Mostrar mensagens com a etiqueta David Rubín. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta David Rubín. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 29 de julho de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Ala dos Livros nos últimos 5 anos!


A propósito da comemoração dos 5 anos de existência do Vinheta 2020, trago-vos um especial que começa a partir de hoje e que procura celebrar e assinalar a melhor banda desenhada que cada uma das principais editoras portuguesas editou nos últimos 5 anos. Durante as próximas semanas tentarei, pois, oferecer-vos um artigo por editora.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Faço aqui uma pequena nota sobre o procedimento: considerei séries como um todo e obras one-shot. Tudo junto. Pode ser um bocado injusto para as obras autocontidas, reconheço, e até ponderei fazer um TOP exclusivamente para séries e outro para livros one-shot, mas depois achei que isso seria escolher demasiadas obras. Deixaria de ser um TOP 10 para ser um TOP 20. Até me facilitaria o processo, honestamente, mas acabaria por retirar destaque a este meu trabalho que procura ser de curadoria. Acabou por ser um exercício mais difícil, pois tive que deixar de fora obras que também adoro, mas acho que quem beneficia são os meus leitores que, deste modo, ficam com a BD que considero ser a crème de la crème de cada editora.

Em cinco anos de edição ininterrupta de banda desenhada, há naturalmente muitos títulos editados e, como devem calcular, a tarefa não foi fácil e vi-me forçado a excluir obras fantásticas, mas, lá está, há que fazer escolhas e estas são as minhas escolhas.

Hoje começo com uma editora cujo contributo para o lançamento de boa banda desenhada em Portugal é verdadeiramente inegável: a Ala dos Livros.

Esta editora tem um catálogo que considero de extrema qualidade. São (muito!) mais as obras que adoro da editora, do que aquelas de que não gosto. Não foi fácil, mas aqui está o meu TOP

Eis, mais abaixo, as minhas obras favoritas lançadas pela editora Ala dos Livros:

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Análise: O Fogo

O Fogo, de David Rubín - Ala dos Livros

O Fogo, de David Rubín - Ala dos Livros
O Fogo, de David Rubín

Começo por falar deste O Fogo, de David Rubín, lançado há poucas semanas pela Ala dos Livros, mencionando outras (excelentes) obras da mesma editora, que muito têm sido comentadas: O Relatório de Brodeck e A Estrada, ambas de Manu Larcenet. "Mas o que é que essas duas obras têm que ver com este O Fogo?", perguntar-me-ão. Responderei: "Bem, diretamente, nada". No entanto, de forma mais indireta, encontrei um ponto de contacto interessante. Se houve coisa que verifiquei que os leitores portugueses sentiram enquanto liam esses dois livros de Larcenet, foi uma sensação de mau estar, de negatividade, de tristeza, de impacto negativo, não obstante a qualidade incontestável das obras. Ora, e finalmente fazendo a ponte entre as supramencionas obras de Larcenet e este O Fogo, de David Rubín, posso dizer-vos que, em termos de se conseguir ser um murro no estômago do leitor, quer O Relatório de Brodeck, quer A Estrada, parecem histórias dos Ursinhos Carinhosos comparados com este O Fogo.

Se houve livro que me fez passar mal, que me deixou deprimido, que me deixou quase enjoado e mal disposto, que me fez questionar os meus atos e os daqueles que me rodeiam, foi este O Fogo. Eis um livro que, mesmo sendo espetacular, representa uma obra a que não quererei voltar tão depressa. 

O Fogo, de David Rubín - Ala dos Livros
É óbvio que, cada um de nós, sente as obras à sua maneira, não havendo um método que possa quantificar algo que não é quantificável. Até nós mesmos poderemos sentir uma obra de maneira diferente quando a lemos em alturas diferentes das nossas vidas. E, portanto, lá porque uma obra nos toca no âmago, não quer dizer que a mesma obra toque os demais da mesma forma. E notem que nem sequer está aqui em causa a qualidade da(s) obra(s). Já li livros fraquinhos que me disseram muito, pelas boas ou más razões, e já li livros fantásticos que, embora bons, não me conseguiram impactar emocionalmente.

Mas bem, foquemo-nos então em O Fogo, do autor espanhol David Rubín, de quem a Ala dos Livros até já tinha publicado Beowulf, obra que inaugurou o catálogo da editora portuguesa.

