«Me confesso de ser charco / E luar de charco à mistura.»
«Livro de Horas», O Outro Livro de Job (1936)
conservador-libertário, uns dias liberal, outros reaccionário. um blogue preguiçoso desde 25 de Março de 2005
«Me confesso de ser charco / E luar de charco à mistura.»
«Livro de Horas», O Outro Livro de Job (1936)
«Para pensar bem é preciso estar quieto. Talvez depois também cansasse, mas a Natureza exige certa monotonia. As árvores não podem mexer-se. E os animais só por necessidade física, de alimento ou de clima, devem sair da sua região. Acerca disto tenho ideias claras e um experiência definitiva.» Branquinho da Fonseca, O Barão (1942)
«Pára o trabalho nos campos, e o homem da terra ergue-se e endireita o espinhaço. Viu-o o jornaleiro que mora diante das Portelas; viu-o e não o conheceu; nem o velho que trazia uma sacola e como pobres que se encontram no caminho se pôs a olhar para ele, sem fala, num mudo espanto.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931)
«Os vinte e tal anos ali vividos eram muito, mas não eram tudo. Certas células do corpo pediam-lhe mais. E, passado o momento de fraqueza, o senhor Ventura, ao mesmo tempo que tinha pena de não ficar, sentia pressa de partir.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943)
«Todos eles vêem uma Sombra no Pobre maravilhoso. Aparece nas eiras e olha com cólera para os homens e para os punhados de milho secos e escassos. Receiam-no e calam-se e o Pobre cala-se, também suspenso, e segue o seu caminho... / -- Tu viste-o? / -- Vi-o! / -- Como é o probe? / -- Mete medo... / -- E que te disse?» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931)
«E todo o caminho deixou vaguear os olhos enamoradamente por aquele panorama irreal, como um árabe que fosse chamado a Meca e antes de partir quisesse beber toda a frescura e toda a água do seu oásis. Uma funda nostalgia começou a invadi-lo. E tentou reagir.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943)
«Acordar todas essas trinta manhãs no meu quarto! Ver durante trinta dias seguidos a mesma rua! Ir ao mesmo café, encontrar as mesmas pessoas!... Se soubessem como é bom! Como dá uma calma interior e como as ideias adquirem continuidade e nitidez!» Branquinho da Fonseca, O Barão (1942)
«Para tomar o comboio em Lamares, que ficava a quinze quilómetros de distância, era-lhe preciso atravessar o aberto cenário onde tinha mourejado sonhadoramente: searas espessas de trigo a ondular, sobreirais pardos de tristeza e pousios de esteva florida, babada de mel e de mormaço.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943)
«--Vi-o! / Também a senhora Emília, cada vez mais apagada e humilde, o espera com o olhar que revela um peso insuportável. / Sentada no lar, não tira os olhos de Fortunato. Vai-lhe falar? Não se atreve. Não bolem, ele negro e curvado, ela em frente com a boca sumida e as cinzas frias ao meio dos dois a separá-los. Amar não é nada. Amar na dor e na desgraça é que é a lei suprema da vida.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931)
«Não posso negar, porém, que nesse tempo eu era ambicioso -- como o reconheciam sagazmente a Madame Marques e o lépido couceiro. Não que me revolvesse o peito o apetite heróico de dirigir, do alto de um trono, vastos rebanhos humanos; não que a minha louca alma jamais aspirasse a rodar pela Baixa em trem da Companhia, seguida de um correio choutando; mas pungia-me o desejo de poder jantar no Hotel Central com champanhe, apertar a mão mimosa de viscondessas, e, pelo menos duas vezes por semana, adormecer, num êxtase mudo, sobre o seio fresco de Vénus.» Eça de Queirós, O Mandarim (1880)
«Acodem os jornaleiros secos e ressecos, as velhas das cabanas e outros -- lá dos altos, para ouvirem o Manco. À noite, nos sítios ermos, juntam-se em bando o Ai-Jesus, o Ladrão, o Seringa, o Abelheiro e alguns tipos escalavrados, e todos eles o querem ver e ouvir.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931)
«Tinha nesse tempo vinte anos. Chegou à idade, foi às inspecções, ficou apurado, e lá vem ele para Lisboa fazer o serviço militar. / Era então um rapaz entroncado, maciço, que trocara há uns anos já o cajado de pastor pela rabiça de ganhão, no Farrobo, uma das herdades do senhor Gaudêncio. Mas, quer a apascentar ovelhas ou a lavrar terra, as léguas largas e quentes da charneca tinham-lhe entrado no sangue.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943)
