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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Análise: Extases - Livros 1 e 2

Extases - Livros 1 e 2, de JeanLouis Tripp

Extases - Livros 1 e 2, de JeanLouis Tripp
Extases - Livros 1 e 2, de JeanLouis Tripp

Embora já tivesse lido uma breve parte desta obra em pdf, só mais recentemente pude comprar e ler os dois volumes de Extases, que compõem uma impactante obra biográfica onde o seu autor, JeanLouis Tripp, responsável por outros trabalhos magníficos como Armazém Central, O Meu Irmão ou Un Père, nos conta a sua caminhada sexual. E, posso dizer-vos que, para não fugir à regra, Extases (também) é verdadeiramente fantástico!

Isto porque estamos perante uma autobiografia gráfica sem precedentes, um mergulho profundo e desarmante na vida íntima e sexual de alguém. A história começa com as primeiras descobertas do autor, ainda adolescente, quando o corpo e o desejo começam a ser território de fascínio e curiosidade. Tripp relata as suas experiências iniciais de autodescoberta, as primeiras masturbações, as primeiras fantasias e o confronto entre o prazer e a culpa, temas universais mas raramente tratados com tanta franqueza e serenidade.

Extases - Livros 1 e 2, de JeanLouis Tripp
JeanLouis Tripp vai ao fundo da questão, não descrevendo apenas o que fez, mas aquilo que sentiu quando o fez. Começamos pelos primeiros tempos em que, na adolescência, explorava o seu corpo, até à sua primeira namorada mais "a sério", e em idade adulta, que já conhecemos de O Meu Irmão, Caroline, com quem, naturalmente, o autor vive momentos tórridos de experimentação. 

Com o avançar da narrativa, o leitor acompanha o jovem JeanLouis no seu percurso de amadurecimento sexual: as primeiras namoradas, os primeiros encontros verdadeiramente íntimos, e o modo como o sexo se vai tornando não apenas uma prática física, mas também um espaço de aprendizagem emocional e existencial. Tripp mostra-se sempre honesto, por vezes cru, outras vezes ternurento, nunca fugindo ao desconforto que o confronto com o próprio desejo pode provocar.

Com Caroline - nome fictício que, por sua vez, também o era em O Meu Irmão - o autor mergulha em experiências de liberdade sexual, desde as práticas a dois até aos encontros coletivos, passando por fetiches e dinâmicas pouco convencionais. É nesse terreno que Extases começa verdadeiramente a distinguir-se: não há julgamento, não há moralismo, há apenas a vontade sincera de compreender e narrar a própria vida.

Extases - Livros 1 e 2, de JeanLouis Tripp
Essas experiências culminam num ponto alto que, curiosamente encerra cada um dos dois livros, que é a participação em orgias, momentos que percebemos ser transformadores e fundadores da sexualidade adulta de Tripp. Há um "antes" e um "depois" a partir da primeira vez em que, de um modo quase inesperado, Tripp participa com a sua namorada numa orgia entre amigos. 

Naturalmente, e conforme a sensibilidade e experiência de cada leitor, muitas das cenas retratadas nesta obra serão excitantes de acompanhar, embora não me pareça, ainda assim, que a preocupação do autor seja a de criar desejo no leitor, mas sim a de comungar, a de partilhar a sua intimidade. Há um certo humor a pontuar tudo aquilo que nos é contado, embora também haja momentos de algum sufoco onde certas situações nos deixam desconfortáveis. Assim é a vida, diria, e a sexualidade, por conseguinte.

A narrativa ganha, pois, um tom quase filosófico, com o autor a questionar o significado do desejo, o peso da fidelidade, a noção de partilha e até o próprio limite entre amor e prazer. Em termos de estrutura narrativa, os dois volumes funcionam como um contínuo, uma espécie de díptico confessional. O primeiro volume centra-se mais na juventude e na descoberta, e o segundo mergulha na maturidade e nas questões da liberdade, da identidade e da partilha. 

Extases - Livros 1 e 2, de JeanLouis Tripp
É uma aposta verdadeiramente ousada, não apenas por ser uma banda desenhada sobre a vida sexual de alguém - algo já menos invulgar nos dias de hoje - mas pela forma como o autor a concebeu, que revela uma honestidade quase desconcertante. Enquanto muitos autores se expõem ao falar de traumas familiares, doenças ou perdas, Tripp abre o véu sobre a sua intimidade sexual com um detalhe e uma lucidez raros. 

O resultado é uma obra que, ao mesmo tempo, desconforta e conforta. Há momentos em que o leitor se sente cúmplice, outros em que se sente intruso. Mas é justamente esse vaivém entre proximidade e distância que confere a Extases o seu poder. A vulnerabilidade de Tripp torna-se espelho para a vulnerabilidade do leitor, e o sexo - tantas vezes tabu - revela-se um território de comunhão, não de escândalo.

Não é um livro sobre o amor, como o próprio autor sublinha, mas sobre o sexo. Não obstante, em cada página, respira-se uma humanidade profunda, pois a nudez é mais espiritual do que física. Apesar de encontrarmos corpos em todas as suas formas - há uma quantidade enorme de seios, pénis, vaginas, rabos, esperma, pelos púbicos, neste livro - a obra nunca é pornográfica. Nem sequer erótica. O erotismo existe, sim, mas como consequência da verdade do relato, não como artifício para provocar excitação. Não esperem, portanto, performances sexuais fantásticas das personagens, dignas de um filme pornográfico, ou mamas ou pilas de tamanho gigante - a não ser nas alturas em que o órgão sexual masculino está propositadamente exagerado para fins humorísticos ou narrativos.