A premissa deste novo livro de Rubín até não parece ser a coisa mais original de sempre. Mas, lá está, a qualidade da obra não é bem no "quê", mas no "como". À semelhança do blockbuster Armageddon, com Bruce Willis, Ben Affleck e Liv Tyler, que marcou o cinema do final dos anos 90, também neste O Fogo, a história abre com a noção da humanidade de que um enorme asteroide se aproxima da Terra, numa trajetória de colisão, que destruirá tudo com esse embate. É o fim do mundo anunciado e insustentável que se aproxima num prazo de 5 anos, no exato momento em que o asteroide atingir a Terra. 

Alexander Yorba, o protagonista, é um bem sucedido arquiteto de meia-idade, a quem é confiada a missão de desenhar, projetar e construir uma colónia lunar para que a humanidade - ou parte dela, pois esse "bilhete dourado" apenas será vendido aos mais ricos - possa sobreviver ao desastre inevitável. E é durante essa altura que Alexander recebe o diagnóstico médico de que tem um tumor cerebral que lhe ceifará a vida num curto espaço de tempo. O tempo exato que - qual coincidência! - demora a que o asteroide colida com o planeta Terra. Esta novidade fará com que Alexander abandone o seu projeto profissional com o intuito de se aproximar mais dos seus. Mas toda a sua vida de enorme sucesso profissional eclipsou a sua relação familiar, fazendo com que Alexander fosse um autêntico estranho para as pessoas que, supostamente, mais amava. A partir deste ponto da história, o protagonista ver-se-á na obrigatoriedade de confrontar-se a si mesmo, às suas escolhas (passadas e futuras)... enfim, à vida propriamente dita.

O Fogo, de David Rubín - Ala dos Livros
David Rubín constrói uma narrativa de uma força brutal, capaz de desestabilizar o leitor e mergulhá-lo num turbilhão de emoções. Desde as primeiras páginas, somos confrontados com um universo onde a efemeridade da vida adulta se impõe de forma esmagadora. Através de uma história carregada de simbolismo e metáforas visuais arrebatadoras, Rubín transforma o quotidiano numa experiência sensorial intensa, onde a existência se revela frágil e inconstante.

A obra apresenta-se como uma experiência visceral, em que cada página parece arder com uma energia incontrolável. A maneira como o autor trabalha a composição gráfica e a paleta cromática não só reforça a intensidade dramática da história, mas também convida o leitor a sentir, quase fisicamente, o peso das escolhas e das angústias das personagens. E a fantástica arte de Rubín, com o seu traço dinâmico e expressivo, é uma extensão direta da temática: a vida adulta como um incêndio que devora tudo à sua passagem.

O enredo, marcado por uma urgência inegável, conduz-nos por um caminho onde as relações humanas, o arrependimento e a inevitabilidade do tempo são explorados de forma impiedosa. O protagonista, espelho de tantos nós, vê-se preso numa espiral de memórias, decisões falhadas e esperanças frustradas. É impossível não tecer ligações com a contemporaneidade, onde o ritmo frenético da vida e as exigências do presente frequentemente nos afastam do que realmente importa. A contemporaneidade da narrativa não se limita, portanto, apenas aos seus temas, mas também à maneira como dialoga com a cultura atual. Num mundo onde a conexão digital e a velocidade da informação criam uma ilusão de permanência, Rubín recorda-nos que tudo é transitório. Essa reflexão adquire um peso ainda maior quando percebemos como a vida adulta muitas vezes nos afasta das nossas verdadeiras paixões e conexões humanas genuínas.

O Fogo, de David Rubín - Ala dos Livros
A efemeridade dessa vida adulta surge, pois, como um dos grandes temas da obra, e é abordada sem qualquer tentativa de suavização. Rubín expõe a dureza da passagem do tempo, a forma como os sonhos da juventude se diluem na realidade pragmática da idade adulta. É uma leitura que dói, pois obriga o leitor a confrontar-se com suas próprias inseguranças, arrependimentos e medos. Cada escolha que fazemos implica uma renúncia, e O Fogo torna essa verdade inescapável. O mais importante não é o meteorito e o fim do mundo que o mesmo acarreta, mas a necessidade de olharmos para nós mesmos, assumir os nossos erros, assumir as nossas escolhas. É de uma maturidade incrível a proposta que David Rubín nos oferece em bandeja dourada.

