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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Análise: Ulysse e Cyrano

Ulysse e Cyrano, de Xavier Dorison, Antoine Cristau e Stéphane Servain - ASA

Ulysse e Cyrano, de Xavier Dorison, Antoine Cristau e Stéphane Servain - ASA
Ulysse e Cyrano, de Xavier Dorison, Antoine Cristau e Stéphane Servain

Há livros que se saboreiam devagar, como um prato que exige tempo, lume brando e entrega. Ulysse e Cyrano, com argumento de Xavier Dorison e Antoine Cristau, e ilustrações de Stéphane Servain, é precisamente isso: uma obra que se degusta. Não se lê apenas, saboreia-se, mastiga-se, inspira-se, sente-se. É daquelas histórias que nos aquecem o peito e nos deixam, no final, com a estranha sensação de termos vivido algo maior do que as suas páginas.

Eis (mais) uma bela obra publicada pela editora ASA, outra das obras vencedoras dos Prémios de Angoulême do ano passado, que todos merecem conhecer.

A história decorre na Borgonha dos anos 1950. Bem, na verdade, a história até começa em Paris, mas após enfrentar algumas acusações de parceria comercial com o regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial, um rico industrial decide enviar a sua mulher e filho, Ulysse, para a Borgonha, uma região mais recôndita e rural, longe dos holofotes de Paris. E tudo aquilo que este pai austero deseja e ambiciona para Ulysse, é que este possa seguir os mesmos passos que, por sua vez, já foram os passos do seu avô. Para tal, Ulysse precisa ser um aplicado e bem sucedido estudante, com o intuito maior de assumir as responsabilidades à altura da posição social da sua família. No entanto, o rapaz sente-se deslocado nesse destino já traçado e pouco entusiasmado com o futuro que o pai lhe impõe, com as suas notas escolares a ficarem muito aquém daquilo que lhe é exigido. A vida, bem sabemos, muitas vezes parece ter outros planos do que aqueles que achávamos inabaláveis...

Ulysse e Cyrano, de Xavier Dorison, Antoine Cristau e Stéphane Servain - ASA
Como se estes dilemas pessoais já não fossem grandes na vida de Ulysse, a sua vida muda ainda mais quando conhece Cyrano, um antigo e renomado cozinheiro, agora afastado das cozinhas dos restaurantes, um homem livre, mas amargurado por um passado que teima em não largar. 

Ainda assim, mantém-se um apaixonado pela gastronomia e pela arte de bem viver. Carismático, irreverente e profundamente humano, Cyrano abre a Ulysse as portas de um mundo feito de sabores, técnica, disciplina e criatividade. Na cozinha, o jovem descobre uma vocação e uma forma de expressão que nunca encontrara nos seus estudos tradicionais.

A obra é, assim, uma história de iniciação e transmissão: fala do confronto entre dever e desejo, entre estatuto social e realização pessoal. Através da relação entre mestre e aprendiz, mostra como a paixão pode redefinir um destino... e como escolher o próprio caminho pode ser o verdadeiro ato de coragem.

Mas, aparte isso, é na relação entre estes dois mundos improváveis que a narrativa se constrói. Ulysse, jovem moldado pelo conforto e pela expectativa; Cyrano, figura áspera, quase bruta à primeira vista, mas com um coração imenso escondido por detrás da sua suposta rudeza. A química entre ambos é imediata, ainda que feita de atritos. 

Confesso que, ao longo da leitura, não consegui evitar que a memória me levasse a um dos filmes da minha vida: Cinema Paradiso. Tal como na obra-prima de Giuseppe Tornatore, encontramos aqui uma relação que transcende gerações e diferenças. E da mesma forma que, em Cinema Paradiso, o pequeno Toto encontra em Alfredo uma figura tutelar que lhe molda o olhar sobre o mundo e sobre o cinema, também Ulysse descobre em Cyrano um mestre improvável, não apenas na arte da cozinha, mas na arte de viver. Talvez por isso, é já que falo neste portento do cinema, diria que uma boa companhia sonora para ler este Ulysse e Cyrano, até poderá ser a música do maior de sempre dos compositores de cinema (peço desculpa, Mestre John Williams, que também és fantástico): Ennio Morricone. Seja a música de Cinema Paradiso, seja a música de A Lenda de 1900 ou a de Era Uma Vez Na América, diria que têm aqui boas opções para acompanhar a leitura desta banda desenhada.

Mas, não perdendo o foco e voltando a Ulysse e Cyrano, a verdade é que a sua história até é bastante simples. Uma espécie de conto clássico moderno que carrega dentro de si uma abundância de temas: o significado que cada um atribui à existência, o peso da família, a fidelidade aos nossos sonhos, as modas que passam e o passado que insiste em não desaparecer. Fala-se de prazer, de amizade, de honra, de herança material e emocional. E tudo isto é feito com leveza, ternura e até um subtil humor que tempera a narrativa na medida certa.

Há algo de profundamente iniciático no percurso de Ulysse. O jovem que aprende a questionar o caminho que lhe foi imposto, que ousa escutar o que o coração lhe sussurra.  E, já agora, que bela imersão gourmet esta obra nos oferece. A Borgonha dos anos 50 surge quase como uma personagem adicional. Sentimos os aromas da manteiga a derreter, o estalar da carne na frigideira, o perfume do vinho a libertar-se no ar e o cheiro da terra molhada a envolver o cenário bucólico. A cozinha torna-se uma personagem por si só, sendo ponte de reconciliação e redenção, pois é através dos pratos que Cyrano comunica, ensina, partilha e revela a sua humanidade.

