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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Arte de Autor e A Seita editam livro sobre Hugo Pratt!



As editoras Arte de Autor e A Seita acabam de editar um livro sobre Hugo Pratt, o célebre autor da ainda mais célebre série de BD Corto Maltese.

Da autoria de Angel de La Calle, que esteve recentemente em Portugal no Coimbra BD, este não é um "livro de banda desenhada", mas sim um livro "sobre banda desenhada". Algo que, felizmente, temos vindo a ver mais assiduamente em Portugal, com a edição de alguns livros que teorizam a banda desenhada.

Certamente é compra obrigatória para todos os que, como eu, são apaixonados pela criação de Hugo Pratt.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Hugo Pratt: A Mão de Deus, de Angel de La Calle

“[Jorge Luis] Borges ensinava uma coisa muito importante: contar mentiras como se elas fossem a verdade. Dele, aprendi a contar a verdade como se fosse a mentira”.
Hugo Pratt

O veneziano Hugo Pratt passou à história da cultura como criador da personagem Corto Maltese, o pirata romântico e navegante solitário e complexo. Mas mais do que isso, Pratt foi um autor que transformou o clássico em moderno e revolucionou a linguagem da banda desenhada.

Nesta obra, o autor e investigador Ángel de la Calle, analisa detalhada e criticamente as diferentes fases da vida e obra de Pratt, desde a sua infância em Veneza, a adolescência na Etiópia, o início da sua carreira como autor de BD no pós-guerra, a empreitada argentina, até à consagração como um autor tão mítico quanto a sua maior criação, o marinheiro Corto Maltese, sem esquecer as suas últimas obras, desmontando o mito construído por Pratt em torno da sua biografia e revelando os segredos do seu traço único.

Uma viagem fascinante, muito bem documentada e melhor ilustrada - com mais de uma centena de imagens, muitas delas publicadas pela primeira vez em Portugal - pela vida de um dos nomes maiores da Literatura Desenhada (expressão que ele preferia a banda desenhada) do século XX, enriquecida com um posfácio do especialista brasileiro Gabriel Nascimento, que revela a verdade sobre os filhos brasileiros de Pratt.

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Ficha técnica
Hugo Pratt: A Mão de Deus
Autor: Angel de La Calle
Ilustrações: Hugo Pratt
Editoras: Arte de Autor e A Seita
Páginas: 160, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
PVP: 19,90€

sexta-feira, 6 de março de 2026

Análise: Obras de Pratt

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros
Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt

Recentemente li (e, nalguns casos, reli) quatro dos livros da autoria de Hugo Pratt que, nos últimos tempos, a Ala dos Livros editou na sua coleção Obras de Pratt. Os livros em questão são Jesuit Joe e Outras Histórias; Anna na Selva; Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles; e Fanfulla, este último, editado mais recentemente e que conta com a participação no argumento de Mino Milani. É sobre estes livros que hoje vos falo, recordando que, da mesma coleção, já aqui analisei Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara, bem como Os Escorpiões do Deserto.

Começo por afirmar que Obras de Pratt é uma coleção de caráter documental mais que relevante pois permite, por um lado, trazer as obras de Hugo Pratt a uma nova geração de leitores que, de outra forma, poderia (já) não ter acesso a estas obras; e, por outro lado, permite que aqueles que já conhecem algumas destas obras de outras edições portuguesas passadas, possam ter acesso às mesmas numa edição de qualidade superior e, diria mesmo, de colecionador. Até porque, convém não esquecer, a obra de Hugo Pratt não se finda com Corto Maltese, merecendo ser explorada além dessa e como um todo.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Falando agora, de forma tão breve quanto possível, de cada uma destas obras, Jesuit Joe e Outras Histórias reúne três histórias a que o próprio Hugo Pratt apelidou de "Trilogia das Religiões", já que o tema das histórias orbita em torno do assunto da crença. A primeira história acompanha Jesuit Joe, um mestiço de ascendência francesa e indiana, que veste um uniforme da Polícia Montada, embora não pertença à mesma. Movido por uma lógica moral própria e implacável, ele atravessa as paisagens geladas do Norte, deixando um rasto de violência ao mesmo tempo que procura a sua irmã. 

