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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Análise: Macho-Alfa #4

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina

O quarto e último volume da série portuguesa Macho-Alfa chegou-nos no final do ano passado como um murro final, a vários níveis, que se revelou como um derradeiro golpe, seco e sem aviso prévio, para todos os que acompanhávamos esta série desde o seu começo, da autoria de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina.

E foi um duro golpe a dois níveis. Em primeiro lugar, por este livro ter o significado simbólico de ser o último trabalho de Filipe Duarte Pina que, lamentavelmente, faleceu a meio de 2025. Além disso, por marcar o fecho de uma saga de banda desenhada nacional que sempre jogou no limite entre a desconstrução do mito do super-herói e a sua celebração mais crua, mais física, mais humana. 

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Este quarto volume não procura teorizar muito as ideias que foram levantadas nesta série - e foram muitas -, mas sim encarar de frente o abismo que sempre esteve à espera de David, o protagonista, um super-humano num mundo que nunca soube o que fazer com ele. Se em muitas das histórias de super-heróis nos é dada a ideia que ser-se super-herói deve ser espetacular... em Macho-Alfa fica bem presente que talvez ter super-poderes seja mais uma cruz do que uma benção.

Ao longo da série, Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina construíram uma narrativa que piscava o olho à cultura dos comics americanos, mas sem nunca abdicar de uma identidade muito própria, profundamente portuguesa no seu desencanto, na sua ironia e no seu pessimismo social. 

David já não é, neste quarto volume, o anti-herói em crise existencial nem o peão de um sistema que o usa e descarta. É, acima de tudo, um sobrevivente. Confrontado com a verdade sobre o seu passado e com a revelação da sua némesis, tudo o resto se torna irrelevante: não há terapia, não há reforma, não há apaziguamento possível. Há apenas a luta. E essa escolha narrativa confere ao álbum uma urgência brutal, quase sufocante, com cada uma das páginas a ganhar peso acrescido, levando a que cada decisão narrativa pareça carregar uma vontade clara de ir até às últimas consequências. 

Narrativamente, este último volume centra-se quase exclusivamente no combate entre David e o seu rival. Cerca de metade do álbum - aproximadamente 30(!) páginas - se destina ao combate entre ambos, o que é uma opção ousada e pouco comum, sobretudo no contexto da banda desenhada portuguesa, e remete-nos imediatamente, lá está, para as grandes batalhas épicas dos comics de super-heróis. Uma escolha que, pessoalmente, apreciei muito pela sua audácia e confiança, pois se há série nacional que termina em apoteose, esta é uma delas.

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Este combate não é apenas longo... é denso, agressivo, físico e emocionalmente carregado. A violência atinge aqui um patamar que, sinceramente, não me recordo de encontrar noutras obras nacionais. Esta violência - que alguns até poderão achar exagerada, mas não eu - é consequência lógica de tudo o que foi sendo construído ao longo da série e, claro, por serem personagens - quer o herói, quer o vilão - de um poder indescritível. Não poderia ser de outra forma, acredito. 

Este conforto está particularmente bem conseguido, por parte do ilustrador Osvaldo Medina. A coreografia do combate é clara, o ritmo é eficaz e as decisões visuais demonstram um controlo narrativo impressionante. Há uma sensação constante de perigo real, de que tudo pode acabar a qualquer momento, e isso mantém o leitor preso até à última página.

Nem tudo, contudo, é isento de críticas. Olhando para a série como um todo, é impossível não notar que, a determinada altura - especialmente no segundo volume - a história pareceu afastar-se um pouco do seu potencial inicial mais relevante. Algumas ideias surgiram de forma algo aleatória, deixando pontas soltas em termos de enredo que nunca chegam a ser totalmente resolvidas. Entretanto, o terceiro volume melhorou a narrativa, já depois de um primeiro álbum que prometia muito.

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
E não é que este Macho-Alfa #4 resolva todas as pontas soltas que a série trouxe. Sinceramente, até parece não haver esse objetivo por parte dos autores. Ainda assim, este livro consegue, de forma notável, recentrar o foco e fechar a saga com uma clareza e uma força que compensam essas fragilidades anteriores. O final é brutal, violento, imprevisível e chocante, e não tenta agradar a todos. É um final coerente com o universo que foi criado desde o início.

Em termos de edição, o trabalho d' A Seita e da Comic Heart, mantém-se em consonância com os volumes anteriores, apresentando capa dura baça, bom papel brilhante no miolo, boa impressão e boa encadernação. Além disso, foi feita uma homenagem, mais do que merecida, a Filipe Duarte Pina, que inclui a fotografia do autor, um nota introdutória dos editores e homenagens sentidas e emotivas de Filipe Andrade, Filipe Homem Fonseca, Nuno Lourenço Rodrigues, Osvaldo Medina, André Oliveira, Joana Afonso, Jorge Coelho, Luís Simões. Nélson Dona, Nuno Saraiva, Paulo Monteiro, Pedro Ribeiro Ferreira, Ricardo Cabral e Pedro Moura. Há ainda um esboço da personagem de David que, a julgar pelo traço, acredito ser da autoria de Filipe Duarte Pina. Acabou por ficar uma edição bonita e especial por todos estes motivos.

