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quinta-feira, agosto 22, 2024

serviço público, para destruir o manicómio: fui ver o horror, e penso em Angela Carini

Não liguei muito aos Jogos Olímpicos, nem aos seus escândalos, e como não estou nas redes sociais, chego sempre atrasado ao último frisson
Como me estou nas tintas para a ideologia de género woke, mas não ao seu controlo totalitário e fascizante, nem liguei às patacoadas que então foram escritas, por Fernanda Câncio, em tom poético de trazer por casa, enjoativo e foleiro. 
Por isso deixei passar a vergonha para o desporto que foi o episódio da presença duma pretensa boxeuse argelina (e um outra da Formosa), que na verdade é um homem. 
Na minha ignorância, até hoje, pensava que havia mulheres, como foi o caso da atleta sul-africana Caster Semenya, que tinha o azar (e em termos desportivos, a sorte) de o seu organismo produzir testosterona em excesso, o que lhes dava vantagens sobre as suas competidoras.
Afinal, não. Num corajoso artigo saído no Público  de quarta-feira, que muito recomendo, ilustrado, honra seja feita ao jornal, por uma fotografia arrepiante, Maria João Marques  revelou-me que Imane Khelif e outras pessoas, são portadores de um tipo de disfunção,  nascendo com os genitais recolhidos, e que só na puberdade se desenvolvem total ou parcialmente. São, por isso, percebidos como raparigas e socializados como tal, o que acontece com mais frequência nos países pobres, em que a medicina pré-natal e os meios de diagnóstico são muito deficientes. Só a partir dessa idade pré-adolescente é o homem que são que se revela fisicamente.
Fui ver o combate e fiquei enojado: um homem de 25 anos combate e derrota em 46 segundos uma boxeuse italiana. de seu nome Angela Carini, sobre a qual ninguém fala no manicómio merdiático. Sinta-se a sua revolta, de que teve de retratar-se, claro; sob pena de ser expulsa da modalidade. Enojado com o homem que passa por mulher e abarbata a medalha de ouro? Sim, claro; tem 25 anos, sabe muito bem o que anda a fazer; com o seu entourage?, decerto; com o COI e a sua cobardia?, sem dúvida. Mas mais que tudo, com os vigilantes do manicómio que nas nossas barbas querem forçar-nos a aceitar o inaceitável.

É preciso ver, para acreditar e nos perguntarmos como foi possível chegar até aqui...

sexta-feira, maio 04, 2018

Sócrates, o PS, eleições, etc.

Chegado aqui, creio que reafirmo tudo o que escrevi sobre o caso Sócrates. (É fácil ver se há incoerência da minha parte: cliquem na etiqueta 'José Sócrates', e vão lá ver).


No entanto, há novidades.


A primeira é a difusão das gravações dos interrogatórios, agora em imagem, depois de terem sido, pelo menos parte delas, bastamente transcritas pelos jornais. Assisti à quase totalidade do que foi transmitido pela sic, e sobre isso já escrevi; no canal do correio da manha só assisti, por puro voyeurismo, ao interrogatório a Fernanda Câncio, com comentários toscos em off para a audiência analfabruta. Um dos casos em que não se pode alegar "interesse público", mas intromissão e violação grosseira e criminosa dos direitos básicos de uma cidadã.

A maior novidade é a admissão por parte de Sócrates de um esquema para alcandorar o seu livro ao top de vendas. Enfim, por piedade, dispenso-me de classificar esse comportamento e a justificação dele, dizendo, no entanto -- e sem que isso seja uma atenuante --, que no mundo dos livros conheço vários casos de miséria moral, de autores que se prostituem e envilecem por causa das obritas paridas pelas suas cabecitas. É evidente que para este tipo de pessoas, a literatura em geral, seja ela de ficção ou de ideias, é puramente instrumental. Normalmente, o tempo, mais cedo do que tarde, acabará por remetê-los, livritos & autorecos, para a irrelevância que foi sempre a sua, por muitos topes, lançamentos e aparições na televisão que logrem. A imagem de grand seigneur com que Sócrates fantasiou -- impossível para quem, como eu, tem memória de elefante e se lembra da entrevista dos "filósofos espanhóis" -- resulta improcedente desde a confissão do pecadilho da vaidade.

O PS não podia deixar de reagir, ainda por cima com o caso Manuel Pinho a aquecer a Primavera. Fê-lo bem um apreensivo António Costa, no Canadá; pelo que li dos outros, terão ficado pior na fotografia: protestos de potencial vergonha, com 'ses' e tudo, ou se manifesta logo com os 'ses' devidos ou guarda de Conrado o prudente silêncio´, pelo menos até ao anúncio duma sentença, e não agora porque há eleições à vista. Se, à conta destas tropelias, o PS não tiver maioria absoluta e a direita continuar arredada do Poder, já valeu a pena.

