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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Comparativo: "Mattéo" pela Ala dos Livros e pela Vitamina BD


Hoje trago-vos o comparativo entre o primeiro volume da série Mattéo, de Jean-Pierre Gibrat, recentemente editado pela Ala dos Livros, e a primeira edição portuguesa da obra, de 2009, pela editora Vitamina BD que, infelizmente, acabou por deixar de existir.

E devo ser-vos franco: não existem substanciais diferenças entre uma e outra edição.

E isso prova que, de facto, o trabalho que a Vitamina BD tinha feito com esta obra era de excelente qualidade. E, claro, de excelente qualidade também é o trabalho que a Ala dos Livros coloca na suas edições. Mas isso já não é, creio, novidade para ninguém.

Olhando então para os dois livros, lado a lado, os mesmos apresentam o mesmo formato. Bem, o da Vitamina BD parece ser uns milímetros (um ou dois milímetros, se tanto) maior do que o da Ala dos Livros.

Ambas as edições apesentam a mesma ilustração de capa, embora, se olharmos com atenção, o corte da ilustração, em termos de margens, é ligeiramente diferente entre os dois livros.

A versão da Ala dos Livros conta com detalhes a verniz, na capa e na contracapa, enquanto que a versão da Vitamina BD não tem este pequeno detalhe de requinte. A Vitamina BD optou por colocar o logótipo da editora na capa, enquanto que a Ala dos Livros o colocou na contracapa.



Em termos de lombada, os livros são praticamente iguais, excetuando o facto do sentido do texto ser oposto. Para quem está a fazer a coleção pela Ala dos Livros, mesmo que até já tenha a edição da Vitamina BD, talvez este seja um detalhe importante e positivo.




Detetei que o nome do autor na lombada da Ala dos Livros está ligeiramente desfocado. Não é algo que chame muito a atenção, mas é um pequeno erro, provavelmente de impressão - ou de preparação do ficheiro para impressão.




As próprias guardas dos dois livros são praticamente iguais, tal como também o são as folhas de rosto de cada um dos livros.




Quanto à qualidade da impressão, os dois livros apresentam cores praticamente iguais, não sendo óbvias a olho nu as diferenças entre cor. 

Talvez a edição da Ala dos Livros tenha os níveis de cor e luz mais bem equilibrados do que a edição da Vitamina BD. Mas nada que seja sobejamente visível.




O que é diferente é, para além da tradução da obra, o tipo de letra utilizado nos balões e legendas.

Ambas as fonts são bem escolhidas, se bem que até sou capaz de preferir - mas talvez por uma questão de afinidade à primeira edição que tive da obra - a font utilizada no livro da Vitamina BD. 

E isso é especialmente verificável na carta. Ora vejam:




Seja como for, compreendo que a Ala dos Livros esteja a uniformizar, como é óbvio, as fonts utilizadas em todos os livros, tendo em conta que já publicou toda a série, excetuando o segundo tomo que há de chegar até nós brevemente.




Mesmo em termos de extras, nenhum dos livros os contém, pelo que, também neste cômputo, as duas edições são iguais.

Em suma, não há nesta nova edição do primeiro tomo de Mattéo, por parte da Ala dos Livros, grandes diferenças, para melhor ou para pior, face ao trabalho que já havia sido feito com a edição da Vitamina BD. Portanto, a questão mais importante a reter é que este primeiro volume, que estava completamente esgotado, volta a estar disponível no mercado nacional. Essa é a boa notícia! 

Foram bastantes as pessoas que me escreveram a queixarem-se de que não podiam encontrar os dois primeiros volumes da série, o que era dissuasor para investirem em Mattéo. Agora que este primeiro volume da série volta a ser publicado - e tendo noção que já não faltará muito até que o segundo volume também o seja - ainda há menos razões para que os leitores de BD de qualidade superior não apostem neste trabalho de Gibrat, pois é fantástico é totalmente aconselhável.


sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Análise: Cañari #1 – As Lágrimas d’Ouro



Cañari #1 – As Lágrimas d’Ouro, de Didier Crisse e Carlos Meglia

Este é mais um dos livros publicados pela extinta editora Vitamina BD e que se podem encontrar por aí – em mercados de livros, feiras do livro de rua, ou nos sites PromoBooks ou MBooks – a preços a rondarem os 5,00€.

Mas, infelizmente, há um duplo sentido de oportunidade perdida nesta série Cañari, que até aparentava ter algumas ideias interessantes. Em primeiro lugar, e isto é algo que aconteceu em várias séries em que a Vitamina BD pegou, com a extinção da editora, os leitores ficaram "agarrados" com o primeiro volume da série, não tendo sido publicado o álbum seguinte. Em segundo lugar, com o falecimento do autor Carlos Meglia em 2008, a coleção original manteve-se incompleta pois só foram publicados dois álbuns. Desta vez, os leitores portugueses ficaram apenas com um dos dois livros publicados em português, mas convenhamos que, mesmo que o segundo livro tivesse sido publicado por cá, a história ficaria incompleta à mesma.