Extases - Livros 1 e 2, de JeanLouis Tripp
Um dos aspetos mais notáveis de Extases é o equilíbrio entre humor e desconforto. Há situações caricatas, embaraçosas, que o autor retrata com uma auto-ironia saudável, sem nunca cair na vulgaridade. Outras passagens, contudo, são intensas e tocantes, sobretudo quando expõem momentos de dúvida, de rejeição ou de desorientação emocional. Tripp entende que a sexualidade não é linear nem serena. Ao invés, ela é contraditória, e é dessa contradição que nasce a sua autenticidade.

O desenho é franco, expressivo, com um traço a preto e branco semi-caricatural que combina o humor e a melancolia. Bem ao jeito daquilo que o autor nos oferece nas suas obras O Meu Irmão e Un Père. Os desenhos diretos criam uma sensação de proximidade, como se estivéssemos a ouvir um amigo a contar-nos a sua história, num tom de confidência, que funciona muito bem. 

Posso dizer que as duas coisas menos positivas que posso apontar à obra é que, no segundo livro há uma certa sensação de repetição no relato, aqui e ali, e que o final de cada um dos livros poderia ser mais marcante, deixando-nos um bocado, e já que falamos de sexo, sem o "final feliz" que todos os leitores gostariam. Mas são coisas pequenas numa obra que faz tanto e tão bem.

Extases - Livros 1 e 2, de JeanLouis Tripp
Outro tema que me merece comentário é que esta é uma obra que vai de uma forma incrivelmente profunda ao âmago da sexualidade masculina. Numa altura em que tantas obras - de literatura, de banda desenhada, de cinema, de música... you name it - tentam perceber, respeitar e homenagear o universo íntimo feminino e as suas lutas travadas - e que bom isso é! - também é bom ver que há obras (pelo menos esta!) que mostram o lado masculino da equação e o dessa "força da sexualidade masculina" que não é mais do que, quase sempre, um conjunto de inseguranças e fraquezas mascaradas de "forças". Se tivermos em conta que "os homens não falam deste tipo de coisas" este Extases até é capaz de consistir numa das maiores aberturas da caixa de pandora sobre a sexualidade masculina nos mais diversos meios artísticos. Homens que lerem Extases identificar-se-ão, sem o admitirem, com um sem número de coisas deste livro; e mulheres que lerem Extases ficarão certamente boquiabertas ao tomarem contacto com uma miríade de novas coisas sobre a sexualidade masculina que, provavelmente, não ousariam sequer imaginar. 

Falar da sexualidade, com tanto detalhe e pormenor, incluindo fetiches, incapacidades, ou revelando aventuras que muitos de nós - passando por elas - não teríamos a coragem de o fazer nem a melhores amigos, revela algo de ousado. Algo que, espero, os leitores portugueses estejam dispostos a abraçar quando estes dois livros forem editados em Portugal. E espero que o sejam. Não há qualquer confirmação, pelo menos por agora, de que tal vá acontecer, mas deixem-me manter vivas as minhas esperanças. É, aliás, a minha (nova) bitola para aferir a maturidade de um mercado de banda desenhada. Quando me disserem: "O mercado deste país ou daqueloutro está muito desenvolvido...", o meu comentário seguinte será: "Sim, sim... mas nesse mercado desenvolvido de que falas já publicaram o Extases do Tripp?". É preciso termos leitores e editores evoluídos, para termos este livro publicado.

Extases - Livros 1 e 2, de JeanLouis Tripp

Do ponto de vista cultural, Extases representa, portanto, um marco na banda desenhada europeia contemporânea. Ao tratar o sexo com esta frontalidade e profundidade, Tripp eleva o género autobiográfico e desafia os limites do que se considera “publicável” ou “aceitável”.

Falando de edição, o trabalho da francesa Casterman é em cama mole, com badanas, e um bom tratamento de verniz localizado. No interior, o papel é baço, de boa qualidade, e há textos introdutórios do autor em ambos os livros.

Concluindo este texto que já vai longo, Extases é, no fundo, uma celebração da vida. Um tour de force narrativo e artístico que nos lembra que a sexualidade é um dos fios mais poderosos que tecem o ser humano. JeanLouis Tripp oferece-se ao leitor por inteiro - corpo, alma e traço - e o resultado é uma das obras mais sinceras, desconcertantes e, paradoxalmente, mais reconfortantes da banda desenhada contemporânea. O autor convida-nos, assim, a olhar para o sexo como parte essencial da experiência humana, não como um apêndice ou uma vergonha a esconder. Extases mostra-nos que o prazer é também uma forma de conhecimento de nós próprios, do outro e do mundo. É um percurso de aprendizagem, feito de erros, descobertas, fantasias, e, acima de tudo, de uma curiosidade insaciável pela vida. Consequentemente, ler Extases é, de certa forma, confrontar a nossa própria relação com o desejo. Há quem se identifique, quem se choque, quem ria ou se emocione. O livro não procura consensos... procura sinceridade. E é precisamente por isso que funciona tão bem: porque é impossível sair dele indiferente.