Ulysse e Cyrano, de Xavier Dorison, Antoine Cristau e Stéphane Servain - ASA
Pode argumentar-se que já vimos histórias semelhantes: o jovem herdeiro de uma família abastada que decide contrariar o destino traçado, rompendo com o peso das expectativas paternas. Sim, há algo de clássico, e até de previsível, neste ponto de partida. Mas quando a execução é tão cuidada, quando o enredo é tão bem arquitetado e ainda nos brinda com alguns momentos inesperados que impedem a narrativa de cair na monotonia, só nos resta render-nos. Deixarmo-nos levar.

Porque o que realmente distingue Ulysse e Cyrano é a forma como nos envolve. As personagens são memoráveis, densas, humanas. Não são meros arquétipos; são pessoas com falhas, com medos, com desejos contraditórios. Até mesmo as personagens mais secundárias. 

Diria que talvez o final da história, não sendo mau, de todo, pudesse, ainda assim, ter arriscado mais ou ser um pouco menos óbvio. Mas é apenas uma coisa pequena numa obra tão bem explanada.

Se o trabalho conjunto de Xavier Dorison e Antoine Cristau no argumento é muito bom e bem doseado, há que dar uma palavra muito especial ao trabalho gráfico de Stéphane Servain. A sua linha é magnífica, com um lado quase lírico que confere às imagens uma delicadeza rara. Há uma poesia visual em cada vinheta, uma atenção ao detalhe que nos convida a demorar o olhar. As expressões, os gestos, os cenários, as comidas... tudo respira autenticidade e traz consigo um convite de proximidade a que é difícil de resistir. O traço rápido e enérgico de Servain alterna entre uma certa aspereza em alguns momentos e uma expressividade das personagens que as torna empáticas para o leitor.

A cor, então, é fundamental! Os tons quentes da cozinha, os verdes e dourados da paisagem borgonhesa, as sombras que envolvem os momentos mais introspectivos... tudo contribui para criar uma atmosfera envolvente. Acaba por ser uma experiência sensorial completa. 

Nota ainda, positiva, para a planificação que é muito dinâmica, com vinhetas de todos os tamanhos possíveis, o que contribui para um ritmo que sabe acelerar e ou abrandar a velocidade de leitura a preceito.

E que dizer da própria capa? Lindíssima! Tantas vezes já escrevi que, no caso dos livros - e especialmente daqueles que são de banda desenhada - a capa é a embalagem do produto-livro. Se a capa é má, esse "produto", por melhor que seja, tem uma embalagem má que atrai menos. E o mesmo pode ser dito ao contrário: se uma capa é boa, gera-se automaticamente um gatilho de interesse perante o livro. A capa deste Ulysse e Cyrano, com os seus tons amarelados e poesia que emana da pose confortável das personagens, funciona como uma porta de entrada. Quase como uma promessa de que a história nos vai tocar, que nos vai alimentar - literal e metaforicamente.

A edição da ASA é em capa baça, com excelente papel baço no miolo e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação. No final da história, há ainda um conjunto de receitas culinárias que são bem-vindas, tendo em conta a importância que o ato de cozinhar tem para a história. Antes de ler esta edição portuguesa da obra estive  com a edição francesa nas mãos várias vezes e posso dizer-vos que sendo verdade que aquele tratamento texturizado na capa da edição original não esteja presente na edição da ASA, esta é uma edição que, ainda assim, se apresenta como bela e competente. Daquelas edições bonitas só de olharmos para ela. 

No final, eis-nos perante mais um livro belíssimo que recomendo sem reservas. Ulysse e Cyrano é uma ode à partilha, aos bons momentos, à boa comida, à alegria. É, acima de tudo, uma história de amizade e transmissão - de saberes, de valores, de afetos. Um livro que nos lembra que a verdadeira realização pode não estar no caminho que nos traçaram, mas naquele que escolhemos trilhar por nós mesmos. E quando fechamos a última página, ficamos com o coração cheio… e, curiosamente, com fome de mais momentos inesquecíveis. Aqueles que levamos verdadeiramente desta vida.


NOTA FINAL (1/10):
9.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ulysse e Cyrano, de Xavier Dorison, Antoine Cristau e Stéphane Servain - ASA

Ficha técnica
Ulysse e Cyrano
Autores: Xavier Dorison, Antoine Cristau e Stéphane Servain
Editora: ASA
Páginas: 184, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 317 x 238 mm
Lançamento: Fevereiro de 2026

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Análise: Undertaker #8 – O Mundo Segundo Oz

Undertaker #8 – O Mundo Segundo Oz, de Xavier Dorison e Ralph Meyer - Ala dos Livros

Undertaker #8 – O Mundo Segundo Oz, de Xavier Dorison e Ralph Meyer - Ala dos Livros
Undertaker #8 – O Mundo Segundo Oz, de Xavier Dorison e Ralph Meyer

A Ala dos Livros publicou recentemente o 8º e mais recente livro da série Undertaker, da autoria de Xavier Dorison e Ralph Meyer. Sendo uma série constituída por ciclos de dois volumes, este oitavo volume encerra, portanto, o quarto ciclo da série. Bem, o seu final em aberto, pressupõe que até pode haver um novo volume inserido dentro deste ciclo. Se bem que isso também pode não acontecer porque, embora os ciclos sejam separados entre si, tem havido, claro, uma continuidade narrativa indireta. 