Portanto, admito que pode não ser muito aliciante a leitura deste livro sabendo, de antemão, que ficaremos a meio da história. Ainda assim, não resisti ao preço, à capa fantástica desta obra e à arte do autor Carlos Meglia, onde a expressividade das suas personagens, ao estilo da escola Disney, me convenceu.

Esta é uma história de aventura fantástica que nos remete para o México ancestral - onde a cultura maya marca presença - do tempo que antecedeu as invasões dos conquistadores europeus e, ao mesmo tempo, nos transporta, em simultâneo para o século XXI. Por outras palavras, é uma história que se desenrola em dois tempos distintos.

E até começa no tempo presente quando Wayne, um jovem surfista de Los Angeles que se faz acompanhar pelos seus amigos, viaja para a praia de Tulum, no México, após ter recebido um postal deste local de alguém que nem sequer o assinou. Intrigado, Wayne passou então a visitar várias vezes este local e está de volta a este sítio especial. E mesmo não havendo ondas para surfar, acredita que um dia haverá uma grande onda que ele não quer deixar de aproveitar, em cima da sua prancha de surf. 


E depois a ação transporta-nos para um tempo longínquo(?) do México em que conhecemos a protagonista desta história, de seu nome Cañari. Esta bela jovem tem 3 irmãos mais novos e é tarefa dela tomar conta deles. Mas quando o irmão mais pequeno, Kaotil, desaparece, o seu pai fica fulo e obriga-a a encontrá-lo antes do Dia de IX, o dia em que os homens encontram os seus deuses. E é a partir daí que Cañari, acompanhada pelos outros dois irmãos, parte para a selva em busca do seu irmão perdido.

A partir daí sucedem-se vários eventos, que nos fazem colocar mais questões sobre a trama, enquanto se vão juntando a Cañari alguns personagens curiosos. 

O problema da história é que me parece não saber muito bem para onde quer ir. É legítimo que tenhamos em conta que o autor Crisse estaria neste primeiro tomo a apresentar personagens e a trama sem nos dar muitos desenvolvimentos que viriam, certamente, nos volumes seguintes. Mesmo assim, não achei que a narrativa que nos é oferecida prendesse o leitor de forma suficiente. As bases são lançadas mas parcamente aproveitadas por Crisse para nos envolver no argumento por si criado. O tom é claramente juvenil e, olhando por esse prisma, talvez se compreenda que o autor não tenha aprofundado muito certas questões que poderiam tornar a leitura mais aliciante.


A arte de Meglia neste Cañari tem coisas muito interessantes e outras que, quanto a mim, não funcionam tão bem. O seu estilo é em muito inspirado nas personagens da Disney com a personagem de Cañari a fazer-me lembrar uma mistura feliz entre as personagens de Pocahontas e de Rapunzel, por exemplo. Para mim, que tanto gosto da estética e da “escola-disney” isto são boas notícias. Além de que a expressividade das personagens – podendo até ser exagerada para muitos leitores, calculo – é uma das mais valias na arte de Meglia. Torna-se quase impossível não criarmos facilmente um laço com estas bonitas e bem desenhadas personagens. 

Mas depois, em termos de cenários, o trabalho do autor já me deixou com alguns sentimentos mistos. Tendo uma abordagem mais em estilo de aguarela, parece-me que não encaixa tão bem assim nas personagens que são, todas elas, muito estilizadas e de estilo mais moderno. Ou seja, parece que se juntam dois estilos de ilustração que não encaixam tão bem assim um no outro. Por um lado, temos o estilo das personagens, que é mais computorizado e moderno e, por outro lado, temos, depois, o estilo utilizado nos cenários onde as cores são mais arrastadas, criando muitas vezes a ilusão de imagem desfocada. Não fiquei muito convencido.


Em termos de cores, é um álbum bonito, com uma paleta luxuriante que consegue encher o olho. Mesmo assim, pareceu-me que talvez o autor tenha abusado em demasia da componente digital, tornando a cor em algo “sintético” demais para os meus gostos. Destaque ainda para o facto da linha do autor não ser em tom preto, como é mais normal, mas sim em tom acastanhado. Numas vezes funciona bem mas noutros casos, especialmente quando os fundos ou luzes são amarelos, laranjas, vermelhos ou castanhos, não funciona tão bem e torna-se algo artificial.

Quanto à edição da Vitamina BD, é em formato franco-belga, com capa dura, papel de boa qualidade e boa qualidade de impressão. A qualidade da edição é boa porque já é um livro com muitos anos a circular de feira em feira - imagino! - e, ainda assim, mantém-se em "boa forma física".

Em suma, uma arte bastante interessante, pródiga em oferecer-nos personagens expressivos, com quem nos identificamos, e a temática do México e dos Mayas não chega para considerar este livro espetacular. Ainda assim, é uma leitura interessante, com bons momentos. Pena é que tenha sido mais uma série que não foi finalizada. Oh, esses tempos da edição de bd em Portugal aos quais nenhum de nós quer voltar! Antes poucas séries terminadas do que muitas séries começadas e deixadas a meio. Digo eu!