Se há algo de que me posso queixar - e é uma "queixa ínfima" - é a resolução que a personagem escolhe para (tentar) pôr fim ao meteorito. Não é que seja uma má escolha, mas creio que foi uma solução algo fácil e que o autor poderia ter explorado o enredo de uma outra forma. Embora, ainda assim, a ironia do final da história e de como comunicamos tão mal uns com os outros, mesmo nos tempos da era moderna - me tenha arrancado um sorriso... embora fosse um sorriso triste de desalento.

Outro elemento que torna esta obra tão impactante é a forma como a linguagem visual e narrativa se entrelaçam, criando uma experiência imersiva. O uso de metáforas visuais para representar estados emocionais e psicológicos confere uma profundidade singular à história. O fogo, enquanto símbolo, não se limita à destruição; ele também representa paixão, mudança e a necessidade de renascimento. No entanto, essa transformação nem sempre vem sem dor.

Há algo de profundamente desconfortável na leitura de O Fogo. Não porque seja uma obra difícil de compreender, mas porque nos obriga a encarar verdades que muitas vezes preferimos ignorar. A solidão, a frustração e a sensação de que o tempo escapa por entre os dedos são elementos que ressoam fortemente, tornando a leitura quase claustrofóbica. Rubín não oferece soluções fáceis nem finais reconfortantes; pelo contrário, obriga-nos a habitar esse desconforto.

No entanto, essa brutalidade emocional é precisamente o que torna a obra tão necessária. Em tempos onde o entretenimento muitas vezes opta por suavizar realidades duras, O Fogo lembra-nos que a arte também deve provocar, inquietar e fazer pensar. Não se trata de uma leitura para "escape", mas sim de uma experiência que nos obriga a refletir sobre a nossa própria existência. E essa é, sem dúvida, uma das grandes forças do livro.

O Fogo, de David Rubín - Ala dos Livros
Se repararem bem, já escrevi bastante sobre este O Fogo, mas mal falei dos desenhos de David Rubín. Tenho a dizer-vos que isso se deve ao facto da história me ter impactado tanto. A história foi tão forte que a componente visual acabou por me parecer acessória. Todavia, não posso deixar de referir que, também neste ponto, o autor espanhol nos oferece uma obra diferenciada e com momentos espetaculares, especialmente ao nível do modo como o autor divide os momentos da ação, com uma planificação inovadora e audaz. Apreciei também a componente futurista da obra, em termos de cenários, já que se trata de uma distopia ambientada num tempo futuro em relação ao que vivemos. As cenas de cariz mais sexual também são verdadeiramente fantásticas. David Rubín é portador de um estilo muito característico de desenho. Quem adora, continuará a adorar... e quem não aprecia, continuará sem apreciar. Pela minha parte, incomoda-me um pouco a disposição dos olhos que o autor coloca nas suas personagens... mas, tirando esse pormenor, aprecio muito os seus desenhos de traço forte e confiante.

Quanto à edição da Ala dos Livros, como não poderia deixar de ser, estamos perante um belo trabalho editorial. O livro apresenta capa dura baça e bom papel brilhante no interior. A impressão e a encadernação também são boas. No final, há um texto de Fernando de Felipe sobre a obra e um convite para uma compra de material digital sobre o livro, um making off, vendido pela editora espanhola Astiberri. Algo que estranhei, embora tenha apreciado. 

Tendo em conta que este foi o primeiro lançamento da Ala dos Livros para 2025, diria que dificilmente a editora poderia ter começado o seu ano editorial com uma obra mais forte que esta.

Concluindo a minha análise, há que referir que, ao fechar o livro, fica a sensação de um incêndio que consumiu não apenas as páginas, mas também parte de nós. É impossível sair ileso desta leitura. Há um eco persistente das suas imagens e palavras, uma angústia que nos acompanha já depois de chegarmos à última página. Esta é uma dessas obras raras que, ao invés de simplesmente serem lidas, são sentidas na pele e na alma. Por tudo isso, O Fogo é um livro de uma potência rara. Não se trata apenas de uma história, mas de uma experiência emocional e estética que desafia o leitor a confrontar-se com a própria efemeridade da existência. Com uma força bruta e uma honestidade cortante, David Rubín oferece-nos uma obra que nos faz sentir mal – e que, justamente por isso, se torna inesquecível.


NOTA FINAL (1/10):
9.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-

O Fogo, de David Rubín - Ala dos Livros

Ficha técnica
O Fogo
Autor: David Rubín
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 256, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 220 x 310 mm
Lançamento: Março de 2025

quarta-feira, 12 de março de 2025

Ala dos Livros edita a sua primeira BD de 2025!



