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quarta-feira, agosto 27, 2025

2 versos de Miguel Torga

«Me confesso de ser charco / E luar de charco à mistura.»

«Livro de Horas», O Outro Livro de Job (1936)

terça-feira, agosto 26, 2025

zonas de conforto

«Para pensar bem é preciso estar quieto. Talvez depois também cansasse, mas a Natureza exige certa monotonia. As árvores não podem mexer-se. E os animais só por necessidade física, de alimento ou de clima, devem sair da sua região. Acerca disto tenho ideias claras e um experiência definitiva.» Branquinho da Fonseca, O Barão (1942)

«Pára o trabalho nos campos, e o homem da terra ergue-se e endireita o espinhaço. Viu-o o jornaleiro que mora diante das Portelas; viu-o e não o conheceu; nem o velho que trazia uma sacola e como pobres que se encontram no caminho se pôs a olhar para ele, sem fala, num mudo espanto.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931)

«Os vinte e tal anos ali vividos eram muito, mas não eram tudo. Certas células do corpo pediam-lhe mais.  E, passado o momento de fraqueza, o senhor Ventura, ao mesmo tempo que tinha pena de não ficar, sentia pressa de partir.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943)

domingo, agosto 24, 2025

zonas de conforto

«Todos eles vêem uma Sombra no Pobre maravilhoso. Aparece nas eiras e olha com cólera para os homens e para os punhados de milho secos e escassos. Receiam-no e calam-se e o Pobre cala-se, também suspenso, e segue o seu caminho... / -- Tu viste-o? / -- Vi-o! / -- Como é o probe? / -- Mete medo... / -- E que te disse?» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931) 

«E todo o caminho deixou vaguear os olhos enamoradamente por aquele panorama irreal, como um árabe que fosse chamado a Meca e antes de partir quisesse beber toda a frescura e toda a água do seu oásis. Uma funda nostalgia começou a invadi-lo. E tentou reagir.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943)

«Acordar todas essas trinta manhãs no meu quarto! Ver durante trinta dias seguidos a mesma rua! Ir ao mesmo café, encontrar as mesmas pessoas!... Se soubessem como é bom! Como dá uma calma interior e como as ideias adquirem continuidade e nitidez!» Branquinho da Fonseca, O Barão (1942) 

domingo, janeiro 05, 2025

o que aconteceu

«Para tomar o comboio em Lamares, que ficava a quinze quilómetros de distância, era-lhe preciso atravessar o aberto cenário onde tinha mourejado sonhadoramente: searas espessas de trigo a ondular, sobreirais pardos de tristeza e pousios de esteva florida, babada de mel e de mormaço.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943)

«--Vi-o! / Também a senhora Emília, cada vez mais apagada e humilde, o espera com o olhar que revela um peso insuportável. / Sentada no lar, não tira os olhos de Fortunato. Vai-lhe falar? Não se atreve. Não bolem, ele negro e curvado, ela em frente com a boca sumida e as cinzas frias ao meio dos dois a separá-los. Amar não é nada. Amar na dor e na desgraça é que é a lei suprema da vida.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931)

«Não posso negar, porém, que nesse tempo eu era ambicioso -- como o reconheciam sagazmente a Madame Marques e o lépido couceiro. Não que me revolvesse o peito o apetite heróico de dirigir, do alto de um trono, vastos rebanhos humanos; não que a minha louca alma jamais aspirasse a rodar pela Baixa em trem da Companhia, seguida de um correio choutando; mas pungia-me o desejo de poder jantar no Hotel Central com champanhe, apertar a mão mimosa de viscondessas, e, pelo menos duas vezes por semana, adormecer, num êxtase mudo, sobre o seio fresco de Vénus.» Eça de Queirós, O Mandarim (1880)

sábado, outubro 12, 2024

tempo de novela

«Acodem os jornaleiros secos e ressecos, as velhas das cabanas e outros -- lá dos altos, para ouvirem o Manco. À noite, nos sítios ermos, juntam-se em bando o Ai-Jesus, o Ladrão, o Seringa, o Abelheiro e alguns tipos escalavrados, e todos eles o querem ver e ouvir.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931)