NOTA FINAL (1/10):
9.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Extases - Livros 1 e 2, de JeanLouis Tripp

Fichas técnicas
Extases #1
Autor: JeanLouis Tripp
Editora: Casterman (edição francesa)
Páginas: 248 páginas, a preto e branco
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 18.7 x 26 cm
Lançamento: Setembro de 2020

Extases - Livros 1 e 2, de JeanLouis Tripp

Extases #2
Autor: JeanLouis Tripp
Editora: Casterman (edição francesa)
Páginas: 368 páginas, a preto e branco
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 18.7 x 26 cm
Lançamento: Novembro de 2020

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Análise: Un Père

Un Père, de JeanLouis Tripp - Casterman

Un Père, de JeanLouis Tripp - Casterman
Un Père, de JeanLouis Tripp

Por alturas em que, há pouco mais de dois meses, a Ala dos Livros lançava por cá o fabuloso livro O Meu Irmão, de JeanLouis Tripp, a editora Casterman lançava para o mercado franco-belga a mais recente obra do autor francês, que dá pelo nome de Un Père e que volta a centrar-se no passado autobiográfico de Tripp, com especial ênfase na relação deste com o seu pai.

É mais uma obra em que JeanLouis Tripp mergulha novamente com coragem na memória e na emoção, oferecendo ao leitor um álbum profundamente humano e comovente. Após a aclamação de um livro tão especial como O Meu Irmão, que abordava a perda trágica do seu irmão mais novo, Tripp vira agora o olhar para a complexa e delicada relação que teve com o seu pai. O resultado é uma obra de uma maturidade emocional impressionante, onde a ternura, a dor e a procura de sentido se entrelaçam numa narrativa que, embora fragmentada, nos conduz a uma experiência envolvente.

Un Père, de JeanLouis Tripp - Casterman
A história parte de uma infância marcada por um amor pleno e exclusivo: Jean-Louis, quando em criança, viveu como filho único nos primeiros anos, experienciando um tempo dourado sob o carinho e a atenção do pai. Brincavam juntos, tinham momentos ternos a sós. No entanto, com o nascimento dos irmãos e com a degradação do casamento dos pais, essa fase idílica deu lugar a um afastamento gradual. O livro procura, qual catarse, compreender como esse vínculo inicial foi sendo corroído. E não é que tenham existido desentendimentos ou tensões tão grandes assim. Nesse ponto, a relação de ambos até foi semelhante a todas as relações de pai e filho, com os seus bons e maus momentos. E o próprio divórcio dos pais do autor, nunca sendo bom, claro, talvez também não tenha sido o responsável pelo crescimento desta alienação mútua. O que terá sido, então?

Tripp oferece-nos uma abordagem intimista, misturando lembranças aparentemente dispersas, mas que, juntas, constroem uma manta emocional sólida e sincera. A narrativa desta obra é feita de episódios, por vezes longos e marcantes, outras vezes breves e subtis, que nos transportam por várias épocas e locais, como as férias da família na Alemanha de Leste e na Roménia, espelhos da ideologia e do ativismo político do pai, um professor orgulhosamente comunista. Esses momentos, longe de meras curiosidades históricas, revelam o pano de fundo ideológico e afetivo em que se desenrolou a infância do autor.

Un Père, de JeanLouis Tripp - Casterman
O álbum pode, por vezes, parecer retalhado em demasia, com uma sucessão de memórias sem uma ordem muito concreta. Nesse ponto, afasta-se bastante de O Meu Irmão, que é um livro de narrativa mais direta, que gravita todo à volta do trágico falecimento do irmão de Tripp e das eventuais consequências desse momento fatídico. Em Un Pére, tão depressa somos brindados com um momento marcante, como uma discussão mais forte entre pai e mãe, como a seguir seguimos rumo para um momento mais mundano nas férias em família dos protagonistas. E, parece-me, é precisamente nessa estrutura aparentemente solta e algo desconexa que encontramos reflexo na nossa própria memória e afeto. É que, tal como nos lembramos dos nossos entes queridos em lampejos e sensações avulsas, também Tripp nos vai contando a sua história. O fio condutor é, pois, emocional e não cronológico. Por vezes, pode parecer uma leitura mais aleatória, mas quando o leitor se deixa levar por esse fluxo, é inevitável ser tocado pela profundidade das revelações.

Se certas partes no enredo podem ser cambaleantes, o livro vai ganhando força - com a tal soma das partes, lá está - à medida que caminha para o final, com a comoção advinda a tornar-se mais densa. A distância entre pai e filho, inicialmente subtil, transforma-se numa dor surda que vai ganhando forma. O crescendo emocional conduz o leitor até à dor do afastamento, tão comum a tantas relações familiares. A força da narrativa da obra reside na capacidade de Tripp em não julgar, em não cair em ressentimentos fáceis, mas em procurar compreender e aceitar a imperfeição humana que habitou essa relação. Há toda uma sensação genuína de tentar superar as dores do passado.

Un Père, de JeanLouis Tripp - Casterman
Visualmente, Un Père mantém o estilo gráfico característico do autor, com uma paleta sépia que remete para o passado, e com o uso da cor apenas no tempo presente ou em algum momento mais impactante e estilizado do passado. É um recurso simbólico eficaz, que sublinha a distância entre as memórias e a realidade atual. A arte de Tripp continua a ser um ponto forte, servindo com sensibilidade a natureza intimista do relato. As expressões, os silêncios, os olhares... tudo é tratado com grande aprumo emocional.