Por sua vez, as histórias A Macumba do Gringo e A Oeste do Éden exploram o choque entre crenças espirituais e a dureza da sobrevivência, apresentando personagens que enfrentam dilemas éticos em cenários exóticos e isolados, bem ao jeito das histórias de Hugo Pratt. Esta é, talvez, a obra onde a amoralidade de Pratt atinge o seu auge, oferecendo uma leitura desconcertante, mas igualmente fascinante, pois é certo que a figura da personagem Jesuit Joe desafia as convenções do herói tradicional, servindo como um veículo perfeito para Pratt explorar a solidão absoluta e a violência gratuita numa ambiência fria e hipnótica. Gostei particularmente deste livro.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Já a história de Anna na Selva, decorre em 1913, na aldeia de Gombi, na África Oriental, pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Esta é uma história que embora seja constituída por quatro episódios, tem, por ventura, a história mais articulada, em termos de enredo, de todos estes livros que aqui vos trago. Convém referir que esta foi a primeira obra em que Hugo Pratt assumiu totalmente tanto o argumento como o desenho e nela já se vislumbram os temas e a sensibilidade histórica que viriam a definir a sua obra mais célebre, Corto Maltese

O álbum mistura um certo realismo histórico do colonialismo com elementos de magia e mistério típicos das temáticas que, normalmente, associamos a Pratt, servindo como um documento visual da juventude do autor vivida em África. Embora tenha um tom ligeiramente mais juvenil que obras posteriores, a riqueza dos detalhes coloniais e a construção da atmosfera africana já revelam a profundidade e o respeito cultural que tornariam o autor num mestre do género.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Quanto a Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles voltamos a acompanhar as aventuras do major polaco Koinsky que já tinha sido peça fundamental da série Os Escorpiões do Deserto. O livro reúne cinco narrativas curtas baseadas em memórias da campanha militar italiana entre os anos de 1943 e 1945.

Neste caso concreto, em vez de grandes batalhas estratégicas, Hugo Pratt foca-se mais em pequenos episódios e encontros mais centrados nas relações humanas que ocorrem à margem do conflito bélico. Talvez por isso, diria que é uma obra fundamental para compreendermos não só a evolução técnica do autor, como o seu interesse duradouro por cenários bélicos e destinos cruzados. Pratt consegue capturar a fragilidade das alianças e a ironia do destino, provando - se dúvidas ainda houvesse - que as melhores histórias de guerra são aquelas que se focam nos homens e não nas bandeiras das nações.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Por último, em Fanfulla, Hugo Pratt une esforços, no argumento, a Mino Milani, para nos narrar as peripécias de Fanfulla da Lodi, um mercenário histórico do século XVI. A trama desenrola-se durante a Renascença Italiana, período em que dois clãs inimigos se enfrentam pela posse da cidade de Florença. Esta será certamente a obra menos conhecida destas quatro - e que era inédita em Portugal - e, representada em formato italiano, ou horizontal, traz-nos um conjunto de peripécias, algumas divertidas, deste mercenário que é um guerreiro implacável e valente, enquanto tenta ser, ao mesmo tempo, gentil para com as mulheres. É uma narrativa histórica, de espada e capa, que nos dá uma personagem principal muito carismática, como foi apanágio, diria, das criações de Hugo Pratt.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Sendo verdade que todos estes livros foram feitos em alturas diferentes da vida de Pratt, em todos eles é notório e facilmente identificável o traço característico do autor. Todos os livros são editados nas suas versões a cores o que, quanto a mim, torna mais visível uma certa obsolescência de algumas opções do autor nas suas cores. Sei que esta é uma opinião não partilhada por alguns, mas mesmo não descurando a beleza das aguarelas de Pratt em algumas das suas ilustrações, olhando para as suas obras à luz do tempo corrente, diria que funcionam bem melhor a preto e branco do que a cores. Mesmo assim, e fora esta opinião muito pessoal, compreendo obviamente que a edição da Ala dos Livros seja a cores, pois muitos são os leitores que valorizam especial e especificamente as cores de Pratt.