NOTA FINAL (1/10):
7.0


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Ficha técnica
Cañari #1 – As Lágrimas d’Ouro
Autores: Didier Crisse e Carlos Meglia
Editora: Vitamina BD
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Dezembro de 2006

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Análise: Iguana

Iguana, de Carlos Trillo e Mandrafina - Vitamina BD - Mancha Negra

Iguana, de Carlos Trillo e Mandrafina - Vitamina BD - Mancha Negra

Iguana, de Carlos Trillo e Mandrafina

Iguana é um dos títulos que a extinta editora Vitamina BD, através da sua chancela Mancha Negra, editou quando estávamos no ano de 2002. A obra é da autoria da dupla argentina composta por Carlos Trillo e Domingo Mandrafina, que são igualmente os autores da aclamada série Spaghetti Bros, que a editora Arte de Autor tem vindo a publicar no último ano. Tendo em conta o final da Vitamina BD, esta é mais uma das obras que se encontram a um preço ridículo de 3€! E, por esse preço, esta oferta é irrecusável!

Iguana conta-nos a história da personagem com o mesmo nome da obra que até já tinha aparecido no álbum A Grande Farsa, dos mesmos autores, e que foi publicado em Portugal pela mesma editora. Iguana é um protagonista (ausente), por demais cruel, que, na localidade de La Colonia, é temido por todos, mesmo depois da sua morte! De facto, na primeira vinheta deste livro podemos vislumbrar Iguana a jazer morto, no chão. Mas, mesmo na condição de morto, Iguana parece ter o condão de amedrontar toda a população daquela cidade. 

Iguana, de Carlos Trillo e Mandrafina - Vitamina BD - Mancha Negra

É então que uma bela jornalista americana, Susan Ling, desejosa de vencer o prémio Pulitzer, viaja para La Colonia para investigar a morte de Iguana e tentar reconstituir a sua vida. Para isso, terá que entrevistar um bom número de pessoas que conviveram de perto com o medonho Iguana. E é através desses relatos de personagens secundárias que vamos conhecendo a medonha e perversa personagem de Iguana. Mas, entretanto, a sua influência parece ser tão grande na jornalista que ela mesma acaba enfeitiçada pelo vilão de uma forma estritamente sexual. O seu êxtase sexual já só consegue atingir a apoteose se Iguana estiver na sua mente. Nem que seja através de uma máscara de Iguana na face de outro homem. A sua reportagem é depois tão aclamada que chega – nesta banda desenhada, atente-se – a ser adaptada para o cinema por Steven Spielberg e interpretada por Robert de Niro. Estas duas personagens reais chegam mesmo a fazer um breve aparecimento neste Iguana.

Se a ideia de ter uma história que procura desvendar uma personagem maléfica que, logo na primeira vinheta da primeira página, já se encontra morta me parece bastante interessante, considero todavia, que a história está um pouco “mal-amanhada”, com um enredo que procurando chocar e divertir ao mesmo tempo, acaba por estar demasiado preso a esses dois vetores, não conseguindo ser, no seu âmago, uma história tão marcante e bem conseguida assim.

Iguana, de Carlos Trillo e Mandrafina - Vitamina BD - Mancha Negra

Já a arte de Domingo Mandrafina, a preto e branco, tem o seu estilo próprio, muito em linha com aquilo que muitos dos leitores portugueses já conhecerão com a série Spahguetti Bros. O domínio das expressões faciais e da própria conceção das personagens e dos cenários é espantosa, pese embora o formato reduzido do livro não nos permita apreciar tão bem a sua arte como se consegue, por exemplo, na tal série, já mencionada, Spaghetti Bros, que tem um maior formato. 

Mesmo assim, em termos ilustrativos, Iguana é muito bom. A utilização das sombras e do espaço negativo, os enquadramentos dos planos utilizados, as soluções narrativas encontradas por Mandrafina... todas essas coisas revelam uma enorme qualidade que convém sublinhar. Amiúde, também são utilizadas algumas imagens em registo “fotografia”. Não gostei tanto pois pareceram-me não colar tão bem na arte do autor que, honestamente, vale mais do que essas fotografias que foram utilizadas. Mas, felizmente, é um artifício poucas vezes utilizado ao longo do livro.

Iguana, de Carlos Trillo e Mandrafina - Vitamina BD - Mancha Negra

Um destaque para a capa deste livro que considero bastante fraca. Nada tenho contra mamas – pelo contrário, na verdade – mas a questão aqui não é essa. Do ponto de vista de design de capa, com a imagem em dégradé no canto inferior direito e a forma como os elementos estão organizados, mesmo tendo em conta que o álbum é de 2002, é uma capa bastante fraca. Um bom exemplo de como não deve ser uma capa de banda desenhada. Não obstante, acho que deve ser dada uma nota positiva para o facto da edição portuguesa apresentar Susan Ling em topless. Todas as edições que encontrei pela internet fora apresentam a personagem em camisa de noite na capa. Encontrei até uma edição de Iguana, pela própria Vitamina BD nessa tal camisa de noite pelo que, calculo, houve duas edições portuguesas diferentes. No meu caso, gosto quando as editoras portuguesas não tentam ser politicamente corretas. Bem feito, Vitamina BD.