Em termos de edição, o livro apresenta capa mole com badanas, bom papel baço no miolo, e um bom trabalho ao nível da impressão e da encadernação, embora mereça comentário o facto de, como se trata de um livro bastante espesso (tem 360 páginas) e em capa mole, ser necessário muito cuidado no manuseamento para que a lombada não fique cheia de vincos. É uma boa edição, mas está bem atrás daquela que a Ala dos Livros nos ofereceu no seu recente O Meu Irmão. Por falar em Ala dos Livros, faço votos para que este Un Père possa ser lançado pela editora portuguesa o quanto antes. E, se não for pedir muito, que os dois livros de Extases, onde o autor aborda de forma autobiográfica a sua vida sexual, também tenham edição portuguesa. O trabalho de JeanLouis Tripp é demasiado bom para não ser integralmente editado em Portugal.

Un Père, de JeanLouis Tripp - Casterman
Voltando a Un Père, o grande talento de Tripp está na sua capacidade de tratar emoções complexas com delicadeza e autenticidade, não tentando encobrir as falhas, mas também não transformando os conflitos em tragédias grandiosas. Há, antes, um retrato profundamente honesto do que é crescer, afastar-se, e depois tentar compreender em retrospetiva o que se perdeu... e o que ainda pode ser resgatado, mesmo que apenas na memória.

O livro tem, portanto, o mérito raro de falar ao leitor de forma universal, mesmo sendo profundamente pessoal. Todos os que foram filhos - e, eventualmente, todos os que são pais - encontrarão aqui algo de seu: uma dor antiga, um gesto mal compreendido, uma ausência não verbalizada. Un Père não dá respostas fáceis, mas convida-nos à reflexão, ao perdão e à reconciliação emocional, mesmo que simbólica.

Se O Meu Irmão nos confrontava com a dor da perda súbita, Un Père leva-nos por um percurso mais longo e silencioso: o da erosão lenta de uma ligação que nunca deixou de ser pautada pelo amor. Tripp mostra-nos que, mesmo onde há distância, pode haver também afeto e que, às vezes, compreender e aceitar são os únicos gestos possíveis de reconciliação. É, no fundo, uma carta de amor escrita com maturidade e dor contida, sendo um livro que se lê de uma assentada, mas que permanece connosco durante muito tempo. Pela honestidade, pela beleza do desenho, e sobretudo pela sua verdade emocional, Un Père é uma obra memorável que nos obriga a parar, a olhar para trás e, quem sabe, a repensar a nossa própria história familiar. Não há dúvidas de que JeanLouis Tripp é um dos meus autores favoritos de banda desenhada! 


NOTA FINAL (1/10):
9.7


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Un Père, de JeanLouis Tripp - Casterman

Ficha técnica
Un Père
Autor: JeanLouis Tripp
Editora: Casterman (edição francesa)
Páginas: 360, a cores
Encadernação: Capa mole, com badanas
Formato: 19,8 x 26,1 cm
Lançamento: Maio de 2025

terça-feira, 29 de julho de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Ala dos Livros nos últimos 5 anos!


A propósito da comemoração dos 5 anos de existência do Vinheta 2020, trago-vos um especial que começa a partir de hoje e que procura celebrar e assinalar a melhor banda desenhada que cada uma das principais editoras portuguesas editou nos últimos 5 anos. Durante as próximas semanas tentarei, pois, oferecer-vos um artigo por editora.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Faço aqui uma pequena nota sobre o procedimento: considerei séries como um todo e obras one-shot. Tudo junto. Pode ser um bocado injusto para as obras autocontidas, reconheço, e até ponderei fazer um TOP exclusivamente para séries e outro para livros one-shot, mas depois achei que isso seria escolher demasiadas obras. Deixaria de ser um TOP 10 para ser um TOP 20. Até me facilitaria o processo, honestamente, mas acabaria por retirar destaque a este meu trabalho que procura ser de curadoria. Acabou por ser um exercício mais difícil, pois tive que deixar de fora obras que também adoro, mas acho que quem beneficia são os meus leitores que, deste modo, ficam com a BD que considero ser a crème de la crème de cada editora.

Em cinco anos de edição ininterrupta de banda desenhada, há naturalmente muitos títulos editados e, como devem calcular, a tarefa não foi fácil e vi-me forçado a excluir obras fantásticas, mas, lá está, há que fazer escolhas e estas são as minhas escolhas.

Hoje começo com uma editora cujo contributo para o lançamento de boa banda desenhada em Portugal é verdadeiramente inegável: a Ala dos Livros.

Esta editora tem um catálogo que considero de extrema qualidade. São (muito!) mais as obras que adoro da editora, do que aquelas de que não gosto. Não foi fácil, mas aqui está o meu TOP

Eis, mais abaixo, as minhas obras favoritas lançadas pela editora Ala dos Livros:

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman

Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman


Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman
Tenho tanto para escrever sobre O Meu Irmão, uma das mais recentes obras publicadas pela editora Ala dos Livros - obra que se assume, facilmente, como um dos grandes livros de banda desenhada de 2025 - que este artigo terá que ser, forçosamente, um artigo diferente de todos os outros que faço aqui no Vinheta 2020.