Em termos de edição, e conforme já referi, considero estas edições da Ala dos Livros verdadeiramente espetaculares, carregadas de brio e respeito pela obra do autor. Todos os livros têm capa dura, com detalhes a verniz. No miolo, o papel utilizado é brilhante e de qualidade superior, bem como assim é o trabalho de encadernação e impressão. Todos os livros apresentam, também, belos extras que complementam a leitura e o nosso conhecimento sobre a obra. 

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros
Em Jesuit Joe encontramos um texto final de apoio à obra, escrito por Francesco Boille, que é complementado por imagens de capas italianas e por uma página com esboços de Pratt. Em Anna na Selva, temos um texto introdutório de Renato Gaita, que é acompanhado com imagens de algumas vinhetas e mais esboços. Há uma ilustração de Anna Livingstone, a protagonista do livro, que é uma autêntica obra de arte e que bem que poderia ser emoldurada. Em Koinsky relata... temos um texto introdutório do próprio Hugo Pratt e cada uma das cinco histórias é iniciada com uma introdução composta por texto, imagens de oficiais e veículos de guerra e esboços a aguarela. É, de todos, o livro mais bem documentado através dos seus fantásticos conteúdos adicionais. Por fim, Fanfulla, sendo um álbum em formato horizontal, inclui uma manga em formato vertical, que nos permite arrumá-lo desse modo junto dos outros livros. Um detalhe que adorei, semelhante ao que a editora já tinha feito em O Relatório de Brodeck, de Manu Larcenet. O livro inclui ainda um texto introdutório da autoria de Antonio Carboni.

Em suma, todos estes livros são preciosas adições a uma boa biblioteca de banda desenhada e verdadeiros "must have" para os muitos adeptos da obra de Hugo Pratt. Jesuit Joe é, quanto a mim, o melhor destes álbuns; Anna na Selva, é um prenúncio claro do que seria Corto Maltese alguns anos mais tarde; Koinsky relata... é, de todos, o livro com o conteúdo extra mais apetecível, e Fanfulla é a proposta mais original e diferente dos quatro livros. Dito por outras palavras, há algo de apetecível e diferenciador em cada uma destas quatro obras.


NOTA FINAL (1/10):
9.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Fichas técnicas
Anna na Selva
Autor: Hugo Pratt
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Junho de 2023

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles
Autor: Hugo Pratt
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 196, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 320 mm
Lançamento: Setembro de 2023

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Jesuit Joe e outras histórias
Autor: Hugo Pratt
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Setembro de 2024

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Fanfulla
Autores: Hugo Pratt e Mino Milani
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura, em formato italiano com manga vertical
Formato: 295 x 210 mm
Lançamento: Março de 2026



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Ala dos Livros publica livro inédito de Hugo Pratt!



A Ala dos Livros prepara-se para editar, a partir do próximo dia 24 de Fevereiro, o livro Fanfulla, uma obra de Hugo Pratt algo esquecida e que é agora publicada pela primeira vez em Portugal.

No argumento desta obra editada no formato horizontal (denominado como "formato italiano") participa também Mino Milani, autor italiano.

Por agora, o livro já se encontra em pré-venda no site da editora.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Fanfulla, de Hugo Pratt e Mino Milani

Fanfulla é uma das histórias de Pratt menos conhecidas do grande público. No entanto, não deixa de ser uma pequena pérola gráfica (tal como “Billy James”, “L’Ombre”, ou “Sandokan”, e não falando nas obras de Robert Louis Stevenson, “A Ilha do Tesouro” e “Raptado!”) que o Mestre realizou ao longo dos cinco anos em que colaborou com o célebre semanário italiano juvenil, Corriere dei Piccoli.

“As aventuras de Fanfulla” (o seu título inicial) foram publicadas em episódio nesta revista, desde o n.° 41, de 8 de Outubro de 1967, até ao n.° 8, de Fevereiro de 1968, 45 pranchas alternando em tricromia e bicromia. 