«Tinha nesse tempo vinte anos. Chegou à idade, foi às inspecções, ficou apurado, e lá vem ele para Lisboa fazer o serviço militar. / Era então um rapaz entroncado, maciço, que trocara há uns anos já o cajado de pastor pela rabiça de ganhão, no Farrobo, uma das herdades do senhor Gaudêncio. Mas, quer a apascentar ovelhas ou a lavrar terra, as léguas largas e quentes da charneca tinham-lhe entrado no sangue.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943)

«No escuro e no silêncio, luziu a alguns passos o fogo de um cigarro. / -- O comboio já passou -- disse o camarada a despropósito. / Como em resposta, por três vezes o pequeno clarão do cigarro piscou no escuro. Aproximaram-se. O vulto do fumador precisou-se melhor, aproximando-se também. / -- É este o amigo -- disse o camarada. / Não se sabia se falava deste, do fumador ou dos dois.» Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites (1975)

sábado, agosto 31, 2024

tempo de novela

«Entrelaço no desenho do seu nome quanto a imaginação me pede de distância e de perigo. Vivo nele. E, enquanto dura a memória dos seus passos, sinto-me tão verdadeiro que quase sou feliz.  // Começo sempre por vê-lo sair das berças, Penedono, no Alentejo, onde nasceu e se criou a guardar gado.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943) § «Estava uma noite baça, húmida, morna e sem vento. Depois de se esgueirarem ao longo da vedação, para lá da qual se ouviu, no silêncio, o chocar metálico de dois vagões em manobras, André e o camarada que o ia apresentar desembocaram na via. Seguiram uns cem metros e pararam atentos.» Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § «Nas tardes de feira, sentado da banda de fora do Guilhermino, ou num dos poiais de pedra, donde já tivessem erguido as belfurinhas, alegre do verdeal, descocava-se a desfiar a sua crónica perante escrivães da vila e manatas, e eu tinha a impressão de ouvir a gesta bárbara e forte dum Portugal que morreu.» Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922)

segunda-feira, agosto 19, 2024

tempo de novela

«Mas, como sou homem de impossíveis, salvo-me como posso. Encho-me da lembrança mágica do senhor Ventura, que nenhuma razão impediu de correr as sete partidas que chamam em vão por cada um de nós. Na sua figura ponho a realidade do que sou e a saudade do que podia ser.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943) § «-- E Jesus que não vem! / Já muitos o viram. É um pobre -- é um pobre de pedir --, é um fantasma. Ninguém sabe dizer como é esse vulto que desaparece na volta dos caminhos. Não traz sacola, e não passa talvez duma sombra. O seu silêncio mete medo.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931) § «Aos domingos repousava: instalava-me então no canapé da sala de jantar, de cachimbo nos dentes, e admirava a D. Augusta, que, em dias de missa, costumava limpar com clara de ovo a caspa do tenente Couceiro.» Eça de Queirós, O Mandarim (1880) 

domingo, agosto 11, 2024

tempo de novela

«Já não posso com esta mulher que passou por mim e olhou para mim -- e eu fiquei para sempre ligado à figura inexpressiva e gasta --, nem com o Cego das Uveiras, que a cegueira tornou mais alto, e que não bole, fixando o céu, como se esperasse do céu um acto extraordinário, nem com todas estas figuras escavoncadas, que passam os dias da vida monótona, repetindo os mesmos gestos, cheios de terra e em contacto permanente com a terra.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931) § «Não me resigno à ideia de ter vindo à luz neste tempo e numa terra durante séculos inquieta de descobrir e saber, depois tragicamente adormecida para tudo o que não seja olhar-se e resignar-se. Parece-me um castigo imerecido do destino e da história.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943) § «No Porto, as pessoas a quem ia recomendado garantiram de princípio nada poderem fazer. Só depois de duas enervantes semanas de espera acabaram por indicar um tal Lambaça, contrabandista, que se dizia disposto a levar André para Espanha, mediante o pagamento de mil escudos.» Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites (1975)

sexta-feira, agosto 09, 2024

tempo de novela

«Com 19 anos incompletos, André viu-se forçado a emigrar. Arranjaram-lhe dinheiro, deram-lhe um endereço para o Porto e disseram-lhe que aí se resolveria a passagem de fronteira para Espanha. As coisas não foram, porém, assim tão fáceis.» Manuel Tiago (Álvaro Cunhal), Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § «O edifício, velho e longo, muito longo e dum só piso, parecia querer mostrar que a sua Missão, justamente por ser celeste, devia agarrar-se à Terra, estender-se bem na Terra, para extrair a alma dos homens que nela viviam. Ferreira de Castro, A Missão (1954) § «Em tardes assim como as de hoje, cansado de esperar não sei por que milagre, desanimado diante do mapa do mundo que da parede me desafia desde a meninice, começo a pensar no senhor Ventura. Na sua evocação, mitigo durante algumas horas a dor que vai dando cabo de mim.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943)