A Ala dos Livros edita durante este mês de Março o seu primeiro livro do ano!

E, diga-se, a editora começa este ano editorial em grande com uma obra de David Rubin, de quem já publicou Beowulf.

O livro já se encontra em pré-venda, com desconto, no site da editora e deverá chegar às livrarias no próximo dia 25 de Março.

Por agora, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


O Fogo, de David Rubín

Um enorme asteroide aproxima-se da Terra numa trajetória de colisão. Alexander Yorba, conhecido arquiteto de meia-idade, é encarregado de idealizar e construir com urgência uma colónia lunar para assegurar a sobrevivência da humanidade perante o desastre inevitável.

Imerso nessa construção, é diagnosticado com um tumor cerebral em fase terminal; apenas lhe restam de vida os mesmos meses que faltam para que o asteroide colida com o nosso planeta. 

Este facto dramático fará com que questione a sua própria natureza profissional e pessoal, o que o leva a renunciar ao seu trabalho na colónia para se juntar à sua família, com quem mantinha pouco contacto.
Uma decisão que desencadeará uma série de acontecimentos fatídicos que irão arruinar o crédito profissional e a vida pessoal de Alexander, condenando-o a errar numa dramática, visceral e reveladora odisseia por diferentes lugares do mundo: uma corrida desesperada até ao fim dos tempos, contra a morte, a loucura e a sua própria consciência atormentada.


Prémio Zona Cómic - Todostuslibros para a Melhor BD do Ano (publicada em Espanha) 2022









-/-

Ficha técnica
O Fogo
Autor: David Rubín
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 256, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 220 x 310 mm
PVP: 44,00€

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Eis a primeira BD da Ala dos Livros para 2025!




A editora Ala dos Livros acaba de anunciar que a primeira obra que irá lançar em 2025 será O Fogo, de David Rubín!

Esta era uma obra que a editora já havia anunciado no passado e que agora se prepara para ver a luz do dia! Relembro que deste consagrado autor espanhol, a Ala dos Livros também já editou a obra Beowulf. Foi até a primeira edição da Ala dos Livros, salvo erro.

Por agora, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da edição espanhola.


O Fogo, de David Rubín

Um imenso asteroide está a aproximar-se da Terra em rota de colisão. Alexander Yorba, um famoso arquiteto de meia-idade, é encarregado da tarefa urgente de projetar e construir uma colónia lunar para garantir a sobrevivência da humanidade face ao inevitável desastre.

Imerso nesta construção, é-lhe diagnosticado um tumor cerebral terminal: apenas lhe resta o mesmo número de meses de vida antes que o asteroide demorará a colidir com o nosso planeta. Este acontecimento dramático fá-lo-á repensar a sua própria natureza profissional e pessoal, o que o leva a demitir-se do seu trabalho na colónia para se juntar à sua família, com a qual tinha pouco contacto.
Uma decisão que desencadeará uma série de acontecimentos fatídicos que prejudicarão o crédito profissional e a vida familiar de Alexander, condenando-o a vaguear numa odisseia dramática, visceral e reveladora por diferentes partes do mundo; uma corrida desesperada em direção ao fim dos tempos, contra a morte, a loucura e a sua própria consciência atormentada.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Análise: Beowulf


Análise: Beowulf, de Santiago García e David Rubín

Dificilmente haveria uma forma mais impetuosa – gloriosa, até! – para a Editora Ala dos Livros se lançar no mercado português da banda desenhada quando, em 2018, publicou, como primeiro livro do seu catálogo, a adaptação do conto clássico Beowulf, pelas mãos de Santiago García e David Rubín.

E repito que o fez de uma forma gloriosa porque esta é uma obra que, a meu ver, apresenta alguns riscos para o mercado português. Senão vejamos: sendo uma edição de formato grande, tendo bastantes páginas e uma arte e um texto num estilo algo original – para os portugueses - e carregado de brutalidade – embora, assegure-se, seja uma brutalidade épica – diria, tendo em conta o algum conhecimento que tenho do mercado português, que foi um lançamento arriscado. E é mesmo por isso, que acho que a Ala dos Livros merece a minha vénia: apresentou-se ao mercado português como sendo uma editora com coragem, perseverança, audácia e querendo, como dizem os ingleses, make a stand enquanto editora que edita livros de qualidade superior. Não poderia, por isso, ter sido mais ambiciosa e corajosa na sua abordagem inical, qual Beowulf

