Hoje falo-vos de Ascender, uma minisérie composta por 4 volumes, da autoria de Jeff Lemire e de Dustin Nguyen. Esta é uma obra que funciona como sequela da série maior Descender, da qual já aqui falei. Aliás, o próprio primeiro volume de Ascender - A Galáxia Assombrada, também já aqui foi analisado.
Agora que voltei a pegar nesta obra, a minha sensação não difere muito daquela com que tinha ficado quando li esse primeiro volume da série. É que Ascender nasceu com uma tarefa algo ingrata: a de dar continuidade a Descender, que é em tudo superior a este segundo trabalho. Depois de um universo dominado por máquinas, inteligência artificial e conflitos galácticos, o argumentista Jeff Lemire, do qual sou confesso fã, optou por uma mudança radical de paradigma, substituindo a tecnologia pela magia e transformando uma space opera futurista numa fantasia mais cósmica.
Nestes volumes 2, 3 e 4, intitulados, respetivamente, O Mar dos Mortos, O Mago Digital e Semente Estelar, a jovem Mila continua a assumir o centro da ação. À medida que os segredos da sua origem e do seu papel neste novo universo vão sendo revelados, aos poucos, a protagonista vê-se envolvida num conflito cada vez maior, onde magia, destino e sobrevivência se cruzam constantemente. Paralelamente, algumas personagens oriundas de Descender, como Andy, Effie ou o carismático TIM-21, aparecem nesta nova narrativa, permitindo a Jeff Lemire criar uma ponte mais sólida entre as duas séries.
Aquilo que inicialmente parecia ser apenas uma luta de sobrevivência transforma-se gradualmente numa história acerca da natureza do poder, da herança e do equilíbrio entre forças opostas. Ascender é quase o oposto simétrico de Descender. E procura ser um final para ambas as sagas. Sem entrar em detalhes que estraguem a experiência de quem ainda não leu a obra, diria apenas que os vários fios narrativos são reunidos para um desfecho que procura fazer justiça às personagens e ao universo criado pelos autores ao longo de dez volumes, somando Descender e Ascender.
Tal como já tinha sentido ao ler o primeiro tomo desta nova série, continuo a considerar que Ascender não alcança o mesmo fulgor da série que a precedeu. A saga original apresentava uma premissa particularmente forte e abordava temas fascinantes relacionados com a inteligência artificial, a consciência das máquinas e a relação entre criador e criatura. Eram ideias muito estimulantes e que davam à obra um peso conceptual significativo. Em Ascender, a aposta na fantasia e na magia trouxe novidade ao universo criado pelos autores, é certo, mas também retirou alguma da identidade que tornava Descender tão especial. Pelo menos, quanto a mim.
Além de que um dos problemas que já tinha identificado em Descender continua igualmente presente aqui. Jeff Lemire tem uma enorme imaginação e uma grande capacidade para criar universos ricos e complexos. No entanto, também demonstra alguma tendência para introduzir demasiadas personagens, demasiadas ramificações e demasiados subplots. Por vezes, a história parece mais preocupada em expandir o seu universo do que em aprofundar a narrativa principal. Apesar disso, importa reconhecer que Ascender continua a ser uma leitura cativante.
Onde não existe quebra de qualidade é na componente gráfica ao nível da originalidade. Dustin Nguyen continua absolutamente extraordinário. O seu estilo permanece inconfundível e imediatamente reconhecível. As linhas soltas, os esboços assumidos e a utilização das aguarelas criam uma estética visual que considero única no panorama da banda desenhada atual.
E is cenários naturais, os ambientes mágicos e as criaturas fantásticas que aparecem nesta história parecem feitos à medida do seu talento. Muitas páginas assemelham-se mais a ilustrações de um livro de arte do que a vinhetas de uma série de banda desenhada convencional, havendo uma beleza muito própria na forma como as cores se espalham pelas páginas e ajudam a criar uma atmosfera simultaneamente delicada e fantástica.
Mesmo assim, nem neste ponto as coisas são perfeitas. Há alguns desenhos, especialmente no quarto e último volume da série, que revelam claramente terem sido feitos um pouco "à pressa". Bem sei que o estilo do autor é este mesmo, assumindo o esboço do desenho, mas ainda assim, torna-se mais evidente no último volume que houve um desenho menos aprimorado, talvez pela necessidade do cumprimento de um prazo mais apertado. Digo eu.
Em termos de edição, o trabalho da G. Floy Studio volta a demonstrar-se bastante bem executado. Os livros apresentam capa dura baça, bom papel brilhante no miolo e uma boa encadernação e impressão. Apenas o livro 3 apresenta conteúdo adicional. Neste caso, trata-se de um excerto de um guião.
Em suma, os livros 2, 3 e 4 de Ascender confirmam aquilo que já me parecia evidente após a leitura do primeiro volume: estamos perante uma continuação interessante para o universo criado por Jeff Lemire e Dustin Nguyen, ainda que sem atingir o mesmo nível de qualidade da série original. A história mantém interesse, as personagens continuam cativantes e a arte permanece deveras deslumbrante. Pode não possuir o impacto emocional e conceptual de Descender, mas continua a ser uma leitura recomendável para quem deseja regressar a este fascinante universo de máquinas, magia, família e destino.
NOTA FINAL (1/10):
8.2
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Ascender #2 – O Mar dos Mortos
Autores: Jeff Lemire e Dustin Nguyen
Editora: G. Floy Studio
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Fevereiro de 2022
Autores: Jeff Lemire e Dustin Nguyen
Editora: G. Floy Studio Portugal
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Setembro de 2022
Autores: Jeff Lemire e Dustin Nguyen
Editora: G. Floy Studio Portugal
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Fevereiro de 2023