«No escuro e no silêncio, luziu a alguns passos o fogo de um cigarro. / -- O comboio já passou -- disse o camarada a despropósito. / Como em resposta, por três vezes o pequeno clarão do cigarro piscou no escuro. Aproximaram-se. O vulto do fumador precisou-se melhor, aproximando-se também. / -- É este o amigo -- disse o camarada. / Não se sabia se falava deste, do fumador ou dos dois.» Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites (1975)
«Entrelaço no desenho do seu nome quanto a imaginação me pede de distância e de perigo. Vivo nele. E, enquanto dura a memória dos seus passos, sinto-me tão verdadeiro que quase sou feliz. // Começo sempre por vê-lo sair das berças, Penedono, no Alentejo, onde nasceu e se criou a guardar gado.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943) § «Estava uma noite baça, húmida, morna e sem vento. Depois de se esgueirarem ao longo da vedação, para lá da qual se ouviu, no silêncio, o chocar metálico de dois vagões em manobras, André e o camarada que o ia apresentar desembocaram na via. Seguiram uns cem metros e pararam atentos.» Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § «Nas tardes de feira, sentado da banda de fora do Guilhermino, ou num dos poiais de pedra, donde já tivessem erguido as belfurinhas, alegre do verdeal, descocava-se a desfiar a sua crónica perante escrivães da vila e manatas, e eu tinha a impressão de ouvir a gesta bárbara e forte dum Portugal que morreu.» Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922)
«Mas, como sou homem de impossíveis, salvo-me como posso. Encho-me da lembrança mágica do senhor Ventura, que nenhuma razão impediu de correr as sete partidas que chamam em vão por cada um de nós. Na sua figura ponho a realidade do que sou e a saudade do que podia ser.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943) § «-- E Jesus que não vem! / Já muitos o viram. É um pobre -- é um pobre de pedir --, é um fantasma. Ninguém sabe dizer como é esse vulto que desaparece na volta dos caminhos. Não traz sacola, e não passa talvez duma sombra. O seu silêncio mete medo.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931) § «Aos domingos repousava: instalava-me então no canapé da sala de jantar, de cachimbo nos dentes, e admirava a D. Augusta, que, em dias de missa, costumava limpar com clara de ovo a caspa do tenente Couceiro.» Eça de Queirós, O Mandarim (1880)
«Já não posso com esta mulher que passou por mim e olhou para mim -- e eu fiquei para sempre ligado à figura inexpressiva e gasta --, nem com o Cego das Uveiras, que a cegueira tornou mais alto, e que não bole, fixando o céu, como se esperasse do céu um acto extraordinário, nem com todas estas figuras escavoncadas, que passam os dias da vida monótona, repetindo os mesmos gestos, cheios de terra e em contacto permanente com a terra.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir (póst., 1931) § «Não me resigno à ideia de ter vindo à luz neste tempo e numa terra durante séculos inquieta de descobrir e saber, depois tragicamente adormecida para tudo o que não seja olhar-se e resignar-se. Parece-me um castigo imerecido do destino e da história.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943) § «No Porto, as pessoas a quem ia recomendado garantiram de princípio nada poderem fazer. Só depois de duas enervantes semanas de espera acabaram por indicar um tal Lambaça, contrabandista, que se dizia disposto a levar André para Espanha, mediante o pagamento de mil escudos.» Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites (1975)
«Com 19 anos incompletos, André viu-se forçado a emigrar. Arranjaram-lhe dinheiro, deram-lhe um endereço para o Porto e disseram-lhe que aí se resolveria a passagem de fronteira para Espanha. As coisas não foram, porém, assim tão fáceis.» Manuel Tiago (Álvaro Cunhal), Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § «O edifício, velho e longo, muito longo e dum só piso, parecia querer mostrar que a sua Missão, justamente por ser celeste, devia agarrar-se à Terra, estender-se bem na Terra, para extrair a alma dos homens que nela viviam. Ferreira de Castro, A Missão (1954) § «Em tardes assim como as de hoje, cansado de esperar não sei por que milagre, desanimado diante do mapa do mundo que da parede me desafia desde a meninice, começo a pensar no senhor Ventura. Na sua evocação, mitigo durante algumas horas a dor que vai dando cabo de mim.» Miguel Torga, O Senhor Ventura (1943)
Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal
É um dos grandes, o Nobel fica-lhe muito bem, como ficaria a vários outros antes dele, portugueses e brasileiros.