Desde então, Fanfulla caiu num esquecimento editorial, do qual nem sequer o tiraram várias publicações pontuais com tiragens limitadas. Que pena! Principalmente porque, com um trabalho feito à medida por Mino Milani, Pratt queria dar um novo rumo à banda desenhada nas páginas do semanário.

Esta história apresenta Fanfulla da Lodi (o seu nome verdadeiro é Bartolomeo Tito Alon), um valoroso ‘condottiere’ que combateu nos principais feitos de guerra do século XVI italiano. 

A narrativa começa a 6 de Maio de 1527, com o saque de Roma pelos lansquenetes ao serviço de Carlos V, comandados pelo general Georges Frunsdsberg, com os quais Fanfulla alinhou.

Uma obra inédita em Portugal, a qual a Ala dos Livros apresenta aos leitores portugueses, incluindo na sua Colecção Obras de Pratt mais uma obra que o grande mestre veneziano efectuou com outros autores.



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Ficha técnica
Fanfulla
Autores: Hugo Pratt e Mino Milani
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura, em formato italiano com manga vertical
Formato: 295 x 210 mm
PVP: 33,00€

terça-feira, 13 de maio de 2025

Análise: Verão Índio e El Gaucho

Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara - Ala dos Livros

Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara - Ala dos Livros
Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara

Hoje trago-vos uma dose dupla que junta dois autênticos Mestres da banda desenhada mundial: Hugo Pratt e Milo Manara. Estes nomes indispensáveis da 9ª arte juntaram esforços para, a partir do ano 1983, produzirem uma primeira obra conjunta: Verão Índio. E, em 1991, voltaram a fazê-lo com El Gaucho. São duas obras que, acredito, já grande parte dos leitores portugueses conhecem, até porque os dois livros já por cá foram editados mais do que uma vez. De qualquer forma, e devido à sua qualidade e experiência formativa, no que à banda desenhada diz respeito, considero que em boa hora a editora Ala dos Livros optou por dotar o mercado nacional destas duas belas obras que há algum tempo se encontravam extintas das livrarias portuguesas.

Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara - Ala dos Livros
Sendo duas obras diferentes, têm em comum a colaboração conjunta de Pratt e Manara, o que as torna, de algum modo, indissociáveis uma da outra. Hugo Pratt, conhecido e celebrado pelo seu estilo literário e histórico, e Milo Manara, mestre do erotismo, oferecem-nos em Verão Índio e em El Gaucho dois trabalhos que se ambientam em contextos coloniais distintos, mas que compartilham uma crítica feroz ao poder, à hipocrisia e à violência da dominação europeia.

Em Verão Índio, somos transportados para a Nova Inglaterra do século XVII, em plena altura em que a tensão entre colonizadores e indígenas se fazia sentir com mais força. Já El Gaucho situa-se no início do século XIX, durante a invasão britânica ao Rio da Prata, focando-se no impacto do colonialismo europeu na América do Sul.

Pratt, que nestes dois livros assegura apenas o papel de argumentista, subverte os arquétipos históricos. Em Verão Índio, os puritanos, que deveriam representar a moral e a civilização, são mostrados como figuras cruéis, racistas e hipócritas, enquanto que os indígenas, embora marginalizados, aparecem como portadores de uma dignidade que a sociedade europeia parece ter perdido. Em El Gaucho, Pratt investe na crítica ao imperialismo e à traição política, evidenciando as contradições entre os discursos de libertação e os interesses económicos e sexuais que movem os colonizadores. 

Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara - Ala dos Livros
Manara, com o seu traço detalhado e carregado de fluidez, imprime sensualidade até mesmo nas cenas mais brutais, criando um contraste inquietante entre forma e conteúdo.

A sua arte ganha especialmente um espaço de destaque em Verão Índio, onde o erotismo não é apenas um adorno, mas uma linguagem através da qual se denuncia a opressão e a hipocrisia. A representação da nudez feminina, longe de ser meramente fetichista, surge-nos como um símbolo de liberdade e de resistência. Em El Gaucho, o erotismo também está presente, mas é menos central. Aqui, Manara oferece-nos cenas de batalha, ambientes urbanos repletos de multidões e figuras militares com fardas pormenorizadas, o que mostra bem a versatilidade do autor, que vai além do conhecido erotismo das suas mulheres.

