda mais forte e sonante do que "Peanuts".

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
Ao longo de décadas, Peanuts foi muito mais do que entretenimento ligeiro. Schulz construiu um universo coerente, recorrente e reconhecível, onde a repetição era uma ferramenta narrativa e não um defeito. Através de pequenas variações sobre os mesmos temas, o autor soube criar uma obra que cresceu com os seus leitores, acompanhando transformações sociais, culturais e até políticas, sem nunca perder a sua identidade.

Isto não esquecendo que, além do meio específico, Peanuts infiltrou-se profundamente na cultura pop. Snoopy, Charlie Brown e companhia tornaram-se ícones transversais, reconhecidos muito para lá das páginas dos jornais: animação, cinema, merchandising, música, moda, entre outros.

A juntar a isso, a série tem sabido manter-se atual mesmo depois do falecimento do seu criador, Charles M. Schulz, há mais de 25 anos. Talvez seja essa relação íntima entre simplicidade gráfica e complexidade emocional aquilo que melhor explica a longevidade e a atualidade de Peanuts. Schulz falava de crianças, mas escrevia claramente para adultos; fazia rir, mas quase sempre com um travo amargo. A sua obra é um espelho desconfortável, onde nos revemos sem a beleza que, por ventura, gostaríamos de encontrar, mas com uma honestidade desconcertante.

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
É neste contexto que surge O Indispensável do Snoopy, a edição portuguesa comemorativa dos 75 anos de Peanuts, lançada no passado mês de outubro pela editora Iguana (chancela do grupo Penguin).

Esta bela edição assume desde logo uma ambição clara: não apenas reunir tiras icónicas, mas celebrar uma obra maior. Trata-se de uma edição de luxo, com capa dura, bom papel e um cuidado gráfico que faz justiça à importância histórica e afetiva do material reunido.

Esta não é apenas uma antologia “best of”. É um objeto pensado, organizado e contextualizado, que procura dar ao leitor uma visão abrangente da evolução de Peanuts ao longo das décadas. As tiras estão organizadas cronologicamente, permitindo perceber como Schulz foi afinando o seu traço, o seu humor e a sua visão do mundo, sem nunca trair os fundamentos da série.

A personagem de Snoopy, naturalmente, ocupa aqui um lugar central. As suas múltiplas personas, como o ás da aviação da Primeira Guerra Mundial, o escritor fracassado de máquina de escrever ou o filósofo solitário no topo da casota, são apresentadas não apenas como gags recorrentes, mas como construções narrativas com peso simbólico. Esta contextualização transforma o livro num verdadeiro objeto de estudo, revelando camadas que muitas leituras rápidas tendem a ignorar.

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
O volume inclui ainda uma introdução geral à série e textos dedicados a cada uma das personagens principais: Charlie Brown, Linus, Lucy, Woodstock, Schroeder, Peppermint Patty, Sally, Marcie, entre outras.

Outro dos méritos desta edição é a inclusão de textos introdutórios para cada década, que enquadram histórica e artisticamente as tiras selecionadas. Estes textos ajudam o leitor a perceber como Peanuts dialoga com o seu tempo, refletindo mudanças sociais subtis, sem nunca se tornar panfletário ou datado. Há ainda algumas citações de Charles M. Schulz, que ajudam a compreender melhor as intenções do autor e a forma como via as suas próprias criações.

É certo que, ao contrário da edição de integral de Mafalda, de Quino, lançada em 2024 também pela Iguana, este livro não traz a obra completa de Peanuts. Mas isso, digo eu, talvez não fosse o mais adequado a fazer, dado que a série é muito grande e seriam necessários 26(!) livros com 300(!) páginas para que tivéssemos a coleção completa. Não me parece minimamente viável para o mercado português. Um best of bem feito, como é o caso, parece-me a melhor opção, tendo esta edição a capacidade de funcionar bem a vários níveis: como porta de entrada para novos leitores, como objeto nostálgico para quem cresceu com estas personagens e como um documento histórico, cultural e artístico. 

Estamos, pois, perante uma bela e equilibrada edição, daquelas que justificam plenamente a sua existência física num tempo de consumo rápido e descartável. Um livro que toda a gente devia comprar ou oferecer, não apenas pelo carinho que Snoopy e os seus amigos continuam a merecer, mas porque Peanuts permanece, 75 anos depois, tão indispensável quanto sempre foi.


NOTA FINAL (1/10):
9.0


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O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House

Ficha técnica
O Indispensável do Snoopy
Charles M. Schulz
Editora: Iguana
Páginas: 384, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 280 mm
Lançamento: Outubro de 2025

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

As novidades da Penguin para 2026!



