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terça-feira, 31 de outubro de 2023

Análise: Léa Não Se Lembra Como Funciona o Aspirador

Léa Não Se Lembra Como Funciona o Aspirador, de Eric Corbeyran e Gwangjo - Levoir e Público

Léa Não Se Lembra Como Funciona o Aspirador, de Eric Corbeyran e Gwangjo - Levoir e Público
Léa Não Se Lembra Como Funciona o Aspirador, de Eric Corbeyran e Gwangjo

Léa Não Se Lembra Como Funciona o Aspirador é uma das obras que fazem parte da mais recente coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público. Posso dizer-vos que este livro me surpreendeu pela sua qualidade e maturidade narrativa, bem como pelo seu desenho maravilhoso. Além de que foi com agrado que pude constatar que a Levoir teve bom olho clínico para resgatar um livro originalmente lançado em 2010, mas que, lamentavelmente, não alcançou o devido mérito/destaque. Faço, portanto, votos para que isso possa acontecer, pelo menos em Portugal, devido a esta bela aposta.

Esta obra com um título deveras caricato, mas que acaba por conter nele mesmo uma própria piada satírica que só absorvemos depois de terminada a leitura do livro, traz-nos uma dupla de autores formada por Eric Corbeyran e Gwangjo. Se Eric Corbeyran é um argumentista bastante prolífico, com dezenas de obras publicadas - das quais foi publicada recentemente, pela Gradiva, As Guerras de Albert Einstein -, do autor sul-coreano Gwangjo pouco ou nada se sabe, tendo sido este Léa Não Se Lembra Como Funciona o Aspirador a sua única banda desenhada publicada. O que é uma pena, tendo em conta as habilidades do autor. Mas já lá irei.

Léa Não Se Lembra Como Funciona o Aspirador, de Eric Corbeyran e Gwangjo - Levoir e Público
A história centra-se na personagem de Louis Levasseur, um escritor que está há mais de dois anos sem escrever nenhum livro. É um escritor cuja carreira se tem demonstrado medíocre, o que o tem aproximado da depressão e frustração pessoal. Um dia, encontra num caixote de lixo o diário íntimo de Léa, uma vizinha do seu prédio. Começando a ler o dito diário, Louis descobre que Léa, de uma forma inexplicável, passou a esquecer-se de como funcionam todos os eletrodomésticos da sua casa. O assunto parece, primeiramente, caricato e sem nexo, mas rapidamente Louis se apercebe que é algo sério e que está a afetar o casamento de Léa e a sua própria auto-imagem. Léa não consegue perceber porque - e como - é que se esqueceu de como funciona a torradeira, o aspirador, a chaleira, a máquina de lavar roupa e todos os eletrodomésticos que lhe permitem dar apoio ao seu marido, assegurando as tarefas da lida doméstica.

Louis agarra então nessa ideia e, pegando nas vivências pessoais de Léa, publica um livro que é um verdadeiro best seller mundial e que lhe traz as muito desejadas fama e fortuna. Entretanto, Léa acaba por se divorciar e muda-se do prédio sem deixar qualquer rasto. Louis começa então a questionar-se sobre o paradeiro de Léa e tenta mesmo seguir-lhe o rasto. Mas é um esforço em vão. Como terá sido a vida de Léa desde que se mudou? Tendo em conta o sucesso planetário do livro de Louis, terá Léa sabido que a sua história pessoal se tornou pública? E, se sim, porque é que nunca contactou Louis?

Léa Não Se Lembra Como Funciona o Aspirador, de Eric Corbeyran e Gwangjo - Levoir e Público
Este acaba a fantasiar que um dia, numa das suas muitas sessões de autógrafos, há de dar de caras com Léa. Mas isso nunca acontece. Até ao dia em que, sem que nada o fizesse antever, e no sítio mais aleatório de sempre, acaba por encontrar Léa. E é aí que a história se abre como um todo, revelando mais do que aquilo que aparentava ter acontecido e abrindo caminho para um passado de violência doméstica que fez de Léa (mais) uma vítima cujas mazelas emocionais e intelectuais haverão de se repercutir até ao fim da sua vida.

É uma história séria, triste, pesada, mas que está impecavelmente bem pensada, assumindo este tom mais, digamos, social, na segunda metade do livro que, curiosamente, também aparece dividido em dois grandes capítulos. Acaba por ser um drama psicológico que fica connosco já depois de finda a leitura.