Em suma, Macho-Alfa termina como começou: incómodo, provocador e profundamente humano. Um adeus em alta e que deixa marcas. Este livro é também especial por razões que extravasam a própria ficção. Marca o fim da carreira em banda desenhada de Filipe Duarte Pina, falecido no ano passado, e saber que o autor concluiu este álbum enquanto lidava com uma doença terminal acrescenta uma camada emocional difícil de ignorar. Há aqui uma perseverança e uma coragem que arrepiam, que comovem e que impõem respeito. Ler Macho-Alfa #4 é, também por isso, e de forma dupla, um ato inevitável de despedida.


NOTA FINAL (1/10):
8.3



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Ficha técnica
Macho-Alfa #4
Autores: Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 200 x 280 mm
Lançamento: Outubro de 2025

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Novo livro de "Maria do Mar" acaba de ser lançado


A Kingpin Books lançou recentemente um novo livro ilustrado de Sónia Sousa Ell que, desta vez, conta com ilustrações de Osvaldo Medina.

Denomina-se Maria do Mar e o Calendário Que Nunca Mais Chegava a Julho e é já o segundo volume da série Maria do Mar, que é indicada para públicos de todas as idades.

Mais abaixo deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais.

Maria do Mar e o Calendário Que Nunca Mais Chegava a Julho, de Sónia Sousa Ell e Osvaldo Medina

Depois do sucesso do primeiro volume da colecção Maria do Mar, a autora e educadora ambiental Sónia Sousa Ell apresenta o seu segundo livro: “O calendário que nunca mais chegava a Julho”, lançado oficialmente no Amadora BD 2025. 

Maria do Mar adora recortar letras e números das folhas arrancadas do calendário da cozinha, reutilizando-as em seguida para criar as suas próprias histórias. Todos os anos, a sua ansiedade aumenta com o aproximar de Julho, o seu mês favorito. No entanto, este ano, Maria do Mar recusa-se a arrancar a folha de Junho, deixando todos perplexos. Ninguém entende a razão desta birra tão improvável!

Entre mistérios, a ternura das relações familiares e os desafios de quem está a crescer, aos poucos, o verdadeiro motivo da relutância de Maria do Mar será enfim desvendado!

Com ilustrações do conhecido Osvaldo Medina, autor de álbuns de BD como Kong The King ou Fojo, este livro reflecte uma cumplicidade criativa rara. Desta vez, Sónia deu um passo além: pintou com aguarela os desenhos originais do ilustrador, num gesto de confiança, partilha e emoção. Com design e edição de Mário Freitas, o livro reforça o propósito que atravessa toda a coleção Maria do Mar: unir gerações, imaginação e consciência ambiental, mostrando que cada gesto — cada +1 — pode mudar o mundo.

Mais do que um conto infantojuvenil, esta nova obra é uma celebração do tempo, da memória e da herança afectiva; e um lembrete poético de que o passado pode, sim, proteger o futuro e ajudar-nos a crescer. A história, ambientada no universo da curiosa Maria do Mar, convida leitores de todas as idades a revisitar o tempo da infância. O livro transforma o simples acto de marcar os dias numa viagem sensorial, entre o ontem e o amanhã.

“Um calendário pode parecer banal. Mas, sem darmos conta, é ele que orienta as nossas vidas. Este livro nasceu do desejo de resgatar as memórias que nos formam — aquelas que, se não forem contadas, desaparecem.”

— Sónia Sousa Ell

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Ficha técnica
Maria do Mar e o Calendário Que Nunca Mais Chegava a Julho
Autores: Sónia Sousa Ell e Osvaldo Medina
Editora: Kingpin Books
Edição, legendagem e design: Mário Freitas
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 22,5 x 22,5 cm
PVP: 17,99€

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Novo livro de BD sobre deficiência junta alguns dos mais importantes autores portugueses!



É uma notícia que há muito vos queria dar e é hoje que, finalmente, o faço! E em primeiríssima mão!

Está a chegar um novo livro de BD, intitulado inVISÍVEIS, que junta grandes nomes da banda desenhada nacional, como Daniel Maia, Joana Afonso, Jorge Coelho, Luís Louro, Osvaldo Medina, Paulo J. Mendes, Ricardo Santo e Susana Resende!

Trata-se de uma antologia de histórias curtas de banda desenhada, lançada pela CERCIOEIRAS, a propósito da comemoração dos seus 50 anos de existência! Um projeto, no mínimo, inovador, já que nada semelhante foi feito até à data por uma instituição semelhante.

Assinalar o 50º aniversário lançando um livro de banda desenhada sobre um tema tão poucas vezes comentado, é algo que merece os meus aplausos!

Posso dizer-vos que participei ativamente no livro, fazendo a coordenação do projeto e sendo argumentista de quatro(!) das seis histórias que compõem o livro. É a minha estreia na produção de BD, portanto. Estou extremamente orgulhoso e satisfeito de ver nascer as minhas primeiras histórias de banda desenhada e, ainda por cima, pelas mãos de autores/ilustradores de quem sou confesso admirador. Dizer que é um sonho tornado realidade não é, portanto, exagero da minha parte.

São histórias que falam sobre o tema da deficiência, como é viver com estas dificuldades e qual é o papel de todos nós numa sociedade que pode e deve fazer mais por todos os que são deficientes.

Todos os autores, sem exceção, fizeram um ótimo trabalho, asseguro-vos!

