«Diariamente, ano após ano, século após século, essa muralha, mal o sol se firma, envia a sua sombra para o terreiro, arrastando uma outra, a da igreja.» José Cardoso Pires, O Delfim (1968) / «Era em Setembro, e a casa, temporariamente habitada expulsava o seu carácter de abandono e de ruína, com aquele calor de vozes e de passos que amarrotam folhelhos amontoados em todos os sobrados.» Agustina Bessa Luís, A Sibila (1954) / «Matara-o uma égua de pêlo-rato, desenfreada, ao atirar com ele de encontro a uma oliveira, na fúria dum galope.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961)
segunda-feira, novembro 20, 2023
quarta-feira, maio 24, 2023
caracteres móveis
«Um dos seus prazeres consistia em analisar-se como o conteúdo de todo um passado, elemento onde reviviam as cavalgadas das gerações, onde a contradança das afinidades vibrava uma vez mais, aptidões, gostos, formas que, como um recado, se transmitem, se perdem, se desencontram, surgem de novo, idênticos à versão de outrora.» Agustina Bessa Luís, A Sibila (1954) - «Arcara com horas terríveis e amargas, bebera muitas lágrimas, sem deixar verter uma só, desde o dia em que o pai entrara ao portão da quinta, pronto a morrer, às costas do Manel Fandango, sem queixa que se lhe ouvisse do corpo esfrangalhado.» Alves Redol, Barranco de Cegos (1961) - «Um largo, aquilo a que verdadeiramente se chama largo, terra batida, tem de ser calcado por alguma coisa, pés humanos, trânsito, o que for, ao passo que este aqui, salvo nas horas da missa, é percorrido unicamente pelo espectro do enorme paredão de granito que se levanta nas traseiras da sacristia.» José Cardoso Pires, O Delfim (1968)
quarta-feira, janeiro 18, 2023
à deriva, povo e país - caracteres móveis
«Alguns, no entanto, adoçando o mando do capitão, ou subtraindo-se à vigilância dos seus homens, não conseguiram acoitar-se no veleiro, remoçando os sonhos, na secreta convicção de que aportariam a São Vicente, onde a caridade havia de acolhê-los.» Manuel Ferreira, Hora di Bai (1962)
«Pormenor importante: enfrento a janela de guilhotina que dá para o único café da povoação, do outro lado da rua, e, mais para diante, vejo o largo, a estrada de asfalto e um horizonte de pinhais dominado por uma coroa de nuvens: a lagoa.» José Cardoso Pires, O Delfim (1968)
«Vestiam os seus trinta e quatro anos feitos e vividos sempre ali, entre a agressividade dos elementos, um casaco e colete velhos, enodoados, a camisa sem gravata.» Ferreira de Castro, Terra Fria (1934)
quinta-feira, janeiro 12, 2023
"da face do verde oceano" e outros caracteres móveis
«Das outras vezes que a Madeira lhe surgira da face verde do oceano, todo ele era alvoroço perante os cenários da meninice já longínqua.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)
«Já foram gente, é o que lembra vê-los assim impressos, em grão de cinza.» José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães (1982)
«Os automobilistas, impacientes, com o pé no pedal da embraiagem, mantinham em tensão os carros, avançando, recuando, como cavalos nervosos que sentissem vir no ar a chibata.» José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira (1995)
arte de começar
«----------------- um dos quais, cão de fora e jamais identificado, foi aquele que chamou a atenção dum pescador local e o levou à descoberta do cadáver. Este cão parece que tinha sobrancelhas amarelas, que é coisa de rafeiro lusitano. Provavelmente andava à divina pela costa e como tal deve ter pernoitado na zona dos banhistas que nesta época do ano se resume a algumas armações de ferro e pavilhões a hibernar. Pelo terreno encontravam-se restos de férias, farrapos de jornais soterrados no areal, um sapato naufragado, embalagens perdidas; a bóia de socorros a náufragos sempre à vista, dia a enoite; refugos de marés vivas; o conhecido cartaz PORTUGAL, Europe's Best Kept Secret, FLY TAP crucificado num poste solitário. Foi neste verão fantasma que o cachorro em viagem se veio acolher.» José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães (1982)
segunda-feira, novembro 28, 2022
caracteres móveis
«A cauda ergueu-se num ápice, formando volta que nem cano de guarda-chuva; a cabeça levantou-se também e nela luziram os olhitos até aí amortecidos.» Ferreira de Castro, A Lã e a Neve (1947)
«Cansado da mesquinhez das terras arrendadas, o pai trabalhava agora na mina de volfrâmio dos ingleses como carpinteiro-escorador.» José Marmelo e Silva, Adolescente Agrilhoado (1948)
«Coice do morto, assim chamado, porque vem em pantufa de fantasma, ninguém espera, ninguém vê, e dá em cheio no vivente desprevenido que é para o caso o bom Elias.» José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães (1982)
sábado, novembro 26, 2022
caracteres móveis