terça-feira, junho 06, 2023

Fernando Pessoa

6 de Junho de 1930. Fernando Pessoa escreve a Adolfo Rocha (Miguel Torga) a propósito de Rampa: «A sua sensibilidade é de tipo igual à do José Régio -- é confundida, em si mesma, com a inteligência.» 

Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal

quarta-feira, novembro 16, 2022

José Saramago, centenário

 É um dos grandes, o Nobel fica-lhe muito bem, como ficaria a vários outros antes dele, portugueses e brasileiros.

Além de ser dos grandes é único: só Saramago é Saramago; há que escreva à Saramago, como houve quem escrevesse à Eça, por exemplo; mas o que distingue um verdadeiro escritor é o seu estilo único e reconhecível.

As minhas preferências vão para em especial para Levantado do Chão (1980), Memorial do Convento (1982) e O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). E ainda, mas menos, Ensaio sobre a Cegueira (1994) e A Viagem do Elefante (2008).

Curiosidades: Manual de Pintura e Caligrafia (1977), quando Saramago era igual a tanto outros, um suficiente + (não sou professor); Terra do Pecado (1947), juvenília promissora.

Romances falhados: A Jangada de Pedra (1986) e Ensaio sobre a Lucidez (2004), duas boas ideias, mas uma vai perdendo força e a segunda estampa-se por completo a meio da narrativa.

 Do pouco que li dos Cadernos de Lanzarote (1994-1998), salvam-se umas pepitas: muito distantes, porém, dos magníficos diários do Régio e do Torga; abaixo, inclusive, dos do Vergílio Ferreira, que não logra o nível dos primeiros. 

Do teatro, li há décadas A Noite. Guardo uma sensação agradável, mas nada de marcante; ao contrário de As Pequenas Memórias, muito conseguidas. A propósito: um dia, se tiver tempo, paciência e disponibilidade, farei o inventário dos vários paralelismos dos percursos de Ferreira de Castro e José Saramago, do nascimento à morte, há vários, e curiosos). Por falar em biografia: 

Não tenho nenhum livro de poesia dele. Recordo-me muito bem da «Fala do Velho do Restelo ao Astronauta», dos bancos da escola...

O Conto da Ilha Desconhecida (1997) não me ficou.

Saramago foi, ainda, um excelente blogger, embora não fosse ele a postar. Tenho de comprar o livro onde isso está reunido, O Caderno (2009).

Sentimentos de culpa: não ter lido ainda a História do Cerco de Lisboa (1989), O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Todos os Nomes (1997), As Intermitências da Morte (2005) e Caim (2009). Curiosidade pelos restantes, em especial Clarabóia (2011, póstumo), também do ainda jovem José Saramago, que nasceu na aldeia da Azinhaga do Ribatejo -- que conheci bem na infância -- faz hoje 100 anos.

Não recomendo a biografia de Joaquim Vieira, que se perde no gossip, em histórias de saias que não interessam a ninguém. Mas eu quero lá saber se o Saramago era femeeiro?  A vida pessoal é o que menos interessa num escritor, por muito relevante e movimentada que tenha sido, o que acontece com poucos (alguém já pensou na chatice de vida que teve, por exemplo, o Vergílio Ferreira?) Numa biografia, nada deve ser escamoteado (salvo por razões atendíveis), mas o que importa mesmo é o que o biografado fez e deixou. É por isso grande a expectativa com que vou agarrar a de Filomena Oliveira e Miguel Real.


terça-feira, outubro 19, 2021

na estante definitiva


carta de Pero Vaz de Caminha (1450-1500) é na verdade um relatório, um relato sobre o que viu e ouviu na nova terra que era já conhecida pelos portugueses antes de Pedro Álvares Cabral. Atestam-no o Tratado de Tordesilhas (1494) e a circunstância de o principal navegador desta frota ser Bartolomeu Dias, que sete anos dobrara o Cabo. A derrota para oeste serviu para oficializar a posse daquela terra que viria a chamar-se Brasil.