A edição é em capa mole com papel de qualidade decente. Penso que a obra mereceria uma edição mais cuidada por parte da editora. Mas os tempos eram outros, sem dúvida e hoje em dia, parece que todos nós estamos mal habituados relativamente às espetaculares edições que, agora, são lançadas em Portugal.

Em conclusão, Iguana é uma obra muito interessante, com um tema bastante chocante e pecaminoso, dos autores argentinos Trillo e Mandrafina. A arte deste último continua maravilhosa embora o argumento de Trillo nesta obra concreta pudesse ter sido mais bem trabalhado. Ainda assim, e tendo em conta que este livro ainda é facilmente encontrado pelo preço ridículo de 3,00€(!), a leitura deste Iguana reveste-se de obrigatoriedade.


NOTA FINAL (1/10):
7.8


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Iguana, de Carlos Trillo e Mandrafina - Vitamina BD - Mancha Negra

Ficha técnica
Iguana
Autores: Trillo e Mandrafina
Editora: Vitamina BD (Chancela Mancha Negra)
Páginas: 84, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Junho de 2002

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Análise: O Local

O Local, de Gipi - Vitamina BD 100 Sentidos


O Local, de Gipi - Vitamina BD 100 Sentidos
O Local, de Gipi

Por vezes encontram-se pequenas pérolas perdidas no meio de livros velhos. Este livro de que vos falo hoje, foi encontrado por mim numa daquelas pequenas "feiras de livros" que costumam ser realizadas dentro de alguns centros comerciais e/ou junto a estações de comboios. Foi numa dessas feiras que encontrei este O Local, do autor italiano Gipi, a um preço ridículo de 3€! Sim, leram bem. 3€.

Tratando-se de uma obra lançada em 2007 pela 100 Sentidos, uma chancela da antiga editora Vitamina BD, não me espanta que se encontre a um preço tão irrisório. Até porque, provavelmente, interessa aos vendedores, que ainda têm stock desta obra, escoá-la da forma que lhes for possível. Porque, afinal de contas, vender barato é melhor do que simplesmente não vender. E é por isso que o preço é apenas de 3€. Antes de avançar na análise, permitam-me então dizer: se virem este livro à venda por 3€, não hesitem nem um segundo. Comprem-no sem pensarem duas vezes!

Agora, olhando mais para a obra e menos para o produto, há que dizer que O Local é uma obra muito interessante, de estilo slice of life, que é caracterizada por ter uma arte subtil e bonitas aguarelas que lhe dão cor e alma.

O enredo navega à volta de quatro adolescentes que formam entre si uma banda de rock. Sendo ainda bastante jovens, ficam radiantes quando o pai de um deles, lhes empresta uma garagem – O Local - para aí poderem tocar e desenvolver as suas músicas. Cada um dos jovens tem os seus próprios problemas e a sua personalidade vincada representando, todos eles, claros exemplos daquilo que também nós, leitores, já fomos na nossa adolescência. Trata-se, pois, de uma história do género coming of age, onde nos é dada uma parte da passagem para a vida adulta destes quatro jovens.

O Local, de Gipi - Vitamina BD 100 Sentidos
Se o início do livro é pautado por alguns pequenos episódios avulsos que nos vão mostrando a personalidade e background de cada um dos quatro jovens, há depois uma ocorrência que implica bastante as personagens. Essa ocorrência surge depois de um dos amplificadores se avariar e ser necessário encontrar equipamento substituto para que a banda possa continuar a tocar. Os quatro rapazes decidem então assaltar uma outra sala de ensaio. Naturalmente, as coisas acabam por não correr da forma que estes adolescentes gostariam que acontecesse. E mais não conto.

Esta não é uma história que encerre em si mesma uma grande conclusão e, por esse motivo, alguns poderão achar que o livro "sabe a pouco" e poderia tecer (mais) reflexões (mais) concretas. No entanto, e sendo do estilo slice of life, o que importa aqui é um breve vislumbre àquilo que é ser jovem e, particularmente, pertencer a uma banda de garagem.

Devo dizer que, no meu caso, e tendo em conta a minha ligação a bandas de rock desde a minha adolescência, este é um livro que me remeteu totalmente para esses tempos de juventude em que, juntamente com os meus amigos e bandmates, ficava fechado no estúdio durante uma manhã ou uma tarde a tentar fazer músicas.

Por esse motivo, acaba por ser um livro onde pareço visualizar os meus tempos de músico de forma auto-biográfica. E não serei caso único. Todos aqueles que já se sentaram num estúdio para tocar música – ou até mesmo aqueles que, não o fazendo, sonharam fazê-lo – se reverão em toda a imagética que o autor italiano Gipi nos oferece nesta obra. A emoção, a abnegação, a dor, a energia, o suor e o cheiro que emana das paredes de uma garagem que é utilizada como sala de ensaio de uma banda de rock, está aqui brilhantemente retratada. Olhamos para Giuliano (o guitarrista), Stefano (o vocalista), Alex (o baterista) e Alberto (o baixista) e parecemos rever-nos a nós e àqueles que nos acompanharam – ou ainda acompanham – nos tempos de bandas de garagem.