O volume anterior, intitulado Mister Prairie, foi possivelmente o meu livro preferido da série, portanto, tenho que vos dizer que estava desejoso de mergulhar na leitura deste O Mundo Segundo Oz

Undertaker #8 – O Mundo Segundo Oz, de Xavier Dorison e Ralph Meyer - Ala dos Livros
A história retoma os acontecimentos deixados em Mister Prairie, em que, numa pequena vila texana continua marcada pela devastação moral e material deixada pela Guerra da Sucessão, ascende social e politicamente a figura da Irmã Oz, uma líder carismática e fanática da Liga da Virtude, que promete aos habitantes locais uma purificação espiritual através da imposição violenta dos dogmas da religião. Eleonr Winthorp, que pretende interromper a sua gravidez indesejada, transforma-se, pois, no alvo dessa cruzada pelos bons costumes da Irmã Oz e de todos aqueles que a seguem.

No meio de isto tudo, Jonas Crow ainda tenta lidar com o choque de ter encontrado Rose, a sua amada, como mulher casada e logo de Randolph Prairie, o médico da vila que se oferece para realizar o aborto.

A escalada dos crimes, humilhações e manipulações perpetrados pela Irmã Oz parece não ter fim e tudo aquilo que ela faz acaba sempre a ser justificado como uma expressão da vontade divina. Esta batalha moral que se desenrola na aldeia funciona, pois, como o motor dramático do álbum, à medida em que a história se vai encaminhando para uma apoteose final, num marcante confronto entre Jonas Crow e a Irmã Oz.

Undertaker #8 – O Mundo Segundo Oz, de Xavier Dorison e Ralph Meyer - Ala dos Livros
Um dos elementos mais marcantes deste oitavo volume é precisamente esse acerto de contas entre Jonas Crow e a Irmã Oz. A fanática religiosa, enquanto antagonista, destaca-se como uma das figuras mais perturbadoras da série: carismática, manipuladora e capaz de dobrar a moralidade alheia ao sabor das suas convicções absolutistas. Mais uma vez, e isso já tinha acontecido em ciclos anteriores da série, Xavier Dorison revela-se prodigioso na forma como constrói e desenvolve os vilões desta história. Todos eles são temíveis e esta Irmã Oz acaba por ser especialmente assustadora por, bem, por resultar de um reflexo de várias figuras da humanidade que, em nome de uma religião, perseguiram e assassinar os que pensavam ou agiam de forma diferente. Talvez por isso, seja uma história que também ecoa muito nos tempos atuais, em que temos cada vez mais pessoas absortas na sua maneira de ver o mundo, não permitindo espaço para a opinião divergente. Não me refiro a temas religiosos apenas, mas a todos os outros.

A atmosfera do álbum é exemplar. A tensão cresce de forma orgânica, quase imperceptível, até atingir um crescendo em que a violência, medo e desespero se acumulam como pólvora prestes a explodir. 

Undertaker #8 – O Mundo Segundo Oz, de Xavier Dorison e Ralph Meyer - Ala dos Livros
Um dos aspetos mais notáveis da série é a maturidade crescente que tem vindo a adquirir ciclo após ciclo. Undertaker começou como uma aventura western com um protagonista carismático e humor negro deliciosamente afiado, mas evoluiu para algo mais denso e adulto. Olhando para trás, percebe-se como Dorison foi semeando camadas de profundidade que agora florescem em personagens complexas e dilemas morais contundentes. Até mesmo as personagens secundárias, antes sobretudo funcionais, se têm tornado peças fundamentais. 

Embora temas como o aborto ou a homossexualidade sejam incomuns no western clássico, Dorison consegue introduzi-los com naturalidade e sem intenção (demasiadamente) panfletária. São temas universais, tratados como partes intrínsecas da vida e não como bandeiras ideológicas. O mérito está em não permitir que a obra se feche nos temas, antes colocando-os ao serviço da construção das personagens e da reflexão moral que emerge do enredo.

Se a história é muito bem escrita e imaginada, o desenho de Ralph Meyer volta a revelar-se soberbo! As expressões faciais capturam toda a complexidade emocional das personagens; as cenas de ação têm peso, dinâmica e brutalidade controlada; os cenários respiram autenticidade; até os animais e elementos naturais parecem ter personalidade. O uso da sombra por Meyer também merece nota por ser quase poético, mostrando ser um instrumento dramático tão importante quanto o próprio texto. 

Undertaker #8 – O Mundo Segundo Oz, de Xavier Dorison e Ralph Meyer - Ala dos Livros
E, já agora, as cores de Caroline Delabie também complementam perfeitamente o traço do seu marido, Ralph Meyer. Os tons terra, castanhos, laranjas e amarelos dominam o álbum, conferindo uma estética árida e calorosa que reforça a atmosfera opressiva. Este casamento entre clássico e moderno, tanto no argumento quanto na componente visual, confirma Undertaker como um álbum de excecional qualidade e como um fecho digno de mais um ciclo que engrandece toda a série.

A única nota no desenho menos positiva no desenho, tem que ser para a ilustração da capa que, não sendo horrível, fica muito aquém de outras maravilhosas capas da série, como, por exemplo as dos tomos 3, 4 ou 6, por exemplo.

A edição da Ala dos Livros, cumpre os requisitos dos anteriores álbuns: capa dura brilhante, bom papel brilhante no miolo, e boa encadernação e impressão. 