«Como centro do mundo, Vila Velha era um lugar relativamente abrigado das contingências e caprichos da História.» Álvaro Guerra, Café República (1983)
«De súbito o chefe apitava, a locomotiva respondia, os carregadores batiam uma continência marcial e o comboio arrancava, inclinava-se a fazer a curva, desaparecia entre os taludes.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«A labareda gigante da siderurgia lá longe na Outra Banda e ali à mão rolas a arrolhar de papo em beirais pombalinos e gatos narcisos a lamberem-se ao sol.» José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães (1982)
sexta-feira, novembro 25, 2022
caracteres móveis
«Elias, com lume brando e desencanto que baste, aquece o leite da manhã.» José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães (1982)
«Como dizia D. António Lencastre, o nobre lavrador da Quinta das Toupeiras, quando do alto da milorde parada à porta do café, ao sábado à tarde, debitava pródigas e audazes verdades, republicanos, em Vila Velha, havia três, um barbeiro, um judeu e um estafeta, quando muito quatro, contando com o Praga de Mãe, "que nem é homem nem mulher".» Álvaro Guerra, Café Central (1983)
«Da linha do comboio de via estreita, abandonada, ficaram os carris a marcar a presença, e um ou outro poste, donde pendem os fios do telégrafo.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
quinta-feira, novembro 24, 2022
caracteres móveis
«Aqui e além bocados de vinha, casebres perdidos, rochedos cobertos de musgo, aldeias tão longínquas que são apenas manchas brancas na paisagem.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«Cozinha, pia de pedra e janela para as traseiras onde há varandas com pombais e roupa estendida a secar; vasos e caixotes de flores nas janelas, ervas selvagens a crescerem nos telhados por onde passeia a rataria, antenas de televisão.» José Cardoso Pires, Balada da Paia dos Cães (1982)
«Embora se conhecessem os seus dedicados serviços à monarquia apeada em 1910, ninguém contestava a autodefinição que ele apregoava, depois do advento da República: "Nem monárquico, nem republicano -- homem de bem ao serviço da coisa pública."» Álvaro Guerra, Café República (1984)
quarta-feira, novembro 23, 2022
caracteres móveis
«Muito seu continua o jeito de como ao falar cerra os olhos em duas fendas chinesas, antes risonhas, agora insondáveis.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«O primeiro grande massacre do século ia começar mas, em Vila Velha e em muitos outros lugares, ninguém sabia de nada.» Álvaro Guerra, Café República (1984)
«Viu no fundo duma cova uma conspiração de cães à volta do cadáver dum homem; alguns saltaram para o lado assim que ele apareceu mas logo retomaram a presa; outros nem isso, estavam tão apostados na sua tarefa que se abocanhavam entre eles por cima do corpo do morto.» José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães (1982)
quarta-feira, junho 23, 2021
JornaL
Perdão? Os presos políticos catalães aproveitam-no mas desprezam o indulto. Perdoar o quê? A reacção contra a ocupação forçada de um país por outro, sem direito à autodeterminação? Um perdão que não convence ninguém e serve para nada. A não ser que existam negociações secretas.
Hungria. Passa-se alguma coisa? Proibir propaganda, activismo, o que lhe queiram chamar, lgbt direccionado a menores é algum atentado ao que quer que seja? Pois não é, mas sim defesa da autodeterminação individual de crianças e jovens, como Putin faz na Rússia, e bem. Há, no entanto, um acinte que não deve ser passado em claro. Falar de pedofilia a propósito deste assunto é não apenas insultuoso como gratuitamente provocatório, portanto estúpido.
Entretanto em Itália. Por falar em estúpidos, parece que um projecto-lei quer obrigar as escolas católicas a celebrar o dia do orgulho gay, ou lá o que é. A Igreja já reagiu. Salvini a caminho do poder, por estas e outras. Bravo.
Vacina. Tomei a segunda dose, hoje em Alcabideche, ao mesmo tempo que as notícias diziam que não há vacinas disponíveis, os internamentos sobem, as pessoas atarantam.
Servilismo. O ridículo Stoltenberg a atirar-se à China, às ordens do dono e a ter de engolir a cimeira de Genebra. São lacaios destes que privam os europeus do acesso a vacinas que salvam vidas.
Cães. De acordo com o PAN, por uma vez: ter cães à trela durante horas (dias? meses?...) ou fechados em varandas é uma selvajaria. Não podem ter cães? Arranjem canários.
Livros que me apetecem. Escravidão, de Laurentino Gomes (Porto Editora). Integrado Marginal -- Biografia de José Cardoso Pires, de Bruno Vieira Amaral (Contraponto); Lena, de Pierre Christin & André Juillard (Arte de Autor). O Trigo e o Joio, de Fernando Namora (Caminho). Resistir ao Tempo -- Antologia de Poesia Catalã, por Alex Terradellas, Rita Custódio e Sion Serra Lopes. Uma Teoria da Democracia Complexa, de Daniel Innerarity (Ideias de Ler).