O Local, de Gipi - Vitamina BD 100 Sentidos
E Gipi ilustra maravilhosamente esses episódios, reproduzindo com talento e olho atento esses momentos e essas poses de banda de rock. As imagens que ficam na memória daqueles que já pisaram uma sala de ensaio de uma banda. Se Gipi não fez, ele próprio, parte de uma banda de garagem, há-de ter-se documentado muito bem para conseguir ilustrar, de uma forma tão verossímil, estes momentos.

O seu traço é bastante estilizado, nervoso e rabiscado, ganhando candura, através da forma delicada como as cores são colocadas nas ilustrações, com o recurso às aguarelas. Se é verdade que as expressões faciais das personagens por vezes parecem ser desenhadas de forma demasiado linear, não menos verdade é o facto de o autor italiano saber dotar as mesmas personagens de personalidade própria em termos gráficos.

A história é simples e tem uma cadência algo lenta. Mas isso oferece, acima de tudo, a possibilidade de mergulhar, por instantes, naquilo que paira nas cabeças de quatro jovens que utilizam a música como escape criativo para as suas vidas, enquanto fomentam e fortalecem uma amizade à margem da própria música. A tensão vai aumentando à medida que acompanhamos a narrativa mesmo que, como já referi, depois não haja uma sensação de término ou de resolução da história. Mas quem disse que a adolescência é um período da vida que fica resolvido? Quantos não são os adultos ainda a tentarem resolver certos acontecimentos que continuam em aberto nas suas vidas, incluindo algumas vivências da adolescência? Fica a questão.

O Local, de Gipi - Vitamina BD 100 Sentidos
A edição da Vitamina BD agradou-me bastante. Embora o livro tenha capa mole, esta apresenta uma textura granulada, agradável ao toque, que muito apreciei. O papel também apresenta boa gramagem, bem como a impressão tem boa qualidade.

Acho apenas que o título da obra não é muito bem conseguido. Questa è la stanza ("Esta é a Sala") é o título em italiano. Nas edições francesa e espanhola a obra foi editada como Le Local e El Local, respetivamente, e, assim sendo, compreende-se que o título para português O Local seja coerente. No entanto, a versão em inglês tem o título de Garage Band que, a meu ver, faz um muito melhor serviço em conseguir vender a ideia do livro, do que algo tão genérico como O Local. Um título destes não diz nada sobre a obra. E Garage Band ou "Banda de Garagem" funcionariam muito melhor. Se calhar um título como esse não me tinha feito demorar 14 anos a encontrar esta excelente obra. Se calhar.

Em conclusão, termino como comecei. Por vezes, encontram-se pequenas pérolas perdidas no meio de livros velhos. O Local é uma dessas pérolas. Uma história simples e introspetiva sobre ser-se jovem e ter-se um grupo de amigos com os quais se forma uma banda de rock. E tudo aquilo que se deixa para trás quando se toca música entre amigos. Uma fantástica surpresa. E pelo preço ridiculamente barato com que (ainda) se encontra esta obra, é absolutamente obrigatório conhecer.


NOTA FINAL (1/10):
8.9


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Ficha técnica
O Local
Autor: Gipi
Editora: Vitamina BD (100 Sentidos)
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Setembro de 2007

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Análise: Bird (Série Completa)

Análise: Bird, de Carlos Trillo e Juan Bobillo - Vitamina BD


Análise: Bird, de Carlos Trillo e Juan Bobillo - Vitamina BD
Bird, de Carlos Trillo e Juan Bobillo

Bird é uma banda desenhada em três tomos – A Tatuagem, A Máscara e A Cara -, escrita e ilustrada, respetivamente, pelos argentinos Carlos Trillo e Juan Bobillo, e que em Portugal foi integralmente editada pela extinta editora Vitamina BD.

Ao contrário de outras séries desta editora que, infelizmente, foram descontinuadas com o fecho da mesma, deixando os leitores portugueses sem um final para as séries que estavam a ler, esta série Bird foi publicada integralmente. O que é uma boa notícia. E outra boa notícia é que esta é uma série que se encontra facilmente nos mercados de bd em Portugal, com um preço fantástico de 3€ por volume. E 9€ pela série toda, parece uma proposta muito recomendável.

Bird é um thriller carregado de traições, personagens malévolas, incesto, violações, prisão, assassinatos, erotismo, drogas, amor, revolta, farmacêuticas sem escrúpulos, nudez, vício, moda, BDSM e vingança. E ainda que tudo isto seja verdade, é uma banda desenhada que apresenta uma dicotomia interessante: é que, se por um lado, a história é negra e pesada, por outro lado, a arte que nos é dada por Bobillo, é limpa, com cores suaves e uma luz bem harmoniosa que parece atenuar o carácter maduro da série. E esta mistura, presumivelmente inesperada para muitos, até funciona muito bem, diga-se!