A maravilhosa capa do livro é da autoria de Jorge Coelho e a legendagem de uma das histórias foi feita por Mário Freitas que, generosamente, também contribuiu com o seu know how para este projeto de grande envergadura.

O livro deverá ter apresentação no Amadora BD, no dia 2 de Novembro, domingo, às 17h20, com presença dos autores, minha e dos responsáveis da CERCIOEIRAS. Está-se a trabalhar também no sentido de se organizar um lançamento do livro além desta apresentação no Amadora BD e, nesse sentido, voltarei ao tema assim que tiver mais informações.

O livro será editado em capa dura, contando com 48 páginas e um formato de 21 x 29,7 cm.

Como devem imaginar, estou super entusiasmado com isto!

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com uma página de cada um dos ilustradores que colaboram no livro.


inVISÍVEIS, de Daniel Maia, Hugo Pinto, Joana Afonso, Jorge Coelho, Luís Louro, Osvaldo Medina, Paulo J. Mendes, Ricardo Santo e Susana Resende

Seis histórias de BD. 

Seis olhares. 

Um mesmo compromisso com a inclusão.

Para assinalar os 50 anos da CERCIOEIRAS, seis dos mais relevantes ilustradores da banda desenhada contemporânea portuguesa reúnem-se numa obra única, coordenada por Hugo Pinto.

Cada história cruza o universo da deficiência com a missão transformadora da CERCIOEIRAS, dando voz a experiências reis, imaginadas e sentidas.

Entre o traço e a palavra, esta antologia de banda desenhada celebra a diversidade, a empatia e a força de uma Organização que, há meio século se dedica a Integrar a Diferença, Construir a Inclusão.



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Ficha técnica
inVISÍVEIS - Histórias de Banda Desenhada que Desmistificam Preconceitos sobre a Deficiência
Autores: Daniel Maia, Hugo Pinto, Joana Afonso, Jorge Coelho, Luís Louro, Osvaldo Medina, Paulo J. Mendes, Ricardo Santo e Susana Resende
Editora: CERCIOEIRAS
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 21 x 29,7 cm
PVP: 14,90€










sexta-feira, 22 de agosto de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Kingpin Books nos últimos 5 anos!


Hoje apresento-vos os 10 livros mais relevantes que li da editora Kingpin Books e que foram lançados nos últimos 5 anos, período de existência do Vinheta 2020.

A Kingpin Books foi responsável pela produção e lançamento de muita da banda desenhada nacional - e não só - relevante que foi editada em Portugal nos últimos 15 anos. Infelizmente, a cadência editorial da editora portuguesa decaiu um pouco nos últimos anos, embora a qualidade dos livros editados continue a ser muito boa. Dito por outras palavras, são poucos, mas bons os livros que têm saído da fornalha da Kingpin.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Sem mais demoras, eis aqueles que considero que são os 10 melhores livros de banda desenhada editados pela Kingpin entre 2020 e 2025.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Comic Heart nos últimos 5 anos!


Hoje apresento-vos aquela que foi a melhor banda desenhada editada pela Comic Heart nos últimos 5 anos. Bem sei que esta é uma chancela que, atualmente, pertence à cooperativa editorial A Seita, da qual já aqui fiz um TOP 10, mas tendo em conta o facto de a Comic Heart se especializar em banda desenhada de autores nacionais, faz sentido que se assinale quais as 10 melhores obras de banda desenhada que esta chancela lançou nos últimos 5 anos.

Até porque a Comic Heart tem no seu catálogo alguns dos nomes maiores da banda desenhada nacional, o que revela bem a importância que foi conquistando ao longo da sua história recente.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Deixo-vos então, mais abaixo, com as 10 melhores bandas desenhadas editadas pela Comic Heart nos últimos 5 anos:

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Análise: CoBrA - Operação Conacri – Tomo 2

CoBrA - Operação Conacri – Tomo 2, de Marco Calhorda e Osvaldo Medina - Ala dos Livros

CoBrA - Operação Conacri – Tomo 2, de Marco Calhorda e Osvaldo Medina - Ala dos Livros
CoBrA - Operação Conacri – Tomo 2, de Marco Calhorda e Osvaldo Medina

Se há série de banda desenhada que tem um valor histórico mais do que pertinente, por nos dar um vislumbre do passado recente bélico nacional, essa série dá pelo nome de CoBrA. Recentemente, o terceiro livro da mesma, extraído da mente de Marco Calhorda, argumentista e mentor da franquia, foi editado pela Ala dos Livros. E novamente temos um novo ilustrador para a história. Depois de Daniel Maia e Zoran Jovici, que ilustraram, respetivamente, Operação Goa e o primeiro tomo de Operação Conacri, é a vez de Osvaldo Medina, uma referência na banda desenhada nacional, se juntar à série.

Este Cobra - Operação Conacri - Tomo 2, tal como o nome assim revela, é pois a segunda e última parte do segundo arco narrativo da série.

CoBrA - Operação Conacri – Tomo 2, de Marco Calhorda e Osvaldo Medina - Ala dos Livros
Dando continuidade ao trabalho iniciado por Marco Calhorda e Zoran Jovicic no primeiro tomo de Operação Conacri, este volume mergulha o leitor numa das operações militares mais secretas e controversas da história recente de Portugal: a tentativa de derrube do regime guineense aliado do PAIGC, numa manobra conhecida como Operação Mar Verde, que foi levada a cabo já durante os últimos anos do Estado Novo. Este episódio, largamente esquecido ou silenciado nas narrativas oficiais, é recuperado aqui com um impressionante sentido de rigor e coragem, por parte de Marco Calhorda, ainda que, e felizmente, esta seja uma história de ficção. Com um pé no rigor histórico e outro no entretenimento. E esse pode muito bem ser o seu principal trunfo.