Para os que já conhecem a narrativa de Beowulf, com já muitas adaptações feitas ao longo da história, das quais destaco a excelente adaptação cinematográfica com que Robert Zemeckis nos brindou em 2007, não há aqui grandes novidades em termos narrativos. Santiago García faz justiça a este conto clássico, que tantos leitores cativou ao longo dos séculos, transpondo de forma muito competente, para o formato de banda desenhada, as aventuras de Beowulf, um guerreiro com força sobre-humana que viaja para a Dinamarca para derrotar Grendel, uma criatura monstruosa que tem vindo a atacar aquele reino. O herói vence e mata Grendel em duelo, utilizando como arma apenas as suas mãos nuas. Mais tarde, haverá ainda de tecer batalhas de proporções épicas contra a mãe de Grendel, também ela uma criatura monstruosa, e contra um imponente dragão. As batalhas, são representadas de forma visceral e extremamente brutal e agressiva, onde o vermelho do sangue vertido nestes combates mortais, é o tom cromático de toda a obra. Quase apetece dizer que esta versão da obra, é a versão mais rock n roll até à data. Muito suor, muitos fluídos corporais (de todas as espécies!) e muita violência gore. Uma brutalidade visceral que habita toda a obra.

Mas não é uma violência gratuita. Há lógica, há desenlace, uma boa planificação da história, bons diálogos e um bom punhado de frases marcantes.

Olhando um pouco para a arte aqui presente, denota-se que a caracterização das personagens, aqui e ali, é crua e dura, com as expressões das suas caras a parecerem esculpidas em pedra, o que poderá fazer com que alguns leitores considerem que é um tipo de desenho arcaico, pouco detalhado ou de traço muito rígido e grosso. A fazer lembrar, com as devidas distâncias, a arte de um Southern Bastards, de Jason Latour, ou de um O Congo, do português Henrique Gandum. Mas é até mesmo pelo tipo de arte aqui aplicado, que considero que Beowulf é um livro com muita unidade e uma harmonia que o habita do princípio ao fim. As personagens são rijas, a história é violenta, o texto é forte e o desenho é também bruto na forma como as personagens são representadas. Mas, lá está, há uma harmonia transversal em toda a grandiosidade agressiva que seguramos nas mãos, quando lemos este livro.

A planificação das pranchas, por parte de Rubín, pode parecer de difícil compreensão, com várias vinhetas sobrepostas umas nas outras. No entanto, uma leitura cuidada detetará a meticulosidade impressionante de como a ação é dividida.

Há uma forte dinâmica neste cômputo da planificação da obra, também. Temos desde "mini-vinhetas" que não são mais do que planos close-up de determinados detalhes, a que se pretende dar destaque, mas também temos ilustrações que ocupam uma página inteira. São até nessas ilustrações de maior dimensão que Beowulf mais brilha. De facto, quer seja nos separadores dos três grandes capítulos que dividem a narrativa, quer seja em ilustrações de larga dimensão, que chegam a ocupar duas páginas, a arte de Rubín é maravilhosa e dissipa quaisquer dúvidas que poderiam haver nos leitores mais céticos. Um bom exemplo disto é a ilustração que aqui apresento, com Beowulf montando a cavalo e segurando a cabeça da mãe de Grendel, enquanto é acompanhado por mais três cavaleiros. Um trabalho de ilustração soberbo que dava um quadro espetacular! 

Como pontos menos conseguidos diria que, por vezes, as cenas de ação, principalmente aquelas que estão mais sobrecarregadas de vinhetas, tornam-se um pouco de difícil compreensão embora, como já referi atrás, uma leitura cuidada nos permita ver que, aparentemente, cada pequeno desenho, por mais ínfimo que seja, está ali por qualquer razão. 

Este Beowulf é, acima de tudo, uma boa surpresa para quem gosta de um bom conto épico, marcado por batalhas sangrentas e agressivas, e com uma arte visualmente chamativa e cheia de fulgor. Destaque final para a edição absolutamente de luxo, com uma capa bem rija, papel de boa qualidade e uma excelente impressão. 

Parabéns à Editora pela entrada, pela porta grande, nas edições de banda desenhada em Portugal. 



NOTA FINAL (1/10):
8.0

-/-

Ficha Técnica
Beowulf
Autores:  Santiago García e David Rubín
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 200, a cores.
Encadernação: Capa dura