Entre todas as bandas desenhadas western contemporâneas, Undertaker permanece no topo do género, rivalizando apenas, quanto a mim, com Bouncer em qualidade e impacto. E nesse sentido, O Mundo Segundo Oz reforça a capacidade da série de se manter moderna sem perder o espírito de ser do género western. Há violência, aventura, duelos, tragédia, poeira, honra e vingança, mas há também reflexão, ambiguidade, dilemas éticos e crítica social. O bom equilíbrio entre estes elementos torna Undertaker uma das mais ricas BD europeias do género que é tudo menos monótona. É uma obra que recomendo tanto a quem nunca leu um western em BD, como aos que dizem não gostar deste sucedâneo bedéfilo.


NOTA FINAL (1/10):
9.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Undertaker #8 – O Mundo Segundo Oz, de Xavier Dorison e Ralph Meyer - Ala dos Livros

Ficha técnica
Undertaker #8 - O Mundo Segundo Oz
Autores: Xavier Dorison e Ralph Meyer
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Outubro de 2025

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Análise: O Castelo dos Animais #4 - O Sangue do Rei


O Castelo dos Animais #4 - O Sangue do Rei, de Xavier Dorison e Félix Delep

Acaba de ser lançado o quarto e último volume da série O Castelo dos Animais, de Dorison e Delep, depois de três volumes que deixaram muita gente a salivar por uma conclusão que pudesse ombrear com os belíssimos primeiros três livros. Mas sosseguem, pois posso adiantar-vos desde já que não só este derradeiro capítulo, intitulado O Sangue do Rei, ombreia com esses três tomos, como até os ultrapassa. Estou rendido!

Este último tomo de O Castelo dos Animais fecha a série com chave de ouro, revelando-se um final que não grita, mas que vibra e causa tumulto por dentro. Dorison e Delep não nos oferecem apenas o desfecho de uma boa história, brindam-nos com uma reflexão carregada de ternura, revolta e coragem.

A narrativa começa com o que parece ser uma pequena vitória. O touro ditador, Sílvio, vê-se forçado a organizar uma votação, gesto que para ele soa a veneno, mas que para os outros animais soa a promessa. A eleição não é apenas um processo político. É um ritual de fé, um teste ao limite da esperança dos animais que se veem subjugados pelo touro e pelos seus poucos - mas fortes - seguidores.

Enquanto a campanha eleitoral se desenrola, o ar no castelo vai ficando mais pesado. Do lado de Sílvio, vale tudo, claro: golpes baixos, manipulação, medo, promessas, propaganda. Os animais de mente menos desenvolvida começam a deixar-se levar pelas promessas vãs de Sílvio. Por outro lado, o Movimento das Margaridas, que tendo começado de forma frágil até já se tinha ancorado no coração de muitos animais, começa a perder gás na semana que antecede as eleições devido à sua líder se limitar a responder com verdade aos pedidos dos animais. O povo, já se sabe, gosta de ser enganado. Mas a gata Miss B, o coelho César e o rato Azelar não sendo(?) heróis perfeitos, carregam uma enorme armadura intangível que é a teimosia de continuar a lutar pelos valores em que acreditam. 

À medida que a história avança, sentimos a tensão crescente. O castelo transforma-se num campo de batalha feito de palavras, memórias, jogadas eleitorais e coragem. Não falo mais da história para não estragar o prazer da leitura a ninguém, mas digo-vos que Dorison não poupa os seus leitores a momentos de dor. Há perdas que nos amarguram e há cenas que nos fazem parar um instante só para engolir em seco. 

No entanto, nunca sentimos gratuitidade, pois a fábula ganha corpo político sem perder alma poética. Ecoa George Orwell no seu A Quinta dos Animais, claro, mas a trama desenvolve-se depois para algo mais poético e impactante. Dorison toma de empréstimo o espírito crítico de Orwell enquanto constrói algo que fala aos nossos dias com uma clareza quase inquietante. Veem-se reflexos dos tempos atuais nesta história: a sedução dos discursos fáceis e o fascínio perigoso por figuras que prometem ordem enquanto queimam liberdades. Numa altura em que, por esse mundo fora - e até mesmo por Portugal - há muita gente encantada com discursos propagandistas e demagogos, esta narrativa assume-se como um alerta para alguém que parece não (querer) ver o inegável. 

O livro lembra-nos que a democracia é frágil como cristal, mas também resistente como aqueles que não abrem mão de si. Lembra-nos que a união dos vulneráveis pode derrubar o mais feroz dos tiranos. Lembra-nos que a esperança não nasce do nada. Cresce quando alguém decide não desistir. Há momentos em que o castelo parece desabar. O ritmo aumenta, o medo cresce, mas no horizonte há sempre um fio de luz. É essa luz que faz deste desfecho não apenas emocionante, mas necessário.

Quando a história alcança finalmente o seu clímax, sentimos o peso da jornada. Não é uma vitória simples. Não é um triunfo limpo. É uma conquista que custa, que dói, que exige. E exatamente por isso... tem valor. A série termina em apoteose, não pela grandiosidade, mas pela verdade emocional que deixa no leitor. E tudo com uma beleza ímpar, onde as personagens ficam na memória, onde os momentos dramáticos nos entristecem, mas onde, no final, há uma réstia de esperança na humanidade. Esta pode muito bem ser a série que todos nós precisamos de ler. Majestosa, impressionante e uma das melhores histórias arquitetadas por Xavier Dorison, um argumentista que, convém não esquecer, tem muitas outras belas histórias. 

Delep, por sua vez, ilustra este volume com uma maturidade visual que nos maravilha e comove. As expressões dos animais parecem carregadas de vida interior: o olhar de Miss B transmite mais que muitos monólogos, a brutalidade de Sílvio pesa no desenho como se o papel rangesse. A cada página sentimos uma evolução no desenho, com o autor a saber pegar na beleza dos três volumes anteriores e a conseguir elevá-la, como se estivesse a tocar o auge da sua arte. É verdadeiramente impressionante o trabalho detalhado, meticuloso e poético que nos oferece Delep.