E embora me pareça que Verão Índio até é mais celebrado e adorado do que El Gaucho, olhando para as duas obras a frio, devo dizer que El Gaucho me parece claramente superior nos dois principais vetores das obras: quer no argumento, quer nas ilustrações.

Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara - Ala dos Livros
O argumento de Verão Índio revela-se por vezes algo difuso, deixando algumas pontas soltas, enquanto que em El Gaucho, toda a história se apresenta mais bem estruturada e desenvolvida. Parece que, em El Gaucho Hugo Pratt já sabia muito bem para onde - e de que forma - levar a história e que, em Verão Índio, o autor se deixou levar um pouco ao sabor da corrente.

Também em termos de ilustração, Manara se sente mais solto e com uma técnica (ainda) mais aprimorada em El Gaucho, oferecendo-nos desenhos belíssimos e que hoje, passadas várias décadas, ainda detêm um verdadeiro charme que é difícil imitar ou reproduzir. 

Ainda que as duas obras tenham uma forte componente política, as personagens femininas desempenham, naturalmente, papéis centrais nas duas narrativas. Em ambas, são vítimas de um mundo masculino opressivo, mas também sujeitos ativos de mudança. A jovem Cécile em Verão Índio e a bailarina de El Gaucho são figuras que, mesmo subjugadas, recusam-se a ser apenas objetos da narrativa.

Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara - Ala dos Livros
Em termos de edição, os dois livros apresentam-se muito apetecíveis, com capas duras baças com verniz localizado, bom papel brilhante no interior e excelente trabalho de impressão, encadernação e acabamentos. 

No caso de El Gaucho, encontramos ainda, no início do livro, um caderno de conteúdo extra que inclui esboços de Hugo Pratt e Milo Manara e textos introdutórios de Vincenzo Mollica e Michel Pierre.

Concluindo, Verão Índio e El Gaucho são duas obras indispensáveis para admiradores de banda desenhada. Embora separados por cerca de uma década, os dois livros parecem dialogar diretamente entre si. São como dois espelhos voltados um para o outro: um refletindo a América do Norte puritana e repressora, o outro a América do Sul tumultuosa e sensual. 

Juntos, constroem uma visão crítica e profundamente artística das Américas, conseguindo ser mais do que banda desenhada histórica ou erótica. São obras de arte complexas que desafiam o leitor a pensar sobre a colonização, o poder, o desejo e a liberdade.

NOTA FINAL (1/10):
Verão Índio: 9.0
El Gaucho: 9.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara - Ala dos Livros

Fichas técnicas
Verão Índio
Autores: Hugo Pratt e Milo Manara
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Novembro de 2024

Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara - Ala dos Livros

El Gaucho
Autores: Hugo Pratt e Milo Manara
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Abril de 2025

terça-feira, 12 de novembro de 2024

Ala dos Livros lança "Verão Índio" de Hugo Pratt e Milo Manara!


É um dos clássicos da célebre parceria entre os Mestres autores Hugo Pratt e Milo Manara e vai voltar a ter uma edição portuguesa!

E tendo em conta a qualidade das edições da editora Ala dos Livros - e, em particular, a da coleção "Obras de Pratt" - não tenho dúvidas que estaremos perante uma bela edição definitiva de colecionador.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora e deverá chegar às livrarias durante a próxima semana.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Verão Índio, de Hugo Pratt e Milo Manara
Massachusetts, 1625. 

Dois jovens índios encontram Shevah, a bela sobrinha do reverendo Black, nas dunas à beira mar. A violação da jovem rapariga quebra a convivência existente entre colonos e índios. Escondido na vegetação, Abner, que assiste a tudo, acaba por abater os dois jovens e recolher a jovem rapariga na cabana isolada onde vive com a sua família.

Mas os acontecimentos precipitam-se: os índios querem vingar a morte dos seus. 

