«Pensou que um gesto assim lhe ficaria de memória para o resto dos seus dias. Além disso, pensou ainda, havia o pavor do próprio grito: violar aquela noite de água e árvores adormecidas e sem nome, destravar a guilhotina em repouso sobre o sono das casernas e fugir de mãos no ar, apanhadas pelo crime.» João de Melo, Autópsia de um Mar de Ruínas (1984)
«Não sei se ela o chegou a ler (num daqueles arroubos românticos que, em ocasiões anteriores, me tinham levado a recitar um soneto insidioso de Camilo Pessanha com o Tejo em fundo, é possível que eu lhe tenha lido um desses poemas, encostado às suas coxas nuas, beijando-lhe os seios, dois filhos gémeos da gazela) mas, ainda que não tenha sido assim, a visão daquele livro atirado para o lixo transportou-me para o interior de uma canção de Chico Buarque.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013)
«(Eu e Diogo Relvas preferimos as águas apauladas. E cá estamos) / Contaram-me que uma tarde de domingo, daquelas em que meu avô, seu criado e maioral das éguas, vinha aviar o alforje para quinze dias de Lezíria, o patrão Diogo nos viu juntos e se dignou, sem nojo, concretizar uma carícia nos cabelos encaracolados da minha cabeça de menino pobre.» Alves Redol, Barranco de Cegos (12961)