A série CoBrA tem-se afirmado ao longo dos seus vários tomos, aliás, como uma proposta narrativa e historicamente pertinente, pois não só oferece um mergulho nas missões secretas do exército português, como também aborda as ramificações políticas e geoestratégicas dessas ações, muitas vezes orquestradas à margem das instituições formais. E este novo volume da série volta a ser exemplar nesse sentido, destacando, também, o papel de Jorge Jardim, figura influente nas sombras do colonialismo tardio, cuja atividade junto de redes internacionais e mercenárias o tornaram num dos principais mentores destas operações encobertas. Ainda que, no caso concreto, Jorge Jardim até não tenha, desta vez, um papel tão ativo como nos dois livros anteriores.

Neste segundo tomo de Operação Conacri, acompanhamos a necessidade de reação por parte do governo português face ao massacre dos majores e à situação independentista na Guiné que, no início dos anos 70, se começava a agravar cada vez mais. Foi neste cenário que Marcelo Caetano aprovou uma missão militar sem precedentes para o exército português e onde, mais uma vez, a agência CoBrA foi figura central. Esta foi, aliás, a maior operação clandestina realizada pelas forças militares portuguesas.

CoBrA - Operação Conacri – Tomo 2, de Marco Calhorda e Osvaldo Medina - Ala dos Livros
Em termos históricos, o valor documental de Operação Conacri - Tomo 2 é inegável. Ao retratar a Operação Mar Verde, ainda que de uma forma ficcionada, o livro levanta o véu sobre uma faceta menos explorada da Guerra Colonial, revelando-nos uma guerra obscura, onde a espionagem, os golpes falhados e as redes internacionais de interesses assumiram um protagonismo letal. 

A série CoBrA tem sido exemplar ao abordar episódios pouco conhecidos da história portuguesa, dando-lhes corpo através da banda desenhada e assumindo-se numa "espionagem à portuguesa". Em vez de perpetuar mitos ou versões simplificadas, vê-se que há um esforço dos autores em alicerçar a narrativa em factos e documentos reais. E isso merece os meus louvores. 

Neste tomo, Marco Calhorda continua a aperfeiçoar o seu trabalho de escrita. Nota-se uma evolução clara na estrutura narrativa, tornando-a menos confusa e isso é especialmente visível na forma como as legendas são trabalhadas e otimizadas. Há um maior cuidado em contextualizar o leitor, explicando onde e quando se passam os eventos, o que permite um acompanhamento mais fluído da história. Pode parecer um detalhe menor, mas é precisamente esse tipo de escolhas que demonstra maturidade autoral e que proporciona uma leitura mais imersiva e acessível, especialmente para os leitores menos familiarizados com os eventos retratados.

O trabalho de Osvaldo Medina é outro dos pontos fortes desta edição. Com um traço limpo, expressivo e um belo uso do preto e branco puro, o autor confere ao livro uma intensidade gráfica que casa bem com a tensão da narrativa. O seu domínio do claro-escuro reforça a atmosfera de clandestinidade e perigo que atravessa a história. Enquanto admirador do seu trabalho noutras obras, não posso deixar de sublinhar que, também aqui, Osvaldo Medina não desilude e continua a afirmar-se como um dos grandes talentos da banda desenhada nacional.

CoBrA - Operação Conacri – Tomo 2, de Marco Calhorda e Osvaldo Medina - Ala dos Livros
No entanto, essa opção estética de ter um desenho mais "cartoonesco" do que nos dois álbuns anteriores da série, acaba por criar uma fratura visual dentro da própria franquia CoBrA. O contraste com o estilo mais realista de Daniel Maia e de Zoran Jovicic é inevitável. Para leitores que seguem a série desde o início, essa dissonância pode criar um certo estranhamento, comprometendo parcialmente a continuidade visual da obra. Note-se que esta diferença não diz respeito à qualidade do trabalho, mas sim à coerência gráfica entre os volumes. 

O trabalho de Osvaldo Medina não é melhor, nem pior do que o de Daniel Maia ou Zoran Jovicic... é diferente. E talvez esta questão se dissipasse caso Osvaldo Medina tivesse sido responsável por um tomo independente, com uma história auto-conclusiva dentro do universo de CoBrA. Aí, o seu estilo distinto poderia brilhar com maior autonomia, sem provocar o tipo de ruturas visuais que se sentem ao mudar de artista a meio de um arco narrativo. Mas como o autor desenhou a segunda parte de um arco narrativo, parece-me que talvez devesse ter havido um menor corte em termos visuais, mesmo admitindo que, não obstante, o contributo artístico de Osvaldo Medina enriqueça o livro e lhe traga um vigor gráfico notável.