Bem, se querem uma análise à obra, podem encontrá-la aqui, pois já analisei o livro, por altura do seu lançamento oficial em França, pela editora Casterman. Depois de reler a obra na sua edição portuguesa, dei por mim a reler também o texto que escrevi aqui previamente para o blog.

Nessa altura, também não pude, obviamente, ficar indiferente a tão fantástica obra, deixando até o seguinte apelo "quanto tempo passará até que uma editora portuguesa aposte neste livro maravilhoso?" e concluí afirmando que "esta obra traz consigo uma das leituras mais comoventes e emocionantes que fiz nos últimos anos e que, indubitavelmente, merece ser publicada por cá. (...) é um livro demasiado bom para que a aposta não seja feita. Formidável!"

Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman
Dessa altura para cá, mantenho a opinião de que estamos perante um livro obrigatório, que todos deveriam ler, que nos toca no âmago do nosso ser e que é exemplo claro do quão profunda, bela e enriquecedora pode ser uma obra de banda desenhada. Portanto, talvez nada tenha mudado sobre a minha perceção sobre a obra.

Ou talvez tenha mudado algo. Mas para melhor.

O que me leva a outra questão que quero aqui abordar: o tema da tradução, da obra traduzida. Há uma corrente de pensamento que refere que quando lemos uma obra na língua original em que esta foi feita, estamos a saboreá-la, a degustá-la e a conhecê-la "como deve ser". Da forma mais correta. Concordo e discordo com esta afirmação. Concordo porque, de facto, é verdade que não há um intermediário - na pessoa de um tradutor - que possa alterar/adulterar a obra, desvirtuando-a. É, pois, o estado mais puro de mergulharmos na obra. Certo. Por outro lado, discordo no sentido em que uma boa tradução - como é o caso daquilo que acontece neste O Meu Irmão - permite-nos um mergulho menos condicionado pela questão linguística da obra.

Explico.

Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman
A maioria das pessoas - excetuando da equação, e desde já, todos aqueles que têm "fluência total" de mais do que uma língua, - tem uma língua materna, uma língua em que pensa e sonha, que lhe é inata. E mesmo que essas pessoas saibam outras línguas por as terem praticado ou aprendido em contexto letivo, profissional ou lúdico, conhecem e dominam melhor, ainda assim, a língua materna. Ora, quando lemos noutra língua que não a nossa língua materna, estamos sempre a associar os vocábulos de uma língua para a outra, fazendo a transição mental entre uma e outra língua. É claro que quanto mais praticarmos ou conhecermos a língua estrangeira, mais natural e fluído será este processo. Mesmo assim, é um processo que existe sempre.

Ora, os meus conhecimentos da língua francesa são bastante limitados. Diria que compreendo uma grande percentagem - quase tudo - daquilo que leio em francês, mas não serei tão bom a decifrar a língua na oralidade e, muito menos, a exprimir-me em francês. E refiro isto porque, no caso em questão, compreendi toda a obra Le Petit Frère em francês, claro, até porque o texto nem é particularmente difícil ou técnico. No entanto, depois de ler a obra em português, não tenho dúvidas de que pude mergulhar melhor na mesma. Como não tive necessidade de fazer a tal transição entre vocábulos de uma língua estrangeira para a minha língua materna, pude mergulhar de forma mais natural, mais fluída e mais genuína na leitura.

Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman
E por que razão falo desta questão da tradução neste artigo dedicado a O Meu Irmão? Bem, por um lado, para referir que, de facto, é muito importante que haja em Portugal obras traduzidas para a nossa língua mãe, por muito fluentes que sejamos - ou que achemos que somos - em línguas estrangeiras. Até porque isso permite que a obra possa chegar a mais gente, o que é benéfico para o próprio setor. 

Por outro lado, ler a obra em português permitiu-me gostar ainda mais dela. Na análise que fiz à obra, que considerei praticamente perfeita, com uma nota de 9.8 em 10.0, considerei que o único ponto menos positivo da mesma era que, de alguma forma, a história da morte, velório e outros trâmites associados aos mesmos fossem contados em demasiadas páginas. Na altura, escrevi: "Se há algo que posso criticar de forma menos positiva é que, enquanto lia a obra, fiquei com a ideia que a mesma poderia ser contada em 200 páginas, em vez de 344 páginas. Com efeito, até me pareceu que Jean-Louis Tripp estava a “puxar a barra” dramática em demasia." Ora, hoje em dia, e depois de lida a obra em português, e embora concorde com todo o resto que escrevi, discordo deste ponto em concreto do livro ter demasiadas páginas. Foi por ler em português que consegui mergulhar mais densamente na história e, atualmente, acho que, sim, todas aquelas 344 páginas eram necessárias.

Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman

É um livro fantástico, que nos toca no fundo e que pode mudar uma vida. A minha, mudou, sem dúvida. Perder um ente querido completamente saudável num acidente de viação obriga a família a um inesperado e doloroso luto que deixa marcas ao longo de toda a vida. E, infelizmente, as mortes em acidentes de viação são algo que se mantém presente nos nossos dias, fazendo com que este tipo de histórias se tornem em algo universal e presente. Ainda hoje, no dia em que vos escrevo, foi tornada pública a morte dos futebolistas Diogo Jota e André Silva num acidente de viação, o que faz com que a reflexão que O Meu Irmão nos traz, ressoe ainda mais. 