Entretanto, começa a época do ano conhecida como o verão índio, que fica assim tingido pelo sangue da vingança e da morte.
Assinada por dois grandes mestres da Banda Desenhada Mundial, Hugo Pratt e Milo Manara, Verão Índio é uma história simultaneamente sensual e violenta, cuja acção decorre na América puritana dos primeiros colonos, e que a Ala dos Livros apresenta (de novo) aos leitores portugueses, alargando a Colecção Obras de Pratt a obras que o grande mestre veneziano efectuou com outros autores.
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Ficha técnica
Verão Índio
Autores: Hugo Pratt e Milo Manara
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
PVP: 33,00€

terça-feira, 24 de setembro de 2024

Ala dos Livros lança novo livro de Hugo Pratt!



A editora Ala dos Livros continua firme no lançamento de obras de Hugo Pratt!

Depois de editar os livros Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles, Anna na Selva e Os Escorpiões do Deserto, a editora portuguesa traz-nos agora Jesuit Joe e outras histórias.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora e deverá chegar às livrarias nas próximas semanas.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.
Jesuit Joe e outras histórias, de Hugo Pratt

Canadá, final do século XIX. 

Envergando o uniforme da Real Polícia Montada do Canadá, JESUIT JOE é um índio mestiço obcecado por uma sede de justiça regida por comportamentos bizarros. Dotado de uma crueldade e de uma (in)sensibilidade fora do comum, Jesuit Joe comete mortes atrozes.

Criado por Hugo Pratt, este personagem complexo surgiu pela primeira vez na revista francesa Pilote em 1980, sendo, nesse mesmo ano, publicado em álbum tanto em França (Dargaud) como em Itália (CEPIM) onde surgiu com o título L'uomo del grande nord.

Dirigido por Olivier Austen, e com Peter Tarter no papel principal, Jesuit Joe foi adaptado ao cinema em 1991.

Retomando o tema da loucura, da selvageria ou da fé cega – presente noutras personagens e obras de Pratt – e com um equilíbrio subtil e delicado entre o seu traço e o seu sonho de «desenhar uma história numa só linha» este Jesuit Joe é, sem dúvida, um dos álbuns mais interessantes de Pratt.

O álbum JESUIT JOE E OUTRAS HISTÓRIAS, que a Ala dos Livros edita agora em Portugal, reúne três histórias (que Hugo Pratt denominava como a sua trilogia das religiões): Jesuit Joe, A Macumba do Gringo e A Oeste do Éden.

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Ficha técnica
Jesuit Joe e outras histórias
Autor: Hugo Pratt
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
PVP: 35,00€

terça-feira, 17 de outubro de 2023

Ala dos Livros lança novo livro de Hugo Pratt!


Apenas volvidos alguns meses desde o lançamento de Anna na Selva, e depois da editora portuguesa nos ter trazido os três volumes que compõem a coleção de Os Escorpiões do Deserto, a Ala dos Livros volta a trazer-nos uma obra clássica de Hugo Pratt.

Desta vez estamos perante Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles, uma coleção de histórias curtas sobre a personagem Koinsky, que também apareceu em Os Escorpiões do Deserto.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles, de Hugo Pratt

Os leitores conhecem Koinsky da série Os Escorpiões do Deserto, na qual acompanhámos as suas aventuras militares no norte de África.

Koinsky relata … meia dúzia de coisas que sei sobre eles, são histórias retiradas das memórias de guerra que este major polaco escreveu durante a campanha italiana de 1943/45.

Estas histórias foram desenhadas por Hugo Pratt durante o período em que permaneceu em Londres (1956-1957) e foram publicadas na revista ‘Corto Maltese’ entre 1988 e 1992. Das areias do deserto da Líbia às florestas infestadas de japoneses, das lagoas de Comacchio, em Itália, aos prostíbulos em África, estas aventuras de guerra constituem as histórias ‘menores’ de homens que diariamente têm de lidar com as mais variadas situações, as quais, no entanto, marcarão a diferença entre viver ou morrer.

Nas 196 páginas que constituem esta obra - que se insere na colecção Obras de Pratt da Ala dos Livros -, o leitor encontra cinco estórias até agora inéditas em álbum em Portugal, bem como um caderno extra que contém aguarelas do autor e textos que as contextualizam.