Análise: Bird, de Carlos Trillo e Juan Bobillo - Vitamina BD
A série conta-nos a história de Jobeth, a única herdeira de uma grande fortuna que acaba encarcerada num hospital psiquiátrico, onde foi internada contra sua vontade, pelo seu irmão, de forma a que este pudesse reclamar a fortuna de Jobeth para si mesmo. Entretanto, a protagonista consegue fugir da instituição psiquiátrica, onde sofria violência física e sexual, enquanto que era fortemente medicada e, sabendo-se procurada pelo irmão, passa a assumir uma nova identidade. Agora, em Nova Iorque, Jobeth começa a utilizar o nome de Bird, muda o aspeto visual, rapa o cabelo, tatua o corpo todo e acaba por se tornar numa super-modelo, carregada de sucesso. Ninguém sabe do real passado de Bird e ninguém a consegue associar a Jobeth. 

O primeiro livro é o melhor dos três e abre muito bem a história, apresentando-nos a narrativa de trás para a frente, para percebermos quais foram os eventos que levaram à primeira página, do primeiro livro. Bem conseguido, bem ritmado e com uma história que, mesmo podendo ser algo rebuscada por vezes, consegue ter uma boa unidade e ser original e cativante. O leitor vê-se imbuindo na história e procura a todo o custo saber o que se terá passado.

Análise: Bird, de Carlos Trillo e Juan Bobillo - Vitamina BD
No segundo volume, há uma personagem importante que morre inesperadamente e aparecem mais duas ou três novas personagens que permitem aos autores mergulhar bem na trama. É também neste volume que começa a vingança da protagonista face àqueles que a atormentaram no passado. Essa sede de vingança de Jobeth continua no terceiro e último volume. A protagonista é perspicaz e tem um plano concreto para encetar a sua vingança, mas aqueles que ela persegue também a perseguem a ela, o que causa um "jogo do rato e do gato" interessante. A história mantém-se apelativa nos tomos 2 e 3, mas não tanto como no primeiro volume. Cai um pouco de qualidade – ou de imprevisibilidade narrativa - embora a vontade do leitor em conhecer a história até ao fim se mantenha inalterada. O final da série pareceu-me um pouco apressado também, de forma a caber nas 46 páginas do volume. Julgo que o último volume deveria ter tido mais páginas para que o final pudesse ser mais bem explorado pelos autores.

Há depois uma componente metafísica com o surgimento de um “espírito iluminado” que vai aparecendo a Bird. Se uma história tão mundana, do mundo real, aparentemente não precisava da introdução deste espírito do fogo, a verdade é que Trillo soube introduzir esta vertente mais intangível da história, de uma forma suave, levando o leitor a concluir que este tal espírito até pode muito bem ser a consciência da protagonista que, relembro, está viciada em medicamentos e, portanto, pode ter algumas visões, a tentarem comunicar-lhe o que fazer. 

Análise: Bird, de Carlos Trillo e Juan Bobillo - Vitamina BD
A nudez é uma constante neste livro. Existem algumas cenas de sexo, mas não diria que sejam cenas muito gráficas. Dão apenas uma conotação erótica à história. Não me dei ao trabalho de contar mas é provável que Jobeth, ou Bird, apareça nestes livros tantas vezes vestida como aparece em nua. Nada disso é de criticar pois Bobillo desenha de forma muito graciosa o corpo feminino. Não se trata de um estilo de ilustração muito provocador, pois os corpos femininos que aparecem são todos eles muito magros e com formas muito retilíneas – excetuando, claro, a personagem de Renata Lennox, que tem formas grandes e voluptuosas, que fazem lembrar as mulheres desenhadas pelo autor português Luís Louro. Contudo, e tendo em conta que a história orbita à volta do universo da moda - onde as mulheres são descaradamente magras e com poucas formas - parece-me que foi uma decisão lógica e com sentido, por parte dos autores.

A arte de Bobillo é talvez o que mais salta à vista nesta série. É de extrema qualidade, sendo pintada à mão, e tem uma vertente bastante artística, com as aguarelas a darem uma componente clássica e extremamente madura à obra. É verdade que há algumas vinhetas onde o trabalho parece ter sido feito com menos detalhe do que noutras, que são muito impressionantes pelo pormenor dos desenhos e pela destreza técnica do autor na aplicação da cor. No último volume há uma certa mudança na arte do autor que começa a apresentar um traço mais esbatido e muitas vezes invisível, onde as aguarelas ainda assumem maior destaque do que o traço desenhado. Embora visualmente (também) seja interessante, preferi a opção dos dois primeiros volumes e considero que a mudança, não brusca mas facilmente visível no terceiro volume, tira alguma da fluidez e unidade ilustrativa à obra. Mas, seja como for, no geral, a arte do Bobillo é de alto nível e talvez o ponto mais alto nesta obra, não desfazendo o argumento que também é interessante.