Abordando a edição da Ala dos Livros, estamos perante um bom trabalho. O livro apresenta capa dura com revestimento em tecido e uma sobrecapa. No interior, o papel utilizado é brilhante e de boa qualidade e o trabalho de encadernação e impressão é bom. Há um prefácio assinado por Abílio Pires Lousada, Militar Historiador, e, no final do livro, há documentos (com QR Code) que permitem que o leitor possa fazer a ponte para a base verídica e histórica dos eventos retratados no livro. Há ainda um conjunto de fotografias de época e o esboço de duas páginas para Operação Porto, que deverá ser o quarto e último volume da série CoBrA.

Em suma, este novo tomo consolida a importância de CoBrA enquanto projeto editorial de BD que não teme mergulhar nos episódios mais obscuros da nossa história militar contemporânea. Apesar da diferença de estilos entre Osvaldo Medina e os ilustradores dos dois volumes anteriores da série, a obra mantém-se sólida e envolvente, cumprindo o duplo propósito de entreter e informar. O leitor sai da leitura não apenas com uma história tensa e bem construída, mas também com um entendimento mais complexo da realidade portuguesa no final do Estado Novo.


NOTA FINAL (1/10):
8.9



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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CoBrA - Operação Conacri – Tomo 2, de Marco Calhorda e Osvaldo Medina - Ala dos Livros

Ficha técnica
CoBrA - Operação Conacri – Tomo 2
Autores: Marco Calhorda e Osvaldo Medina
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 270 mm
Lançamento: Maio de 2025

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Vem aí a conclusão da BD nacional "CoBrA - Operação Conacri"!



A Ala dos Livros prepara-se para editar a segunda parte de CoBrA - Operação Conacri, com argumento de Marco Calhorda que, desta vez, conta com Osvaldo Medina nas ilustrações.

Embora este seja o terceiro volume da série CoBrA, permitam-me clarificar que o primeiro volume, Operação Goa, tinha uma história autocontida. O segundo volume é que consistiu na primeira parte de Operação Conacri que, agora, com este novo lançamento, fica finalizado.

É ainda esperado um quarto volume de CoBrA mas que, à semelhança de Operação Goa, deverá ser um único volume, numa história fechada nela mesma.
Quer isto dizer que para melhor compreensão deste CoBrA - Operação Conacri - Tomo 2 é recomendável que os leitores também leiam o primeiro tomo. Obviamente - e mesmo sendo mais acessório para a boa compreensão deste Operação Conacri - também recomendo a leitura do primeiro livro da série Operação Goa.

O novo livro deverá chegar às livrarias ainda durante o mês de Maio.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


CoBrA - Operação Conacri – Tomo 2, de Marco Calhorda e Osvaldo Medina
O sentimento criado pelo massacre dos majores exige uma resposta firme. Perante o desenvolvimento desfavorável e o agravamento da situação na Guiné, o general Spínola vê-se obrigado a agir. Apesar dos riscos políticos a nível internacional, confrontado com a perda eminente da guerra da Guiné, Marcello Caetano aprova uma operação militar sem precedentes. Mais uma vez, a agência CoBrA terá um papel essencial, pela mão de Jorge Jardim, na preparação e organização da resposta portuguesa.

Em Novembro de 1970, de forma clandestina e totalmente dissimulada, com o apoio de dissidentes guineenses treinados e apoiados por militares portugueses, é lançado um ataque coordenado a uma capital de um país estrangeiro: Conacri.

“CoBrA – Operação Conacri (Tomo 2)”, recupera os acontecimentos daquela que ficou na história como a maior operação clandestina realizada por forças militares portuguesas: a “Operação Mar Verde”.

Com argumento de Marco Calhorda e desenhos de Osvaldo Medina, a Ala dos Livros continua esta imperdível série de ficção histórica. 
“CoBrA: Operação Goa” foi nomeado como Melhor Obra de BD de Autor Português no Prémio de BD da Amadora 2022, Melhor Ilustração em Obra Nacional no 4º Prémio Bandas Desenhadas 2022 e Melhor Argumento De Autor Português dos Vinhetas D’Ouro 2022.

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Ficha técnica
CoBrA - Operação Conacri – Tomo 2
Autores: Marco Calhorda e Osvaldo Medina
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 270 mm
PVP: 19,90€





sexta-feira, 7 de março de 2025

Análise: Macho-Alfa #3

Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina

Depois de um primeiro volume que trouxe uma visão bastante original sobre aquilo que poderia ser um super-herói à boa maneira portuguesa - e de um segundo volume que, infelizmente, tropeçou um pouco nas ideias acrescentadas ao enredo - Macho-Alfa está de volta para aquele que é o seu terceiro e penúltimo volume desta série da autoria de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina.

Felizmente, é neste terceiro volume que a história se torna mais densa, com o argumento a mergulhar de uma forma muito mais assertiva e profunda na personagem de David, o protagonista. Depois de, no livro anterior, terem sido adicionados alguns ingredientes à trama que, quanto a mim, mais pareceram fillers do que reais adições ao enredo, agora temos um David a mergulhar num drama pessoal mais sério, que levanta pertinentes questões, não só para a personagem, como também para o leitor, que vê em David um espelho de alguns medos e inseguranças universais que todos temos. A profundidade psicológica do protagonista é, pois, explorada de forma mais intensa, permitindo aos leitores uma ligação mais forte com a sua jornada pessoal.​

Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
O tom humorístico mais leve dos livros anteriores, dá então lugar a uma atmosfera mais séria, onde são revelados alguns segredos do passado de David, levando-nos a compreender algumas das  motivações e conflitos internos da personagem. Além disso, é neste livro que ficamos a conhecer o psiquiatra de David que é uma personagem deveras interessante e intrigante com quem o protagonista enceta bons diálogos. Pode até ser esta personagem que dá o conteúdo necessário a toda a série para que esta seja mais eloquente dado que, até ao momento, se apresentava, a meu ver, algo insípida - a ver vamos, quando pudermos ler o quarto e último volume da série, agendado para o final do ano.