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Ficha técnica
Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles
Autor: Hugo Pratt
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 196, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 320 mm
PVP: 39,90€

terça-feira, 27 de junho de 2023

Ala dos Livros volta a apostar em Hugo Pratt!




Já está disponível a obra Anna da Selva, de Hugo Pratt, que a editora Ala dos Livros acaba de lançar!

Esta era uma obra que já havia sido publicada em Portugal, pela editora Meribérica, mas que se encontrava completamente esgotada há já vários anos.

Deste modo, a Ala dos Livros preenche essa lacuna, reeditando a obra na sua versão a cores, já depois de ter concluído a série Os Escorpiões do Deserto, do mesmo autor incontornável.

Mais abaixo deixo-vos com a sinopse do livro e algumas imagens promocionais.


Anna na Selva, de Hugo Pratt
“Ao regressar de África, era um rapaz de dezasseis anos que hesitava entre ir para o liceu ou tentar a escola de artes, onde podia testar a minha vocação para o desenho."

Assim escreveu um dia Hugo Pratt, recordando a sua estada em África durante seis anos nos quais vivenciou o absurdo da aventura colonial italiana. Esses seis anos inspirar-lhe-iam inúmeras histórias de banda desenhada, como as que se encontram reunidas neste álbum. 

São quatro histórias protagonizadas por Anna Livingston e Daniele Doria, que decorrem em 1913 na aldeia de Gombi, na África Oriental nos meses que antecedem a I Guerra Mundial. O espectro de um cacique, uma maldição milenar, um tráfico obsceno de escravos e um entrelaçamento de ganância, amizade e amor: são estes os pontos de partida para cada uma das quatro histórias, inicialmente publicadas em Agosto de 1959 no número 1 da revista argentina “Super Totem” e que em 1963 chegaram às páginas da publicação italiana "Corriere dei Piccoli". 

Uma aventura em quatro partes, onde o colonialismo é visto através dos olhos de uma jovem e na qual Hugo Pratt esboça já um marinheiro imprevisível.

Esta edição, que integra a Colecção Obras de Pratt em publicação na Ala dos Livros, conta também com documentação e aguarelas do autor.

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Ficha técnica
Anna na Selva
Autor: Hugo Pratt
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
PVP: 29,90€

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Arte de Autor fecha a série Corto Maltese, de Hugo Pratt!



E aí está! Já muitas editoras portuguesas haviam publicado parte da célebre série Corto Maltese, de Hugo Pratt, mas é a Arte de Autor a primeira editora a publicar na íntegra - e numa só coleção - todos os Corto Maltese de Hugo Pratt!

Os meus parabéns à editora por esta aposta e por este comprometimento para com os leitores e para com a própria banda desenhada enquanto meio artístico, já que Corto Maltese é uma série que considero essencial e é bom que esteja disponível no mercado.

, o último volume da série assinado por Hugo Pratt já se encontra disponível nas livrarias portuguesas.

Abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.
Mü, de Hugo Pratt

«A embriaguez das profundezas, ou comido pelos mitos»
«Ah, sim, sim, ele está a delirar…» — Mû

Em Mû, Corto Maltese passa a maior parte do tempo num estado de torpor. Para não dizer — atenção, estamos apesar de tudo no âmbito de um prefácio — «delirante».

E quanto mais avançamos na leitura, mais dizemos a nós próprios que Hugo Pratt reclama a mesma coisa do leitor: uma forma de embriaguez necessária para mergulhar, sem nos afogarmos, nesta aventura antiga e subaquática.

É certo que o autor deixa o leitor livre, mas dá-lhe ainda assim algumas pistas, para o caso de ele mudar de ideias e queres modificar a sua percepção, evocando ao longo das páginas quer «a melhor cocaína das Caraíbas», quer os «cogumelos mágicos.

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Ficha técnica
Autor: Hugo Pratt
Editora: Arte de Autor
Páginas: 184, a preto e branco e a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 225 x 297 mm
PVP: 29,50€