Acima de tudo, o texto é bastante bom, com um discurso maduro que nos é dado na primeira pessoa, em que a personagem principal tece belos e memoráveis comentários sobre a sua experiência, sobre Léa e sobre a vida, de forma geral. Isso é uma das coisas onde a obra se notabiliza. Para além disso, a maneira como a narrativa está montada por Corbeyran, fornecendo-nos uma história típica de investigação, também funciona particularmente bem, pois consegue manter o leitor completamente mergulhado na trama, carregada de mistério e questões por responder. Corbeyran utiliza ainda algumas técnicas narrativas interessantes, moldando a história ao seu próprio ritmo e conseguindo surpreender o leitor mesmo quando parecia claro o caminho que o relato estava a tomar.

Léa Não Se Lembra Como Funciona o Aspirador, de Eric Corbeyran e Gwangjo - Levoir e Público
Se em termos de argumento e narrativa há muito por onde se pegar, em termos de ilustrações, a obra também consegue ser notável. O autor sul-coreano Gwangjo dá-nos desenhos a preto e branco, utilizando apenas lápis de carvão e conseguindo um hiper-realismo absolutamente impressionante. A atmosfera visual íntima criada pelo autor acaba por servir muito bem a própria história.

Os tons de cinza e as sombras conseguidas através de um carvão mais denso, permitem um belo sentimento artístico ao todo. Certas ilustrações conseguem mesmo reter-nos durante vários momentos para que tentemos perceber o trabalho encetado pelo autor. É, de facto, maravilhosa a técnica aprumada e super-virtuosa que o autor empresta aos desenhos lindíssimos desta obra.

Apreciei também a forma como certos desenhos ultrapassam os limites das vinhetas, assumindo um tom quase de esboço. Não um esboço qualquer inacabado, mas um esboço onde as personagens são esculpidas com um realismo impressionante.

A edição da obra, à boa maneira das outras novelas gráficas da Levoir a que nos habituámos, apresenta capa dura baça e papel que, não tendo muita gramagem, é eficaz na função que lhe compete exercer. De resto, a encadernação e impressão apresentam boas qualidades. No início, há um prefácio feito pela jornalista Helena Ferro de Gouveia.

Concluindo, Léa Não Se Lembra Como Funciona o Aspirador é uma obra excelente, com um belo argumento servido por lindíssimas e ímpares ilustrações, em que a Levoir acertou em cheio. Uma das boas surpresas do ano editorial em Portugal!


NOTA FINAL (1/10):
9.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Léa Não Se Lembra Como Funciona o Aspirador, de Eric Corbeyran e Gwangjo - Levoir e Público

Ficha técnica
Léa Não Se Lembra Como Funciona o Aspirador
Autores: Eric Corbeyran e Gwangjo
Editora: Levoir
Páginas: 136, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 10 x 240 mm
Lançamento: Outubro de 2023

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Dose dupla de novelas gráficas no dia de hoje!


Chegaram hoje às bancas, juntamente com o jornal Público, duas novas novelas gráficas de uma só vez.

Na verdade, tal aconteceu porque, na semana passada, a gráfica que produz os livros foi vítima de um ataque informático que impossibilitou a impressão do livro, tal como fez saber, atempadamente, a editora Levoir.

Hoje chegam-nos, portanto, as obras Estampas 1936, de Felipe Hernández Cava e Miguel Navia, e Léa Não Sabe Como Funciona o Aspirador, de Eric Corbeyran e Gwanjo.

Mais abaixo, deixo-vos com as sinopses das obras e com algumas imagens promocionais.


Léa Não Sabe Como Funciona o Aspirador, de Eric Corbeyran e Gwanjo

A 12 de Outubro a Levoir e o Público editam Léa não sabe como funciona o aspirador. Eric Corbeyran autor desta obra, aborda dois temas de forma original, um escritor em crise de inspiração, que há mais de 2 anos não consegue publicar e um problema social grave, a violência doméstica.

Louis Levasseur perdeu as ilusões, há mais de dois anos que não produz uma única linha e as vendas dos seus livros anteriores têm sido medíocres. Enquanto carrega a sua depressão pela rua, apanha o lixo de um caixote que um cão vadio rasgou. Diverte-se ao encontrar um grande número de instruções para electrodomésticos, bem como o diário de uma jovem mulher, cheio de lugares-comuns tão insípidos quanto narcisistas.
À noite, como noutras noites, em frente ao seu computador, nada sai. Para se inspirar, teve a ideia de ir ao caixote do lixo para encontrar o diário desta mulher chamada Léa. Descobre que ela é a vizinha asiática do andar de baixo, que acaba de se mudar após o divórcio. 