Os desenhos de Osvaldo Medina continuam a ser um dos pontos fortes da série. Com um estilo de desenho que remete para os comics americanos, o traço rápido e confiante do autor oferece uma característica expressividade às personagens, captando eficazmente as suas emoções e a intensidade das cenas de ação que, diga-se, neste terceiro volume quase não existem. As cores continuam a não ser especialmente do meu agrado - basta olhar para a arte final a preto e branco, nos extras do livro para desejar que a história fosse a preto e branco - mas reconheço que neste livro contribuem bem para a atmosfera mais sombria deste volume, especialmente nos longos e impactantes diálogos de David com o seu terapeuta.

Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Não são desenhos que tenham a beleza de um Fojo, de um Kong The King ou de um A Fórmula da Felicidade, onde o autor se apresentou em belíssima forma, mas este Macho-Alfa #3 não deixa de nos apresentar um belo conjunto de desenhos, com a eficiência visual própria a que o autor nos tem habituado.

A edição d' A Seita e da Comic Heart mantém-se boa e fiel ao trabalho feito nos dois livros anteriores. O livro apresenta capa dura baça, com um belo papel brilhante no miolo e uma boa impressão e encadernação. No final do livro, volta a haver um dossier de extras com seis páginas onde podemos encontrar esboços de Osvaldo Medina, uma preview de duas páginas do próximo e último volume da série e a demonstração do processo de construção de uma página, desde o esboço cru até às cores finais e legendagem. O livro conta ainda com um prefácio de Nuno Markl.

Em suma, Macho-Alfa #3 é uma adição sólida à série, aprofundando a narrativa e as personagens de maneira significativa. Com um enredo mais sombrio e complexo, este volume destaca-se como, possivelmente, o ponto mais alto da saga até agora, deixando boas notas e uma expectativa mais elevada para uma conclusão que está para breve.


NOTA FINAL (1/10):
7.3



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020




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Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Ficha técnica
Macho-Alfa #3
Autores: Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina
Editora: A Seita e Comic Heart
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 20 x 28 cms
Lançamento: Outubro de 2024

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Análise: Fojo


Fojo, de Osvaldo Medina

Depois de saber que Osvaldo Medina, um dos meus autores portugueses de banda desenhada preferidos, tinha um novo livro a solo, intitulado Fojo, dei pulos de alegria. Foi ainda no Maia BD do ano passado que, na apresentação feita por autor e editor, fiquei logo com um gosto do que poderia ser este novo livro. Sou confesso fã de Osvaldo Medina, especialmente, dos seus trabalhos a solo que, até à data, consistiam apenas em Kong The King, Volume 1 e Volume 2. Portanto, saber que Medina voltaria a lançar uma obra em que assume argumento e ilustração, foi para mim uma bela surpresa, que foi ainda mais aguçada pelo facto de, desta vez, o autor se aventurar na escrita de texto, já que Kong The King, relembro, não possuem diálogos.

Depois de finda a leitura deste Fojo, uma coisa é certa: não só estamos muito provavelmente perante a obra mais madura e conseguida de Osvaldo Medina como, além disso, estamos perante um clássico instantâneo da banda desenhada portuguesa. Daqui a cinco, dez, quinze, vinte, trinta, quarenta, cinquenta, cem anos, Fojo continuará a ser uma obra marcante e emblemática da banda desenhada nacional. E é isso que define um clássico instantâneo.

O ambiente sombrio e opressivo de Fojo é um dos grandes trunfos da obra. Medina transporta o leitor para uma aldeia portuguesa isolada, perdida no tempo e num punhado de crenças e mitos. Se os elementos culturais afastam esta pequena aldeia da suposta modernidade urbana da(s) grande(s) cidade(s), também as condições climatéricas que a pequena localidade enfrenta, com rigorosos e gélidos invernos, onde a neve pinta o solo de brancura, deixam ainda mais isolada esta aldeia do restante Portugal.

E isso é fator determinante para o ambiente que circunda este Fojo, já que toda a inquietação, bem ao jeito de um thriller, e assente em rudes tempestades de neve, em uivos de lobos e na tensão palpável entre os habitantes desta aldeia, cria uma experiência sensorial rica e intensa. Ainda só tinha mergulhado nas primeiras páginas do livro, e já sentia o frio e o suspense a crescer dentro de mim. 

Osvaldo Medina é particularmente feliz na forma como doseia a história, levantando o véu com muito cuidado, de forma a manter viva a curiosidade do leitor. As personagens que vamos encontrando à medida que a leitura avança, são rudes, erodidas pelo peso das condições de vida na aldeia e bem crentes em mitos paranormais e bruxarias de algibeira. Até que o aparecimento de uma jovem assassinada, faz crescer a consternação local. Primeiro, ainda se julga que foram os lobos os responsáveis por aquela violenta morte, mas logo se percebe que a morte tem mão humana. Mas quem será, então, o ou a responsável que se mascara para cometer os crimes, protegendo a sua identidade dos demais? Os ânimos vão-se acalentando apesar do frio que rodeia a aldeia.