Além de ser dos grandes é único: só Saramago é Saramago; há que escreva à Saramago, como houve quem escrevesse à Eça, por exemplo; mas o que distingue um verdadeiro escritor é o seu estilo único e reconhecível.
As minhas preferências vão para em especial para Levantado do Chão (1980), Memorial do Convento (1982) e O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). E ainda, mas menos, Ensaio sobre a Cegueira (1994) e A Viagem do Elefante (2008).
Curiosidades: Manual de Pintura e Caligrafia (1977), quando Saramago era igual a tanto outros, um suficiente + (não sou professor); Terra do Pecado (1947), juvenília promissora.
Romances falhados: A Jangada de Pedra (1986) e Ensaio sobre a Lucidez (2004), duas boas ideias, mas uma vai perdendo força e a segunda estampa-se por completo a meio da narrativa.
Do pouco que li dos Cadernos de Lanzarote (1994-1998), salvam-se umas pepitas: muito distantes, porém, dos magníficos diários do Régio e do Torga; abaixo, inclusive, dos do Vergílio Ferreira, que não logra o nível dos primeiros.
Do teatro, li há décadas A Noite. Guardo uma sensação agradável, mas nada de marcante; ao contrário de As Pequenas Memórias, muito conseguidas. A propósito: um dia, se tiver tempo, paciência e disponibilidade, farei o inventário dos vários paralelismos dos percursos de Ferreira de Castro e José Saramago, do nascimento à morte, há vários, e curiosos). Por falar em biografia:
Não tenho nenhum livro de poesia dele. Recordo-me muito bem da «Fala do Velho do Restelo ao Astronauta», dos bancos da escola...
O Conto da Ilha Desconhecida (1997) não me ficou.
Saramago foi, ainda, um excelente blogger, embora não fosse ele a postar. Tenho de comprar o livro onde isso está reunido, O Caderno (2009).
Sentimentos de culpa: não ter lido ainda a História do Cerco de Lisboa (1989), O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Todos os Nomes (1997), As Intermitências da Morte (2005) e Caim (2009). Curiosidade pelos restantes, em especial Clarabóia (2011, póstumo), também do ainda jovem José Saramago, que nasceu na aldeia da Azinhaga do Ribatejo -- que conheci bem na infância -- faz hoje 100 anos.
Não recomendo a biografia de Joaquim Vieira, que se perde no gossip, em histórias de saias que não interessam a ninguém. Mas eu quero lá saber se o Saramago era femeeiro? A vida pessoal é o que menos interessa num escritor, por muito relevante e movimentada que tenha sido, o que acontece com poucos (alguém já pensou na chatice de vida que teve, por exemplo, o Vergílio Ferreira?) Numa biografia, nada deve ser escamoteado (salvo por razões atendíveis), mas o que importa mesmo é o que o biografado fez e deixou. É por isso grande a expectativa com que vou agarrar a de Filomena Oliveira e Miguel Real.
Há dois milagres no que respeita ao documento: um, foi o de ter chegado até nós, não ter ido ao fundo num naufrágio ou perder-se sabe-se lá onde, até ser (re)descoberto no século XVIII, no meio de papelada, sendo impresso apenas em 1817, pelo padre Manuel Aires de Casal.
O segundo milagre é o próprio Pero Vaz, a forma como escreve, reportagem pura, obedecendo à "regra dos 5 w's": what-who-when-where-how (why, se quisermos um sexteto). Fá-lo com a objectividade de um homem a terminar o século XV, talvez porque fora mestre da balança Casa da Moeda do Porto, com funções de escrivão e tesoureiro, o que exigiria qualidades de exposição prática. Talvez por isso, os editores do livro que tenho na mão, Maria Paula Caetano e Neves Águas, tenham escolhido para epígrafe da sua introdução um fragmento do Diário de Miguel Torga: «Diante da carta de Pero Vaz de Caminha até me vieram as lágrimas aos olhos.»
Segue-se a norma adoptada em Angola e Moçambique, que é a da ortografia decente.