E tenho que referir ainda que, para isso, também conta o fantástico e inesquecível trabalho de cores de Julien Leplâtre, Sophie Dhénin e Oya Lydia Bierschwale. São das cores mais bonitas que já vi em banda desenhada. Os verdes da vegetação, o azul do céu e os amarelos da terra quase parecem palpáveis. Que trabalho magnífico! As cores e desenho da restante série sempre foram fantásticas, mas neste O Sangue do Rei estão ainda melhores.

A edição da Arte de Autor permanece muito bonita. A capa é dura, com detalhes a verniz e com uma textura aveludada, suave ao toque, que adoro. No miolo, o papel é brilhante e de boa qualidade, tal como também assim é a impressão e encadernação. É uma edição muito bonita. Julgo que, tratando-se do último volume da série, teria sido bom ter recebido uma caderno adicional esboços, estudos de personagem ou outro tipo de conteúdo extra, mas compreendo que se trata de uma co-impressão e que, naturalmente, a edição portuguesa espelha apenas a edição original, pelo que não há nada a criticar negativamente.

Em suma, e olhando para o conjunto da obra, O Castelo dos Animais entra para aquele pequeno círculo de bandas desenhadas que não se fecham quando a contracapa se fecha. Ficam na cabeça, no coração e no modo como olhamos o mundo. Dorison prova aqui ser um argumentista no auge, capaz de arquitetar uma história que, mesmo sendo uma fábula, nos atinge como sendo a mais pura das realidades. E este último volume não só conclui uma série magnífica. Coroa-a. Com beleza, com coragem, com inteligência e com alma. É difícil não lhe dar nota máxima. É difícil não recomendar esta série como uma das BDs que mais valem a pena ler nos dias de hoje. Porque precisamos deste tipo de histórias. Histórias que nos lembram que o poder sem limites pode ser feroz, mas que a esperança, quando encontra companhia, se torna imparável.


NOTA FINAL (1/10):
10.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
O Castelo dos Animais #4 - O Sangue do Rei
Autores: Xavier Dorison e Félix Delep
Editora: Arte de Autor
Páginas: 96, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 232 x 310 mm
Lançamento: Novembro de 2025

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Vem aí o último volume de "O Castelo dos Animais"!



Finalmente está a acontecer! A Arte de Autor prepara-se para editar o quarto e último volume de O Castelo dos Animais

Embora a data de lançamento oficial (e mundial!) da obra seja no dia 12 de Novembro, o livro já pode ser previamente comprado no stand da editora, localizado no Amadora BD, o que é uma boa oportunidade para todos aqueles que, como eu, estão sedentos de saber como termina esta bela fábula!

Para os que não puderem correr para comprar este livro no Amadora BD, podem pelo menos pré-encomendá-lo no site da editora.

Esta é uma série que, se é que isso é possível, tem vindo a melhorar de tomo para tomo e, agora que chega ao fim, estou com uma enorme vontade de mergulhar neste quarto livro intitulado O Sangue do Rei.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


O Castelo dos Animais #4 - O Sangue do Rei, de Dorison e Delep

É uma pequena vitória para os animais: o ditador Sílvio teve de se resignar a organizar uma votação... e, portanto, talvez a colocar o seu mandato em jogo! 

No Castelo, a campanha para a eleição presidencial está em pleno andamento e, do lado do touro-déspota, todos os golpes (baixos) são permitidos. 

Mas o Movimento das Margaridas está mais mobilizado do que nunca para derrubar o touro ditador, também decidido a lembrar todas as injustiças das quais os animais são vítimas! 

Será que Miss B, César e Azelar vão conseguir derrotar o cruel touro Sílvio? A liberdade está ao alcance das patas?

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Ficha técnica
O Castelo dos Animais #4 - O Sangue do Rei
Autores: Xavier Dorison e Félix Delep
Editora: Arte de Autor
Páginas: 96, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 232 x 310 mm
PVP: 23,50€




quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Undertaker está de volta!



A Ala dos Livros prepara-se para editar o 8º volume da série Undertaker da autoria de Xavier Dorison e Ralph Meyer!

O livro deverá chegar às livrarias no próximo dia 21 de Outubro, bem como estará disponível para compra no Amadora BD que se avizinha.

Esta é uma série que eu acho absolutamente fabulosa (e viciante!) e o último tomo, Mister Prairie, foi um dos que achei melhores! Relembro que esta série é dividida por ciclos separados em dípticos, o que faz com que este novo volume, intitulado O Mundo Segundo Oz, encerre o quarto ciclo da série.

Mal posso esperar para o ler!

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Undertaker #8 - O Mundo Segundo Oz, de Xavier Dorison e Ralph Meyer

Numa pequena vila do Texas arruinada e destruída pela Guerra da Sucessão, Sister Oz, guru da chamada Liga da Virtude, convenceu a população de que conseguiriam recuperar a sua boa fortuna aos olhos do divino se fizessem justiça pelas próprias mãos… e impedissem Eleonor Winthorp de fazer um aborto. Para isso, todo os meios são justificados: humilhação, intimidação, chantagem e, porque não, matar Randolph Prairie, o médico que se oferece para praticar a operação?

Mas Jonas Crow, o Undertaker, ergue-se para proteger aquele que é, apesar de tudo, o seu rival amoroso a fim de permitir a Eleonor que escolha o seu próprio destino.