E é então que Osvaldo Medina vai mais longe, transportando o leitor para um outro tempo e uma outra época, a da Primeira Guerra Mundial, onde procura dar-nos a conhecer as causas que levaram a que esta pessoa mascarada voltasse à aldeia com sede de vingança. Mais não digo, para não estragar o prazer da leitura a ninguém. Digo apenas que a trama arquitetada por Osvaldo Medina está bem montada, caminhando para um final apoteótico que faz uma analogia direta com um "fojo" que, para quem não sabe, é uma armadilha para lobos. 

A narrativa ganha força ao explorar os recantos mais sombrios da condição humana, revelando traumas, segredos e medos que são universais, mas apresentados com uma autenticidade profundamente enraizada na cultura e nas crenças locais. A aldeia assume-se, pois, como um pano de fundo perfeito para o mistério e para a tensão que dominam a história.

A arte ilustrativa é, sem dúvida, um dos pontos altos de Fojo. Medina utiliza um esquema de cores reduzido – preto, branco e vermelho – para criar um efeito visual arrebatador. O vermelho, em particular, é usado de forma simbólica e impactante, destacando-se em momentos cruciais e acentuando a violência, o medo e a intensidade emocional da narrativa. Cada página é meticulosamente desenhada, com atenção aos detalhes que tornam a aldeia e os seus habitantes "vivos" e convincentes, enquanto o uso de sombras e contrastes reforça o tom sombrio e claustrofóbico da história. O trabalho de Medina deixa-me sempre agradado, sim, mas tenho que frisar que nas suas obras a solo, como Kong the King ou neste Fojo, os seus desenhos parecem feitos com mais inspiração e alma. Adoro-os!


A estreia de Medina com diálogos é outro aspeto a destacar. O texto não é apenas funcional, adiciona profundidade às personagens e ao enredo, revelando as suas motivações e os seus medos mais íntimos. A forma como os diálogos são integrados nas ilustrações demonstra um domínio completo da narrativa gráfica, equilibrando perfeitamente imagem e texto para criar uma história coesa e poderosa.

Em termos de edição, temos o esforço tripartido da Kingpin Books, d' A Seita e Comic Heart, que nos dá um belo trabalho, com o livro a apresentar capa dura baça, bom papel baço no miolo e um bom trabalho ao nível da encadernação, impressão e grafismo. Lamento que não tenham sido adicionadas algumas páginas de extras com esboços do autor, por exemplo, mas tirando esse detalhe, é uma boa edição. Nota ainda - mais que positiva! - para a belíssima ilustração de capa.

Em suma, Fojo é muito mais do que uma história de mistério e suspense; é uma exploração crua e brutal da natureza humana, embalada numa narrativa visual de excelência. Osvaldo Medina, que volta a reafirmar-se como um dos maiores nomes da BD portuguesa, entrega-nos uma obra que é ao mesmo tempo perturbadora e fascinante, capaz de capturar a atenção do leitor do início ao fim. Trata-se de um marco significativo na banda desenhada portuguesa e uma leitura indispensável para os amantes do género. Do autor, espero apenas uma coisa: que nos continue a dar mais obras a solo deste gabarito!


NOTA FINAL (1/10):
9.3




Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
Fojo
Autor: Osvaldo Medina
Editoras: A Seita, Comic Heart e Kingpin Books
Legendagem e design: Mário Freitas
Páginas: 144, a preto e branco e vermelho
Encadernação: Capa dura
Formato: 19,50 x 27 cm
Lançamento: Novembro de 2024

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Análise: O Punhal


O Punhal, de Nuno Duarte, João Lemos, Osvaldo Medina, Rita Alfaiate e André Caetano

O único lançamento que este ano a Kingpin Books fez no Amadora BD foi este O Punhal, um álbum que marca o regresso de Nuno Duarte ao lançamento de banda desenhada. E, desta feita, o reverenciado autor faz-se acompanhar por um pequeno "exército" de confirmados talentos nacionais nas ilustrações: João Lemos, Osvaldo Medina, Rita Alfaiate e André Caetano.

Na prática, o livro é dividido por quatro histórias, cada uma delas ilustrada pelos autores supramencionados, que têm em comum o facto de orbitarem em torno de um objeto físico: o punhal que dá nome à obra.

Cada uma das histórias ocorre em tempos diferentes: em 1916, período em que o mundo estava (mais uma vez) dividido ao meio devido à Primeira Guerra Mundial; em 1974, em vésperas do 25 de Abril num Portugal ainda controlado pela PIDE; em 2001, no exato momento em que as Torres Gémeas, em Manhattan, foram alvo de um ataque terrorista; e em 2222, num futuro relativamente longínquo onde as (des)humanas relações entre os intervenientes são assunto principal. 

Em cada uma destas histórias, constituídas escrupulosamente por 14 pranchas, o mesmo punhal marca presença. Gosto desta ideia de unir várias histórias, no tempo e no espaço, através de um artefacto e lembro-me de ter sido algo que, recentemente, pude especialmente apreciar no livro Go West - Young Man, de Tiburce Oger e vários outros autores, que a Gradiva publicou por cá há pouco mais de um ano, e que também tinha em comum a todas as suas histórias o facto de todas elas serem atravessadas por um objeto físico. Nesse caso, era um relógio de bolso.