O texto de Sócrates no Jornal de Notícias.

P.S. (post sciptum) - no meio disto, os vigaristas da direita continuam incólumes, dos submarinos do CDS aos próceres do cavaquismo.

domingo, agosto 28, 2016

'burquíni': viva a liberdade!

Quando leio que a decisão que anula a proibição do 'burquíni' é "pequena vitória para a liberdade das mulheres", estamos conversados. 
O júbilo (a cegueira) explica-se por essa "pequena vitória" ser vista como derrota do "imperialismo cultural europeu". Ora, não negando que existe um imperialismo cultural europeu, ocidental e até cristão (como existe um imperialismo cultural saudita, por exemplo...), a última coisa que os anti-imperialistas de sofá deveriam sancionar seria a opressão, neste caso da mulher.
As mulheres muçulmanas que arduamente durante décadas conseguiram ver-se livres da opressão nas sociedades que tiveram à proa movimentos laicos -- os países do Magrebe, o Egipto, a Síria, o Líbano, o Iraque, a Jordânia, são, para estes simplórios, vítimas desse imperialismo cultural; onde elas são mesmo livres é na Arábia Saudita, e nos países do Golfo. 
Como não se acredita que estes defensores da liberdade da mulher não saibam que não sua maioria, elas são obrigadas a cobrir-se (entre muitas outras restrições atentatórias da sua dignidade) , aqui, sim, teria cabimento a observação de Fernanda Câncio:  " Às tantas é porque não é, nunca foi e nunca será com as mulheres e a sua opressão que estamos ralados, verdade?"

sexta-feira, agosto 26, 2016

últimas do burquíni: agora eram os ciganos


Fernanda Câncio, jornalista e cronista que considero enquanto seu leitor, na crónica de hoje no Diário de Notícias, é bem o exemplo do beco sem saída em que se meteram aqueles que não tomam posição, a não ser em termos muito vagos e com coisas como esta: «Que o livre-arbítrio das mulheres vença o fundamentalismo dos homens proibicionistas e obrigacionistas»... Por detrás de frases de efeito duvidoso, o vazio absoluto dos chavões.

Mas, voltando a Câncio: agora são as mulheres ciganas, cujo lugar na família tradicional roma está longe de ser invejável, Como muitos dos que são contra o tratamento a que são sujeitos uma parte das muçulmanas na Europa, nunca manifestaram preocupação pela outras, tal significará, neste raciocínio cabriolante, que lá no fundo não deve ser bem a situação da mulher que move uns quantos. É extraordinário. Como se quem se preocupasse com os direitos cívicos dos negros americanos no fundo tivesse, consciente ou inconscientemente, outra motivação, por não reparar que ao lado existe uma reserva de índios...

Uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. Mas o que interessa é misturar, confundir. Acresce que nunca vi bandos de ciganos agressivos a meterem-se com casais namorados, por comportamento indecente, escorraçarem prostitutas das ruas, já nem por comportamento, mas porque não podem apedrejá-las, agredirem um médico que no hospital se atreve a dirigir-se e tocar numa paciente islâmica acompanhada pelo marido -- mesmo que a paciente esteja a parir, mesmo que ele seja o único médico de serviço no banco. Tudo isto e muito mais, e muito pior se passa em inúmeras cidades europeias. Mas não há uma reacção, um basta. Ou quando há, aqui del«rei que é islamófobo, ou coisa pior.

Câncio pode sugerir e insinuar que há outra coisa que não a defesa dos direitos das mulheres nesta reacção: provavelmente racismo, intolerância etc. E obviamente que também o há. Mas eu também posso admitir que a decisão do Supremo francês, entretanto tomada, suspendendo a proibição do 'burkíni', a coberto de uma esdrúxula concepção de liberdade e direitos humanos, tenha sido motivada pela prudência ou, mais cruamente, pelo medo do acirrar dos ódios, portanto pelo pavor da reacção do fundamentalismo islâmico -- como se lê tão bem, apesar dos sublinhados outros, na última frase deste post de Vital Moreira.

De cedência em cedência até ao mais do que expectável desenlace, que não será, obviamente o triunfo do islamismo em França, à Houellebecq, mas da tomada do poder pela extrema-direita, como de há muito venho dizendo -- para além das vindictas irracionais de ambos os lados, com muito sangue e sofrimento inocente, Entre a cobardia, a alucinação idiota e o racismo bestial, cristão ou muçulmano, ainda só estamos no princípio da história.