Hoje trago-vos as novidades de banda desenhada que o grupo Penguin, através das suas chancelas Iguana e Distrito Manga, prepara para este primeiro semestre de 2026!

São mais de 20 os novos lançamentos que podemos aguardar para estes primeiros seis meses do ano!  A editora já confirmou também que, além destas novidades, poderão chegar-nos outras, a anunciar brevemente.

Naturalmente, quase todos esses lançamentos correspondem a novos números de séries em continuação, mas há, ainda assim, algumas novas apostas em autores nacionais, autores internacionais e duas novas séries.

Vejam, mais abaixo, as referidas novidades da Penguin.


quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Análise: A Vida Oculta de Fernando Pessoa

A Vida Oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado e Alexandre Leoni - Iguana - Penguin Random House

A Vida Oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado e Alexandre Leoni - Iguana - Penguin Random House
A Vida Oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado e Alexandre Leoni

Uma das novidades da banda desenhada nacional que chegou recentemente às livrarias portuguesas foi este A Vida Oculta de Fernando Pessoa, do português André F. Morgado e do brasileiro Alexandre Leoni. Na verdade, trata-se de uma reedição da obra, já que a mesma havia sido originalmente lançada há cerca de 10 anos. A esse propósito, até já aqui fiz um comparativo entre a anterior edição da Bicho Carpinteiro e a atual edição da Iguana, que volta a colocar esta obra de sucesso no mercado português.

Desde a primeira página, o leitor percebe que A Vida Oculta de Fernando Pessoa não é uma biografia convencional sobre o mais famoso poeta português. A premissa é ousada: Fernando Pessoa é-nos dado como um agente secreto de uma sociedade que combate zombies e forças ocultas. Este conceito estabelece imediatamente um tom fantástico, mas ainda assim credível dentro do universo criado, se tivermos em conta que o próprio Fernando Pessoa era um adepto e estudioso dos temas referentes ao ocultismo, por um lado, e que a abordagem ao tema do fantástico assenta numa analogia feita com base nos heterónimos de Pessoa. 

A Vida Oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado e Alexandre Leoni - Iguana - Penguin Random House
Cada heterónimo surge, pois, como uma entidade com voz própria, mas sempre ligada à psique do poeta. A utilização do diálogo entre Fernando Pessoa e os seus heterónimos permite à obra a capacidade de explorar conflitos internos de forma dramática e, por vezes, humorística, o que me agrada especialmente.

Além disso, as inserções de poemas de Pessoa são outro dos pontos altos da obra. Em várias cenas de introspeção - ou mesmo de ação - André Morgado consegue fazer com que versos reais de Pessoa apareçam naturalmente nos diálogos da trama, reforçando o ambiente ou a emoção do momento, e sem que os referidos versos pareçam ali metidos "a martelo". Há toda uma orgânica que é bem conseguida por parte do argumentista. 

A juntar a isso, uma das grandes forças deste A Vida Oculta de Fernando Pessoa é a sua originalidade. Reunir no mesmo universo a figura de Fernando Pessoa com zombies pode parecer inusitado e até rebuscado, mas acaba por funcionar de forma credível, pois permite ao leitor descobrir como os heterónimos absorviam e refletiam a existência de Pessoa. Essa dinâmica acrescenta profundidade à obra e dá ao leitor uma visão simultaneamente lúdica e complexa da mente de Pessoa.

A Vida Oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado e Alexandre Leoni - Iguana - Penguin Random House
A história não se prende apenas à ação, mas também procura transmitir a complexidade do poeta, os seus pensamentos e a influência dos heterónimos, cada um com a sua própria personalidade e forma de interagir com o mundo. 

Apesar de esta ser uma obra que considero importante, não acho que esteja isenta de algumas fragilidades. Há uma certa sensação de pressa na progressão dos acontecimentos, com determinados conflitos ou revelações importantes a surgirem de forma abrupta, deixando a sensação de que poderiam ter sido explorados mais profundamente. 

Apesar da boa ideia original, o desenvolvimento da história parece portanto apressado e, em alguns momentos, algo confuso. Certos elementos são introduzidos mas não são completamente explorados ou concluídos, deixando pontas soltas. Acho que é daqueles casos que ou o livro deveria ser mais simples na abordagem ou, ousando ser mais complexo, ter mais tempo (páginas) para melhor explanar os seus conceitos.

A Vida Oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado e Alexandre Leoni - Iguana - Penguin Random House
Mesmo assim, e apesar destas fragilidades, o equilíbrio entre a fantasia e a homenagem a Pessoa é bastante bem conseguido. A obra consegue ser acessível a quem não conhece profundamente o poeta, mas também contém referências que agradam ao leitor mais literário, criando uma ponte entre entretenimento e cultura. 