Dona de casa submissa, Léa escreveu no seu diário sobre uma curiosa patologia: um dia, sem razão aparente, começou a "congelar" em frente de todos os electrodomésticos. Não se lembrava de como funcionava um aspirador, uma máquina de café ou uma máquina de lavar roupa. 

Louis achou que era uma ideia brilhante e decidiu fazer disso o tema do seu novo romance. Avisou o seu editor que tem o próximo bestseller e começa a escrever freneticamente, contando as consequências quotidianas desta curiosa doença, extrapolando e fantasiando sobre as suas origens...
Conquistado por esta amnésia singular, Louis aproveita as palavras desta "dona de casa desconhecida" e faz dela a heroína do seu novo romance. 

Animado pelo sucesso mundial do seu livro, Louis está agora feliz e realizado. Até ao dia em que descobre a "verdadeira" história de Léa.

O grafismo altamente realista do artista coreano Gwanjo - que por vezes se inspira nos manhwa (manga coreana) - é inteiramente feito a lápis, o que contribui para a atmosfera íntima da história. 

O prefácio tem a autoria da jornalista Helena Ferro de Gouveia reconhecida activista pelos direitos humanos.

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Ficha técnica
Léa Não Sabe Como Funciona o Aspirador
Autores: Eric Corbeyran e Gwanjo
Editora: Levoir
Páginas: 136, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 10 x 240 mm
PVP: 13,90€


Estampas 1936, de Felipe Hernández Cava e Miguel Navia

Estampas 1936, é uma das grandes obras de 2020 publicada em Espanha, que chega agora a Portugal pela mão da Levoir e do Público na colecção Novelas Gráficas, a 12 de Outubro. Felipe Hernández Cava, o argumentista, é já sobejamente conhecido do público leitor de banda desenhada, em 2009 recebeu o Prémio Nacional del Comic com As Serpentes Cegas, que a Levoir e o Público editaram na colecção de 2019.

Estampas 1936 é uma obra de ficção como Felipe Hernández Cava faz questão de afirmar: "Uma das coisas que me surpreendeu foi o facto de muitos leitores acreditarem que todas as estampas nascem de testemunhos ou documentos reais, quando todas elas, mesmo aquelas cujos protagonistas são pessoas reais, são abordadas apenas a partir da ficção.

E vou dar vários exemplos daquelas que parecem mais "reais": O sonho de Lorca foi-nos contado por Alberti nas suas memórias, e imaginei-o a regressar a Madrid no camião de La Barraca obcecado por ele; pensei também na separação de Antonio Machado do seu irmão Manuel, e quis vê-lo a pensar nisso e nos seus tempos de estudante na Institución Libre de Enseñanzaprestes a sair de Madrid para Levante; ou porque não acreditar que Juan Ramón Jiménez, depois de viver aquele episódio humilhante de que mal queria falar, não vomitou à porta de casa. 

Nada neste livro é exatamente "real", mas tudo poderia ter sido como o contamos, porque por detrás de cada imagem há uma bagagem de muitas leituras".
Miguel Navia, é o ilustrador, cujas poderosas imagens transportam o leitor até aos primeiros meses da Guerra Civil Espanhola, conseguindo extrair beleza do horror que foi esta guerra. Navia deixa-nos sem palavras em cada uma das 36 ilustrações apresentadas no livro e para a qual fez grande pesquisa, segundo o próprio conta: “Há muitos anos que sou fascinado por este tema, coleccionando livros de fotografia, história, literatura... Também recorri muito ao arquivo comunista para as cenas que se passam em Madrid, na web há blogues e páginas de verdadeiros fãs com muita informação gráfica, mas tento sempre contrastar isso com livros ou estudos que considero mais fiáveis, pois é muito comum encontrar dados alterados ou locais e factos mal nomeados”.

Um livro verdadeiramente espetacular que convida a refletir sobre como evitar cometer erros como os que conduziram a um dos episódios mais dolorosos da História de Espanha.

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Ficha técnica
Estampas 1936
Autores: Felipe Hernández Cava e Miguel Navia
Editora: Levoir
Páginas: 88, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 230 x 310 mm
PVP: 13,90€