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quinta-feira, junho 18, 2026

leitura humilde, mas alerta

 

5. Olho mais de uma vez para o retrato de António Lobato na badana da capa. Um homem passado da meia-idade, de aspecto sereno e apaziguado, ostentando a cicatriz de uma catanada que lhe atravessa o rosto de cima a baixo. Pelo que li até agora, algo me diz que não encontrarei aquilo que temo. (aqui)

6. Como testemunho, o livro é um admirável relato de sobrevivência numa situação inimaginável. Em alguns momentos transportou—me à Guiana Francesa, do Papillon (e de Dreyfus…).  É notável como naquela situação mente e corpo passam a ser não apenas o refúgio em que o eu encontra o si-mesmo; e um invólucro que é o corpo, fechado noutro invólucro, a cela, que passa a não ter limites. É evidente que eu poderia ser cínico e dizer que foi o instinto de sobrevivência que qualquer animal tem, além da sorte, que o preservaram. O que em minha opinião o distinguiu verdadeiramente como homem -- e lá obrigou o regime que andou a defender, pensando que era a nação que defendia --, foi a fidelidade ao juramento de bandeira, recusando a liberdade em troca de se bandear para o inimigo. Merece isto respeito? Neste caso, creio que sim. Muito jovem, o autor alistou-se como voluntário; não estava intelectualmente preparado para perceber o que de errado, desumano, humilhante significa ser-se colonizado.

7. Não posso dizer que encontrei o que temia – mas também não vi o que gostaria de ter encontrado, ou seja, uma denúncia do que foi a Guerra Colonial, um crime que ceifou incontáveis vítimas, aos milhares, por uma visão distorcida e cega da História, naqueles treze anos de guerra, além de interesseira para a clique que governava o país. Não basta, como fez o autor, exprobar os imperialismos todos que se puseram ao assalto das colónias portuguesas. É muito fácil dizer que a culpa foi dos russos, dos americanos e dos chineses e nós nos limitámos a honrar o nome dos “nossos egrégios avós”, como de forma algo patética o autor expôs.

E lamento-o, porquê? Porque vi no autor uma natural empatia para com o outro africano, mesmo após inevitáveis choques culturais; por exemplo o espantoso episódio do curandeiro, já na Guiné-Conakry; vi a forma respeitosa com que se referiu a Amílcar Cabral, um homem superior, e o modo agradecido nas alusões a Nino Vieira, a quem acreditou dever a vida. Aliás, ele deveu a vida ao PAIGC, que o retirou das mãos dos populares furibundos com os assassinos dos ares – como eloquentemente mostra na pág. 71, uma tabanca devastada pela metralha da aviação --, cuja vontade dos habitantes seria o de esfolá-lo ali já.

É graças a Nino que em Portugal vão saber que ele está prisioneiro, como testemunha a pág. 90. Aliás, oficialmente, Portugal não tem prisioneiros no campo inimigo, por isso, Lobato para todos os efeitos não existe. É pena que ingénua ou propositadamente, não veja que está ali a servir de carne para canhão para a sobrevivência de um regime português ilegítimo, assente na repressão e na fraude, e não ao serviço dos alegados nobres ideais de “egrégios avós”, fantasia de marinheiro republicano, H. Lopes de Mendonça, apanhada com as mãos ambas pelo Salazar.

Como militar a sua admiração pelo PAIGC é notória, a “ordem” a “disciplina” a “autoridade” que verifica existir no acampamento de Nino Vieira; o que não o impede de ver, após uma (infelizmente) já esperada diatribe contra os “cravos” e os “vendilhões”, comiserar-se com o estado subnutrido de uns guineo-portugueses do outro lado da fronteira (p. 108) (e aqui Lobato já se sente muito à vontade para denunciar o colonialismo francês), saindo-se com esta pérola: «Nestes olhos esbugalhados de surpresa [o avistamento de um prisioneiro português branco], lê-se a esperança longínqua do regresso à terra-mãe, ao “doce chicote” do colonizador que durante quinhentos anos lhes garantiu tabanca fresca, pão, água,  e ainda alguns ensinamentos técnicos, científicos e culturais.”… (p. 111); escrevendo antes sobre uma alegada “partilha de quinhentos anos de uma nacionalidade comum” (p. 110), essa mesma nacionalidade comum que incluía o povo felupe, em que se praticava o canibalismo, temendo Lobato servir de pitéu a um certo Miguel que por lá andava, aí se esquecendo da nacionalidade comum, não fora o estrangeirado do PAIGC ter advertido um deles que «tuga não e[ra] para comer”… (p. 85)