Sim, considero O Meu Irmão, um livro: 

NOTA 10.0 em 10.0.

Para isso, também contribui a fabulosa edição da Ala dos Livros!

Há que o dizer: há algumas editoras em Portugal - e, sem desprimor para as demais, a Ala dos Livros consegue ser o melhor exemplo disto - que fazem melhores edições para Portugal do que as edições originais francesas.

A edição de O Meu Irmão supera, a todos os níveis, a edição original da editora Casterman.

E é por isso que este artigo também é um comparativo.

Como se não bastasse o cuidado com que as edições da Ala dos Livros são feitas, para este livro em específico ainda se juntou o nome de Mário Freitas que com todo o seu perfeccionismo e conhecimento, contribuiu para que a legendagem, grafismo e design de capa fossem muito bem trabalhados.

Comecemos então por isso, pela capa.

Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman


A edição portuguesa da obra apresenta uma capa diferente da capa original. Pessoalmente, prefiro a opção portuguesa que é mais equilibrada em termos visuais, permitindo que o título não seja apresentado em letras tão garrafais como na edição original da obra, embora seja, ainda assim, bastante legível e chamativo. 

A própria colocação da imagem das duas mãos que se separam é uma visão constante ao longo da obra e, portanto, coaduna-se muito bem.


Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman


Ao contrário da edição da Casterman, que apresenta capa mole com badanas, a edição portuguesa do livro oferece capa dura baça, com um material muito suave ao toque e ainda com detalhes a verniz. 

A lombada é em tecido e o livro ainda apresenta uma elegante fita marcadora. Uma edição de luxo e de colecionador, sem dúvida.


Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman


Outro detalhe deve ainda ser referido sobre a lombada do livro. O simples facto da obra ser bastante densa faz com que o livro seja espesso. Eu tenho sempre um grande cuidado no manuseamento dos livros e, ainda assim, como podem ver na imagem acima, a lombada do meu livro francês ficou com bastantes fissuras. 

Ora, na edição em capa dura isso não vai certamente acontecer. E a opção por uma lombada arredondada em detrimento de uma lombada plana, também dá mais consistência ao livro.


Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman


Em termos de papel utilizado, ambos os livros são bastante bons. O papel é baço, de boa textura e qualidade, o que encaixa bem no tipo de ilustração do autor e no próprio teor da obra. 

Mesmo assim, a edição portuguesa acaba por beneficiar a obra ao permitir que o formato, que é superior, possibilite uma maior mancha de impressão e consequentes vinhetas de maior dimensão.

A leitura sai beneficiada, portanto.


Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman


Em termos de cores, a edição portuguesa é extremamente fiel à edição original, sendo difícil encontrar diferenças entre um e outro livro.


Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman


O tipo de letra utilizado, não sendo exatamente o mesmo do da obra original, é-lhe muito fiel, e tem a dimensão e colocação perfeitas. Nada a objetar também, portanto.


Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman


Ora, feitas as comparações mais diretas entre os dois livros, falta ainda mencionar que a edição portuguesa traz oito páginas adicionais de conteúdo extra, nomeadamente, uma página com a ilustração e arranjo gráfico da capa da edição original; outra com uma biografia de JeanLouis Tripp; e um belo texto, em estilo de reportagem sobre a feitura do livro, que se espraia por seis páginas. 


Este texto é útil para aprofundar o tema contido na obra e, ao mesmo tempo, é acompanhado de alguns belos desenhos retirados da história, que o tornam muito apelativo. É um complemento simples, mas bem-vindo e que, mais uma vez, ajuda a que a edição portuguesa supere a edição francesa da obra.



Em suma, reitero que este O Meu Irmão é um dos livros do ano, uma obra obrigatória a conhecer, que nos amargura por dentro, que nos faz sentir raiva e que persiste na nossa memória ao longo de uma vida. Como se já não fosse maravilhoso que esta obra fosse publicada em Portugal, a Ala dos Livros ainda teve o mérito de apostar numa edição de luxo, onde tudo é pensado ao pormenor, superando em todos os quadrantes a edição original da francesa Casterman.

Se este livro ainda não foi comprado por aquele que me lê neste texto, o meu conselho é simples e taxativo: faça um favor a si mesmo e acrescente este livro à sua estante.




quarta-feira, 14 de maio de 2025

Está a chegar uma das BDs do ano!!!



É um livro há muito desejado pelos leitores portugueses de (boa) banda desenhada e está próximo de chegar até nós!

Falo de O Meu Irmão, de Jean-Louis Tripp (co-autor do maravilhoso Armazém Central), que é uma autêntica obra prima da banda desenhada! Um daqueles livros de uma vida, que fica connosco para todo o sempre!

A história é real e fala-nos do modo como o autor perdeu o seu irmão. É um livro comovente, chocante, deprimente e, ao mesmo tempo, imensamente belo e impactante. 

Na altura do lançamento original da obra, tive a oportunidade de ler a versão original da mesma, intitulada Le Petit Frère, e escrever sobre ela aqui.
Ao contrário da edição original da obra da editora Casterman, que é em capa mole, a edição portuguesa da editora Ala dos Livros é em capa dura e com lombada em tecido. Além disso, a capa é diferente (e, quanto a mim, mais bela) e o livro ainda inclui um caderno de extras com o relato do autor sobre o processo de feitura da obra.