Nesta aldeia perdida, que oscila entre a liberdade e o fanatismo, cada um deve escolher o seu lado, mesmo que isso signifique perder a vida. 

Ninguém sairá ileso do mundo segundo Oz.

“O MUNDO SEGUNDO OZ”, o oitavo tomo da série, encerra o quarto ciclo de Undertaker considerada como uma das melhores séries de western da BD europeia.
Esta série, difundida em mais de 14 países entre os quais se inclui Portugal, obteve desde o início da sua publicação em França, em 2015, numerosos prémios e distinções. Salientam-se, o Prix Saint Michel 2015 du Meilleur Dessin, o Prix Le Parisien 2015 de la Meilleur BD, o Prix 2015 des rédacteurs de scenario.com e ainda a distinção Album preferé des lecteurs de BD Gest 2015.

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Ficha técnica
Undertaker #8 - O Mundo Segundo Oz
Autores: Xavier Dorison e Ralph Meyer
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
PVP: 19,95€

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

ASA anuncia 3 novas BDs para 2026! E todas elas são obras premiadas!


Foi durante a tarde de ontem que, num evento fechado aos media e a algumas das principais livrarias do país, a ASA anunciou o seu plano editorial para os próximos meses.

Relativamente às novidades apontadas ao que falta do ano 2025, não houve novidades, mas a confirmação daquilo que já tinha sido anunciado, em primeira mão, aqui no Vinheta 2020.

Relembrando essas novidades, teremos, então, a sair durante este mês, os livros Impenetrável, de Alix Garin, e O Homem de Negro, de Panaccione e DiGregorio. O mês de Outubro será inteiramente dedicado a Astérix na Lusitânia - o primeiro dos Astérix que ocorre em terras lusas. O mês de Novembro irá trazer-nos a publicação do primeiro integral (de quatro), de Tintin; a edição comemorativa dos 70 anos de Tintin e O Caso Girassol; Blake e Mortimer - A Ameaçã Atlante; Blake e Mortimer - Dupla Exposição e Henri Vaillant, que será um livro que reunirá 3 tomos sobre a vida do pai da personagem Michel Vaillant.

Mas foi no levantamento do véu para o primeiro trimestre de 2026 que a ASA anunciou três belas novidades, todas elas vencedoras (ou finalistas) dos últimos prémios de Angoulême, que muito empolgado me deixaram, e que passo a citar:

quarta-feira, 30 de julho de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Arte de Autor nos últimos 5 anos!

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Arte de Autor nos últimos 5 anos!


Se ontem vos falei da melhor banda desenhada editada pela Ala dos Livros, hoje falo-vos daquela que considero ser a melhor banda desenhada editada pela Arte de Autor nos últimos 5 anos, a partir de 2020, em tom de celebração pelos 5 anos de existência do Vinheta 2020.

Não são muitos os anos, mas são muitos os lançamentos de boa banda desenhada por cá, o que dá eco à ideia, que eu subscrevo, que a edição de banda desenhada em Portugal vive um dos seus melhores períodos de sempre... se não for o melhor.

Já escrevi isto ontem, mas deixo novamente aqui esta informação, para o caso de ser o primeiro destes artigos que o leitor desta página encontra:

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Faço aqui uma pequena nota sobre o procedimento: considerei séries como um todo e obras one-shot. Tudo junto. Pode ser um bocado injusto para as obras autocontidas, reconheço, e até ponderei fazer um TOP exclusivamente para séries e outro para livros one-shot, mas depois achei que isso seria escolher demasiadas obras. Deixaria de ser um TOP 10 para ser um TOP 20. Até me facilitaria o processo, honestamente, mas acabaria por retirar destaque a este meu trabalho que procura ser de curadoria. Acabou por ser um exercício mais difícil, pois tive que deixar de fora obras que também adoro, mas acho que quem beneficia são os meus leitores que, deste modo, ficam com a BD que considero ser a "crème de la crème" de cada editora.

Feita a introdução, passemos então àquela que considero como a melhor BD lançada pela Arte de Autor nos últimos 5 anos. Chamo a atenção para o facto de eu considerar que fará sentido fazer um TOP dedicado aos lançamentos que a Arte de Autor fez em conjunto com a editora A Seita. Mas isso ficará para outro dia. Como tal, as obras lançadas em conjunto pelas duas editoras não foram tidas em conta para este TOP.

Por agora, centremo-nos no TOP dedicado aos livros exclusivamente editados pela Arte de Autor.

Ora vejam:

terça-feira, 29 de julho de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Ala dos Livros nos últimos 5 anos!


A propósito da comemoração dos 5 anos de existência do Vinheta 2020, trago-vos um especial que começa a partir de hoje e que procura celebrar e assinalar a melhor banda desenhada que cada uma das principais editoras portuguesas editou nos últimos 5 anos. Durante as próximas semanas tentarei, pois, oferecer-vos um artigo por editora.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Faço aqui uma pequena nota sobre o procedimento: considerei séries como um todo e obras one-shot. Tudo junto. Pode ser um bocado injusto para as obras autocontidas, reconheço, e até ponderei fazer um TOP exclusivamente para séries e outro para livros one-shot, mas depois achei que isso seria escolher demasiadas obras. Deixaria de ser um TOP 10 para ser um TOP 20. Até me facilitaria o processo, honestamente, mas acabaria por retirar destaque a este meu trabalho que procura ser de curadoria. Acabou por ser um exercício mais difícil, pois tive que deixar de fora obras que também adoro, mas acho que quem beneficia são os meus leitores que, deste modo, ficam com a BD que considero ser a crème de la crème de cada editora.