8. O livro é pois, no que respeita a considerações que vão para além da circunstância, uma salgalhada incoerente, que a própria honestidade do autor evidencia; desde logo do ponto de vista formal, em que tanto caracteriza – sem aspas ou itálico – os soldados do PAIGC ora como terroristas, ora como guerrilheiros, sabendo-se que nenhum destes substantivos é neutro. Não atribuo, no entanto, nenhuma intenção especial, mas apenas uma evidência de que o autor não era, nem de perto nem de longe, um escritor, antes alguém que tinha coisas para contar e soube escrevê-las de forma minimamente inteligível. Deste ponto de vista, trata-se de um livro medíocre.

9. O capítulo final, acrescentado em edições posteriores, focando essencialmente o papel do autor durante o PREC, não tem nada que ver com o testemunho, e, com excepção do epílogo, agora na Guiné-Bissau, e já não Guiné Portuguesa – aliás bem interessante –, está aqui a mais, prejudicando a unidade do depoimento.

10. "Herói nacional", como o considerou o regime -- mesmo que a PIDE o tenha detido logo após o regresso após mais de sete anos de cativeiro (era preciso saber o que Lobato pensava...) e de não saber muito bem o que lhe fazer, obrigando-o a atitudes pouco ortodoxas para que reconhecessem a sua condição de prisioneiro de guerra? (Portugal sempre no seu melhor...) Que há um heroísmo pessoal em não vergar, isso é inegável, só um néscio ou alguém mal-formado o não reconhece. Que esse mesmo heroísmo tenha servido uma causa profundamente errada, é outra história. Aliás, entre história e História, António Lobato foi, quanto a mim, mais uma vítima desta, uma em milhares, e da circunstância da mentalidade de século XIX de Salazar, que aproveitava, e muito, à dos que prosperavam à custa da política colonial, alguns, poucos, descendentes de avós não lá muito egrégios.

quinta-feira, outubro 10, 2024

serviço público - Carlos Matos Gomes, quase lapidar: «O direito à "defesa de Israel" é o mesmo de qualquer guarnição romana nos confins do império.»

Uma grande frase em mais um grande texto do coronel Carlos Matos Gomes -- que, recordo, além de oficial comando na Guerra Colonial e historiador do período, é também o romancista que assina as suas obras literárias sob o nome de Carlos Vale Ferraz.

Análise sedutora e fina, à qual, não sendo um especialista, me permito levantar duas objecções: se a minha leitura não foi demasiado apressada (detesto ler no computador), o autor parece não valorizar a permanência contínua de população judaica nos territórios israelo-palestinos desde a segunda destruição do templo de Salomão, em Jerusalém; bem como o impulso do movimento sionista estabelecido por Theodore Herzl, no final do século XIX, aliás inspirado pelo Caso Dreyfus 

[-- uma das histórias de perseguição mais abjectas da história do nosso querido continente, em que do lado do supliciado e inocente capitão estiveram Zola (heróico), Octave Mirbeau, Anatole France, entre tantos mais, incluindo o nosso Eça de Queirós, sempre do lado certo; e, do outro lado a bestiaria selvagem protofascista e colaboracionista francesa -- os próprios ou os seus descendentes, em linha directa até ao presente na recauchutada Frente Nacional e outros -- rever, a propósito, o filme do grande Polanski];

outra ausência com que me deparo, apesar da referência ao xiismo e as suas razões, é o papel do sempre pestífero sectarismo religioso, que não devemos varrer para debaixo do tapete. A religião, quando sai da esfera individual, do núcleo familiar e do confinamento dos templos -- e passa para a esfera sóciopolítica, será sempre inimigo a abater, católica, xiita ou o raio que as partam a todas.