Há dois milagres no que respeita ao documento: um, foi o de ter chegado até nós, não ter ido ao fundo num naufrágio ou perder-se sabe-se lá onde, até ser (re)descoberto no século XVIII, no meio de papelada, sendo impresso apenas em 1817, pelo padre Manuel Aires de Casal.

O segundo milagre é o próprio Pero Vaz, a forma como escreve, reportagem pura, obedecendo à "regra dos 5 w's": what-who-when-where-how (why, se quisermos um sexteto). Fá-lo com a objectividade de um homem a terminar o século XVtalvez porque fora mestre da balança Casa da Moeda do Porto, com funções de escrivão e tesoureiro, o que exigiria qualidades de exposição prática. Talvez por isso, os editores do livro que tenho na mão, Maria Paula Caetano e Neves Águas, tenham escolhido para epígrafe da sua introdução um fragmento do Diário de Miguel Torga: «Diante da carta de Pero Vaz de Caminha até me vieram as lágrimas aos olhos.»

quarta-feira, junho 26, 2019

em bicos de pés

O tipo que passa por alguém e se cruzou com o Kissinger no check in, e vem dizer para a bloga ou para os jornais. «Certa vez, em viagem com Kissinger (...)»; ou quando alguma figura morre, um fartar de intimidades, que provavelmente nunca existiram mas que podem alardear-se à vontade sem haver grandes riscos de desmentidos ou rectificações; ou o indivíduo de antes dos voos charter para os destinos paradisíacos,  que nunca passara de Badajoz mas se referia à passeata como uma ida ao estrangeiro.
Risível, mas verdadeiro, até com gente não desprovida de valor, como o Torga, para quem, no Diário, quase não há confrade que lhe mereça duas linhas, a não ser se for defunto e ícone (trocou duas cartas com o Fernando Pessoa, que o detestou) ou ícone e estrangeiro: quando fala dos seus encontros com a Yourcenar ou o Borges -- que até aí lhe desconheciam a existência, não fora o protocolo de estado querer mostrar que também tínhamos.
Enfim, lembrei-me disto ao passar por um caramelo bem embrulhado. 

sábado, abril 27, 2019

Da vantagem de um Presidente culto

Leio deleitoso, no último JL, o discurso do Presidente da República na sessão comemorativa do centenário de Fernando Namora, no dia 15 de Abril, na sua Casa-Museu em Condeixa -- evento que desafortunadamente foi ofuscado pela tragédia do incêndio de Notre-Dame. Não sei se o discurso teve mão fantasma, nem isso é muito importante, pois reconhece-se a caneta de Marcelo naquelas palavras, que além disso foram acrescentadas por vários improvisos do orador, reza a notícia; o que me interessa relevar é mesmo uma noção assaz nítida que o PR mostra do património literário português, parcela das mais relevantes do património cultural do país, no seu todo.
A propósito de Namora e da efeméride, o Presidente referiu-se a José Rodrigues Miguéis, Ruben A., Ferreira de Castro, Miguel Torga, Carlos de Oliveira e Vergílio Ferreira -- ou seja, cerca de um terço do cânone ficional português do século passado --, a que juntou os norte-americanos John Steinbeck e Erskine Caldwell, e Óscar Lopes, como referência de autoridade.
Não é um ensaio, que seria descabido, mas um discurso de circunstância. que não deixa de ser reconfortante em face do zero das elites políticas, com as honrosas e parcas excepções. E porquê reconfortante? Por se esperar que o Presidente não seja apenas a muralha contra o populismo de que falou Ferro Rodrigues, mas também contra a barbárie instalada que não conhece, e portanto não quer saber do património cultural em sentido lato, a não ser que o mesmo lhe possa dar umas medalhinhas da Unesco para trazer à lapela (que podiam ser essas como as do Guiness, tanto faz, desde que em estrangeiro).

quarta-feira, julho 29, 2015

O que sou é um insulto / Ao que não sou
Miguel Torga

quarta-feira, setembro 04, 2013

Outros, felizes, sejam rouxinóis... / Eu ergo a voz assim, num desafio
Miguel Torga

segunda-feira, julho 31, 2006











(esq.-dir.) M. Torga, António de Sousa,
A. Duarte, P. Quintela e V. Nemésio
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