Em cinco anos de edição ininterrupta de banda desenhada, há naturalmente muitos títulos editados e, como devem calcular, a tarefa não foi fácil e vi-me forçado a excluir obras fantásticas, mas, lá está, há que fazer escolhas e estas são as minhas escolhas.

Hoje começo com uma editora cujo contributo para o lançamento de boa banda desenhada em Portugal é verdadeiramente inegável: a Ala dos Livros.

Esta editora tem um catálogo que considero de extrema qualidade. São (muito!) mais as obras que adoro da editora, do que aquelas de que não gosto. Não foi fácil, mas aqui está o meu TOP

Eis, mais abaixo, as minhas obras favoritas lançadas pela editora Ala dos Livros:

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Análise: 1629 - …ou a história apavorante dos náufragos do Jakarta - 2 - A Ilha Vermelha

1629 - …ou a história apavorante dos náufragos do Jakarta - 2 - A Ilha Vermelha, de Xavier Dorison e Thimothée Montaigne - Arte de Autor

1629 - …ou a história apavorante dos náufragos do Jakarta - 2 - A Ilha Vermelha, de Xavier Dorison e Thimothée Montaigne - Arte de Autor
1629 - …ou a história apavorante dos náufragos do Jakarta - 2 - A Ilha Vermelha, de Xavier Dorison e Thimothée Montaigne

Estava particularmente entusiasmado em ler este segundo volume do díptico 1629, dos autores Xavier Dorison e Thimothée Montaigne, que foi recentemente editado em Portugal pela Arte de Autor, por uma razão muito simples: é que adorei o primeiro volume deste épico marítimo!

Embora a minha expetativa estivesse alta e, tenho boas notícias para vos dar: este segundo volume, intitulado A Ilha Vermelha, em nada fica atrás do primeiro volume da obra. Na verdade, até é capaz de superar o primeiro tomo, pois consegue aprofundar ainda mais a tragédia e a tensão psicológica instauradas no primeiro volume. Se o início da história tinha como palco principal o navio Jakarta, baseada em factos reais, este novo volume muda radicalmente de cenário ao acompanhar os sobreviventes do naufrágio numa ilha remota no Pacífico, onde se desenrola uma luta pela sobrevivência que rapidamente se transforma numa guerra moral e espiritual. A narrativa concentra-se na degradação da ordem e na ascensão da tirania, com o personagem Jéronimus Cornélius a revelar-se um verdadeiro mestre da manipulação e do terror psicológico. A bela e perspicaz Lucrécia Hans ou o destemido Hayes até podem ser personagens impactantes, mas é Cornélius, com toda a sua grotesca maldade e maquinações, que é a grande estrela da obra.

1629 - …ou a história apavorante dos náufragos do Jakarta - 2 - A Ilha Vermelha, de Xavier Dorison e Thimothée Montaigne - Arte de Autor
Já o tinha dito na análise que fiz ao primeiro volume e volto a afirmá-lo: "Dorison tem o mérito de nos oferecer um daqueles vilões que, pela sua personalidade e crueldade, facilmente causa impacto no leitor. Aliás, esta capacidade do argumentista para esculpir excelentes vilões não é, de todo, uma novidade, se tivermos em conta que o autor também deu vida aos cruéis vilões de Long John Silver, O Castelo dos Animais, Undertaker ou O Terceiro Testamento."

Como tal, a história ganha um tom ainda mais sombrio e intenso, explorando os limites da condição humana quando privada de civilização. O ambiente fechado e isolado da ilha serve como uma metáfora poderosa para os conflitos internos e sociais que se instalam. Cornélius, cada vez mais maquiavélico e carismático, constrói uma teia de supostas alianças, mas carregada de medos e traições, entre os náufragos, gerando uma atmosfera sufocante. As tensões pessoais vão sendo exploradas de forma brilhante pelo argumentista Dorison, criando nesta ilha um microcosmo de desonestidade e maldade, que prende o leitor, levando-o a não conseguir desligar-se desta luta pela instauração de um poder que nos remete, inevitavelmente, para obras como O Deus das Moscas, de William Golding, adaptada recentemente para banda desenhada por Aimée de Jongh, onde a ausência de regras rapidamente dá lugar ao caos.

1629 - …ou a história apavorante dos náufragos do Jakarta - 2 - A Ilha Vermelha, de Xavier Dorison e Thimothée Montaigne - Arte de Autor
Há também paralelos interessantes com a série televisiva Lost, não só pela presença de náufragos numa ilha inóspita, mas sobretudo pela forma como o passado das personagens influencia o presente e como os grupos se fragmentam em torno de medos e segredos. Tal como em Lost, há um jogo psicológico em curso, um líder carismático, alianças frágeis, um mistério latente e uma sensação constante de que algo pior está sempre prestes a acontecer. Essa tensão narrativa, construída com grande eficácia por Dorison, mantém o leitor num estado de alerta permanente.

Visualmente, o trabalho de Thimothée Montaigne é de uma beleza impressionante! Os desenhos são detalhados e expressivos, com personagens de forte presença visual, marcadas tanto fisicamente como emocionalmente pelo sofrimento que atravessam. As paisagens da ilha, por sua vez, são absolutamente deslumbrantes, alternando entre o paraíso natural de cortar a respiração e o inferno psicológico e brutal em que as personagens se veem forçadas a mergulhar. As cores, ricas e bem equilibradas, aplicadas por Clara Tessier, reforçam essa dualidade, ajudando a criar contrastes visuais fortes entre momentos de aparente calma e explosões de violência.