Se até agora tenho falado do trabalho de André Morgado, não menos importante é o trabalho do brasileiro Alexandre Leoni que se mostra especialmente inspirado neste livro, dotando-o de uma singularidade especial e ilustrações facilmente cativantes que contribuem decisivamente para a identidade do livro. O traço estilizado de Leoni consegue transmitir tanto a intensidade da ação quanto a subtileza emocional das personagens.

As personagens são carismáticas e empáticas, sendo capazes de transmitir tanto a ação quanto a atmosfera sombria que envolve o enredo. A expressividade das personagens e a utilização de cores reforçam a narrativa, criando um complemento visual que funciona muito bem com o texto, tornando a leitura mais envolvente e dinâmica. Mesmo que certos cenários possam ser algo despidos em demasia, parece-me que a abordagem estilizada do autor compensa em larga escala essa situação.

A Vida Oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado e Alexandre Leoni - Iguana - Penguin Random House
Seja como for, é indiscutível que estamos perante um livro marcante da BD nacional e que tem a valência de trazer consigo um forte apelo comercial. O facto de misturar aventura, fantasia, literatura clássica e horror é chamativa e potencialmente atrai tanto fãs de banda desenhada como admiradores de Pessoa. 

A edição da Iguana apresenta uma nova ilustração de capa, sendo esta em capa dura baça. No miolo, o livro é dotado por bom papel brilhante e uma boa encadernação e impressão. Infelizmente, esta edição da obra não apresenta a bonita galeria de imagens de autores convidados que a edição anterior da Bicho Carpinteiro apresentava. De qualquer maneira, para uma comparação mais desenvolvida entre as duas edições, recomendo a (re)leitura do comparativo que fiz, há uns dias, a este propósito.

Em suma, A Vida Oculta de Fernando Pessoa é uma obra original e criativa, que combina biografia, fantasia e horror de forma surpreendente. Apesar de alguns elementos ficarem por explorar e o ritmo ser por vezes forçosamente acelerado, é uma história envolvente, bem ilustrada e respeitosa em relação à obra de Pessoa. É um livro que merece ser lido tanto pela sua ousadia conceptual quanto pelo cuidado com que a poesia e os heterónimos de Fernando Pessoa são tratados, mostrando uma mistura rara de entretenimento e homenagem literária.


NOTA FINAL (1/10):
8.7

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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A Vida Oculta de Fernando Pessoa, de André F. Morgado e Alexandre Leoni - Iguana - Penguin Random House

Ficha técnica
A Vida Oculta de Fernando Pessoa
Autores: André F. Morgado e Alexandre Leoni
Editora: Iguana
Páginas: 96, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Outubro de 2025

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Análise: Corpo de Cristo

Corpo de Cristo, de Bea Lema - Iguana - Penguin Random House

Corpo de Cristo, de Bea Lema - Iguana - Penguin Random House
Corpo de Cristo, de Bea Lema

Assim que soube que a editora Iguana iria apostar neste Corpo de Cristo, de Bea Lema, fiquei muito bem impressionado, pois já conhecia a boa reputação da obra. Com efeito, este trabalho foi distinguido com inúmeros prémios internacionais que atestam a sua relevância artística e emocional. Vejo agora, depois de lida a obra, que esta receção entusiástica de público e crítica não se deve apenas à qualidade estética da obra, que naturalmente sobressai pela sua originalidade, mas sobretudo pela coragem da autora espanhola Bea Lema em abordar temas universais, como a doença mental, o amor filial, o papel da mulher e o peso das tradições católicas numa sociedade ainda fortemente patriarcal. A autora consegue, através de um relato pessoal e sensível, transformar uma experiência íntima e dolorosa num espelho da própria evolução social e cultural. Não só de Espanha como do mundo ocidental atual. 

Corpo de Cristo, de Bea Lema - Iguana - Penguin Random House

A história centra-se em Vera, uma menina que cresce numa casa assombrada. E essa "assombração" não será por referência a um demónio literal, mas sim devido à doença mental da sua mãe, Adela. Durante toda a sua vida, Vera pôde observar a sua mãe a arrastar toda a família para uma poderosa teia de ignorância e de superstição. E o mais impressionante é que era assim que, durante décadas, a sociedade olhava para a doença mental. Gosto de achar que, entretanto, evoluímos bastante neste tema... mas não estou tão certo assim. 