Do papel dos aiatolas no derrube do primeiro-ministro patriota Mohamed Mossaddegh, aqueles transformados em joguetes dos americanos, entre os quais circulava um tal Khomeiny -- que bem os gratificou -- agradecimentos à moda de bin Laden.

Como disse esse quase santo que deu pelo nome de Piotr (Pedro) Kropótkin, a única igreja que ilumina é a igreja que arde... -- experiências ensaiadas na Guerra Civil de Espanha -- e com razão, como se viu pelo comportamento da instituição durante o franquismo; e até recentemente, no Chile -- mas aqui devido a essa tendência que por lá teve guarida, a do abuso de menores.

Posto isto, que o governo israelita não passa de uma guarda avançada do imperialismo americano, entra-nos pelos olhos todos os dias -- não muito diferente, de resto, do que protagoniza o judeu-ucraniano de língua russa Zelensky.

segunda-feira, março 02, 2020

Polanski, grande Polanski

O «Caso Dreyfus» mexeu com a opinião pública francesa e ocidental na última década do século XIX.  Do lado do oficial do exército francês, vítima da maquinação de um canalha, da pestilência anti-semita e do espírito de corpo sem alma ou um patriotismo enviesado, estiveram as pessoas de bem (um conceito que faz rir), ultrajadas com a perfídia; do outro lado do  escândalo, os racistas e a extrema-direita católica ultramontana, refocilavam gozosos e nada interessados pela sorte de um inocente que fora desonrado e condenado: era um judeu, não se perderia grande coisa, mesmo se injustiçado. Com ele e a sua família, que nunca desistiu de o salvar e ilibar, em sua defesa, as pessoas decentes, como foi o caso de Eça de Queirós e, obviamente do grande Zola, que com a carta ao presidente da República desmascara toda a ignominiosa fraude.
O J'Accuse…!, de Zola seria sempre algo que enobreceria o seu autor. O romancista de Germinal era rico e respeitadíssimo -- uma força da natureza. Ao comprar uma guerra com a tropa, o governo, a Igreja e a opinião pública fanatizada, tirou-se de cuidados e obedeceu ao ímpeto ético de homem livre. Esta carga de obus disparada para o centro da conspiração foi decisiva para acabar com uma degradante injustiça, como todos os dissabores que causou ao escritor, a morte inclusive (segundo alguns autores, Zola, encontrado com a mulher morto no quarto, intoxicados durante a noite, foi assassinado em consequência do Caso Dreyfus, já que as saídas de fumo da chaminé estavam tapadas).
Já agora, existe uma edição na Guimarães, com um bom estudo prévio de Jaime Brasil, também seu biógrafo, com várias edições.
O filme teve para mim o mérito de lembrar o coronel Georges Picquart, numa memorável interpretação de Jean Dujardin, um desses homens íntegros para quem o bem e o mal não existe conforme as conveniências. Sem ele, e o seu sacrifício, não teria havido o panfleto de Zola.
Polanski, grande Polanski, um dos meus realizadores, que como Woody Allen e Martin Scorsese, não sabe fazer filmes maus. É um prazer ver-lhe a câmara apaixonada pela mulher, Emmanuelle Seigner.
Produção apoiada financeiramente por judeus, não há nada de reprovável em tal. O que me repugna é que se utilize o drama dos judeus na Europa para que se iniba de condenar a política criminosa do estado de Israel em relação aos palestinos, veja-se o que aconteceu com o cartoon de António…
Uma palavra paras as peruas do #metoo à francesa, ou lá o que é: ver aquelas insignificâncias a ladralhar quando o 'César' foi atribuído ao filme é absolutamente degradante -- aliás o Polanski nem sequer apareceu para não ser linchado, por elas e pela voragem merdiática. Isto tem tudo e não tem nada a ver com o filme; é um sinal dos tempos.