Análise: Bird, de Carlos Trillo e Juan Bobillo - Vitamina BD
Há uma coisa negativa que, ainda assim, tenho que referir quando olho para a edição destes livros. O papel tem qualidade, a edição é em capa dura e a impressão é de qualidade. Isso está tudo bem. No entanto, olhando para o design do produto, para a forma como o “objeto livro” foi preparado, tenho que dizer que isto é um claro exemplo de "como não fazer um livro". Também é certo que, quando o primeiro álbum desta série foi lançado, estávamos em 2001 e isso talvez justifique que, nesses tempos, o design da capa de um livro de bd não fosse tão relevante para autores, editores e público. Mesmo assim, sempre existiram capas bem feitas no passado e portanto, chega-me a surpreender como as capas destes livros possam ser tão más. Desde a fonte escolhida para o nome dos autores, da série e dos volumes e a forma como esses elementos estão colocados na capa, tudo está feito com uma noção de estética miserável. O primeiro tomo é "mauzinho", o segundo tomo apresenta uma capa que considero interessante – talvez pela boa ilustração de capa do autor – e o terceiro tomo dá-nos uma das piores capas de um livro de banda desenhada que já vi. A ilustração está rabiscada, pouco percetível, as cores estão mal escolhidas. Parece-me francamente má e acho incompreensível que um ilustrador que tem tantos desenhos bonitos dentro destes livros, tenha optado por criar uma ilustração para a capa do terceiro tomo tão desinspirada. Quando numa loja segurava estes livros nas mãos, lembro-me de achar: “caramba, que capas tão más.” Felizmente, folheei o livro e aí pude ver a arte do autor, que me pareceu interessante, ao contrário das péssimas capas, e que lá me convenceu a adquirir a obra. Não me canso de dizer: as capas também vendem livros de bd. Se a culpa disto é maioritariamente dos autores, acredito que as editoras portuguesas, sempre que possam, devem tentar negociar/combinar com os autores e/ou com as editoras detentoras dos direitos de publicação, quais as formas de tornarem os “objetos livros” mais bonitos e apelativos. Assim, aqui a minha crítica não é só para estes livros - que já foram lançados quase há 20 anos e, portanto, merecem que eu lhes dê um certo desconto - mas sim para toda a publicação de banda desenhada despreocupada com a apresentação da melhor capa possível.

Em conclusão, esta série Bird, pode não ser uma banda desenhada perfeita mas é uma proposta bastante interessante por ser um thriller com algumas boas ideias e por ainda se encontrar nas livrarias e mercados de bd de Portugal, com um preço tão simpático. 


NOTA FINAL (1/10): 
8.5


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Bird 1 – A Tatuagem
Fichas Técnicas
Bird 1 – A Tatuagem
Autores: Carlos Trillo e Juan Bobillo
Editora: Vitamina BD
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Junho de 2001

Bird 2 – A Máscara
Bird 2 – A Máscara
Autores: Carlos Trillo e Juan Bobillo
Editora: Vitamina BD
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Outubro de 2002

Bird 3 – A Cara
Bird 3 – A Cara
Autores: Carlos Trillo e Juan Bobillo
Editora: Vitamina BD
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Abril de 2005

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Análise: Série Sky Doll




Sky Doll é uma série de banda desenhada que, até à data, tem 4 tomos no arco principal da sua história, e que, em Portugal, viu os seus primeiros três volumes a serem publicados pela extinta editora Vitamina BD. O quarto volume, Sudra, foi publicado em 2017. Será que alguma editora portuguesa resgata esta série? Veremos.

Os volumes aqui em análise são, pois, os três primeiros, respetivamente: A Cidade Amarela, Aqua e A Cidade Branca. Será feita uma análise aos três livros enquanto um todo, e não um conjunto de mini-análises como foi feito, por exemplo, na análise a Parker, porque neste caso, a série segue uma só história. 

Escrita e desenhada por Alessandro Barbucci e Barbara Canepa, Sky Doll é uma série de ficção científica, que também aborda as temáticas da religião e do poder dos mass media.

A ação passa-se num universo futurista em que os papados de Agape (o símbolo do amor espiritual) e Ludovica (o símbolo do amor sexual) entram em conflito, fazendo com que Agape seja colocada fora da equação. Para conseguir controlar alguns resistentes apoiantes de Agape, Ludovica reina a galáxia controlando os meios de comunicação e usando "milagres", que não passam de grandes produções televisivas de efeitos especiais – para impressionar a população.

A protagonista da história é Noa, que é uma Sky Doll. Ou seja, um andróide sintético, com um corpo extremamente sensual e com formas impressionantes, que foi criado com o único fim de satisfazer os desejos dos seus clientes. Uma prostituta de plástico, feita para dar prazer a quem pague pelos seus serviços, basicamente. Embora aparentemente as sky dolls não tenham a capacidade de guardar memórias – imaginem o deboche que seriam as memórias de uma boneca sexual! – a protagonista Noa parece ser diferente e ter alguns poderes especiais, conseguindo contactar com vozes que ouve e que lhe dão uma consciência de si, enquanto ser individual. Entretanto, acaba na nave espacial de dois jovens, Roy e Jahu, que têm como missão viajar para o Planeta Aqua (e aqui já estou a tocar nos acontecimentos do segundo livro) e anular o crescimento da nova religião, considerada herege pelo papado de Ludovica.