Neste O Punhal, devo dizer que, infelizmente, não me parece que Nuno Duarte tenha conseguido explanar todo o potencial que este interessante conector narrativo tinha à partida. Na verdade, a presença do artefacto punhal acaba por parecer mais um engodo, uma interligação forçada entre histórias, do que um real elemento fulcral para o desenvolvimento da obra no seu todo. E é apenas por isso que, de algum modo, este livro fica um pouco aquém de outros trabalhos de Nuno Duarte, como O Baile e, especialmente, A Fórmula da Felicidade, dos quais sou confesso admirador.

Mas não me entendam mal. As histórias e temas trazidos por Nuno Duarte parecem-me interessantes e dignos de nota. A "cola" que os une é que me parece menos espessa, menos credível. E se o livro fosse apresentado como uma simples antologia, um livro de contos de Nuno Duarte, provavelmente não só eu não apontaria esta fraqueza à obra, como ainda enalteceria o facto da quarta história fazer uma ponte direta aos eventos vividos na primeira história. Sim, aí sim, há uma ligação direta entre histórias. Na primeira e na quarta. 

Lá pelo meio, há duas histórias que me parecem avulsas e desconectadas do suposto tema central mas que, ainda assim, são as mais interessantes do álbum. Falo da história ilustrada por Osvaldo Medina, que nos remete para o ambiente pesado e assustador de uma sala de interrogatório da PIDE, tema sempre atual e que Nuno Duarte resgata muito bem; e da história ilustrada por Rita Alfaiate - de longe, a melhor das quatro - onde, através de um estilo slice of life, o argumentista nos pinta um belo retrato de uma época mais contemporânea - embora ocorrida há mais de 20 anos(!) -  quando, em 2001, o mundo se chocou perante o ataque ao centro nevrálgico financeiro dos Estados Unidos - e do mundo ocidental - que levou à queda das Torres Gémeas de Nova Iorque e à morte de alguns milhares de pessoas. E tal como as torres foram abaixo, também a relação das duas protagonistas desta história parece estar a sucumbir. O paralelismo encetado por Nuno Duarte é muito bem conseguido.

A primeira história assume uma aura mais fantástica e a última, a que é ambientada no futuro, é de ficção científica que, à boa maneira do género, levanta boas questões sob a forma de uma distopia. A escrita de Nuno Duarte é, como habitual, bastante boa e inspirada.

Em termos de ilustração, cada um dos autores nos oferece um bom trabalho. Osvaldo Medina dificilmente entrega um trabalho mal concebido em termos de desenho; João Lemos dá-nos belas e familiares personagens, cuja expressividade cria empatia com o leitor; e André Caetano, num registo de traço "mais cartoonesco" premeia-nos com pranchas muito dinâmicas na planificação e com um desenho que muito me agrada. 

Se os três autores que refiro são bons e competentes, é Rita Alfaiate, com o seu traço fino e inspirado, que utiliza muitas e belas tramas, quem, na minha opinião, mais brilha neste O Punhal. Acho que o leitor português de banda desenhada já não tem dúvidas quanto a isto mas, de facto, Rita Alfaiate é um autêntico tesouro da 9ª Arte em Portugal. Quando penso que a autora já não me pode impressionar mais pela positiva, sou confrontado com algo novo que me surpreende e me faz ser um verdadeiro fã do seu trabalho. E acho até que, depois de outras duas curtas feitas por Nuno Duarte e Rita Alfaiate, igualmente muito boas, a pergunta sacramental que se impõe é apenas esta: quando é que teremos uma história longa da autoria de Nuno Duarte e Rita Alfaiate cuja criação conjunta em banda desenhada é tão boa e tem tanto potencial?

Todas as histórias são a preto e branco, com os autores a explanarem as potencialidades que essa opção dá. Neste tema, considero que a primeira história, aquela que é ilustrada por João Lemos, não funciona tão bem como as demais, já que a sensação que dá é que a mesma foi feita a cores e depois impressa a preto e branco, com demasiados tons a cinza que retiram algumas potencialidades dos bons desenhos do autor, tornando-os escuros em demasia. Tirando isso, Osvaldo Medina, André Caetano e Rita Alfaiate revelam-se muito à vontade com o preto e branco.

A edição da Kingpin é bastante boa, com o livro a apresentar capa dura baça e bom papel baço no miolo. A impressão, encadernação e design do livro também são igualmente bons, bem ao jeito das edições de Mário Freitas que, para além do design, também assegura a boa legendagem da obra.

Em suma, O Punhal prima especialmente por marcar o regresso de Nuno Duarte ao lançamento de nova banda desenhada e por este trazer consigo uma quase mão cheia de ilustradores. Fica um pouco aquém do enorme potencial que a premissa de usar um punhal como elemento agregador das quatro histórias teria, mas é, ainda assim, um interessante livro de BD que vale a pena conhecer.


NOTA FINAL (1/10):
7.4



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Ficha técnica
O Punhal
Autores: Nuno Duarte, João Lemos, Osvaldo Medina, Rita Alfaiate e André Caetano
Legendagem e design: Mário Freitas
Editora: Kingpin Books
Páginas: 64, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 19,5 x 27 cm
Lançamento: Outubro de 2024