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domingo, junho 18, 2017

começar

Um dos mais justamente célebres começos da novelística portuguesa, em A Queda dum Anjo -- o arrivismo mantém-se; um proto-Ferreira de Castro sem grande interesse em O Drama da Sombra; uma esplêndida ideia com Batalhas do Caia -- remete para o projecto ficcional abortado de Eça de Queirós --, achando, quando o li, ter ficado aquém do propósito ambicioso. Talvez deva relê-lo.

1866 - «Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda da Agra de Freimas, tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda.» Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo
1926 - «Aquela mulher era ali, no Estoril elegante, a máxima fascinação, a serpente de olhos verdes de todos os veraneantes masculinos.» Ferreira de Castro, O Drama da Sombra
1995 - «E a bagagem, trazida por três carroças atulhadas, foi dispersa pelos aposentos de ambos os pisos, obedecendo à numeração que neles se fixara, baseada num código que me pareceu insolitamente arbitrário.» Mário Cláudio, Batalhas do Caia

domingo, março 08, 2015

em terras de John Bull, precise-se

«E acolheu a sopa de cenoura e o assado, servidos em louça portuguesa, com a naturalidade contente de quem admite que nenhum outro menu de facto lhe poderia ser oferecido.»

Mário Cláudio, As Batalhas do Caia (1995)

quinta-feira, janeiro 08, 2015

uma loura a atirar para o ruivo

«E é uma loura, a atirar para o ruivo, provida de largos dentes, esta criatura que o tem visitado nos últimos tempos. Apresentou-se ela para o jantar há uma semana, vestida como quem vai para um baile, exibindo uma toillete de seda cor de marfim, toda ornamentada de rosinhas de tule no decote e na cintura e na saia. Pelo exterior juraria qualquer um tratar-se de uma dessas muitas que neste início de temporada se esforçam por imitar a tão falada Lily Langtree, a qual o príncipe de Gales vem ostensivamente acalentando com o seu cio de bode de meia idade. Quanto ao mais afirma-se a visitante anglicana convicta, muita afecta aos afazeres da sua igreja paroquial, cujo altar-mor costuma decorar anualmente, aquando da festa das colheitas, com exuberantes corbeilles de flores e de frutos.»

Mário Cláudio, As Batalhas do Caia (1995)

domingo, agosto 03, 2014

um devaneio de meridional

«Demorou-se à janela da saleta entretanto, a observar aquele quadro de relva onde bate o sol, e deixou-se perder num devaneio de meridional, temperado por bem mais preguiça do que nostalgia.»

Mário Cláudio, As Batalhas do Caia (1995)

quarta-feira, março 06, 2013

E a bagagem, trazida por três carroças atulhadas, foi dispersa pelos aposentos de ambos os pisos...


E a bagagem, trazida por três carroças atulhadas, foi dispersa pelos aposentos de ambos os pisos, obedecendo à numeração que neles se fixara, baseada num código que me pareceu insolitamente arbitrário. Eram grandes caixotes de pinho, arvorando o nome e o endereço do destinatário, desenhados a zarcão, além de malões e de malas e de maletas e de caixas de chapéu, a ostentar numa placazinha de metal as simples iniciais EQ, gravadas em caracteres de esmero particular. Andaram por aí seis ou sete almocreves, largando bastante lama pelos soalhos, manobrando as cordas e retesando os músculos dos braços, exasperadamente sardentos ou desmaiadamente pálidos, e ficou possuída a casa do sangue e da alma do seu novo ocupante.

Início de as Batalhas do Caia, de Mário Cláudio, Lisboa, Publicações dom Quixote, 1995.