Um livro indispensável e candidato a livro do ano que deverão colocar na vossa lista de compras. 

O lançamento está previsto para o mês de Maio. Se não estiver já disponível no próximo Maia BD, deverá estar pronto para venda no Festival de Beja.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

O Meu Irmão, de Jean-Louis Tripp

«Não se morre a meio das férias de Verão, quando se tem onze anos e meio.»


A 5 de agosto de 1976, na Bretanha, durante uma viagem nas férias de Verão da família, um condutor atropelou o irmão mais novo de JeanLouis Tripp e fugiu. Gilles não tinha ainda doze anos e não sobreviveria ao acidente. 

O autor volta atrás no tempo, desde aquele instante em que a sua vida e a dos seus familiares mudou completamente. Ao reconstituir as suas memórias, explora as emoções pessoais provocadas por este drama comovente e testemunha, através desta sua odisseia, a dor e a sua busca por apaziguamento.

A edição portuguesa, agora publicada pela Ala dos Livros, inclui um caderno adicional com o relato do autor, na primeira pessoa, das suas memórias do trágico episódio e do processo de realização de um livro comovente e impressionante que consegue marcar e tocar o leitor.

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Ficha técnica
O Meu Irmão
Autor: Jean-Louis Tripp
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 352, a cores
Encadernação: Capa dura, com lombada em tecido
Formato: 210 x 285 mm
PVP: 47,00€

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Análise: Le Petit Frère

Le Petit Frère, de Jean-Louis Tripp - Casterman

Le Petit Frère, de Jean-Louis Tripp - Casterman
Le Petit Frère, de Jean-Louis Tripp

Há um conjunto de momentos na perda de alguém próximo que são de uma força enorme, devastadora e angustiante, e que não mais nos largam ao longo da nossa vida. E depois, já mesmo quando passaram muitos anos desde essa morte, ainda conseguimos vivenciar todos os momentos que compuseram esse trágico acontecimento, tal como se apenas tivessem passado dois ou três dias: a forma como soubemos que alguém estava à beira da morte, a forma como soubemos que esse alguém tinha mesmo morrido, o que sentimos na altura, quem estava lá a partilhar esse momento connosco, o funeral, as mensagens, as flores, os dias seguintes. Tudo aquilo que compõe, portanto, aquele momento em que o “tapete” nos é tirado e acabamos por ter uma enorme queda emocional. Que se arrasta por meses. Por anos.

Le Petit Frère dá-nos, num relato autobiográfico, tudo isso, mas com uma agravante: estamos perante a história real de uma criança de 11 anos, o membro mais novo de uma família, cuja vida é ceifada por um violento acidente automóvel. Conseguem imaginar? Já há muito tempo que um livro não me partia o coração desta maneira. Foram várias as vezes, ao longo destas mais de 300 páginas, que o nó na garganta se me instalou e as lágrimas acabaram por me inundar os olhos.

Le Petit Frère, de Jean-Louis Tripp - Casterman
Jean-Louis Tripp, autor, juntamente com Régis Loisel, de Armazém Central, uma das séries da minha vida, conta-nos a história biográfica sobre a forma como perdeu o seu irmão mais novo, Gilles. E posso dizer-vos: a leitura deste livro é de uma força e de uma tristeza tal, que senti que o meu coração foi arrancado do seu lugar, pontapeado e esmurrado e depois devolvido ao seu local original. O Relatório de Brodeck, de Manu Larcenet, essa magnífica e pesada obra-prima da bd, parece uma história dos Ursinhos Carinhosos, quando comparada, pelo menos em termos de intensidade dramática, com este Le Petit Frère. É preciso estômago para ler este livro, aviso já.

Le Petit Frère começa praticamente com a morte do pequeno Gilles. Era o verão de 1976 e Jean-Louis, de 18 anos, encontrava-se de férias na Bretanha, com a sua família. Sem que Jean-Louis – ou alguém - o pudesse prever, ao soltar a mão do seu irmão mais novo, este acaba por ser violentamente atropelado por um carro que, lamentavelmente, opta por fugir após o embate. Ora, nos anos 70 não tínhamos telemóveis e, tendo em conta que a família se deslocava em caravanas puxadas a cavalo, bem como que este acidente aconteceu no meio do nada, o pequeno Gilles perdeu muito sangue enquanto aguardava pela assistência médica. Todos tiveram que esperar por uma ambulância num longo período de tempo que parece ter demorado horas. Eventualmente, e já no hospital, a família é confrontada com o dramático anúncio: Gilles perdera a vida. Esse pequeno momento de soltar a mão do seu irmão, que acabou por ser fatídico para Gilles, acabou por perseguir Jean-Louis Tripp ao longo de toda a sua vida.

Le Petit Frère, de Jean-Louis Tripp - Casterman
Tripp vai ao pormenor, cobrindo cada um dos pequenos momentos vividos ao longo dos dias que circundam a morte do seu irmão, Gilles. Aliás, prova disso é que o momento do acidente que envolve o seu irmão se dá na página 17 e é só na página 150 que tem lugar o funeral do seu irmão. Portanto, são inúmeras as pranchas onde vemos personagens a chorar fortemente, abraçadas umas às outras ou em pleno choque emocional. São desenhos que falam por si e que trazem uma forte aura de drama e tristeza à obra.