O elo entre mãe e filha é o centro emocional da narrativa. Apesar da doença, das crises e do cansaço, o amor entre as duas resiste como uma chama ténue, mas constante. A inversão dos papéis, ao mostrar-nos que é a filha que cuida da mãe, constitui, quiçá, o lado mais comovente do livro. Esse cuidado constante, tão pouco valorizado socialmente - e a que muitas vezes os homens fazem por se mostrar alheios - revela o fardo emocional e físico que recai sobre quem tem que lidar com alguém com problemas do foro mental. 

Corpo de Cristo é, em última análise, um testemunho, uma confissão artística sobre a herança do sofrimento e sobre como os traumas de infância moldam a nossa identidade adulta. A autora mostra com lucidez que a doença mental não é um episódio isolado: é um fenómeno que contamina o quotidiano, desestrutura a vida familiar e deixa marcas invisíveis mas profundas. O “demónio” que assombra a casa é também o reflexo da culpa, da vergonha e do medo que a sociedade inculca nas famílias afetadas. E o papel da religião é-nos mostrado como historicamente negativo para quem já sofre com perturbações mentais.

Corpo de Cristo, de Bea Lema - Iguana - Penguin Random House
O livro levanta uma questão que se afigura como essencial: como é que tratamos, enquanto sociedade, aqueles que sofrem de perturbações mentais? Bea Lema confronta-nos com a falta de empatia e de compreensão que ainda hoje prevalece. Embora o debate sobre saúde mental tenha alcançado espaço, a verdade é que continua a existir um fosso entre a teoria e a prática, entre o discurso inclusivo e a realidade da exclusão, entre a medicação excessiva e o silêncio de quem sofre, direta ou indiretamente. O livro é, por isso, também um manifesto: um apelo à dignidade, à integração e à escuta de quem sofre de doença mental. E, talvez por isso, este possa ser um daqueles livros que também vai conquistar um público fora da banda desenhada.

O impacto emocional da leitura é profundo. A tristeza e o desespero que atravessam o livro são atenuados pela ternura e pela poesia do olhar da autora. Não há aqui ressentimento, mas sim compaixão. O resultado é uma obra que fala simultaneamente da perda e da esperança, da loucura e da lucidez, da destruição e da reconstrução. É um livro que nos obriga a olhar de frente para aquilo que muitas vezes preferimos ignorar.

Corpo de Cristo, de Bea Lema - Iguana - Penguin Random House
Mas se o tema de Corpo de Cristo é mais que pertinente e bem-vindo, talvez seja em termos gráficos que o livro mais se destaca, pois é uma obra de rara originalidade. Bea Lema combina desenho e bordado numa estética híbrida extremamente original que reforça a carga emocional da narrativa. As ilustrações, de traço simples e quase infantil, com canetas de feltro, contrastam com a profundidade do tema, criando um efeito de delicadeza e vulnerabilidade. 

As páginas do livro são, por isso, surpreendentes pela sua diversidade visual e narrativa. Lema recusa a rigidez das grelhas tradicionais da banda desenhada e opta por uma planificação livre, quase orgânica, que traduz o próprio caos emocional vivido pela personagem de Adela. O leitor nunca sabe o que o espera na página seguinte: um bordado, um esboço ou uma mancha de cor. Essa variação cria uma experiência de leitura viva e sensorial, onde o ritmo visual acompanha o pulsar das emoções. Ao mesmo tempo, também apreciei o facto de Bea Lema nunca se ter perdido na originalidade das suas ilustrações: não é a história que serve as ilustrações, mas estas que servem a história. Como sempre deveria ser. Digo eu.

Em termos de edição, o livro apresenta capa mole com badanas, uma manga promocional, marcador de página e bom papel baço no interior. Não é (de todo!) uma má edição, nem nada que se pareça, mas pergunto-me se a obra em questão, dada a sua qualidade e o tema presente dos bordados, não mereceria uma edição mais diferenciada. Com uma capa dura em tecido, por exemplo.

Corpo de Cristo é, portanto, uma obra maior sobre o amor, a doença e a humanidade. Pela sua forma inovadora, pela honestidade emocional e pela sensibilidade estética, Bea Lema oferece-nos uma banda desenhada memorável que todos devem conhecer. Num mundo ainda reticente em falar de saúde mental, esta é uma obra que se impõe como um gesto de coragem e uma prova de que da fragilidade pode nascer a beleza e de que, mesmo nas trevas, o amor continua a ser o nosso fio de salvação.


NOTA FINAL (1/10):
9.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Corpo de Cristo, de Bea Lema - Iguana - Penguin Random House

Ficha técnica
Corpo de Cristo
Autora: Bea Lema
Editora: Iguana
Páginas: 184, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Outubro de 2025