A história sendo do universo da ficção científica é bastante centrada no mundo humano, tal como o conhecemos. Parece que os autores se preocuparam em fazer-nos viajar para uma outra galáxia, fictícia, que, afinal de contas, não passa de um espelho – talvez hiperbolizado, reconheço – da sociedade onde vivemos, onde a religião é utilizada, tantas vezes, como um meio para atingir um fim. 

Se a Papisa Ludovica apresenta milagres que são meras ilusões transmitidas pela televisão para impressionar a população fanática, a verdade é que a religião alternativa que se pratica no Planeta Aqua, que é centrada em fazer as pessoas serem calmas, relaxadas e estarem de "bem com a vida", também não é mais, do que uma cadeia de lojas de spa, cujo objetivo é vender os seus produtos.

A sexualidade enquanto negócio também está mais do que presente, com os autores a fazerem uma crítica à repressão sexual, num mundo onde os andróides são criados para satisfazer os desejos mundanos da população. Já o universo dos meios de comunicação, está caracterizado como sendo um grande espaço de mentiras e que procura entreter e condicionar o livre pensamento dos telespetadores.

Se parece que os temas são adultos – e são! – a forma como a narrativa está montada, acaba por ser bem leve de ler e de acompanhar. E se os temas têm uma amplitude crítica muito grande e - infelizmente! - sempre presente, desde que há religião e mass media no mundo, parece-me que a narrativa poderia ser mais consistente e levar-se mais a sério. Ou seja, dar o passo, sem medo, para um público e uma dimensão mais madura e mais pesada. Ainda assim, é uma história bem montada, que vale a pena conhecer.

Mas ao falar da história, tenho-me estado a conter para não falar da arte ilustrativa. E vou pôr isto de uma forma muito linear: a arte de Sky Doll é tão boa, tão extraordinária, que esta é uma daquelas séries que mesmo que tivesse a pior história do mundo, já valia a pena conhecer, para poder absorver a arte majestosa que os seus desenhos apresentam. Ambos os autores italianos estiveram ligados à escola Disney de alguma forma e isso transparece para a sua arte ilustrativa da melhor forma possível. As personagens aqui presentes, são extremamente expressivas e detalhadas e o cuidado ilustrativo é máximo. Tendo as personagens olhos tão grandes e tão expressivos, diria também que há aqui alguma influência do mangá, nesse cômputo. Todas as personagens, sem exceção, estão soberbamente bem desenhadas e muito bem explanadas do ponto de vista de originalidade entre si. E isso é uma coisa que merece destaque: se todas as personagens fazem parte de um mesmo universo ilustrativo em termos de género, traço e estética, não é menos verdade que todas elas conseguem ter muita personalidade e serem facilmente identificáveis pelo leitor.  

As personagens são mesmo muito carismáticas na forma como são desenhadas. O olhar é penetrante e as expressões faciais fazem incidir no leitor, tudo aquilo que as personagens sentem. O desenho dos corpos – com destaque para a concepção dos corpos luxuriantes, de formas mais que generosas, das personagens femininas - também são impressionantes. Numa curta frase: é uma série extremamente bem desenhada, com uma arte que ronda a nota máxima. E mesmo pesando o facto de que há sempre uma certa subjetividade para opinar sobre uma ilustração que "é maravilhosa", ou não, diria que muito me surpreende se alguém me disser que não acha estes desenhos espetaculares.

Refira-se que o trabalho de equipa dos autores está muito bem dividido, com Barbucci a assegurar as ilustrações e Canepa a ser responsável pelas cores. Estas, dão a tónica colorida que um universo tão futurista e sintético pediria. Também nesta vertente, tudo muito bem feito.

Faço notar que não sou especial adepto de ficção científica ou de histórias passadas no espaço sideral. Mas, neste caso, é impossível não ficar rendido a uma banda desenhada tão gratificante, do ponto de vista visual.

As edições da Vitamina BD são boas, em papel adequado, com o volume dois, Aqua, a incluir ainda um pequeno dossier de esquissos dos autores.

Em termos artísticos esta é uma obra-prima. Uma série que devia aparecer sempre na lembrança dos leitores de banda desenhada, quando se fala de artes espectaculares no género. É verdade que a história, se fosse mais concentrada e mais obstinada no caminho para onde pretende ir, seria melhor. Ainda assim, Sky Doll é uma série espectacular que merece ser lida e - já agora! – integralmente publicada em Portugal, tendo em conta que, até à data, só falta publicar um terço de toda a história. Um livro em quatro, portanto. Julgo também que um volume integral de toda a história, com os quatro tomos, com cerca de 200 páginas, seria um lançamento muito interessante.


NOTA FINAL (1/10):
9.2


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Fichas técnicas
Sky Doll 1: A Cidade Amarela
Autores: Alessandro Barbucci e Barbara Canepa
Editora: Vitamina BD
Páginas: 46, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Outubro de 2002

Sky Doll 2: Aqua
Autores: Alessandro Barbucci e Barbara Canepa
Editora: Vitamina BD
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Maio de 2003

Sky Doll 3: A Cidade Branca
Autores: Alessandro Barbucci e Barbara Canepa
Editora: Vitamina BD
Páginas: 50, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Maio de 2006