O autor narra-nos com minúcia os anos que se seguem: a raiva, a sensação de injustiça, o luto. Tudo muito difícil de ultrapassar. Como encontrar algum sentido após a morte de uma criança e de uma forma tão violenta, ainda por cima? E, claro, o sentimento de culpa também parece perseguir o narrador. Se ele não tivesse largado a mão do seu irmão, a tragédia não teria acontecido? Também o processo judicial face ao motorista culpado - que fora rapidamente descoberto pelas autoridades - ou o início de carreira de Jean-Louis enquanto artista de banda desenhada, na revista Métal Hurlant, estão documentados pelo autor.

Le Petit Frère, de Jean-Louis Tripp - Casterman
Se há algo que posso criticar de forma menos positiva é que, enquanto lia a obra, fiquei com a ideia que a mesma poderia ser contada em 200 páginas, em vez de 344 páginas. Com efeito, até me pareceu que Jean-Louis Tripp estava a “puxar a barra” dramática em demasia. Às tantas eu já sentia: “homem, pára de me deprimir com esta história”! Mas isso foi uma injustiça da minha parte. Porque ao ler este livro na íntegra, também eu tive que regressar à maior perda que tive nesta vida – a do meu pai – para relembrar que o drama não é exagerado. O drama é real e vive-se durante uma vida, até. E então percebi que o próprio Jean-Louis Tripp há-de ter tido com esta obra uma certa redenção para a sua vida. Com um resultado quiçá terapêutico. Uma forma de sarar – se tal for possível – esta enorme ferida.

Assim, e por essa razão, não me parece ser justo afirmar que o autor faz “render o peixe” ou que explora em demasia este evento da sua vida. Há, aliás, um sentido de profundidade e sinceridade que nos toca no nosso âmago. Ao leitor acaba por ser dada a possibilidade de experienciar algo real e tremendamente trágico que o próprio Tripp viveu durante a sua vida e que, estou certo, continua a atormentá-lo. E a feitura deste livro é, afinal, uma forma de tornar eterno o pequeno Gilles que, com apenas 11 anos, teve o azar de estar no sítio errado, à hora errada e com isso destruir o universo de toda a sua família. 

Le Petit Frère, de Jean-Louis Tripp - Casterman
Tenho que afirmar que, tirando o brilhante Armazém Central, eu não tinha lido mais nada deste autor. E digo-vos: que fantástico autor-completo é Jean-Louis Tripp! Está, segundo os meus padrões, confirmado como um autor brilhante. Depois deste Le Petit Frère, tenho que dizer que estou muito curioso por ler Extases, onde o autor se despe de preconceitos acerca de temas relacionados com a sexualidade numa autobiografia.

Mas, voltando a Le Petit Frère, visualmente, o autor oferece-nos um livro com desenhos que, mesmo ilustrando situações terríveis como a dor, o luto e a tristeza infindável, conseguem ser muito bonitos e visualmente apelativos. Os leitores que conhecem Armazém Central encontrarão, aqui e ali, algumas semelhanças com os desenhos dessa série – especialmente nos cortes de cabelo de algumas personagens e em algumas expressões faciais – mas, tal como já disse noutros artigos, Armazém Central parece ter sido desenhado por uma outra pessoa que não Loisel e não Tripp. As semelhanças com os desenhos de ambos os autores estão lá, obviamente, mas numa mistura diferente ainda assim. Como se ambos os autores tivessem criado, por fusão, um novo autor.

Le Petit Frère, de Jean-Louis Tripp - Casterman
Posto isto, e voltando novamente a Le Petit Frère, posso dizer que os desenhos expressam de forma inequívoca a dor, a devastação emocional e a deformação do momento que a própria história nos oferece. As cores são quase sempre em tons de sépia embora sejam entrecortadas por algumas cenas em cores mais vivas que tentam apontar a história e o autor no sentido da luz. Da bonança após a tempestade. Do otimismo e da redenção.

A edição da Casterman é em capa mole e em papel baço, com boa gramagem. Tenho que dizer que, sendo o livro bastante grosso, por mais que seja o cuidado que temos no manuseamento do livro, a lombada do mesmo acaba por estar sempre um pouco danificada quando chegamos ao final da leitura. Com aquele habitual vinco na lombada. É uma pena e acho que o livro merecia capa dura. Porém, também é verdade que, pela tal razão de ser em capa mole, o preço do livro em França, de 28€, é bastante simpático para uma obra a cores e com mais de 300 páginas. Opções editoriais, portanto.

No fim, o meu pensamento é apenas este: quanto tempo passará até que uma editora portuguesa aposte neste livro maravilhoso? Esta obra traz consigo uma das leituras mais comoventes e emocionantes que fiz nos últimos anos e que, indubitavelmente, merece ser publicada por cá. Sei que o tamanho do livro é grande, o que poderá trazer consigo custos avultados e consequentes receios das editoras portuguesas. Mas é um livro demasiado bom para que a aposta não seja feita. Formidável!


NOTA FINAL (1/10):
9.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
Le Petit Frère
Autor: Jean-Louis Tripp
Editora: Casterman (edição francesa, original)
Páginas: 344, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 20 x 26,3 cms
Lançamento: Maio de 2022