1629 - …ou a história apavorante dos náufragos do Jakarta - 2 - A Ilha Vermelha, de Xavier Dorison e Thimothée Montaigne - Arte de Autor
Já agora, também a planificação das pranchas merece destaque: é dinâmica, fluida e nunca repetitiva, o que (também) contribui para a imersão do leitor na história. Cada página é cuidadosamente composta para servir o ritmo da narrativa, ora mais contemplativo, ora frenético, e Montaigne demonstra um controlo excecional sobre o espaço e o movimento das personagens. 

O que me deixou muito feliz com este álbum, é que mesmo que a narrativa já não tenha o navio Jakarta para explorar - pois quando este segundo livro arranca, o Jakarta já naufragou - o álbum consegue viver muito bem por si mesmo, continuando a demanda das personagens, sendo, pelo menos em termos de intensidade dramática, profundidade psicológica e complexidade narrativa, superior ao primeiro. É verdade que o primeiro volume serve como uma introdução sólida ao contexto histórico, às personagens principais e à tensão latente a bordo do Jakarta, mas é no segundo tomo que a história realmente ganha fôlego e densidade, com o foco do enredo a mudar do perigo externo do mar e do naufrágio para o perigo interno, ou seja, para a degradação moral dos náufragos e para a ascensão da figura tirânica de Cornélius.

1629 - …ou a história apavorante dos náufragos do Jakarta - 2 - A Ilha Vermelha, de Xavier Dorison e Thimothée Montaigne - Arte de Autor
Falando ainda da edição deste livro, devo dizer-vos que a mesma é belíssima. A capa não só é verdadeiramente linda, com um aspeto que nos remete para outro tempo e outro lugar, como é detentora de acabamentos nobres que são um deleite para os olhos. A capa dura apresenta uma textura suave ao toque e numerosos detalhes a dourado. É dos livros com a capa mais bonita e apelativa da minha vasta coleção, asseguro-vos! O livro apresenta papel brilhante de primeira qualidade e boa impressão e encadernação. 

Teria sido simpático se  tivesse algum caderno de conteúdo extra, com esboços de Montaigne, por exemplo, mas creio que isso também não acontece na edição original da obra. Ainda assim, é uma bela e cuidada edição.

Finalizando, é justo afirmar que, no conjunto, ambos os tomos de 1629 nos revelam uma obra que é muito mais do que uma recriação histórica e que consegue oferecer-nos uma poderosa reflexão sobre o poder, a moralidade e os instintos mais profundos e irascíveis do ser humano quando empurrado para os seus limites. A dupla formada pelos autores Dorison e Montaigne demonstra um domínio notável da linguagem da banda desenhada, presenteando-nos com uma obra que é visualmente arrebatadora e narrativamente inquietante! A não perder!


NOTA FINAL (1/10):
9.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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1629 - …ou a história apavorante dos náufragos do Jakarta - 2 - A Ilha Vermelha, de Xavier Dorison e Thimothée Montaigne - Arte de Autor

Ficha técnica
1629 - …ou a história apavorante dos náufragos do Jakarta - 2 - A Ilha Vermelha
Autores: Xavier Dorison e Thimothée Montaigne
Editora: Arte de Autor
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Abril de 2025

terça-feira, 8 de abril de 2025

Arte de Autor prepara-se para publicar a última parte de "1629"!


A editora Arte de Autor prepara-se para lançar o segundo e último volume da obra 1629… ou a história apavorante dos náufragos do Jakarta

Isto são ótimas notícias, pois posso dizer-vos que adorei o primeiro volume deste díptico! Aliás, se houve coisa que me desagradou, foi ter que esperar pela publicação do segundo volume para concluir a leitura da obra. Felizmente, esse dia chegou! Ou está quase a chegar, visto que o livro está previsto para o final do mês, vá.

Este é um dos grandes lançamentos de banda desenhada do ano, estou certo!

O livro deverá ter lançamento oficial durante o próximo Coimbra BD e chegar às livrarias ainda durante o mês de Abril - lá mais para o final. Por agora, já se encontra em pré-venda no site da editora.
Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


1629 - …ou a história apavorante dos náufragos do Jakarta - 2 - A Ilha Vermelha, de Xavier Dorison e Thimothée Montaigne

Inspirado numa história verídica...

“Para que o mal triunfe, basta que os homens de bem, nada façam”.

Dorison e Montaigne assinam a maior banda desenhada de aventuras marítimas...

Só os desesperados se arriscam a embarcar no Jakarta. A bordo, uma tripulação oriunda do submundo de Amesterdão e ouro e diamantes suficientes para despertar os desejos mais loucos. Um barril de pólvora num inferno flutuante. Convidada improvável nesta viagem ao pesadelo, Lucrécia Hans torna-se a única pessoa capaz de impedir Jéronimus Cornélius, um boticário herege arruinado, de acender o rastilho... Boa viagem.

Um díptico dedicado a uma das páginas mais sangrentas da história marítima, este thriller psicológico revisita uma história terrível de motim, naufrágio, massacre e sobrevivência. Ao centrar-se neste microcosmos sórdido, Xavier Dorison criou uma história de aventura magistral que retrata a escuridão da alma humana, magnificamente ilustrada por Thimothée Montaigne no auge dos seus poderes.

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Ficha técnica
1629 - …ou a história apavorante dos náufragos do Jakarta - 2 - A Ilha Vermelha
Autores: Xavier Dorison e Thimothée Montaigne
Editora: Arte de Autor
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
PVP: 35,95€